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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Contos de Santa Luzia (14)



            Um cavalo sebruno com sorte, uma vez, cavalgará dezoito anos; uma tartaruga-da-amazônia e muita sorte, uma vez, nadará trinta e dois anos; um uiramiri natural da sorte na floresta, uma vez, cantará os cinco anos; uma galinha de sorte, uma vez, cacarejará setenta e cinco dias; uma borboleta-corujinha voará uma semana, duas semanas, borboleteará um mês, seis meses no máximo.
            Uma árvore chapéu-de-sol, na luz clara da manhã, sonhou ser uma ave anhupoca. Um pássaro sanhaço-amarelo, no rigor do inverno sulista, desejou ser uma árvore alta cedro-branco. Uma planta cardamomo-da-terra pensou se transplantar para a beira-mar e virar se naturalizar peixe pititinga. E uma pedra rolada, ali no fundo limoso do rio Tramandaí, capitalizou duzentos e dois milhões de anos e uns quebrados ao quadrado.
            Anoiteceu. Amanheceu. Dia claro aberto de clima diáfano com céu profundo e enigmático.
E o seu Tinhorão, naturalmente falante índio dos suiá, estava em a casa das trinta e duas para trinta e três primaveras... Biblicamente tinha setecentos e vinte anos. Cronologicamente tinha quarenta e dois. Biologicamente avançava um nada além dos trinta e sete anos e seis meses. Bibliograficamente nem foi para além dOs Segredos de Taquara-Poca nos dezesseis do ensino médio. Geologicamente, reza a lenda, que acumulava por em torno da idade do Pão de Açúcar. A mãe dele dona Tibuquina natural da ilha do Cardoso dizia confirmava vinte e um anos incompletos.
Tinhorão imaginava... tinha ojeriza à visitas. Tinhorão pensava... declarava em alta voz para si mesmo:
            - Mania que eu tenho esta de ter medo de cachorro; mania que eu também tenho de gostar de cães. E digo o porquê.
            Quando criança queria uma bola correr atrás e alcançou. Pouco depois pediu uma bicicleta e pedalou pela rua Gupeva. A adolescência aventurou e fantasiou pular de paraquedas ou parapente ou asa delta. Depois entrou para a aeronáutica porque o sonho se realizava de voar no jato da FAB. E quem sabe Tinhorão, hein?, na estação espacial internacional boiando gravitacional em órbita do planeta mais popular em o sistema solar da Via Láctea.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um novo dia escolhido entre tantos e tantos com espetado sol no desenho do caderno escolar.
             Tinhorão estava no quintal de casa comento frutas amarelas maduras do pé. Frutos suculentos e doces mangabas araçás pequis abios guabirobas. Tinhorão de áries, regido por marte, elemento primordial o fogo. Pegou um caju apetitoso, olhou, mordeu, apreciou, devorou, aproveitou. Provocou pequenas lágrimas agridoce de escorrer pelo rosto.
Era marmanjão feito estoura-vergas o Tinhorão. Resolveu sair de casa para sempre e sempre. E saiu de casa mordendo punhado de jabuticabas maduras. Porque tudo já vem destinado, porque tudo é destinado. Como era como não era, murmurinhou:
- Vamos ao local do teste! E digo um porquê.
Ele sempre aquele Tinhorão, foi até a casa da princesa namorada a Pipira, cunhantã dos aborígenes cueretu, para uma volta passear fazer uma caminhada pelaí contornar a ilha Boipeba. (Na mesma tarde que os dois foram pegos abordados pelos home numa barreira, eu também fui. Mas outra hora outro lugar e nem muito longe nem muito depois na mesma tarde). Antes ou depois, deitados na grama da praça Paris, ficaram se esguichando água com aquelas garrafinhas de plástico de água mineral fabricadas em Vazante mirando o alvo na parte que mais gostavam se interessavam um do outro etc., e até cansar de rir. Pipira olhar olhar de cativante naturalidade ensaiava uns uivos:
- Huuu-u! huuu-u!...
- D superou o nada. Foi invenção introdução organização e fixação da criação. E digo o porquê.
Anoiteceu. Amanheceu. O dia a dia abriu comportas de ouro e sol e repartições públicas e lojas de eletrodomésticos e obras em vias públicas e fábricas de artefatos de couro.
            Na altura das quinas das ruas Presidente Vargas e Borges de Medeiros e Cacequi o Tinhorão olhou para trás. E para trás e para os lados como fazem certos vira-latas sem dono. Viu muita coisa e não viu nada que o perturbasse surpreendesse. E já não comia mais azedinhas ou guabijus ou sete-capotes esquecido das frutinhas do mato. Desejou casar com a Pipira ou a Moema ou a Paraguaçu ou a primeira tupinambá bonita que visse pela frente viesse à mente. Tivesse ela enfeites que tivesse, obrigado. Tocasse a inúbia ou o uatapu ou o uapi. E não demorou nada para ver logo três de uma vez e juntas em trio caminhando lado a lado as Três Marias de mãos dadas tiara na fronte do céu. Escolheu a loura de olho azul por ser ideal sideral zodiacal como uma menina rica e aparecida com a santa Luzia.
            - E tal e qual das Três Marias é a mais inteligente? E digo o porquê.
            Então, Tinhorão saiu de casa para arredondar o mundo. Cabeça redonda. E parecia querer andar à procura de alguma maravilha do outro mundo. Uma maravilha com a cara dele mesmo. Um milagre que era para ele mesmo. Uma cidade parecida Itapissuma como ele mesmo. Interpretar um cainamé ente mítico irresponsável até por ruins acontecimentos maléficos.
            Sexualmente ele passava já dos trinta e dois, mas não tinha completado ainda os trinta e oito anos. Viu as libélulas engatadas uma na ponta da outra, voando por cima do canteiro na beira da calçada da rua Guimarânia, a favor do vento. No longe o Dedo de Deus na serra dos Órgãos com a cidade de Guapimirim. O dia caminhava muito rápido. E olhava para dentro dos carros e via o que estava acontecendo. Olhou para os quatro cantos porque sentiu que algo ou alguém o seguia, e mugiu:
            - Mania que tenho de ter aversão a cachorro; e mania que tenho de gostar de cães. E digo o porquê.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um outro dia como outro qualquer e em todo lugar do azul pacífico atlântico índico terráqueo planeta.
            Tinhorão parou na frente de um zoológico ali em Sapucaia do Sul e cruzou os braços e apreciou os animais. Leu, releu, treleu as placas de orientação. Depois olhou para os lados, pôs as mãos nos bolsos, vasculhou, não achou nada no interior das algibeiras e guaiaca. Não tinha nada de útil nos bolsos. Queria entrar logicamente no zoológico, caminhar pela mata predominante das pinhas-do-brejo, andar, nadar, voar. Queria ver os quatis. Queria ver os graxains. Então, desejou ser um graxaim. Por quê? Graxaim um bicho quase extinto, quase tão difícil exclusivo e até mais inédito que político honesto. E jogou cascas de bananas nos bichos; o cercado da família da ema: a gruta dos tamanduás-bandeiras: a embaúba da aí-igapó: o banhado das irerês: o viveiro dos caurés: a gaiola dos saguis-leãozinhos.
Assim, Tinhorão era aquele macaco-prego pulando pulando e se exibindo atrás de pedaços de mamão. Um macaco-aranha raro com namorada e cinco filhotes para cuidar. Um macaco-barrigudo exibido que gostava não ser fotografado. E se penduravam pela cauda nos galhos das caqueras desfolhadas.
            Pois a tachã podia durar de cinco a sete anos. O jerivá de cinquenta a oitenta anos conforme o ambiente. Um maracujá-mirim tem idade de sobra para além dos quarenta e lá se vão. A canela-de-garça tem duração maior que uma garça-branca-pequena. De três a seis os pesquisadores calculam para os biguás. Quinze anos os astros confirmam para os saguipirangas.
            Alto espadaúdo Tinhorão viu uma porta de colorido vidro batido; viu uma escada branca que subia para o primeiro andar e outros andares; viu uma mulher acompanhada de um filhote que queria porque queria assistir tevê. Tinhorão se sentou na escada de mármore escavado extraído em Cordilheira Alta. Não pensava em nada. Nem fome nem vontade de comer. A temperatura baixa nada mais era que termômetros despencados devido ao frio.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um renovado dia novo dia se anunciou na gargalhada dos joões-de-barro gurandis-azuis marias-com-a-vovó...
            O Tinhorão estava em frente do boteco Urupema no largo do Rosário de braço com a rua Visconde de Ouro Preto olhando um pastel de queijo na vitrine. O boteco era típico de esquina. Tinhorão não sabia a idade do pastel e suas procedências e malícias e variedades. Motivos para navegar pelo rio Poxim que tinha de sobra. As ruas que se cruzavam tinham pressa, e muita pressa, e nenhuma maravilha assim do outro mundo. Avenida Guarapiranga começava no parque Henrique Lage rodeava toda uma área por fora até o bairro Cosme Velho. Tinhorão também não sabia se o pastel era de queijo com brócolis ou de queijo com abóbora-do-campo.
            Por volta das dez e dez Tinhorão entrou na igreja São João Batista padroeiro da cidade dos neopratenses. Antes de entrar sentiu um desconforto súbito e olhou instintivamente para trás crente que estava sendo inquirido. Olhou, olhou... e não viu nada que lhe confirmasse ou lhe intrigasse ou lhe encafifasse ou lhe negasse. Mas estava com as mãos às costas e entrou na casa de D. O templo parecia um subterrâneo do século XVIII ou XIX. Foi aí que Tinhorão decidiu que seria profeta de DNS. Um homem de muita fé, um homem puro, um homem humano, um homem divino, um semideus, um homem iluminado, um humilde servo que jamais se metia em política partidária em discussões de futebol em heranças de família em jogos de azar e loteria.
            Quando saiu da capela de São Sebastião em OP ainda estava pensando nessa ideia. A imagem de santo parecia boa e cairia como uma luva uma uva uma chuva. E o filho dos suiá não tinha nada para fazer naqueles dias e nos dias seguintes e nos dois três oitenta meses seguintes. Assim, ele quis ser o profeta para toda a vida; ou o término de tudo ou até resolver querer outra coisa. E a ideia era tão boa, apesar de muito grande e pesada. Se sentiu um pinheiro-do-paraná abraçando o mundo inteiro, e bocejou:
            - Vou ser santo na minha própria terra. E digo o porquê.
            Nem tinha outro Tinhorão profeta e entre ele e o mundo e entre ele e o outro lado do mundo ficava essa uma trilha de formigas-corredeiras. Teve que levantar as pernas. As formigas vermelhas não reconheceram o profeta Tinhorão e isso era o suficiente. Formigas isso sim formigas vermelhas presumidas. Insetos estudados no encontro agropastoril de Juscimeira. Formigas antes do mundo depois do mundo baratas e formigas.
            Assim mesmo o profeta passou pelo terreno baldio e viu a anta. A anta era malhada e estava amarrada e estava atada e estava presa a um pé de pau-lacre. A anta tinha manchas pretas e brancas pelo corpo e pastava num círculo. O profeta a olhou com carinho e atenção e devoção e glória e confusão e estimativa. O profeta olhou para os lados e para trás como fazem os cusquinhos perseguidos. Aí o profeta pegou na corda e puxou a anta. A ruminante tugiu tossiu mugiu urinou berrou caminhou acompanhou.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um perfeito dia do outro lado da noite inclusive na serra Formosa região controlada pelos uapixana.
            O poeta então no caminho do S falou para a anta:
            - Tenho uma mania que é ter receio de cachorro; e outra mania que é gostar de cães. E digo o porquê.
            E a anta respondeu na língua grossa das quadrúpedes dos pantanais junto ao rio Ibirapuitã e capins-milhãs e flores-de-babado e cardos-ananás:
            - Mmmm!...
            E o poeta olhou para trás e viu a anta lhe acompanhando e seguindo cabisbaixa e farejando. A cauda lá dela batia nas moscas inoportunas. E a anta imitava o poeta. E a ruminante malhada colava perseguia o profeta de barbas brancas longas barbas encardidas barbas debaixo do nariz.
            O poeta ia andando e puxando a tapir. Passavam por um túnel o da Conceição. Um miolo de montanha, montanha bem grande e pesada pico Itapeva. Brilho no fundo da abertura da luz. O poeta falou pra tapiretê:
            - A guracava aprecia um gavião-caburé, uma jacaroa adoraria ser uma cutia, uma jandaíra gostaria de ser uma saíra-lagarta, um mico-leão sonha ser um surubim, uma arraia-cocal quer ser um angico novo em folha. E digo o porquê.
            A anta bateu os cascos no solo da pátria e jurou para o deus dos tapiras:
            - Mmmm!...
            E então já fora da montanha após vazar a montanha, os dois olhando para o céu, o tempo começou a chover. E o poeta e a anta continuaram andando naquele mesmo e demorado passo. Não tinham medo da chuva. Não eram de açúcar. Não gostavam de muito sal na comida. Rua das Uirás lotada de tapuias e emboabas, uns escorados nos balcões bebendo a destilada catimpuera a ardente tiquira o estalado paiauaru. Os ingarune tinham ido colher pinhão em pros lados de Chorozinho e Canto do Buriti.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um pleno dia limpo e ordeiro e genial e majestoso e temporal.
            O Tinhorão olhou o caminho. Que será que o pateta e a anta têm com o futuro? Talvez um nada. E o dia passou rápido. No começo da noite esfriou esfriou. O pateta não disse nada, e a anta não falou nada. O pateta era honesto. A anta era herbívora.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um novo dia de muita calma e pássaros piando na beira da praia no lajedo do rio Bandeirinha.
            O mundo vivia respirando naquela tranquilidade em que o acaso também respira. E o profeta mais a anta seguiam por um imenso butiazal à beira da estrada. Parna da serra da Canastra localidade de Mangaratiba. Alvoroço gritaria em bando dos periquitos-do-pantanal. Butiazal de um lado e pequizeiral de outro lado. A anta já se enamorava de butiás maduros. O poeta pensou e logo disse:
            - Hum!... hein?! Enormidade de cajueiral? Você está vendo o que eu estou vendo, sei. Quer caju? Caju é muito legal. E digo o porquê.
            E a anta respondeu com uma baba se esticando no canto dos lábios carnudos de dentes fora da boca nariz trombudo água na boca:
            - Mmmm!...
            Depois do imenso açaizal havia um gabioto de costaneiras perto do caminho. Precária habitação toda rachada em péssimo estado escorada de um lado. A palhoça dava muita dó e dor de cabeça e bichos que andam pelas frestas frinchas e arestas. A casinha teimava em não desmoronar de hoje para amanhã. No pátio dessa oca tosca tinha um guaipequinha sentado, e olhando mais com suas orelhas indomáveis o movimento da rua poeirenta. Olhando muito atento, e sentado no chão, olhando os passageiros da estrada de terra batida. O profeta se lembrou da anta. O dia morno. O poeta disse logo:
            - Tenho aquela, você já sabe comadre, de ter medo de cachorro; e tenho a mania outra, junto e parelha paralela, de gostar de cães. E digo o porquê.
             A anta ergueu as orelhas em parabólicas, bateu a cauda curta no ar e resmungou farejando grunhindo bufando para frente:
            - Mmmm!...
            O pateta e a anta passaram cumprimentando, com um leve entortar de cabeça. O tal jaguarinha balançou a cauda e pendeu a cabeça. O profeta olhou para trás, olhou a anta que ele puxava pela rédea, a anta olhava o chão que pisava. Aí nesse instante a anta olhou o poeta e este olhou o guaipeca. O cusco olhava as próprias mãos e as cheirava e as lambia e as testava e as admirava.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um novo dia com sol na proa na proa subindo sem sustos por entre os ramos do marmeleiro-branco.
            O Tinhorão pensou e a anta conjeturou. O poeta olhou um jatobá frondoso e sugeriu:
            - Antes de mais nada vamos repousar naquela sombra. Acha melhor? Eu também acho. Podemos conversar em calma. Jogar um carteado. Até mesmo descansar o suficiente até esta lua se repartir em quatro. E digo o porquê.
            A tapiira olhou o sol, o sol a flechar as meninas dos olhos, e disse na sua língua grossa das antas ruminantes apreciadoras da capitiçoba:
            - Mmmm!...
            Foram para a sombra da ingarana. O jambeiro-do-mato não falou nada, mas respirava por mil folhas verdes. Já o pau-de-cachimbo olhou do alto do seu imenso tamanho vinte metros os dois viajantes. O tacacazeiro muxoxou do patamar das nuvens e cruzou os braços. E o dia passou rápido com as horas no especial arqueado aéreo percurso.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um dia outro dia embora de astro ocluso e luz oclusa.
            Aqui os suspenses os enigmas as charadas os ocultismos os labirintos. O deserto com a cruz de malta a cruz oriental a cruz patriarcal a cruz de caravaca e para todos os confins. Onde pifou restou São Nicolau cruz missioneira da Redução de São Nicolau - entre uma e outra houve ciclone e incêndio.
            Anoiteceu. Amanheceu. E o dia com seus pertences fechado repleto de ondas de terra vermelha, no más.
            O poeta puxava a anta pela corda. A anta seguia, sem memória sem dúvida, puxada pelo profeta. E o pateta vaticinou:
            - Este calor e esta ausência de água escassez de comida nem uma cor verde sequer para remédio. Nada, nenhuma gota de água, pedaço de pão. E digo o porquê.
            E a tapir pareceu concordar, ou não, e balbuciar. A anta revirou os olhos pelo lugar, rodeada de pedras e pedregulhos, ondas de pó vermelho, capoeirão esturricado, mugiu finalmente desanimada:
            - Mmmm!...
            Anoiteceu. Amanheceu. Uma luz pesada atrasada de nuvens de carvão.
            Tinhorão e anta entraram na aldeia de Santa Luzia com os moleques em estado de choque choque. E os tais culepes pareciam mesmo odiar seres e coisas. Ou odiavam estrangeiros, viajantes, políticos, mascates, vendedores, bichos, surpresas do outro mundo. O Tinhorão, alisando o escapulário, falou pra companheira anta:
            - Minha principal mania é a de ter pavor de cachorro; e a mania também primeira de entender de cães. E digo o porquê.
            A anta depois de tossir o pó da estrada, bater os pés na brita, tentar abanar o suor das axilas, devolveu em outro tom e linguajar:
            - Mmmm!...
            A aldeia de Santa Luzia era nada e tudo a maldizer. Uns tijupás de pau-a-pique e cobertos de sapê. Uma rua de poeira vermelha dividindo o burguinho em dois palheiros secos e carcomidos. Frequentada de aldeões e de aldeãs ariscos, pixotes cheiradores de cola de sapateiro; povinho todo tísico. Pontilhada na sua paisagem de tucurus engraçados abandonados espedaçados. Capoeirão seco. Não chovia há trezentos mil anos. Um saci ou outro redemoinhando na poeira da encascalhada rua Única.
            Enquanto o Tinhorão se dirigia à ex-padaria para tentar ver se conseguia um pedaço de acarajé, a anta ficou ali na pracinha das ex-paineiras conversando com os pivetes. E negociando a cabeça do companheiro de viagem. Detalhe: outros arteiros já seguiam nos calcanhares do Tinhorão.
            Quando o Tinhorão voltou, sem água mineral, sem pão caseiro fatiado, sem um naco de mortadela mato-grossense, sem um feixinho de capim-dos-pampas sequer, a anta e os piás todos da vila já estavam acertados no negócio que envolvia milhares de patacas centenas de patacões e cruzeiros.
            Tinhorão chegou ali de volta no terreiro da pracinha das ex-manjeronas-do-campo. E viu a anta e os pixotes fixarem-no de um jeito estranho e medonho e trapaceiro. Pareciam pais e parentes e partidários de políticos em dia de votação, em dia de eleição, em dia de sufrágio universal. Aí o Tinhorão estranhou tudo na infausta desventura e perguntou:
            - Que que foi que estão me olhando com essas caras de... de graxains mortos de fome? E digo o porquê.
            A anta mostrou uns dentes de gado selvagem em dia de ex-feira agropecuária, deu um mugido bovino característico, mmmu!... e revelou, bateu os pés no chão, declamou, comunicou traduzido a quem interessar possa:
            - Mmmm!... Hoje é sábado de aleluia...
            - E o queco?! E digo um porquê - respondeu brabo o Tinhorão.
            - Mmmm!... E eu o vendi debaixo de alta proposta de dobrões e cruzados novos para estes culepes raquíticos.
            A anta ficou olhando sem remorso para o fim ou início da explicação. E os pixotes todos, então, pegaram da pessoa do Tinhorão e o penduraram ali no primeiro galho da ex-catingueira, galho seco mais baixo e mais forte. Penduraram-no pelos pés, de cabeça para baixo, de pernas para o ar, ao contrário oposto do mundo. Depois, com desordem com força com desdém, e como sempre sabiam, os diabinhos começaram a malhar o judas.
            E o mundo com tudo mais ficou atrapalhadíssimo para as contas as costas do judas. Tudo tudo de pernas para o ar, e em desacordo com o ponto de vista qualquer ponto de vista.
            Com a imagem dessa cena perigosa, a anta tratou de sair de fininho e sorrateira e pela direita. Foi caiu na tiguera. Nem pensou em esperar pelo pior. Nem pensou em esperar os patacões e mil-réis. Tratou de não se fazer ouvida ou entendida nem nada e se mandou da vila. Pegou o caminho da roça extinta. Sabia que os aldeões e as aldeãs não a poupariam.
            Assim, a anta já estava um pouco adiantada e andando. Pegou a estrada do empanado ausente sol tombante. E já eram umas cinco horas da tardezinha. Logo a luz escassearia apagaria e seria melhor para ela continuar a fuga a fuga.
            Enxergando no escuro passando das vinte e trinta e a anta já estava longinho quase sossegada sozinha. Já imaginava com a fuga fugida e a garantia de outros dias e dias. Ia decidida e sumindo na escuridão empoeirada. Noite calorenta e suja de terra vermelha.
            Aí na descida de um morrinho a anta saiu da estrada e foi descansar ali no meio de uma capoeira ressequida espinhenta. E deitou no chão de areia. Contava se safar. Contava ter passado pelo pior. Até resmungou para si mesma, meio ressabiada da proeza:
            - Mmmm...
            E tentou dormir. Quando fechou os olhos de olhar na noite para tentar um sono... ouviu ruído de pé ante pé e de graveto estalado se esgueirando. Ergueu a cabeça e não viu sombra de nada. Umas figuras de pedra se passando por bichos empalhados.
            Ficou atenta uma meia hora e tantinho. Nem viu nascer a lua. Nem tinha lua, tudo atrapalhado pelas nuvens de poeira vermelha. Quem sabe uma martinta-pereira um caapora um anhangá. Uns fantasmas secos lerdos silenciosos deslizantes.
            Mais outro tanto e já se posicionava para recostar a cabeça num toco de embiruçu quando... ouviu, sique! sique!... de passos sutis ali bem por perto dela no cisco da sombra. Se incomodou e levantou a cabeça. Se preocupou e até se arrepiou no pelo grosso. Olhou para cá e para lá e para acolá... Não viu nada no chão nem cheiro no ar. A lua era só uma sombra. O vento mal e mal insistia com as nuvens pesadas de pó. Bafo de forja fornalha apagada.
            A anta pensou uma coisa. A anta suava emagrecida e já só os ossos. A anta pensou umas coisas tipo: eu posso aproveitar a noite para caminhar! Amanhã, durante o dia, o calor vai estar de matar e vou me derreter sufocada! Eu posso isso?
A quadrúpede chegou a resmungar mugir desabafar confidenciar:
            - Mmmm...
            Então a anta se ergueu decidida resolvida dentro da proposta de continuar a fuga. Caminhou com o nariz apontando a estrada e os olhos constantemente puxados para os lados e para trás. Noite mais ou menos fechada complicada areia na cara. Não descobria ninguém e não ouvia nada. Um silêncio terroso. E o deserto era sem fim. E o vento soprava ondas de fuligem. E as ex-árvores eram tenebrosos esqueletos.
            Numa certa altura, quando já calculava quarenta quilômetros além da vila de Santa Luzia, a ruminante chegou numa subida e parou para olhar melhor. Olhou a lua escondida na poeira. Uma escuridão pegajosa sem lua sem estrelas sem planetas. E a anta olhou de olhos noturnos para trás e teve certeza que não era seguida. Continuou a fuga fugitiva.
            Mais adiante parou para descansar junto a um tronco de ex-espinho-de-maricá petrificado. Resolveu parar e adquirir um fôlego. Estava com a língua grossa toda fora da boca os olhos entupidos de cinzas.
            - Mmmm...
            Se recostou no tronco seco e pensou na longa e destilada jornada. Era pouco para pensar e fechou os olhos grandes e secos e luminosos. Pensou um pouco do pouco que tinha para pensar. Esperou adormecer e... ergueu a cabeça. Imaginou ter ouvido um ruído vindo daquele lado ali. Tentou visualizar... Não, não havia nada. De certo era o medo. Mas ela tinha horror a lobisomem. Resmungou:
            - Mmmm.
            E tentou esquecer. E tentou cochilar pelo menos meia hora. Encostou a cabeça no tronco preto queimado do ex-uirari. Fechou os olhos. Cochilou. Sonhou que era uma ave tesourinha toda alada e sabia voar acima do deserto e fugia para um lago grande e rodeado de verdes ou o mar como um peixe piruá um xaréu. Sonhou um sonho que dava ar e mar. Um sonho em que fugia voando nadando por cima de tudo e encontrava um lugar povoado de muitas aves, peixes, águas, verdes. Sonhou que fugia alto, voando debaixo de uma chuva de verão, e que mais tarde aterrissava num lago cheio de enseadas e restingas e aves gargalhando. Sonhou que voava em paz sobre um lugar de vales verdes e povoados... quando ouviu um ruído qualquer e acordou acordou...
...despertou e alçou a cabeça de duas orelhas atônitas. Acendeu os olhos. Mugiu para si mesma:
            - Mmmm...
            Olhou para todos os lados e não viu nada. Pensou preocupada: será que sonhei também isso? Será que sonhei que alguém se aproxima? Será que alguém está me espreitando? Que alguém está de sacanagem? E confessou ruminante:
            - Mmmm.
            Sem mais pensar bobagem nem nada a anta resolveu continuar a fuga. E se mandou outra vez pela estrada ressequida. Com sede, principalmente. A lua ainda não nadava lá no alto no meio de nuvens de poeira. O vento amontoava dunas pelos cantos. O vento ignorava as pedras os tocos os montes de ferro velho carcaças de carros retorcidas.
            A anta ainda caminhou um bocado. Uma hora e meia. E subiu um morrinho de nada. Estava sem fôlego. Parou na subidinha e olhou para trás. A vila de Santa Luzia está bem para trás, pensou. Procurou ouvir... e não ouviu nada. Espalhou os olhos acesos e nem viu nada. A vila está bem para trás, reforçou o pensamento. Bufou com certa voz pesada embargada desabrida:
            - Mmmm!
            Continuou subindo o morrinho e chegou ao topo da colina. Caminhava devagar, mil vezes devagar. Olhou e viu, surpresa, umas casinhas logo ali no meio do deserto, ainda perdidas na noite, umas casinhas poucas e pequenas e quebradas. Se decidiu e balançou a cauda curta. E a anta foi andando toda pensativa para o arraial. Quem sabe encontraria gente que a adotasse e a socorresse?
            - Mmmm!
            A anta entrou na vila pela única rua que padecia ali. Foi procurando encontrar alguém... olhando todos os casebres... A anta estava cansada e com atraso de dormir, comer um pasto que podia até ser pasto seco, beber muita água gelada.
            No meio da única rua da vilinha a anta parou. Olhos remelentos, coberta de poeira marrom. Havia reconhecido a rua e a vila... Os aldeões e as aldeãs olhos atônitos vieram de todos os lados para grunhi-la rinchá-la zurrá-la agarrá-la. E na vila Santa Luzia a anta estava de volta. Estava de volta por quê? Estava com quê?
            Assim, os vilões e as vilãs e as vilãzinhas pegaram a cauda da anta e a fizeram rodar e girar e cirandar. A anta rodou por conta dos vilões e das vilãs e dos vilõezinhos.
Depois, os cramulhões agarraram a anta pelas orelhas curtas e a fizeram baixar a cabeça até o chão. E a anta ajoelhou debruçou lambeu a poeira vermelha. Os mesmos vilões e vilãs subiram um por um, dois por dois, e até três por três no lombo da anta. E a anta virou táxi peluda de quatro patas. O carro de praça buzinou cornetas flautas e trombetas. Uns cramulhões e umas cramulhonas tentaram tirar leite da anta. A anta não tinha leite nem fora mãe para ter leite nem teria a chance de ser mãe para vir a ter leite.
            Então, ali pela hora da manhã, na primeira hora da manhã cheia de poeira tapando a luz do sol, os aldeões e as aldeãs já tinham loteado toda a tapir. Cada família já sabia a parte da anta que lhe cabia em partilha merecida merecida.