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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Terra Sem Mal (juvenil) cap. 6



            Naquela tarde esbranquiçada de verão, onde o sol - também conhecido, mas menos conhecido, como kuará - trabalhava no céu, céu azul completo, céu redondo, o jovem poeta sabiá-laranjeira estava por demais inspirado e trabalhando nuns versos bonitos e sem igual e sem par e sem parar.
E nada preocupado com o futuro o presente o passado o comer o beber o dormir. Nada preocupado porque poetas não ficam preocupados com o estômago ou o tempo. Poetas só ficam sérios diante de um novo amor e diante de uma nova imagem insólita feita bem de propósito para os versos.
E o poeta cantor de cabelos escorridos estava já satisfeito com seus amores do dia. Os poetas não param de sonhar, e isso é bom ou ruim. Pois esse pássaro não estava nem aí, tá ligado, meu! E cantava... ou melhor, pipiava e declamava suas poesias passarinheiras, aladas, e falou:
            - O sabiá-laranjeira sou eu! O mesmo sabiá satisfeito! E que espera passar a chuvarada de verão! Para cantar na tardezinha que vai vermelha!
            Sempre rodeado de admiradores, e com a corda toda, o poeta continuava. Continuou e prosseguiu como se a inspiração viesse dos astros, das estrelas cadentes, dos desenhos do zodíaco, dos seres espaciais, das árvores verdes, compondo dizendo, das pindobeiras e jacitaras, juntou:
            - O sabiá-laranjeira não vê o futuro! Nem próximo nem distante nem espacial! Não tem memória do que virá! Canta entre as folhas verdes na sombra do quintal!
            A índia dos gueguê, de muçuruna-maracá na cintura, ergueu a mão e perguntou:
            - Jovem poeta! Isto é caminho ou poesia?
            O declamador achou melhor continuar a declamar. O poeta pela metade não queria se meter em política, dedilhou:
            - O sabiá-laranjeira no domingo de manhã! Bem domingo de manhãzinha! Brinca de brigar com a namorada! Por causa de um fio de ouro caído do sol! Que de desassossego os desassossegou!
A sorte ou o destino em Ivy-Marae sempre será bom, bom e leve, esperado e normal. Em Ivy-Marae os passarinhos cantam de namoro marcado, e tudo é bonito de se ver e ouvir. O poeta achava assim e continuou, cantou:
            - O sabiá-laranjeira trina no ar puro! Salta do galho entre as folhas presas! Salta nas pedras nas plantas nas folhagens! Calculando as penas e as medidas e as dezenas!
            O jovem passarinho, resolvendo, olhou os admiradores todos. Procurava sempre os olhos das meninas sorridentes e meigas. Mas resolvendo de maneira inspirada e por acaso, resolveu:
            - O sabiá-laranjeira quer casa em agosto! Vai e vem pela praça Triangular todos os dias! Muito engraçado e sorridente! Todo mundo vê! Depois assobia por ali o fiu-fiiiiiu!...
            Hipocampo apreciava ouvir os poemas do jovem dos cabelos bem raspados zero. Então, fez uma pergunta sem ofensas, indagou:
            - Jovem excelente poeta! Isto tudo é estrada ou poesia?
            O alado dos cabelos lisos longos, respondeu. Antes, porém, de responder, coçou devagarzinho o coco crinudo, disse:
            - O sabiá-laranjeira chora os amores queridos! Quer então ser bem-te-vi-do-brejo ou uirapuru-laranja! Ou um coleirinha-do-campo de voo zunido! Quem sabe um canário-da-terra todo verão de amarelo!
            Abraçado aos sonhos de poeta encantado, inseparável do desejo de ser poeta surrealista, caído sobre amores impossíveis, amado por passarinhas possíveis, o declamador prosseguiu:
            - O sabiá-laranjeira não tem receio da chuva de verão! Veste o casaco de penas impermeáveis! E sai para brincar debaixo do incontrolável aguaceiro!
            A saracura-três-potes se preparou para perguntar ao jovem e perguntou:
            - Jovem encantado dos cabelos escorridos! Isto é caminhada ou poesia?
            No que o nosso poeta preparou a garganta para dizer, e trovar, trovando, trovou:
            - O sabiá-laranjeira vê o avião voar a mil! Sabe o porquê do riacho correr e não acabar nunca! Do céu e do mar sempre vê tanta água junta! Só lembra que sai para brincar na alta altura da tucumã!
            Será que os poetas sempre passam sede e fome? O jovem respondeu. E declamou por todos os poetas do mundo, embora sem que os outros todos poetas do mundo soubessem que ele declarava, driblou:
            - O sabiá-laranjeira vai longe e vai distante! Vai buscar e volta, vai e vem correndo! Vai buscar frutas para o almoço e o jantar! Vai buscar caqui no quintal da vizinha! Vai buscar água na sanguinha!
            Um menino conversando para o seu cachorrinho. Os dois ali entre o povo todo que escutava o poeta chilreador:
            - Filomeno... Acho que já li este poeta. Ele pode muito bem se chamar João Drummond.
            O cãozinho Filomeno, mais preto que marrom, auou:
            - Não me diga! Agora que tu falô, parece mesmo! Auau!...
            Aí, o tempo não passou mais porque o tempo gosta de poesia e ficou encantado, parado no mesmo lugar. Aí, o tempo encantado ficou do tamanho de uma flor de cor a escolher. O dia ou a tarde calmou calmou...
Olhando bem, olhando bem havia uns meninos correndo atrás de uma bola.  Olhando mais havia umas meninas correndo atrás de uma bola. E no meio dos meninos e das meninas e da bola, uma bola. Ou seria somente uma fantasia?
Sempre àquela hora as paineiras conversavam mais um pouco com os jacarandás. Pareciam mais e mais tagarelas ao vento sudoeste.
E o poeta, de escorridos cabelos, ficou olhando... E na rua iam passando outras coisas e pessoas e bichos e animais e invertebrados. Passavam hortaliças, passavam marrecas-pardinhas, marrecas-pé-vermelho, passavam legumes, passavam frutos do mar, passavam samambaias, begônias-sempre-floridas, araçás-felpudos, canelas-brancas, cabriúvas, passavam nuvens, passavam paranaenses e acreanos, passavam mosquitos pernilongos, passavam ônibus chegando lotados de Camaçari, passavam ilhéus de Arapiranga, passavam veranistas da praia do Forte.
O tempo não havia chegado ainda à casa de portas amarelas com janelas azuis e jardim de mio-mios na frente. Logo quem, e gueguê-guê, uma chuvinha elegante.
                                                                       ***
            No mar-oceano, as ondas vêm e se espicham, as ondas vão, ondas vêm e se largam, ondas vão. De tanto que as ondas se mexem parece que se vão sem parar e vêm sem nem mais aquela.
            A Gaivota subiu para o azul sem manchas do céu. Era dia esplendido de março. Partiu da beira-mar e voando como ninguém. Pegou uma corrente propícia e se atirou para as bandas do continente.
A ave olhava lá embaixo a paisagem desenhada e pintada como em canteiros de jardim: o verde variado das matas, os tons de capoeirões e plantações; os caminhos, estradas e rios ziguezagueantes, etc, as montanhas, os pinheirais de araucária. A Gaivota gostava de rochas, olhar rochas e peraus, pousar na beira dos precipícios e olhar o mar. Gaivota adorava montanhas altas e rochosas à beira-mar.
            Lá pelas duas horas da tarde se deu conta que estava muito longe do oceano Atlântico, seu mar de costume. Decidiu pensar e piar assim:
            - Eu já lhe digo...
            A Gaivota resolveu escolher a cidade de Ivy-Marae para esperar a sua subida ao céu. Em outras palavras, a Gaivota estava morta e viva em espírito. Voava muito bem, por sinal. Pousou numa janela do palácio de vidro, o Jardim Botânico, ali mesmo em Ivy-Marae. Pousou e olhou em volta. Cheirou o ar e ficou calma.
            Até antes de pousar na janela do palácio de vidro, a Gaivota ainda fizera umas voltas e reviravoltas sobre a cidade para reconhecimento. Se certificara olhando uma placa de carro e dissera assim para si mesma:
            - Olha, uma placa de carro de Ivy-Marae. Várias placas com esse nome de cidade mirabolante. Então, aqui é Ivy-Marae e eu cheguei.
Fora vista pelo Hipocampo que dissera, surpreso:
            - Hum... Ora veja... Não tenho certeza, mas acho que é um guará do alagado.
            A Gaivota também surpreendera o Jabuti, anjo ou santo, que apontara a mão barbatana com dedos para o ar e falara:
            - Hum... Ora, Nossa Senhora Aparecida... Não tenho certeza, porém acredito que seja um chapéu de palha de tucumã flanando no ar.
            Voando mais um pouco, a Gaivota iludira mais um observador, uma observadora. Desta vez era a menina Rê, que muito interessada apontara o dedo fura-bolos e conversara:
            - Hum... Ora mesmo... Não tenho certeza, entretanto pode ser que seja uma pandorga de duas cores.
            Não era pião, não era nada, não era um sonho, não era bandeirinha de papel de seda, não era luz em forma de disco voador, não era prisma, e sim a Gaivota. Esta Gaivota cansada de mar, e que fugira para o continente, e que ainda cansara de olhar o continente do alto, que gostava de rochas para aterrissar, resolvera pousar na janela do palácio de vidro, o Jardim Botânico.
            Foi lá na sua janela, uma das suas janelas, que a moça e cunhantã Caúna - cunhantã a bem pouco convidada pelo Cacique para ser sua filha - encontrou a Gaivota. As duas se encontraram. A cunhantã que sempre levava os cabelos agitados pelo vento.
Era a primeira vez em número que se via uma ave marinha fazer isso, ou seja, pousar no parapeito de uma janela de quarto de cunhantã em palácio de vidro do Jardim Botânico e tão distante do mar. E a hora passava um pouco só além das onze horas. Cada sombra muito rente a sua própria coisa.
            Pois a cunhantã não tinha o que fazer naquele instante. Estava por acaso ali na janela de vidro olhando pela janela. Olhou a Gaivota e a achou maravilhosa e andorinha. A Gaivota, cansada da viagem, olhou a moça cunhantã e pensou: “Bem, esta é uma cunhantã legal como todas as cunhantãs do bem.”
            Dizendo isso para si mesma, a Gaivota começou a chorar, e já escondendo os olhos úmidos atrás das suas pontas de asas. A moça disse, condoída:
            - Não chore assim por nada, Gaivota!
            Então, a Gaivota se descobriu e começou a rir, e muito. Impressionante mesmo! Riu com felicidade brilhando nos olhos e nas penas macias e quentes. Chegou até a falar alto para a moça Caúna ouvir:
            - Eu já lhe digo...
            A cunhantã passou as pontas dos dedos nas penas da Gaivota. O peito da ave era branco e as costas eram cinzentas. Assim, a Gaivota sentiu muito frio pelo corpo todo, e se encolheu propositalmente batendo os dentes. A Gaivota se lembrou do lençol verde do mar, um verde-claro de mar, e disse dizendo toda numa voz trêmula:
            - Me lembro do verde ou do azul que se mexia em ondas.
            A cunhantã se afastou, deu um passo atrás, com medo até de provocar uma ave congelada. Era muito estarrecedor! Aí, a moça falou com muita calma:
            - Tá com frio, Gaivota? Por que frio se o dia está cheio de sol e a estação navega no verão? Ficou com receio da minha curiosidade de amiga? Olhe a paisagem de Ivy-Marae! Já viu tudo que é lindo?
            Por aí a Gaivota abriu os olhos, se mexeu, pulou de pé e começou surpreendentemente a suar, a ficar com muito calor. Com tanto calor que abriu o bico, bateu as asas como se fossem leques e suspirou assim:
            - Eu já lhe digo...
            A Caúna ainda foi mais calma. Levou as mãos aos ombros, xizando os braços, mostrou os dentes e sorriu. Achou fantástico? E convidou a ave para entrar e conhecer o seu quarto de repouso na casa de vidro do Jardim Botânico:
            - Venha, Gaivota! Quer realmente conhecer meu canto? Quer me visitar ainda mais? Quer morar na casa de vidro? Quer ser minha irmã de companhia? Quer estudar computação comigo? Quer trocar ideias sobre as coisas? Quer falar dos voos sobre o mar? Quer ir e vir? Quer alguém de amiga?
            É por isso que a ave respondeu. E respondeu e disse de modo para não deixar a mínima sombra de dúvida:
            - Eu já lhe digo...
                                                                       ***
            É claro que Jabuti, desde menino, e antes de ser monge, era bom em matemática e não pecava por excesso de caridade. Gostava e sempre gostou de subir em árvores, se dependurar dos galhos, praticar arborismo, macaquismo, fazer macaquices, pular de galho em galho como os saguis. E correr pelas ruas sem motivo algum, a pé ou de bicicleta.
Jabuti gostava de jogar bola, e jogava de goleiro. Até aí se vê que era para ser anjo ou santo.
            Há muita coisa na vida de Jabuti quelônio à procura de respostas e perguntas e esclarecimentos. Há muita coisa que precisa ser contada e recontada. Mas a vida de um santo ou anjo não tem explicação nesse mundo da sorte ou do trânsito para o céu.
            Jabuti virou mesmo santo ou anjo agora recentemente quando começou a ficar velho no convento, pouco antes de morrer. Será quê? A vida sem sorte lá do pobre convento era mesmo para fazer de qualquer pessoa ou quelônio um santo ou anjo. E Jabuti virou anjo ou santo mesmo. No topo da cabeça, acima da cabeça um palmo, já se via a típica auréola. A carapaça amarela que escondia os pés e as mãos. Aura invisível, e que todo mundo podia ver.
            O bom Jabuti gostava de plantas, avencas-da-terra, amoreiras-da-silva, catauaris, caapomongas, caratingas-bravos, anauerás, ingás-do-mato. O Jabuti gostava do rio Oiapoque. Adorava a serra Dourada. E Jabuti se fosse escolher gostaria de ser jogador de futebol ou pássaro tipo papagaio-do-peito-roxo. O pensamento de Jabuti escava quase sempre para todos os lados.
            Engraçado mesmo com Jabuti foi que ele sempre sonhou, nas horas de silêncio do mosteiro, em subir para o céu na escadinha de nuvens. Era um sonho e uma esperança de Jabuti. Todo dia ele tinha esse sonho ou essa esperança porque no monastério não havia o que fazer. Era bom para ele porque passavam as horas e ele se sentia importante diante de Deus ou Tupã. Uma escada de nuvens bem branquinha, com degraus de algodão branco, subindo para o céu azul... Um dia até sonhou com um elevador branco e mais rápido, panorâmico. E também sonhou com uma montanha que brilhava com muito ouro. E sonhou outro dia com uma árvore branca e muuuuuito alta até o céu, os frutos todos de ouro polido.
            Mas Jabuti estava caminhando pela estrada, uma ou duas horas depois da morte certa. E Jabuti já tinha ressuscitado em espírito. Jabuti já tinha morrido uma vez, ressuscitado e virado anjo ou santo, pronto.
E ele parou na estrada, ali pelo acostamento onde caminhava, e sentou numa pedra. A carapaça pesava um pouco de nada. Ficou ali descansando ou pensando nas nuvens, com a cabeça nas nuvens, com a ideia nas alturas. Olhou para o céu e viu umas boas e interessantes nuvens. Não dava ainda para saber se ia chover e o quanto. Jaboti gostava de pensar. E pensou daqui, pensou dali. E as ideias vinham, iam e voltavam. Jabuti pensou alto:
            - Engraçado. De repente eu já sou mesmo um anjo ou santo, porém ainda não cheguei ao céu. Alguém pode me explicar isso?
            Não havia ninguém ali por perto, portanto ninguém poderia lhe dizer nada nem lhe explicar coisa alguma.
            E Jabuti tinha uma ótima sintonia com os passarinhos, porque era só ver: os passarinhos chegavam perto dele todos curiosos e despreocupados. Vinham mansos catar sementinhas brilhantes ali pertinho dos seus pés. Vinham do alto e pousavam ali para disputar sementinhas de cor. Aterrissavam bem perto dos seus pés invisíveis e pipiavam lá entre eles e sempre despreocupados. Uns pousavam na carapaça raiada de amarelos.
            Bem, agora Jabuti já estava bem morto, seu corpo enterrado e seu espírito ressuscitado e andando. Andando na estrada e descansando ali sentado na pedra. Já era anjo ou santo. Jabuti ainda não chegara à cidade de Ivy-Marae? Portanto, Jabuti não devia pensar em namorada. É, não devia (ou pensamos que não devia), mas o fato era que pensava. Jabuti pensou logo na Lenita jabota, uma menina que ele gostara e muito no tempo que era jogador de bola e goleiro na adolescência. Jabuti, por causa desse pensamento de namorada vindo assim depois de muito tempo, ficou preocupado, e se perguntou, alma cheia de emo, se perguntou:
            - Peraí! Que é que há, meu! Agora sou anjo ou santo! E anjo ou santo não tem tempo para coisas do particular do seu próprio coração! E depois já faz muito tempo! Eu tinha somente onze anos e nem mesmo pensava em morar no convento!
            Jabuti tinha toda razão. Quando era menino, em casa dos pais, passou as maiores privações. Daí que resolveram interná-lo no convento e fazer dele um monge. Lá ele teria comida e poderia comer à vontade.
            O Jabuti gostava de olhar as plantas, mururés-rendados, agoniadas, esponjas-de-raiz, macacaúbas-do-campo, ervas-de-lagarto. Gostava da praia do Atalaia, praia do Arembepe. Gostaria de ser ariranha. Os pensamentos do Jabuti escorriam como água por entre os dedos da mão.
            Um feriado, dia da cidade, naquela época dos seus onze doze treze anos, Jabuti foi a uma festa na igreja de N. S. do Monte do Carmo e ganhou um santinho com a imagem de São Francisco de Assis. Guardou no meio das suas coisas a imagem do santo que gostava de animais e plantas e era de família rica e não queria ser rico e deu toda sua riqueza aos pobres. Aí, o tempo deu uns passos para a frente. Deu uns pulinhos. Somente para secar. O tempo foi mais um tanto.
E quando Jabuti se encontrava aos quatorze quinze anos, ficou sabendo que São Francisco de Assis gostava muito de ir para o campo e ficar o dia todo no campo andando entre os animais e as árvores e pensando coisas boas e sonhando com coisas úteis.
            Sem ninguém saber, quase nem ele mesmo, Jabuti treinava para santo ou anjo. E pensava alto:
            - Querer ser anjo ou santo é muita pretensão? É sonhar longe demais?
            Um dia Jabuti se viu conversando com Deus. Na frente uma parede. E se assustou, e falou para quem:
            - Oh, que que é isso, meu?!
            Jabuti ficou um minuto envergonhado. Mas aí pensou que era exagero ficar envergonhado por tão pouco, e se desenvergonhou na hora.
            Assim, Jabuti resolveu que faria tudo para ser anjo ou santo. Jabuti estava gostando das duras penas. Por isso mesmo andava na rua sempre humilde e de cabeça baixa. Caminhava muito abatido pelas estradas de chão batido, levando nos pés sandálias franciscanas de pescador, as mãos às costas, boné de pala dura na cabeça para proteger os olhos. Desviava o pensamento de coisas da terra, por exemplo: não pensava mais em Lenita jabota ou outra menina qualquer; não pensava mais em ser goleiro e ir para a Copa; e etc. E caminhava sem pressa de mãos às costas. Pressa nunca fora o forte da família, e coisa e tal. E olhava e cheirava atentamente todo bicho ou bichinho que lhe passava diante dos olhos e do nariz. Pegava em cada pétala de flor e manchava o dedo de pólen para depois cheirar ou degustar. Se interessava por todas as pequenas coisas que encontrava pelo caminho. E caminhava. Não tinha medo de caminhar. Era o dia todo assim, às vezes.
            Depois o tempo deu um pique. E Jabuti foi admitido no convento. Isso que já se sabe. Na primeira noite chorou. Na manhã seguinte quis voltar para casa. Na tarde do mesmo dia seguinte, os monges o mandaram capinar a roça de milho e debaixo de um sol quente.
            Um dia, isso já um mês no convento, fez um milagre gigantesco e maravilhoso e importante. Jabuti estava plantando porongos para fazer cuias de chimarrão, quando um colega de convento lhe gritou:
            - Oh, seu Ferida!!
            De surpresa Jabuti não gostou do apelido. Mas ficou preocupado com o que fazer ou responder. Pensou rapidamente tentando achar uma calma e uma paciência e uma saída boa para todos.
            O milagre maravilhoso do Jabuti foi este: Jabuti não fez nada, Jabuti não se revoltou com o apelido, Jabuti não se irritou com a ofensa, Jabuti nem se alterou. E Jabuti não fez nada porque estava sem raiva. Logo, estava curado da vida de quelônio normal e comum. Jabuti até elogiou o apelido e a criatividade do colega. Jabuti queria ser anjo ou santo.
Na verdade, Jabuti praticamente estava melhorando e passando para outro estágio. Um estágio mais puro, mais humano, mais sábio, mais alto, mais santo. Era mesmo.
Jabuti não fez nada depois de ouvir aquela ofensa. Não deu bola, não se importou e até esqueceu tudo muito rapidamente. Assim, todos os colegas viram que Jabuti já estava muito perto de ser anjo ou santo. Inclusive longe deles. Os mais rebeldes da escola chegavam para lhe beijar a mão. Os mais novatos do colégio chegavam e lhe pediam para lhe lavar os pés.
            Ele entendeu sozinho que para ser santo ou anjo não precisava ir tanto tanto  na capela. Nem precisava rezar tanto tanto assim. Bastava para ser santo ou anjo que tivesse calma e muita paciência. Bastava calma, paciência e esperar sentado. Bastava não comer carne e gostar muito de bichos e de plantas e de todas as outras coisas.
            Quando Jabuti já passava dos cinco anos de monastério, ou convento, ou colégio interno, aconteceu o segundo milagre. Foi num sábado. Jabuti fez chover.
O quelônio Jabuti estava passeando com as mãos às costas quando se lembrou que já não chovia há muitos meses. Havia seis meses que não chovia. Ele parou no meio do lavrado de abóboras murchas e ergueu os braços para o alto. O lavrado de terra seca, as abóboras esqueléticas e pequeninas, os animais sufocados, os alunos entregues pelo cansaço, o mormaço sufocando a tudo e a todos.
E Jabuti ficou uns minutos esperando de braços abertos para o alto. Depois teve esperança. Logo sentiu um empurrão nos olhos, depois outro empurrão nos ouvidos, e mais dois ou três empurrões nos braços, nas pernas, por todo o corpo... como se estivesse cheio de força divina ou elétrica.
E, então, os que viram tiveram logo a ideia de que acontecia um milagre dos bons. Todos acharam que Tupã estava dando preferência ao Jabuti. Que Jabuti estava iluminado pelo espírito santo. E, principalmente, Jabuti fez chover. E choveu bem e melhor. Choveu como se fosse chover. Choveu como chove em agosto com vento minuano.
Jabuti gostava de plantas, caaeés, acariquaras, acapus, matamatás-vermelhos, perpétuas, timbós-da-mata, cascas-para-tudo. Ele gostava do rio Tauá. E gostaria de ser um peixe tipo tamuatá. O pensamento de Jabuti recebia ventos dos quatro cantos do sonho.
            E Jabuti se informou melhor sobre sua vocação de ser santo ou anjo. Jabuti foi ver nos livros da biblioteca do convento. E Jabuti ficou sabendo que para ser santo teria que morrer muito velhinho e com a cara rodeada de longas barbas brancas, uma bengala de apoio e uma aura bem brilhante rodeando o corpo; e para ser anjo podia morrer cedo e com um par de asas grandes e brancas de tuiuiu. Teria também que, como último estágio, ressuscitar. Passar também uma temporada pequena que fosse na cidade de Ivy-Marae.
            Jabuti lembrou do que falara com a mãe quelônio, certa vez na infância, lá em casa:
            - Eu pretendo ser anjo ou santo, pronto, tá decidido.
            - Mas são coisas muito difíceis, filho! E nossa família não tem dinheiro, filho!
            Jabuti teve uma vida cansativa no colégio. Sempre pronto para executar as tarefas. Mesmo as mais sem sentido. Carregava pedras cada vez mais pesadas, vestia cada vez mais pobre, orava cantando cada vez mais alto, comia cada vez menos, dormia cada vez menos, tomava banho cada vez menos.
            Pois Jabuti lembrou de tudo isso ali sentado na pedra à beira da estrada para Ivy-Marae. Jabuti adorava as pedras soltas do caminho. E Jabuti só levava a carapaça do corpo. Para ser santo ou anjo tivera que cometer muito sacrifício e aprender a calma, ter muita calma, a paciência, ter muita paciência. E calma para tudo. Calma ou paciência. E ele já tinha uma boa dose de calma espalhada pelo espírito ressuscitado. Jabuti nunca teve pressa. Jabuti olhava a estrada.
E pela estrada ainda passavam bandos de homens, passavam enxames de abelhas mandaguari, passavam moradores de Pilar de Goiás, passavam bandos de periquitos-verdes tagarelando conversadores, passavam manadas de bois e vacas brancas e nelores.
            E as estrelas. As estrelas do céu sabem tudo, mas estão muito longe demais.