Naquela
tarde esbranquiçada de verão, onde o sol - também conhecido, mas menos
conhecido, como kuará - trabalhava no céu, céu azul completo, céu redondo, o
jovem poeta sabiá-laranjeira estava por demais inspirado e trabalhando nuns
versos bonitos e sem igual e sem par e sem parar.
E nada preocupado com o futuro
o presente o passado o comer o beber o dormir. Nada preocupado porque poetas
não ficam preocupados com o estômago ou o tempo. Poetas só ficam sérios diante
de um novo amor e diante de uma nova imagem insólita feita bem de propósito
para os versos.
E o poeta cantor de cabelos
escorridos estava já satisfeito com seus amores do dia. Os poetas não param de
sonhar, e isso é bom ou ruim. Pois esse pássaro não estava nem aí, tá ligado,
meu! E cantava... ou melhor, pipiava e declamava suas poesias passarinheiras,
aladas, e falou:
- O
sabiá-laranjeira sou eu! O mesmo sabiá satisfeito! E que espera passar a
chuvarada de verão! Para cantar na tardezinha que vai vermelha!
Sempre
rodeado de admiradores, e com a corda toda, o poeta continuava. Continuou e
prosseguiu como se a inspiração viesse dos astros, das estrelas cadentes, dos
desenhos do zodíaco, dos seres espaciais, das árvores verdes, compondo dizendo,
das pindobeiras e jacitaras, juntou:
- O
sabiá-laranjeira não vê o futuro! Nem próximo nem distante nem espacial! Não
tem memória do que virá! Canta entre as folhas verdes na sombra do quintal!
A índia
dos gueguê, de muçuruna-maracá na cintura, ergueu a mão e perguntou:
-
Jovem poeta! Isto é caminho ou poesia?
O
declamador achou melhor continuar a declamar. O poeta pela metade não queria se
meter em política, dedilhou:
- O
sabiá-laranjeira no domingo de manhã! Bem domingo de manhãzinha! Brinca de
brigar com a namorada! Por causa de um fio de ouro caído do sol! Que de
desassossego os desassossegou!
A sorte ou o destino em
Ivy-Marae sempre será bom, bom e leve, esperado e normal. Em Ivy-Marae os
passarinhos cantam de namoro marcado, e tudo é bonito de se ver e ouvir. O
poeta achava assim e continuou, cantou:
- O
sabiá-laranjeira trina no ar puro! Salta do galho entre as folhas presas! Salta
nas pedras nas plantas nas folhagens! Calculando as penas e as medidas e as
dezenas!
O
jovem passarinho, resolvendo, olhou os admiradores todos. Procurava sempre os
olhos das meninas sorridentes e meigas. Mas resolvendo de maneira inspirada e
por acaso, resolveu:
- O
sabiá-laranjeira quer casa em agosto! Vai e vem pela praça Triangular todos os
dias! Muito engraçado e sorridente! Todo mundo vê! Depois assobia por ali o
fiu-fiiiiiu!...
Hipocampo
apreciava ouvir os poemas do jovem dos cabelos bem raspados zero. Então, fez
uma pergunta sem ofensas, indagou:
-
Jovem excelente poeta! Isto tudo é estrada ou poesia?
O
alado dos cabelos lisos longos, respondeu. Antes, porém, de responder, coçou
devagarzinho o coco crinudo, disse:
- O
sabiá-laranjeira chora os amores queridos! Quer então ser bem-te-vi-do-brejo ou
uirapuru-laranja! Ou um coleirinha-do-campo de voo zunido! Quem sabe um
canário-da-terra todo verão de amarelo!
Abraçado
aos sonhos de poeta encantado, inseparável do desejo de ser poeta surrealista,
caído sobre amores impossíveis, amado por passarinhas possíveis, o declamador
prosseguiu:
- O
sabiá-laranjeira não tem receio da chuva de verão! Veste o casaco de penas
impermeáveis! E sai para brincar debaixo do incontrolável aguaceiro!
A
saracura-três-potes se preparou para perguntar ao jovem e perguntou:
-
Jovem encantado dos cabelos escorridos! Isto é caminhada ou poesia?
No
que o nosso poeta preparou a garganta para dizer, e trovar, trovando, trovou:
- O sabiá-laranjeira
vê o avião voar a mil! Sabe o porquê do riacho correr e não acabar nunca! Do
céu e do mar sempre vê tanta água junta! Só lembra que sai para brincar na alta
altura da tucumã!
Será
que os poetas sempre passam sede e fome? O jovem respondeu. E declamou por
todos os poetas do mundo, embora sem que os outros todos poetas do mundo
soubessem que ele declarava, driblou:
- O
sabiá-laranjeira vai longe e vai distante! Vai buscar e volta, vai e vem
correndo! Vai buscar frutas para o almoço e o jantar! Vai buscar caqui no
quintal da vizinha! Vai buscar água na sanguinha!
Um
menino conversando para o seu cachorrinho. Os dois ali entre o povo todo que
escutava o poeta chilreador:
-
Filomeno... Acho que já li este poeta. Ele pode muito bem se chamar João
Drummond.
O
cãozinho Filomeno, mais preto que marrom, auou:
- Não
me diga! Agora que tu falô, parece mesmo! Auau!...
Aí, o
tempo não passou mais porque o tempo gosta de poesia e ficou encantado, parado
no mesmo lugar. Aí, o tempo encantado ficou do tamanho de uma flor de cor a
escolher. O dia ou a tarde calmou calmou...
Olhando bem, olhando bem havia
uns meninos correndo atrás de uma bola.
Olhando mais havia umas meninas correndo atrás de uma bola. E no meio
dos meninos e das meninas e da bola, uma bola. Ou seria somente uma fantasia?
Sempre àquela hora as
paineiras conversavam mais um pouco com os jacarandás. Pareciam mais e mais
tagarelas ao vento sudoeste.
E o poeta, de escorridos
cabelos, ficou olhando... E na rua iam passando outras coisas e pessoas e
bichos e animais e invertebrados. Passavam hortaliças, passavam
marrecas-pardinhas, marrecas-pé-vermelho, passavam legumes, passavam frutos do
mar, passavam samambaias, begônias-sempre-floridas, araçás-felpudos,
canelas-brancas, cabriúvas, passavam nuvens, passavam paranaenses e acreanos,
passavam mosquitos pernilongos, passavam ônibus chegando lotados de Camaçari,
passavam ilhéus de Arapiranga, passavam veranistas da praia do Forte.
O tempo não havia chegado
ainda à casa de portas amarelas com janelas azuis e jardim de mio-mios na
frente. Logo quem, e gueguê-guê, uma chuvinha elegante.
***
No
mar-oceano, as ondas vêm e se espicham, as ondas vão, ondas vêm e se largam,
ondas vão. De tanto que as ondas se mexem parece que se vão sem parar e vêm sem
nem mais aquela.
A
Gaivota subiu para o azul sem manchas do céu. Era dia esplendido de março.
Partiu da beira-mar e voando como ninguém. Pegou uma corrente propícia e se
atirou para as bandas do continente.
A ave olhava lá embaixo a
paisagem desenhada e pintada como em canteiros de jardim: o verde variado das
matas, os tons de capoeirões e plantações; os caminhos, estradas e rios
ziguezagueantes, etc, as montanhas, os pinheirais de araucária. A Gaivota
gostava de rochas, olhar rochas e peraus, pousar na beira dos precipícios e
olhar o mar. Gaivota adorava montanhas altas e rochosas à beira-mar.
Lá
pelas duas horas da tarde se deu conta que estava muito longe do oceano
Atlântico, seu mar de costume. Decidiu pensar e piar assim:
- Eu
já lhe digo...
A
Gaivota resolveu escolher a cidade de Ivy-Marae para esperar a sua subida ao
céu. Em outras palavras, a Gaivota estava morta e viva em espírito. Voava muito
bem, por sinal. Pousou numa janela do palácio de vidro, o Jardim Botânico, ali
mesmo em Ivy-Marae. Pousou e olhou em volta. Cheirou o ar e ficou calma.
Até
antes de pousar na janela do palácio de vidro, a Gaivota ainda fizera umas
voltas e reviravoltas sobre a cidade para reconhecimento. Se certificara
olhando uma placa de carro e dissera assim para si mesma:
-
Olha, uma placa de carro de Ivy-Marae. Várias placas com esse nome de cidade
mirabolante. Então, aqui é Ivy-Marae e eu cheguei.
Fora vista pelo Hipocampo que
dissera, surpreso:
-
Hum... Ora veja... Não tenho certeza, mas acho que é um guará do alagado.
A
Gaivota também surpreendera o Jabuti, anjo ou santo, que apontara a mão
barbatana com dedos para o ar e falara:
-
Hum... Ora, Nossa Senhora Aparecida... Não tenho certeza, porém acredito que
seja um chapéu de palha de tucumã flanando no ar.
Voando
mais um pouco, a Gaivota iludira mais um observador, uma observadora. Desta vez
era a menina Rê, que muito interessada apontara o dedo fura-bolos e conversara:
-
Hum... Ora mesmo... Não tenho certeza, entretanto pode ser que seja uma
pandorga de duas cores.
Não
era pião, não era nada, não era um sonho, não era bandeirinha de papel de seda,
não era luz em forma de disco voador, não era prisma, e sim a Gaivota. Esta
Gaivota cansada de mar, e que fugira para o continente, e que ainda cansara de
olhar o continente do alto, que gostava de rochas para aterrissar, resolvera
pousar na janela do palácio de vidro, o Jardim Botânico.
Foi
lá na sua janela, uma das suas janelas, que a moça e cunhantã Caúna - cunhantã
a bem pouco convidada pelo Cacique para ser sua filha - encontrou a Gaivota. As
duas se encontraram. A cunhantã que sempre levava os cabelos agitados pelo
vento.
Era a primeira vez em número
que se via uma ave marinha fazer isso, ou seja, pousar no parapeito de uma
janela de quarto de cunhantã em palácio de vidro do Jardim Botânico e tão
distante do mar. E a hora passava um pouco só além das onze horas. Cada sombra
muito rente a sua própria coisa.
Pois
a cunhantã não tinha o que fazer naquele instante. Estava por acaso ali na
janela de vidro olhando pela janela. Olhou a Gaivota e a achou maravilhosa e
andorinha. A Gaivota, cansada da viagem, olhou a moça cunhantã e pensou: “Bem,
esta é uma cunhantã legal como todas as cunhantãs do bem.”
Dizendo
isso para si mesma, a Gaivota começou a chorar, e já escondendo os olhos úmidos
atrás das suas pontas de asas. A moça disse, condoída:
- Não
chore assim por nada, Gaivota!
Então,
a Gaivota se descobriu e começou a rir, e muito. Impressionante mesmo! Riu com
felicidade brilhando nos olhos e nas penas macias e quentes. Chegou até a falar
alto para a moça Caúna ouvir:
- Eu
já lhe digo...
A
cunhantã passou as pontas dos dedos nas penas da Gaivota. O peito da ave era
branco e as costas eram cinzentas. Assim, a Gaivota sentiu muito frio pelo
corpo todo, e se encolheu propositalmente batendo os dentes. A Gaivota se
lembrou do lençol verde do mar, um verde-claro de mar, e disse dizendo toda
numa voz trêmula:
- Me
lembro do verde ou do azul que se mexia em ondas.
A
cunhantã se afastou, deu um passo atrás, com medo até de provocar uma ave
congelada. Era muito estarrecedor! Aí, a moça falou com muita calma:
- Tá
com frio, Gaivota? Por que frio se o dia está cheio de sol e a estação navega
no verão? Ficou com receio da minha curiosidade de amiga? Olhe a paisagem de
Ivy-Marae! Já viu tudo que é lindo?
Por
aí a Gaivota abriu os olhos, se mexeu, pulou de pé e começou surpreendentemente
a suar, a ficar com muito calor. Com tanto calor que abriu o bico, bateu as
asas como se fossem leques e suspirou assim:
- Eu
já lhe digo...
A
Caúna ainda foi mais calma. Levou as mãos aos ombros, xizando os braços,
mostrou os dentes e sorriu. Achou fantástico? E convidou a ave para entrar e
conhecer o seu quarto de repouso na casa de vidro do Jardim Botânico:
-
Venha, Gaivota! Quer realmente conhecer meu canto? Quer me visitar ainda mais?
Quer morar na casa de vidro? Quer ser minha irmã de companhia? Quer estudar
computação comigo? Quer trocar ideias sobre as coisas? Quer falar dos voos
sobre o mar? Quer ir e vir? Quer alguém de amiga?
É por
isso que a ave respondeu. E respondeu e disse de modo para não deixar a mínima
sombra de dúvida:
- Eu
já lhe digo...
***
É
claro que Jabuti, desde menino, e antes de ser monge, era bom em matemática e
não pecava por excesso de caridade. Gostava e sempre gostou de subir em
árvores, se dependurar dos galhos, praticar arborismo, macaquismo, fazer
macaquices, pular de galho em galho como os saguis. E correr pelas ruas sem
motivo algum, a pé ou de bicicleta.
Jabuti gostava de jogar bola,
e jogava de goleiro. Até aí se vê que era para ser anjo ou santo.
Há
muita coisa na vida de Jabuti quelônio à procura de respostas e perguntas e
esclarecimentos. Há muita coisa que precisa ser contada e recontada. Mas a vida
de um santo ou anjo não tem explicação nesse mundo da sorte ou do trânsito para
o céu.
Jabuti
virou mesmo santo ou anjo agora recentemente quando começou a ficar velho no
convento, pouco antes de morrer. Será quê? A vida sem sorte lá do pobre
convento era mesmo para fazer de qualquer pessoa ou quelônio um santo ou anjo.
E Jabuti virou anjo ou santo mesmo. No topo da cabeça, acima da cabeça um
palmo, já se via a típica auréola. A carapaça amarela que escondia os pés e as
mãos. Aura invisível, e que todo mundo podia ver.
O bom
Jabuti gostava de plantas, avencas-da-terra, amoreiras-da-silva, catauaris,
caapomongas, caratingas-bravos, anauerás, ingás-do-mato. O Jabuti gostava do
rio Oiapoque. Adorava a serra Dourada. E Jabuti se fosse escolher gostaria de
ser jogador de futebol ou pássaro tipo papagaio-do-peito-roxo. O pensamento de
Jabuti escava quase sempre para todos os lados.
Engraçado
mesmo com Jabuti foi que ele sempre sonhou, nas horas de silêncio do mosteiro,
em subir para o céu na escadinha de nuvens. Era um sonho e uma esperança de Jabuti.
Todo dia ele tinha esse sonho ou essa esperança porque no monastério não havia
o que fazer. Era bom para ele porque passavam as horas e ele se sentia
importante diante de Deus ou Tupã. Uma escada de nuvens bem branquinha, com
degraus de algodão branco, subindo para o céu azul... Um dia até sonhou com um
elevador branco e mais rápido, panorâmico. E também sonhou com uma montanha que
brilhava com muito ouro. E sonhou outro dia com uma árvore branca e muuuuuito
alta até o céu, os frutos todos de ouro polido.
Mas
Jabuti estava caminhando pela estrada, uma ou duas horas depois da morte certa.
E Jabuti já tinha ressuscitado em espírito. Jabuti já tinha morrido uma vez,
ressuscitado e virado anjo ou santo, pronto.
E ele parou na estrada, ali
pelo acostamento onde caminhava, e sentou numa pedra. A carapaça pesava um
pouco de nada. Ficou ali descansando ou pensando nas nuvens, com a cabeça nas
nuvens, com a ideia nas alturas. Olhou para o céu e viu umas boas e
interessantes nuvens. Não dava ainda para saber se ia chover e o quanto. Jaboti
gostava de pensar. E pensou daqui, pensou dali. E as ideias vinham, iam e
voltavam. Jabuti pensou alto:
-
Engraçado. De repente eu já sou mesmo um anjo ou santo, porém ainda não cheguei
ao céu. Alguém pode me explicar isso?
Não
havia ninguém ali por perto, portanto ninguém poderia lhe dizer nada nem lhe
explicar coisa alguma.
E
Jabuti tinha uma ótima sintonia com os passarinhos, porque era só ver: os
passarinhos chegavam perto dele todos curiosos e despreocupados. Vinham mansos
catar sementinhas brilhantes ali pertinho dos seus pés. Vinham do alto e
pousavam ali para disputar sementinhas de cor. Aterrissavam bem perto dos seus
pés invisíveis e pipiavam lá entre eles e sempre despreocupados. Uns pousavam
na carapaça raiada de amarelos.
Bem,
agora Jabuti já estava bem morto, seu corpo enterrado e seu espírito
ressuscitado e andando. Andando na estrada e descansando ali sentado na pedra.
Já era anjo ou santo. Jabuti ainda não chegara à cidade de Ivy-Marae? Portanto,
Jabuti não devia pensar em namorada. É, não devia (ou pensamos que não devia),
mas o fato era que pensava. Jabuti pensou logo na Lenita jabota, uma menina que
ele gostara e muito no tempo que era jogador de bola e goleiro na adolescência.
Jabuti, por causa desse pensamento de namorada vindo assim depois de muito
tempo, ficou preocupado, e se perguntou, alma cheia de emo, se perguntou:
-
Peraí! Que é que há, meu! Agora sou anjo ou santo! E anjo ou santo não tem
tempo para coisas do particular do seu próprio coração! E depois já faz muito
tempo! Eu tinha somente onze anos e nem mesmo pensava em morar no convento!
Jabuti
tinha toda razão. Quando era menino, em casa dos pais, passou as maiores
privações. Daí que resolveram interná-lo no convento e fazer dele um monge. Lá ele
teria comida e poderia comer à vontade.
O
Jabuti gostava de olhar as plantas, mururés-rendados, agoniadas,
esponjas-de-raiz, macacaúbas-do-campo, ervas-de-lagarto. Gostava da praia do
Atalaia, praia do Arembepe. Gostaria de ser ariranha. Os pensamentos do Jabuti
escorriam como água por entre os dedos da mão.
Um
feriado, dia da cidade, naquela época dos seus onze doze treze anos, Jabuti foi
a uma festa na igreja de N. S. do Monte do Carmo e ganhou um santinho com a
imagem de São Francisco de Assis. Guardou no meio das suas coisas a imagem do
santo que gostava de animais e plantas e era de família rica e não queria ser
rico e deu toda sua riqueza aos pobres. Aí, o tempo deu uns passos para a
frente. Deu uns pulinhos. Somente para secar. O tempo foi mais um tanto.
E quando Jabuti se encontrava
aos quatorze quinze anos, ficou sabendo que São Francisco de Assis gostava
muito de ir para o campo e ficar o dia todo no campo andando entre os animais e
as árvores e pensando coisas boas e sonhando com coisas úteis.
Sem
ninguém saber, quase nem ele mesmo, Jabuti treinava para santo ou anjo. E
pensava alto:
-
Querer ser anjo ou santo é muita pretensão? É sonhar longe demais?
Um
dia Jabuti se viu conversando com Deus. Na frente uma parede. E se assustou, e
falou para quem:
- Oh,
que que é isso, meu?!
Jabuti
ficou um minuto envergonhado. Mas aí pensou que era exagero ficar envergonhado
por tão pouco, e se desenvergonhou na hora.
Assim,
Jabuti resolveu que faria tudo para ser anjo ou santo. Jabuti estava gostando das
duras penas. Por isso mesmo andava na rua sempre humilde e de cabeça baixa.
Caminhava muito abatido pelas estradas de chão batido, levando nos pés
sandálias franciscanas de pescador, as mãos às costas, boné de pala dura na
cabeça para proteger os olhos. Desviava o pensamento de coisas da terra, por
exemplo: não pensava mais em Lenita jabota ou outra menina qualquer; não
pensava mais em ser goleiro e ir para a Copa; e etc. E caminhava sem pressa de
mãos às costas. Pressa nunca fora o forte da família, e coisa e tal. E olhava e
cheirava atentamente todo bicho ou bichinho que lhe passava diante dos olhos e
do nariz. Pegava em cada pétala de flor e manchava o dedo de pólen para depois
cheirar ou degustar. Se interessava por todas as pequenas coisas que encontrava
pelo caminho. E caminhava. Não tinha medo de caminhar. Era o dia todo assim, às
vezes.
Depois
o tempo deu um pique. E Jabuti foi admitido no convento. Isso que já se sabe.
Na primeira noite chorou. Na manhã seguinte quis voltar para casa. Na tarde do
mesmo dia seguinte, os monges o mandaram capinar a roça de milho e debaixo de
um sol quente.
Um
dia, isso já um mês no convento, fez um milagre gigantesco e maravilhoso e
importante. Jabuti estava plantando porongos para fazer cuias de chimarrão,
quando um colega de convento lhe gritou:
- Oh,
seu Ferida!!
De
surpresa Jabuti não gostou do apelido. Mas ficou preocupado com o que fazer ou
responder. Pensou rapidamente tentando achar uma calma e uma paciência e uma
saída boa para todos.
O
milagre maravilhoso do Jabuti foi este: Jabuti não fez nada, Jabuti não se
revoltou com o apelido, Jabuti não se irritou com a ofensa, Jabuti nem se
alterou. E Jabuti não fez nada porque estava sem raiva. Logo, estava curado da
vida de quelônio normal e comum. Jabuti até elogiou o apelido e a criatividade
do colega. Jabuti queria ser anjo ou santo.
Na verdade, Jabuti
praticamente estava melhorando e passando para outro estágio. Um estágio mais
puro, mais humano, mais sábio, mais alto, mais santo. Era mesmo.
Jabuti não fez nada depois de
ouvir aquela ofensa. Não deu bola, não se importou e até esqueceu tudo muito
rapidamente. Assim, todos os colegas viram que Jabuti já estava muito perto de
ser anjo ou santo. Inclusive longe deles. Os mais rebeldes da escola chegavam
para lhe beijar a mão. Os mais novatos do colégio chegavam e lhe pediam para
lhe lavar os pés.
Ele
entendeu sozinho que para ser santo ou anjo não precisava ir tanto tanto na capela. Nem precisava rezar tanto tanto
assim. Bastava para ser santo ou anjo que tivesse calma e muita paciência.
Bastava calma, paciência e esperar sentado. Bastava não comer carne e gostar
muito de bichos e de plantas e de todas as outras coisas.
Quando
Jabuti já passava dos cinco anos de monastério, ou convento, ou colégio
interno, aconteceu o segundo milagre. Foi num sábado. Jabuti fez chover.
O quelônio Jabuti estava
passeando com as mãos às costas quando se lembrou que já não chovia há muitos
meses. Havia seis meses que não chovia. Ele parou no meio do lavrado de
abóboras murchas e ergueu os braços para o alto. O lavrado de terra seca, as
abóboras esqueléticas e pequeninas, os animais sufocados, os alunos entregues
pelo cansaço, o mormaço sufocando a tudo e a todos.
E Jabuti ficou uns minutos
esperando de braços abertos para o alto. Depois teve esperança. Logo sentiu um
empurrão nos olhos, depois outro empurrão nos ouvidos, e mais dois ou três
empurrões nos braços, nas pernas, por todo o corpo... como se estivesse cheio
de força divina ou elétrica.
E, então, os que viram tiveram
logo a ideia de que acontecia um milagre dos bons. Todos acharam que Tupã
estava dando preferência ao Jabuti. Que Jabuti estava iluminado pelo espírito
santo. E, principalmente, Jabuti fez chover. E choveu bem e melhor. Choveu como
se fosse chover. Choveu como chove em agosto com vento minuano.
Jabuti gostava de plantas,
caaeés, acariquaras, acapus, matamatás-vermelhos, perpétuas, timbós-da-mata,
cascas-para-tudo. Ele gostava do rio Tauá. E gostaria de ser um peixe tipo
tamuatá. O pensamento de Jabuti recebia ventos dos quatro cantos do sonho.
E
Jabuti se informou melhor sobre sua vocação de ser santo ou anjo. Jabuti foi
ver nos livros da biblioteca do convento. E Jabuti ficou sabendo que para ser
santo teria que morrer muito velhinho e com a cara rodeada de longas barbas
brancas, uma bengala de apoio e uma aura bem brilhante rodeando o corpo; e para
ser anjo podia morrer cedo e com um par de asas grandes e brancas de tuiuiu.
Teria também que, como último estágio, ressuscitar. Passar também uma temporada
pequena que fosse na cidade de Ivy-Marae.
Jabuti
lembrou do que falara com a mãe quelônio, certa vez na infância, lá em casa:
- Eu
pretendo ser anjo ou santo, pronto, tá decidido.
- Mas
são coisas muito difíceis, filho! E nossa família não tem dinheiro, filho!
Jabuti
teve uma vida cansativa no colégio. Sempre pronto para executar as tarefas.
Mesmo as mais sem sentido. Carregava pedras cada vez mais pesadas, vestia cada
vez mais pobre, orava cantando cada vez mais alto, comia cada vez menos, dormia
cada vez menos, tomava banho cada vez menos.
Pois
Jabuti lembrou de tudo isso ali sentado na pedra à beira da estrada para
Ivy-Marae. Jabuti adorava as pedras soltas do caminho. E Jabuti só levava a
carapaça do corpo. Para ser santo ou anjo tivera que cometer muito sacrifício e
aprender a calma, ter muita calma, a paciência, ter muita paciência. E calma
para tudo. Calma ou paciência. E ele já tinha uma boa dose de calma espalhada
pelo espírito ressuscitado. Jabuti nunca teve pressa. Jabuti olhava a estrada.
E pela estrada ainda passavam
bandos de homens, passavam enxames de abelhas mandaguari, passavam moradores de
Pilar de Goiás, passavam bandos de periquitos-verdes tagarelando conversadores,
passavam manadas de bois e vacas brancas e nelores.
E as
estrelas. As estrelas do céu sabem tudo, mas estão muito longe demais.