Cará
Cupincha galopava seu zaino na frente na vanguarda e na dianteira; e os ruins
os maus desalmados famigerados, uma caterva uma súcia, vinham na rabeira e no
rasto e na cola e no encalço e nos calcanhares, pelas costas e pelas sombras -
o que era muito perigoso e abichornante.
Eles os
contrários, os estranhos, os não sei o quê, vinham perseguindo o Cará Cupincha
e mandando bala mandando ver. Um matraquear, metralhar, gargalhar de balas
viciadas de revólveres, espingardas, fuzis e rifles de repetição com luneta
longo alcance. As balas zuniam, zuiiiiim!... rente à cabeça do Cará às ilhargas
da cavalgadura. Malucos doidos facínoras querendo acertar o CC e na distância
de um tiro de doze.
Era de noite,
e olhando rapidamente por cima do ombro, CCupincha viu ou entreviu ou resumiu
uns relâmpagos chicoteando estrias para cima de sua cacunda e alimária montaria.
Hora perdida da noite. Momento denso e ruim do breu.
No
início ninguém sabia de nada.
Quando
foi quando veio? Habitante de Quevedos ou Arroio do Padre partidário caramuru do
visconde de Cerro Alegre região da serra dos Tapes junto da beira do rio
Forqueta no Estado do Tocantins. Em 2003 tinha quatro anos, já em 2024 somando
não ultrapassaria os vinte e cinco.
-
Hoje é hoje - seu espiritado registro de guerra aos quatro ventos gerais.
Cará
Cupincha tinha a sensação de carregar mais de quinhentos anos na paleta. E Cará
envelhecia precocemente como extintos sapos-ferreiros ou senembis ou sarigueias...
a olhos vistos olhos vistos.
E
era mesmo uma surriada um tiroteio de esquecer de que lado ficava o sul do
norte. A poeira atirada no ar pelos cascos do cavalo fugitivo ainda atrapalhava
a visão dos seres maus que vinham na captura. Eram muitas subidas e descidas,
curvas e caminhos estreitos, picadas, corredores, passos, atalhos, carreiros e
desvios. Pedrinhas que saltavam chutadas sem querer.
Pontualmente
pelas 20h contornaram uma ex-restinga de mato.
Cavalo Cupincha
Cará zaino adivinhando o caminho no escuro, no atropelo, na afobação, ao acaso
e no par ou ímpar. Cará agachadão na sela ou colado de cá de lá na tábua do cavalo,
o pipocar das balas, piuuu!... piuuu!... e o som dos cascos na estradinha de
terra batida, potopoto-có!... potopoto-có!... e o estouro/estrondo do peito de cavalo-cavaleiro,
tum! tum!...
A
noite estava amarrada com as pesadas nuvens vermelhas de poeira. Nada de
estrelas piscando e lua subindo e planetas girando. Noite de vento despejando
areia nas fuças. Escuridão mal-habitada por mistérios insondáveis sobrenaturais.
Enigma atochado de lobisomem, mula sem cabeça, jurupari.
Cará
cavalo o Cupincha zaino corria muito veloz. Já caíra o boné que o rapaz perdera
pela capoeira seca do barranco do abismo. E suava frio e o cavalo suava mais. Cupincha
a cavalgadura, centauro, olhos arregalados pelo esforço, pela situação, pelo
deus nos acuda. Olhando para trás, de esguelha, Cará não via nada por causa da
nuvem de poeira, por causa da escuridão, da picada sinuosa, da velocidade. Só
umas faíscas com a sequência dos estrépitos dos disparos, teu! teu!... Ah! se
era um risco grande de perder o posto aqui no piso da terra e ganhar o de mais
abaixo, e cavando.
Os
perseguidos quase não pensavam. Não se perguntavam nada. Cavaleiro não
perguntou nada, inimaginou, repassou raras coisas pela cabeça. Era como uma
febre um pesadelo bebedeira delírio.
E cavalo-cavaleiro
comia estrada, simbora!, comia rumo, tragava caminho, boqueirões, algares, taperas,
encruzilhadas. Noite fechada e só podia adivinhar o chão. Nem sabia onde
andava, para onde estaria se pinchando, onde a estrada o deixaria. Poderia quem
sabe ir parar num outro mundo, num outro tempo, outra galáxia. Nunca que havia andado
em hipótese alguma por aqueles grotões, croões, valões, peraus, fragas, báratros,
covas, cafundós.
Cavalo
zaino só tinha uma chance: cansar menos que seus inimigos. Cará já secara sua
ração de balas. A noite os ajudava, mas só um pouco. As pernas iam aguentando o
tranco. A estrada ruim e desnivelada e estreita ajudava a protegê-los das balas,
porém só um pouco. As balas zunindo raivosas e violentas muito perto das patas
rente da cabeça atoleimada, entre curvas e desvios das estradas. Só podia ser o
inferno, mas muito perdido no seu labirinto. A previsão era de que num momento já-já
fosse atingido por um incandescente projétil de chumbo.
Uma
placa de latão enferrujada retangular perfurada a balas e suspensa por duas
torinhas de imbuia, num vale de dunas e pedregulho, escrevia e apontava para a
entrada do acampamento de Santa Luzia.
Entrou centauro
realmente no lugarejo como se fosse um tufão um pampeiro de poeira vermelha e
pedrinhas soltas correndo cantando em redor. Um furor destampado.
O Cará percebeu
que os capangas os jagunços haviam se perdido ou desistido ou cansado ou
retardado. A única rua do carcomido arraial. Surgia a manhã em 7h e cheia de
poeira entupindo o oco. As casinhas silenciosas desamparadas caindo aos pedaços.
Nada se mexia.
Cupincha-Cavalo
parou na pracinha de pacaris secos petrificados. Centauro suava muito,
cabisbaixo, sem fôlego. Cará apeou do zaino e se esticou todo, se
espreguiçando, estalando dobradiças, espaçando em xis. Puxou o relho da anca do
animal desabafando e o vibrou estalou bateu no ar.
Amanhecia
encardido sobre a aldeia paralisada e sem nada a perder.
- Hoje é hoje.
Cavaleiro
sentou num degrau ali fora da capela em honra de santa Luzia. Cavalo baixara a
cabeça cansado preocupado procurando capim queria beber. Não chovia há dezenas
de meses, e anos-luz.
O
seu Cará pensou em procurar uma padaria comer um pão de forma com café e leite.
Mas, enfim, já sabia tudo, não havia padaria, não havia açougue, boteco, armazém,
não havia mais nada funcionando naquele lugar detonado e destruído e contaminado.
Cará
preferia o verde, e ali o verde já desistira há muito e nunca mais reapareceria.
As ex-paineiras ex-copaíbas-curiaranas ex-jamburanas da pracinha, como tudo e
todos, pediam água, pediam chuva, chuva. Talvez não chovesse há 12 anos ac.
Uma sombra de
sol já despejava calor mormaço sufoco. Nuvens de poeira avermelhada. E mais um
cheiro de óleo queimado jogado fora.
Aldeões e
aldeãs vigiando das janelinhas e portinhas das suas casinhas de barro cobertas
de palha seca de buçuís. Saci pulando de espiral em espiral. Tudo
dominado pelo calor excessivo e a poeira do deserto.
Uns
moleques encarvoados, desgrenhados e ossudos, chegaram chegando e cercaram o
zaino. A besta cavalar arregalou mais ainda os olhos num horror. Logo os
pivetes agarraram umas pedras juntaram uns paus com pregos na ponta e começaram
a fustigar o quadrúpede.
Indignado,
Cará pulou na frente e mandou parar. Ressolhante, o cavalo pataleava de terror
e pavor. Os piás teimavam e não queriam aceitar. Somente depois de Cará estalar
o rebenque lá na altura das orelhas deles que lentamente desistiram e saíram fora.
Cupincha
desconfiou da aldeia e habitantes, do tempo, da própria desdita. Tinha uma
sensação braba de que caíra numa arapuca esparrela. Tinha a dura impressão que era
o fim da linha das tentativas dos negócios dos tempos. Tinha a incerteza que
pisara na ponta da cauda do diacho. Tinha a incerteza que não podia estar
naquele lugar. Tinha a incerta incerteza que as horas estavam se esgotando
terminando concluindo fechando.
-
Hoje é hoje.
Uma
hora depois Cará ouviu um, pofe!... como se um corpo pesadão caísse ao chão. Se
virou assustado e... realmente lá estava um corpo gigante estendido na poeira incinerada.
E era o zaino esperneando asfixiado e já estrebuchando estertorando
arreganhando os dentes. Cupincha correu para o cavalo, tentou uns primeiros socorros...
uma desgraça.
CC
agora somente tinha o desconsolo da alma assaltada do corpo partido. E esse era
um momento cru e mortal e nefasto, praticamente. E ele, o Cará Cupincha, ex-Cupincha-Cavalo,
foi foi e se escorou no tronco da ex-figueira-de-lombrigueira. Se juntou ao
toco da ex-árvore, abraçou-o e procurou resistir ao cerco, ao sono, ao
desamparo. E o tempo não parava não parava nem pra poder desembarcar.
Então
chegaram até o Cará Cupincha mais uns cinco vilões negociadores. Um deles falou
com o Cará, discutindo qualquer coisa com cifra cifrão com preços valores
algarismos:
-
Mmmmm.
-
Opa!
-
...
-
!
-
Dois?
-
Vezes dois.
Os
aldeões e as aldeãs se afastaram um tanto, se juntaram em conferência e assembleia,
cochicharam. Fizeram, lá entre eles, uns trejeitos, muxoxos, salamaleques,
arabescos ininteligíveis no ar poluído, mímicas, macaquices. E vieram com outra
proposta:
-
Três?
-
Vezes três.
Os
vilões e as vilãs deram um tempo ali, se juntaram em conversa e discussão,
cochicharam. Uns ficaram desanimados. Outros nem tanto. Ainda os exaltados. Uma
ou outro contou um caso, explicou, teimou, insistiu, caminhou de vaivém, coçou,
sacudiu a cabeça, pediu a palavra, perdeu a compostura. Reincidiram com um
argumento e tentativa diferente:
-
Quatro?
-
Vezes quatro.
Os
vilões e as vilãs disfarçaram uma saidinha, se juntaram em associação e
confederação, cochicharam. Um falou e outras ouviram. Duas palraram e outros pensaram.
Dois entrevistaram e logo três inquiriram. Decidiram aceitar:
-
Falou, tá falado.
-
Hoje é hoje.
Assim,
então, os aldeões e as aldeãs levaram o ex-cavalo de arrasto. Puxaram o morto
pela cauda, pelas pernas, e a inteira rua Única. Precisaram fazer muita força.
Riscaram o chão com o corpo pesado moribundo do bicho falido. E não havia nem
cães inquietos chorando batendo a cauda, nada disso. E não havia nem urubus de
bico aberto língua seca e dura asas grandes enormes, nada disso. E nem havia
graxains ganindo bufando farejando rodeando raivosos, e nada disso. Pouquíssemos
e mirados e duros e rafados semoventes aldeões vilãs, mais nadica de nada.
E
Cará nem sabia de onde vinha a origem desse tal cheiro de betume. Entre outras
coisas, o ambiente cheirava a óleo queimado? Óleo queimado reutilizado para
outros fins. Cará Cupincha esquecera de perguntar qual que era o daquele cheiro
de petróleo. E dizia, volta e meia, pensando alto nos seus solilóquios:
-
Hoje é hoje.
O
visitante fez nova aproximação com aquele esqueleto de cupuaçueiro. Estava por
isso mesmo abraçado com aquela ex-árvore ali. Memória toda torrada e moída e
prensada. E quando foi, anoiteceu.
E por que não?,
subiu na forquilha para ficar longe afastado dos anhangá e matinta perera e
caapora... Se instalou lá em cima se enrolando num galho seco periclitante. Mas
o ar recendia a óleo queimado, óleo requeimado, asfalto derretido. E ninguém
podia negar.
Fazia
um calor importante, e a tarde ia caindo, e as nuvens de pó iam rebolando no
alto no oco. Tudo dominado pelas dunas de areia e pedreiras e pardieiros e montes
de ferro velho acúmulos de máquinas imprestáveis sucateadas elefantes brancos.
A
noite chegou pesada sem estrelas sem lua sem direção e com ponto de
interrogação. As matintas pereras riscavam o ar aqui e ali, muito perto, muito
acintosas. Lobisomem saiu e caminhou pela capoeira, croque!... croque!... estalando
gravetos secos, e sem dizer aonde ia de onde vinha. Um desonesto e desagradável
e insistente cheiro de óleo reutilizado batizado.
Cupincha
se ajeitou entre os galhos secos, felinamente, escanchado, montado perigosamente.
Já queria fechar os olhos. Depois ficou imaginando... Relincho de mula sem cabeça
ali para aquele lado do capoeirão incendiado. Um cheiro pesado e estonteante de
óleo sujo. E pegou no sono. Não era para dormir, e adormeceu.
Horas
tardes da noite enfumaçada CC acordou com um cheiro de queimado no ar. E tossiu
valentemente muitas vezes. O corpo ardendo envolto em fumaças e catinga. Cará
se viu comendo fumaça, engolindo fumaça, tragando fumaça. Tudo assando como lenha
de fogueira para são João. “Mas é mês de janeiro!”, pensou. E era ele mesmo sem
a menor dúvida sem chances de errar ali no alto no meio das labaredas facho
archote acariciado pelas chamas desamparado? E ele o Cará Cupincha sentiu odores
de carne humana assando no brasil.
Foi
quando Cará Cupincha não aguentou mais e explodiu em tocha humana. E caiu lá de
cima... despencou já tostado, tofe!... já um carvão chamejante. Caiu no meio da
poeira, no solo esturricado, tofe!... soprando erguendo pequena nuvem vermelha.
Pegou fogo como feixe de sarandis secos. Incandesceu como touceira seca de
matapasto.
E
não estava morto, era só o começo, só um lampião, só um candeeiro. Fora um
ensaio. Pois quando o turista mal e mal recobrou os sentidos automaticamente que
percebeu a gravidade da desventura. Estava amarrado num poste de ex-cauchorana para
servir de alvo às pontarias paramilitares. Saíam do seu corpo estragado, chamuscado,
esfolado, umas fumacinhas azuis outras pretinhas e ainda as branquinhas. Um
churrasco mal passado. Odiou o cheiro amargo de carne humana pegando fogo no
óleo reutilizado.
Para
a aldeia, os aldeões e as aldeãs e os aldeõzinhos, era dia de grande concurso. E
o infausto infeliz fora o escolhido pelo acaso a bola da vez. Os exercícios de
artilharia de arremesso foram distribuídos sorteados desta maneira: eram três
molecas de saia ou vestido, cinco de tranças, três de pés no chão, duas de rabo
de cavalo, uma de franja caída nos olhos, duas sardentinhas, uma de cabelo
vermelho, duas de sandálias franciscanas de pescador, quatro de brinquinhos
odalisca, duas de óculos de grau, seis com os dentes precários, duas atacadas
de maleita, quatro de olhos castanhos: um total de onze. E emparelhadas lado a
lado em meio círculo. Como se fossem treinar cobrança de penalidades máximas. Ou
pelotão de fuzilamento? Todas ansiosas para fazer o dever de casa. Cada uma com
o seu arco e a sua flecha à mão, e a coceira nos olhos sufocados de areia. Cada
qual com seu cabaz de flechas às costas, e as pernas abertas preparadas. Assim,
então, mais da metade atirará com o braço esquerdo esticado. Outras atirarão
com o braço direito esticado. Disputa competição de tiro ao alvo com arco e setas
pontiagudas.
No
entanto CC mal podia se dar conta disso, ou daquilo, ou daquele outro. Cará no
centro das atenções na frente do tronco atado à ex-árvore. Muitos homicídios! Não
pensava em nada, o Cará, o Cupincha. Ele era a grande atração do circo. Os
olhos já fechados os ouvidos praticamente trancafiados.
Cará Cupincha
nem tinha muita ideia onde iria parar naquela mesma noite.
- Estejam à
vontade! - o aldeão capitão gritou ordenou.
As pixotinhas
todas elétricas e nervosas e urgentes e arregaladas, miraram o alvo todo lambido
de fogo. Miraram o fígado do tição. Miraram o peito aberto sem camisa do
ex-centauro. Miraram o gogó encaroçado da vítima. E miraram o meio dos olhos da
presa. Uma das cobradoras de pênalti observou, displicente:
-
Ele ainda está acordando ou de acordo.
A
outra do lado também viu:
-
Ele está quase olhando de olho apertado.
Alguém
queria saber:
-
Terá um nome comum, pelo menos?
Mais
uma em dúvida:
-
Quantos anos já carregou na paleta na cacunda?
Outra
balbuciou:
-
Não será um ex-mecânico de patrolas ou ex-criador de camboatás?
A
quinta daqui pra lá e que sabia falar e sabia mentir:
-
Se fosse eu ele desistia de vir aqui.
Cará
Cupincha o CC ele mesmo estava muito mal na parada e podia acontecer o pior. De
cada dobra do corpo subiam umas fumacinhas azulzinhas e cinzentinhas e
branquinhas tricolores. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas já com o tacho
grande de cobre sobre o fogo. Cará vertia lágrima somente pelo ex-olho esquerdo
e olhe lá. Sentiu tão que estava perdendo tempo:
-
Hoje é hoje.
Ansim,
as sapecas cobradoras de penalidades máximas tiveram ordem de treinar uma
rodada de flechaços ao Cará Cupincha: o Álvaro, o São Sebastião. Foram
disparando à toa e com incerta inclemência. Os espetinhos espinhentos voaram
sérios, riscando o ar, zunindo um breve zunido, zuuuupe!... até encontrar um obstáculo,
um ponto de apoio, um corpo trêmulo e estorricado de Cará Cupincha.
E quando a
flechinha, grupe!... cravava no alvo fazia esse ruidozinho característico
artístico, grupe!... Os dardos entravam tão comportados e fortemente no corpo torrado
do ex-CC que pareciam espetar um sanduíche de pão repartido com deslizante margarina
ou manteiga, palitinhos segurando as tampas do pão no recheio, grupe!...
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