sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Danhamica

 


 

            Era uma vez...

            E ‘era uma vez...’ é uma excelente notícia.

Sempre andando o caminho, atualizando o placar, testando o vigor, melhor compondo a minha forma, adaptando a fé, temperando a filosofia, desligando a ousadia, acondicionando a ansiedade, abastecendo a coragem... Que me lembro, é isso.

A manhã a tarde àquela hora cedo tardezinha o local já estava dia noite quente frio chuvoso seco ventoso calmo o tempo abafado enfadado encardido climatizado...

            Peguei meu boné bicolor, sempre de boné e tudo bem. Quando é calor, bermuda e camiseta manga curta; quando é frio, calça e blusa de abrigo (conjunto esportivo); quando é chuva, guarda-chuva e capa impermeável. O calçado um par de sapatos-tênis (fabricado em a ilha da Pólvora, Vitória vitoriense, ES espírito-santense capixaba) de couro amaciado como se deve usar com conforto e segurança e bonança.

            Oh, que milagre! Nasci num ano de copa do mundo em que o B ganhou. De modos que nem poderia nem posso, de 4 em 4 anos, esquecer o que tenho de relembrar de copa em copa. No cômputo geral cálculos contas contagem. Os aplausos ‘pleque!, pleque!...’ e vivas ‘uh-huuuu!...’ estrugem e repercutem e abalam e cascateiam...

            Surgi totalmente dentro do bairro São Cristóvão. E faço as caminhadas. Estou fazendo ultimamente. O seguinte roteiro: vou pela avenida Placidina de Araújo, das iatás e pirimas e açairanas; vou pela rua Flores da Cunha, dos ipês-amarelos; flecho a praça do Suribi, dos angelins-pedras e marimaris e palmeiras-piaçabas - e volto pela avenida Borges de Medeiros, dos jacarandás-cabiúnas (estas árvores, em fila indiana, em a temporada de novembro e dezembro, vivem cheias de flores e atapetam o chão); a rua Visconde de Parnaíba, das violetas-do-brasil e feijãozinhos-bravos; a rua doutor Almeida Lima, dos castanheiros-do-brejo e rabos-de-jacaré; reafirmando o bairro da Mooca. São as ruas mais incríveis e que vão fora a fora da cidade, praticamente.

Ao largo e ao longo das ruas. E nem caminho todos os dias, mas muitos dias no mês e durante o ano todo. Talvez com arrebol pôr do sol ou nascer. E no arvoredo (devesa) florido e vi vejo várias aves cantando interpretando mantendo território e os fogo-apagou, papa-formigas-de-grota, macurus, pintassilgos, sanhaços-frades, tiribas-de-testa-vermelha, tico-ticos-reis... Os km são a prova de que as vitrinas ajudam!

Naquele dia campeão pretendia cumprir esse mesmo tema: ir até o centro visitar o Horto e voltar suando e bastantes árvores, casas, lojas, pessoas a pé ou bíci...

            Eu aprecio muito isso e raramente vou à noite. Posso andar na boca da noite, de tardezinha, o sol fraquinho, o sol descendo, o sol no horizonte, o sol com preguiça. Prefiro ir sempre pela manhã, quase cedinho, preferencialmente das 8h às 10h.

            Será que já morei numa montanha ou serra da Mantiqueira? Resende, cachoeira da Água Branca, o viaduto ferroviário da Fumaça. Nevoeiro nuvens espessas bulcães bulcões bulcãos em redemoinho e nimbos-estratos nimbos-cúmulos carregados de água. O vento dançando com plantas e pássaros; o som remoçando com aves e vegetais. Além, notas melodias gracejos harmonia arpejos que aves perfumam e plantas cantam.

Aquele dia estava se saindo assim ali pelas dezessete horas. Tudo bem. Pássaros flechando pra cá e pra lá a todo instante e joão-de-barro, coleirinha, cricrió, pomba-de-espelho, arapaçu-de-bico-preto, sanhaço-cinza, tiziu, cochi-de-garganta-branca, colibri, tchintchorrintcho, corruíra, bacurau... Um gavião-carijó levitando peneirando no espaço em branco, brincando na corrente de ar quente. Raras nuvens brancas esgarçadas e um rastro de avião comercial... algodão algodoando, vamos dizer assim, a abóboda celeste. Uma fabriqueta apitou em antologia época autorias coleções seleções florilégio...

Energias magnéticas, elétricas, caloríficas, luminosas, ondulatórias, radiantes, hidráulicas, cinéticas, nucleares, teatrais, pendulares, cósmicas... e o que mais, etc.

            Nem vou caminhar necessariamente para pensar, mas o pensamento vem e às vezes me governa. Vou trocando pensamentos e olhando ao redor. Com o que tenho com o que vejo com o que ouço com o que acaso... Nem tenho a pretensão de encontrar o nirvana. Síncope de sílabas. De dia o leste para o oeste, de noite o sul para o norte.

            O sol nasce, pelo menos uma vez por dia, quase sempre do mesmo lado no mesmo ponto mesmo ângulo. Acontece com o sol com a lua. O sol vem e vai, mas nem se muda, nem se transmuda, mudo ou eloquente ou catalisador ou épico. A lua de mistérios empanada e o sereno aljofre orvalho zimbro e prato ou queijo ou espelho ou lagoa Redonda ou cachoeira Salto de Braçanã ou rio Jucu ou serra do Sambê...

            Todo mundo sabe disso, mas às vezes se esquece. Quando deixo o carro e vou a pé já sei que me reconheço melhor. Tenho-me lembrado e sim talvez nem!

Enquanto vou pensando, quando penso em qualquer coisa que me vem à cabeça. Quando nem penso em qualquer coisa, penso em pensar qualquer coisa ou me esqueço até de pensar. Ou penso sem saber sem querer muito levemente suavemente placidamente. Pitangueiras cheias de folhas e adornos de pingentes pitangas. Vez ou outra procuro pensar um pensamento invisível com cheiro de guria... dileta querida. Outra vez é um labirinto e que nem acho o pensar e nem encontro o que pensar e o pensamento me dribla pedala sem eu saber sem eu querer. Vazão esvaziamento e futilidade fútil e inânia vacuidade vaziez.

O dia marcado, eu descia a travessa do Saruê, por trás do colégio Onze de Agosto, tarde macia, e um cachorrinho malhado preto e branco começou a me seguir me acompanhando. O sol em idade de decrescimento desprendimento. Quando olhei para trás o cãozinho descalço fingiu e nem me olhou. Mais um pouco ele passou por mim cheirando o chão de paralelepípedos. Passou por mim, nem me olhou, fingiu nem me perceber, etc. Seguiu na frente, na minha frente, em frente, a cauda alçada em arco orelhas agitadas o faro ativado farejando tudo. Parava a cada latão de lixo e ficava cheirando ao redor. Saía de um lado e já procurava ia procurando para o outro da via.

Eu gosto de pensar enquanto caminho. É bom pensar coisas amenas leves conformes. E sempre se arranja algo para pensar até mesmo sem querer sem precisar sem concluir sem me incluir sem digerir. A diferença entre uma lesma e um caracol. Prefiro as coisas surrealistas pra pensar. E tem gente que até gosta de caminhar ouvindo música, por quê?, já porque nem precisa pensar e tem gosto pra tudo.

Será que já morei no distrito Cidade Dutra, subprefeitura Capela do Socorro, rua Ubatã, hein?! Uma tarde de sol assim... E seria jovial contente alegre folgazão? E seria trivial vulgar corriqueiro repetido? Será que moraria Vila Velha vila-velhense canela-verde, claro! E seria secreto arcano misterioso enigmático? E seria degredado desterrado exilado? E seria esperto educado gentil? E seria geólogo dentista psicólogo?

            O que eu mais gosto, nessas horas de pernadas, é pensar uma ideia completamente complacente. Complacentemente, que eu digo, é uma ideia fora do meu dia a dia fora de sistema. Por exemplo. Como seria bom e confortável e prático e saudável se eu acertasse na loteria. Fora do problema. E faço já uns planos de milionário ricaço. Se eu fosse riquíssimo teria fazenda no bairro Gomeral (rechã altiplano platô) a cachoeira do Espigão (píncaro alcantil precipício desfiladeiro) ali entre Guaratinguetá e Campos do Jordão o vale do rio Paraíba do Sul (barrancos ribas ribanceiras). Se eu fosse milionário rico, voaria sem demora no meu jatinho campeão até São Paulo no estádio Morumbi estádio Pacaembu pra ver o meu time gaúcho ser nacional. E pilotaria o meu jatinho particular, junto com mais os amigos e as amigas e os comes e bebes, e iria dar um bico até o Japão ver meu time brasileiro ser internacional. Num futuro nem muito longe nada distante em breve, próximo episódio, será seria interestelar.

            Vou caminhar sempre que posso. Ultimamente é isso que vem acontecendo. Vou me distraindo, olhando as coisas, e eu olho os prédios de sete andares, os carros de lanterna acesa, um ou outro buzinando buzinaço ‘pi-biii!...’ e dando “adeus!...”, bicicletas, gurias interessantes com muito cabelo até os ombros e franja caída nos olhos, vitrines com livros da moda, cachorrinhos acompanhando senhoras em passeios pela calçada, penca de pessoas paradas frente às vitrines, curto uma guria de cabelo curto azul, outros entrando para tomar sorvete, rangeres apitos clangor clangores sons estridentes, estudantes com mochila nas costas e celular no pé do ouvido ciscando...

            Saí para a caminhada que gosto que sempre faço sempre que posso. De manga curta e bermuda. Caminhante experimentado tarimbado. A tarde rebentando e se fazendo noite daquele jeito, naquele dia, estava tépida. Tépida? Tépida. A boca da noite campeã estava quente agradável tranquila, muito tépida. Aqui e ali vaga-lumes pirilampos taxiando entre as moitas de vassourinhas-do-campo, fedegoso, são-joão, cinzeiros, guamirim-felpudo, carijós, jaguaramurus, maria-pereira araxixá...

            Ainda na descida rumo ao centro, rua general Flores da Cunha e tal - os ipês-amarelos e nessa hora bem tão amarelos, ou amarelos naturais -, nem contive minha gulodice e parei e subi no pé da cerejeira-do-mato, ali na beira da calçada, ali sob o foco de luz do poste e para apanhar um punhado de cerejas pretas de tão maduras.

É meio atitude de guri de piá fazer uma coisa dessas, mas como ninguém estava vendo, tudo bem. Nem olhei pro lado pra ver e ter certeza se alguém me cuidava. Porém, um passarinho que já estava recolhido ali entre os galhos ficou assustado, confuso, irritado e reclamou ‘pri-pri-priiii!...’ (Um passarinho queixoso quérulo ou uma coruja encoberta oculta embuçada ou um morcego macerado mortificado atormentado um noitibó exânime desmaiado, sei lá - nem deu pra ver direito, nem vi muito bem na hora do tal lusco-fusco -, mas só podia ser). Como piou na língua dele ‘tri-ri-riiii!...’ e eu nunca entendi, deixei ele piar sozinho, guinchar à vontade, bater as asas irritado, rir ‘hihihihi!...’ solito no mais, e continuei minha caminhada perambulante peripatética.

E fui descendo a rua comendo as frutinhas que muito me vinham na lembrança da infância pelos matos e capoeiras do bairro São Cristóvão e do bairro Retiro e bairro Três Mártires (regiões s sul e so sudoeste de Nova Prata). “Hum!...” que o sabor estava devidamente saboroso apetitoso suculento. Achei mesmo que o passarinho se riu ‘hehehehe!...’ em motejo, gargalhou ‘kjá-kjá-kjá!...’ em troça, achei achista acho achismo achadismo. Que um tal extraordinário entrou habitar se habituar ao costume!

O sol é mecânico dinâmico autossuficiente. O sol na verdade nem para de andar de um lado a outro dentro de casa - deste para aquele outro lado do mundo. Você pode requentar ao sol requestar pedir solicitar. Tem gente que se esfalfa fadiga-se se extenua. Porém o sol está sempre declarado prestes disposto ao alcance preparado pronto presente presença. O sol pula ribanceira paredão muralha barranco penedia. O sol os sóis concorda acordo com o mundo; e a jornada lembra o dia a dia, em a hora h.

            Passei em frente à parada de ônibus dos alunos do colégio NS Aparecida, umas 17h e 42min, dia decrescendo, hora campeã, fui caminhando sossegado, nem sou de correr nem fazer o trote,  noite crescente, fui caminhando pela calçada, olhando o chão para nem escorregar e nem tropeçar e nem atropelar e nem ser atropelado e nem pisar em procedimento de cachorro. E já passando e ainda passei de passagem ali pela parada do ônibus escolar quando uns brincalhões, no estilo porfiar contender discutir altercar, começaram a cascatear ‘trá-clá-cláaa!...’ qualquer algo típico tipificação coisa do tipo:

            - Mosquito, mosquito!...

            Nem te ligo!, nunca é comigo, pensei na hora. E nem pensei duas vezes em mim, nunca pensei em nada, olhei pros postes iluminados que atraíam mariposas engraçadas. Apesar de ter achado exagero, eu nem me voltei para olhar a galerinha vaiar ‘iuuupê!...’. Por que nem vão então pra casa jogar vídeo gueime, hein?! Pensei e nunca falei, e achei mesmo que era um pensamento desarrazoado e que a vaia nem era cabida e nem dirigida a mim totalmente descabida. E procacidade insolência.

Continuei caminhando e tranquilo, na minha, subindo o morro, já do outro lado da cidade e passando pela igreja Matriz em honra a São João Batista e NS Aparecida e a Santo Antônio. Edifício em estilo neoclássico ou neogótico e empedernido petrificado.

            Olhei para o alto da igreja de duas pontas duas torres e o campanário lá atrás com relógio na face leste. Pois descia ali um casal de curicacas... até pousar com calma no telhado do templo. As aves gigantes escolheram descansar ali e ninguém tinha nada com isso. Aterrissaram mesmo naquele enfeite em pontas apontando para o alto do céu já escurecendo e àquela hora. Pousaram e ficaram olhando. Os braços e mãos nas costas. Como par casal bonito e esquisito claves de sol. Um bando de andorinhas, pilotos pilotando jatos supersônicos, declarou a guerra ou ataque ao telhado de zinco. De mais em mais ‘tsim-tsim-tsim!...’ tanta e quanta parlapatice parra palavreado.

E prossegui contínuo continuei andando porque era bom caminhar e a noite estava boa e crescendo campeã se aproximando. Se acaso encontrasse a Ju, hem?! Meu, seria ideal e eu nem teria condições de pensar em mais nada de nada e amém. Se encontrasse os meus amigos João e Cade e Rogério poderíamos jogar conversa fora até secar uns chopes e dizimar aniquilar umas tais e quais porções de batatas fritas.

Um copaié uma abutua-grande um estape uma iricuruna subindo sobe desde muito entre a aba da casa verde de olhos azuis e o muro de branco na rua do Basalto. São árvores boas de se ver. Ramos para o alto e folhas aéreas, procurando o espaço. Na aparência, ótimas de saúde. Vegetais altos e copados. Autoestima astral astronáutica.

Oh, que milagre! Lembrei lembro a região icônica. Região icônica e desfiladeiro cânion passagem apertada entre os contrafortes garganta o pico Alto Lavrinhas o pico do Ataque... o córrego Milho Vermelho o ribeirão Itabaquara o rio Sapucaí o rio Guarapari... Asas cantando palrando chilrando flores cantando ciciando árvores cantando grugulhando... Na copa coma da almecegueira-de-minas a mazorca tumulto baderna asas ruflando ruflar de tucanos-de-bico-verde, pula-pula-assobiador, joão-porca, choquinha-dublê, mariquitas, pi-puí, arapaçus-verdes, beija-flores-tesouras...

Quer ver?! E fui sempre no meu passo, comportamento modesto, fazendo a minha caminhada e tal. Os pés avançando pelas lajes da calçada, contando as pedras, um saquinho de plástico “por favor, me jogue na lixeira!” meio que atiçado pela brisa. Um pouco de tensão na batata-doce da perna direita, mas isso me era lesão passageira.

Vozes cantigas de aves tagarelas, conchavadas

Sons risos de passarinhos no parapeito do jardim, acordados

Asas aladas e as frutas doces agridoces, mancomunadas

Paraíso amores e relicários de D, combinados.

            Pela frente do boteco Pirajá, passando na calçada de pedra basalto, olhando para dentro como de hábito, ouvi o pessoal ali conversando, vi uns tomando traguinho, outros fumando porta pra fora, a tevê ligada na reprise do futebol, ouvi conversas sobre futebol, sobre a troca de treinador compra de jogador meio do campeonato e veredito decisão sentença... Fui observando da calçada, passando no meu passo de jabuti sossegado, fui vendo e ouvindo pouco mais coisas, diz que me diz que, disse me disse...

            Já sei, ainda tive tempo de verificar pensar comigo: estes tipos chegam em casa, estes aloprados, conversam dois minutos com a esposa e os filhos, e o cônjuge f já percebe que calibre de álcool tragaram que tira-gosto que petisco engoliram ingeriram:

            - Ora!... Mas onde você estava que comeu salame e queijo no palitinho?

            - Uta!... No Pirajá, e revendo os melhores momentos lances dos jogos da rodada!

            E antes que me esqueça, foi de dentro do Pirajá que um tipo que ainda nem identifiquei até hoje - e se era meu conhecido ou meu meio conhecido ou meu desconhecido, sei lá! -, gritou pra fora, talvez na minha direção, chutando el balón:

            - Mosquito, mosquito!...

            Fiquei intrigado... em câ-ma-ra l e n t a... e olhei em volta os 360º degraus, olhei para trás, olhei os pés, olhei o céu enaltecendo enaltecido... Que será, meu?! Será que é comigo ou estou com mania de perseguição?, recontei. Deixei pra lá, dispensei, desencanei. Podia ser o apelido de alguém. Eu nunca tive apelido de Mosquito, ué!

            Ali do lado uma cooperativa agrícola já dispensava seus colaboradores. O pessoal estugava o passo. E confrangidos constrangidos tolhidos embaraçados pigarrentos. Compravam vendiam pra muita gente muitos lugares e Brumadinho e Ipuã e São Joaquim da Barra e Mogi das Cruzes e Marataízes e Rio Acima e Cariacica cariaciquense... Vozes esganiçadas estridentes proletárias. E exportavam importavam muito desde Guararema, Orlândia, Morro Agudo, Raposos, Serra serrano, Biritiba Mirim biritibano ou pequeno ajuntamento de juncos ‘povo unido e horizonte definido’. D estava servido, se D quiser!

            No céu uma lua seca, redonda, novidade, plenilunar plenilúnia, notívaga e platinada. Pulou de repente que até me fascinou. Umas estrelas por trás do mundo, vamos dizer assim. Nunca tive tempo de contá-las. Nem quis arriscar o compasso. Alguns carros estacionados em diagonal junto ao meio-fio, as placas de alguns países próximos do planeta Terra e Dois Irmãos, Cotiporã, Vista Alegre do Prata, Erebango, Vila Flores, Barras-pi, Fagundes Varela, Protásio Alves, André da Rocha, São Jorge... O vento soprando calminho nas folhas dos sapuvuçus, e nas palmas da pindobeira... A Vênus estrela Dalva e em surdina calada em voz baixíssima, tipo tipaço planeta telúrico.

Uma casa baixa de madeira com uma vaca de fibra de vidro decorando a varanda, fetichismo feiticismo. E eu olhar para as árvores me faz bem. Nada, nem ia chover, talvez amanhã, pensei, só lá em o próximo sábado, catapultei. Sempre chove no sábado que é pra alegrar a atmosfera do fim de semana. Contando cada quadra uma lua exótica. E aquele fim de semana seria... e tão somente porque estava...

Levemente pensei telefonar pra Alice e sugerir jantar fora na pizzaria ali em Veranópolis, por exemplo, ou mais pra lá em Caxias do Sul, ou ainda mais longe em Nova Petrópolis, fazia sempre toda vida muito tempo três dias quê...

“Bom, interessa sim. Importa muito, sabe?!”, pensei calculei temperei.

            Passei passamos em frente de uma loja amarela com a tabuleta explicando no alto da entrada: ‘A Hixcariana, morada cantinho dos bichos de estimação e mascotes’. E um cãozinho colorado latiu ‘tau-rau-rau!...’ por dentro do cercadinho de ripinhas pintadas de azul e branco. Discorria queria dissertava escolhia ‘lau-lau-lau!...’ uma peleja prélio combate? Me visualizou, tentou me cheirar, se dirigiu a mim, me uivou ‘uh-uuuu!...’ me interpretou com desprezo surpreendente, ergueu o focinho especulando e me latiu ganiu ‘au-au-au!...’ na língua fácil dele que eu já traduzi na hora, assim:

            - Mosquito, mosquito!...

            Nem acreditei, claro. Desde quando cachorro late coisas traduzíveis, legendáveis, dubláveis?! Isso nunca existe, meu!, pensei. Que remédio! Que disparate!

            A primeira vez... eu ouvi. A segunda vezinha... eu olhei pros lados e em redor. A terceira vez... esta última vez rosnada... eu já fiquei grilado e muito cabreiro. E 3 três vezes, pai filho espírito santo - santíssima trindade.

“Oie!... Estância Hidromineral de Lindóia, meu!!”, embasbaquei soprei surtei.

Mas continuei subindo o morro pela calçada de cá e a rua Silvério Gonçalves com a rua Augusta Berta em a Vila Maria Luisa. Acontece com a lua com o sol. Os guabijus campeões estavam largando frutinhas pelo chão que era uma barbaridade. Tentei alcançar umas quantas nos galhos e estavam muito altas e era perigoso escorregar, mas... mas peraí, meu! Me caiu a ficha. Que história foi essa de cachorro latir em português?! Nada, nem era uma boa hora para ficar imaginando coisas do desenho animado. Nem era momento para ter esse tipo de absurdo no meio dos pensamentos. Eu estava surtando, estava sonhando extraordinários, levando o mundo na brincadeira, caminhando com ideias na altura das nuvens... e só podia ser. Quase voltei falar com o guaipeca, mas resisti, desconversei, disfarcei e aí repensei... sei lá, né, meu!

Será que eu já morei perto do rio Itapanhaú?, digo. Sim, porque tenho saudade de morar e correr e subir em árvores andar as trilhas no meio da mata. Cruzar o córrego Ligeiro o ribeirão Guacá... O famoso parque dos Três Picos... De momento em momento pegar atascal atascadeiro lodaçal. O ambiente se transfigurando e falange multidão legião de aves e inhambuguaçus, mergulhões-pequenos, sabiás-pocas, juritis-pupus, pitiguaris, papa-lagartas-acanelados, saíras-de-papo-preto, garrinchas...

            Na esquina da avenida Júlio de Castilhos com a avenida Presidente Vargas, passando esbaforido pela frente da barbearia Anaiá, o próprio barbeiro seu Aracati, nariz adunco agudo aquilino curvo recurvado em gancho, me olhava da soleira da porta e me acenava com a mão dele. Tinha ideias conhecidas de todos e nota verba comentário apontamento. E ele repetiu um refrão com a voz arrastada igual à dele mesmo, um bordão que vinha me acompanhando e me seguindo pela caminhada nem sei desde onde e por quê, alguma coisa que eu ouvia e nunca assinalava nem assinava nem assimilava, igual esse estribilho de engaste ou enfeite embutido e o mesmo:

            - Mosquito, mosquito!...

            Mas será que é o pé da cobra, meu! Isso é comigo ou estou piorando?! Onde se viu tamanha viajeira, seu! Que osso caro de roer, tá ligado?! Eu pensava essas e outras e me questionava. Mas também pensei que a rua é pública e democrática e campeã e qualquer um pode gritar o que quiser o que vier à telha. Se hoje ali agora naquele momento nem gostavam de mim... Bem, o lema: ‘se qué qué, se nem qué, deixe!’

E quase voltei pedir maiores explicações ao seu Aracati, senhor perfil trêfego trefo manhoso esperto. Olhei para trás e ele havia sumido. Olhei para os lados, olhei as solas dos tênis, olhei para trás outra vez... Ufa, continuei a caminhada. Hum!... será que era a dengue? Ué, será que era o saruá saruamento envultamento enfeitiçamento? Que será esta história de mosquitos, pernilongos, borrachudos, hein?! Nem pode ser comigo, pensei, nunca tive esse apodo. Será que todo mundo estava aloprando?, repensei.

            Olhei a lua lunática, e já se desprendendo se exsurgindo se levantando se erguendo. Agradecer àquela noite como aquela noite. Sem aquela noite inicial iniciando a lua nunca seria necessária, nem seria possível, nada seria impossível. Os macaréus, tipos de ondas do mar, fazendo estrupido estrondo barulho rumor estardalhaço estrépito... As marés maceiós parcéis esparcéis recifes arrecifes abrolhos escolhos... Olhe, de vaga em vaga a procela tormenta borrasca o temporal tempestade tropical...

            O mundo dá voltas e retornos. O tempo nunca passa. O rio corre para a foz. Depois, pensando bem, o rio tropeça em algumas cascatas, o vento faz o tempo revoltar arrepiar, o mundo nem sai sequer das idas e vindas e giros de um globo autodidata.

            Assim pensando repensei os sonhos. Oh, que milagre! O ribeirão do Itaim o córrego do Capinzal o rio Itatinga... bem servidas as comunidades de Iconha e Itabirito e São José da Bela Vista e Guará e Salesópolis... De momento em momento, o céu o cume páramo abóbada celeste o firmamento, a região icônica de Anchieta e Itapemirim e Rio Novo do Sul... o córrego Santa Fé o ribeirão Rosário...

            Parei na subida do morro, lado de lá o norte. Ali num degrau da escadinha da gruta em homenagem a NS de Lourdes, parque do Horto. Respirei uns cinco minutos, dez minutos, talvez vinte, respirei, bebi água mineral da garrafinha, sentado no banco de madeira em verde-escuro, olhando a noite com ruídos de noite, carros rodando em a rua coronel Virgílio Silva, tevês nos telejornais com volume no talo, olhando a cidade campeã um pouco do alto. Estas ruas combinam comigo com meu ritmo. Que ritmo? Meu ritmo moderado. Era legal e eu apreciei e aprendi apreciava e me diverti. E se eu fosse um pássaro curiango-tesoura poderia me recolher e tentar dormir ali mesmo entre os braços galhos folhas de uma frondosa cacau-do-mato, vamos dizer!

            O vento soprava às gavarrécias aos caaxiras, marmeladas, sapopemas, angicos, cragoatãs-brancos, paineiras, arcos-de-pipa, paus-terras-do-campo, cipós-de-gato... Noite astronômica astrofísica, atribulada aflita passando distintas adversidades. De ninho em ninho, as estrelas ficavam estavam sideradas estarrecidas fulminadas e comparadas e mais algumas extáticas de difícil ansiedade. Era outra coisa, que coisa!

Tinha até um pinheiro araucária campeão falando com a lua bola de prata. O pinheiro abria os braços e brindava taças. A lua tirava fotos com o celular ‘pleche!...’ Depois conversavam conversaram mais um pouco, certos macetes. O pinheiro nem ia embora, dialético contraditório. A lua nova, grinalda capela de flores na testa, e fidalguia evidente evidenciada.

“Hein?!... As flores-de-babado-de-nossa-senhora!”, pensei na hora do espanto.

Será que em Aquidabã essa hora da noite, será que lá está chovendo?, pensei. A hora era a mesma, entardecer decidido, talvez um pouco mais cedo. Aquidabã devia ser legal, Aquidabã supercampeã, continuei pensando. Aquidabã tem um nome bonito. Deve ter uma pracinha chamada praça da Bandeira ou praça Tiradentes ou praça Landell de Moura ou praça padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e ou parque do Catimbau a cachoeira do Toldi... e cumprimentos clamores ‘uaaau!...’ agradecimentos aplausos ‘plaque!, plaque!...’ jovialidades facécias o bom humor.

E o ar que se respira e a água que se bebe. Passaram duas potrancas no trote. Uma delas tinha rabo de cavalo, a outra uma faixa de pano branco segurando as crinas. Trotavam num galopar esquipado como duas bonitas azulega e baia.

“Uh!... Quero ser um passarinho sanhaço-papa-laranja e acordar às 5h e 15min!”

A praia de Arambaré. Que será que é. Nunca fui, um dia irei. Tem que estar ventando por lá, pensei. Fazendo ondas no mar. Lugar de sorte. Hoje agora é cedo ou tarde em Arambaré? E principalmente, Arambaré foi achada o morro do Elefante foi encontrado o ribeirão Jaracatiá foi nomeado o pico dos Marins escalado em escalaminhadas a ilha de Itatiaia foi povoada de capivaras o parque Morro da Manteigueira pincelado o farol de Santa Luzia no bairro Praia da Costa foi turistado...

E bebi mais um gole de água e me ergui e vim embora. Tudo estava bem. Queria pensar algumas coisas. Fui pensando o que pensar. Se a ideia perfeita nem pintasse, paciência. O que fazer nas férias de janeiro: pescar pirabas na beira do rio Carreiro, acampar na beira do rio da Prata, nadar nos remansos do rio Itacaiúnas, remar canoa nas corredeiras do rio Cacondé junto das terras dos oro-uim... E Guarujá a ilha de Santo Amaro o canal de Bertioga. E o monte Aghá a praia do Corujão a praça Dona Carmem. E preconizar proclamar recomendar aconselhar Piúma piumense, São Gonçalo do Amarante, Sabará, Várzea Paulista varzino ‘torno-me grande com a graça de D e do povo desta terra’ (cidade das orquídeas), Nova Lima nova-limense... Já eram uns três para quatro quilômetros de caminhada, lua matemática, meia-volta volver. E tudo bem!

            Entrei pela rua Pinheiro Machado e mais adiante pegaria a rua Visconde de Mauá até topar com a avenida Borges de Medeiros. De volta todo santo ajuda. A lua flutuava, chutada pra fora no espaço. Pela altura passei ali em frente do ginásio do União e um camarada de outros futebóis futsais me jogou essa, me cumprimentando, me saudando, me alugando, me chamando a atenção, me xaropando:

            - Mosquito, mosquito!...

            Dessa vez eu estranhei e estranhei o meu amigo. Parei de parada fixa. Quando se viu, meu! Nem boa tarde nem boa noite! Parece horário de mosquito e mosquitos! Mas peraí!... E comecei a reparar que nem eram só mariposas pelo espaço. Havia mais que isso. Talvez alguns besouros, zumbidos ‘dziii!, dziii!...’ e outros insetos campeões. É, podia ser! É, podia ser ou nem ser e ter conter a torpeza baixeza o torpe obsceno.

            Me entretenho, entretanto, com estas coisas na mente momentaneamente. Entre um passo e outro, entre um quadrado e outro quarteirão, diante de vitrinas e tendas de cachorro-quente, lembrei, lembro como se fosse hoje agora de tardinha noitinha... Me matriculei, recomendação médica, no colégio da congregação das irmãs do Imaculado Coração de Maria (que existia na época como escola de tempo integral) instalada ali no bairro Sagrada Família, rua Osvaldo Aranha. O tempo se foi já passou longe, e ninguém sabe ou lembra de tudo tudo como realmente aconteceu. Muita curiosidade e mistério com fatos fantásticos e mágicos - tanto e daí, nestes dias atuais contemporâneos, algumas mudanças políticas à parte, o atendimento já passou para dois turnos e o modo de contemplar mais alunos. Porém, aí está!, a coisa mudou por mudar. O que decepcionou muito os professores a diretora, que esta chorou copiosamente - nem vale a pena polêmica, nem estou aqui pra bradar imprecar vociferar deblaterar, nem estou aqui para reviver festas celebrações eventos festivais. Mesmo que ali por perto no colégio e arredores todos sim eram e estão otimistas. Enfim, a suserania domínio autoridade poder e a nata da nata social da sociedade local regional nacional. E quando concluí o escolar eu já atingia 18 anos. Terminado o médio eu queria independência e procurar um emprego ganhar o meu dinheirinho. Pois é, e assim se cumpriu, e fui e bati na porta de portão em portal. Lembro que o prédio em questão, bem plantado cheio de vidro envidraçado fumê (até demais), com certeza para receber e devolver muita luz natural sem transparecer, tinha e tem 8 andares e estas palavras em letras garrafais na fachada ‘Reificação Automatismo Fixidez - membros adeptos simpatizantes’. Tudo tinindo e a práxis cromados frisos suprassumos e cheio das balacas mais-valias faturas duplicatas... Olhei isto daí e no dia seguinte fui até o balcão de recepção já fantasiado de formiga-cortadeira formiga-carregadeira içaúba quenquém (as formigas são operárias colaboradoras empregadas obreiras trabalhadeiras trabalhadoras diligentes). E da parte deles, a firma empresa indústria, ainda me perguntaram: “O que você sabe fazer?”

            Pensei telefonar pra Alice e convidar até uma pizzaria em Nova Bassano, por exemplo, ou mais longe até Vila Maria, quem sabe lá por Santo Antônio do Planalto, três dias quê, é muito. Eu conhecia Jundiaí? Nem nada, mas poderíamos ir juntos. Ela conhecia Campo Limpo Paulista? Nem nada, mas poderíamos ir emparelhados. A escalaminhada até o panorâmico abrangente o alto da Pedra da Guitarra, uma vez.

            E bem aqui, estou passando meus passos sobre, está corrente correndo sem cessar o córrego das Polacas. Bem no meio da cidade e de leste a oeste, riacho fio-d’água corgo levada regato ribeiro veia... até desaguar no rio Sabia. Já canalizado, praticamente subterrâneo, a partir do matinho no morro em o Centro.

            “Oi!... Estou aqui porque sim é legal!”, confessei me dirigindo, contemplativo.

            Logo o quê! A lua parada no meio da estratosfera. A lua com a cara e cheia de pontos adolescentes alternados alternativos. A lua nasce de uma árvore, de uma cidade, de um sétimo andar, de um açude ou sanga, de uma mina ou pedreira, e depende. A lua desponta no pico do Itaguaré e se banha no ribeirão dos Cristais e se espelha se reflete na lagoa dos Ingleses. Sempre cheia nova minguante de esperança expectativa sucesso e mais coisas inauditas, o rosto semblante radiante transcendente complacente. Satélite catatônico atônito e ergue os braços e pega agarra nuvens com as mãos.

            “Uau!... Ir ao alto ar vazio é puro!”, senti ganas de conferir e dizer, pensei.     

            No fundo da panela, no centro da cidade, e subindo para o bairro São Cristóvão, antes bairro Santa Cruz, a loja Manaí: calças, camisas, camisetas, calçados, mesa, banho e com moças atendentes ajeitadas em uniforme verde espreitando da porta de vidro. Algumas pessoas sentadas na varanda dos apartamentos e tomando chimarrão. Subir todos os santos ajudam empurram, rastejando rojando. E eu estava ali pra isso.

            Dali mesmo olhando o teto e se via o céu lá ao profundo contado de estrelas as campeãs principais exemplares Três Marias. O Cruzeiro do Sul voando na constelação, crucifixo no peito. Céu campeão cumprindo ordens ou ao secreto reservado acesso universal. O navio Argos e fulgurante rutilante brilhante resplandecente, presumido.

            Já por perto da casa do tio e tia e primas - que eu nem ia entrar pra tomar um mate e bater um papo, deixaria pra uma outra vez, quem sabe! -, por ali nessa altura, uns carinhas que desciam na contramão, e eram uns quatro em algazarra folia balbúrdia vozearia, um deles me olhou riu e disse uma velha canção da moda e que só podia ser esta alegoria ou fantasia ou palhaçada e metamorfose aérea alada ou engajada:

            - Mosquito, mosquito!...

            Passei por eles, eles quatro passaram por mim, eu parei, foram indo, esperei tomarem uma distância, e xinguei cobras e lagartos com arame farpado. Em voz baixa, claro. Chegando a uma única conclusão possível, tétrica horrível, e até mesmo lúdica:

            “Me deram apelido de Mosquito e eu nem imagino. É, é isso mesmo. O que é brabo de desnastrar soltar desenastrar destrançar desprender desatar. Ou sei lá, né?!”

            Me sentia já com certo cansaço e meio requentado pelo corpo inteiro. A caminhada fora de uns três quatro mais a volta de uns três quatro quilômetros. O normal o de sempre, mas cansa, cansou. Tudo bem, era isso mesmo. Obrigado! Parabéns!

            Já puxei para uma boa saudade de beira-mar e bramar erriçar rugir encrespar estrondar regougar rebramar. Que praias a praia da Joaquina a praia do Forte a praia da Daniela a praia Brava a praia Mole a praia dos Ingleses... Jogar bola na areia caminhar nas dunas comer peixe frito com limão espremido na barraca da tia Larada. Pegar o sol sem uma nuvem, pico auge pique, e mergulhar mergulhando a cada onda - pélago alto-mar pego. A ilha das Garças... o rio Aribiri... o parque de Jacarenema... E renegar descrer abjurar. A matrícula aulas apostilas exames concurso, faculdade.

            De pronto passei sem demora de repente passo em frente, morou ou mora?!, e olhei a casa da fulana da beltrana da sicrana uma tal e qual Ana Paula: dos meus encantos dos meus estudos dos meus flertes dos meus cuidados dos meus... que meus?!

            Olhei de perto a padaria Itaguari. A padaria com vitrines rebrilhando, e motivos natalinos, heras imitando plástico, pinheirinho imitando plástico, nuvens imitando algodão, bonequinhos imitando família de Belém do Pará. E pensei entrar por que nem entrar. Um pão de queijo, um pastel de queijo, uma fatia de bolo de fubá, uma fatia de torta de chocolate, um suco de açaí, um suco de caju, um caldo de cana. Parei no vidro como um inseto díptero. Fiquei trocando sabores entre um bolo de laranja e um bolo de pequi e um bolo de milho. Pensei, calculei oito ao quadrado, muito, assaz, bastante, foram três voltas ao mundo pensando. Testa franzida no esforço de degustar: “Sim, daqueles mesmos!” Justo agora justamente crebro frequentemente repetidamente amiudadamente. Me sugeri entrar e comer uma massa-folhada ‘huuumm!...’ E decidi mesmo passar vontade e seguir adiante embora. Oxalá! Meus aplausos ‘plaque!, plaque!...’ e resisti, resistir ao primeiro impulso ao primeiro olhar. Queria comer qualquer coisa doce porque estava em fase de crescimento. Paciência!

            O cãozinho, estirpe raiz genealogia tronco familiar, cheirando pela beira da avenida Cônego Peres. Meio de lado no trote das quatro pernas e orelhas e cauda. Me apareceu ali na entrada do posto de gasolina. Pareceu me evitar. Olhou para o latão frente do hotel e continuou pela mesma rua, pelo meio-fio. E estava o mesmo vira-latinhas de manchas pretas e brancas, cauda aérea em arco, língua pendente, orelhas grandes, língua de fora, olhar esperto manhoso escarninho e de zombaria troça menosprezo. Os autos carros metálicos índoles caracteres de 600 cavalos mais 5 velocidades, preços escorchantes abusivos caros e última geração, passavam ensurdecedores roncavam ‘róm-róoomm!...’ volúveis levianos frívolos “uaaaau!...”

            Quanto tempo caminhei... a caminhada 1h e meia, 2h e 45min... uns 3km e meio, 4km... E numa escala de zero a 10, qual minha nota? Talvez pela satisfação do cansaço eu me premiaria com a nota 8. E os pensamentos foram bem duros ferrenhos férreos implacáveis? Prestigiei e fui, ida mais volta, espalhar dissipar as meditações imaginações possibilidades e desaparecer dispersar desfazer as ideias. Os temas conteúdos teorias esquemas... Tudo meio que em ritmo apurado acelerado frenético de última hora... Pois sim e nem e talvez!

            A mocidade e ternura e formosura e fulgor e gorjear... Beijos recendentes sabores perfumados. E que acordam árvores e paus-pereiras-do-campo, pindaíbas-pretas, barbas-de-paca, alecrins-de-são-josé, sapupiras... uns passarinhos incidentais e besourinhos-de-bico-vermelho, araçaris-pocas, choquinhas-de-garganta-pintada, pica-paus-de-banda-branca, risadinhas, viuvinhas... rios corredeiras cachões turbilhões borbotões tombos de água... montanhas penhascos promontórios elevações proeminências... até alcançar as estrelas. E na terra no céu no mar, terramarear.

            “O rio Puruba (Ubatuba, cerca da rodovia Rio-Santos ou sp-055) e o rio Quiririm deságuam na praia de Itamambuca”, pensei visualizei me sugeri me inspirei.

            E quase todas as ideias aleatórias ou voláteis foram expostas usadas gastas testadas desenhadas costuradas dedilhadas compradas vendidas transformadas... E acho que 75% delas, entende?! Meio ambiente (clima, ar) estrelado (ameno, aprazível).

            Passei por baixo dos araçás-de-coroa em a calçada perto de casa, na calçada de casa, abri o portãozinho e tal. Os barulhos de cadeiras sendo arrastadas e televisão e vozes domésticas os sons descontínuos descoloridos incolores... E cheguei em casa, e fui subindo a escadaria, abri a porta, o quarto, o cômodo, a peça, e fui direto tomar meu banho, e me olhei no espelho de passagem... mas... sensacional... peraí, meu!...

            - Mosquito, mosquito!...

Olhe repare o meu estupor assombrado, cara! E era e estava e comparecia de pungir picar espicaçar até incitar. Foi sim o que resmunguei comigo mesmo ali no meio do espelho que me devolvia que me descobria que me destratava que me deslumbrava:

 - Mos-qui-to... – e me pus um dedo – psiu!...

E mais mosquitos. O boné... Nunca, nem era possível, chapa! Nada tinha acontecido comigo! Meu boné da torcida estava sujo de procedimento de passarinho, mano! E um enxame de mosquitos rodeava, acompanhava, usufruía desfrutando, talvez de onde, me seguira desde sempre me seguiu seguia desde lá, a caminhada toda... uma sujeirinha branca rodeada de insetos atrozes assombrosos monstruosos assustadores, em usufruto e consumindo displicentes usufrutuários.

Pensei, repensei onde teria sido o acaso o incidente... Só podia ter acontecido na hora que fui roubar cerejas da cerejeira-do-mato, intuí. E o passarinho ou coruja ou morcego, dono do pedaço, acabou se vingando e me sujando, só pode poderia, deduzi. Aquela risada ainda ressoava nos meus ouvidos ‘ihihihih!...’ E o aladinho tinha feito atrevimento desfaçatez desplante insolência ousadia no meu boné de time de futebol, etc. E a sujeirinha atraíra os insetos ‘vizi!, viziiii!...’ e os danadinhos ‘dzi!, dziiii!...’ ficaram me acompanhando o itinerário todo a caminhada. E o pessoal da rua tentando me alertar me antecipar me notificar me precaver me acordar me delatar:

- Mos-quito, mosqui-to!...

            Que pena! Que sorte! Que mico! Que nada! Que mala! Que fuga! Que tudo!

 

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