quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Contos de Santa Luzia (15)



            Uma manhã, então cedo, este um Engenheiro Pacamão Urupema chegou à aldeia de Santa Luzia - como de onde por quê -, e montado no pescoço da aliá Issé. Um cara nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, nem nefasto nem nefando, nem infando nem infausto, nem funesto nem infrene, nem panema nem marupiara. Usava um boné sem marca para encobrir a tonsura precoce. Nariz de pepino azulado e olhos como de cebola cortada ao meio.
            Olhou em volta e o que conferiu. Choças cobertas com folhas secas de palmeiras jacitarapuís empanadas de cinza vulcânica. Quinze ou dezoito palhoças caindo aos pedaços. Uma pracinha de nada. Umas ex-árvores petrificadas paineira, lacre-branco, monjolo, araçazeiro... Cheiro de capoeirão requeimado. Uma capelinha para a santa Luzia.
            Eng. apeou da aliá em frente à capela. Chão escaldante. Entrou no santuário, tirou o boné, apontou dois dedos na pia seca e fez o pelo sinal. O padre, com um chapéu de boiadeiro carcomido na aba, apareceu das sombras das dobras para recebê-lo. O padre abriu o bico e tiquetaqueou:
            - Ora, ora esta!...
            Além do padre outros aldeões e aldeãs e aldeõezinhos apareceram de repente, assustando, vindos do nada, como fantasmas, como sombras, como caaporas. E conferenciaram ali mesmo, em pé e se coçando, uns poucos sentados de lado nos bancos de madeira ex-peroba-brava ou ainda nos degraus de pedra basalto à frente do altar da imagem.
            O Pacamão Urupema colocou dois dedos o indicador e o vizinho na boca e tentou assobiar assoviar, pigarreou, estridulou:
- Mas o que posso fazer por vocês, vilões e vilãs?
            - Uma caverna um abrigo antiaéreo cheio de galerias interligadas debaixo do chão da vila. Um labirinto subterrâneo. Um emaranhado de galerias, túneis, corredores e passagens secretas. Precisamos nos resguardar nos esconder do calor da radiação uv dos meteoritos dos gases nocivos das imagens via satélites.
            Os aldeães, sempre tendo o padre como interprete, lhe propuseram a construção desse um labirinto subterrâneo, etc. O Engenheiro Urupema duvidou ou fingiu não entender até onde ia o plano, inquiriu:
            - Ne-ne-né? Hum!...
            - Para uma eventual invasão extraterrestre, entende?!
            Enormes calores e as ondas intermitentes de poeira. No calor na poeira no terrão o vento articulando espirais de saci. E garranchos ressequidos de cabacinha-do-campo rolando de lá até aqui e de déu em déu e de léu ao léu.
            Assim, na reunião fecharam o negócio e com o padre explicando melhor:
            - Ainda nesta tarde o senhor deve vir com um desenho, um plano, um esboço de labirinto, um projeto, um rascunho, um esqueleto, um arcabouço. Trabalharemos no período da noite, e descansaremos durante o dia.
            - Hum!...
            O Engenheiro tentou sempre assobiar, o que nunca conseguia. Mania que tinha de querer aprender a assobiar depois de coroa. Comandaria todos os vilões e as vilãs. E ele se convenceu. E ele se posicionou.
            Agora todos se dispersaram. Voltariam mais tarde para pegar no batente, aí pelas 7h e 30min da tardezinha mormacenta poeirenta.
            O Engenheiro Pacamão ficou andando em volta da pracinha esturricada bolando um formato, um desenho para o abrigo. A ideia não era novidade, e não precisava ser muito cara extravagante sofisticada engenhosa. O dia estava muito quente, um forno, uma fornalha.
Não chovia há séculos e lá ia fumo. Paisagem cinzenta. Panorama rupestre. Mundo devastado por bactéria chamada Tapiragem e que provocara câncer na pele. Mundo lugar incinerado perempto e jogado fora.
A aliá srilanquesa se virava pela pracinha comendo folhas secas da ex-pitombeira-de-marajó, ex-braço-de-preguiça. Nuvens vermelhas de pó revoavam no oco. O saci diacho revolucionava em redemoinho no pó da única rua na rua Única.
            Assim, o Engenheiro andava de mãos às costas, olhando o chão, chutando as pedras soltas, meditando. Vez ou outra parava e erguia os olhos. Olhava então toda a aldeia. Poucas casas de pau-a-pique com telhado de sapê ao longo da única rua. Rua descalça e poeirenta. Meses sem uma chuvinha para remédio. Meninos de pés sujos jogando pedra na cruz da cumeeira da capela.
            - Hum!... O que posso fazer ou desfazer? - pensou alto para si mesmo.
Estava pensando no emprego na oportunidade na viabilidade. Deslizou a mão pelo breve que pendia do pescoço. Procurou assobiar colocando os dedos na boca soprando forte entre os dentes. Era difícil, saiu um ruído fraco e sem graça sincopado. E ele se convenceu. E ele se converteu.
            O Engenheiro Pacamão - sua cara transmitia cansaço e febre - ainda andou pensando ao longo daquela tarde. Pensava e mastigava um palito achado catado por ali mesmo. Às vezes em companhia da aliá Issé. Então, aproveitava para empurrar com o ombro a paquiderme. Fazendo força com o ombro para que a aliá tirasse o pé do chão e fosse para aquele lado ali ou para o lado de cá. Outras oportunidades, espiando por ali, flagrava a indisposição dos pivetes na praça brigando de se perseguir e de se aplicar rasteiras e voadoras e chaves de braço e cabeçadas.
            Às 19h e 30min, areia requeimada e poeira cinzenta, o Engenheiro Urupema se encaminhou para a capela. Os aldeães e as aldeãs todos já o aguardavam. O padre, chapéu pantaneiro comigo na junção da copa, perguntou:
            - Já pensou então no desenho do labirinto? Tem ideia de como vai ser? Já sabe como vai fazer? Nem precisa nos surpreender.
            O Engenheiro tentou assobiar como os moleques fazem. Olhou tudo aquilo. Tinha uma ideia estreita fechada sem saída. Mais ou menos isso e os requisitos:
            - Vamos ver. Assim como um corpo humano ao comprido, deitado, estendido, com seus órgãos ou entranhas. Um subterrâneo em o molde de um corpo humano. Entraremos pelo dedão do pé direito. Faremos um buraco aqui atrás do altar da santa Luzia. Uma entrada-saída, tão-somente. E o labirinto assim por baixo de toda a extensão da aldeia. Uma caverna com altura conveniente. Não consigo prever o prazo da obra acabada, mas não passará de dois a três meses. Serão galerias corredores valões canais sem conta. Que acham? Que me dizem? Que me permitem?
            O Engenheiro procurou treinar o assobio. A garganta seca os lábios cortados gretados e queimaduras na pele. Do chão subia uns vapores trêmulos estranhos. E ele se convenceu. E ele se percebeu.
            Assim, na mesma hora, já puseram mãos e ferramentas para obrar para funcionar. Começando por esburacar atrás do altar no íntimo da capela.
O Engenheiro no comando na engenharia na organização na logística. Os vinte aldeões e as vinte e uma aldeãs, mãos à obra, os acólitos, os fâmulos, os áulicos todos em ação sem exceção. E aí, então, entrou uma noite inteira e profunda e esfumaçada nos archotes de óleo queimado.
            Na primeira noite fizeram o poço a partir do qual iriam alargar em galerias de labirinto. E à medida que o entulho era levado para fora e despejado no carreto a aliá puxava o trole até um valão no meio da capoeira seca.
Noite pegada de cinzas vermelhas. No oco no côncavo, lá pela imensidão, lá por fora e pelo alto, nem estrelas nem planetas e as pesadas nuvens acompanhando as ondas do vento. A lua nem de vez em quando tampouco. Sacis rilhando soprando trens de poeira estalando paus de capoeira fazendo as bagunças e armadilhas.
            Às 7h e 30min. pararam, largaram. Cada aldeão seguiu para sua respectiva casinha feita de barro amarelo e capim-da-colônia seco.
Eng. Pacamão - suado e a cara mascarada de terra - mais a aliá, repousariam ali mesmo na capela.  
Sem se anunciar sem ser esperada, a cozinheira surgiu de supetão e carregando pelas alças um tacho de cobre. Colocou a peça com a gororoba borbulhante sobre um cepo de ex-angico-vermelho-do-campo e declarou:
- Temos aqui o refogado de borracha de pneu de patrola mais os cacos de garrafa e uns ramos secos de ex-casca-branca, e que é para forrar o estômago de ocês, tá certo?!
Na tarde de calor com o sol escondido na fuligem, o Engenheiro saiu para o pátio da capela. A aliá procurando dobrar com o nariz comprido os galhos secos e altos da ex-aroeira-do-rio-grande. Piás brincavam no terrão da pracinha atrás de uma lata vazia. E garranchos ressequidos de alfazema-brava rolavam de lá pra cá e de tão a quão e por jus em fás.
            Em uma semana só haviam estendido uma perna do labirinto. Então tá!, pois o trabalho não rendera aquilo que planejaram. Mas assim mesmo e conquanto, o Engenheiro achou que estava tudo dentro dos conformes esperados. Tentou assobiar do seu jeito. Tentou como sempre. E ele se convenceu. E ele se transferiu.
            O Engenheiro dava tudo de si. Já a aliá, jovem fêmea paquiderme, esta não se habituara àquela aldeia maquilada de pó vermelho, torrada ao calor excessivo, onde não chovia há dezenas de anos, onde não havia o que beber e o que pastar. A aliá sentia falta também de outros espécimes da raça. Estava na idade de namorar, não de trabalhar a noite toda sem ruminar sem beber. Queria o pasto a água corrente. Rolar no barro. Sonhava dormir no pasto com o namorado asiático, fugir de casa com o namorado, andar na chuva, sonhava com um namorado na cascata. Mas naquele deserto vermelho não acontecia nada disso. Era forçada a delirar sozinha e abandonada na capela pobre. Não raras vezes, durante o calor do meio-dia, ela suspirava uns resmungos que acordavam toda a aldeia.
            A cozinheira, avental de xadrez preto e vermelho, chegou como uma sombra na sombra da capela e perguntou de supetão ao Engenheiro, pissitou:
            - O Engenheiro não quer um caldo de pedra cristal com nós secos dos galhos de buranhém, porém?
            Então, a cozinheira o serviu. E ainda não contente, ficou observando-o sorver, babar, engolir, chupar os dentes, arrotar. A seguir se chegou perto rente para cheirar a boca do freguês, cheirar o hálito que sua sopa deixara lá dentro no esôfago do homem, cheirar a língua que acabara de provar seu grude. Olhou tudo isso e de perto rente com miopia com cobiça com desdém. Para depois sinalizar continência ao cliente e recolher a louça.
            O Engenheiro Urupema caminhava pela área da praça. Um calor seco. Ao lado, como uma sombra fiel enorme, a sua gigante aleá. Alguns pixotes esticavam o olho, abriam os beiços para reclamar e reclamavam. O Eng. pensava no seu empreendimento. A aliá calculava se podia alcançar com a tromba uns raminhos secos daquele petrificado oiti-bêbado. E logo ali mais uns culepes brigando de se empurrar, se chutar, se socar, se cutucar, se cacetear, se sarrafear...
            O Engenheiro Pacamão estava na casa das sessenta caçambas. E esperava chegar até completar as cem, no mínimo. Seus olhos ardiam na claridade atroz. Mal respirava o ar poluído a garganta ardia o nariz coçava os pulmões reclamavam o cabelo continuava a cair a pele enrugava e quebrava e descascava. Os sacis os entes espiritados em todos os cantos e o tempo todo.
            Somente depois de dias e dias foi que os moleques descobriram por acaso por interrogação seca e sem resposta que a bosta da aliá poderia poderia atrair um inseto coleóptero antenado até então inédito desconhecido para a aldeia: o escaravelho-bosteiro. Seria possível? Será que o inseto se deixaria atrair justamente para aquele deserto vermelho e inóspito? Vai saber! Todo caso a coruminzada lamberia a bosta até que houvesse bosta de aliá para lamber.
            O empreendimento do labirinto ia conforme a mania do ex-açougueiro vilão, ou seja, por partes por etapas por departamentos. Já haviam esburacado toda uma metade do projeto: as partes que iam dos pés até a cintura, digamos assim. A caverna o labirinto no formato humanóide deitado já estava escavado até a cintura.
            Uma tarde muito quente e comum, o Engenheiro Urupema - sua cara denunciava seriedade e conformismo - se encontrava sentado no degrau da porta da capela, quando a cozinheira veio surgiu do nada se aproximou como um espectro obscuro. Por trás, silenciosa mais que a sombra, pisando nas sombras, pé ante pé pelas sombras, triquete a triquete, ela o cutucou no ombro direito, o assustou:
            - Epa! Quer experimentar o meu sopão de arame farpado com lascas retorcidas de ferro-velho encorpado de graxa de rolamento?
            Quase anoitecia. Ex-árvore angico-rajado sem pé nem cabeça ali mesmo na pracinha. A aldeia de Santa Luzia se preparava para o trabalho noturno no labirinto. Sem sombra com sobras de dúvidas, era ali mesmo um mundo devastado por uma doença à época chamada de Taiuiá e que detonara por tudo arrasadora desdita.
Engenheiro-residente deglutia cuidadoso seu arame farpado com ciscos gravetos esturricados de cardo-melão e tingui-capeta. Nunca tinha comido e provado coisa parecida. A cozinheira a observá-lo com devoção, olhar manso, pescoço torto e cabeça pendida para o lado como costumavam fazer os cães, mãos juntas de dedos entrelaçados na altura do umbigo, etc. A aleá vadiava preguiçosa pelas dunas se empanturrando de pontas de galhinhos secos de ex-capituva, ex-breu-preto. Os piás faziam as artes escrevendo palavrões na poeira da rua, na poeira do campinho, na poeira do lajedo da entrada da capela.
            Pacamão Urupema levava sessenta casinhas de pedra na paleta. Queria chegar nas cento e poucas. Precisava cento e vinte. Mas, sabe-se lá, talvez chegasse somente até... Tentou assobiar, e fazia esse exercício diário diariamente. Tentou e tentava desde sempre. E ele se convenceu. E ele se perfilou. E ele se empipocou.
            A obra progredia, mas não no ritmo calculado e esperado e aguardado. Levariam uns trinta dias - projetava o Engenheiro -, para cavar as galerias correspondentes ao tronco da figura deitada. E tudo tinha de ser como um museu, ou seja, cheio de corredores, desvios, aclives, declives, paredes falsas ou movediças, túneis, pontes, esquinas, antecâmaras.
            Uma tarde, claridade terrível, calor moribundo, o chão ressecado, o Engenheiro foi até a cozinheira. E esta estava distraída dormindo sentada numa torra de ipê-do-cerrado. Aí, o Eng. Urupema foi chegando, pé ante pé, quando a quando, mais sorrateiro que um fantasma, pisando nas sombras, foi chegando, passo a passo, tanto a tanto, mais calmo que um sonâmbulo e tocou no ombro direito da moça. A cozinheira caiu no chão, mordeu a língua e depois disse, falou com dificuldade normal e infundada nostalgia:
            - Quer sobremesa de pedaços de vidro e plástico com hastes secas de ex-guaxima e ex-cipó-dourado? Eu recomendo!
            O Engenheiro tentou assobiar assoviar. Então, só tinham uma hora antes do começo do batente. E ele se convenceu, naquele dia. E ele se prontificou.
            A cozinheira trabalhava muito durante a noite, tinha todo o dia para descansar, e mais umas horinhas no fim da tarde para jiboiar. Então, escolhia fazer, entre as várias das variadas possibilidades, o que lhe dava na telha para o rango do dia. Tipo assim preparar sopas e mais sopões. Tipo assim dormir abraçada à cadeira e o queixo sobre o encosto assegurando o peso da cabeça. Tipo assim, ficar observando a aliá, bicho que nunca vira e jamais imaginara. Tipo assim também colher e experimentar as lascas ou as cascas de feridas das pernas dos braços.
            Na altura do umbigo - do tal labirinto humanóide -, o Engenheiro Pacamão resolveu fazer uma quadra de tênis. Quadra subterrânea, lógico. Era para jogar tênis durante uma invasão extraterrena. Seria uma garantia de esporte no escuro. A obra estava sendo feita, então, para valer pelos séculos e séculos, mesmo após invasões de marcianos e jupiterianos e venusianos e mais distantes.
            O Engenheiro - sua cara mascarava susto e sagacidade - passeava outra vez pelo terreiro calçado de lajotões da frente da capela. O mormaço estava insuportável. O vento erguia a poeira vermelha que maquilava tudo, fazia o ar irrespirável, mudava a cor da aldeia. O saci, em espirais soltos e leves, muito arrisco e manhoso, media a distância da entrada e saída da rua Única. Um peso morto de nuvens de poeira vermelha.
Assim mesmo ou por isso mesmo, o Engenheiro não se arrependia. Tentou assobiar porque esta era sua mais distante e frustrada ambição. Uma coisa era uma coisa outra coisa era outra coisa e etc. E ele se convenceu. E ele se considerou.
            A ex-plantinha macambira-de-serrote, espetada contra o oco, fazia parte da paisagem derrotada caduca da aldeia Santa Luzia. Não chovia há séculos, e o jogo da sapata ou amarelinha. E quando a aliá Issé se deitava preguiçosa a fim de fazer uma sesta, era somente delirando com pastos e águas que conseguia cochilar.
Culepes também aprontavam de arrastar arteiros e arteiras pelas pernas no pó vermelho, morro abaixo, morro acima. Faziam furo na orelha de um moleque pequeno atavam um barbante ou um fio de arame e o escravizavam por um dia inteiro, dia que demorava para passar.
            Escaravelho é o nome dado a vários insetos de cor negra parecidos com besouros - dizem os cientistas, que o conhecem por dentro e por fora. São seres sem sangue, por isso não sentem nada nada. Se pode até derrotá-los triturá-los esmagá-los com um pisão que não estão nem aí.
E mais. São coprófagos - animais que se alimentam de excrementos -, da família dos escarabeídeos, em especial os escarabeíneos, que andam sempre procurando excrementos de mamíferos herbívoros.
            Possuem uns pares de asas, umas verdadeiras e outras falsas. Quando pousam, recolhem-nas debaixo de uma carapaça, como num estojo. São assim mesmo e exatamente como foram feitos, e o pife-pafe.
As fêmeas de certas espécies preparam uma bolinha de excremento, na qual põem o ovo, e que enterram depois de empurrá-la a certa distância ao descobrirem um terreno propício. Isso lhes motivou vários nomes populares jocosos ou não: carocha, rola-bosta, bicho-bolo, capitão, coro, bicho-carpinteiro, mosca elefante (este último apelido em virtude do extraordinário prolongamento do corselete, em forma de tromba).
No antigo Egito (uma nação no nordeste da África banhada pelo lendário rio Nilo), tempo dos faraós construtores de gigantescas sepulturas de pedra em forma de pirâmide e esfinge, um tipo de escaravelho era sagrado por significar a ressurreição ou a imortalidade de tudo que é da terra. Simbolizava o deus-sol nomeado: Quepera.
             A cozinheira veio no seu estilo sorrateiro se esgueirando dando aquele susto no distraído Engenheiro Pacamão Urupema. Ela surgiu de dentro da sombra, pelo escuro da sombra, como uma sombra requentada daquele lugarejo perdido e sufocante. Falou com voz de sombra abafada morna:
            - Aqui está: suspiros feitos de rastos de lobisomem com pegadas de mula sem cabeça e sinais de cachorra-da-palmeira.
            O Engenheiro - sua cara imprimia insônia e impaciência - se debruçou ao encontro dos suspiros, e entre uma colherada e outra, cuidava do padre. Este andando ao relento com seu inseparável chapéu de palha arrebentado remendado. Não chovia há milênios, e outras ocasiões. E garranchos requeimados de mentrasto-do-grande rolavam daqui pra cá pra lá e tico com nica e plus mais extra.
Bochechando os suspiros, o Engenheiro tentou assobiar. O Pacamão olhou manhoso o corpo serpentino da cozinheira e achou que ela também daria um caldo qualquer. Procurou exercitar o assobio. E ele se convenceu, desde aquele momento. E ele se configurou.
            A maior parte do corpo do labirinto já estava esburacado escavado recortado. Agora o braço direito. Braços ao comprido do corpo, mãos espalmadas junto as suas respectivas coxas - vamos supor assim.
            A grande aliá não se conformava com o fato dos seus parentes estarem longe e distantes. Às vezes ficava naquele silêncio; às vezes berrava subindo o nariz assustando o arraial. A aliá fingia estar gripada ou com tosse, e tossia na cara dos aldeões e das aldeãs e das aldeãzinhas. Era um mundo desolado devastado por praga que até deram um apelido de Cavacué, por voar como um ex-cavacué.
            Uma tarde que caía - tempo abrasador e tudo silencioso e nada, tudo coberto de poeira -, o Engenheiro Pacamão e o padre passeavam pela praça incinerada. O padre com seu chapéu de barbicacho corrompido. Volta e meia se ouvia uns pixotes gritando palavrões desbocados. Os moleques lutavam e brigavam de enforcar um piá de cabelo arrepiado. Penduraram o pivete pelo pescoço e contavam as pedaladas que ele fazia, cara vermelha e olhos atônitos. Os assistentes circunstantes apostavam tanto até quando.
            Às três da tarde a elefanta - ou elafanta -, no seu modo pesado, se levantou da sombra no interior da capela e saiu enfrentando soalheira e tudo. Talvez fosse dar um rolê até ali no capoeirão seco. E por que não? E ela andou sem se distrair até o ressequido tombado ex-chibatã. Então, analisou o terreno seco e pedregoso. Enfim, se decidiu a escavá-lo. Escavou esburacou um sério buraco particular. Para chegar do outro lado do mundo? O calor muito forte. Um suador para sempre. Abriu o buraco, ficou dentro e se deitou lá no fundo. Achou que era possível e cochilou.
            Agora a última parte do monstro carunchoso: a cabeça do humanóide, ou a ara do labirinto. Nunca ninguém estranho à aldeia descobriria esse labirinto subterrâneo contra invasões alienígenas, contra os raios uv, etc. Talvez somente os sacis e lobisomens e mulas sem cabeça e juruparis e matintas-pereiras e cachorras-da-palmeira. Talvez talvez e mais ninguém.
            O Engenheiro Urupema - sua cara nem desmentia dor de cabeça - tentou aprender logo logo a assobiar com dois dedos na boca, o que era extremamente difícil nessa altura do campeonato. E ele se convenceu, já naquele dia. E ele se comprometeu.
            Houve uma ansiedade desnaturada e inexplicável diante dos finalmentes da obra secreta. Chegaram, enfim, ao ouvido esquerdo da gruta. Uma grande catacumba uma cripta sem saída lateral, sem porta de incêndio. Somente uma abertura: o poço cavado na entrada no interior da capela da santa Luzia. E percorreram tudo outra vez.
Tudo olhado e testado e conferido? Então, tudo estava pronto mesmo. O labirinto estava pronto e secreto e capacitado e entregue aos vilões da aldeia de Santa Luzia. O labirinto subterrâneo estava pronto, feito, concluído, acabado, finalizado e bem guardado no fundo da terra.
            Assim, todos os aldeões e as aldeãs se retiraram do organismo. Só voltariam a ocupá-lo outra vez numa eventual invasão extraterrestre, uma guerra nuclear, naqueles dias de uv insuportável, etc., ou outra coisa ainda pior.
            Por essa altura e nessa hora, os aldeões e as aldeãs trancaram o Engenheiro no labirinto. E pronto. Sem conversa. Foi lacrada também a passagem atrás do altar. Lacrada a única abertura e que ficava atrás do altar no âmago da capela.
E o Engenheiro ficou no escuro. E o Eng. se fechou no silêncio do escurão. E incomunicável. Tudo se fechou a sua volta e tudo ficou muito escuro. Ouviu rolar na entrada uma tal de enorme pedra granítica itacoatiara e pronto.
O Engenheiro estava fechado e trancado no escuro. No escuro seguro de não poder sair nunca nunca. Ele se recostou numa parede de túnel e pronto. Nem piou mais. Sabia que era inútil. Nem bufou mais. E ele se convenceu mesmo. E ele se consentiu.
E foi guardado na despensa à defumar como merenda para repouso para mais tarde para ser comido em outra oportunidade e ocasião.
            A aleá foi carneada para churrasquear a data de conclusão de finalização da obra. Da sua estrutura musculosa, os aldeães e as aldeãs conseguiram duzentos espetos muito enormes de carne dura e seca. Do couro grosso, o ex-sapateiro voltou a sapateiro e fez sessenta sandálias franciscanas de pescador. Das orelhas de abano da paquiderme, conseguiram alguns caldeirões de sopão. Dos ossos, saíram cem sacos de ração para comer com guisado de elefanta. Das unhas enormes, ferveram mil e tantos canecos de chá afrodisíaco de erguer moribundo. Do estrume encontrado nos três compartimentos do estômago da ex-herbívora - encontraram realmente pouca bosta - pensaram, e tão-só apenas matutaram, desenvolver uma horta orgânica para plantação de escaravelhos-bosteiros.


  

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