Era
uma vez...
E
‘era uma vez...’ é uma excelente notícia.
Sempre andando o caminho, atualizando
o placar, testando o vigor, melhor compondo a minha forma, adaptando a fé, temperando
a filosofia, desligando a ousadia, acondicionando a ansiedade, abastecendo a
coragem... Que me lembro, é isso.
A manhã a tarde àquela hora cedo
tardezinha o local já estava dia noite quente frio chuvoso seco ventoso calmo o
tempo abafado enfadado encardido climatizado...
Peguei
meu boné bicolor, sempre de boné e tudo bem. Quando é calor, bermuda e camiseta
manga curta; quando é frio, calça e blusa de abrigo (conjunto esportivo);
quando é chuva, guarda-chuva e capa impermeável. O calçado um par de sapatos-tênis
(fabricado em a ilha da Pólvora, Vitória vitoriense, ES espírito-santense
capixaba) de couro amaciado como se deve usar com conforto e segurança e
bonança.
Oh, que milagre! Nasci
num ano de copa do mundo em que o B ganhou. De modos que nem poderia nem posso,
de 4 em 4 anos, esquecer o que tenho de relembrar de copa em copa. No cômputo
geral cálculos contas contagem. Os aplausos ‘pleque!, pleque!...’ e vivas
‘uh-huuuu!...’ estrugem e repercutem e abalam e cascateiam...
Surgi
totalmente dentro do bairro São Cristóvão. E faço as caminhadas. Estou fazendo ultimamente.
O seguinte roteiro: vou pela avenida Placidina de Araújo, das iatás e pirimas e
açairanas; vou pela rua Flores da Cunha, dos ipês-amarelos; flecho a praça do
Suribi, dos angelins-pedras e marimaris e palmeiras-piaçabas - e volto pela
avenida Borges de Medeiros, dos jacarandás-cabiúnas (estas árvores, em fila
indiana, em a temporada de novembro e dezembro, vivem cheias de flores e
atapetam o chão); a rua Visconde de Parnaíba, das violetas-do-brasil e
feijãozinhos-bravos; a rua doutor Almeida Lima, dos castanheiros-do-brejo e
rabos-de-jacaré; reafirmando o bairro da Mooca. São as ruas mais incríveis e
que vão fora a fora da cidade, praticamente.
Ao largo e ao longo das ruas. E nem
caminho todos os dias, mas muitos dias no mês e durante o ano todo. Talvez com
arrebol pôr do sol ou nascer. E no arvoredo (devesa) florido e vi vejo várias
aves cantando interpretando mantendo território e os fogo-apagou,
papa-formigas-de-grota, macurus, pintassilgos, sanhaços-frades,
tiribas-de-testa-vermelha, tico-ticos-reis... Os km são a prova de que as
vitrinas ajudam!
Naquele dia campeão pretendia cumprir
esse mesmo tema: ir até o centro visitar o Horto e voltar suando e bastantes
árvores, casas, lojas, pessoas a pé ou bíci...
Eu
aprecio muito isso e raramente vou à noite. Posso andar na boca da noite, de
tardezinha, o sol fraquinho, o sol descendo, o sol no horizonte, o sol com preguiça.
Prefiro ir sempre pela manhã, quase cedinho, preferencialmente das 8h às 10h.
Será que já morei numa
montanha ou serra da Mantiqueira? Resende, cachoeira da Água Branca, o viaduto
ferroviário da Fumaça. Nevoeiro nuvens espessas bulcães bulcões bulcãos em
redemoinho e nimbos-estratos nimbos-cúmulos carregados de água. O vento
dançando com plantas e pássaros; o som remoçando com aves e vegetais. Além, notas
melodias gracejos harmonia arpejos que aves perfumam e plantas cantam.
Aquele dia estava se saindo assim ali
pelas dezessete horas. Tudo bem. Pássaros flechando pra cá e pra lá a todo
instante e joão-de-barro, coleirinha, cricrió, pomba-de-espelho, arapaçu-de-bico-preto,
sanhaço-cinza, tiziu, cochi-de-garganta-branca, colibri, tchintchorrintcho,
corruíra, bacurau... Um gavião-carijó levitando peneirando no espaço em branco,
brincando na corrente de ar quente. Raras nuvens brancas esgarçadas e um rastro
de avião comercial... algodão algodoando, vamos dizer assim, a abóboda celeste.
Uma fabriqueta apitou em antologia época autorias coleções seleções
florilégio...
Energias magnéticas, elétricas,
caloríficas, luminosas, ondulatórias, radiantes, hidráulicas, cinéticas,
nucleares, teatrais, pendulares, cósmicas... e o que mais, etc.
Nem
vou caminhar necessariamente para pensar, mas o pensamento vem e às vezes me
governa. Vou trocando pensamentos e olhando ao redor. Com o que tenho com o que
vejo com o que ouço com o que acaso... Nem tenho a pretensão de encontrar o
nirvana. Síncope de sílabas. De dia o leste para o oeste, de noite o sul para o
norte.
O
sol nasce, pelo menos uma vez por dia, quase sempre do mesmo lado no mesmo
ponto mesmo ângulo. Acontece com o sol com a lua. O sol vem e vai, mas nem se
muda, nem se transmuda, mudo ou eloquente ou catalisador ou épico. A lua de
mistérios empanada e o sereno aljofre orvalho zimbro e prato ou queijo ou
espelho ou lagoa Redonda ou cachoeira Salto de Braçanã ou rio Jucu ou serra do
Sambê...
Todo
mundo sabe disso, mas às vezes se esquece. Quando deixo o carro e vou a pé já
sei que me reconheço melhor. Tenho-me lembrado e sim talvez nem!
Enquanto vou pensando, quando penso
em qualquer coisa que me vem à cabeça. Quando nem penso em qualquer coisa,
penso em pensar qualquer coisa ou me esqueço até de pensar. Ou penso sem saber
sem querer muito levemente suavemente placidamente. Pitangueiras cheias de
folhas e adornos de pingentes pitangas. Vez ou outra procuro pensar um
pensamento invisível com cheiro de guria... dileta querida. Outra vez é um
labirinto e que nem acho o pensar e nem encontro o que pensar e o pensamento me
dribla pedala sem eu saber sem eu querer. Vazão esvaziamento e futilidade fútil
e inânia vacuidade vaziez.
O dia marcado, eu descia a travessa
do Saruê, por trás do colégio Onze de Agosto, tarde macia, e um cachorrinho
malhado preto e branco começou a me seguir me acompanhando. O sol em idade de
decrescimento desprendimento. Quando olhei para trás o cãozinho descalço fingiu
e nem me olhou. Mais um pouco ele passou por mim cheirando o chão de
paralelepípedos. Passou por mim, nem me olhou, fingiu nem me perceber, etc.
Seguiu na frente, na minha frente, em frente, a cauda alçada em arco
orelhas agitadas o faro ativado farejando tudo. Parava a cada latão de
lixo e ficava cheirando ao redor. Saía de um lado e já procurava ia procurando
para o outro da via.
Eu gosto de pensar enquanto caminho.
É bom pensar coisas amenas leves conformes. E sempre se arranja algo para
pensar até mesmo sem querer sem precisar sem concluir sem me incluir sem
digerir. A diferença entre uma lesma e um caracol. Prefiro as coisas surrealistas
pra pensar. E tem gente que até gosta de caminhar ouvindo música, por quê?, já porque
nem precisa pensar e tem gosto pra tudo.
Será que já morei no distrito Cidade
Dutra, subprefeitura Capela do Socorro, rua Ubatã, hein?! Uma tarde de sol
assim... E seria jovial contente alegre folgazão? E seria trivial vulgar
corriqueiro repetido? Será que moraria Vila Velha vila-velhense canela-verde,
claro! E seria secreto arcano misterioso enigmático? E seria degredado
desterrado exilado? E seria esperto educado gentil? E seria geólogo dentista
psicólogo?
O
que eu mais gosto, nessas horas de pernadas, é pensar uma ideia completamente
complacente. Complacentemente, que eu digo, é uma ideia fora do meu dia a dia
fora de sistema. Por exemplo. Como seria bom e confortável e prático e saudável
se eu acertasse na loteria. Fora do problema. E faço já uns planos de
milionário ricaço. Se eu fosse riquíssimo teria fazenda no bairro Gomeral
(rechã altiplano platô) a cachoeira do Espigão (píncaro alcantil precipício
desfiladeiro) ali entre Guaratinguetá e Campos do Jordão o vale do rio Paraíba
do Sul (barrancos ribas ribanceiras). Se eu fosse milionário rico, voaria sem
demora no meu jatinho campeão até São Paulo no estádio Morumbi estádio Pacaembu
pra ver o meu time gaúcho ser nacional. E pilotaria o meu jatinho particular,
junto com mais os amigos e as amigas e os comes e bebes, e iria dar um bico até
o Japão ver meu time brasileiro ser internacional. Num futuro nem muito longe
nada distante em breve, próximo episódio, será seria interestelar.
Vou
caminhar sempre que posso. Ultimamente é isso que vem acontecendo. Vou me
distraindo, olhando as coisas, e eu olho os prédios de sete andares, os carros
de lanterna acesa, um ou outro buzinando buzinaço ‘pi-biii!...’ e dando “adeus!...”,
bicicletas, gurias interessantes com muito cabelo até os ombros e franja caída
nos olhos, vitrines com livros da moda, cachorrinhos acompanhando senhoras em
passeios pela calçada, penca de pessoas paradas frente às vitrines, curto uma
guria de cabelo curto azul, outros entrando para tomar sorvete, rangeres apitos
clangor clangores sons estridentes, estudantes com mochila nas costas e celular
no pé do ouvido ciscando...
Saí
para a caminhada que gosto que sempre faço sempre que posso. De manga curta e
bermuda. Caminhante experimentado tarimbado. A tarde rebentando e se fazendo
noite daquele jeito, naquele dia, estava tépida. Tépida? Tépida. A boca da
noite campeã estava quente agradável tranquila, muito tépida. Aqui e ali
vaga-lumes pirilampos taxiando entre as moitas de vassourinhas-do-campo, fedegoso,
são-joão, cinzeiros, guamirim-felpudo, carijós, jaguaramurus, maria-pereira
araxixá...
Ainda
na descida rumo ao centro, rua general Flores da Cunha e tal - os ipês-amarelos
e nessa hora bem tão amarelos, ou amarelos naturais -, nem contive minha
gulodice e parei e subi no pé da cerejeira-do-mato, ali na beira da calçada,
ali sob o foco de luz do poste e para apanhar um punhado de cerejas pretas de
tão maduras.
É meio atitude de guri de piá fazer
uma coisa dessas, mas como ninguém estava vendo, tudo bem. Nem olhei pro lado
pra ver e ter certeza se alguém me cuidava. Porém, um passarinho que já estava
recolhido ali entre os galhos ficou assustado, confuso, irritado e reclamou
‘pri-pri-priiii!...’ (Um passarinho queixoso quérulo ou uma coruja encoberta
oculta embuçada ou um morcego macerado mortificado atormentado um noitibó
exânime desmaiado, sei lá - nem deu pra ver direito, nem vi muito bem na hora
do tal lusco-fusco -, mas só podia ser). Como piou na língua dele
‘tri-ri-riiii!...’ e eu nunca entendi, deixei ele piar sozinho, guinchar à
vontade, bater as asas irritado, rir ‘hihihihi!...’ solito no mais, e continuei
minha caminhada perambulante peripatética.
E fui descendo a rua comendo as
frutinhas que muito me vinham na lembrança da infância pelos matos e capoeiras
do bairro São Cristóvão e do bairro Retiro e bairro Três Mártires (regiões s
sul e so sudoeste de Nova Prata). “Hum!...” que o sabor estava devidamente
saboroso apetitoso suculento. Achei mesmo que o passarinho se riu
‘hehehehe!...’ em motejo, gargalhou ‘kjá-kjá-kjá!...’ em troça, achei achista acho
achismo achadismo. Que um tal extraordinário entrou habitar se habituar ao
costume!
O sol é mecânico dinâmico
autossuficiente. O sol na verdade nem para de andar de um lado a outro dentro
de casa - deste para aquele outro lado do mundo. Você pode requentar ao sol
requestar pedir solicitar. Tem gente que se esfalfa fadiga-se se extenua. Porém
o sol está sempre declarado prestes disposto ao alcance preparado pronto
presente presença. O sol pula ribanceira paredão muralha barranco penedia. O
sol os sóis concorda acordo com o mundo; e a jornada lembra o dia a dia, em a
hora h.
Passei
em frente à parada de ônibus dos alunos do colégio NS Aparecida, umas 17h e 42min,
dia decrescendo, hora campeã, fui caminhando sossegado, nem sou de correr nem
fazer o trote, noite crescente, fui
caminhando pela calçada, olhando o chão para nem escorregar e nem tropeçar e
nem atropelar e nem ser atropelado e nem pisar em procedimento de cachorro. E
já passando e ainda passei de passagem ali pela parada do ônibus escolar quando
uns brincalhões, no estilo porfiar contender discutir altercar, começaram a cascatear
‘trá-clá-cláaa!...’ qualquer algo típico tipificação coisa do tipo:
-
Mosquito, mosquito!...
Nem
te ligo!, nunca é comigo, pensei na hora. E nem pensei duas vezes em mim, nunca
pensei em nada, olhei pros postes iluminados que atraíam mariposas engraçadas.
Apesar de ter achado exagero, eu nem me voltei para olhar a galerinha vaiar
‘iuuupê!...’. Por que nem vão então pra casa jogar vídeo gueime, hein?! Pensei
e nunca falei, e achei mesmo que era um pensamento desarrazoado e que a vaia
nem era cabida e nem dirigida a mim totalmente descabida. E procacidade
insolência.
Continuei caminhando e tranquilo, na
minha, subindo o morro, já do outro lado da cidade e passando pela igreja
Matriz em honra a São João Batista e NS Aparecida e a Santo Antônio. Edifício
em estilo neoclássico ou neogótico e empedernido petrificado.
Olhei
para o alto da igreja de duas pontas duas torres e o campanário lá atrás com
relógio na face leste. Pois descia ali um casal de curicacas... até pousar com
calma no telhado do templo. As aves gigantes escolheram descansar ali e ninguém
tinha nada com isso. Aterrissaram mesmo naquele enfeite em pontas apontando
para o alto do céu já escurecendo e àquela hora. Pousaram e ficaram olhando. Os
braços e mãos nas costas. Como par casal bonito e esquisito claves de sol. Um
bando de andorinhas, pilotos pilotando jatos supersônicos, declarou a guerra ou
ataque ao telhado de zinco. De mais em mais ‘tsim-tsim-tsim!...’ tanta e quanta
parlapatice parra palavreado.
E prossegui contínuo continuei
andando porque era bom caminhar e a noite estava boa e crescendo campeã se
aproximando. Se acaso encontrasse a Ju, hem?! Meu, seria ideal e eu nem teria
condições de pensar em mais nada de nada e amém. Se encontrasse os meus amigos
João e Cade e Rogério poderíamos jogar conversa fora até secar uns chopes e
dizimar aniquilar umas tais e quais porções de batatas fritas.
Um copaié uma abutua-grande um estape
uma iricuruna subindo sobe desde muito entre a aba da casa verde de olhos azuis
e o muro de branco na rua do Basalto. São árvores boas de se ver. Ramos para o
alto e folhas aéreas, procurando o espaço. Na aparência, ótimas de saúde. Vegetais
altos e copados. Autoestima astral astronáutica.
Oh, que milagre! Lembrei lembro a
região icônica. Região icônica e desfiladeiro cânion passagem apertada entre os
contrafortes garganta o pico Alto Lavrinhas o pico do Ataque... o córrego Milho
Vermelho o ribeirão Itabaquara o rio Sapucaí o rio Guarapari... Asas cantando
palrando chilrando flores cantando ciciando árvores cantando grugulhando... Na
copa coma da almecegueira-de-minas a mazorca tumulto baderna asas ruflando
ruflar de tucanos-de-bico-verde, pula-pula-assobiador, joão-porca,
choquinha-dublê, mariquitas, pi-puí, arapaçus-verdes, beija-flores-tesouras...
Quer ver?! E fui sempre no meu passo,
comportamento modesto, fazendo a minha caminhada e tal. Os pés avançando pelas
lajes da calçada, contando as pedras, um saquinho de plástico “por favor, me
jogue na lixeira!” meio que atiçado pela brisa. Um pouco de tensão na
batata-doce da perna direita, mas isso me era lesão passageira.
Vozes cantigas de aves tagarelas,
conchavadas
Sons risos de passarinhos no
parapeito do jardim, acordados
Asas aladas e as frutas doces
agridoces, mancomunadas
Paraíso amores e relicários de D,
combinados.
Pela
frente do boteco Pirajá, passando na calçada de pedra basalto, olhando para
dentro como de hábito, ouvi o pessoal ali conversando, vi uns tomando
traguinho, outros fumando porta pra fora, a tevê ligada na reprise do futebol,
ouvi conversas sobre futebol, sobre a troca de treinador compra de jogador meio
do campeonato e veredito decisão sentença... Fui observando da calçada,
passando no meu passo de jabuti sossegado, fui vendo e ouvindo pouco mais coisas,
diz que me diz que, disse me disse...
Já
sei, ainda tive tempo de verificar pensar comigo: estes tipos chegam em casa,
estes aloprados, conversam dois minutos com a esposa e os filhos, e o cônjuge f
já percebe que calibre de álcool tragaram que tira-gosto que petisco engoliram ingeriram:
-
Ora!... Mas onde você estava que comeu salame e queijo no palitinho?
-
Uta!... No Pirajá, e revendo os melhores momentos lances dos jogos da rodada!
E
antes que me esqueça, foi de dentro do Pirajá que um tipo que ainda nem
identifiquei até hoje - e se era meu conhecido ou meu meio conhecido ou meu
desconhecido, sei lá! -, gritou pra fora, talvez na minha direção, chutando el
balón:
-
Mosquito, mosquito!...
Fiquei
intrigado... em câ-ma-ra l e n t a... e olhei em volta os 360º degraus, olhei
para trás, olhei os pés, olhei o céu enaltecendo enaltecido... Que será, meu?!
Será que é comigo ou estou com mania de perseguição?, recontei. Deixei pra lá,
dispensei, desencanei. Podia ser o apelido de alguém. Eu nunca tive apelido de
Mosquito, ué!
Ali do lado uma
cooperativa agrícola já dispensava seus colaboradores. O pessoal estugava o
passo. E confrangidos constrangidos tolhidos embaraçados pigarrentos. Compravam
vendiam pra muita gente muitos lugares e Brumadinho e Ipuã e São Joaquim da
Barra e Mogi das Cruzes e Marataízes e Rio Acima e Cariacica cariaciquense... Vozes
esganiçadas estridentes proletárias. E exportavam importavam muito desde
Guararema, Orlândia, Morro Agudo, Raposos, Serra serrano, Biritiba Mirim
biritibano ou pequeno ajuntamento de juncos ‘povo unido e horizonte definido’.
D estava servido, se D quiser!
No
céu uma lua seca, redonda, novidade, plenilunar plenilúnia, notívaga e
platinada. Pulou de repente que até me fascinou. Umas estrelas por trás do
mundo, vamos dizer assim. Nunca tive tempo de contá-las. Nem quis arriscar o compasso.
Alguns carros estacionados em diagonal junto ao meio-fio, as placas de alguns países
próximos do planeta Terra e Dois Irmãos, Cotiporã, Vista Alegre do Prata, Erebango,
Vila Flores, Barras-pi, Fagundes Varela, Protásio Alves, André da Rocha, São
Jorge... O vento soprando calminho nas folhas dos sapuvuçus, e nas palmas da
pindobeira... A Vênus estrela Dalva e em surdina calada em voz baixíssima, tipo
tipaço planeta telúrico.
Uma casa baixa de madeira com uma
vaca de fibra de vidro decorando a varanda, fetichismo feiticismo. E eu olhar
para as árvores me faz bem. Nada, nem ia chover, talvez amanhã, pensei, só lá em
o próximo sábado, catapultei. Sempre chove no sábado que é pra alegrar a atmosfera
do fim de semana. Contando cada quadra uma lua exótica. E aquele fim de semana
seria... e tão somente porque estava...
Levemente pensei telefonar pra Alice
e sugerir jantar fora na pizzaria ali em Veranópolis, por exemplo, ou mais pra
lá em Caxias do Sul, ou ainda mais longe em Nova Petrópolis, fazia sempre
toda vida muito tempo três dias quê...
“Bom, interessa sim. Importa muito, sabe?!”,
pensei calculei temperei.
Passei
passamos em frente de uma loja amarela com a tabuleta explicando no alto da
entrada: ‘A Hixcariana, morada cantinho dos bichos de estimação e mascotes’. E
um cãozinho colorado latiu ‘tau-rau-rau!...’ por dentro do cercadinho de
ripinhas pintadas de azul e branco. Discorria queria dissertava escolhia
‘lau-lau-lau!...’ uma peleja prélio combate? Me visualizou, tentou me cheirar,
se dirigiu a mim, me uivou ‘uh-uuuu!...’ me interpretou com desprezo surpreendente,
ergueu o focinho especulando e me latiu ganiu ‘au-au-au!...’ na língua fácil
dele que eu já traduzi na hora, assim:
-
Mosquito, mosquito!...
Nem
acreditei, claro. Desde quando cachorro late coisas traduzíveis, legendáveis, dubláveis?!
Isso nunca existe, meu!, pensei. Que remédio! Que disparate!
A primeira vez... eu
ouvi. A segunda vezinha... eu olhei pros lados e em redor. A terceira vez...
esta última vez rosnada... eu já fiquei grilado e muito cabreiro. E 3 três vezes,
pai filho espírito santo - santíssima trindade.
“Oie!... Estância Hidromineral de
Lindóia, meu!!”, embasbaquei soprei surtei.
Mas continuei subindo o morro pela
calçada de cá e a rua Silvério Gonçalves com a rua Augusta Berta em a Vila
Maria Luisa. Acontece com a lua com o sol. Os guabijus campeões estavam
largando frutinhas pelo chão que era uma barbaridade. Tentei alcançar umas
quantas nos galhos e estavam muito altas e era perigoso escorregar, mas... mas
peraí, meu! Me caiu a ficha. Que história foi essa de cachorro latir em
português?! Nada, nem era uma boa hora para ficar imaginando coisas do desenho
animado. Nem era momento para ter esse tipo de absurdo no meio dos pensamentos.
Eu estava surtando, estava sonhando extraordinários, levando o mundo na
brincadeira, caminhando com ideias na altura das nuvens... e só podia ser.
Quase voltei falar com o guaipeca, mas resisti, desconversei, disfarcei e aí repensei...
sei lá, né, meu!
Será que eu já morei perto do rio
Itapanhaú?, digo. Sim, porque tenho saudade de morar e correr e subir em
árvores andar as trilhas no meio da mata. Cruzar o córrego Ligeiro o ribeirão
Guacá... O famoso parque dos Três Picos... De momento em momento pegar atascal
atascadeiro lodaçal. O ambiente se transfigurando e falange multidão legião de
aves e inhambuguaçus, mergulhões-pequenos, sabiás-pocas, juritis-pupus,
pitiguaris, papa-lagartas-acanelados, saíras-de-papo-preto, garrinchas...
Na
esquina da avenida Júlio de Castilhos com a avenida Presidente Vargas, passando
esbaforido pela frente da barbearia Anaiá, o próprio barbeiro seu Aracati,
nariz adunco agudo aquilino curvo recurvado em gancho, me olhava da soleira da
porta e me acenava com a mão dele. Tinha ideias conhecidas de todos e nota
verba comentário apontamento. E ele repetiu um refrão com a voz arrastada igual
à dele mesmo, um bordão que vinha me acompanhando e me seguindo pela caminhada
nem sei desde onde e por quê, alguma coisa que eu ouvia e nunca assinalava nem
assinava nem assimilava, igual esse estribilho de engaste ou enfeite embutido e
o mesmo:
-
Mosquito, mosquito!...
Mas
será que é o pé da cobra, meu! Isso é comigo ou estou piorando?! Onde se viu
tamanha viajeira, seu! Que osso caro de roer, tá ligado?! Eu pensava essas e
outras e me questionava. Mas também pensei que a rua é pública e democrática e
campeã e qualquer um pode gritar o que quiser o que vier à telha. Se hoje ali
agora naquele momento nem gostavam de mim... Bem, o lema: ‘se qué qué, se nem
qué, deixe!’
E quase voltei pedir maiores
explicações ao seu Aracati, senhor perfil trêfego trefo manhoso esperto. Olhei
para trás e ele havia sumido. Olhei para os lados, olhei as solas dos tênis,
olhei para trás outra vez... Ufa, continuei a caminhada. Hum!... será que era a
dengue? Ué, será que era o saruá saruamento envultamento enfeitiçamento? Que
será esta história de mosquitos, pernilongos, borrachudos, hein?! Nem pode ser
comigo, pensei, nunca tive esse apodo. Será que todo mundo estava aloprando?,
repensei.
Olhei
a lua lunática, e já se desprendendo se exsurgindo se levantando se erguendo. Agradecer
àquela noite como aquela noite. Sem aquela noite inicial iniciando a lua nunca
seria necessária, nem seria possível, nada seria impossível. Os macaréus, tipos
de ondas do mar, fazendo estrupido estrondo barulho rumor estardalhaço
estrépito... As marés maceiós parcéis esparcéis recifes arrecifes abrolhos escolhos...
Olhe, de vaga em vaga a procela tormenta borrasca o temporal tempestade
tropical...
O
mundo dá voltas e retornos. O tempo nunca passa. O rio corre para a foz.
Depois, pensando bem, o rio tropeça em algumas cascatas, o vento faz o tempo
revoltar arrepiar, o mundo nem sai sequer das idas e vindas e giros de um globo
autodidata.
Assim pensando repensei
os sonhos. Oh, que milagre! O ribeirão do Itaim o córrego do Capinzal o rio
Itatinga... bem servidas as comunidades de Iconha e Itabirito e São José da
Bela Vista e Guará e Salesópolis... De momento em momento, o céu o cume páramo
abóbada celeste o firmamento, a região icônica de Anchieta e Itapemirim e Rio
Novo do Sul... o córrego Santa Fé o ribeirão Rosário...
Parei
na subida do morro, lado de lá o norte. Ali num degrau da escadinha da gruta em
homenagem a NS de Lourdes, parque do Horto. Respirei uns cinco minutos, dez
minutos, talvez vinte, respirei, bebi água mineral da garrafinha, sentado no
banco de madeira em verde-escuro, olhando a noite com ruídos de noite, carros
rodando em a rua coronel Virgílio Silva, tevês nos telejornais com volume no
talo, olhando a cidade campeã um pouco do alto. Estas ruas combinam comigo com
meu ritmo. Que ritmo? Meu ritmo moderado. Era legal e eu apreciei e aprendi apreciava
e me diverti. E se eu fosse um pássaro curiango-tesoura poderia me recolher e
tentar dormir ali mesmo entre os braços galhos folhas de uma frondosa cacau-do-mato,
vamos dizer!
O
vento soprava às gavarrécias aos caaxiras, marmeladas, sapopemas, angicos,
cragoatãs-brancos, paineiras, arcos-de-pipa, paus-terras-do-campo,
cipós-de-gato... Noite astronômica astrofísica, atribulada aflita passando
distintas adversidades. De ninho em ninho, as estrelas ficavam estavam
sideradas estarrecidas fulminadas e comparadas e mais algumas extáticas de
difícil ansiedade. Era outra coisa, que coisa!
Tinha até um pinheiro araucária
campeão falando com a lua bola de prata. O pinheiro abria os braços e brindava
taças. A lua tirava fotos com o celular ‘pleche!...’ Depois conversavam
conversaram mais um pouco, certos macetes. O pinheiro nem ia embora, dialético
contraditório. A lua nova, grinalda capela de flores na testa, e fidalguia
evidente evidenciada.
“Hein?!... As
flores-de-babado-de-nossa-senhora!”, pensei na hora do espanto.
Será que em Aquidabã essa hora da
noite, será que lá está chovendo?, pensei. A hora era a mesma, entardecer
decidido, talvez um pouco mais cedo. Aquidabã devia ser legal, Aquidabã
supercampeã, continuei pensando. Aquidabã tem um nome bonito. Deve ter uma
pracinha chamada praça da Bandeira ou praça Tiradentes ou praça Landell de
Moura ou praça padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e ou parque do Catimbau a
cachoeira do Toldi... e cumprimentos clamores ‘uaaau!...’ agradecimentos
aplausos ‘plaque!, plaque!...’ jovialidades facécias o bom humor.
E o ar que se respira e a água que se
bebe. Passaram duas potrancas no trote. Uma delas tinha rabo de cavalo, a outra
uma faixa de pano branco segurando as crinas. Trotavam num galopar esquipado
como duas bonitas azulega e baia.
“Uh!... Quero ser um passarinho
sanhaço-papa-laranja e acordar às 5h e 15min!”
A praia de Arambaré. Que será que é.
Nunca fui, um dia irei. Tem que estar ventando por lá, pensei. Fazendo ondas no
mar. Lugar de sorte. Hoje agora é cedo ou tarde em Arambaré? E principalmente,
Arambaré foi achada o morro do Elefante foi encontrado o ribeirão Jaracatiá foi
nomeado o pico dos Marins escalado em escalaminhadas a ilha de Itatiaia foi povoada
de capivaras o parque Morro da Manteigueira pincelado o farol de Santa Luzia no
bairro Praia da Costa foi turistado...
E bebi mais um gole de água e me
ergui e vim embora. Tudo estava bem. Queria pensar algumas coisas. Fui pensando
o que pensar. Se a ideia perfeita nem pintasse, paciência. O que fazer nas
férias de janeiro: pescar pirabas na beira do rio Carreiro, acampar na beira do
rio da Prata, nadar nos remansos do rio Itacaiúnas, remar canoa nas corredeiras
do rio Cacondé junto das terras dos oro-uim... E Guarujá a ilha de Santo Amaro
o canal de Bertioga. E o monte Aghá a praia do Corujão a praça Dona Carmem. E
preconizar proclamar recomendar aconselhar Piúma piumense, São Gonçalo do
Amarante, Sabará, Várzea Paulista varzino ‘torno-me grande com a graça de D e
do povo desta terra’ (cidade das orquídeas), Nova Lima nova-limense... Já eram
uns três para quatro quilômetros de caminhada, lua matemática, meia-volta
volver. E tudo bem!
Entrei
pela rua Pinheiro Machado e mais adiante pegaria a rua Visconde de Mauá até
topar com a avenida Borges de Medeiros. De volta todo santo ajuda. A lua
flutuava, chutada pra fora no espaço. Pela altura passei ali em frente do
ginásio do União e um camarada de outros futebóis futsais me jogou essa, me
cumprimentando, me saudando, me alugando, me chamando a atenção, me xaropando:
-
Mosquito, mosquito!...
Dessa
vez eu estranhei e estranhei o meu amigo. Parei de parada fixa. Quando se viu,
meu! Nem boa tarde nem boa noite! Parece horário de mosquito e mosquitos! Mas
peraí!... E comecei a reparar que nem eram só mariposas pelo espaço. Havia mais
que isso. Talvez alguns besouros, zumbidos ‘dziii!, dziii!...’ e outros insetos
campeões. É, podia ser! É, podia ser ou nem ser e ter conter a torpeza baixeza
o torpe obsceno.
Me entretenho,
entretanto, com estas coisas na mente momentaneamente. Entre um passo e outro,
entre um quadrado e outro quarteirão, diante de vitrinas e tendas de
cachorro-quente, lembrei, lembro como se fosse hoje agora de tardinha
noitinha... Me matriculei, recomendação médica, no colégio da congregação das
irmãs do Imaculado Coração de Maria (que existia na época como escola de tempo
integral) instalada ali no bairro Sagrada Família, rua Osvaldo Aranha. O tempo
se foi já passou longe, e ninguém sabe ou lembra de tudo tudo como realmente
aconteceu. Muita curiosidade e mistério com fatos fantásticos e mágicos - tanto
e daí, nestes dias atuais contemporâneos, algumas mudanças políticas à parte, o
atendimento já passou para dois turnos e o modo de contemplar mais alunos. Porém,
aí está!, a coisa mudou por mudar. O que decepcionou muito os professores a
diretora, que esta chorou copiosamente - nem vale a pena polêmica, nem estou
aqui pra bradar imprecar vociferar deblaterar, nem estou aqui para reviver
festas celebrações eventos festivais. Mesmo que ali por perto no colégio e
arredores todos sim eram e estão otimistas. Enfim, a suserania domínio
autoridade poder e a nata da nata social da sociedade local regional nacional.
E quando concluí o escolar eu já atingia 18 anos. Terminado o médio eu queria
independência e procurar um emprego ganhar o meu dinheirinho. Pois é, e assim
se cumpriu, e fui e bati na porta de portão em portal. Lembro que o prédio em
questão, bem plantado cheio de vidro envidraçado fumê (até demais), com certeza
para receber e devolver muita luz natural sem transparecer, tinha e tem 8
andares e estas palavras em letras garrafais na fachada ‘Reificação Automatismo
Fixidez - membros adeptos simpatizantes’. Tudo tinindo e a práxis cromados
frisos suprassumos e cheio das balacas mais-valias faturas duplicatas... Olhei
isto daí e no dia seguinte fui até o balcão de recepção já fantasiado de
formiga-cortadeira formiga-carregadeira içaúba quenquém (as formigas são
operárias colaboradoras empregadas obreiras trabalhadeiras trabalhadoras
diligentes). E da parte deles, a firma empresa indústria, ainda me perguntaram:
“O que você sabe fazer?”
Pensei
telefonar pra Alice e convidar até uma pizzaria em Nova Bassano, por
exemplo, ou mais longe até Vila Maria, quem sabe lá por Santo Antônio do
Planalto, três dias quê, é muito. Eu conhecia Jundiaí? Nem nada, mas poderíamos
ir juntos. Ela conhecia Campo Limpo Paulista? Nem nada, mas poderíamos ir
emparelhados. A escalaminhada até o panorâmico abrangente o alto da Pedra da
Guitarra, uma vez.
E bem aqui, estou
passando meus passos sobre, está corrente correndo sem cessar o córrego das
Polacas. Bem no meio da cidade e de leste a oeste, riacho fio-d’água corgo
levada regato ribeiro veia... até desaguar no rio Sabia. Já canalizado,
praticamente subterrâneo, a partir do matinho no morro em o Centro.
“Oi!... Estou aqui
porque sim é legal!”, confessei me dirigindo, contemplativo.
Logo
o quê! A lua parada no meio da estratosfera. A lua com a cara e cheia de pontos
adolescentes alternados alternativos. A lua nasce de uma árvore, de uma cidade,
de um sétimo andar, de um açude ou sanga, de uma mina ou pedreira, e depende. A
lua desponta no pico do Itaguaré e se banha no ribeirão dos Cristais e se
espelha se reflete na lagoa dos Ingleses. Sempre cheia nova minguante de
esperança expectativa sucesso e mais coisas inauditas, o rosto semblante
radiante transcendente complacente. Satélite catatônico atônito e ergue os
braços e pega agarra nuvens com as mãos.
“Uau!... Ir ao alto ar
vazio é puro!”, senti ganas de conferir e dizer, pensei.
No
fundo da panela, no centro da cidade, e subindo para o bairro São Cristóvão,
antes bairro Santa Cruz, a loja Manaí: calças, camisas, camisetas, calçados,
mesa, banho e com moças atendentes ajeitadas em uniforme verde espreitando da
porta de vidro. Algumas pessoas sentadas na varanda dos apartamentos e tomando
chimarrão. Subir todos os santos ajudam empurram, rastejando rojando. E eu
estava ali pra isso.
Dali
mesmo olhando o teto e se via o céu lá ao profundo contado de estrelas as
campeãs principais exemplares Três Marias. O Cruzeiro do Sul voando na
constelação, crucifixo no peito. Céu campeão cumprindo ordens ou ao secreto
reservado acesso universal. O navio Argos e fulgurante rutilante brilhante
resplandecente, presumido.
Já
por perto da casa do tio e tia e primas - que eu nem ia entrar pra tomar um
mate e bater um papo, deixaria pra uma outra vez, quem sabe! -, por ali nessa
altura, uns carinhas que desciam na contramão, e eram uns quatro em algazarra
folia balbúrdia vozearia, um deles me olhou riu e disse uma velha canção da
moda e que só podia ser esta alegoria ou fantasia ou palhaçada e metamorfose
aérea alada ou engajada:
-
Mosquito, mosquito!...
Passei
por eles, eles quatro passaram por mim, eu parei, foram indo, esperei tomarem
uma distância, e xinguei cobras e lagartos com arame farpado. Em voz baixa,
claro. Chegando a uma única conclusão possível, tétrica horrível, e até mesmo
lúdica:
“Me
deram apelido de Mosquito e eu nem imagino. É, é isso mesmo. O que é brabo de
desnastrar soltar desenastrar destrançar desprender desatar. Ou sei lá, né?!”
Me
sentia já com certo cansaço e meio requentado pelo corpo inteiro. A caminhada
fora de uns três quatro mais a volta de uns três quatro quilômetros. O normal o
de sempre, mas cansa, cansou. Tudo bem, era isso mesmo. Obrigado! Parabéns!
Já puxei para uma boa
saudade de beira-mar e bramar erriçar rugir encrespar estrondar regougar
rebramar. Que praias a praia da Joaquina a praia do Forte a praia da Daniela a
praia Brava a praia Mole a praia dos Ingleses... Jogar bola na areia caminhar
nas dunas comer peixe frito com limão espremido na barraca da tia Larada. Pegar
o sol sem uma nuvem, pico auge pique, e mergulhar mergulhando a cada onda -
pélago alto-mar pego. A ilha das Garças... o rio Aribiri... o parque de
Jacarenema... E renegar descrer abjurar. A matrícula aulas apostilas exames
concurso, faculdade.
De pronto passei sem
demora de repente passo em frente, morou ou mora?!, e olhei a casa da fulana da
beltrana da sicrana uma tal e qual Ana Paula: dos meus encantos dos meus
estudos dos meus flertes dos meus cuidados dos meus... que meus?!
Olhei
de perto a padaria Itaguari. A padaria com vitrines rebrilhando, e motivos
natalinos, heras imitando plástico, pinheirinho imitando plástico, nuvens
imitando algodão, bonequinhos imitando família de Belém do Pará. E pensei
entrar por que nem entrar. Um pão de queijo, um pastel de queijo, uma fatia de
bolo de fubá, uma fatia de torta de chocolate, um suco de açaí, um suco de caju,
um caldo de cana. Parei no vidro como um inseto díptero. Fiquei trocando
sabores entre um bolo de laranja e um bolo de pequi e um bolo de milho. Pensei,
calculei oito ao quadrado, muito, assaz, bastante, foram três voltas ao mundo
pensando. Testa franzida no esforço de degustar: “Sim, daqueles mesmos!” Justo
agora justamente crebro frequentemente repetidamente amiudadamente. Me sugeri
entrar e comer uma massa-folhada ‘huuumm!...’ E decidi mesmo passar vontade e
seguir adiante embora. Oxalá! Meus aplausos ‘plaque!, plaque!...’ e resisti,
resistir ao primeiro impulso ao primeiro olhar. Queria comer qualquer coisa
doce porque estava em fase de crescimento. Paciência!
O
cãozinho, estirpe raiz genealogia tronco familiar, cheirando pela beira da avenida
Cônego Peres. Meio de lado no trote das quatro pernas e orelhas e cauda. Me
apareceu ali na entrada do posto de gasolina. Pareceu me evitar. Olhou para o
latão frente do hotel e continuou pela mesma rua, pelo meio-fio. E estava o
mesmo vira-latinhas de manchas pretas e brancas, cauda aérea em arco, língua
pendente, orelhas grandes, língua de fora, olhar esperto manhoso escarninho e
de zombaria troça menosprezo. Os autos carros metálicos índoles caracteres de
600 cavalos mais 5 velocidades, preços escorchantes abusivos caros e última
geração, passavam ensurdecedores roncavam ‘róm-róoomm!...’ volúveis levianos
frívolos “uaaaau!...”
Quanto tempo
caminhei... a caminhada 1h e meia, 2h e 45min... uns 3km e meio, 4km... E numa
escala de zero a 10, qual minha nota? Talvez pela satisfação do cansaço eu me
premiaria com a nota 8. E os pensamentos foram bem duros ferrenhos férreos
implacáveis? Prestigiei e fui, ida mais volta, espalhar dissipar as meditações
imaginações possibilidades e desaparecer dispersar desfazer as ideias. Os temas
conteúdos teorias esquemas... Tudo meio que em ritmo apurado acelerado
frenético de última hora... Pois sim e nem e talvez!
A mocidade e ternura e
formosura e fulgor e gorjear... Beijos recendentes sabores perfumados. E que
acordam árvores e paus-pereiras-do-campo, pindaíbas-pretas, barbas-de-paca,
alecrins-de-são-josé, sapupiras... uns passarinhos incidentais e
besourinhos-de-bico-vermelho, araçaris-pocas, choquinhas-de-garganta-pintada,
pica-paus-de-banda-branca, risadinhas, viuvinhas... rios corredeiras cachões
turbilhões borbotões tombos de água... montanhas penhascos promontórios
elevações proeminências... até alcançar as estrelas. E na terra no céu no mar,
terramarear.
“O rio Puruba (Ubatuba,
cerca da rodovia Rio-Santos ou sp-055) e o rio Quiririm deságuam na praia de
Itamambuca”, pensei visualizei me sugeri me inspirei.
E quase todas as ideias
aleatórias ou voláteis foram expostas usadas gastas testadas desenhadas costuradas
dedilhadas compradas vendidas transformadas... E acho que 75% delas, entende?! Meio
ambiente (clima, ar) estrelado (ameno, aprazível).
Passei
por baixo dos araçás-de-coroa em a calçada perto de casa, na calçada de casa,
abri o portãozinho e tal. Os barulhos de cadeiras sendo arrastadas e televisão
e vozes domésticas os sons descontínuos descoloridos incolores... E cheguei em
casa, e fui subindo a escadaria, abri a porta, o quarto, o cômodo, a peça, e
fui direto tomar meu banho, e me olhei no espelho de passagem... mas... sensacional...
peraí, meu!...
-
Mosquito, mosquito!...
Olhe repare o meu estupor assombrado,
cara! E era e estava e comparecia de pungir picar espicaçar até incitar. Foi sim
o que resmunguei comigo mesmo ali no meio do espelho que me devolvia que me
descobria que me destratava que me deslumbrava:
- Mos-qui-to... – e me pus um
dedo – psiu!...
E mais mosquitos. O boné... Nunca,
nem era possível, chapa! Nada tinha acontecido comigo! Meu boné da torcida
estava sujo de procedimento de passarinho, mano! E um enxame de mosquitos
rodeava, acompanhava, usufruía desfrutando, talvez de onde, me seguira desde
sempre me seguiu seguia desde lá, a caminhada toda... uma sujeirinha branca
rodeada de insetos atrozes assombrosos monstruosos assustadores, em usufruto e
consumindo displicentes usufrutuários.
Pensei, repensei onde teria sido o acaso
o incidente... Só podia ter acontecido na hora que fui roubar cerejas da cerejeira-do-mato,
intuí. E o passarinho ou coruja ou morcego, dono do pedaço, acabou se vingando
e me sujando, só pode poderia, deduzi. Aquela risada ainda ressoava nos meus
ouvidos ‘ihihihih!...’ E o aladinho tinha feito atrevimento desfaçatez
desplante insolência ousadia no meu boné de time de futebol, etc. E a
sujeirinha atraíra os insetos ‘vizi!, viziiii!...’ e os danadinhos ‘dzi!,
dziiii!...’ ficaram me acompanhando o itinerário todo a caminhada. E o pessoal
da rua tentando me alertar me antecipar me notificar me precaver me acordar me
delatar:
- Mos-quito, mosqui-to!...
Que
pena! Que sorte! Que mico! Que nada! Que mala! Que fuga! Que tudo!
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