A Mãe pulou da
rede já antes de todo mundo. Manhã inóspita. Abriu a porta da frente. Olhou o
pátio estorricado o potreirinho seco os morros desolados o ar carregado de
terra. Nem chovia há meses.
Dias e dias sem
nada para fazer ou desfazer ou refazer. Na folhinha da parede o dia de são José
o dia de santo Isidoro o dia de santa Luzia o dia dos santos Três Mártires
Rio-grandenses. O Pai foi para a ex-rocinha, os filhos para a tapera.
O jaguarinha Eté
chegou perto farejando, olhar caído, costelas para contar. A Mãe desejou um
sacizinho na garrafa, desses que rodam nos redemoinhos, um saci prático
doméstico portátil conversável recorrível. Que horas?
E o calor já
estava muito alto lá fora. Pai saiu da rede arrastando as chinelas de tiras de
borracha. Sentou na soleira da porta com um cigarro de palha. Nuvens carregadas
de vermelho abandonadas pelo vento.
O Pai pegou a
enxada e saiu no rumo da roça deserta. Um lugar onde a chuva jamais. Mas, que
fazer? Fazer o quê?
Vira-lata
Eté se lançou à frente, parou, esperou que o dono, resmungou, prosseguiu as
inspeções. Entrou pela capoeira seca, queria ver se descobria rastos, ganiu, acoou,
voltou à trilha. Seguiu acompanhando o dono, lado a lado com o Pai. Parou, as
orelhas querendo identificar algo entre as árvores petrificadas, olhou atrás,
escutou, observou, e prosseguiu. Farejou aqui e ali, entrou na capoeira
calcinada. Lembrou de uma toca de ex-tatu, farejou, latiu, acoou e acoou, rodeou,
cercou, farejou, e voltou à estradinha. Apurou o ouvido acendendo as orelhas,
observou a própria sombra, se espantou com a própria sombra, e seguiu os pés do
dono. E logo logo entrou pela capoeira ressequida e esturricada, e acoou, acoou.
Então, reconheceu o lavrado semeado de pedras, sentou ao lado do dono numa laje
enquanto o Pai fumava um cigarro de palha de milho.
O
Irmão, a Irmã e a Caçula pouco a pouco iam chegando na tapera da ex-escolinha.
Saíam sempre de manhã, pés descalços, pela manhã poeirenta, os três bem perto
um do outro, às vezes se distraindo e se esquecendo por aí nos barrancos. Iam
até o meio do caminho ou para outro lugar qualquer, dependendo. De repente a
Caçula de cavalinho nas costas do mais velho. A estradinha de pó e pedras
soltas já muitos meses sem chuva. Poeira vermelha e calor terrível. Nem uma
sombra sequer de bicho de árvore.
Acharam ânimo
para deslizar do morrinho numa casca seca de ex-coqueiro-catulé. Tucurus abandonados
aqui, ali, acolá pelo capoeirão esturricado até perder de vista. Ex-paineiras
ex-batauás ex-sucupiras-brancas... com os velhos troncos secos e pretos
apontando o alto esfumaçado. Montes de pedra, pedreiras, plantações de pedras,
e pedras.
Chegaram na
tapera da extinta escolinha. E procuraram o que fazer. Subiram as paredes os
montes de tijolos catando coisas de todo tamanho e feitio, etc. Tudo tranquilo
quieto esperando o tempo passar.
O Irmão ficou
olhando lá longe: tudo seco e muito quente para além das vistas. Mas apareceram,
então, na sua imaginação, sua miragem, uma casa simples com chaminé despachando
fumacinha, uma árvore de natal do lado de fora - sendo maior que a própria casa
-, um olho d’água com tracajazinhos muito preguiçosos, e peixinhos dando
biquinhos na superfície, plantas aquáticas, umas nuvens carregadas de chuva, nuvem
cavalo, nuvem avião, nuvem barco a vela, nuvem bicho do mato, e mais um bando
em v de baitacas voando gritando em pleno céu. Tentou colocar uma vaca malhada
com filhote atrás da porteira. Viu uma menina bonita, estranha, andando com ele
pra lá e pra cá, jogando bola, subindo em árvores. Desse modo, iam de corrida até
o rio Tapacurá que passava rente o morro. Sinceramente, amanhã...
A Irmã
aprofundou um olhar entortando a cabeça um pouco e olhar melhor e calculou: era
uma vez lá longe bem distante impossível um rio de nome gigantesco silabado A-ma-zo-nas.
E havia botos-cinzentos que roubavam meninas desavisadas. Os índios sanamaicã se
pintavam com urucum e jenipapo nas festas sagradas chamavam chuva e muita caça.
Os índios tinham cocar com penas de araras-azuis-grandes e gaviões-carijós e
colhereiros... se vestiam de calção e camiseta de futebol, corriam caçar e
pescar e colher formigas para o almoço. Caçavam com zarabatana e com flechada
com paulada com pedrada, pescavam com armadilhas. E lá chovia pra dedéu e choviam
todos os dias. Índios faziam fogo no centro da taba para assar a caça e a pesca
e de noite contar façanhas. Depois, sempre descansavam na rede ou tomavam banho
no rio Jaci-Paraná que passava sempre ali. Qualquer tribo da região tinha o seu
rio sempre ali perto. Parecia mesmo muito natural a história do índio. E pensou
alto a guria Irmã: então, hoje mesmo eu quero morar na aldeia com os índios
sanamaicã. Quero ser no mínimo enfermeira, médica, professora, o que for.
Talvez até andar pelada, vou precisar. Como seria casar na tribo? Mas para que
casar? Como seria amar na rede? Dormir na esteira abraçada com filho do
cacique. Sacudir maracá com barulho enfeitiçado. Tremer com lendas do jurupari.
Dançar para chover. Bater tambor para chover. Fazer festa na chuva. Sinceramente,
amanhã...
A Caçula fazia
desenhos na terra seca com varinha seca e sempre amou as princesas Leopoldina e
Isabel: sabia seus rostos seus trejeitos seus cabelos as cores dos muitos vestidos
a cidade onde habitavam o tempo onde moravam. E as via correndo de um cômodo a
outro do grande palácio São Cristóvão da Quinta da Boa Vista. Ficavam lá
estudando, rindo, penteando os longos cabelos ruivos ou loiros, sorrindo sorrisos
de princesas, piscando seus olhos verdes ou azuis oblíquos. Cabelos vermelhos
ou loiros longos longos e trançados numa trança até a cintura. Uns olhos de céu
claro ou de floresta ao sol do meio-dia. Mas o mais importante era que as
princesas seriam salvas por príncipes lunares, e cada soldado engalanado
montado no seu xucro cavalo pampa. As princesas Isabel e Leopoldina cansavam de
tomar chá com biscoitos no jardim do palácio Imperial de Petrópolis no Jardim
Botânico de Curitiba no parque Jardim de Alá no palácio de Cristal de
Petrópolis na beira da lagoa Armênia nos bancos da praça de Casa Forte. Então, a
Caçula foi ver de perto o dia a dia das princesas Leopoldina e Isabel. E a
Caçula falou com Isabel e Leopoldina. A princesa Isabel respondeu: “Ah!...” - e
riu, mas um riso de uma antiga história contada. A princesa Leopoldina respondeu:
“Eh!...” - e riu, mas um riso de uma encantadora história narrada. A Caçula queria
ficar ali observando para nem se separar das amigas. Apaixonadas as três pelo
mesmo príncipe soldado dragão combatente nas revoluções do Império? Ou isso era
ainda cedo? Conversaram muito e muito interessadas pelos príncipes aventureiros.
E as longas longuíssimas tranças loiras chegando a arrastar no chão do pátio do
palácio tropical. Sinceramente, amanhã...
O
Pai jogou os trens todos nas costas e foi rumo do núcleo da aldeola de Santa
Luzia. Nem era longe o arraial mas o caminho era enrolado e reticente. Cusquinho
Eté o seguiu, oferecido. Os dois, então, caminharam caminharam em longa
caminhada. Nem viram gente nem bicho nem árvore nem bichinho bicho alado bicho
rasteiro, nada. Viram, isso sim, um longo e rachado deserto de terra vermelha
nuvens de pó vermelho gigantes feitos de pedra ema de pedra lagarto teiú de
pedra peixe-boi de pedra capivara de pedra...
Pai e Eté caminharam
à toa para nem chegar a lugar algum. Caminhando sem pressa porque todo dia era
o mesmo mormaço, poeira na cara, suor e febre. Então, os dias e dias e noites nem
passavam. Os quilômetros eram todos iguais e nem passavam. Em vez de maniçoba,
pedras; em vez de abóbora, outras pedras; em vez de batata-doce, mais pedras. Total:
sopa de pedras.
Apontaram de
repente diretos retos sobre a rua Única da aldeia de Santa Luzia: vinte e três
casinhas decadentes esparsas cobertas de folhas de palmeiras secas, uma capela
em homenagem à santa Luzia, uma pracinha de ex-paineiras ex-japarandubas
ex-quarós ex-camboatãs-brancos... nem sombra de movimento, tudo dominado pela
poeira vermelha, tudo sob um mormaço aniquilador. Nem chovia há duzentos.
E o Pai abriu
o bico anunciando seu ofício, “amolador!... amolador de facas e tesouras!...”
Os aldeões e as aldeãs espiaram pelas frestas das janelinhas e portinhas das
casinhas de pau-a-pique. Uma moça coberta de poeira se exercitava num balanço
pendurado de um galho seco de mututi-da-várzea morto. Nem chovia desde o começo
dos tempos.
O
Amolador e o Eté subiram e desceram a rua Única, anunciando, “amolador!... amolador!...”
A Moça do Balanço até ficou curiosa com a novidade. Continuava o mesmo dia
quentíssimo e pegando fogo.
Mais tarde o
Amolador foi descansar na aba da capela de santa Luzia. Fazia um verão muito
quente e seco e mais nada. Aliás, como sempre fora. E a terra e o oco se
confundiam numa tela borrada com poeira vermelha.
Coincidência
acaso, já no primeiro dia, logo que o Amolador e seu mascote apareceram na aldeia,
aconteceu um assassinato. A vítima foi a ex-Viúva do ex-Açougueiro. Estava
sozinha em casa fazendo nada bocejando cochilando. Aí, então, pelas 20h ela
ouviu ruídos na porta do casebre. Pensou que fosse o Filho voltando da pedreira.
Chamou e ninguém respondeu. De supetão, uma sombra pulou sobre ela e a agrediu
na cabeça com um porrete. Uma hora depois, o Filho da ex-Viúva e do ex-Açougueiro
chegou em casa e se deparou com a mancha de sangue. Gritou chamando a
vizinhança. Veio todo mundo. Ninguém tinha nada com o estrago. Outra pessoa
disse ter ouvido uns passos apressados ali pelo quintal... Ele fora até a
janela, desconfiara, mas nem avistara nada de estranho, até porque estava
escuro, tudo muito escuro e nublado de nuvens de pó. E mais, todos ali nem puderam
ajudar em nada. Na
palhoça nem faltava coisa alguma objeto algum o que poderia caracterizar
assassinato premeditado vingança ajuste de contas ódio ciúme um mistério. Daí
pra frente, apenas o assassino que carregara com a presa...
No
segundo dia que o Amolador anunciou seu ofício, “amolador!... amolador!...”,
para cima e para baixo da única rua da aldeia, houve outro assassinato. Muito
estranho. A vítima foi o ex-Farmacêutico. Por volta das 20h. O assassino entrou
pelos fundos da loja vazia e o atacou de supetão. Pauladas na cabeça. Muito
sangue no chão. E só muito mais tarde a ex-esposa, e agora Viúva, preocupada
com a demora do ex-esposo, foi à loja vazia e a encontrou abandonada. No chão
só a mancha de sangue dura de frio. A Viúva do ex-Farmacêutico, aliás, uma
doida maluca, gritou e o povo acorreu. Ninguém teve respostas. Ninguém pensou em nada. Um vizinho da ex-loja
jurou ter ouvido uns passos correndo no pátio... Mas da janela de casa nada
pôde ver nada, tudo muito escuro. Procurou, ele disse, então, esquecer, e
esquecera. Nem faltavam bens materiais. Seria mais um assassinato seguido de
roubo de cadáver? Outro mistério. Vai ver era ódio inveja vingança ciúme
loucura sadismo. Daí pra frente, apenas o assassino que carregara com a
presa...
Já
no terceiro dia que o Amolador gritou pela rua, “amolador!... amolador!...” aconteceu
o terceiro assassinato. A vítima foi o ex-Padre. Este estava já na cama
ressonando. Se recolhia muito cedo desde sempre hábito antigo. Ali pelas 20h o
assassino entrou pelos fundos da casa paroquial, fora ao quarto de dormir do ex-Padre
e, de supetão, o atacou a pauladas. Nem aconteceu nada com estátuas de santos e
santas ou outros objetos e relíquias. Por volta das 10h do dia seguinte a Faxineira
entrou na casa do ex-Padre e encontrou tudo quieto estranhamente parado. Foi
até o quarto para acordar o ex-patrão e se deparou com a mancha de sangue no
chão. Aí, correu para a rua Única gritando por socorro. Um vizinho testemunhou
ter ouvido na noite passada um barulho de passos correndo pelo terreiro... Olhara
para fora e nem vira nada tudo muito escuro nebuloso vento chato e etc. Então
era o quê, era ciúme, loucura, escárnio, ódio, inveja, podridão, má-criação?
Mais um mistério indecifrável insolúvel. Daí pra frente, apenas o assassino que
carregara com a presa...
Diante
desses assombrosos mistérios, dia após dia, o povinho da aldeia Santa Luzia
decidiu se exaltar. Babaram de horror e gritaram de ódio. Tremeram de
indignação e fome e sede. Havia ali entre eles um assassino em série? E isso
era péssimo. Foram à capela e se ajoelharam para entoar o terço rezar o terço. Nem
tiveram cabeça para rezar ou gritar o terço até o fim. E para que mistérios? Então,
chegaram à conclusão, óbvia, que os assassinatos coincidiam com a chegada do Amolador
e seu Cãozinho. Portanto nem havia dúvida: o Amolador e seu cúmplice ocular. E
convencidos, assanhados, numa histeria coletiva, num ódio faminto, sedentos de
vingança, os vilões foram atrás dos forasteiros.
Encontraram os
estrangeiros esticados nas mirradas sombras das paineiras secas da pracinha. E
de supetão, os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos correram com sete pedras
na mão e voaram para cima do Amolador e seu Cãozinho. Eté sentiu o perigo no ar
poluído e alertou o dono, tentou avisar antes do perigo chegar. Mas o povo
chegou rápido. O povo vinha voando em bloco. O Amolador
teve seus muitos ossos partidos. Eté levou um porrete bem entre as orelhas. O Amolador
foi morto. Foi levado de arrasto até as escadarias da capela. Trouxeram lenha,
atearam fogo na lenha.
E os aldeões e
as aldeãs ficaram olhando o fogo até a fogueira virar braseiro. Demorou um
pouco. Os aldeões e as aldeãs babavam torcendo as mãos só esperando a hora do
churrasco. A fumaça subia subiu se foi por entre nuvens de poeira vermelha.
Depois, uma hora depois, o cheiro do churrasco era ainda aliciante. O Eté foi o
aperitivo, de tira gosto, de petisco.
E quando tudo
foi consumido, quando o fogo apagou, o povinho varreu as cinzas para o canteiro
da pracinha. A noite chegou como sempre e estrelou pouco devido à carga de
poeira no ar. E dias e noite e meses e anos os aldeões e as aldeãs ficaram falando
daquele churrasco.
Muitos
meses se passaram, muitos anos sem chuva e sem uma chuvinha sequer. E o calor o
mesmo a aldeia poeirenta a mesma o calor o mesmo. O saci livre e solto no meio
do redemoinho vermelho. Na realidade se passaram semanas, meses se amontoaram,
teimosos verões foram se arrastando: e nunca mais nem choveu.
Depois
ainda se passaram mais oito anos desde o desaparecimento do Pai e do Eté (do Amolador
e do Cãozinho). A situação só foi piorando para a Mãe, o Irmão, a Irmã, a
Caçula. Até nem poder piorar mais, e ainda piorava dia a dia cada vez mais. A
Mãe já nem pensava, ficava parada nos cantos da choça como uma cadeira, confundida
nas sombras igual uma mancha. O pensamento nem chegava nem vinha atrapalhar. E
certa manhã calorenta o Irmão pegou os trens todos avisou que ia à aldeia
vingar a família e saiu.
Caminhou pelo
deserto de pedras e capoeirão. Andou muito por onde e deu voltas sem sair do
lugar... E chegou, quem sabe. Já estava na rua Única olhando e olhando a aldeia
com suas vinte casinhas derrubadas, uma capela desse tamanhinho para louvar santa
Luzia, uma pracinha quase só de paineiras agoniadas e derretidas, sacis arteiros
montados em pequenos embrulhos de poeira.
O
Irmão entrou pela rua Única carregando os objetos todos de amolador. Subiu e
desceu várias vezes a rua anunciando seu ofício, “amolador de facas!... amolador
de tesouras!...” E tentava um ou outro freguês. O povinho espiava por detrás
das escuras e das cortinas das janelinhas. Irmão parou na pracinha em frente à
capela, se estendeu na sombra da abinha, acomodou o carcomido chapéu de palha
de buriti nos olhos. Os aldeões e as aldeãs olhavam tudo assombrados. Que
pretendiam fazer? Que esperavam que acontecesse? Os aldeões e as aldeãs sabiam
de quem se tratava? O Irmão-Amolador queria mesmo assustá-los. O dia estava
quieto, a poeira vermelha sempre no ar, o calor de arrasar. O Irmão procurou
esquecer o pensamento e esperou cochilar. Lá no meio da rua, quase infantil, o
saci gingava no vácuo da espiral de poeira vermelha.
A Moça do Balanço logo que ouviu o anúncio, “amolador de
ferramentas!... amolador de facas e tesouras!...” botou o pé no chão e parou.
Na hora ela se arrepiou toda. A partir daí nem conseguiu pensar outra coisa e
ficou mesmo espionando tentando entender. Foi lá dentro pegar umas facas
enferrujadas e correu encontrar o Amolador.
Assim
então pois aí, se olharam com calma com surpresa com desconfiança com
sinceridade. Nenhum dos dois com pressa. Uma hora se despediram. Do balanço a
Moça do Balanço voltou a cuidar do Amolador, filho do ex-Amolador. O Amolador
subiu e desceu a rua Única anunciando, “amolador de facas!... amolador de
tesouras!...” Fez até um gesto de reconhecimento que a Moça do Balanço
correspondeu. Sob um sol que influía por entre as pesadas nuvens cinzentas.
O
Irmão-Amolador, filho do ex-Amolador, nem era de palavras nem se criou com
muitas palavras nem nascera para fazer política. Seus planos eram cheios de
ódios e de vinganças selvagens e ponto.
A Moça do
Balanço anoitecia e amanhecia delirando com a rua. Mas se iludir com a lua nem
era nada era só um transporte era só o começo era sobra de tempo era apenas
querer ir embora e querer fugir do longo deserto.
Uma
noite assombrosa muito ventosa e com lobisomem e mula sem cabeça e saci, e tudo
meio bastante estranho, o filho do ex-Amolador voltava para casa. Pois até que
nem chovia há meses. Certa altura do caminho deserto pressentiu, num arrepio
pelo corpo, que alguém malvado mal-intencionado o espreitava escondido nas
sombras por entre o pedregulho. Certamente alguém da aldeia e com muita fome e
sede de sangue. Ali entre aquelas pedras mais altas? Soprava um vento muito xarope
e quente e poeirento. A estradinha perdida na noite das eras.
Irmão continuou
andando e de orelhas em pé. Nem tinha certeza, mas desconfiava. Pelo jeito era
a hora e a vez de um capeta qualquer. Ele queria muito muito também pegar o espião
noturno. Logicamente correndo um risco muito grande. Tentou se preparar fosse
pra que fosse pro que desse e viesse pra agora ou pra já.
O filho do
ex-Amolador prosseguiu andando arrastando as chinelas na poeira do caminho e
com vagar e na dele. O Capeta com certeza o atacaria pelas costas, era óbvio. Era
o estilo dos capetas. Os nervos lhe diziam que era para logo logo, num instante
mesmo, e de supetão.
Então, um
vulto se lançou da margem escura e correu na direção do Irmão. E foi assim
mesmo como previsto. Rolaram filho do ex-Amolador e Capeta no meio da estrada poeirenta.
A coisa ficou precária, e já estava ruça a peleja. A arma que o dito cujo portava,
uma faca, caiu e ficou entre os dois contendores. O filho do ex-Amolador queria
saber a cara do Capeta. Estava escuro demais e o tal ainda se protegia com touca
de buracos nos olhos. Dois cachorros brabos se cuidando.
Do nada, arremeteram.
E voltaram a se agarrar tipo bichos. Rolaram pelo pó, sobre pedras soltas, a
faca que sobrara no chão de repente apareceu na mão do Irmão. Segurou bem firme
a arma, esticou o braço e agrediu o Capeta com toda a força da raiva. Aí, o Capeta
gritou como um Capeta? Nem assim. Aí, o Capeta berrou como um pato? Ainda nem
assim. Aí, o Capeta zurrou como um porco? E o Capeta ajoelhou e caiu pronto. O
Porco levou o tempo que bem quis e entendeu para grunhir espernear estrebuchar
tossir escarafunchar engrolar esgravatar o chão e por uns tempos ainda ficou
esvaziando. O Porco ainda levou meia hora para morrer bem morrido. E acabou que
o Irmão achou que tinha ganhado o dia, e o arrastou pelas pernas.
Sempre
conversavam o filho do ex-Amolador e a Moça do Balanço. Se sentavam ali nas
pedras perto do ex-mututi-da-várzea e conversavam. Ele pegou várias vezes a mão
dela. E se olhavam acesos de febre trocavam agarrões violentos nervosos e
irritados. Se olhavam dentro dos olhos espantados avermelhados de poeira. Dividiam
um vasto repertório de palavras cheias de caminhos e viagens e idas. E trocavam
agarrões urgentes. Olhavam o deserto de secura sem fim, a rua da aldeia semeada
de pedrinhas, o chão mais o alto emendados de poeira vermelha.
Ele colocou:
- Meu parecer
seria caminhar para longe e nem parar mais.
Ela confirmou:
- Minha ideia é
tomar uma estrada e sumir no caminho.
Eeele
confessou:
-
Um dia partiremos para o final desse mundo esturricado.
Eeela
confidenciou:
-
Nem aguento mais tomar sopas e sopas de pedra.
Ele
ainda pretendia se vingar da aldeia por causa do sumiço de seu pai o Amolador e
de Eté o mascote. Desde o primeiro dia que chegara à aldeia reconhecia que
corria perigo. Assim, procurou se situar se cuidar calcular os passos ver para
onde poderia correr numa fuga escapada. Tinha certeza que estava em perigo. Mas
tinha vindo a isso mesmo: desentocar os cramulhões assassinos de seu pai. Vinha
cometer uma vingança. Veio para cobrar a conta.
Então, uma
certa hora do dia, qual foi a surpresa do filho do ex-Amolador? De supetão e de
repente, ali mesmo na pracinha onde descansava na sombra da abinha da capela,
dia carregado de nuvens vermelhas de pó, 17 horas em ponto, se viu cercado
pelos carrancudos e carrancudas moradores da vila. Todos presentes. Armados com
o que tinham de pior e acharam necessário. E o buscaram como haviam buscado seu
pai. Nem pôde fugir. O Irmão queria fugir, tentou encontrar uma saída de
emergência, mas nem teve escapatória. Pensou o seu fim, e tinha certeza que era
o seu fim. Pensou também que nem importava mais. Seu último pensamento foi para
a Moça do Balanço. E o povinho lhe caiu em cima como uma avalanche um monjolo um
bando como um enxame.
Os aldeões e
as aldeãs se apressaram a fazer o fogo. Todos tensos esfregavam as mãos
nervosas. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas esperaram o fogo baixar e
virar tudo brasido. O corpo do Irmão o filho do ex-Amolador começou a arder nos
espetos.
De longe de
perto um cheiro típico de carne assada foi se despedindo em fumaça para o
altíssimo noturno misturado com a poeira vermelha. A fumaça também engordaria
as nuvens de poeira as estrelas os planetas e mais o que fosse além que tivesse.