Uma
manhã, então cedo, este um Engenheiro Pacamão Urupema chegou à aldeia de Santa
Luzia - como de onde por quê -, e montado no pescoço da aliá Issé. Um cara nem
alto nem baixo, nem magro nem gordo, nem nefasto nem nefando, nem infando nem
infausto, nem funesto nem infrene, nem panema nem marupiara. Usava um boné sem
marca para encobrir a tonsura precoce. Nariz de pepino azulado e olhos como de
cebola cortada ao meio.
Olhou
em volta e o que conferiu. Choças cobertas com folhas secas de palmeiras
jacitarapuís empanadas de cinza vulcânica. Quinze ou dezoito palhoças caindo
aos pedaços. Uma pracinha de nada. Umas ex-árvores petrificadas paineira, lacre-branco,
monjolo, araçazeiro... Cheiro de capoeirão requeimado. Uma capelinha para a santa
Luzia.
Eng.
apeou da aliá em frente à capela. Chão escaldante. Entrou no santuário, tirou o
boné, apontou dois dedos na pia seca e fez o pelo sinal. O padre, com um chapéu
de boiadeiro carcomido na aba, apareceu das sombras das dobras para recebê-lo.
O padre abriu o bico e tiquetaqueou:
-
Ora, ora esta!...
Além
do padre outros aldeões e aldeãs e aldeõezinhos apareceram de repente, assustando,
vindos do nada, como fantasmas, como sombras, como caaporas. E conferenciaram
ali mesmo, em pé e se coçando, uns poucos sentados de lado nos bancos de
madeira ex-peroba-brava ou ainda nos degraus de pedra basalto à frente do altar
da imagem.
O
Pacamão Urupema colocou dois dedos o indicador e o vizinho na boca e tentou
assobiar assoviar, pigarreou, estridulou:
- Mas o que
posso fazer por vocês, vilões e vilãs?
-
Uma caverna um abrigo antiaéreo cheio de galerias interligadas debaixo do chão
da vila. Um labirinto subterrâneo. Um emaranhado de galerias, túneis,
corredores e passagens secretas. Precisamos nos resguardar nos esconder do
calor da radiação uv dos meteoritos dos gases nocivos das imagens via satélites.
Os
aldeães, sempre tendo o padre como interprete, lhe propuseram a construção desse
um labirinto subterrâneo, etc. O Engenheiro Urupema duvidou ou fingiu não
entender até onde ia o plano, inquiriu:
-
Ne-ne-né? Hum!...
-
Para uma eventual invasão extraterrestre, entende?!
Enormes
calores e as ondas intermitentes de poeira. No calor na poeira no terrão o
vento articulando espirais de saci. E garranchos ressequidos de
cabacinha-do-campo rolando de lá até aqui e de déu em déu e de léu ao léu.
Assim,
na reunião fecharam o negócio e com o padre explicando melhor:
-
Ainda nesta tarde o senhor deve vir com um desenho, um plano, um esboço de
labirinto, um projeto, um rascunho, um esqueleto, um arcabouço. Trabalharemos no
período da noite, e descansaremos durante o dia.
-
Hum!...
O
Engenheiro tentou sempre assobiar, o que nunca conseguia. Mania que tinha de
querer aprender a assobiar depois de coroa. Comandaria todos os vilões e as vilãs.
E ele se convenceu. E ele se posicionou.
Agora
todos se dispersaram. Voltariam mais tarde para pegar no batente, aí pelas 7h e
30min da tardezinha mormacenta poeirenta.
O
Engenheiro Pacamão ficou andando em volta da pracinha esturricada bolando um
formato, um desenho para o abrigo. A ideia não era novidade, e não precisava
ser muito cara extravagante sofisticada engenhosa. O dia estava muito quente,
um forno, uma fornalha.
Não chovia há
séculos e lá ia fumo. Paisagem cinzenta. Panorama rupestre. Mundo devastado por
bactéria chamada Tapiragem e que provocara câncer na pele. Mundo lugar
incinerado perempto e jogado fora.
A aliá srilanquesa
se virava pela pracinha comendo folhas secas da ex-pitombeira-de-marajó,
ex-braço-de-preguiça. Nuvens vermelhas de pó revoavam no oco. O saci diacho
revolucionava em redemoinho no pó da única rua na rua Única.
Assim,
o Engenheiro andava de mãos às costas, olhando o chão, chutando as pedras
soltas, meditando. Vez ou outra parava e erguia os olhos. Olhava então toda a aldeia.
Poucas casas de pau-a-pique com telhado de sapê ao longo da única rua. Rua
descalça e poeirenta. Meses sem uma chuvinha para remédio. Meninos de pés sujos
jogando pedra na cruz da cumeeira da capela.
-
Hum!... O que posso fazer ou desfazer? - pensou alto para si mesmo.
Estava pensando
no emprego na oportunidade na viabilidade. Deslizou a mão pelo breve que pendia
do pescoço. Procurou assobiar colocando os dedos na boca soprando forte entre
os dentes. Era difícil, saiu um ruído fraco e sem graça sincopado. E ele se
convenceu. E ele se converteu.
O
Engenheiro Pacamão - sua cara transmitia cansaço e febre - ainda andou pensando
ao longo daquela tarde. Pensava e mastigava um palito achado catado por ali
mesmo. Às vezes em companhia da aliá Issé. Então, aproveitava para empurrar com
o ombro a paquiderme. Fazendo força com o ombro para que a aliá tirasse o pé do
chão e fosse para aquele lado ali ou para o lado de cá. Outras oportunidades, espiando
por ali, flagrava a indisposição dos pivetes na praça brigando de se perseguir
e de se aplicar rasteiras e voadoras e chaves de braço e cabeçadas.
Às
19h e 30min, areia requeimada e poeira cinzenta, o Engenheiro Urupema se
encaminhou para a capela. Os aldeães e as aldeãs todos já o aguardavam. O padre,
chapéu pantaneiro comigo na junção da copa, perguntou:
-
Já pensou então no desenho do labirinto? Tem ideia de como vai ser? Já sabe
como vai fazer? Nem precisa nos surpreender.
O
Engenheiro tentou assobiar como os moleques fazem. Olhou tudo aquilo. Tinha uma
ideia estreita fechada sem saída. Mais ou menos isso e os requisitos:
-
Vamos ver. Assim como um corpo humano ao comprido, deitado, estendido, com seus
órgãos ou entranhas. Um subterrâneo em o molde de um corpo humano. Entraremos
pelo dedão do pé direito. Faremos um buraco aqui atrás do altar da santa Luzia.
Uma entrada-saída, tão-somente. E o labirinto assim por baixo de toda a
extensão da aldeia. Uma caverna com altura conveniente. Não consigo prever o
prazo da obra acabada, mas não passará de dois a três meses. Serão galerias corredores
valões canais sem conta. Que acham? Que me dizem? Que me permitem?
O
Engenheiro procurou treinar o assobio. A garganta seca os lábios cortados
gretados e queimaduras na pele. Do chão subia uns vapores trêmulos estranhos. E
ele se convenceu. E ele se percebeu.
Assim,
na mesma hora, já puseram mãos e ferramentas para obrar para funcionar.
Começando por esburacar atrás do altar no íntimo da capela.
O Engenheiro
no comando na engenharia na organização na logística. Os vinte aldeões e as vinte
e uma aldeãs, mãos à obra, os acólitos, os fâmulos, os áulicos todos em ação sem
exceção. E aí, então, entrou uma noite inteira e profunda e esfumaçada nos
archotes de óleo queimado.
Na
primeira noite fizeram o poço a partir do qual iriam alargar em galerias de
labirinto. E à medida que o entulho era levado para fora e despejado no carreto
a aliá puxava o trole até um valão no meio da capoeira seca.
Noite pegada
de cinzas vermelhas. No oco no côncavo, lá pela imensidão, lá por fora e pelo
alto, nem estrelas nem planetas e as pesadas nuvens acompanhando as ondas do
vento. A lua nem de vez em quando tampouco. Sacis rilhando soprando trens de
poeira estalando paus de capoeira fazendo as bagunças e armadilhas.
Às
7h e 30min. pararam, largaram. Cada aldeão seguiu para sua respectiva casinha feita
de barro amarelo e capim-da-colônia seco.
Eng. Pacamão -
suado e a cara mascarada de terra - mais a aliá, repousariam ali mesmo na
capela.
Sem se
anunciar sem ser esperada, a cozinheira surgiu de supetão e carregando pelas
alças um tacho de cobre. Colocou a peça com a gororoba borbulhante sobre um cepo
de ex-angico-vermelho-do-campo e declarou:
- Temos aqui o
refogado de borracha de pneu de patrola mais os cacos de garrafa e uns ramos
secos de ex-casca-branca, e que é para forrar o estômago de ocês, tá certo?!
Na tarde de
calor com o sol escondido na fuligem, o Engenheiro saiu para o pátio da capela.
A aliá procurando dobrar com o nariz comprido os galhos secos e altos da ex-aroeira-do-rio-grande.
Piás brincavam no terrão da pracinha atrás de uma lata vazia. E garranchos
ressequidos de alfazema-brava rolavam de lá pra cá e de tão a quão e por jus em
fás.
Em
uma semana só haviam estendido uma perna do labirinto. Então tá!, pois o
trabalho não rendera aquilo que planejaram. Mas assim mesmo e conquanto, o
Engenheiro achou que estava tudo dentro dos conformes esperados. Tentou
assobiar do seu jeito. Tentou como sempre. E ele se convenceu. E ele se transferiu.
O
Engenheiro dava tudo de si. Já a aliá, jovem fêmea paquiderme, esta não se
habituara àquela aldeia maquilada de pó vermelho, torrada ao calor excessivo,
onde não chovia há dezenas de anos, onde não havia o que beber e o que pastar.
A aliá sentia falta também de outros espécimes da raça. Estava na idade de
namorar, não de trabalhar a noite toda sem ruminar sem beber. Queria o pasto a
água corrente. Rolar no barro. Sonhava dormir no pasto com o namorado asiático,
fugir de casa com o namorado, andar na chuva, sonhava com um namorado na
cascata. Mas naquele deserto vermelho não acontecia nada disso. Era forçada a delirar
sozinha e abandonada na capela pobre. Não raras vezes, durante o calor do
meio-dia, ela suspirava uns resmungos que acordavam toda a aldeia.
A
cozinheira, avental de xadrez preto e vermelho, chegou como uma sombra na
sombra da capela e perguntou de supetão ao Engenheiro, pissitou:
-
O Engenheiro não quer um caldo de pedra cristal com nós secos dos galhos de
buranhém, porém?
Então,
a cozinheira o serviu. E ainda não contente, ficou observando-o sorver, babar,
engolir, chupar os dentes, arrotar. A seguir se chegou perto rente para cheirar
a boca do freguês, cheirar o hálito que sua sopa deixara lá dentro no esôfago
do homem, cheirar a língua que acabara de provar seu grude. Olhou tudo isso e
de perto rente com miopia com cobiça com desdém. Para depois sinalizar continência
ao cliente e recolher a louça.
O
Engenheiro Urupema caminhava pela área da praça. Um calor seco. Ao lado, como
uma sombra fiel enorme, a sua gigante aleá. Alguns pixotes esticavam o olho,
abriam os beiços para reclamar e reclamavam. O Eng. pensava no seu
empreendimento. A aliá calculava se podia alcançar com a tromba uns raminhos
secos daquele petrificado oiti-bêbado. E logo ali mais uns culepes brigando de se
empurrar, se chutar, se socar, se cutucar, se cacetear, se sarrafear...
O
Engenheiro Pacamão estava na casa das sessenta caçambas. E esperava chegar até completar
as cem, no mínimo. Seus olhos ardiam na claridade atroz. Mal respirava o ar
poluído a garganta ardia o nariz coçava os pulmões reclamavam o cabelo continuava
a cair a pele enrugava e quebrava e descascava. Os sacis os entes espiritados
em todos os cantos e o tempo todo.
Somente
depois de dias e dias foi que os moleques descobriram por acaso por
interrogação seca e sem resposta que a bosta da aliá poderia poderia atrair um
inseto coleóptero antenado até então inédito desconhecido para a aldeia: o
escaravelho-bosteiro. Seria possível? Será que o inseto se deixaria atrair justamente
para aquele deserto vermelho e inóspito? Vai saber! Todo caso a coruminzada
lamberia a bosta até que houvesse bosta de aliá para lamber.
O
empreendimento do labirinto ia conforme a mania do ex-açougueiro vilão, ou seja,
por partes por etapas por departamentos. Já haviam esburacado toda uma metade
do projeto: as partes que iam dos pés até a cintura, digamos assim. A caverna o
labirinto no formato humanóide deitado já estava escavado até a cintura.
Uma
tarde muito quente e comum, o Engenheiro Urupema - sua cara denunciava seriedade
e conformismo - se encontrava sentado no degrau da porta da capela, quando a
cozinheira veio surgiu do nada se aproximou como um espectro obscuro. Por trás,
silenciosa mais que a sombra, pisando nas sombras, pé ante pé pelas sombras, triquete
a triquete, ela o cutucou no ombro direito, o assustou:
-
Epa! Quer experimentar o meu sopão de arame farpado com lascas retorcidas de ferro-velho
encorpado de graxa de rolamento?
Quase
anoitecia. Ex-árvore angico-rajado sem pé nem cabeça ali mesmo na pracinha. A aldeia
de Santa Luzia se preparava para o trabalho noturno no labirinto. Sem sombra
com sobras de dúvidas, era ali mesmo um mundo devastado por uma doença à época
chamada de Taiuiá e que detonara por tudo arrasadora desdita.
Engenheiro-residente
deglutia cuidadoso seu arame farpado com ciscos gravetos esturricados de
cardo-melão e tingui-capeta. Nunca tinha comido e provado coisa parecida. A
cozinheira a observá-lo com devoção, olhar manso, pescoço torto e cabeça
pendida para o lado como costumavam fazer os cães, mãos juntas de dedos entrelaçados
na altura do umbigo, etc. A aleá vadiava preguiçosa pelas dunas se
empanturrando de pontas de galhinhos secos de ex-capituva, ex-breu-preto. Os
piás faziam as artes escrevendo palavrões na poeira da rua, na poeira do
campinho, na poeira do lajedo da entrada da capela.
Pacamão
Urupema levava sessenta casinhas de pedra na paleta. Queria chegar nas cento e
poucas. Precisava cento e vinte. Mas, sabe-se lá, talvez chegasse somente
até... Tentou assobiar, e fazia esse exercício diário diariamente. Tentou e
tentava desde sempre. E ele se convenceu. E ele se perfilou. E ele se
empipocou.
A
obra progredia, mas não no ritmo calculado e esperado e aguardado. Levariam uns
trinta dias - projetava o Engenheiro -, para cavar as galerias correspondentes
ao tronco da figura deitada. E tudo tinha de ser como um museu, ou seja, cheio
de corredores, desvios, aclives, declives, paredes falsas ou movediças, túneis,
pontes, esquinas, antecâmaras.
Uma
tarde, claridade terrível, calor moribundo, o chão ressecado, o Engenheiro foi
até a cozinheira. E esta estava distraída dormindo sentada numa torra de
ipê-do-cerrado. Aí, o Eng. Urupema foi chegando, pé ante pé, quando a quando, mais
sorrateiro que um fantasma, pisando nas sombras, foi chegando, passo a passo,
tanto a tanto, mais calmo que um sonâmbulo e tocou no ombro direito da moça. A cozinheira
caiu no chão, mordeu a língua e depois disse, falou com dificuldade normal e
infundada nostalgia:
-
Quer sobremesa de pedaços de vidro e plástico com hastes secas de ex-guaxima e
ex-cipó-dourado? Eu recomendo!
O
Engenheiro tentou assobiar assoviar. Então, só tinham uma hora antes do começo
do batente. E ele se convenceu, naquele dia. E ele se prontificou.
A
cozinheira trabalhava muito durante a noite, tinha todo o dia para descansar, e
mais umas horinhas no fim da tarde para jiboiar. Então, escolhia fazer, entre
as várias das variadas possibilidades, o que lhe dava na telha para o rango do
dia. Tipo assim preparar sopas e mais sopões. Tipo assim dormir abraçada à
cadeira e o queixo sobre o encosto assegurando o peso da cabeça. Tipo assim,
ficar observando a aliá, bicho que nunca vira e jamais imaginara. Tipo assim
também colher e experimentar as lascas ou as cascas de feridas das pernas dos
braços.
Na
altura do umbigo - do tal labirinto humanóide -, o Engenheiro Pacamão resolveu
fazer uma quadra de tênis. Quadra subterrânea, lógico. Era para jogar tênis
durante uma invasão extraterrena. Seria uma garantia de esporte no escuro. A
obra estava sendo feita, então, para valer pelos séculos e séculos, mesmo após
invasões de marcianos e jupiterianos e venusianos e mais distantes.
O
Engenheiro - sua cara mascarava susto e sagacidade - passeava outra vez pelo terreiro
calçado de lajotões da frente da capela. O mormaço estava insuportável. O vento
erguia a poeira vermelha que maquilava tudo, fazia o ar irrespirável, mudava a
cor da aldeia. O saci, em espirais soltos e leves, muito arrisco e manhoso,
media a distância da entrada e saída da rua Única. Um peso morto de nuvens de
poeira vermelha.
Assim mesmo ou
por isso mesmo, o Engenheiro não se arrependia. Tentou assobiar porque esta era
sua mais distante e frustrada ambição. Uma coisa era uma coisa outra coisa era
outra coisa e etc. E ele se convenceu. E ele se considerou.
A
ex-plantinha macambira-de-serrote, espetada contra o oco, fazia parte da
paisagem derrotada caduca da aldeia Santa Luzia. Não chovia há séculos, e o jogo
da sapata ou amarelinha. E quando a aliá Issé se deitava preguiçosa a fim de
fazer uma sesta, era somente delirando com pastos e águas que conseguia
cochilar.
Culepes também
aprontavam de arrastar arteiros e arteiras pelas pernas no pó vermelho, morro
abaixo, morro acima. Faziam furo na orelha de um moleque pequeno atavam um
barbante ou um fio de arame e o escravizavam por um dia inteiro, dia que
demorava para passar.
Escaravelho
é o nome dado a vários insetos de cor negra parecidos com besouros - dizem os
cientistas, que o conhecem por dentro e por fora. São seres sem sangue, por
isso não sentem nada nada. Se pode até derrotá-los triturá-los esmagá-los com
um pisão que não estão nem aí.
E mais. São coprófagos
- animais que se alimentam de excrementos -, da família dos escarabeídeos, em
especial os escarabeíneos, que andam sempre procurando excrementos de mamíferos
herbívoros.
Possuem
uns pares de asas, umas verdadeiras e outras falsas. Quando pousam,
recolhem-nas debaixo de uma carapaça, como num estojo. São assim mesmo e
exatamente como foram feitos, e o pife-pafe.
As fêmeas de
certas espécies preparam uma bolinha de excremento, na qual põem o ovo, e que
enterram depois de empurrá-la a certa distância ao descobrirem um terreno
propício. Isso lhes motivou vários nomes populares jocosos ou não: carocha,
rola-bosta, bicho-bolo, capitão, coro, bicho-carpinteiro, mosca elefante (este
último apelido em virtude do extraordinário prolongamento do corselete, em
forma de tromba).
No antigo Egito
(uma nação no nordeste da África banhada pelo lendário rio Nilo), tempo dos
faraós construtores de gigantescas sepulturas de pedra em forma de pirâmide e
esfinge, um tipo de escaravelho era sagrado por significar a ressurreição ou a
imortalidade de tudo que é da terra. Simbolizava o deus-sol nomeado: Quepera.
A cozinheira veio no seu estilo sorrateiro se esgueirando
dando aquele susto no distraído Engenheiro Pacamão Urupema. Ela surgiu de dentro
da sombra, pelo escuro da sombra, como uma sombra requentada daquele lugarejo
perdido e sufocante. Falou com voz de sombra abafada morna:
-
Aqui está: suspiros feitos de rastos de lobisomem com pegadas de mula sem cabeça
e sinais de cachorra-da-palmeira.
O
Engenheiro - sua cara imprimia insônia e impaciência - se debruçou ao encontro dos
suspiros, e entre uma colherada e outra, cuidava do padre. Este andando ao relento
com seu inseparável chapéu de palha arrebentado remendado. Não chovia há
milênios, e outras ocasiões. E garranchos requeimados de mentrasto-do-grande
rolavam daqui pra cá pra lá e tico com nica e plus mais extra.
Bochechando os
suspiros, o Engenheiro tentou assobiar. O Pacamão olhou manhoso o corpo
serpentino da cozinheira e achou que ela também daria um caldo qualquer. Procurou
exercitar o assobio. E ele se convenceu, desde aquele momento. E ele se configurou.
A
maior parte do corpo do labirinto já estava esburacado escavado recortado.
Agora o braço direito. Braços ao comprido do corpo, mãos espalmadas junto as suas
respectivas coxas - vamos supor assim.
A
grande aliá não se conformava com o fato dos seus parentes estarem longe e
distantes. Às vezes ficava naquele silêncio; às vezes berrava subindo o nariz assustando
o arraial. A aliá fingia estar gripada ou com tosse, e tossia na cara dos
aldeões e das aldeãs e das aldeãzinhas. Era um mundo desolado devastado por
praga que até deram um apelido de Cavacué, por voar como um ex-cavacué.
Uma
tarde que caía - tempo abrasador e tudo silencioso e nada, tudo coberto de
poeira -, o Engenheiro Pacamão e o padre passeavam pela praça incinerada. O padre
com seu chapéu de barbicacho corrompido. Volta e meia se ouvia uns pixotes
gritando palavrões desbocados. Os moleques lutavam e brigavam de enforcar um piá
de cabelo arrepiado. Penduraram o pivete pelo pescoço e contavam as pedaladas
que ele fazia, cara vermelha e olhos atônitos. Os assistentes circunstantes apostavam
tanto até quando.
Às
três da tarde a elefanta - ou elafanta -, no seu modo pesado, se levantou da
sombra no interior da capela e saiu enfrentando soalheira e tudo. Talvez fosse dar
um rolê até ali no capoeirão seco. E por que não? E ela andou sem se distrair
até o ressequido tombado ex-chibatã. Então, analisou o terreno seco e pedregoso.
Enfim, se decidiu a escavá-lo. Escavou esburacou um sério buraco particular. Para
chegar do outro lado do mundo? O calor muito forte. Um suador para sempre. Abriu
o buraco, ficou dentro e se deitou lá no fundo. Achou que era possível e
cochilou.
Agora
a última parte do monstro carunchoso: a cabeça do humanóide, ou a ara do labirinto.
Nunca ninguém estranho à aldeia descobriria esse labirinto subterrâneo contra
invasões alienígenas, contra os raios uv, etc. Talvez somente os sacis e
lobisomens e mulas sem cabeça e juruparis e matintas-pereiras e
cachorras-da-palmeira. Talvez talvez e mais ninguém.
O
Engenheiro Urupema - sua cara nem desmentia dor de cabeça - tentou aprender logo
logo a assobiar com dois dedos na boca, o que era extremamente difícil nessa
altura do campeonato. E ele se convenceu, já naquele dia. E ele se comprometeu.
Houve
uma ansiedade desnaturada e inexplicável diante dos finalmentes da obra secreta.
Chegaram, enfim, ao ouvido esquerdo da gruta. Uma grande catacumba uma cripta
sem saída lateral, sem porta de incêndio. Somente uma abertura: o poço cavado na
entrada no interior da capela da santa Luzia. E percorreram tudo outra vez.
Tudo olhado e
testado e conferido? Então, tudo estava pronto mesmo. O labirinto estava pronto
e secreto e capacitado e entregue aos vilões da aldeia de Santa Luzia. O
labirinto subterrâneo estava pronto, feito, concluído, acabado, finalizado e bem
guardado no fundo da terra.
Assim,
todos os aldeões e as aldeãs se retiraram do organismo. Só voltariam a ocupá-lo
outra vez numa eventual invasão extraterrestre, uma guerra nuclear, naqueles
dias de uv insuportável, etc., ou outra coisa ainda pior.
Por
essa altura e nessa hora, os aldeões e as aldeãs trancaram o Engenheiro no
labirinto. E pronto. Sem conversa. Foi lacrada também a passagem atrás do
altar. Lacrada a única abertura e que ficava atrás do altar no âmago da capela.
E o Engenheiro
ficou no escuro. E o Eng. se fechou no silêncio do escurão. E incomunicável. Tudo
se fechou a sua volta e tudo ficou muito escuro. Ouviu rolar na entrada uma tal
de enorme pedra granítica itacoatiara e pronto.
O Engenheiro
estava fechado e trancado no escuro. No escuro seguro de não poder sair nunca
nunca. Ele se recostou numa parede de túnel e pronto. Nem piou mais. Sabia que
era inútil. Nem bufou mais. E ele se convenceu mesmo. E ele se consentiu.
E foi guardado
na despensa à defumar como merenda para repouso para mais tarde para ser comido
em outra oportunidade e ocasião.
A
aleá foi carneada para churrasquear a data de conclusão de finalização da obra.
Da sua estrutura musculosa, os aldeães e as aldeãs conseguiram duzentos espetos
muito enormes de carne dura e seca. Do couro grosso, o ex-sapateiro voltou a
sapateiro e fez sessenta sandálias franciscanas de pescador. Das orelhas de
abano da paquiderme, conseguiram alguns caldeirões de sopão. Dos ossos, saíram
cem sacos de ração para comer com guisado de elefanta. Das unhas enormes, ferveram
mil e tantos canecos de chá afrodisíaco de erguer moribundo. Do estrume
encontrado nos três compartimentos do estômago da ex-herbívora - encontraram realmente
pouca bosta - pensaram, e tão-só apenas matutaram, desenvolver uma horta
orgânica para plantação de escaravelhos-bosteiros.
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