Olhos Grandes e Negros
Abracadabra.
Marcela me apareceu com 25 anos. Já cansada dos seus 25 para 26 anos? Cabelos
negros e longos, olhos grandes e negros, bastas sobrancelhas negras. Arranhada
de divisões. Com falta de beijos, daqueles beijos estonteantes beijos. Não mais
o centro do universo. Sem utopias sem praia de Marudá sem ilha de Maiandeua sem
frutinhas de abio-grande. Tatuagem de colibri atrás no pescoço. Ingênua até que
ponto.
-
As gurias lá de casa encontraram na rua, dia desses, um gatinho tongalante e o
adotaram. Um minifelino felpudo cinza-claro adorável miado predeterminado
firmes olhos de vidro amarelo-claro. Possui um instinto aguçado para com o
leite morno que lhe damos toda hora. Derruba coisas, faz cara de distância,
brinca com bola de tênis, se estica bocejante deitado no sofá creme, sobe se
acomoda no peitoril da janela e mia para o buraco fundo do sexto andar. Tem uma
alma que vem dos tempos e das eras, gostos apetites refinados, gestos
apropriados macios de felino, afiados interesses, olha e pensa. É amado,
idolatrado, paparicado, disputado. Acariciado coçado alisado no dorso na cabeça
entre as orelhas.
Marcela
gostava de ouvir música sertaneja universitária, ver filmes de época na tevê
paga e comer chocolate. Isso principalmente. Seu coração era um rio lento limpo
e quente o ano todo, Juruá, Japurá, Jaú, Jandiatuba. Ver o sol nascer subir por
trás do jambuaçu. Adotara um tipo determinado e recorrente de calafrio,
cravara-o na alma. Se vestia adequadamente e qualquer roupa lhe caía sempre
bem. Nunca usara boné, mas conforme, ficava muito tipo uma guria engraçada de
viseira virada. Pernas cruzadas cotovelo no joelho mão segurando o queixo flor
branca de perpétua-branca na orelha. Iluminada luminosa crepitante luz. Madura
frutinha de Cambuci. Tomando água mineral sem gás no copinho plástico pra lá
pra cá. Cabelo chacoalhado displicente e resplandecente. Quadris sem curvas,
praticamente.
-
O que prova que estou carente, indecisa, atabalhoada, perdida mesmo, não é?!
Possuo a mentalidade de uma criança, doutor. Muito boba. Sonhadora e das mais
pequenas e mais fáceis. Terrível! Prefiro não sair dirigir o carro que tentar
pechar confundir o trânsito inteiro da rua, da cidade, do país. Sou não sou uma
um pleonasmo.
Por
que o céu não tem limites?, é que comporta tranquilamente oito andares, oito
camadas, oito níveis, oito poleiros, oito estágios dependendo de quem faz aqui
e vai para lá de quem fez aqui e foi para lá; o subsolo tem um único
departamento e todo muito quente e muito tórrido. Há chance de ir evoluindo graduando
para cima e ou para baixo. Outros nem uma coisa nem outra coisa mas, pelo
contrário, reencarnam e entram novamente em órbita terrestre na camisa de uma
jaçanã ou um pacu ou uma erva-preá ou uma abelha-cachorro, etc. Cada um tem a
sua sorte. Cinco anéis, fogo água terra ar e vazio. Acho que sim acho que sim.
E
Marcela gostava de ver a chuva, tanta cidade, mais praia, praia Vermelha lá na
Urca, muita serra, serra do Ororubá. Seu espírito voava solitário e transparente
por entre paisagens e sombras de verão. O sonho enchia o coração, embalado e
empurrado pelas ondas sonoras das canções amantes. Pretendia visitar Bonito,
conhecer e excursionar pela serra dos Caiapós, viver quinze dias com como os
índios macu-iuhupde da beira do rio Grajaú, peças tapajônicas no museu João
Fona, ilha de Cotunduba, igreja colonial de Tomar do Geru. Cabelo penteado como
sempre em a franja. Linda bonita e por quê.
-
Não que eu desgoste as pessoas que estão em volta de mim. Não, nada disso. Mas,
certos dias certas horas, elas se tornam difíceis de suportar. Eu mesma também
sou difícil e até ruim e pior. Gente que enche os tubos, que pisa nos pés, que
pede coisas, que desequilibra uma negativa, que ri alto sobre coisa nem tão
graciosa... sei lá. As coisas fora da ordem do controle do gosto me deprimem.
Não tenho sempre que precisar de alguém. Não tenho que sempre concordar com
tudo com o outro. Não tenho que manter sempre a política da boa vizinhança.
Ela
tinha receio do que pensava ser o fim da idade do sonho, idade da oportunidade
de realizar as bagunças ou se arrepender das coisas que não fez, idade de
curtir as vantagens de não ter filho, idade de carregar uma mochila nas costas
e sair por aí por si só tropeçando nas pedras soltas da Estrada Real. Se sentia
uma figurante, uma inútil, uma desinformada, desfocada, uma sombra passageira,
árvore do caminho plantada, desolada, jeniparana, mamorana-grande, cajuaçu,
laranjeira-do-mato, fedegoso-do-mato, cabeluda, gervão-cheiroso,
craveiro-do-maranhão. Tanta coisa rolando sobre o mundo e nada. Nada com ela.
Como firmar, confirmar, afirmar os próprios pensamentos. Como ser grande com
essa concorrência. Queria uma direção, um sentido, um rio bom por entre a mata
ciliar, umas árvores altas com verde verdadeiro. Preencher os dias inteiros com
aventuras, curiosidades, importâncias, viagens, Pedra do Ingá, Betânia,
Parintins está ancorada na cabeça da cobra-grande. Igual a certas pessoas que
ouviu falar e que gostam de viver e vivem e procuram e acham e que não enjoam.
-
Morava ainda no interior Ajuricaba com meus velhos, 15 ou 16 anos, e brincava
de dar aulas pros pés de milho. O primo Andirá apareceu e pediu para
participar. Depois de um momento ele se insurgiu e me olhou me olhou. Sei o que
deu na ideia do bobalhão. Ele me agarrou firme pela cintura, me beijou várias
vezes no rosto por todo o rosto no resto do corpo ao acaso por aí e me atiçou a
liberdade. Me furou com o dedo e me jogou no chão. Esfolei o joelho o cotovelo
e fui sentindo um forte calor nas orelhas e, se me lembro demais, uma grande
vontade de fugir correndo, fugir desinfeliz, fugir de olhos fechados.
Houve
um silêncio no consultório. O quadro expressionista ficou mais nítido sério
artístico aconchegante na parede. Lá embaixo a rua Duque de Caxias regurgitava
esgoelava. O sol no seu pino muito chamejante vermelho amarelo. Cinco minutos
depois ela voltou sem muitos gestos, cabelo compenetrado de preto descaído nas
costas nas costas, uma pequena mecha espanando o olho esquerdo:
-
Suas mãos seus braços suas pernas me prendiam como num laço num alicate num
cadeado. No outro instante estávamos quase nus sobre a terra vermelha, rolando
engraçados perto dos tucuruvas, lutando, urrando. Ele mexia com meu fundo
impensado de mim, erguia águas quentes, um cheiro de capim-dos-pampas pisado,
fazendo força sobre minha barriga, prendendo o meu corpo com o joelho, etc.,
agarrado no meu cabelo, procurando a minha boca com a boca, chupando a minha
jugular. Eu não podia respirar. Os meus braços e as minhas pernas se derretiam.
Tudo muito novo que até meus dentes se apertaram. Me sentia caçada tipo bicho,
perseguida, suava frio, predada, jaraqui, ajuruetê, jureba, piaçoca. Assim
aprendia a não confundir meu coração com meu sexo, acho. E não confundir com
meu sorriso. E não confundir uma coisa com outra coisa. Até chegar a não
confundir com minha alma. Tanto gritava como mordia como arranhava como esperneava
como me retorcia como chorava como me arrependia como corria. Uma preá que voa
nada anda corre salta agita espreita rincha.
Não
topamos nossa utopia dos vinte anos na primeira esquina dos nossos vinte e
poucos anos. Esse sonho sempre estará por realizar, sempre estará noutro lugar,
nunca antes e sempre depois, brinca de esconde, empurra, pega, e faz tempo. Somos
nós que embarcamos no sonho, e o rio que nos carregue. Passa o tempo do mesmo
jeito. E se perde o que se tem, e não se alcança o que se busca. O rio
Manacapuru desce descendo e as nuvens brancas simplesmente acompanham soltas
ensinadas esfiapadas no ar. Tudo meio aleatório e meio por nada e meio por que
e meio criativo e meio por fazer.
-
Todos os namorados que tive... (mas nem tantos assim), tiveram mãos fortes para
lidar com meu corpo. Sempre foi assim e acho que assim será assim como já está.
Mãos fortes amassando o meu pescoço, alisando as minhas costas, massageando os
meus seios, chinelando as minhas nádegas, etc., dedos mexeriqueiros, rombudos,
incorretos, arranhudos, etc., nariz burlando o meu umbigo, ponta da língua
contando as minhas pintas, negociando as minhas tatuagens, etc. Escolhem a hora
que bem entendem, as horas perdidas, as horas encontradas, as horas apertadas
no banco de trás, as horas lá deles. O lugar picareta, os lugares vazios, os
lugares escuros, os lugares bêbedos, os lugares escondidos, os lugares
acidentados das escadarias frias. Não se comportam como eu mesma gostaria, como
eu mesma projetei, como eu sempre sonho. Não suportam esperar e querem devorar
partes, lábios, seios, coxas, orelhas, dedão do pé. O Tucuxi, meu primeiro (eu
ainda vivia no interior), aparecia lá em casa justamente nas noites de quartas
e sábados e nos domingos de tarde. Conversávamos sobre motores futebol luta
livre e as tarefas do trampo lá dele. Ás vezes eu precisava estudar e o mandava
pra casa dormir. Nas tardes de domingo íamos passear no centro, praça Jutaí,
rua avenida Marechal Hermes da Fonseca por onde as árvores voavam caminhavam
desfilavam em fila única comportada indiana, canarana, pequiá, ata,
carapanaúba, louro-puxuri, andiroba, cambucá. Sempre uma sorveteria ou pastelaria
ou doceria, dependendo da temperatura, e caminhávamos ou não pelas calçadas
olhando as vitrinas. É claro que Tucuxi gostava de mim e daquilo que eu poderia
lhe dar. Aconteceram várias vezes e naturalmente e não me culpo. Um dia, porém,
pintaram duas três pequenas coisas adversas obtusas contrárias fora do esquema
e encerramos a modinha. Me senti com consciência intranquila, embaralhada, não
dormi à noite, me revirei muito na cama, liguei a tevê no canal do gado nelore
gir pantaneiro guzerá crioulo lageano búfalo. No dia seguinte já dei graças a
Deus e cumprimentei o sol lindo que surgia com o novo dia e os pássaros,
bate-bico, beija-flor-d’água, saurá-fogo, bem-te-vi-preto, tuque,
bico-assovelado, gralha-de-crista, japacanim. Sem crise e segue o barco e bola
pra frente. Era época de vestibular, sempre gostei de plantas e língua estrangeira
italiana, e vim morar definitivamente justamente aqui na com em a capital
Florianópolis.
Sonhadora
e o que o mundo fez dela. Molhava os lábios carnudos com a língua - uma
delícia! Olhos grandes e negros. Não podia viver sem uns brinquinhos
desequilibrando as orelhas, disputando com as pontas dos cabelos lisos. Até tão
radiosos como sua pele nova. Buscando o chiclete de um lado e a bala de cupuaçu
do outro lado. Ajeitando o cabelo com a mão.
Sorriso sempre na ponta dos lábios no vivo dos olhos grandes e negros na
palma da mão. Olhar oblíquo e parecido e premiado. O tênis com figurinha de
beija-flor desenhada estampada bordada bastante da cor vermelha. Cadeiras firmes.
E com a ideia intermitente de se convencer a voltar para a faculdade de
botânica botânica.
-
Sabe o que é?! Acho... Fico pensando... Sabe, sou o tipo que precisa ter um
cara bem perto. Relação estável, talvez casamento, amor, segurança, definição,
cabeça no lugar, futuro. Bem acompanhadinhos em casa própria, compartilhando,
fazendo as coisas, quem sabe chegar a pensar em um filho, vendo tevê nos
domingos de tarde, supermercado no sábado de manhã, tomar chimarrão no parque
caminhando de chinelo de dedo domingo de manhã, comer pizza com os amigos no
shopping domingo de noite depois do cinema. Penso que casar já seja assim um
tanto quanto fora de moda e até meio primitivo e desnecessário e desestimulante
e ambulante e deselegante.
Meio
que me acostumei com Marcela. Mais certo: meio que me convenci de adorar
Marcela. Uma vez tudo era igual junto unido a mesma coisa. Depois houve as
separações. A primeira separação foi entre homens e peixes, dourado, tucunaré,
traíra, lambari, bagre, acari-amarelo. Mais tarde entre homens e aves,
garça-branca, bico-de-lacre, jacutinga, xem-xem, manguari. Depois entre homens
e plantas, banana-do-brejo, niopó, alfazema-brava, erva-santa, barriguda,
cebola-do-mato, jacarandá-da-baía. Após ainda entre homens e bichos, capininga,
macaco-prego-do-peito-amarelo, paca, quati, içá, içabitu.
Ela
pegava os cabelos e parava tudo, o tempo, o mundo, a sombra do dia, o chafariz
da praça Tabatinga. Puxava os cabelos para o seio e ficava agradando as pontas.
Empurrava os cabelos para as costas num jeito elegante de cabeça e pescoço. Cheirava
mastigava a ponta dos cabelos. Jogava por cima do ombro. E a minha vontade era
de beijar de beijar lá no fundo dos seus olhos grandes e negros.
-
É doloroso quando volto pra terrinha rever os meus velhos. Não adianta, é
doloroso é doloroso. Eles pertencem a outro universo e eu não entendo. Não
entendo e eles não me entendem. É friorento, é abichornante. Nunca fomos bons
amigos. Mesmo adolescente nunca confiava meus segredos, minhas ilusões, minhas respostas,
minhas perguntas. Eu mentia. E hoje já tá bem bastante mais pior. Me acostumei
a viver distante no espaço no tempo e no pensamento. E isso é ou não é um
fracasso. Somos praticamente estranhos desconhecidos estrangeiros importados. Não
serve mais não agrada mais está fora de cogitação. A rua que eu morava já está
toda desolada desolada. As pitangueiras as pitumbas as bacabas-grandes os
caxins as pacovas-sororocas ainda estão plantadas acostumadas por lá. Quando
levo o namorado, que é pra apresentá-lo, eles ficam com a pulga atrás da
orelha. E quando não vou com ninguém, e com vontade de comer sapecada de pinhão
feita na chapa do fogão a lenha, eles pensam que vivo na pior. Sabe... Eu
queria ser uma pessoa calma e cruzar os braços e ficar quieta olhando do meu
canto. Eu queria ser sempre jovial despachada, eu queria ser pacanaua camamu
nuquini andira malali. Vejo pelo ar o sol solto apelidado cair onde certinho
com as horas para fazer a tarde avermelhada alaranjada dourada andorinhada
estrelada. Me parece que vem chuva e da boa. Já não somos mais uma família
esperta conversada transada.
Era
um dia de chuva, chuva pra valer, chuva forte espontânea e da natural. Marcela
parou de conversar, de contar as coisas, foi até a janela envidraçada e olhou
lá fora lá pra baixo a cidade molhada, mais ao fundo o mar... Quanta nostalgia!
Toda ausente, diluída, cansada, repartida, inquieta, insatisfeita, estreita,
desterrada, sem quê, saudosa, acorrentada, peneirada, saudades de quem. O sonho
por um fio por um fio. Riscava o dedo no vidro suado embaçado, toda bem quieta
e ausente e lentamente e jabota. Tal hora e debaixo do aguaceiro, a cidade
vivia no barulho fazia muito alarde sacolejava espocava buzinava martelava.
-
Não sei o que acontece. Sou bem esquisita, você sabe. Todas as suas pacientes
são assim meio zonzas, tolas, nada trágicas, meio moribundas, meio sonâmbulas,
meio desempregadas? Hoje eu sinto que é dia de ficar em casa, ver entrevistas
de celebridades na tevê, dormir a tarde toda, procurar na internet uma cidade
aparecida no século XVI, não tirar os pés do chinelo de pano. Gosto da chuva,
do dia chuvoso, de todas as tardes sempre chovendo em Santo Antônio do Içá,
Jaraguá, Ibituruna, Guapimirim, Limoeiro do Ajuru. Durmo sem parar. Gosto de
ler umas poesias uma hora ou outra de vez em quando no meio da preguiça dos bocejos
do copo de suco de abacaxi. Me desculpe se estou dizendo nada com mais nada, se
não me expresso com respostas, etc. Esta minha história parece sem um bom ponto
de apoio, sem moral, sem tragédia, sem morte, sem manguara, sem planta-baixa,
sem lastro. Admiro bastante ver os pingos de chuva no vidro. As chuvas caindo
sobre tudo e as coisas. Espero só ver você dizer sobre minhas manias de
comportamento. Detesto ser sem graça, sou sem graça. É difícil ser outra coisa.
Pessoa boba como eu não tem muito o que fazer, não tem muito o que existir, ou
pouco acrescenta, ou nada contribui. Quando voltar para a terra outra vez, da
próxima vez, outra chance, quero reencarnar num guanumbi.
Estou
doente e vivo num mar sem nuvens brancas sem ondas brancas sem praias brancas
sem Marcela dos olhos grandes e negros. Eu bem sei que cada pessoa tem suas
neuras. Cada pensamento que a cabeça inventa! Mordo o dedo e provoco o cérebro,
ocupo dez por cento da capacidade, noventa e nove do que sei é minha fantasia.
E esse nada é tudo é muito é pouco. Há momentos que preferimos um abraço que um
milhão de reais. Todos nós temos parafuso de menos. E lamentamos com tanta
muita autopiedade. Não se deve confiar nos livros, não confio mais em livros,
palpites, receitas, mapas, hipóteses, teses, pajelanças. Muita vaidade muita
vaidade.
O
sol aparece pequeno nessa mão. O tempo é isso: devagar e sempre. E pegar ou
largar. E lá no fim das contas o profundo fundo do universo, o outro lado do
vazio, cheio povoado de trilhões de pontos de estrelas-janelinhas em forma de
estrela, um negócio da China que não acaba se pensa não se entende, quando
pouco uns planetas, quando pouco umas estrelas, em janelinhas tipo de planeta e
em janelinhas tipo de estrela.
A
realidade é sempre a do perder perder. Por que quase sempre essa sensação de
que não estamos fazendo a coisa certa ou não estamos insistindo no lugar certo?
Sonhar, continuamos tentando sonhar nossos dez por cento que nos cabem ou que cabem
na nossa cabeça. Quero erguer uma palhoça na beira do rio Escondido com as
folhas prensadas da tucumã uma rede de dormir com as folhas trançadas da guriri
me vestir como os índios cupinharó com as folhas secas e bem amarradas da
camuá. Quero andar farejar urinar quilômetros graxaim pelos meus quatro
domínios da montanha da serra do Mar, fazer gestos micagens estardalhaços
mico-leão-da-cara-dourada do alto da figueira-do-mato, amanhecer empoleirado
pipiando inquieto tico-tico-do-mato do galho da copaíba-curiarana.
Marcela
olhou o expressionista da parede ou não olhou coisa alguma. Bota olhar parado
profundo, nisso! E, sem me procurar com os olhos grandes e negros, disse usando
suavidade normal na voz:
-
O síndico lá do prédio que moramos, seu Caxiri, esperou esperou chover muito
chover mais chover bem chover o dia todo a noite toda e a manhã. Aí, na tarde
de pouco sol, ele pegou e plantou uma palmeira da espécie buri no meio do
jardim da frente. Depois foi se sentar na espreguiçadeira da área chimarrão na
mão e ficou olhando divagando meditando espionando a palmeira crescer embalada
pelo vento. Então, seu Caxiri, plantou sua planta, hein?! É, plantei! É, agora
posso morrer em paz e quando Deus quiser, geralmente!
Quando
eu era guri queria ser jogador de futebol. Imaginava os melhores lances da
partida, comprava figurinhas, fazia álbum, disputava no abafa, trocava vinte e
cinco difíceis por uma carimbada. Sabia fazer gols e correr para o alambrado
vibrar com a torcida. Eu inventava os dribles, driblava a janelinha o elástico
a meia-lua o lençol e marcava os gols de placa. Treinava a perna esquerda na
parede da garagem. Bola correndo no gramado preparado do Beira-Rio, voleio,
bate-pronto, letra, cavadinha, cabeceada, bicicleta. Era só driblar pedalar dar
balãozinho estufar no peito rolar na coxa e marcar de pé trocado. Pênalti
pênalti!! No natal pedia uma bola oficial, jogar bola e andar de bicicleta e
nadar no rio Caripunas. E não me via fora desse sonho obsessivo nunca mais.
-
Claro que pensei em ser atriz, cantora, monja zen-budista, cunhantã ticuna...
Quem não sonhou sonho bom assim? Fazendo parte de tudo que acontece por dentro
e por fora do mundo. Essas pessoas levam uma vida de gente, correndo o mundo,
entrando na essência das coisas e das outras pessoas. Habitam pensamentos e
gostos e sonhos de outras pessoas mortais. Levam uma vida de sonho realizado.
São abduzidas por etês, etc. Deus aponta o dedo e escolhe. Nunca sabia que
beija-flor cantasse, estou ouvindo ele cantar, mas canta muito e se bobear
chilreia o dia todo todos os dias e por quê.
Vivo
no meio dessa cidade da magia desde muito, quase sempre, quase nasci aqui.
Aprecio o mar, a baía-sul, as praias do sul e do norte, as ilhas e seus fortes
ou fortalezas, Campeche, Daniela, Lagoa da Conceição, lagoa do Peri, forte
Santana, Anhatomirim, fortaleza de Santo Antônio de Ratones, ponte Hercílio Luz.
O céu azul côncavo muito alto, aparentemente vazio. Sol brincando no céu com a
lua, acabaram caindo na terra, lua brincando no céu com o sol, de repente
caíram levantando poeira fina da areia branca do chão. Brincando de pega,
esconde, empurra, corre, pula e até que caíram do alto ao solo. O sol caiu no
meio da campinarana perto do rio Macacu. A lua mergulhou no meio do remanso na
curva do rio Macacu. Iam e vinham besouros izabelinhas borboletas flores
amarelas verdes vermelhas lilases borboletas doces besouros desengonçados
flores brancas azuis. De tardezinha o sol se recolheu atrás da montanha Dedo de
Deus. A lua ensopada emergiu batendo asas de iara se sentando no barranco para
pentear os longos negros cabelos. E muito mesmo os olhos grandes e negros me
fazem muita falta.
Pronto.
O que foi. Marcela não aparece mais por mim por aqui e faz uma cara, desistiu.
Isso me entontece, me comove, me empobrece, me enfraquece, me faz perder o
tempo. Não, não consigo viver sem os olhos grandes e negros sem pensar em
Marcela. Suas entrevistas me faziam um bem completo. Avivavam meus sentimentos
bons, remoçavam meu sangue, brindavam minha paz, renasciam meu bom humor, iluminavam
meu futuro meu futuro. Um lugar calmo natureza ao redor cachoeira branca, céu
azul firme imóvel independente, ilha de Tupinambarana, rio Novo, e Marcela
enrolando a ponta dos cabelos no dedo. Existe lenitivo para esta minha certeza
de perder perder.
Deixou
de vir às entrevistas. Foi embora o tempo de vê-la, existi-la, considerá-la,
merecê-la. Ancas estreitas. Passou o tempo bom de ouvi-la. Um tempo uma época
uma era muito cheia de alegria coragem sucesso futuro férias em Fortaleza,
Maceió, João Pessoa, Olinda, Fonte Boa, Mirim Doce, Minduri, Tefé. Um dia, no
meio de uma manhã de enorme céu azul íntimo, o carteiro me deixou o pequeno
envelope. Era convite de casamento de Marcela com quem. Convite para o senhor e
a senhora tal e quais.
Óbvio,
sou eu o impaciente. Preciso de Marcela todos os dias todas as horas todas as manhãs
todas as semanas, tinha Marcela toda semana, não tenho mais, Marcela feita de
sol chuva cabelos de cunhantã sapuiá-quiriri, olhos grandes e negros, não tenho
mais. Fico imaginando coisa com coisa, fico pensando nela, ela mesma tinha lá
suas frases que adotara, gestos só dela, um nome novo de namorado, as ruas que
andava e da cidade que escolheu e que namorava, a chuva que gostava de ouvir e
de se molhar, a praia de Laguna dos feriadões, tomar chimarrão na sacada
olhando o desfile entardecer da rua Pedro Rabello, visitar um museu a cada fim
de semana, etc. Fico sonhando por ela, ela sozinha ou acompanhada pelas
avenidas pintadas de vitrinas, bazares, feiras livres, tomar sorvete de açaí
caminhando na calçada na sombra dos louros-cravos, das seringueiras-itaúbas,
das estrelas-do-norte, das angosturas, dos angicos-roxos, dos
maracujás-pintados, etc. Me falou, e quando chorou muito com o braço apoiado no
espelho no espelho embora já descobrindo descoberto o primeiro fio branco de
cabelo. E mais outros versos de Mário Quintana pelas ruas que ainda não
andou...
“Nosso
gatinho... Já lhe falei do nosso gato, né?! Bem, Maracajá é dos mais
preguiçosos. Um autêntico bicho-preguiça. E ele imagina, procura, acha, brinca,
esconde. Anda dois passos, encontra a gente e fala o miau. Se a gente olhar bem
de pertinho, cresce, vira felino perigoso, grande bicho do mato caçador,
onça-pintada, gato-do-mato, desses que vivem se esgueirando nos documentários do Pantanal Mato-Grossense.
Quando de repente, num súbito instante, vira sábio, fica esquisito, um olhar lá
dele parado, perturbador, feiticeiro, distante, igual àquelas lendas do antigo
Egito, etc. São adorados como deuses, ou temidos como pajés. Tanto místicos. Em
noite de tempestade, e relâmpagos, ele anda pelo apartamento todo, bem perdido,
inquieto, doido, miativo, atordoado, investigativo. Você já viu relâmpago
cruzar o olho do gato numa noite tenebrosa? Me desculpe. Estou falando de
coisas muito sem nada a ver.”
Levamos
a vida toda aprendendo a calçar os sapatos e pentear os cabelos. Mais para o
final, não teremos firmeza nas mãos para calçar os sapatos e nem cabelos para
pentear. Medicar é como brincar de gato e rato. Destino desencontrado tentando andar
junto em parceria com ideias desconcertantes, etc. E vou mudar pra lá, vou
morar mais pra lá do rio Paraíba do Sul, além do pico do Jaraguá, para o lado
de Areia Branca. E ouvir a música do vento, que vem pelo meio do quadrante,
afinando as folhas simplesmente das babosas-do-mato, dos abricós-de-macaco, das
abioranas-gutas, dos cravos-do-mato, das baunilhas-falsas, dos
espinheiros-bravos. Olhar a mata sempre se disfarçar em paisagem e tons de
verde e mais os chamados de saracura-do-brejo, bom-é, anhuma, coruja-do-mato e
os encantos das flores de arumãs. Ali mesmo onde o tempo não conta não atua não
existe não incomoda não lembra não pensa não vaivém. Uma frugal refeição de
taperebás por dia, logo no começo da manhã começo da manhã.
“As
gurias lá de casa tão achando que devo aproveitar o cavalo encilhado, o bonde
passando na porta, a bola quicando na área, o navio apitando e casar casar. O
Biribá está muito afim também. A sorte tem o tal de futuro... Não posso ficar
solta e desajustada e pandorga no ar pra sempre eternamente. E se o destino é
aquele mesmo que a gente mesma agarra! Você já me ensinou, já me deu este
toque, lembra?”
As
emoções sobem e descem, valorizam e desvalorizam no grande mercado de sempre
das novas ofertas da ilusão. Na verdade, e sabemos isso já no primeiro dos
nossos dias, entramos nossa sorte nesse trem que nos levará irremediavelmente
para o cais estacionado no mar. Devemos usar o destino a nosso favor.
Uns
olhos grandes e negros, tipo, um sorriso bom ótimo que rebrilhava por todo o
rosto, tipo, uns olhos abertos de par em par, tipo, todo seu ser aconchegante
debruçado pra fora ali dos olhos afora.
Pretendo
me divorciar da minha querida esposa. Conversarei seriamente com as crianças.
Elas me perdoarão. E outros climas. Gosto da Bahia, adorei, já estive lá vários
carnavais quentes praias inusitados recôncavos encantadas fazendas antigas de
cacau recortados litorais, e outros episódios, Porto Seguro, Santa Cruz
Cabrália, Belmonte, Itapebi, Mascote.
Marcela
realmente desistiu das entrevistas. Não veio mais não vem mais. Não precisa
mais dos meus ouvidos ensinados, meu olhar calmo e atual e comportado, minha
respiração normal, meu sorriso habitual, minha mão segura segurando sossegada o
braço da cadeira giratória de alto espaldar, meu tom de voz profissional e
equilibrado e contemporâneo, minha roupa branca com a gravata azul impecáveis.
Nem veio se despedir nem vem se despedir, uma vez. Telefonou um dia rapidamente
e comunicou que estava grávida de três meses, uma menina linda já se via...
mandará fotos por e-mail... Talvez façam mesmo lua de mel em Foz do Iguaçu.
“Cataratas do Iguaçu, poderia lugar melhor no mundo?”
A
estrada é como a história da gente. A sorte da gente é como o rio. Quem quer
ter sorte história tem estrada tem rio. A sorte é a sorte de um rio qualquer,
Paracatu, Pomba, Carangola. Um rio passa por uma cidade funda uma cidade como
Itamonte, Arcos, Campos Verdes, Palminópolis, Bom Jardim da Serra. A sorte da
gente passa por uma Marcela e pensa no futuro logo longo largo.
Marcela
nem veio mais se despedir me dar um abraço me olhar com olhos grandes e negros.
Claro que irei ao casamento. Não iria no casamento da minha melhor ex-paciente,
cumprimentá-la no seu dia bastante feliz, entregar presente das lojas Coari,
elogiá-la no seu vestido bem luxuoso e mais longo, dançar uma marca?!
Olhos
grandes e negros maiores e mais bonitos cada dia que passava. Fechava os olhos
para olhar mais perto mais distante para rever buscando algo ou não. Abria
felina feminina os olhos grandes e negros para me engolir devorar deslumbrar.
Talvez jogue o convite no lixo, aqui do alto da janela como papel picado. Não,
melhor ficar calmo nessa hora.
Decidi
não me separar da minha querida esposa. Vou dar entrevista na tevê. Vou
participar de painéis encontros reuniões seminários palestras teleconferências
debates. Vou me atualizar me reciclar trocar experiências escrever um artigo
novo na revista especializada. Vou que vou que a última palavra é minha razão
que fica.
Mas
saio para umas férias na selva e sozinho, sem máquina fotográfica, sem celular,
sem mapa, sem guia local, e volto se voltar quando quiser. Quero zingar à beira
da lagoa do igarapé do paraná. Lá tem muito verde e chuvas torrenciais todos os
dias. Sempre aprender a remar a ubá no Embirá, Tarauacá, Acuriá, Paratari. Ver
se pego muita chuva todos os dias pela tarde e mosquitos à noite. Conviver
trezentos dias com os índios e as índias carútana. Pescar pirarucus amanás
bodós aiuara-aiuaras, ouvir o grito dos tucanos-de-peito-branco dos
papagaios-do-peito-roxo. De tantos e muitos mosquitos atrapalhados,
atrapalhados na hora de zumbir e de atacar. Os quadrantes que me esperam, e que
me aguardem.
“Anteontem,
lá em casa, a gente toda, nós todas gurias, ficamos de aniversário da
Sheillinha. Daí, certa hora, depois de dois litros de caipirinha com limão
descascado... A Juçara baixou o som, era já hora dos discursos, muitos risos,
assobios de dois dedos, deboches, etc., a Juçara que falou: “O que você quer
ganhar ainda mais de aniversário, Sheilla?” A nossa Sheillinha, cabelos
vermelhos de longas tranças em dupla, sardas no rosto no pescoço nos braços nos
lábios na língua, etc., disse do seu lado: “Eu quero meu namorado um ano-novo
conforme e nascer e me criar em Paraty e lá pelo ano da graça de Nosso Senhor
de MDCLXVIII.” Ouvimos trocamos olhares sabidos rimos à vontade gargalhamos
aplaudimos e nos abraçamos com efusão. E a própria Sheilla se encarregou de nos
perguntar uma por uma em ordem alfabética: “E você, Juçara? E você Renata? E
você Eliza? E você Aninha? E você Marcela?” E nós todas rimos, cada uma riu do
seu jeito particular, cada uma ficou pensando numa resposta engraçada e
otimista, fomos respondendo conforme cada uma ia lembrando de algo bom e muito
bom: “Eu quero uma antiga marchinha de carnaval passado. Eu quero um grande
cartaz dos Lençóis Maranhenses na parede do meu quarto. Eu quero sorvete de
três bolas açaí-pequi-pitanga. Eu quero porque vou casar com um índio aiuateri.
Eu quero ser mais alta que meu namorado.” E foi assim porque assim tinha de
ser, não é?! Logo depois a Juçara chorou, começou o chororô, ela tem sempre as
ideias, ela puxa as coisas, a Sheilla chorou, foi o efeito da caipirinha com
açúcar mascavo, umas se levantaram do chão, todas nós acabamos chorando
abraçadas muito emocionadas muito agarradas de não sei quê que aconteceu ou não
aconteceu, etc., entende?!”
Os
lugares que eu ainda vou passar antes de me passar de todo. Os lugares dos
quatro cantos. Antes do meu rio vazar no mar, tá certo?! Os pontos extremos,
rio Ailã em Roraima, no norte; Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul, no sul; Ponta
do Seixas, na Paraíba, no leste; rio Moa, no Acre, no oeste. E muito obrigado.
Nem por isso.
Quinta-feira
passada estive procurando um apartamento de solteiro e descasado e abandonado e
apartado e desesperado. O céu estava encoberto e fazia muito frio, apesar de já
estarmos em outubro de dois mil e doze. E andei procurando nos bairros no
centro na cidade vizinha de São José. Depois me lembrei do aniversário da minha
filha e de nós quatro correndo na areia branca da praia Brava. Minha filha tem
oito anos e não estuda sem a minha companhia não faz os deveres da escola sem a
minha opinião não dorme sem ouvir a minha voz. Meu filho torce pro meu time e
diz que quer ser um craque de futebol e ser o goleador do time e chegar à
seleção na copa do mundo. E o que vou fazer e o que faço? Mas o dia estava
mesmo muito sufocante muito apertado muito baixo muito enroscado muito
engarrafado. Um frio nos ossos na ideia na alma. Eu parei num bar e tomei caipirinhas,
três e meia da tarde da tarde.
O
secreto enigma por vir do futuro. Colmeia enxame em franca plena atividade. São
os tais e quais segredos mistérios do resto dos nossos dias. Procuro uma ideia
não tenho acho não quero procuro outra melhor e fico procurando.
Os
homens, mas certos homens tucuju e paiaiá e xucuru, entram no rio para se
banhar e viram boto-cinzento, peixe-boi, tracajá. Outros homens, nem todos os
manao e ajuru e sateré-maué e cauixana, se jogam no rio e saem, quando saem da
água, já virados em capivara, tatu, bugio, cateto, tamanduá-bandeira. Alguns
homens escolhidos, embora nem todos os juma e passé e uainumá e jamamadi,
quando nadam nos igarapés e sangas, podem sair da água como jaçanã, tuiuiu,
tachã, ema, harpia, uirapuru.
Vou
excursionar profundamente. Vou apontar o dedo no mapa e sair viajar viajando. E
quando acordar, nem se conseguirei dormir, se acordar, não estarei mais nem aí
pensando na minha sorte passada anterior. Libertar esquecer certos incertos
olhos grandes e negros... e idiotas.