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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Contos de Santa Luzia (8)




A Mãe pulou da rede já antes de todo mundo. Manhã inóspita. Abriu a porta da frente. Olhou o pátio estorricado o potreirinho seco os morros desolados o ar carregado de terra. Nem chovia há meses.
Dias e dias sem nada para fazer ou desfazer ou refazer. Na folhinha da parede o dia de são José o dia de santo Isidoro o dia de santa Luzia o dia dos santos Três Mártires Rio-grandenses. O Pai foi para a ex-rocinha, os filhos para a tapera.
O jaguarinha Eté chegou perto farejando, olhar caído, costelas para contar. A Mãe desejou um sacizinho na garrafa, desses que rodam nos redemoinhos, um saci prático doméstico portátil conversável recorrível. Que horas?
E o calor já estava muito alto lá fora. Pai saiu da rede arrastando as chinelas de tiras de borracha. Sentou na soleira da porta com um cigarro de palha. Nuvens carregadas de vermelho abandonadas pelo vento.
O Pai pegou a enxada e saiu no rumo da roça deserta. Um lugar onde a chuva jamais. Mas, que fazer? Fazer o quê?
            Vira-lata Eté se lançou à frente, parou, esperou que o dono, resmungou, prosseguiu as inspeções. Entrou pela capoeira seca, queria ver se descobria rastos, ganiu, acoou, voltou à trilha. Seguiu acompanhando o dono, lado a lado com o Pai. Parou, as orelhas querendo identificar algo entre as árvores petrificadas, olhou atrás, escutou, observou, e prosseguiu. Farejou aqui e ali, entrou na capoeira calcinada. Lembrou de uma toca de ex-tatu, farejou, latiu, acoou e acoou, rodeou, cercou, farejou, e voltou à estradinha. Apurou o ouvido acendendo as orelhas, observou a própria sombra, se espantou com a própria sombra, e seguiu os pés do dono. E logo logo entrou pela capoeira ressequida e esturricada, e acoou, acoou. Então, reconheceu o lavrado semeado de pedras, sentou ao lado do dono numa laje enquanto o Pai fumava um cigarro de palha de milho.
            O Irmão, a Irmã e a Caçula pouco a pouco iam chegando na tapera da ex-escolinha. Saíam sempre de manhã, pés descalços, pela manhã poeirenta, os três bem perto um do outro, às vezes se distraindo e se esquecendo por aí nos barrancos. Iam até o meio do caminho ou para outro lugar qualquer, dependendo. De repente a Caçula de cavalinho nas costas do mais velho. A estradinha de pó e pedras soltas já muitos meses sem chuva. Poeira vermelha e calor terrível. Nem uma sombra sequer de bicho de árvore.
Acharam ânimo para deslizar do morrinho numa casca seca de ex-coqueiro-catulé. Tucurus abandonados aqui, ali, acolá pelo capoeirão esturricado até perder de vista. Ex-paineiras ex-batauás ex-sucupiras-brancas... com os velhos troncos secos e pretos apontando o alto esfumaçado. Montes de pedra, pedreiras, plantações de pedras, e pedras.
Chegaram na tapera da extinta escolinha. E procuraram o que fazer. Subiram as paredes os montes de tijolos catando coisas de todo tamanho e feitio, etc. Tudo tranquilo quieto esperando o tempo passar.
O Irmão ficou olhando lá longe: tudo seco e muito quente para além das vistas. Mas apareceram, então, na sua imaginação, sua miragem, uma casa simples com chaminé despachando fumacinha, uma árvore de natal do lado de fora - sendo maior que a própria casa -, um olho d’água com tracajazinhos muito preguiçosos, e peixinhos dando biquinhos na superfície, plantas aquáticas, umas nuvens carregadas de chuva, nuvem cavalo, nuvem avião, nuvem barco a vela, nuvem bicho do mato, e mais um bando em v de baitacas voando gritando em pleno céu. Tentou colocar uma vaca malhada com filhote atrás da porteira. Viu uma menina bonita, estranha, andando com ele pra lá e pra cá, jogando bola, subindo em árvores. Desse modo, iam de corrida até o rio Tapacurá que passava rente o morro. Sinceramente, amanhã...
A Irmã aprofundou um olhar entortando a cabeça um pouco e olhar melhor e calculou: era uma vez lá longe bem distante impossível um rio de nome gigantesco silabado A-ma-zo-nas. E havia botos-cinzentos que roubavam meninas desavisadas. Os índios sanamaicã se pintavam com urucum e jenipapo nas festas sagradas chamavam chuva e muita caça. Os índios tinham cocar com penas de araras-azuis-grandes e gaviões-carijós e colhereiros... se vestiam de calção e camiseta de futebol, corriam caçar e pescar e colher formigas para o almoço. Caçavam com zarabatana e com flechada com paulada com pedrada, pescavam com armadilhas. E lá chovia pra dedéu e choviam todos os dias. Índios faziam fogo no centro da taba para assar a caça e a pesca e de noite contar façanhas. Depois, sempre descansavam na rede ou tomavam banho no rio Jaci-Paraná que passava sempre ali. Qualquer tribo da região tinha o seu rio sempre ali perto. Parecia mesmo muito natural a história do índio. E pensou alto a guria Irmã: então, hoje mesmo eu quero morar na aldeia com os índios sanamaicã. Quero ser no mínimo enfermeira, médica, professora, o que for. Talvez até andar pelada, vou precisar. Como seria casar na tribo? Mas para que casar? Como seria amar na rede? Dormir na esteira abraçada com filho do cacique. Sacudir maracá com barulho enfeitiçado. Tremer com lendas do jurupari. Dançar para chover. Bater tambor para chover. Fazer festa na chuva. Sinceramente, amanhã...
A Caçula fazia desenhos na terra seca com varinha seca e sempre amou as princesas Leopoldina e Isabel: sabia seus rostos seus trejeitos seus cabelos as cores dos muitos vestidos a cidade onde habitavam o tempo onde moravam. E as via correndo de um cômodo a outro do grande palácio São Cristóvão da Quinta da Boa Vista. Ficavam lá estudando, rindo, penteando os longos cabelos ruivos ou loiros, sorrindo sorrisos de princesas, piscando seus olhos verdes ou azuis oblíquos. Cabelos vermelhos ou loiros longos longos e trançados numa trança até a cintura. Uns olhos de céu claro ou de floresta ao sol do meio-dia. Mas o mais importante era que as princesas seriam salvas por príncipes lunares, e cada soldado engalanado montado no seu xucro cavalo pampa. As princesas Isabel e Leopoldina cansavam de tomar chá com biscoitos no jardim do palácio Imperial de Petrópolis no Jardim Botânico de Curitiba no parque Jardim de Alá no palácio de Cristal de Petrópolis na beira da lagoa Armênia nos bancos da praça de Casa Forte. Então, a Caçula foi ver de perto o dia a dia das princesas Leopoldina e Isabel. E a Caçula falou com Isabel e Leopoldina. A princesa Isabel respondeu: “Ah!...” - e riu, mas um riso de uma antiga história contada. A princesa Leopoldina respondeu: “Eh!...” - e riu, mas um riso de uma encantadora história narrada. A Caçula queria ficar ali observando para nem se separar das amigas. Apaixonadas as três pelo mesmo príncipe soldado dragão combatente nas revoluções do Império? Ou isso era ainda cedo? Conversaram muito e muito interessadas pelos príncipes aventureiros. E as longas longuíssimas tranças loiras chegando a arrastar no chão do pátio do palácio tropical. Sinceramente, amanhã...
            O Pai jogou os trens todos nas costas e foi rumo do núcleo da aldeola de Santa Luzia. Nem era longe o arraial mas o caminho era enrolado e reticente. Cusquinho Eté o seguiu, oferecido. Os dois, então, caminharam caminharam em longa caminhada. Nem viram gente nem bicho nem árvore nem bichinho bicho alado bicho rasteiro, nada. Viram, isso sim, um longo e rachado deserto de terra vermelha nuvens de pó vermelho gigantes feitos de pedra ema de pedra lagarto teiú de pedra peixe-boi de pedra capivara de pedra...
Pai e Eté caminharam à toa para nem chegar a lugar algum. Caminhando sem pressa porque todo dia era o mesmo mormaço, poeira na cara, suor e febre. Então, os dias e dias e noites nem passavam. Os quilômetros eram todos iguais e nem passavam. Em vez de maniçoba, pedras; em vez de abóbora, outras pedras; em vez de batata-doce, mais pedras. Total: sopa de pedras.
Apontaram de repente diretos retos sobre a rua Única da aldeia de Santa Luzia: vinte e três casinhas decadentes esparsas cobertas de folhas de palmeiras secas, uma capela em homenagem à santa Luzia, uma pracinha de ex-paineiras ex-japarandubas ex-quarós ex-camboatãs-brancos... nem sombra de movimento, tudo dominado pela poeira vermelha, tudo sob um mormaço aniquilador. Nem chovia há duzentos.
E o Pai abriu o bico anunciando seu ofício, “amolador!... amolador de facas e tesouras!...” Os aldeões e as aldeãs espiaram pelas frestas das janelinhas e portinhas das casinhas de pau-a-pique. Uma moça coberta de poeira se exercitava num balanço pendurado de um galho seco de mututi-da-várzea morto. Nem chovia desde o começo dos tempos.
            O Amolador e o Eté subiram e desceram a rua Única, anunciando, “amolador!... amolador!...” A Moça do Balanço até ficou curiosa com a novidade. Continuava o mesmo dia quentíssimo e pegando fogo.
Mais tarde o Amolador foi descansar na aba da capela de santa Luzia. Fazia um verão muito quente e seco e mais nada. Aliás, como sempre fora. E a terra e o oco se confundiam numa tela borrada com poeira vermelha.
            Coincidência acaso, já no primeiro dia, logo que o Amolador e seu mascote apareceram na aldeia, aconteceu um assassinato. A vítima foi a ex-Viúva do ex-Açougueiro. Estava sozinha em casa fazendo nada bocejando cochilando. Aí, então, pelas 20h ela ouviu ruídos na porta do casebre. Pensou que fosse o Filho voltando da pedreira. Chamou e ninguém respondeu. De supetão, uma sombra pulou sobre ela e a agrediu na cabeça com um porrete. Uma hora depois, o Filho da ex-Viúva e do ex-Açougueiro chegou em casa e se deparou com a mancha de sangue. Gritou chamando a vizinhança. Veio todo mundo. Ninguém tinha nada com o estrago. Outra pessoa disse ter ouvido uns passos apressados ali pelo quintal... Ele fora até a janela, desconfiara, mas nem avistara nada de estranho, até porque estava escuro, tudo muito escuro e nublado de nuvens de pó. E mais, todos ali nem puderam ajudar em nada. Na palhoça nem faltava coisa alguma objeto algum o que poderia caracterizar assassinato premeditado vingança ajuste de contas ódio ciúme um mistério. Daí pra frente, apenas o assassino que carregara com a presa...
            No segundo dia que o Amolador anunciou seu ofício, “amolador!... amolador!...”, para cima e para baixo da única rua da aldeia, houve outro assassinato. Muito estranho. A vítima foi o ex-Farmacêutico. Por volta das 20h. O assassino entrou pelos fundos da loja vazia e o atacou de supetão. Pauladas na cabeça. Muito sangue no chão. E só muito mais tarde a ex-esposa, e agora Viúva, preocupada com a demora do ex-esposo, foi à loja vazia e a encontrou abandonada. No chão só a mancha de sangue dura de frio. A Viúva do ex-Farmacêutico, aliás, uma doida maluca, gritou e o povo acorreu. Ninguém teve respostas. Ninguém pensou em nada. Um vizinho da ex-loja jurou ter ouvido uns passos correndo no pátio... Mas da janela de casa nada pôde ver nada, tudo muito escuro. Procurou, ele disse, então, esquecer, e esquecera. Nem faltavam bens materiais. Seria mais um assassinato seguido de roubo de cadáver? Outro mistério. Vai ver era ódio inveja vingança ciúme loucura sadismo. Daí pra frente, apenas o assassino que carregara com a presa...
            Já no terceiro dia que o Amolador gritou pela rua, “amolador!... amolador!...” aconteceu o terceiro assassinato. A vítima foi o ex-Padre. Este estava já na cama ressonando. Se recolhia muito cedo desde sempre hábito antigo. Ali pelas 20h o assassino entrou pelos fundos da casa paroquial, fora ao quarto de dormir do ex-Padre e, de supetão, o atacou a pauladas. Nem aconteceu nada com estátuas de santos e santas ou outros objetos e relíquias. Por volta das 10h do dia seguinte a Faxineira entrou na casa do ex-Padre e encontrou tudo quieto estranhamente parado. Foi até o quarto para acordar o ex-patrão e se deparou com a mancha de sangue no chão. Aí, correu para a rua Única gritando por socorro. Um vizinho testemunhou ter ouvido na noite passada um barulho de passos correndo pelo terreiro... Olhara para fora e nem vira nada tudo muito escuro nebuloso vento chato e etc. Então era o quê, era ciúme, loucura, escárnio, ódio, inveja, podridão, má-criação? Mais um mistério indecifrável insolúvel. Daí pra frente, apenas o assassino que carregara com a presa...
            Diante desses assombrosos mistérios, dia após dia, o povinho da aldeia Santa Luzia decidiu se exaltar. Babaram de horror e gritaram de ódio. Tremeram de indignação e fome e sede. Havia ali entre eles um assassino em série? E isso era péssimo. Foram à capela e se ajoelharam para entoar o terço rezar o terço. Nem tiveram cabeça para rezar ou gritar o terço até o fim. E para que mistérios? Então, chegaram à conclusão, óbvia, que os assassinatos coincidiam com a chegada do Amolador e seu Cãozinho. Portanto nem havia dúvida: o Amolador e seu cúmplice ocular. E convencidos, assanhados, numa histeria coletiva, num ódio faminto, sedentos de vingança, os vilões foram atrás dos forasteiros.
Encontraram os estrangeiros esticados nas mirradas sombras das paineiras secas da pracinha. E de supetão, os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos correram com sete pedras na mão e voaram para cima do Amolador e seu Cãozinho. Eté sentiu o perigo no ar poluído e alertou o dono, tentou avisar antes do perigo chegar. Mas o povo chegou rápido. O povo vinha voando em bloco. O Amolador teve seus muitos ossos partidos. Eté levou um porrete bem entre as orelhas. O Amolador foi morto. Foi levado de arrasto até as escadarias da capela. Trouxeram lenha, atearam fogo na lenha.
E os aldeões e as aldeãs ficaram olhando o fogo até a fogueira virar braseiro. Demorou um pouco. Os aldeões e as aldeãs babavam torcendo as mãos só esperando a hora do churrasco. A fumaça subia subiu se foi por entre nuvens de poeira vermelha. Depois, uma hora depois, o cheiro do churrasco era ainda aliciante. O Eté foi o aperitivo, de tira gosto, de petisco.
E quando tudo foi consumido, quando o fogo apagou, o povinho varreu as cinzas para o canteiro da pracinha. A noite chegou como sempre e estrelou pouco devido à carga de poeira no ar. E dias e noite e meses e anos os aldeões e as aldeãs ficaram falando daquele churrasco.
            Muitos meses se passaram, muitos anos sem chuva e sem uma chuvinha sequer. E o calor o mesmo a aldeia poeirenta a mesma o calor o mesmo. O saci livre e solto no meio do redemoinho vermelho. Na realidade se passaram semanas, meses se amontoaram, teimosos verões foram se arrastando: e nunca mais nem choveu.
            Depois ainda se passaram mais oito anos desde o desaparecimento do Pai e do Eté (do Amolador e do Cãozinho). A situação só foi piorando para a Mãe, o Irmão, a Irmã, a Caçula. Até nem poder piorar mais, e ainda piorava dia a dia cada vez mais. A Mãe já nem pensava, ficava parada nos cantos da choça como uma cadeira, confundida nas sombras igual uma mancha. O pensamento nem chegava nem vinha atrapalhar. E certa manhã calorenta o Irmão pegou os trens todos avisou que ia à aldeia vingar a família e saiu.
Caminhou pelo deserto de pedras e capoeirão. Andou muito por onde e deu voltas sem sair do lugar... E chegou, quem sabe. Já estava na rua Única olhando e olhando a aldeia com suas vinte casinhas derrubadas, uma capela desse tamanhinho para louvar santa Luzia, uma pracinha quase só de paineiras agoniadas e derretidas, sacis arteiros montados em pequenos embrulhos de poeira.
O Irmão entrou pela rua Única carregando os objetos todos de amolador. Subiu e desceu várias vezes a rua anunciando seu ofício, “amolador de facas!... amolador de tesouras!...” E tentava um ou outro freguês. O povinho espiava por detrás das escuras e das cortinas das janelinhas. Irmão parou na pracinha em frente à capela, se estendeu na sombra da abinha, acomodou o carcomido chapéu de palha de buriti nos olhos. Os aldeões e as aldeãs olhavam tudo assombrados. Que pretendiam fazer? Que esperavam que acontecesse? Os aldeões e as aldeãs sabiam de quem se tratava? O Irmão-Amolador queria mesmo assustá-los. O dia estava quieto, a poeira vermelha sempre no ar, o calor de arrasar. O Irmão procurou esquecer o pensamento e esperou cochilar. Lá no meio da rua, quase infantil, o saci gingava no vácuo da espiral de poeira vermelha.     
            A Moça do Balanço logo que ouviu o anúncio, “amolador de ferramentas!... amolador de facas e tesouras!...” botou o pé no chão e parou. Na hora ela se arrepiou toda. A partir daí nem conseguiu pensar outra coisa e ficou mesmo espionando tentando entender. Foi lá dentro pegar umas facas enferrujadas e correu encontrar o Amolador.
            Assim então pois aí, se olharam com calma com surpresa com desconfiança com sinceridade. Nenhum dos dois com pressa. Uma hora se despediram. Do balanço a Moça do Balanço voltou a cuidar do Amolador, filho do ex-Amolador. O Amolador subiu e desceu a rua Única anunciando, “amolador de facas!... amolador de tesouras!...” Fez até um gesto de reconhecimento que a Moça do Balanço correspondeu. Sob um sol que influía por entre as pesadas nuvens cinzentas.
            O Irmão-Amolador, filho do ex-Amolador, nem era de palavras nem se criou com muitas palavras nem nascera para fazer política. Seus planos eram cheios de ódios e de vinganças selvagens e ponto.
A Moça do Balanço anoitecia e amanhecia delirando com a rua. Mas se iludir com a lua nem era nada era só um transporte era só o começo era sobra de tempo era apenas querer ir embora e querer fugir do longo deserto.
            Uma noite assombrosa muito ventosa e com lobisomem e mula sem cabeça e saci, e tudo meio bastante estranho, o filho do ex-Amolador voltava para casa. Pois até que nem chovia há meses. Certa altura do caminho deserto pressentiu, num arrepio pelo corpo, que alguém malvado mal-intencionado o espreitava escondido nas sombras por entre o pedregulho. Certamente alguém da aldeia e com muita fome e sede de sangue. Ali entre aquelas pedras mais altas? Soprava um vento muito xarope e quente e poeirento. A estradinha perdida na noite das eras.
Irmão continuou andando e de orelhas em pé. Nem tinha certeza, mas desconfiava. Pelo jeito era a hora e a vez de um capeta qualquer. Ele queria muito muito também pegar o espião noturno. Logicamente correndo um risco muito grande. Tentou se preparar fosse pra que fosse pro que desse e viesse pra agora ou pra já.
O filho do ex-Amolador prosseguiu andando arrastando as chinelas na poeira do caminho e com vagar e na dele. O Capeta com certeza o atacaria pelas costas, era óbvio. Era o estilo dos capetas. Os nervos lhe diziam que era para logo logo, num instante mesmo, e de supetão.
Então, um vulto se lançou da margem escura e correu na direção do Irmão. E foi assim mesmo como previsto. Rolaram filho do ex-Amolador e Capeta no meio da estrada poeirenta. A coisa ficou precária, e já estava ruça a peleja. A arma que o dito cujo portava, uma faca, caiu e ficou entre os dois contendores. O filho do ex-Amolador queria saber a cara do Capeta. Estava escuro demais e o tal ainda se protegia com touca de buracos nos olhos. Dois cachorros brabos se cuidando.
Do nada, arremeteram. E voltaram a se agarrar tipo bichos. Rolaram pelo pó, sobre pedras soltas, a faca que sobrara no chão de repente apareceu na mão do Irmão. Segurou bem firme a arma, esticou o braço e agrediu o Capeta com toda a força da raiva. Aí, o Capeta gritou como um Capeta? Nem assim. Aí, o Capeta berrou como um pato? Ainda nem assim. Aí, o Capeta zurrou como um porco? E o Capeta ajoelhou e caiu pronto. O Porco levou o tempo que bem quis e entendeu para grunhir espernear estrebuchar tossir escarafunchar engrolar esgravatar o chão e por uns tempos ainda ficou esvaziando. O Porco ainda levou meia hora para morrer bem morrido. E acabou que o Irmão achou que tinha ganhado o dia, e o arrastou pelas pernas.
            Sempre conversavam o filho do ex-Amolador e a Moça do Balanço. Se sentavam ali nas pedras perto do ex-mututi-da-várzea e conversavam. Ele pegou várias vezes a mão dela. E se olhavam acesos de febre trocavam agarrões violentos nervosos e irritados. Se olhavam dentro dos olhos espantados avermelhados de poeira. Dividiam um vasto repertório de palavras cheias de caminhos e viagens e idas. E trocavam agarrões urgentes. Olhavam o deserto de secura sem fim, a rua da aldeia semeada de pedrinhas, o chão mais o alto emendados de poeira vermelha.
Ele colocou:
- Meu parecer seria caminhar para longe e nem parar mais.
Ela confirmou:
- Minha ideia é tomar uma estrada e sumir no caminho.
            Eeele confessou:
            - Um dia partiremos para o final desse mundo esturricado.
            Eeela confidenciou:
            - Nem aguento mais tomar sopas e sopas de pedra.
            Ele ainda pretendia se vingar da aldeia por causa do sumiço de seu pai o Amolador e de Eté o mascote. Desde o primeiro dia que chegara à aldeia reconhecia que corria perigo. Assim, procurou se situar se cuidar calcular os passos ver para onde poderia correr numa fuga escapada. Tinha certeza que estava em perigo. Mas tinha vindo a isso mesmo: desentocar os cramulhões assassinos de seu pai. Vinha cometer uma vingança. Veio para cobrar a conta.
Então, uma certa hora do dia, qual foi a surpresa do filho do ex-Amolador? De supetão e de repente, ali mesmo na pracinha onde descansava na sombra da abinha da capela, dia carregado de nuvens vermelhas de pó, 17 horas em ponto, se viu cercado pelos carrancudos e carrancudas moradores da vila. Todos presentes. Armados com o que tinham de pior e acharam necessário. E o buscaram como haviam buscado seu pai. Nem pôde fugir. O Irmão queria fugir, tentou encontrar uma saída de emergência, mas nem teve escapatória. Pensou o seu fim, e tinha certeza que era o seu fim. Pensou também que nem importava mais. Seu último pensamento foi para a Moça do Balanço. E o povinho lhe caiu em cima como uma avalanche um monjolo um bando como um enxame.  
Os aldeões e as aldeãs se apressaram a fazer o fogo. Todos tensos esfregavam as mãos nervosas. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas esperaram o fogo baixar e virar tudo brasido. O corpo do Irmão o filho do ex-Amolador começou a arder nos espetos.
De longe de perto um cheiro típico de carne assada foi se despedindo em fumaça para o altíssimo noturno misturado com a poeira vermelha. A fumaça também engordaria as nuvens de poeira as estrelas os planetas e mais o que fosse além que tivesse.