Um
cavalo sebruno com sorte, uma vez, cavalgará dezoito anos; uma tartaruga-da-amazônia
e muita sorte, uma vez, nadará trinta e dois anos; um uiramiri natural da sorte
na floresta, uma vez, cantará os cinco anos; uma galinha de sorte, uma vez, cacarejará
setenta e cinco dias; uma borboleta-corujinha voará uma semana, duas semanas, borboleteará
um mês, seis meses no máximo.
Uma
árvore chapéu-de-sol, na luz clara da manhã, sonhou ser uma ave anhupoca. Um
pássaro sanhaço-amarelo, no rigor do inverno sulista, desejou ser uma árvore
alta cedro-branco. Uma planta cardamomo-da-terra pensou se transplantar para a
beira-mar e virar se naturalizar peixe pititinga. E uma pedra rolada, ali no
fundo limoso do rio Tramandaí, capitalizou duzentos e dois milhões de anos e
uns quebrados ao quadrado.
Anoiteceu.
Amanheceu. Dia claro aberto de clima diáfano com céu profundo e enigmático.
E o seu Tinhorão,
naturalmente falante índio dos suiá, estava em a casa das trinta e duas para
trinta e três primaveras... Biblicamente tinha setecentos e vinte anos. Cronologicamente
tinha quarenta e dois. Biologicamente avançava um nada além dos trinta e sete
anos e seis meses. Bibliograficamente nem foi para além dOs Segredos de
Taquara-Poca nos dezesseis do ensino médio. Geologicamente, reza a lenda, que acumulava
por em torno da idade do Pão de Açúcar. A mãe dele dona Tibuquina natural da
ilha do Cardoso dizia confirmava vinte e um anos incompletos.
Tinhorão
imaginava... tinha ojeriza à visitas. Tinhorão pensava... declarava em alta voz
para si mesmo:
-
Mania que eu tenho esta de ter medo de cachorro; mania que eu também tenho de
gostar de cães. E digo o porquê.
Quando
criança queria uma bola correr atrás e alcançou. Pouco depois pediu uma
bicicleta e pedalou pela rua Gupeva. A adolescência aventurou e fantasiou pular
de paraquedas ou parapente ou asa delta. Depois entrou para a aeronáutica
porque o sonho se realizava de voar no jato da FAB. E quem sabe Tinhorão,
hein?, na estação espacial internacional boiando gravitacional em órbita do
planeta mais popular em o sistema solar da Via Láctea.
Anoiteceu.
Amanheceu. Um novo dia escolhido entre tantos e tantos com espetado sol no
desenho do caderno escolar.
Tinhorão estava no quintal de casa comento
frutas amarelas maduras do pé. Frutos suculentos e doces mangabas araçás pequis
abios guabirobas. Tinhorão de áries, regido por marte, elemento primordial o
fogo. Pegou um caju apetitoso, olhou, mordeu, apreciou, devorou, aproveitou. Provocou
pequenas lágrimas agridoce de escorrer pelo rosto.
Era marmanjão
feito estoura-vergas o Tinhorão. Resolveu sair de casa para sempre e sempre. E
saiu de casa mordendo punhado de jabuticabas maduras. Porque tudo já vem
destinado, porque tudo é destinado. Como era como não era, murmurinhou:
- Vamos ao local
do teste! E digo um porquê.
Ele sempre
aquele Tinhorão, foi até a casa da princesa namorada a Pipira, cunhantã dos aborígenes
cueretu, para uma volta passear fazer uma caminhada pelaí contornar a ilha
Boipeba. (Na mesma tarde que os dois foram pegos abordados pelos home numa barreira,
eu também fui. Mas outra hora outro lugar e nem muito longe nem muito depois na
mesma tarde). Antes ou depois, deitados na grama da praça Paris, ficaram se
esguichando água com aquelas garrafinhas de plástico de água mineral fabricadas
em Vazante mirando o alvo na parte que mais gostavam se interessavam um do
outro etc., e até cansar de rir. Pipira olhar olhar de cativante naturalidade
ensaiava uns uivos:
- Huuu-u!
huuu-u!...
- D superou o
nada. Foi invenção introdução organização e fixação da criação. E digo o
porquê.
Anoiteceu.
Amanheceu. O dia a dia abriu comportas de ouro e sol e repartições públicas e
lojas de eletrodomésticos e obras em vias públicas e fábricas de artefatos de
couro.
Na
altura das quinas das ruas Presidente Vargas e Borges de Medeiros e Cacequi o Tinhorão
olhou para trás. E para trás e para os lados como fazem certos vira-latas sem
dono. Viu muita coisa e não viu nada que o perturbasse surpreendesse. E já não
comia mais azedinhas ou guabijus ou sete-capotes esquecido das frutinhas do
mato. Desejou casar com a Pipira ou a Moema ou a Paraguaçu ou a primeira tupinambá
bonita que visse pela frente viesse à mente. Tivesse ela enfeites que tivesse,
obrigado. Tocasse a inúbia ou o uatapu ou o uapi. E não demorou nada para ver
logo três de uma vez e juntas em trio caminhando lado a lado as Três Marias de
mãos dadas tiara na fronte do céu. Escolheu a loura de olho azul por ser ideal
sideral zodiacal como uma menina rica e aparecida com a santa Luzia.
-
E tal e qual das Três Marias é a mais inteligente? E digo o porquê.
Então,
Tinhorão saiu de casa para arredondar o mundo. Cabeça redonda. E parecia querer
andar à procura de alguma maravilha do outro mundo. Uma maravilha com a cara
dele mesmo. Um milagre que era para ele mesmo. Uma cidade parecida Itapissuma como
ele mesmo. Interpretar um cainamé ente mítico irresponsável até por ruins
acontecimentos maléficos.
Sexualmente
ele passava já dos trinta e dois, mas não tinha completado ainda os trinta e oito
anos. Viu as libélulas engatadas uma na ponta da outra, voando por cima do
canteiro na beira da calçada da rua Guimarânia, a favor do vento. No longe o
Dedo de Deus na serra dos Órgãos com a cidade de Guapimirim. O dia caminhava
muito rápido. E olhava para dentro dos carros e via o que estava acontecendo.
Olhou para os quatro cantos porque sentiu que algo ou alguém o seguia, e mugiu:
-
Mania que tenho de ter aversão a cachorro; e mania que tenho de gostar de cães.
E digo o porquê.
Anoiteceu.
Amanheceu. Um outro dia como outro qualquer e em todo lugar do azul pacífico atlântico
índico terráqueo planeta.
Tinhorão
parou na frente de um zoológico ali em Sapucaia do Sul e cruzou os braços e
apreciou os animais. Leu, releu, treleu as placas de orientação. Depois olhou
para os lados, pôs as mãos nos bolsos, vasculhou, não achou nada no interior
das algibeiras e guaiaca. Não tinha nada de útil nos bolsos. Queria entrar
logicamente no zoológico, caminhar pela mata predominante das pinhas-do-brejo, andar,
nadar, voar. Queria ver os quatis. Queria ver os graxains. Então, desejou ser
um graxaim. Por quê? Graxaim um bicho quase extinto, quase tão difícil
exclusivo e até mais inédito que político honesto. E jogou cascas de bananas nos
bichos; o cercado da família da ema: a gruta dos tamanduás-bandeiras: a embaúba
da aí-igapó: o banhado das irerês: o viveiro dos caurés: a gaiola dos
saguis-leãozinhos.
Assim, Tinhorão
era aquele macaco-prego pulando pulando e se exibindo atrás de pedaços de
mamão. Um macaco-aranha raro com namorada e cinco filhotes para cuidar. Um
macaco-barrigudo exibido que gostava não ser fotografado. E se penduravam pela
cauda nos galhos das caqueras desfolhadas.
Pois
a tachã podia durar de cinco a sete anos. O jerivá de cinquenta a oitenta anos
conforme o ambiente. Um maracujá-mirim tem idade de sobra para além dos
quarenta e lá se vão. A canela-de-garça tem duração maior que uma garça-branca-pequena.
De três a seis os pesquisadores calculam para os biguás. Quinze anos os astros confirmam
para os saguipirangas.
Alto
espadaúdo Tinhorão viu uma porta de colorido vidro batido; viu uma escada
branca que subia para o primeiro andar e outros andares; viu uma mulher
acompanhada de um filhote que queria porque queria assistir tevê. Tinhorão se
sentou na escada de mármore escavado extraído em Cordilheira Alta. Não pensava
em nada. Nem fome nem vontade de comer. A temperatura baixa nada mais era que
termômetros despencados devido ao frio.
Anoiteceu.
Amanheceu. Um renovado dia novo dia se anunciou na gargalhada dos
joões-de-barro gurandis-azuis marias-com-a-vovó...
O
Tinhorão estava em frente do boteco Urupema no largo do Rosário de braço com a
rua Visconde de Ouro Preto olhando um pastel de queijo na vitrine. O boteco era
típico de esquina. Tinhorão não sabia a idade do pastel e suas procedências e
malícias e variedades. Motivos para navegar pelo rio Poxim que tinha de sobra. As
ruas que se cruzavam tinham pressa, e muita pressa, e nenhuma maravilha assim
do outro mundo. Avenida Guarapiranga começava no parque Henrique Lage rodeava
toda uma área por fora até o bairro Cosme Velho. Tinhorão também não sabia se o
pastel era de queijo com brócolis ou de queijo com abóbora-do-campo.
Por
volta das dez e dez Tinhorão entrou na igreja São João Batista padroeiro da
cidade dos neopratenses. Antes de entrar sentiu um desconforto súbito e olhou
instintivamente para trás crente que estava sendo inquirido. Olhou, olhou... e
não viu nada que lhe confirmasse ou lhe intrigasse ou lhe encafifasse ou lhe
negasse. Mas estava com as mãos às costas e entrou na casa de D. O templo
parecia um subterrâneo do século XVIII ou XIX. Foi aí que Tinhorão decidiu que
seria profeta de DNS. Um homem de muita fé, um homem puro, um homem humano, um homem
divino, um semideus, um homem iluminado, um humilde servo que jamais se metia
em política partidária em discussões de futebol em heranças de família em jogos
de azar e loteria.
Quando
saiu da capela de São Sebastião em OP ainda estava pensando nessa ideia. A imagem
de santo parecia boa e cairia como uma luva uma uva uma chuva. E o filho dos
suiá não tinha nada para fazer naqueles dias e nos dias seguintes e nos dois
três oitenta meses seguintes. Assim, ele quis ser o profeta para toda a vida;
ou o término de tudo ou até resolver querer outra coisa. E a ideia era tão boa,
apesar de muito grande e pesada. Se sentiu um pinheiro-do-paraná abraçando o
mundo inteiro, e bocejou:
-
Vou ser santo na minha própria terra. E digo o porquê.
Nem
tinha outro Tinhorão profeta e entre ele e o mundo e entre ele e o outro lado
do mundo ficava essa uma trilha de formigas-corredeiras. Teve que levantar as
pernas. As formigas vermelhas não reconheceram o profeta Tinhorão e isso era o
suficiente. Formigas isso sim formigas vermelhas presumidas. Insetos estudados
no encontro agropastoril de Juscimeira. Formigas antes do mundo depois do mundo
baratas e formigas.
Assim
mesmo o profeta passou pelo terreno baldio e viu a anta. A anta era malhada e
estava amarrada e estava atada e estava presa a um pé de pau-lacre. A anta
tinha manchas pretas e brancas pelo corpo e pastava num círculo. O profeta a
olhou com carinho e atenção e devoção e glória e confusão e estimativa. O profeta
olhou para os lados e para trás como fazem os cusquinhos perseguidos. Aí o profeta
pegou na corda e puxou a anta. A ruminante tugiu tossiu mugiu urinou berrou
caminhou acompanhou.
Anoiteceu.
Amanheceu. Um perfeito dia do outro lado da noite inclusive na serra Formosa
região controlada pelos uapixana.
O
poeta então no caminho do S falou para a anta:
-
Tenho uma mania que é ter receio de cachorro; e outra mania que é gostar de cães.
E digo o porquê.
E
a anta respondeu na língua grossa das quadrúpedes dos pantanais junto ao rio Ibirapuitã
e capins-milhãs e flores-de-babado e cardos-ananás:
-
Mmmm!...
E
o poeta olhou para trás e viu a anta lhe acompanhando e seguindo cabisbaixa e
farejando. A cauda lá dela batia nas moscas inoportunas. E a anta imitava o poeta.
E a ruminante malhada colava perseguia o profeta de barbas brancas longas barbas
encardidas barbas debaixo do nariz.
O
poeta ia andando e puxando a tapir. Passavam por um túnel o da Conceição. Um
miolo de montanha, montanha bem grande e pesada pico Itapeva. Brilho no fundo da
abertura da luz. O poeta falou pra tapiretê:
-
A guracava aprecia um gavião-caburé, uma jacaroa adoraria ser uma cutia, uma
jandaíra gostaria de ser uma saíra-lagarta, um mico-leão sonha ser um surubim,
uma arraia-cocal quer ser um angico novo em folha. E digo o porquê.
A
anta bateu os cascos no solo da pátria e jurou para o deus dos tapiras:
-
Mmmm!...
E
então já fora da montanha após vazar a montanha, os dois olhando para o céu, o
tempo começou a chover. E o poeta e a anta continuaram andando naquele mesmo e
demorado passo. Não tinham medo da chuva. Não eram de açúcar. Não gostavam de
muito sal na comida. Rua das Uirás lotada de tapuias e emboabas, uns escorados
nos balcões bebendo a destilada catimpuera a ardente tiquira o estalado
paiauaru. Os ingarune tinham ido colher pinhão em pros lados de Chorozinho e
Canto do Buriti.
Anoiteceu.
Amanheceu. Um pleno dia limpo e ordeiro e genial e majestoso e temporal.
O
Tinhorão olhou o caminho. Que será que o pateta e a anta têm com o futuro?
Talvez um nada. E o dia passou rápido. No começo da noite esfriou esfriou. O pateta
não disse nada, e a anta não falou nada. O pateta era honesto. A anta era herbívora.
Anoiteceu.
Amanheceu. Um novo dia de muita calma e pássaros piando na beira da praia no
lajedo do rio Bandeirinha.
O
mundo vivia respirando naquela tranquilidade em que o acaso também respira. E o
profeta mais a anta seguiam por um imenso butiazal à beira da estrada. Parna da
serra da Canastra localidade de Mangaratiba. Alvoroço gritaria em bando dos
periquitos-do-pantanal. Butiazal de um lado e pequizeiral de outro lado. A anta
já se enamorava de butiás maduros. O poeta pensou e logo disse:
-
Hum!... hein?! Enormidade de cajueiral? Você está vendo o que eu estou vendo,
sei. Quer caju? Caju é muito legal. E digo o porquê.
E
a anta respondeu com uma baba se esticando no canto dos lábios carnudos de
dentes fora da boca nariz trombudo água na boca:
-
Mmmm!...
Depois
do imenso açaizal havia um gabioto de costaneiras perto do caminho. Precária
habitação toda rachada em péssimo estado escorada de um lado. A palhoça dava
muita dó e dor de cabeça e bichos que andam pelas frestas frinchas e arestas. A
casinha teimava em não desmoronar de hoje para amanhã. No pátio dessa oca tosca
tinha um guaipequinha sentado, e olhando mais com suas orelhas indomáveis o
movimento da rua poeirenta. Olhando muito atento, e sentado no chão, olhando os
passageiros da estrada de terra batida. O profeta se lembrou da anta. O dia
morno. O poeta disse logo:
-
Tenho aquela, você já sabe comadre, de ter medo de cachorro; e tenho a mania
outra, junto e parelha paralela, de gostar de cães. E digo o porquê.
A anta ergueu as orelhas em parabólicas, bateu
a cauda curta no ar e resmungou farejando grunhindo bufando para frente:
-
Mmmm!...
O
pateta e a anta passaram cumprimentando, com um leve entortar de cabeça. O tal jaguarinha
balançou a cauda e pendeu a cabeça. O profeta olhou para trás, olhou a anta que
ele puxava pela rédea, a anta olhava o chão que pisava. Aí nesse instante a anta
olhou o poeta e este olhou o guaipeca. O cusco olhava as próprias mãos e as cheirava
e as lambia e as testava e as admirava.
Anoiteceu.
Amanheceu. Um novo dia com sol na proa na proa subindo sem sustos por entre os
ramos do marmeleiro-branco.
O
Tinhorão pensou e a anta conjeturou. O poeta olhou um jatobá frondoso e
sugeriu:
-
Antes de mais nada vamos repousar naquela sombra. Acha melhor? Eu também acho.
Podemos conversar em calma. Jogar um carteado. Até mesmo descansar o suficiente
até esta lua se repartir em quatro. E digo o porquê.
A
tapiira olhou o sol, o sol a flechar as meninas dos olhos, e disse na sua
língua grossa das antas ruminantes apreciadoras da capitiçoba:
-
Mmmm!...
Foram
para a sombra da ingarana. O jambeiro-do-mato não falou nada, mas respirava por
mil folhas verdes. Já o pau-de-cachimbo olhou do alto do seu imenso tamanho vinte
metros os dois viajantes. O tacacazeiro muxoxou do patamar das nuvens e cruzou
os braços. E o dia passou rápido com as horas no especial arqueado aéreo percurso.
Anoiteceu.
Amanheceu. Um dia outro dia embora de astro ocluso e luz oclusa.
Aqui
os suspenses os enigmas as charadas os ocultismos os labirintos. O deserto com
a cruz de malta a cruz oriental a cruz patriarcal a cruz de caravaca e para
todos os confins. Onde pifou restou São Nicolau cruz missioneira da Redução de
São Nicolau - entre uma e outra houve ciclone e incêndio.
Anoiteceu.
Amanheceu. E o dia com seus pertences fechado repleto de ondas de terra
vermelha, no más.
O
poeta puxava a anta pela corda. A anta seguia, sem memória sem dúvida, puxada
pelo profeta. E o pateta vaticinou:
-
Este calor e esta ausência de água escassez de comida nem uma cor verde sequer
para remédio. Nada, nenhuma gota de água, pedaço de pão. E digo o porquê.
E
a tapir pareceu concordar, ou não, e balbuciar. A anta revirou os olhos pelo
lugar, rodeada de pedras e pedregulhos, ondas de pó vermelho, capoeirão
esturricado, mugiu finalmente desanimada:
-
Mmmm!...
Anoiteceu.
Amanheceu. Uma luz pesada atrasada de nuvens de carvão.
Tinhorão
e anta entraram na aldeia de Santa Luzia com os moleques em estado de choque
choque. E os tais culepes pareciam mesmo odiar seres e coisas. Ou odiavam
estrangeiros, viajantes, políticos, mascates, vendedores, bichos, surpresas do
outro mundo. O Tinhorão, alisando o escapulário, falou pra companheira anta:
-
Minha principal mania é a de ter pavor de cachorro; e a mania também primeira
de entender de cães. E digo o porquê.
A
anta depois de tossir o pó da estrada, bater os pés na brita, tentar abanar o
suor das axilas, devolveu em outro tom e linguajar:
-
Mmmm!...
A
aldeia de Santa Luzia era nada e tudo a maldizer. Uns tijupás de pau-a-pique e
cobertos de sapê. Uma rua de poeira vermelha dividindo o burguinho em dois palheiros
secos e carcomidos. Frequentada de aldeões e de aldeãs ariscos, pixotes cheiradores
de cola de sapateiro; povinho todo tísico. Pontilhada na sua paisagem de tucurus
engraçados abandonados espedaçados. Capoeirão seco. Não chovia há trezentos mil
anos. Um saci ou outro redemoinhando na poeira da encascalhada rua Única.
Enquanto
o Tinhorão se dirigia à ex-padaria para tentar ver se conseguia um pedaço de acarajé,
a anta ficou ali na pracinha das ex-paineiras conversando com os pivetes. E
negociando a cabeça do companheiro de viagem. Detalhe: outros arteiros já
seguiam nos calcanhares do Tinhorão.
Quando
o Tinhorão voltou, sem água mineral, sem pão caseiro fatiado, sem um naco de
mortadela mato-grossense, sem um feixinho de capim-dos-pampas sequer, a anta e
os piás todos da vila já estavam acertados no negócio que envolvia milhares de patacas
centenas de patacões e cruzeiros.
Tinhorão
chegou ali de volta no terreiro da pracinha das ex-manjeronas-do-campo. E viu a
anta e os pixotes fixarem-no de um jeito estranho e medonho e trapaceiro. Pareciam
pais e parentes e partidários de políticos em dia de votação, em dia de
eleição, em dia de sufrágio universal. Aí o Tinhorão estranhou tudo na infausta
desventura e perguntou:
-
Que que foi que estão me olhando com essas caras de... de graxains mortos de
fome? E digo o porquê.
A
anta mostrou uns dentes de gado selvagem em dia de ex-feira agropecuária, deu
um mugido bovino característico, mmmu!... e revelou, bateu os pés no chão,
declamou, comunicou traduzido a quem interessar possa:
-
Mmmm!... Hoje é sábado de aleluia...
-
E o queco?! E digo um porquê - respondeu brabo o Tinhorão.
-
Mmmm!... E eu o vendi debaixo de alta proposta de dobrões e cruzados novos para
estes culepes raquíticos.
A
anta ficou olhando sem remorso para o fim ou início da explicação. E os pixotes
todos, então, pegaram da pessoa do Tinhorão e o penduraram ali no primeiro
galho da ex-catingueira, galho seco mais baixo e mais forte. Penduraram-no
pelos pés, de cabeça para baixo, de pernas para o ar, ao contrário oposto do
mundo. Depois, com desordem com força com desdém, e como sempre sabiam, os
diabinhos começaram a malhar o judas.
E
o mundo com tudo mais ficou atrapalhadíssimo para as contas as costas do judas.
Tudo tudo de pernas para o ar, e em desacordo com o ponto de vista qualquer
ponto de vista.
Com
a imagem dessa cena perigosa, a anta tratou de sair de fininho e sorrateira e
pela direita. Foi caiu na tiguera. Nem pensou em esperar pelo pior. Nem pensou
em esperar os patacões e mil-réis. Tratou de não se fazer ouvida ou entendida nem
nada e se mandou da vila. Pegou o caminho da roça extinta. Sabia que os aldeões
e as aldeãs não a poupariam.
Assim,
a anta já estava um pouco adiantada e andando. Pegou a estrada do empanado
ausente sol tombante. E já eram umas cinco horas da tardezinha. Logo a luz
escassearia apagaria e seria melhor para ela continuar a fuga a fuga.
Enxergando
no escuro passando das vinte e trinta e a anta já estava longinho quase sossegada
sozinha. Já imaginava com a fuga fugida e a garantia de outros dias e dias. Ia decidida
e sumindo na escuridão empoeirada. Noite calorenta e suja de terra vermelha.
Aí
na descida de um morrinho a anta saiu da estrada e foi descansar ali no meio de
uma capoeira ressequida espinhenta. E deitou no chão de areia. Contava se safar.
Contava ter passado pelo pior. Até resmungou para si mesma, meio ressabiada da
proeza:
-
Mmmm...
E
tentou dormir. Quando fechou os olhos de olhar na noite para tentar um sono...
ouviu ruído de pé ante pé e de graveto estalado se esgueirando. Ergueu a cabeça
e não viu sombra de nada. Umas figuras de pedra se passando por bichos
empalhados.
Ficou
atenta uma meia hora e tantinho. Nem viu nascer a lua. Nem tinha lua, tudo
atrapalhado pelas nuvens de poeira vermelha. Quem sabe uma martinta-pereira um
caapora um anhangá. Uns fantasmas secos lerdos silenciosos deslizantes.
Mais
outro tanto e já se posicionava para recostar a cabeça num toco de embiruçu
quando... ouviu, sique! sique!... de passos sutis ali bem por perto dela no
cisco da sombra. Se incomodou e levantou a cabeça. Se preocupou e até se
arrepiou no pelo grosso. Olhou para cá e para lá e para acolá... Não viu nada
no chão nem cheiro no ar. A lua era só uma sombra. O vento mal e mal insistia
com as nuvens pesadas de pó. Bafo de forja fornalha apagada.
A
anta pensou uma coisa. A anta suava emagrecida e já só os ossos. A anta pensou
umas coisas tipo: eu posso aproveitar a noite para caminhar! Amanhã, durante o
dia, o calor vai estar de matar e vou me derreter sufocada! Eu posso isso?
A quadrúpede chegou
a resmungar mugir desabafar confidenciar:
-
Mmmm...
Então
a anta se ergueu decidida resolvida dentro da proposta de continuar a fuga.
Caminhou com o nariz apontando a estrada e os olhos constantemente puxados para
os lados e para trás. Noite mais ou menos fechada complicada areia na cara. Não
descobria ninguém e não ouvia nada. Um silêncio terroso. E o deserto era sem
fim. E o vento soprava ondas de fuligem. E as ex-árvores eram tenebrosos
esqueletos.
Numa
certa altura, quando já calculava quarenta quilômetros além da vila de Santa
Luzia, a ruminante chegou numa subida e parou para olhar melhor. Olhou a lua
escondida na poeira. Uma escuridão pegajosa sem lua sem estrelas sem planetas.
E a anta olhou de olhos noturnos para trás e teve certeza que não era seguida.
Continuou a fuga fugitiva.
Mais
adiante parou para descansar junto a um tronco de ex-espinho-de-maricá
petrificado. Resolveu parar e adquirir um fôlego. Estava com a língua grossa toda
fora da boca os olhos entupidos de cinzas.
-
Mmmm...
Se
recostou no tronco seco e pensou na longa e destilada jornada. Era pouco para
pensar e fechou os olhos grandes e secos e luminosos. Pensou um pouco do pouco
que tinha para pensar. Esperou adormecer e... ergueu a cabeça. Imaginou ter
ouvido um ruído vindo daquele lado ali. Tentou visualizar... Não, não havia
nada. De certo era o medo. Mas ela tinha horror a lobisomem. Resmungou:
-
Mmmm.
E
tentou esquecer. E tentou cochilar pelo menos meia hora. Encostou a cabeça no
tronco preto queimado do ex-uirari. Fechou os olhos. Cochilou. Sonhou que era
uma ave tesourinha toda alada e sabia voar acima do deserto e fugia para um
lago grande e rodeado de verdes ou o mar como um peixe piruá um xaréu. Sonhou
um sonho que dava ar e mar. Um sonho em que fugia voando nadando por cima de
tudo e encontrava um lugar povoado de muitas aves, peixes, águas, verdes.
Sonhou que fugia alto, voando debaixo de uma chuva de verão, e que mais tarde
aterrissava num lago cheio de enseadas e restingas e aves gargalhando. Sonhou
que voava em paz sobre um lugar de vales verdes e povoados... quando ouviu um
ruído qualquer e acordou acordou...
...despertou e
alçou a cabeça de duas orelhas atônitas. Acendeu os olhos. Mugiu para si mesma:
-
Mmmm...
Olhou
para todos os lados e não viu nada. Pensou preocupada: será que sonhei também
isso? Será que sonhei que alguém se aproxima? Será que alguém está me
espreitando? Que alguém está de sacanagem? E confessou ruminante:
-
Mmmm.
Sem
mais pensar bobagem nem nada a anta resolveu continuar a fuga. E se mandou
outra vez pela estrada ressequida. Com sede, principalmente. A lua ainda não nadava
lá no alto no meio de nuvens de poeira. O vento amontoava dunas pelos cantos. O
vento ignorava as pedras os tocos os montes de ferro velho carcaças de carros retorcidas.
A
anta ainda caminhou um bocado. Uma hora e meia. E subiu um morrinho de nada.
Estava sem fôlego. Parou na subidinha e olhou para trás. A vila de Santa Luzia
está bem para trás, pensou. Procurou ouvir... e não ouviu nada. Espalhou os
olhos acesos e nem viu nada. A vila está bem para trás, reforçou o pensamento.
Bufou com certa voz pesada embargada desabrida:
-
Mmmm!
Continuou
subindo o morrinho e chegou ao topo da colina. Caminhava devagar, mil vezes
devagar. Olhou e viu, surpresa, umas casinhas logo ali no meio do deserto, ainda
perdidas na noite, umas casinhas poucas e pequenas e quebradas. Se decidiu e
balançou a cauda curta. E a anta foi andando toda pensativa para o arraial.
Quem sabe encontraria gente que a adotasse e a socorresse?
-
Mmmm!
A
anta entrou na vila pela única rua que padecia ali. Foi procurando encontrar
alguém... olhando todos os casebres... A anta estava cansada e com atraso de
dormir, comer um pasto que podia até ser pasto seco, beber muita água gelada.
No
meio da única rua da vilinha a anta parou. Olhos remelentos, coberta de poeira
marrom. Havia reconhecido a rua e a vila... Os aldeões e as aldeãs olhos
atônitos vieram de todos os lados para grunhi-la rinchá-la zurrá-la agarrá-la.
E na vila Santa Luzia a anta estava de volta. Estava de volta por quê? Estava
com quê?
Assim,
os vilões e as vilãs e as vilãzinhas pegaram a cauda da anta e a fizeram rodar
e girar e cirandar. A anta rodou por conta dos vilões e das vilãs e dos
vilõezinhos.
Depois, os cramulhões
agarraram a anta pelas orelhas curtas e a fizeram baixar a cabeça até o chão. E
a anta ajoelhou debruçou lambeu a poeira vermelha. Os mesmos vilões e vilãs
subiram um por um, dois por dois, e até três por três no lombo da anta. E a anta
virou táxi peluda de quatro patas. O carro de praça buzinou cornetas flautas e
trombetas. Uns cramulhões e umas cramulhonas tentaram tirar leite da anta. A anta
não tinha leite nem fora mãe para ter leite nem teria a chance de ser mãe para
vir a ter leite.
Então,
ali pela hora da manhã, na primeira hora da manhã cheia de poeira tapando a luz
do sol, os aldeões e as aldeãs já tinham loteado toda a tapir. Cada família já
sabia a parte da anta que lhe cabia em partilha merecida merecida.
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