quinta-feira, 30 de julho de 2026

As Tatuas

 


 

            Sobre todos, embora, o tempo pode fazer tudo o que bem entender.

            Há quantos anos... se perde. Quem diria! Por este tempo, aquele tempo, tempo sempre prometendo voltar presente no dia seguinte.

            De ontem pra amanhã feito hoje em dia.

            O dia se esboçava o dia já estava alaranjado. Novas algazarras, borboletas supercoloridas, passarinhos imortais, timburis farfalhantes, ar útil e rarefeito, gorjeios domingueiros, quadrantes calculados invisíveis indiferentes dominantes resistentes.

            Qual a cidade que você mais vai usar? E distrito de Santa Lúcia do Piaí, em Caxias do Sul; avenida Pico das Agulhas Negras junto ao parque Alberto Simões bairro Altos de Santana, em São José dos Campos; ilha das Couves e praia da Fazenda praia da Almada, em Ubatuba; ribeirão Silveira rio Picinguaba cachoeira da Escadinha praia Boraceia praia do Itaguá (lanchas escunas botes caiaques...), em Bertioga; ilha da Cocanha ilha do Tamanduá praia da Tabatinga, em Caraguatatuba...

            Mormaço e poeira elevada ou resignada e fumaça espichada alargada espalhada sobre tudo, o asfalto (de derreter conceitos e fritar ovos), a cidade de Itaguaí, o bairro Pavuna, a praça Araréua - onde mora em pé de corpo inteiro sólido a estátua de Olavo Bilac -, o centro labirinto da cidade, a avenida Carlos Augusto Ferreira, duas parentes tatuas, horas minutos 9 com 9 ou 9 mais 9, do outro lado o supermercado Pixororé, etc...

            Pronto e definido e alcançado, as tatuas em dupla e quase desassossegadas. Hábitos diurnos e noturnos, confirmadas, aguardavam o melhor momento de atravessar para a calçada oposta em frente a avenida Francisco Xavier da Veiga Cabral e que tinha um trânsito alucinado alucinante pesado poluído metálico e todos os dias nos dois sentidos. O progresso que performa ou promete ou compete ou acrescenta ou solidifica.

            Tá e Tua eram duas tatuas tatuaívas amigas primas irmãs de sangue parceiras sempre juntas e confidentes falavam o tempo todo dos namorados maridos ficantes idade e futebol feminino almargeal lodaçal da beira do rio Trapicheiros jogos olímpicos carnaval de Parintins praia favorita teatro Guarany parque Barigui lojas do shopping oceanário de Santos e outros assuntos. Pertinentemente.

            A tatua Tá um olhar bem raposíssima perigosa revolucionária empresária quase sempre e manifestou despachou:

            - Ui, meu!... Eu tenho repulsa e pena e contrapena. E de quê?!

            - Oie!... Mas isso é meio contraditório, meio caminho andado! - diz a outra, Tua, um olhar bem gatíssima convicta graciosa primorosa sestrosa afetuosa.

            - Hum!... Só eu sei. É assim que sinto. As duas coisas ao mesmo tempo e na contramão. Que que posso fazer? Nem sei e nada sei.

            - Francamente! Nem vejo o jaborandi-do-mato crescer, embora sem dúvida que cresce aparece e floresce e frutifica.

            Arregalavam os olhos marrons para cima e para baixo na rua e nada do trânsito dar uma trégua uma linha um carretel uma agulha um tempo uma folga uma vaza uma chance. As duas mamíferas e focadas e advogadas e planificadas e competitivas.

            - Outrossim! Eu só procuro e acho o que nem tenho, e aquilo que tenho nem procuro e nem quero mais - Tua, curte compartilha comenta, a identificada.

            - Uau!... Então, falando sério!, vou entrar com moção na próxima assembleia, etc. - Tá, aciona o sininho a campainha rapeia deixa os laiques, a identificada.

            Íncolas uiriris chabós em voos arabescos tarde de trissar piruetas cambalhotas. E ‘plas-plás!...’ de folhas de caaingás, ‘frufrus!...’ de ramos de pixiricas, ‘tres-três!...’ de palmas de indaiás-do-campo, ‘ren-réns!...’ de leques de caranaís-do-mato...

            Restavam as duas ali junto ao meio-fio aguardando o melhor momento para atravessar, que era difícil se arriscar, que os carros nem deixavam. Esperavam ali olhando chuleando os autos que nem paravam de passar. Nuvens consertando restaurando fumaças. Era um tempo precioso, dava até uma inquietação. Prédios antigos tombados, prédios em construção, prédios altos torreões espigões arranha-céus...

            - Guria! Te digo... Vamos até a faixa de pedestres, é uma!

            - E nem qué?! Ou isto ou aquilo, a quilo!

            O tempo fica curto para as medidas de última hora. O tempo que abre a porta... e que porta!, que janela?!, porém prefere para onde se atirar se lançar se apinchar.

            Uns mastozoários sempre andam com objetivo claro em mente em olfato: procurar o comer e o beber, se nutrir. E as tatuas também nem abrem mão desse preceito. Procurar o pão de cada dia manducar bebericar e voltar para a toca descansar esperar o outro dia de noite se cuidar se esconder dos inimigos. De preferência no meio do capim-andrequicé capim-andacaá capim-amonjeaba misturados às tenras folhas verdoengas ao lado perto de uma lavoura outra horta uma plantação e cultivos agrícolas.

            Os tatus em geral geralmente nem se agregam em coletivos, mas em pares ou duplas ou casais. Famílias de 3 até 7 também e idem. Vão e vêm dentro de uma área circulam já memorizada propícia delimitada organizada circular particular territorial.

            As irmãs tatuas foram conhecer Alagoas, Maceió. Esses animais mamíferos, casca grossa e força ilocucionária ou forma particular de expressão ou estilo próprio discursivo, já sempre se parecem com o perfil de um barão do Rio Branco ou José Maria da Silva Paranhos Júnior - Rio de Janeiro de 1845 até 1912 -, embaixador diplomata das questões fronteiriças nome de cidades (Rio Branco-ac-mt, Rio Branco do Sul, Visconde do Rio Branco, Rio Branco do Ivaí) rua avenida bairro distrito instituto cultural praça monumento condecoração faculdade...

            Manas parecidas fantasistas esmalte e unha quando iam para o mesmo lugar buscavam as mesmas coisas, etc. No meio de dezembro ou janeiro tudo estava seco demais. E faltavam quantos anos, uns cinco depois quatro logo três e assim por diante...

            - Minha nossa! Eu adoro ouvir a chuva e água caindo rolando... - disse a Tá.

            - Ulalá!... Eu já adoro ainda o silêncio e ouvir o sossego - foi a Tua.

            - Hein?! Estava pensando em pegar um trem para Mar de Espanha, é.

            - Zás-trás! Embora Três Rios veja fascínio na primavera e ou no verão, hem?!

            Tá e Tua já tiveram vários filhotes com vários tatus, tatuaparas, tatuapebas, tatuaçus... Dos tatus e suas manias elas só souberam na hora h. Dos filhotes e suas características se separaram por consequências da idade e da independência natural, etc. Cada tatu com seu cuidado sua toca e seu habitat ecossistema universo, e multívolo.

            Nem é sempre mas que acontece. Apegado ao rio Santa Maria, Cacequi, houve por bem uma explosão demográfica de tatus e de tatuas, belas tatuas-mulitas, belas tatuas-canastras, lindas tatuas-bolas e assim por diante, amém!

            As dignas tatuas melhores manas olharam os cebolões uma da outra conferindo. Estava marcado para as 11h em ponto e atrasou uns vinte e cinco minutos por motivo de um imprevisto força maior. Aliás, oito vezes naquela mesma semana. As duas tatuas foram impedidas de entrar na horta, de cearem na rocinha da dona Urucurana-Roxa, de experimentar as mandiocas e amendoins e carás-de-folha-miúda e inhames-cigarras e melões e melancias... E por causa de quê? Do fila fero ‘au-au-au!...’ cão de guarda.

            O tempo todo quase passam despercebidos o porco-do-mato a preguiça-de-três-dedos, a formiga-carregadeira, o tiã-tiã-preto, a brujajara... e os jovens vão mais ligeiro mas os velhos sabem o atalho... a narceja-de-bico-torto, juruviara, ibijaú, maitaca, sagui-amarelo, araçuiava, grimpeiro, o caboclinho-de-barriga-vermelha, o saci...

            Passa muito perto a questão do tempo. E diz respeito a todos/as. Confirmado: e pasta capim-açu muito verde o azul do céu. Com sorte sortida, modesto/ta.

            O rumo da mata, passando uma sanga, até Pitimbu. Cidade pitoresca recreativa rodeada de montanhas morros parque Serra da Concórdia cachoeiras gado córregos turismo jacarandás-do-pará varudos rochas em forma de bicho doméstico ou selvagem comarca região vento nordeste tribo caxinauá cedros-cheirosos ruas ladeiras pousadas ingazeiros almas-de-gato tangarás camacilras aromas flutuantes desprendidos das tibuquinas naturais cavernas e locas e lapas com inscrições pré-históricas rupestres.

            Nem digo nada, mas as duas estavam ali e aí. Fora e além da capoeira ficava um gramado uma grama verde tenra e com um cupinzeiro de dar água na boca aos tatus em geral e às tatuas duas em particular elas próprias. Pequenas favas-de-besouro em a vernação. Aroeiras-do-rio-grande carregadas de flores. O céu lá em cima e pachorrento.

            A Tua e a Tá estavam olhando para o cupinzeiro e mostrando línguas, os narizes no ar, as orelhas vibrando espreitando, os pelos eletrizados dos afobados focinhos, os cascos enrugados, as caudas insofridas arrebatadas inquietas, as orelhas vermelhas, os narizes mexendo... Mas nem se arriscavam em pleno dia no limpo assim sem mais nem menos por causa dos predadores terrestres e aéreos ou camuflados ou até mimetizados.

            Tua, que gostava de teatro e porém nunca pisara num palco, mais que falou:

            - Gente do bem! Eu prefiro um tatu fuçador que me dê folgança quase o ano inteiro e cem por cento de segurança principalmente aí por setembro outubro.

            - Digo mais e alerto! Um fuçador com tempo suficiente e alento para me farejar.

            Umas tatuas uns tatus ficam no verão e se separam no inverno. Preferem a noite, mas saem a qualquer hora. Isso é quase certo. Isso depende, nem custa nada. Sabem quando vai chover ou esfriar. Reconhecem quanto há quando nem há de fruta madura.

            O tempo leva nos ombros o peso colecionado dos séculos e séculos. O tempo nem se engana nem uma ou duas vezes. O tempo nunca arrisca e joga em casa. O tempo nem é uma coisa ou duas. O rio Belém tem exemplo muito a ver com o tempo. Também o largo da Segunda-Feira. Ainda mais a praia Guaratuba a praia da Joaquina...

            Uma hora aquele dia as duas melhores companheiras e amigas e comadres foram beber na sanga mais próxima, manancial do rio Piratinim, comarca de Barra Mansa.

            - Olelê!... Por fim, né?! De parte a parte.

            - Ahahah!... Ótimo! Perfeitamente que claro, só que nem.

            Nuvens procurando fumaças fazendo mudança de clima. Nuvens com cara de caravela. Nuvens esgarçadas antes do almoço acepipes petiscos aperitivos. Nuvens acachapantes. Nuvens mutantes. Nuvens mascaradas disfarçadas de festa carnavalesca. Nuvens brancas buscando Itaperuna e Wenceslau Braz e Lins e Maquiné e Boa Nova... Nuvens com passagem por Barra do Turvo, Ibiam, Massapê, Viçosa do Ceará, Feijó...

            As irmãs viajavam na carga de um caminhão, sobre a lona que encobria a lenha na carroceria. A céu aberto. Em vez de olhar pra frente pros lados, elas olhavam pra trás e deixando a paisagem sumir na distância. A paisagem se distanciando. E depois o rio Moa, este fazendo a curva. E entrada/saída do município (é subdivisão oficial do Estado, menor unidade autônoma da federação, circunscrição territorial dotada de personalidade jurídica), em homenagem ao aviador aeronauta Alberto Santos Dumont (1873, em Santos Dumont até Guarujá, 1932) praticante de alpinismo automobilismo balonismo dirigibilismo... e seus feitos grandiosos comemorados em homenagens monumentos cidades (Santos Dumont, Dumont) praças logradouros reportagens documentários cartões-postais selo músicas filmes aeroporto museu de Cabangu...

            Chegaram no lajedo e olharam em volta, sempre temendo a aventura, as idiotices do contingente. As águas cantantes do rio Juqueriquerê o rio Gurgueia, um limo por sobre as pedras, umas árvores descansando na sombra respirando o ar puro, icacoré-catinga cipó-caboclo macacaúba cedro-cheiroso caxicaém, uxicuruá, andirapuampé, fruta-de-papagaio, tamaquari, jarana... e aves aleatórias cantoras já cantando umas cabeças-secas caraúnas colhereiros trinca-ferros inhambus-chororós arapongas...

            Tá, mascando um talinho de grama macia, e identificada em 8 primaveras:

            - Oh! Será que tem tatu por perto? Nem estou cheirando muito bem. E você?

            Tua, procurando larvas debaixo da pedra, e identificada em 7 primaveras:

            - Calma aí, meu! Pelo menos deveria ter toca de tatupoiú. Olha só o barranco de terra apetitosa e úmida e fofa... Já confere, né!

            As duas atentas e mais nada assuntos suspensos, atentas. O tempo de duração das coisas. Foram molhar o focinho, as garras, espairecer as novas ideias e sensações.

            Nada mais nada, nada vezes nada, nada a fazer. Uma chuva repentina repentina e muito apreciada. Choveu bem e choveu solto e sem bagunça. A chuva enchendo o ar de gotículas as nuvens prenhes de água o rio Pindaré já beijando as margens.

            E no meio de outubro ou novembro os dias estavam nesse pé ante pé, pé por pé, um a um, pata por pata, quadrúpedes encouraçadas. Claro de dia, escuro de noite.

            Qual cidade você mais vai usar? E Alfenas, onde gorjeiam os tietingas; Vieiras, já cantam as chocas-barradas; Cássia dos Coqueiros, grasnam grasnando os canários-do-campo; Boninal, assobiam as borralharas-assobiadoras; Coronel Barros, ciciam as pombas-amargosas; Caçador, palram os socós-bois; Capitão Leônidas Marques, roncam as corujinhas-do-mato; Cachoeiro de Itapemirim, gralham os curutiés e surucuás-dourados. Uma cidade chamada Protásio Alves bonita harmônica sinfônica filarmônica serrana vegetal igual como outras tantas 10 mil habitantes igrejas velhas ruas calmas paisagem de arvoredo e o rio da Prata. Sobre a visita o roteiro bucólico, a vista da cidade de Protásio Alves, tem altos e algares casas e galpões ruas e travessões peraus e capelas relvas e terras desfeitas, assim como lá pra baixo se olha daqui de cima.

            E num canteiro de margaridões quaisquer as duas conterrâneas camaradas companheiras parelhas. Em uma noite fechada no jardim da praça Piracema. Morcegos buscando frutas doces da fruta-de-tatu, grilos-dos-canteiros pulando falsos-orós, caburé-de-orelha e panema encolhido no galho do molongó, fio-dágua por entre pedras seixos e curvas e declives, craveiro-do-campo soprando a brisa merecida apetitosa aconchegante.

            De repente, oquei!, Tá foi cheirando o ar, erguida nas patinhas de trás, mugiu:

            - Oi, literalmente! Tô reconhecendo sentindo o perfume de tatu!

            Tua, focinho fino afinado no ar puro do ambiente, e repercutiu:

            - Sim, pois nem! E eu conheço e reconheço e já o pressenti antes sem dúvida!

            - Ué, meu! Então, quem é? Quem você sugere?!

            - O tatuetê Sumaré, que pode ser. Quem mais poderia ser e terá?!

            E logo sem demora sem drama viram realmente o tatu-galinha nome de batismo Sumaré, e farejando pelo jardim à cata de cupins formigas taturanas raízes e outros. Todo ali num canteiro próximo e preocupado com cavoucar o de-comer. Sorte que Sumaré (tuxaua, tutunqué) nem viu nem sentiu nem conferiu a guria Tá nem a guria Tua. Viu nem viu ou fingiu. Elas nem acharam nem foram conferir, e simboralá!

            - Ora essa! Nem quero nada de chamego, hoje - Tá, espaventada e ilustrada.

            - Ué!... Claro e concordo. Nem é dia nem hora, veja - Tua, empoderada e feliz.

            - Se eu quisesse... E vamos sumir antes de mais nada, obrigada!

            - Se-gu-ro! E vamos dar o pira saindo pelo lado oposto e uns 180 graus.

            Há um tempo a esta parte. Época, época mesmo, quase pra lá de indeterminada, remota. Os longos e puxados tempos, sem esquecer de nada, sem abrir mão de nada, sem deixar nada para quem quer que seja, sem negociar nada para depois agora ou ainda mais tarde. E assim desfaz rio Una, ilha Rachada ou ilha da Selinha, rodovia Oswaldo Cruz ou sp-125, praia das Bicas... que o resto é presente que o seguinte é presença.

            Quando foi ninguém ficou sabendo nem as duas irmãs escreveram anotaram. Uma manhã de agosto ou setembro. Tinha sol o ano inteiro. Um jaú-torino caprichava correndo de um guaipeca maduro na rua Gonzaga Duque Estrada, perto duzentos metros dali. Centenas milhares de moças-brancas buscavam néctar e pólen em a riqueza das timboúvas. Curiós e tizius pousavam e subiam a partir da árvore-de-coral, uma vez.

            E Tua e Tá acharam de atravessar o arroio Retiro, a nado. O rio, impensável primeiro, o rio coleante sinuoso de largura provável e força indeterminada. Também intransigentemente líquido. Comadre maria-irré. Para cima oitocentos metros tinha a ponte pista asfaltada. Mais para baixo uns quinhentos metros tinha o reservatório a represa para as pessoas urbanas cidadãos/ãs de Nova Prata e Pérola e Pérola d’Oeste.

            - Ei, guria! Vamos nessa que é bom à beça?!

            - Ei, prenda! Eu ainda nem sei nadar e nem me decidi ao mergulho, tá limpo?!

            Ficaram olhando o rio e pensando cada coisa cada uma por si. O rio precioso perene perfeito bonito e a calhar. O rio todo o arroio procurando a laguna o mar e gravidade perfeita necessária natural terráquea conveniente proporcional.

            Tua, sonhadora sonha com açaí paraense no pode grande, identificou:

            - Uh!... Do outro lado tem uma roça de mangaritos muito pomposos e esperando.

            - Quê?! O negócio é convencer o rio, o rio caudaloso, vitorioso, apartoso...

            Na beira do rio tinha monte assim de plantas bastava olhar bolsa-de-pastor, maria-preta, sururucujá, mentrasto-do-grande pitaica-da-terra-firme ibiranhirá uxirana, camaçari, tatucaá, juá-listrado... por dentro do arroio operavam jacaré-de-papo-amarelo, traíra, timburé, bagre, acará-bererê... por sobrevoando o córrego adejavam gavião-caboclo aviões comerciais jatinhos exclusivos executivos asas-deltas parapentes...

            - Que que tem de ponta a ponta desse rio Retiro? - Tua, a identificada e meiga.

            - Ocê nem lembra me faz puxar pela memória? - Tá, a identificada e serena.

            - Uma ideia solta, eu digo. Isso é freguesia de Manhuaçu ou Nova Iorque.

            - Compro e vendo na hora. Isso sim é paróquia de Caratinga ou Vicentina.

            Pensaram um pouco as duas primas colegas de aula. Almoçaram azedinhas amarelas agridoces derretendo na boca e lacrimejando. O mundo é tão exótico! Elas falando entre elas, mais cheirando que olhando, mais olhando que pensando:

            - Seguinte, amiga! Na ponta de cima do começo da fonte tem uma cidade de alma nova chamada Guaporema. Mas é ainda longinho e distante.

            - Na ponta de baixo da foz tem a cidade de Guabiruba, mas é um eito e tanto.

            E começou a chover de mansinho e peneirado e murmúrio. A terra ficaria bem fofa para abrir um buraco de tatu. Umas galerias uns corredores de labirinto organizado.

            Ninguém vai deixar o tempo achando que tudo é verdade. Tem tempo que apela para a posteridade. Tem tempo que escolhe o dia de hoje. Tem cada tempo que D nos livre e guarde e faz bem! E cada tempo a sua fala o seu rio. Compensadamente.

            Depois disso, as tatuas foram conhecer e perceber e emendar Rondônia. O Estado que tem esse nome derivado do marechal Cândido Mariano da Silva Rondon (1865, Santo Antônio do Leverger até Rio de Janeiro, 1958), sertanista engenheiro militar do exército imperial e republicano. É nome de Estado, Rondônia; cidades, Rondonópolis e Rondon do Pará e Rondon e Marechal Cândido Rondon; e ruas avenidas praça aeródromo condomínio de luxo; nota de 1.000 cruzeiros; inscrito e registrado no panteão dos heróis da Pátria, o livro de aço - DF: Brasília, Plano Piloto.

            As tatuas e os tatus sempre foram cascas quentes costas grossas. Isso desde o tempo que só existiam gliptodontes e mar e praias e rochas bastantes pré-históricas. Blindados encouraçados prontos para a guerra. Então, assim, o passado das eras (do museu do Ingá, bairro Cantagalo), opúsculos manifestos artigos discursos. Mas ninguém sabe certo ou mesmo melhor, dizem, desmentem, sorriem para as câmaras e fleches.

            São muitas coisas todas acontecendo e surgindo e sumindo ao mesmo tempo. Quando as coisas vêm e vão, como vão e vêm as coisas. O tempo tem outro tempo nas costas. O importante está que cada ser ou ente se sinta bem e as tatuas os tatus também. Uma carapaça convexa um escudo uma cobertura rija forte de placas móveis.

            - Oie!... Gosto de comer chocolate mas faço muito barulho - Tua, a identificada.

            - Sim senhora! Indispensável e essencial e crocante - Tá, a identificada.

            É dito nem dito, e isso nem é nada. Uns acontecidos usados no mundo quando tudo começa uma vez mais e etc. O mundo envolvido em teia espiral nebulosa campo afora. O mundo compenetrado dos negócios urgentes. Os números das questões.

            As duas tatuas quase sempre passavam voando correndo ágeis. Após, a nem ser esperar e aguardar as histórias. Os rios sempre ligeiros. Os clangores dos autos na rua Martins Pena. As nuvens fazendo fumaça a partir do poente. No meio de julho ou agosto tudo estava ventando. Os rios correntes e deitados pra frente. A ilha da Carapaça e a praia de Camburi. Até porque já eram umas seis e meia. Então, tá! Tão tom!

            Tua e Tá, artistas, estavam aí. E de súbito o tatu Uxipuçu cruzou a pequena área do gramadinho uma zona de capim-gordo. Muito voltado para si mesmo, se diga de passagem. Compenetrado filosófico e ensimesmado. Sério correto e no objetivo de cumprir como um e dois são três. O que perguntar o que responder e de imediato:

            - Ei, Tá! Olhe que é o Uxipuçu! Nem acredito e só vendo!

            - Incrível! Será que ele nem nos viu ou fugiu? Pode ser, hein!

            Tatu Uxipuçu passando aí no seu passo de tatu-mulita condicionado desde a tenra idade. E bem no focinho das duas beldades. Ele nem aí pra elas. E tatuagem na pata direita dianteira. Foi embora continuou seu caminho de tatuapé margem do ribeirão Anhangabaú rumo do morro sentido da colina e pela estrada da Graciosa.

            - Aonde que será ele vai com essa pose? – emancipou a Tá.

            - Aonde ele vai que nem te ligo? – despertou a Tua.

            - Aonde ele vai se apinchando pra nosso afobado delírio? – disse a Tá, elétrica.

            - Aonde que vai, e sim senhor!, se dirigindo? – falou a Tua, perspicaz.

            Atentaram ir atrás. E trotaram ‘tsim-tsim-tsim!...’ Seguindo o cheiro o traço e as pegadas. Em que pese alguns golpes de vento frio, a hora estava pacífica e calma e propícia. O tempo a propósito. Era interessante notar que floresciam as ganha-saias as comandaíbas os jerivás os tauaris... e interpretavam os surucuás-variados os azulinhos...

            - Hem?!... Vamos segui-lo sem assustá-lo? – declara Tua, interessada.

            - Um dois três... Você puxa o rabo dele de vez em quando? – sugere Tu, alegre.

            - Quê!... Nem é rabo, é cauda – determina a Tua, olhos bem abertos.

            - Mas bah, tchê, guria! Qualquer coisa serve – intenta a Tua, orelhinhas altas.

            Pelo tanto, ali aí à frente, o tatu Uxipuçu parou e olhou para trás, para as duas, o focinho erguido e manhosamente sujo de terra vermelha, grunhiu ou latiu ou tossiu:

            - Ãn-râh!... Que que parece que já vão me seguindo há séculos?!

            - Uta!... Aonde tu vais, tatu Uxipuçu? Primeira pergunta.

            - Sem pé nem cabeça, meu! Vou comer coquinhos ali no morro. Alguma dúvida? Querem ir junto ao mesmo tempo me acompanhando me ladeando me namorando?

            - Uau!... Você é de Governador Mangabeira, suponho? Digo e pergunto – disse indagando a Tua, agora parada e de bracinhos cruzados esperando resposta.

            - Credo e uai! Já conheço, mas sou mesmo natural e tal e qual de Laje do Muriaé. Conhecem, meus brincos?! – contou completou o tatu Uxipuçu.

            - Mesmo? O que que você faz lá, se diverte? – questionou a Tu, meigamente.

            - Ei!... Sou barista tenho um bar e sirvo café expresso e decorado. Recomendo.

            Acharam as duas de ir e foram os três. Ele na frente achando o carreiro. Elas atrás e tirando onda macaqueando ensaiando uns gestos uns outros trejeitos mímicas...

            A Tua cochichando para a Tá, sem Uxipuçu ouvir e escutar ou se dar conta:

            - Amiga e irmã! E se ele correr atrás de uma de nós?

            - Kjá-kjá-kjá!... Com certeza ele vai correr atrás de... duas de nós. E cedo ou tarde, daqui até lá, nesse ou naquele ponto, na ida ou na volta, durante ou depois, mais tarde ou mais cedo, antes do almoço ou após a janta e de barriga cheia, etc.

            Subiram o morrinho e já avistaram e cheiraram o ar e sentiram o amarelo doce trescalante exalante dos coquinhos do coqueiro-barrigudo. A palmeira sozinha no meio do gramado do potreiro do capim-membeca. As horas de sol céu azul e ar puro.

            Enquanto houver espaço... o tempo aparece. Dizem os entendidos. Ou será que é o contrário? Ou será em outro planeta. Quem sabe o discente da UFSC. Ou é a matintaperera. Ou é par ou ímpar. Ou casa até descasar. E quem compra quer vender.

            O tempo decorrido, o antigo, o antiquíssimo o antiquado o antiquário e o resto o por vir deixado ao silêncio silencioso. Temperamental.

            Como sói acontecer, os dias pulam de hora em hora e as noites inventam os corpanzis de estrelas astros meteoros satélites artificiais morcegos corujinhas-do-buraco grilos-pretos carapanãs vaga-lumes caamanhas... Estrela cadente corre o riscado.

            Que cidade que bonita - município onde a administração se dá através dos poderes executivo (o prefeito e secretariado), o legislativo (a câmara de vereadores); sempre respeitando as leis orgânicas ou da constituição municipal e estadual e federal - você gostaria de passar a maior parte do seu tempo permitido? A infância e tenra idade em Angra dos Reis e São João do Caiuá e Major Izidoro, a adolescência e primeiros amores em Paraíso das Águas e Feliz Natal e Aporé, escolaridade fundamental em Taguatinga (ra) e Bujari, ensino médio e profissionalizante em Uiramutã e Vale do Paraíso e Cujubim, faculdade de biologia e mecânica e engenharia química em Xambioá e Limoeiro do Ajuru e Vila Nova dos Martírios e São Gonçalo do Piauí e Uauá... Compensando percorrendo alentando a praia do Jurumirim, velejando nadando mergulhando junto à ilha do Mantimento à ilha da Rapada à ilha do Pelado - em Paraty. Sobrevoando trilhando escalando a pedra do Índio, em Botucatu e Bofete e Pardinho.

            Duas tatuas caíram do ninho, do aconchego, da cama. O dia amanheceu exatamente às cinco e vinte e dois uma quinta-feira vinte de março mesmo ano. As tatuas já estavam aí pelo mato, entre folhas e ramos caídos e secos, cominhos-bravos, carurus-amargos, ananases-de-raposa... fuçando e cavoucando e vasculhando e... ponto.

            - Lembra, mana! Uma vez nos falaram que só existiam tatuas e tatus.

            - Isso mesmo e alhures! Assim que valia a pena, então. É mesmo, né?!

            Tá pediu para a trinca-ferro-de-asa-verde. Tua perguntou para a dama-da-noite. Tá indagou do manaquim. Tua inquiriu da peroba-de-goiás. E interrogaram tudo e todos com dúvidas e curiosidades. Consultaram o relógio digital o celular na internete.

            - Além de tudo. Os índios tuxá que mandam na área no pedaço? – indaga Tu.

            - Opa!... É certo lógico verossímil que vão construir uma estrada de ferro até Vassouras e Resende e Barueri e Domingos Martins e Cariacica? – pergunta Tua.

            Em vista disso, o chão úmido pegajoso estava já todo esburacado lavrado furado. Ficaram ali espionando de espias. Um cipó-de-cobra escalava aos galhos da braúna.

            Tá, cheirando o ar açucarado chuvoso branco espaçoso, a identificada:

            - Oi!... Digo com o tatu Caaobi. Jantamos fora na sombra da lua nova. Juntamos as garras da frente, trocamos os sorrisos, nariz com nariz, fios dos lábios bem eletrizados, céu da boca com céu, noite estrelada inúmeras vezes, e rio Canoas passando perto, banco da praça Coronel Gomes Carneiro, blu-blu-blus!...

            - Hum!... Agradecimentos de gratidão - Tua, reduzida e presente, a identificada.

            - Música? Cantoria? E tudo simples, tudo muito discreto. Te digo!

            - Pouco bom para quem gosta de contar histórias e nem achar o final. Uaaau!...

            Tinha sol amarelo e único e presente. Céu magro esbelto com poucas nuvens de papel branco ou novo. Por aquelas manhãs intropeçáveis e indefectíveis e inefáveis e indeléveis. E aquele tempo todo nem durou sequer uma semana de dezembro ou janeiro.

            Logo logo veio chegou o trem na ferrovia e o comércio negócios em cada estação correndo na linha férrea. Agradecimentos. Empreendimento do empresário industrial bancário barão e visconde de Mauá ou Irineu Evangelista de Sousa - 1813, Arroio Grande até Petrópolis, 1889 -, nome de rua avenida monumento escola praça bairro cidades (Mauá, Porto Mauá) biografia teatro televisão amigo do imperador...

            Parentes que se pareciam, voleibolistas que nem deixavam a bola cair a peteca, as primas, pelotiqueiras, as duas tatuas em volta do dia, etc. Uma queria conhecer Muritiba, outra Paty do Alferes. Outra queria pular de paraquedas, uma botar loja de fantasias para carnaval. Uma governar reger moderar, outra ilma., e exma., srª., prfª. drª.

            É um tempo e se D quiser! Os calendários mais cobiçados do mundo. Isto à vista dos preços interessantes por que são hoje em dia comprados vendidos, etc. Visionários que consultam cartas do tarô formigas-de-embaúba sobrevoo de urubus búzios...

            Lá estavam as duas tatuas, um lugar do mundo, algum lugar no mundo, e alheias ao mundo, alheias ao todo do mundo, indiferentes ao imenso e resto do mundo. Assustadoramente indiferentes à bola. E corriam os dias, e ficavam as horas os dias as semanas os meses e as cascas de pinhão da pinha do pinheiro-do-paraná em Maringá. Mas isso só na teoria. Porque na prática... bem longe do esperado. Um abraço!

            Tua abriu os olhos dificilmente ou dúvida, Tá olhou em volta numa outra órbita:

            - Olê!... Acho tenho certeza que nem vou mais crescer, só aumentar.

            - Olá!... Estou comprometendo as mesmas coisas que todo mundo comete. As coisas os produtos comestíveis e os bichos, uma vez. E em a segunda-feira, né?!

            Mesmo assim o lugar tinha latitude sul, longitude oeste, altitude de cem metros, área em quilômetros quadrados, subtropical, distante da capital estadual 416 km federal 1.330 km, habitações habitantes em torno e o ano da graça do Senhor de 2018 ou 2019. Que nem era final de conversa! Que a discussão nem terminava aí!

            No meio de novembro os dias já se erguem brancos ou amarelos. Nuvens plantando fumaça. Dias rios estradas de torcicolo. Tatu tatua tatus-peludos que andam na mata de galeria e de tocaia em tocaia de macega em macega de touceira em touceira. É para pegar ou largar. É para correr ou ficar. É para cheirar ou usufruir. Que tal o rio Preto e a cachoeira da Fumaça, hem?! Que viagem à ilha do Prumirim, tá certo?! É para tomar banho ou lagartear ao sol. É para subir em árvore ou buscar tesouro afundado.

            O que um dasipodídeo podia fazer ou o que duas tatuas também podiam dizer:

            - Ah, claro! Nem precisa dizer duas vezes - Tua, a identificada a estruturada.

            - Francamente, praticamente! Gostaria muito de saber escalar uma inhaíba, por ex - Tá, a identificada a hidratada.

            Saíram da toca do barranco em meio de cravos-do-mato e seguiram logo logo para o pinheiral atrás de pinhões aquele inverno rigoroso de dia fechado e frio e prometendo sair o sol depois das dez, e olhe lá! Que situação precisa e perobas-iquiras, caaxiós, elemis-do-brasil, coronilhas... e o rio Cavernoso fazendo o barulho comportado ‘tru-ru-rum!...’ por dentro no meio ambiente do mato vegetação ciliar.

            No começo do café da manhã e as duas se depararam com a concorrência dos matizados crau-craus. E eles gritavam do alto dos galhos. Os pinhões já caíam roídos comidos abertos e reduzidos a restos migalhas cascas farelos quireras, etc.

            - Olhe isto, amiguinha! Quando caem os pinhões? – reinou Tua, onze avos.

            - A degas aqui te diz! Parecem já servidos e bem, né?! – voltou Tu, sêxtupla.

            Quando foi quando se viu, o tatu Crejé se materializou no supetão, depois de hora e meia comendo pinhão catando pinhão se fartando, e ainda por cima sem aviso resolveu correr atrás da Tá. Neste mesmo momento já acontecia naquela imensidão de araucárias e que todo mundo já olhando. Tá correndo e Crejé correndo e Tua correndo, pega-pega. E cada um por si e D por todos. Inclusive a plateia a torcida das baitacas.

            Podiam pediam chamar o soldado militar marechal o duque de Caxias ou Luís Alves de Lima e Silva (1803, Duque de Caxias até Valença, 1880), que passou por barão conde marquês e duque. É rua avenida praça bairro agremiação livros colégio cidades (Caxias, Duque de Caxias, Caxias do Sul) monumento patrono...

            Tá entrou por um lado do tronco caído podre esburacado de ex-vinhático-do-mato e saiu pelo outro. O tatu Crejé entrou pelo mesmo lado e nem saiu pelo outro, ficou entalado. E bem feito! As duas primas riram ‘ih-ih-ih!...’ risos de tatuas e foram embora enquanto tinham tempo e podiam tomar dianteira. O dia o sol o vento o vento nas copas das araucárias. O tatu Crejé ficou chateado com aborrecimento de tatu até emagrecer uns três quatro kg diários e dias tomando fôlego ‘uta!...’ e muito que pensar.

            Qual a cidade (a sede do município constitui a cidade, e pode ser dividido em distritos ou vilas e subprefeituras e bairros) mais natural que você escolhe escolheria escolherá para passar um bom tempo bom episódio passatempo e tudo mais? O ribeirão São Mateus o rio Carangola, em Faria Lemos; a praça Arthur Pagnozzi, em Dracena; a rodovia dos Motoristas com a rua Nossa Senhora de Lourdes, em Celso Ramos; o riacho Pé-Leve o rio Traipu a serra das Porteiras, em Belo Monte; o lema ‘trabalho e amor’ o gentílico ‘aguapretano’, em Água Preta; o clima tropical quente e moderadamente úmido a distância da capital 150km, em Barra do Bugres...

            Uma tatua e um tatu nem falam nem gritam nem resmungam nem mugem nem duvidam nunca perguntam nem bocejam, mas articulam a mesma linguagem. Os olhares os gestos os trejeitos os tiques os modos são todos animais e normais e comuns e certos e correspondentes. Se manifestam muito pouco e deles se ouve um somente sutilmente:

            “Quem?! Eu?!... Ué, nem sabia e fiquei sabendo!”

            Plano diário de trabalho e serviço noite adentro: encontrar comida, água limpa e comer até fartar fartar opiparamente. E já sabem onde o lugar. E já sabem cheirar a trilha ao pico do Corcovado, beirando a estrada a via a rodovia Rio-Santos ou br-101. E mamíferos xenartros têm marcado uma árvore ajaraí como alvo e meta e referência.

            Antes de tudo, ainda na porta da toca, antes da irmã Tua acordar definitivo, a Tá olhou em volta e olhou tudo cheirou e pensou consigo, repensando reorganizando:

            “Hum!... Vai chover. Ainda bem. Perto das 8h. Pra lá ou pra cá das oito...”

            Tá, tal e qual beldade, olhou pensando consigo mais um pouco pouquinho:

            “Eu e modéstia à parte... Na terra dos meus olhos... Já-já vai chover. Ótimo!”

            Depois, já as duas braços dados e inseparáveis, no muito alto e de repente e bem de repente, ouviram os trovões rebentando rolando reboando ‘tró-cró-bró!...’ alarmando, uns longes que eram pertos, uns chicotes de aço queimado e estrondos ‘ru-rum-ruumm!...’ acompanhados de terra tremente e sombras fantasmagóricas e jacurutus assustados ‘piôoo!, piôoo!...’ e rios encachoeirados ‘blu-ru-ruuu!...’ e silvícolas cariri deliberando... e vento ouriçado ‘vê-viii-vuuu!...’ descabelando as uxiranas, falsos-paratudos, mognos-brasileiros, caixetas, bracuís, rabos-de-tatus, perobas-tabuadas...

            Ali, como em Manaus ou Goiânia ou Ibiapina ou Atalaia do Norte ou Itapura ou Passos Maia ou Pombal... o sol se escondeu e tudo ficou fechado e assombrado. A terra sedenta pedindo mais água da chuva. O globo se preparando para o melhor. Vários rios mananciais pedindo provisão e rio Forquilha rio Lava-Tudo rio Pelotas rio Turvo...

            Uma chuva como de uma avalanche e para baixo, do alto para dentro da paisagem, e que derrama paz certeza sossego vento veloz chuva caindo e correndo cantando ‘chuáaa!...’ As mais das vezes... céu cinzento cortina cordas cântaros tromba...

            A cascata a chuva desabou torrencialmente precipitadamente sofisticadamente temperadamente... Choveu a chuva tanto que os buracos dos tatus estavam sendo postos à prova, correndo riscos, e tanto pela entrada como pelas saídas de emergência.

            Pelaí que, amarrado num galho seco da sapupira-da-várzea, um bacurau procurava esperar paciente quieto afetuoso compreensivo tiritante a tempestade extratropical amainar. Também gostava de chuva mas nem tanto nem tanta, hem!...

            O tempo, este ou aquele, nem leva nunca a nada. Nem desaforo pra casa. E o melhor é sair o mais tardar possível e sem saber o porquê. Nem prever nem antever nem pressentir, nem subscrever ou quiçá prescrever. Embora este ‘nunca!’ seja e está e é uma razão razões muito contestada.

            Então, Tá e Tua admiraram a neblina da manhã, algumas árvores desaparecer, e elas mesmas se entreolharam e balançaram as compridas cabeças e foram andando, andejas, andadeiras, farejando de costume, andeiras, e que andam trotando no trote. Estavam vivenciando em Piraí do Norte e São Luiz do Paraitinga e Olinda Nova do Maranhão e Buriti de Goiás e Pedro Gomes e Viradouro e Santa Maria da Boa Vista...

            Vai lá que a Terra toda estava amanhecendo de um lado. Nem foi isto um jabuti-machado? Dois tururus, um casal, subiram pelo céu com o trem de pouso as pernas balançando soltas. Pai soldadinho ‘tiruri!, tiruriii!...’ pintado de verde. O cardume dos pirajaguaras emergindo imergindo, etc. A arte do automático ou da improvisação.

            Quando a manhã estava bem acelerada, os joões-de-barro batendo asas e gargalhadas ‘trá-cá-cáaa!...’ já as duas tatuas andavam faceiras pelo capoeirão. E sempre procurando imóveis para alugar terrenos para mear minifúndios para explorar. Gestos pausados e passos lentos de quatro a oito perninhas curtas, duas de quatro. Olhavam para o chão e principalmente simplesmente farejando ‘ife-ife-ife!...’ Um solzinho saía de entre as nuvens pequenas e cinzentas estas muito mais mascaradas ou fantasiadas de barco a vela sapato livro aberto escova enxada picareta carro de bois...

            Tempo este que nem é passado nem leste nem oeste. Tempo integral, ambiente integral, pão integral, arroz integral, visão integral, frutos íntegros de fruta-de-tatu...

            Enquanto ainda acontece esta corrente de rio o tempo mantém o que der e permite o que vier. Sucesso garantido para os pitiguaris ‘bio-biiiooo!...’ os sabiás-coleiras ‘psi-tchi-tchiii... ourrriiii!...’ os inhambuguaçus ‘co-róoo!, co-róoo!...’ os bigodinhos ‘tri-liu-liiiuuu!...’ os bem-te-vis-de-cabeça-rajada ‘gueteguêee!...’

            O tempo, sobre todos o tempo sobre tudo o tempo, sabe fazer o seu papel o seu show o seu showmício. Pois o tempo de água passa, o tempo de fogo passa, o tempo de preguiça-terrícola-gigante passou, passa o tempo do parque Sete Cidades, o tempo de sambaquis passou, o tempo do peixe-boi submerge, o tempo de marolinho-do-campo floresce, o tempo de terramarear sempre renova se transforma se triplica...

            - Oie!... Nem nada nem existia universo. Mas todos todas eram anfíbios sapos jias pererecas – confabulava a Tua, esta modesta irrequieta comportada correspondente.

            - Uta, meu! Com cauda ou sem rabo anuro que diferença se faz?! – contribuía a Tu, esta modesta esperta emponderada compenetrada estudiosa gentil generosa.

            Há muita chance pra conhecer sítios e cidades. E quem nem pretende ficar e percorrer avenidas em Serra Grande e Acari e Itaporanga d’Ajuda e Rancho Queimado e Boa Vista do Tupim e Suzano e São Roque de Minas e Olho d’Água das Cunhãs... E por que nem sentar praça em Roca Sales ou São Félix de Balsas ou Alenquer ou Abel Figueiredo ou Rodelas ou Marianópolis do Tocantins ou Clementina ou Ouro Preto...

            Tá nem conseguia conciliar o sono, Tua nem conseguia dormir porque Tá nem dormia e vice-versa. O dia claro lá fora da toca já ia alto pela metade e de muito sol e estrídulos ‘ih-réeee!...’ de cigarras, apitos nasalados ‘trô-tróoo!...’ de curicacas, cantos ‘biriiiu!, biriiiu!...’ de tempera-violas-de-asa-verde, assobios ‘vri-vri-viiii!...’ de sabiacicas, jabués, gavião-carijó, tesourinhas, coruíras... Restos de frase uma palavra ou outra um chilreio ‘fri-si-siii!...’ aqui ou além, quem nem arriscava nada petiscava.

            - Hoje! Isso passa, passa tudo isto e muito mais - Tua, um olhar periférico sobre a rua os autos as caminhonetes as bicicletas os pedestres... as casas, a identificada.

            - Ainda hoje! É, eu sei. Eu sei e às vezes me confundo - Tá, contando contas de armar desarmar descontos créditos débitos em os dedos em as garras, a identificada.

            A bola de fogo já passara pelo céu e o zênite. Já estava do outro lado do mesmo planeta conhecido terráqueo. Assim ficava a noite, lá era um dia antes de agora.

            A noite já está instalada. A noite é para isso mesmo. A noite para tudo.

            Tatuas e tatus na roça de mandioca aipim macaxeira maniva e assim por diante. O arroz cresceu amadurou e virou bem mais arroz. O milho espigou. O feijão secou no pé. A abóbora fruto da aboboreira planta rasteira moranga com polpa comestível...

            E a lua beleza nua, completamente, deslumbrantemente lua, linha perfeita de lápis preto grafite... e pronta, se exibe no céu infinito. Lua de luar incontestável.

            Que mais se dirá. Que mais se verá.

            Uma explosão vinda de onde e amassa e arma e joga e brinca tudo para o ar. Quem aparecerá? Quem desaparece? Quem telefona pra agradecer ou parabenizar?

            O início da linha onde o presente para e pensa.

           

 

           

 

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