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domingo, 30 de setembro de 2012

Olhos Grandes e Negros


Olhos Grandes e Negros

                                      

        Abracadabra. Marcela me apareceu com 25 anos. Já cansada dos seus 25 para 26 anos? Cabelos negros e longos, olhos grandes e negros, bastas sobrancelhas negras. Arranhada de divisões. Com falta de beijos, daqueles beijos estonteantes beijos. Não mais o centro do universo. Sem utopias sem praia de Marudá sem ilha de Maiandeua sem frutinhas de abio-grande. Tatuagem de colibri atrás no pescoço. Ingênua até que ponto.

        - As gurias lá de casa encontraram na rua, dia desses, um gatinho tongalante e o adotaram. Um minifelino felpudo cinza-claro adorável miado predeterminado firmes olhos de vidro amarelo-claro. Possui um instinto aguçado para com o leite morno que lhe damos toda hora. Derruba coisas, faz cara de distância, brinca com bola de tênis, se estica bocejante deitado no sofá creme, sobe se acomoda no peitoril da janela e mia para o buraco fundo do sexto andar. Tem uma alma que vem dos tempos e das eras, gostos apetites refinados, gestos apropriados macios de felino, afiados interesses, olha e pensa. É amado, idolatrado, paparicado, disputado. Acariciado coçado alisado no dorso na cabeça entre as orelhas.

        Marcela gostava de ouvir música sertaneja universitária, ver filmes de época na tevê paga e comer chocolate. Isso principalmente. Seu coração era um rio lento limpo e quente o ano todo, Juruá, Japurá, Jaú, Jandiatuba. Ver o sol nascer subir por trás do jambuaçu. Adotara um tipo determinado e recorrente de calafrio, cravara-o na alma. Se vestia adequadamente e qualquer roupa lhe caía sempre bem. Nunca usara boné, mas conforme, ficava muito tipo uma guria engraçada de viseira virada. Pernas cruzadas cotovelo no joelho mão segurando o queixo flor branca de perpétua-branca na orelha. Iluminada luminosa crepitante luz. Madura frutinha de Cambuci. Tomando água mineral sem gás no copinho plástico pra lá pra cá. Cabelo chacoalhado displicente e resplandecente. Quadris sem curvas, praticamente.

        - O que prova que estou carente, indecisa, atabalhoada, perdida mesmo, não é?! Possuo a mentalidade de uma criança, doutor. Muito boba. Sonhadora e das mais pequenas e mais fáceis. Terrível! Prefiro não sair dirigir o carro que tentar pechar confundir o trânsito inteiro da rua, da cidade, do país. Sou não sou uma um pleonasmo.

        Por que o céu não tem limites?, é que comporta tranquilamente oito andares, oito camadas, oito níveis, oito poleiros, oito estágios dependendo de quem faz aqui e vai para lá de quem fez aqui e foi para lá; o subsolo tem um único departamento e todo muito quente e muito tórrido. Há chance de ir evoluindo graduando para cima e ou para baixo. Outros nem uma coisa nem outra coisa mas, pelo contrário, reencarnam e entram novamente em órbita terrestre na camisa de uma jaçanã ou um pacu ou uma erva-preá ou uma abelha-cachorro, etc. Cada um tem a sua sorte. Cinco anéis, fogo água terra ar e vazio. Acho que sim acho que sim.

        E Marcela gostava de ver a chuva, tanta cidade, mais praia, praia Vermelha lá na Urca, muita serra, serra do Ororubá. Seu espírito voava solitário e transparente por entre paisagens e sombras de verão. O sonho enchia o coração, embalado e empurrado pelas ondas sonoras das canções amantes. Pretendia visitar Bonito, conhecer e excursionar pela serra dos Caiapós, viver quinze dias com como os índios macu-iuhupde da beira do rio Grajaú, peças tapajônicas no museu João Fona, ilha de Cotunduba, igreja colonial de Tomar do Geru. Cabelo penteado como sempre em a franja. Linda bonita e por quê.

        - Não que eu desgoste as pessoas que estão em volta de mim. Não, nada disso. Mas, certos dias certas horas, elas se tornam difíceis de suportar. Eu mesma também sou difícil e até ruim e pior. Gente que enche os tubos, que pisa nos pés, que pede coisas, que desequilibra uma negativa, que ri alto sobre coisa nem tão graciosa... sei lá. As coisas fora da ordem do controle do gosto me deprimem. Não tenho sempre que precisar de alguém. Não tenho que sempre concordar com tudo com o outro. Não tenho que manter sempre a política da boa vizinhança.

        Ela tinha receio do que pensava ser o fim da idade do sonho, idade da oportunidade de realizar as bagunças ou se arrepender das coisas que não fez, idade de curtir as vantagens de não ter filho, idade de carregar uma mochila nas costas e sair por aí por si só tropeçando nas pedras soltas da Estrada Real. Se sentia uma figurante, uma inútil, uma desinformada, desfocada, uma sombra passageira, árvore do caminho plantada, desolada, jeniparana, mamorana-grande, cajuaçu, laranjeira-do-mato, fedegoso-do-mato, cabeluda, gervão-cheiroso, craveiro-do-maranhão. Tanta coisa rolando sobre o mundo e nada. Nada com ela. Como firmar, confirmar, afirmar os próprios pensamentos. Como ser grande com essa concorrência. Queria uma direção, um sentido, um rio bom por entre a mata ciliar, umas árvores altas com verde verdadeiro. Preencher os dias inteiros com aventuras, curiosidades, importâncias, viagens, Pedra do Ingá, Betânia, Parintins está ancorada na cabeça da cobra-grande. Igual a certas pessoas que ouviu falar e que gostam de viver e vivem e procuram e acham e que não enjoam.

        - Morava ainda no interior Ajuricaba com meus velhos, 15 ou 16 anos, e brincava de dar aulas pros pés de milho. O primo Andirá apareceu e pediu para participar. Depois de um momento ele se insurgiu e me olhou me olhou. Sei o que deu na ideia do bobalhão. Ele me agarrou firme pela cintura, me beijou várias vezes no rosto por todo o rosto no resto do corpo ao acaso por aí e me atiçou a liberdade. Me furou com o dedo e me jogou no chão. Esfolei o joelho o cotovelo e fui sentindo um forte calor nas orelhas e, se me lembro demais, uma grande vontade de fugir correndo, fugir desinfeliz, fugir de olhos fechados.

        Houve um silêncio no consultório. O quadro expressionista ficou mais nítido sério artístico aconchegante na parede. Lá embaixo a rua Duque de Caxias regurgitava esgoelava. O sol no seu pino muito chamejante vermelho amarelo. Cinco minutos depois ela voltou sem muitos gestos, cabelo compenetrado de preto descaído nas costas nas costas, uma pequena mecha espanando o olho esquerdo:

        - Suas mãos seus braços suas pernas me prendiam como num laço num alicate num cadeado. No outro instante estávamos quase nus sobre a terra vermelha, rolando engraçados perto dos tucuruvas, lutando, urrando. Ele mexia com meu fundo impensado de mim, erguia águas quentes, um cheiro de capim-dos-pampas pisado, fazendo força sobre minha barriga, prendendo o meu corpo com o joelho, etc., agarrado no meu cabelo, procurando a minha boca com a boca, chupando a minha jugular. Eu não podia respirar. Os meus braços e as minhas pernas se derretiam. Tudo muito novo que até meus dentes se apertaram. Me sentia caçada tipo bicho, perseguida, suava frio, predada, jaraqui, ajuruetê, jureba, piaçoca. Assim aprendia a não confundir meu coração com meu sexo, acho. E não confundir com meu sorriso. E não confundir uma coisa com outra coisa. Até chegar a não confundir com minha alma. Tanto gritava como mordia como arranhava como esperneava como me retorcia como chorava como me arrependia como corria. Uma preá que voa nada anda corre salta agita espreita rincha.

        Não topamos nossa utopia dos vinte anos na primeira esquina dos nossos vinte e poucos anos. Esse sonho sempre estará por realizar, sempre estará noutro lugar, nunca antes e sempre depois, brinca de esconde, empurra, pega, e faz tempo. Somos nós que embarcamos no sonho, e o rio que nos carregue. Passa o tempo do mesmo jeito. E se perde o que se tem, e não se alcança o que se busca. O rio Manacapuru desce descendo e as nuvens brancas simplesmente acompanham soltas ensinadas esfiapadas no ar. Tudo meio aleatório e meio por nada e meio por que e meio criativo e meio por fazer.

        - Todos os namorados que tive... (mas nem tantos assim), tiveram mãos fortes para lidar com meu corpo. Sempre foi assim e acho que assim será assim como já está. Mãos fortes amassando o meu pescoço, alisando as minhas costas, massageando os meus seios, chinelando as minhas nádegas, etc., dedos mexeriqueiros, rombudos, incorretos, arranhudos, etc., nariz burlando o meu umbigo, ponta da língua contando as minhas pintas, negociando as minhas tatuagens, etc. Escolhem a hora que bem entendem, as horas perdidas, as horas encontradas, as horas apertadas no banco de trás, as horas lá deles. O lugar picareta, os lugares vazios, os lugares escuros, os lugares bêbedos, os lugares escondidos, os lugares acidentados das escadarias frias. Não se comportam como eu mesma gostaria, como eu mesma projetei, como eu sempre sonho. Não suportam esperar e querem devorar partes, lábios, seios, coxas, orelhas, dedão do pé. O Tucuxi, meu primeiro (eu ainda vivia no interior), aparecia lá em casa justamente nas noites de quartas e sábados e nos domingos de tarde. Conversávamos sobre motores futebol luta livre e as tarefas do trampo lá dele. Ás vezes eu precisava estudar e o mandava pra casa dormir. Nas tardes de domingo íamos passear no centro, praça Jutaí, rua avenida Marechal Hermes da Fonseca por onde as árvores voavam caminhavam desfilavam em fila única comportada indiana, canarana, pequiá, ata, carapanaúba, louro-puxuri, andiroba, cambucá. Sempre uma sorveteria ou pastelaria ou doceria, dependendo da temperatura, e caminhávamos ou não pelas calçadas olhando as vitrinas. É claro que Tucuxi gostava de mim e daquilo que eu poderia lhe dar. Aconteceram várias vezes e naturalmente e não me culpo. Um dia, porém, pintaram duas três pequenas coisas adversas obtusas contrárias fora do esquema e encerramos a modinha. Me senti com consciência intranquila, embaralhada, não dormi à noite, me revirei muito na cama, liguei a tevê no canal do gado nelore gir pantaneiro guzerá crioulo lageano búfalo. No dia seguinte já dei graças a Deus e cumprimentei o sol lindo que surgia com o novo dia e os pássaros, bate-bico, beija-flor-d’água, saurá-fogo, bem-te-vi-preto, tuque, bico-assovelado, gralha-de-crista, japacanim. Sem crise e segue o barco e bola pra frente. Era época de vestibular, sempre gostei de plantas e língua estrangeira italiana, e vim morar definitivamente justamente aqui na com em a capital Florianópolis.  

        Sonhadora e o que o mundo fez dela. Molhava os lábios carnudos com a língua - uma delícia! Olhos grandes e negros. Não podia viver sem uns brinquinhos desequilibrando as orelhas, disputando com as pontas dos cabelos lisos. Até tão radiosos como sua pele nova. Buscando o chiclete de um lado e a bala de cupuaçu do outro lado. Ajeitando o cabelo com a mão.  Sorriso sempre na ponta dos lábios no vivo dos olhos grandes e negros na palma da mão. Olhar oblíquo e parecido e premiado. O tênis com figurinha de beija-flor desenhada estampada bordada bastante da cor vermelha. Cadeiras firmes. E com a ideia intermitente de se convencer a voltar para a faculdade de botânica botânica.

        - Sabe o que é?! Acho... Fico pensando... Sabe, sou o tipo que precisa ter um cara bem perto. Relação estável, talvez casamento, amor, segurança, definição, cabeça no lugar, futuro. Bem acompanhadinhos em casa própria, compartilhando, fazendo as coisas, quem sabe chegar a pensar em um filho, vendo tevê nos domingos de tarde, supermercado no sábado de manhã, tomar chimarrão no parque caminhando de chinelo de dedo domingo de manhã, comer pizza com os amigos no shopping domingo de noite depois do cinema. Penso que casar já seja assim um tanto quanto fora de moda e até meio primitivo e desnecessário e desestimulante e ambulante e deselegante.

        Meio que me acostumei com Marcela. Mais certo: meio que me convenci de adorar Marcela. Uma vez tudo era igual junto unido a mesma coisa. Depois houve as separações. A primeira separação foi entre homens e peixes, dourado, tucunaré, traíra, lambari, bagre, acari-amarelo. Mais tarde entre homens e aves, garça-branca, bico-de-lacre, jacutinga, xem-xem, manguari. Depois entre homens e plantas, banana-do-brejo, niopó, alfazema-brava, erva-santa, barriguda, cebola-do-mato, jacarandá-da-baía. Após ainda entre homens e bichos, capininga, macaco-prego-do-peito-amarelo, paca, quati, içá, içabitu.

        Ela pegava os cabelos e parava tudo, o tempo, o mundo, a sombra do dia, o chafariz da praça Tabatinga. Puxava os cabelos para o seio e ficava agradando as pontas. Empurrava os cabelos para as costas num jeito elegante de cabeça e pescoço. Cheirava mastigava a ponta dos cabelos. Jogava por cima do ombro. E a minha vontade era de beijar de beijar lá no fundo dos seus olhos grandes e negros.

        - É doloroso quando volto pra terrinha rever os meus velhos. Não adianta, é doloroso é doloroso. Eles pertencem a outro universo e eu não entendo. Não entendo e eles não me entendem. É friorento, é abichornante. Nunca fomos bons amigos. Mesmo adolescente nunca confiava meus segredos, minhas ilusões, minhas respostas, minhas perguntas. Eu mentia. E hoje já tá bem bastante mais pior. Me acostumei a viver distante no espaço no tempo e no pensamento. E isso é ou não é um fracasso. Somos praticamente estranhos desconhecidos estrangeiros importados. Não serve mais não agrada mais está fora de cogitação. A rua que eu morava já está toda desolada desolada. As pitangueiras as pitumbas as bacabas-grandes os caxins as pacovas-sororocas ainda estão plantadas acostumadas por lá. Quando levo o namorado, que é pra apresentá-lo, eles ficam com a pulga atrás da orelha. E quando não vou com ninguém, e com vontade de comer sapecada de pinhão feita na chapa do fogão a lenha, eles pensam que vivo na pior. Sabe... Eu queria ser uma pessoa calma e cruzar os braços e ficar quieta olhando do meu canto. Eu queria ser sempre jovial despachada, eu queria ser pacanaua camamu nuquini andira malali. Vejo pelo ar o sol solto apelidado cair onde certinho com as horas para fazer a tarde avermelhada alaranjada dourada andorinhada estrelada. Me parece que vem chuva e da boa. Já não somos mais uma família esperta conversada transada.

        Era um dia de chuva, chuva pra valer, chuva forte espontânea e da natural. Marcela parou de conversar, de contar as coisas, foi até a janela envidraçada e olhou lá fora lá pra baixo a cidade molhada, mais ao fundo o mar... Quanta nostalgia! Toda ausente, diluída, cansada, repartida, inquieta, insatisfeita, estreita, desterrada, sem quê, saudosa, acorrentada, peneirada, saudades de quem. O sonho por um fio por um fio. Riscava o dedo no vidro suado embaçado, toda bem quieta e ausente e lentamente e jabota. Tal hora e debaixo do aguaceiro, a cidade vivia no barulho fazia muito alarde sacolejava espocava buzinava martelava.

        - Não sei o que acontece. Sou bem esquisita, você sabe. Todas as suas pacientes são assim meio zonzas, tolas, nada trágicas, meio moribundas, meio sonâmbulas, meio desempregadas? Hoje eu sinto que é dia de ficar em casa, ver entrevistas de celebridades na tevê, dormir a tarde toda, procurar na internet uma cidade aparecida no século XVI, não tirar os pés do chinelo de pano. Gosto da chuva, do dia chuvoso, de todas as tardes sempre chovendo em Santo Antônio do Içá, Jaraguá, Ibituruna, Guapimirim, Limoeiro do Ajuru. Durmo sem parar. Gosto de ler umas poesias uma hora ou outra de vez em quando no meio da preguiça dos bocejos do copo de suco de abacaxi. Me desculpe se estou dizendo nada com mais nada, se não me expresso com respostas, etc. Esta minha história parece sem um bom ponto de apoio, sem moral, sem tragédia, sem morte, sem manguara, sem planta-baixa, sem lastro. Admiro bastante ver os pingos de chuva no vidro. As chuvas caindo sobre tudo e as coisas. Espero só ver você dizer sobre minhas manias de comportamento. Detesto ser sem graça, sou sem graça. É difícil ser outra coisa. Pessoa boba como eu não tem muito o que fazer, não tem muito o que existir, ou pouco acrescenta, ou nada contribui. Quando voltar para a terra outra vez, da próxima vez, outra chance, quero reencarnar num guanumbi.

        Estou doente e vivo num mar sem nuvens brancas sem ondas brancas sem praias brancas sem Marcela dos olhos grandes e negros. Eu bem sei que cada pessoa tem suas neuras. Cada pensamento que a cabeça inventa! Mordo o dedo e provoco o cérebro, ocupo dez por cento da capacidade, noventa e nove do que sei é minha fantasia. E esse nada é tudo é muito é pouco. Há momentos que preferimos um abraço que um milhão de reais. Todos nós temos parafuso de menos. E lamentamos com tanta muita autopiedade. Não se deve confiar nos livros, não confio mais em livros, palpites, receitas, mapas, hipóteses, teses, pajelanças. Muita vaidade muita vaidade.

        O sol aparece pequeno nessa mão. O tempo é isso: devagar e sempre. E pegar ou largar. E lá no fim das contas o profundo fundo do universo, o outro lado do vazio, cheio povoado de trilhões de pontos de estrelas-janelinhas em forma de estrela, um negócio da China que não acaba se pensa não se entende, quando pouco uns planetas, quando pouco umas estrelas, em janelinhas tipo de planeta e em janelinhas tipo de estrela.

        A realidade é sempre a do perder perder. Por que quase sempre essa sensação de que não estamos fazendo a coisa certa ou não estamos insistindo no lugar certo? Sonhar, continuamos tentando sonhar nossos dez por cento que nos cabem ou que cabem na nossa cabeça. Quero erguer uma palhoça na beira do rio Escondido com as folhas prensadas da tucumã uma rede de dormir com as folhas trançadas da guriri me vestir como os índios cupinharó com as folhas secas e bem amarradas da camuá. Quero andar farejar urinar quilômetros graxaim pelos meus quatro domínios da montanha da serra do Mar, fazer gestos micagens estardalhaços mico-leão-da-cara-dourada do alto da figueira-do-mato, amanhecer empoleirado pipiando inquieto tico-tico-do-mato do galho da copaíba-curiarana. 

        Marcela olhou o expressionista da parede ou não olhou coisa alguma. Bota olhar parado profundo, nisso! E, sem me procurar com os olhos grandes e negros, disse usando suavidade normal na voz:

        - O síndico lá do prédio que moramos, seu Caxiri, esperou esperou chover muito chover mais chover bem chover o dia todo a noite toda e a manhã. Aí, na tarde de pouco sol, ele pegou e plantou uma palmeira da espécie buri no meio do jardim da frente. Depois foi se sentar na espreguiçadeira da área chimarrão na mão e ficou olhando divagando meditando espionando a palmeira crescer embalada pelo vento. Então, seu Caxiri, plantou sua planta, hein?! É, plantei! É, agora posso morrer em paz e quando Deus quiser, geralmente!

        Quando eu era guri queria ser jogador de futebol. Imaginava os melhores lances da partida, comprava figurinhas, fazia álbum, disputava no abafa, trocava vinte e cinco difíceis por uma carimbada. Sabia fazer gols e correr para o alambrado vibrar com a torcida. Eu inventava os dribles, driblava a janelinha o elástico a meia-lua o lençol e marcava os gols de placa. Treinava a perna esquerda na parede da garagem. Bola correndo no gramado preparado do Beira-Rio, voleio, bate-pronto, letra, cavadinha, cabeceada, bicicleta. Era só driblar pedalar dar balãozinho estufar no peito rolar na coxa e marcar de pé trocado. Pênalti pênalti!! No natal pedia uma bola oficial, jogar bola e andar de bicicleta e nadar no rio Caripunas. E não me via fora desse sonho obsessivo nunca mais.

        - Claro que pensei em ser atriz, cantora, monja zen-budista, cunhantã ticuna... Quem não sonhou sonho bom assim? Fazendo parte de tudo que acontece por dentro e por fora do mundo. Essas pessoas levam uma vida de gente, correndo o mundo, entrando na essência das coisas e das outras pessoas. Habitam pensamentos e gostos e sonhos de outras pessoas mortais. Levam uma vida de sonho realizado. São abduzidas por etês, etc. Deus aponta o dedo e escolhe. Nunca sabia que beija-flor cantasse, estou ouvindo ele cantar, mas canta muito e se bobear chilreia o dia todo todos os dias e por quê.

        Vivo no meio dessa cidade da magia desde muito, quase sempre, quase nasci aqui. Aprecio o mar, a baía-sul, as praias do sul e do norte, as ilhas e seus fortes ou fortalezas, Campeche, Daniela, Lagoa da Conceição, lagoa do Peri, forte Santana, Anhatomirim, fortaleza de Santo Antônio de Ratones, ponte Hercílio Luz. O céu azul côncavo muito alto, aparentemente vazio. Sol brincando no céu com a lua, acabaram caindo na terra, lua brincando no céu com o sol, de repente caíram levantando poeira fina da areia branca do chão. Brincando de pega, esconde, empurra, corre, pula e até que caíram do alto ao solo. O sol caiu no meio da campinarana perto do rio Macacu. A lua mergulhou no meio do remanso na curva do rio Macacu. Iam e vinham besouros izabelinhas borboletas flores amarelas verdes vermelhas lilases borboletas doces besouros desengonçados flores brancas azuis. De tardezinha o sol se recolheu atrás da montanha Dedo de Deus. A lua ensopada emergiu batendo asas de iara se sentando no barranco para pentear os longos negros cabelos. E muito mesmo os olhos grandes e negros me fazem muita falta.

        Pronto. O que foi. Marcela não aparece mais por mim por aqui e faz uma cara, desistiu. Isso me entontece, me comove, me empobrece, me enfraquece, me faz perder o tempo. Não, não consigo viver sem os olhos grandes e negros sem pensar em Marcela. Suas entrevistas me faziam um bem completo. Avivavam meus sentimentos bons, remoçavam meu sangue, brindavam minha paz, renasciam meu bom humor, iluminavam meu futuro meu futuro. Um lugar calmo natureza ao redor cachoeira branca, céu azul firme imóvel independente, ilha de Tupinambarana, rio Novo, e Marcela enrolando a ponta dos cabelos no dedo. Existe lenitivo para esta minha certeza de perder perder.

        Deixou de vir às entrevistas. Foi embora o tempo de vê-la, existi-la, considerá-la, merecê-la. Ancas estreitas. Passou o tempo bom de ouvi-la. Um tempo uma época uma era muito cheia de alegria coragem sucesso futuro férias em Fortaleza, Maceió, João Pessoa, Olinda, Fonte Boa, Mirim Doce, Minduri, Tefé. Um dia, no meio de uma manhã de enorme céu azul íntimo, o carteiro me deixou o pequeno envelope. Era convite de casamento de Marcela com quem. Convite para o senhor e a senhora tal e quais.

        Óbvio, sou eu o impaciente. Preciso de Marcela todos os dias todas as horas todas as manhãs todas as semanas, tinha Marcela toda semana, não tenho mais, Marcela feita de sol chuva cabelos de cunhantã sapuiá-quiriri, olhos grandes e negros, não tenho mais. Fico imaginando coisa com coisa, fico pensando nela, ela mesma tinha lá suas frases que adotara, gestos só dela, um nome novo de namorado, as ruas que andava e da cidade que escolheu e que namorava, a chuva que gostava de ouvir e de se molhar, a praia de Laguna dos feriadões, tomar chimarrão na sacada olhando o desfile entardecer da rua Pedro Rabello, visitar um museu a cada fim de semana, etc. Fico sonhando por ela, ela sozinha ou acompanhada pelas avenidas pintadas de vitrinas, bazares, feiras livres, tomar sorvete de açaí caminhando na calçada na sombra dos louros-cravos, das seringueiras-itaúbas, das estrelas-do-norte, das angosturas, dos angicos-roxos, dos maracujás-pintados, etc. Me falou, e quando chorou muito com o braço apoiado no espelho no espelho embora já descobrindo descoberto o primeiro fio branco de cabelo. E mais outros versos de Mário Quintana pelas ruas que ainda não andou...

        “Nosso gatinho... Já lhe falei do nosso gato, né?! Bem, Maracajá é dos mais preguiçosos. Um autêntico bicho-preguiça. E ele imagina, procura, acha, brinca, esconde. Anda dois passos, encontra a gente e fala o miau. Se a gente olhar bem de pertinho, cresce, vira felino perigoso, grande bicho do mato caçador, onça-pintada, gato-do-mato, desses que vivem se esgueirando nos  documentários do Pantanal Mato-Grossense. Quando de repente, num súbito instante, vira sábio, fica esquisito, um olhar lá dele parado, perturbador, feiticeiro, distante, igual àquelas lendas do antigo Egito, etc. São adorados como deuses, ou temidos como pajés. Tanto místicos. Em noite de tempestade, e relâmpagos, ele anda pelo apartamento todo, bem perdido, inquieto, doido, miativo, atordoado, investigativo. Você já viu relâmpago cruzar o olho do gato numa noite tenebrosa? Me desculpe. Estou falando de coisas muito sem nada a ver.”

        Levamos a vida toda aprendendo a calçar os sapatos e pentear os cabelos. Mais para o final, não teremos firmeza nas mãos para calçar os sapatos e nem cabelos para pentear. Medicar é como brincar de gato e rato. Destino desencontrado tentando andar junto em parceria com ideias desconcertantes, etc. E vou mudar pra lá, vou morar mais pra lá do rio Paraíba do Sul, além do pico do Jaraguá, para o lado de Areia Branca. E ouvir a música do vento, que vem pelo meio do quadrante, afinando as folhas simplesmente das babosas-do-mato, dos abricós-de-macaco, das abioranas-gutas, dos cravos-do-mato, das baunilhas-falsas, dos espinheiros-bravos. Olhar a mata sempre se disfarçar em paisagem e tons de verde e mais os chamados de saracura-do-brejo, bom-é, anhuma, coruja-do-mato e os encantos das flores de arumãs. Ali mesmo onde o tempo não conta não atua não existe não incomoda não lembra não pensa não vaivém. Uma frugal refeição de taperebás por dia, logo no começo da manhã começo da manhã.

        “As gurias lá de casa tão achando que devo aproveitar o cavalo encilhado, o bonde passando na porta, a bola quicando na área, o navio apitando e casar casar. O Biribá está muito afim também. A sorte tem o tal de futuro... Não posso ficar solta e desajustada e pandorga no ar pra sempre eternamente. E se o destino é aquele mesmo que a gente mesma agarra! Você já me ensinou, já me deu este toque, lembra?”

        As emoções sobem e descem, valorizam e desvalorizam no grande mercado de sempre das novas ofertas da ilusão. Na verdade, e sabemos isso já no primeiro dos nossos dias, entramos nossa sorte nesse trem que nos levará irremediavelmente para o cais estacionado no mar. Devemos usar o destino a nosso favor.

        Uns olhos grandes e negros, tipo, um sorriso bom ótimo que rebrilhava por todo o rosto, tipo, uns olhos abertos de par em par, tipo, todo seu ser aconchegante debruçado pra fora ali dos olhos afora.

        Pretendo me divorciar da minha querida esposa. Conversarei seriamente com as crianças. Elas me perdoarão. E outros climas. Gosto da Bahia, adorei, já estive lá vários carnavais quentes praias inusitados recôncavos encantadas fazendas antigas de cacau recortados litorais, e outros episódios, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Belmonte, Itapebi, Mascote.

        Marcela realmente desistiu das entrevistas. Não veio mais não vem mais. Não precisa mais dos meus ouvidos ensinados, meu olhar calmo e atual e comportado, minha respiração normal, meu sorriso habitual, minha mão segura segurando sossegada o braço da cadeira giratória de alto espaldar, meu tom de voz profissional e equilibrado e contemporâneo, minha roupa branca com a gravata azul impecáveis. Nem veio se despedir nem vem se despedir, uma vez. Telefonou um dia rapidamente e comunicou que estava grávida de três meses, uma menina linda já se via... mandará fotos por e-mail... Talvez façam mesmo lua de mel em Foz do Iguaçu. “Cataratas do Iguaçu, poderia lugar melhor no mundo?”

        A estrada é como a história da gente. A sorte da gente é como o rio. Quem quer ter sorte história tem estrada tem rio. A sorte é a sorte de um rio qualquer, Paracatu, Pomba, Carangola. Um rio passa por uma cidade funda uma cidade como Itamonte, Arcos, Campos Verdes, Palminópolis, Bom Jardim da Serra. A sorte da gente passa por uma Marcela e pensa no futuro logo longo largo.

        Marcela nem veio mais se despedir me dar um abraço me olhar com olhos grandes e negros. Claro que irei ao casamento. Não iria no casamento da minha melhor ex-paciente, cumprimentá-la no seu dia bastante feliz, entregar presente das lojas Coari, elogiá-la no seu vestido bem luxuoso e mais longo, dançar uma marca?!

        Olhos grandes e negros maiores e mais bonitos cada dia que passava. Fechava os olhos para olhar mais perto mais distante para rever buscando algo ou não. Abria felina feminina os olhos grandes e negros para me engolir devorar deslumbrar. Talvez jogue o convite no lixo, aqui do alto da janela como papel picado. Não, melhor ficar calmo nessa hora.

        Decidi não me separar da minha querida esposa. Vou dar entrevista na tevê. Vou participar de painéis encontros reuniões seminários palestras teleconferências debates. Vou me atualizar me reciclar trocar experiências escrever um artigo novo na revista especializada. Vou que vou que a última palavra é minha razão que fica.

        Mas saio para umas férias na selva e sozinho, sem máquina fotográfica, sem celular, sem mapa, sem guia local, e volto se voltar quando quiser. Quero zingar à beira da lagoa do igarapé do paraná. Lá tem muito verde e chuvas torrenciais todos os dias. Sempre aprender a remar a ubá no Embirá, Tarauacá, Acuriá, Paratari. Ver se pego muita chuva todos os dias pela tarde e mosquitos à noite. Conviver trezentos dias com os índios e as índias carútana. Pescar pirarucus amanás bodós aiuara-aiuaras, ouvir o grito dos tucanos-de-peito-branco dos papagaios-do-peito-roxo. De tantos e muitos mosquitos atrapalhados, atrapalhados na hora de zumbir e de atacar. Os quadrantes que me esperam, e que me aguardem. 

        “Anteontem, lá em casa, a gente toda, nós todas gurias, ficamos de aniversário da Sheillinha. Daí, certa hora, depois de dois litros de caipirinha com limão descascado... A Juçara baixou o som, era já hora dos discursos, muitos risos, assobios de dois dedos, deboches, etc., a Juçara que falou: “O que você quer ganhar ainda mais de aniversário, Sheilla?” A nossa Sheillinha, cabelos vermelhos de longas tranças em dupla, sardas no rosto no pescoço nos braços nos lábios na língua, etc., disse do seu lado: “Eu quero meu namorado um ano-novo conforme e nascer e me criar em Paraty e lá pelo ano da graça de Nosso Senhor de MDCLXVIII.” Ouvimos trocamos olhares sabidos rimos à vontade gargalhamos aplaudimos e nos abraçamos com efusão. E a própria Sheilla se encarregou de nos perguntar uma por uma em ordem alfabética: “E você, Juçara? E você Renata? E você Eliza? E você Aninha? E você Marcela?” E nós todas rimos, cada uma riu do seu jeito particular, cada uma ficou pensando numa resposta engraçada e otimista, fomos respondendo conforme cada uma ia lembrando de algo bom e muito bom: “Eu quero uma antiga marchinha de carnaval passado. Eu quero um grande cartaz dos Lençóis Maranhenses na parede do meu quarto. Eu quero sorvete de três bolas açaí-pequi-pitanga. Eu quero porque vou casar com um índio aiuateri. Eu quero ser mais alta que meu namorado.” E foi assim porque assim tinha de ser, não é?! Logo depois a Juçara chorou, começou o chororô, ela tem sempre as ideias, ela puxa as coisas, a Sheilla chorou, foi o efeito da caipirinha com açúcar mascavo, umas se levantaram do chão, todas nós acabamos chorando abraçadas muito emocionadas muito agarradas de não sei quê que aconteceu ou não aconteceu, etc., entende?!”

        Os lugares que eu ainda vou passar antes de me passar de todo. Os lugares dos quatro cantos. Antes do meu rio vazar no mar, tá certo?! Os pontos extremos, rio Ailã em Roraima, no norte; Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul, no sul; Ponta do Seixas, na Paraíba, no leste; rio Moa, no Acre, no oeste. E muito obrigado. Nem por isso.

        Quinta-feira passada estive procurando um apartamento de solteiro e descasado e abandonado e apartado e desesperado. O céu estava encoberto e fazia muito frio, apesar de já estarmos em outubro de dois mil e doze. E andei procurando nos bairros no centro na cidade vizinha de São José. Depois me lembrei do aniversário da minha filha e de nós quatro correndo na areia branca da praia Brava. Minha filha tem oito anos e não estuda sem a minha companhia não faz os deveres da escola sem a minha opinião não dorme sem ouvir a minha voz. Meu filho torce pro meu time e diz que quer ser um craque de futebol e ser o goleador do time e chegar à seleção na copa do mundo. E o que vou fazer e o que faço? Mas o dia estava mesmo muito sufocante muito apertado muito baixo muito enroscado muito engarrafado. Um frio nos ossos na ideia na alma. Eu parei num bar e tomei caipirinhas, três e meia da tarde da tarde.

        O secreto enigma por vir do futuro. Colmeia enxame em franca plena atividade. São os tais e quais segredos mistérios do resto dos nossos dias. Procuro uma ideia não tenho acho não quero procuro outra melhor e fico procurando.

        Os homens, mas certos homens tucuju e paiaiá e xucuru, entram no rio para se banhar e viram boto-cinzento, peixe-boi, tracajá. Outros homens, nem todos os manao e ajuru e sateré-maué e cauixana, se jogam no rio e saem, quando saem da água, já virados em capivara, tatu, bugio, cateto, tamanduá-bandeira. Alguns homens escolhidos, embora nem todos os juma e passé e uainumá e jamamadi, quando nadam nos igarapés e sangas, podem sair da água como jaçanã, tuiuiu, tachã, ema, harpia, uirapuru.  

        Vou excursionar profundamente. Vou apontar o dedo no mapa e sair viajar viajando. E quando acordar, nem se conseguirei dormir, se acordar, não estarei mais nem aí pensando na minha sorte passada anterior. Libertar esquecer certos incertos olhos grandes e negros... e idiotas.