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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 16




Nem Podia Imaginar

            Hoje, mais ou menos hoje, mais cedo do que nunca, acordei lembrando do pesadelo. Saído de uma nuvem baixa. Depois de uma cerração densa. Que nem fora uma história, mas pedaços ou desvios ou instantâneos de susto. Tá certo?!
As circunstâncias sempre chocavam: uma picada pela mataria, o perigo que eu sentia e nem via, e parava para ouvir, olhava o mato e nada, nada saía dali. As plantas se mexiam com sombras suspeitas. Rangidos de árvores antigas e altas que nem conhecia. Coisas estalando perto e mais longe. Pios e sussurros e risadinhas e deslizes no escuro. Rasga-mortalha deslizando no ar sem fazer onda. E tudo mais e anônimos.
E essas coisas e imagens e cenas e ensaios se repetindo todas as noites. Como se fosse um teatro de monstrinhos. As cenas se repetindo ao ar livre. Os bastidores escuros e estranhos e labirínticos.
Quando fechar os olhos e o assunto era o mesmo e se repetia e de repente.
                                                           ***
            Inspirado pelo céu todo azul de aço novo admirável, fui para a rua a avenida Placidina de Araújo. E sempre de um lado os ipês-de-impigem do outro os ipês-de-flor-amarela. Prédios nenhuns e somente casas com garagem. A calçada livre de cães e seus donos. A subida a descida e logo se chegou ao Centro.
Um gurizinho voltava da aula, boné para trás, mochila pesada às costas, chutando latinha de refrigerante, arqueado ao peso da mochila, sempre com o pé direito. Buscava a latinha com o pé esquerdo e chutava com o direito. Adversário imaginário driblado, goleira imaginária bem no canto indefensável. Vinha pensando em ser que seria o último minuto do segundo tempo. E a torcida esperava um milagre.
No início da noite entrei no cinema descansei um pouco e antes das 22h voltei à rua já pela calçada da avenida.
                                                                       ***
            Dona Uacari se queixando do marido, ou o que fosse:
            - Ele quer me destrambelhar, é.
            - Quê?! Mas como, dona Uacari?
            - Enlouqueceu. Já me prometeu diversas vezes me fazer rato e sapato. Me diz cobras e lambaris. Discutimos como cachorro e gafanhoto.
            - Pois olha, né...
            - Eu trabalho e ele fica com o dinheiro pra jogar e beber, aquele louco. Eu já nem aguento mais. Já falei com a polícia. Estou muito velha pra tanta gauchada.
***
            No entanto andei pelas ruas troque-troque!... durante toda a manhã inadvertidamente e diga-se de passagem resolvi entrar no bar Tuiúca na verdade na verdade a primeira vez que aparecia ali sentei numa cadeira alta giratória pedi uma água que passarinho nem gostei da iluminação do ambiente fraca prometi nunca mais voltar o balcão em forma de u o atendente e dono por dentro com toalha no ombro e lá no canto diante de uma mesa de sinuca dois camaradas disputavam o troco pra pagar o trago de abrir o apetite o Cigarro no Canto da Boca versus o Braço na Tipoia a calçada na sombra das árvores tevê ligada no jogo de handebol feminino debruçado no balcão o cotovelo de apoio a guria subia diversas vezes para o alto bola na mão como um punho num salto acrobático em câmara lenta.
                                                                       ***
            O trem antigo, lenga-lenga!... corria por fora na paisagem do cerrado, vamos dizer, e sempre ligando os pontos pretos, Jacarezinho, Cornélio Procópio, Marialva, Marumbi, Santa Maria do Oeste...
Pelo meio de dezembro de 1976, a data era essa, chegou de férias a filha do meio do seu Piraí. Este era borracheiro ali num posto do bairro São Cristóvão, todo mundo se conhecia no bairro. A guria, a filha do borracheiro, de nome Pitangui, era formada em geografia na UFSC e depois arrumara trabalho num escritório de contabilidade em Esteio. Chegou de férias depois de três anos sem aparecer sem aparecer. Veio mesmo. Bom seria, principalmente para ela mesma, que nem nunca tivesse retornado.
- N sei de nada, n mando nada, n sou de nada, n sou daqui.
                                                                       ***
            O seu Itabapoana se sentou na cadeira de plástico junto da mesinha de plástico encostada na parede de tijolos à vista. O bar Urupê estava meio abandonado. Eu estava ali por acaso e naquele dia. Uma entrada de galeria com diversas lojas sortidas. Itabapoana sentou e pediu um chope clássico:
            - Um chope clássico, garção!
            Acendeu um cigarro e pediu também um cinzeiro. Olhou em volta, pescoço duro, acenou para nosotros. Tinha um olhar de catita-anã-de-rabo-gordo.
            Em Salvador a dona Maria Quitéria recebeu condecorações de militar de estátua. Avenida grande sob o sol de Feira de Santana. Filha de fazendeiro depois casou depois ainda enviuvou.
            Itabapoana, barrigão sobre os joelhos, pediu mais outro chope. Acendeu um cigarro no outro. Puxou conversa com os presentes mais próximos, no caso eu mesmo:
            - Será que a Seleção ganha do Paraguai? O jogo é lá!
            Pediu outro chope, acendeu um cigarro no outro. Eu nem tinha nada com a sina daquele senhor de idade nem de ninguém. Uns sessenta e tantos anos, espaçoso, resfolegante, olhar ansioso, mania de tossir, parecia na beira de ter um enfarto, língua de fora. Um cigarro atrás do outro. Muita sede.
            O homem bebeu mais outros chopes, uns oito chopes mais. Ficou ali umas duas horas e vinte minutos. Eu nem bebia chope, por isso fiquei mais, fiquei por ali umas quatro horas e vinte minutos. Todo mundo tinha tempo naquela estação do ano. Itabapoana pediu um tempo.
            O guia turístico procurava interessados aos passeios de Itapororoca, Jequiriçá, São Felipe, Aratuípe, Videira, Santa Terezinha, São João Batista... Praias de água verde tartarugas-marinhas baleias procriando ao largo das ilhas e atóis espetáculos de cores e muita luminosidade. Um dia inteiro de sol e um mergulho de 2h numa piscina natural e exclusiva.
            Enfim, o seu Itabapoana se ergueu com ranger de cordas e ferragens, com cuidado, com dificuldade, com perigo iminente, se apoiando na mesa na cadeira e pediu a conta. Foi até o balcão pagar a conta. Todo pesado e largo. Todo precário. Todo cuidado era pouco. E pediu a conta:
            - A conta do total do estrago, garção!
            Olhou a nota que se via alongando o braço, cigarro no canto da boca, e falou emo-cionadamente:
            - Tem um descontozinho aí, meu?!
                                                                       ***
            E o filhote de onça-parda foi um bem e um mal para os moleques da dona Juparanã e seu Lagamar. Os pequenos vizinhos faziam fila para acariciar o bicho lá entre as orelhas.
            Um ou dois dias de sina na casa dos Parangaba e o filhote já tinha um nome que foi escolhido depois de muita disputa e discussão e briga e empurrões e ameaças: ela foi nomeada de: Cimarrão. E quem deu o nome foi o Papari que era o mais forte e mais chato dos três. As duas meninas nem disseram mais nada e só fizeram acariciar o pelo bonito macio confortável animal entre as orelhas da Cimarrão.
            Cimarrão com cinco dias de história na casa já era a rainha da casa. Queria brincar com tudo e com todos como um gatinho e miava, freeeiii!... Com dez dias de Cimarrão na sorte da família, o Papari nem queria mais cuidar e tratar todo dia da Cimarrão. Com onze dias, a Cimarrão foi pega no flagra: rasgava o sofá da sala, novinho. Mais um pouco e quinze dias, a Cimarrão já falava uma língua nem muito inteligível mas quase, bri-bri-bri!... Mais oito ou nove dias, e Cimarrão já cantava um pagode ouvido no rádio ou na tevê, belaliáaa! bilaliáaa!... Um mês na casa, e Cimarrão tinha um quarto apropriado e próprio e quem brincava com ela era a Papeba.
            Um dia, foi na primavera, Cimarrão acordou cantando, acordou todo mundo, pediu comida boa de comer, comida de onça-parda e continuou de bom humor e cantando, belaliáaa! bilaliáaa!... Cantava e cantarolava umas músicas que ouvia no rádio ou na tevê ou no devedê. E cantou toda a manhã por umas duas horas e foi uma surpresa para a família. Cimarrão quase praticamente nem falava, mas cantava muito bem, cantava como cantora profissional. Aprendera com quem?
            Na segunda-feira a Cimarrão queria abóbora, na terça queria ir ao cinema no Centro, na quarta queria passear sem coleira na praça da Bandeira, na quinta queria sobremesa de creme de laranja do céu, sexta teimou que nem ia ao dentista, no sábado queria dormir debaixo da mucuná, no domingo queria ir sempre na cascata da Usina e quem sabe dar um rolê por Protásio Alves.
            Mas o mais impressionante era que a Cimarrão ficava muito grande e muito rapidamente e isso incomodava e até se tornava perigoso. Um vizinho sugeriu que a família se desfizesse da onça-parda e doasse a gato-do-mato para o zoo de Sapucaia do Sul. Era o mais sensato a fazer. Disse e foi para a casa dele telefonar para o Ibama.
            A família discutiu e nem chegou a nenhuma solução. A solução seria mesmo doar ao zoo. Seria mesmo colocá-la numa jaula? Seria devolver ao tio Messejana. Seria voltar no tempo e nem aceitar o presente do tio Messejana?
            E a família ficou dividida até que começou uma briga intestina. Foi uma briga que qualquer família estava sujeita amanhã ou hoje em dia, e por hábito naqueles tempos também. Coisas curvas de decidir atender aderir.
            Naquele então, Papebinha pegou sua amada Cimarrão e fugiram de casa. Foram pela estrada, pelo mato. Foram para onde? Andaram fugindo lá pros lados de Uruguaiana, São Borja, Unistalda, São Martinho da Serra, Cerro Branco... Ouviam intermitentemente os cantos dos salta-caminhos, bem-te-vizinhos-riscados, vira-folhas, beija-flores-azuis-de-rabo-branco, graúnas, curiós, arapongas-da-amazônia... sempre em trilhas pelo mato serra de Maracaju fora longe das estradas de rodagem.   
            Alguém viu, alguém nem viu? Praticamente Papebinha e Cimarrão nem foram vistas. Elas viajavam na noite. Ela fotogênica disfarçada com cabelo platinado, ela gata disfarçada com pelo flutuante.
            Uma vez chegou uma notícia que estariam numa aldeia dos paracatejê-gavião pros lados do rio Butuí, Estado de Minas Gerais ave símbolo a seriema. Mas amizades de animais com risco de extinção com humanos de menor nem se domesticavam mais. E chegou outra informação que era por arredores do rio Ibicuí. Um outro rio foi ventilado que era o rio Inhanduí. Quem sabe o rio Cacequi. Quem sobe o rio Quaraí.
                                                                       ***
            Sol forte, fogaréu, mormaço, forno, fornalha e combustíveis vários postos para queimar. Sol, girassóis, e poucos passarinhos pelas capoeiras à beira da estrada. Mais cigarras que passarinhos. As folhas das árvores tremiam na sombra do chão, buçus, sananduvas, cambarás-do-campo, batiputás-bravos... Bonito e muito calor. Formigas tenazes vermelhas abrindo a Transamazônica. O calor mais que o bonito do dia.
            Era domingo de manhã. Os foguetes batiam, rebatiam, espancavam o ar da madrugada, 7h, o buzinaço da procissão do santo. Dia do santo São Cristóvão padroeiro dos motoristas, nome do bairro, e a tradição de colar santinho no parabrisa e prender com alfinete fitinhas verde e vermelha na camisa.
            Nesse nosso lugar, aqui nesse lugar, um pequeno canto do todo, cidade que nem vai nem nada, um ponto pequeno no mapa, nesse lugar que já disse, parece que a sorte nem chegou grande para ninguém. Ninguém que saiu daqui e que foi para conquistar o mundo, e viajou via BR-470 ou via RS-324, se viu aparecer conquistando o mundo e mesmo aquém bem menos que isso.
            A festa do padroeiro no salão da sociedade sábado e domingo e sorteio de prendas. Eu procurava pela Enigmática. Talvez andasse pela festa. Ou seria um tipo assim que nem se misturava e preferia ficar em casa num dia espocado como aquele?
            Jogo de futebol entre os Pitu e os Goiamum. Gostaria que Enigmática estivesse por ali. Eu e Enigmática. Mas por que tanta Enigmática? Já sabia, era fixação. Era vício. Ela me parecia uma pirâmide maia ou egípcia. Uma pirâmide que nem se sabe como foi arquitetada e como veio parar ali. Uma esfinge com corpo de veada-campeira e cabeça de onça-pintada bico de gavião-carijó cauda de teiú e sombra de cunhantã galibi.
            O atacante Goiamum desceu pela direita deu uma meia-lua deu uma janelinha e chutou, para foooooora!... E Enigmática merecia um país a seus pés, uma história de teatro de peça famosa e com versão no cinema, uma lenda da salamanca com ouros e pratas escondidos na caverna, inteirinha para ela pra ela.
            O dia claro, bonito e oco. Dia calmo, cheio de luz e vazio. O cruzamento veio do lateral esquerdo o centroavante cabeceou, sobre o gol... O que era dia oco?
            Aquele mesmo dia. O dia festejado. O dia convidando. O dia chamando por Enigmática, já disse. As taiocas subindo o tronco da iatá. Eu via e reparava em tudo.
            O jogador do Pitu pedalou, deu cinco ou seis voltas com as pernas, enganou o marcador e chutou... alto, alto para fora. A bola caiu no pátio da casa de azul com janelas marrons jabuticabeira sem jabuticabas e com cachorro.
            Pensava em Enigmática, obsessivamente. Pensava nela e ninguém tinha nada com o caso. Vários de mim pensavam nela. Contra o vento, desenhada. E sem solidariedade. De uma maneira muito própria e particular e anônima e estúpida e neurótica. Eu pensava nela e era sempre fácil me enganar.
            Fui encontrá-la na miragem do deserto de areia. O corpo dela no vapor do pensamento quente da sofreguidão. Pareceu um ser desenhado a lápis ou bico de pena. Uma estátua de pedra ou bronze enterrada na areia. Um chafariz ou oásis ou lago com licurizeiros.
            Infração perto da área marcada justamente no risco da chuteira do juiz. Um perigo e tanto na cobrança do adversário. Quem ia cobrar era o melhor cobrador do país, da seleção, do adversário. O árbitro autorizou. O tal cobrador do Pitu correu para a bola - onde ia bater, em que canto, em que ângulo - e chutou... aquela foi por pouco, tirou tinta da trave, a torcida ficou no, uuuuuh!...
            Raptar, seduzir Enigmática e nos esconder no mato, numa ilha fluvial, pegar um barco e ficar navegando por rios e planetas e lagoas. Enganá-la, abduzi-la para voar pelo espaço sideral, sumidos no espaço fundo inédito mais vermelho que azul. Pelo litoral, de porto em porto, de árvore em árvore como os micos-leão-pretos.  
            Se eu fosse morar eu ia arrastá-la comigo para Manaus, Maceió, Palmas, Morungaba, Rio Branco, Cruz Machado, Dona Emma, Capão Bonito do Sul... Isso eu já estava decidindo prepotentemente.
            Pênalti! Pênalti!... Pelos cabelos lisos da Enigmática! Foi pênalti! Foi e será pênalti, meu torcedor!
Cobrador, bola, goleiro. O cobrador nem olhava para o goleiro. Goleiro, bola, cobrador. O goleiro olhava para o pé direito do cobrador. A bola esperava a vez dela, gorducha e branca com pintas de preto. O cobrador Goiamum nem olhava as arquibancadas. O goleiro Pitu abriu os galhos e arregalou os bugalhos.
            Eu iria morar em Fernando de Noronha, se fosse eu. Todo o mundo elogiava o lugar e o arquipélago. Pelas imagens de tevê, que se via seguido, que se via daqui, era um lugar procuradíssimo e ótimo e Atlântico. É, iria para lá. Iria e voltaria um dia somente para contar. Voltaria mais tarde, mas voltaria para contar anedotas. Iria para aprender, e voltaria para narrar histórias de pescador de tesouros submarinos. Já estava vendo a ilha e as praias e os golfinhos e as rochas em forma de seios. Embora, também se sabe, nem permitem moradores estrangeiros por lá.
            O arbitro autorizou, trilando o apito. O cobrador do pênalti se decidiu. E correu para a bola. O mundo correu com ele, o mundo olhou, meio mundo a favor e meio mundo contra, o mundo na expectativa... baterá com o pé direito, sem dúvida. O goleiro, dando uma de munganga, ia esperar e decidir na última batida da fração. A bola aguardava toda enrolada em si mesma, abraçada na sua verdade redonda como um tatu-bola. E o goleiro, sínico, escolheu já o seu canto preferido para o salto mortal, e nem passar vergonha, já deu o salto. O goleiro só queria, queria no mínimo, sair na foto. E parece que nem saiu. A câmara sempre acompanhou a bola. As câmaras mostraram a bola o goleiro o cobrador a procissão de Corpus Christi a mãe do Badanho roendo as unhas.
            Era impossível ter o meu destino ligado ao de Enigmática. Ela era muito melhor que eu. E eu a via de vez em quando brilhando estrela no céu única. Ela nem era do nosso mundo, do nosso lugar, pro nosso bico, do nosso século. Nem era pro teu bico, também. Ela nasceu aqui porque como nascem as tempestade de verão: no meio do nosso nada. Era muita areia pro meu trenzinho, e o seu barquinho também e principalmente.
            O cobrador empurrou de chapa o pé na bola. Um pé com chuteira e tudo. A bola nasceu e respondeu imediatamente ao impulso. Nasceu num verdadeiro choque, uma bomba. O goleiro pulou como uma rã acossada, pareceu um peixe ou uma ave de rapina na hora do bote, na hora que o olho fica procurando a surpresa, pulou elasticamente para o lado, como um felino de desenho animado, por que o futebol.
            Qual a função da beleza? Agradar a um, a todos, a ninguém? Agradar aos Pitu e aos Goiamum? Qual a certeza da obra-prima? Qual a preferência da moda? E a beleza é amazônica. Pedra rara esmeralda de oitenta e oito quilates. Beleza é amazônica!
            O cobrador... a bola no ar como um ovo apinchado... o goleiro no voo de pombo de asas sem penas... as nuvens altas mobilizadas com rapidez...
            Apenas ela, a Enigmática, no seu próprio universo. Apenas e somente ela na solteirona de sua imaginação e pensamento. Viveiro dela de sonhos. Redemoinho próprio lá com ela de sonhos. Enigmática era um dicionário de palavras prontas, certas, quietas, lilases, marcianas. Uma enciclopédia de praças, cidades, rios, montanhas por conhecer. Ninguém de nós, àquela horinha, tinha nada a ver com Enigmática. E ela nascera pro mundo, pra Florianópolis, pra Gaurama, pra Búzios, pra Marechal Cândido Rondon, pra Santo Antônio do Sudoeste... E ela nascera para desfilar de enduape.
            E o gol que nem saiu. E a bola para fora. E o pênalti batido. Mesmo o pênalti batido para, foooooraaa!...
                                                                       ***
            Tem outro sonho que me aconteceu. Digo ou nem digo.
            E foi assim, nem adianta remendar diferente. Eu estava num lugar, sentado na janela da casa. Estávamos eu e a turma toda. Fazendo o quê? Onde? Vai saber! Aí, pegamos e viemos embora.
            Certa altura me lembrei que havia deixado lá, naquele certo lugar, extraviado uns meus chinelos de tiras de borracha. Pensei voltar. Falei pro pessoal:
- Ei, estou de pé no chão! E eu vou voltar por causa das chinelas que esqueci!
            Então, a Bocaina pegou de debaixo da camisa as chinelas de tiras, as tais e quais coisas enfiadas na cintura da bermuda, e me mostrou e ainda disse se rindo também:
            - Estão aqui, seu otário, ah ah ah!...
            Eu me admirei, aprovei, agradeci e ainda por cima dei-lhe um beijo no rosto. Ela ainda me agradeceu muito e rindo. Eu a beijei no rosto, me lembro, e a pele dela era meio cheia de espinhas. Ela tinha eu sabia uma foto minha que levava junto na carteira. Eu agradeci e ela me agradeceu me chamando de Perdido.
                                                                       ***
            Talvez o ano da graça do Senhor de 1557, um pouco mais ou um pouco menos. Litoral paulista, capitania de São Vicente. Uma baleia franca e seu filhote navegavam nas águas azuis perto da ilha de Santo Amaro, que os índios tabajaras chamaram de Guaibê.
            Em frente à ilha e ao forte de São Filipe, a majestosa sombra verde da serra do Mar. A natureza exuberante como ninguém sonhara. Um paredão de verde e mataria, grápia, pau-brasil, ipê-roxo, paracuuba, goiabeira-do-mato, marupá, cumbaru, pindabuna, itapiúna... misturadas e sem critério.
            Na sombra, debaixo de um pé de jerivá, na subida do morro, o pajé tabajara, rodeado de curumins e cunhantains, negociava mentiras e conselhos, olhava o mar azul, o mar verde, a baleia franca amamentando o filhote de quantas toneladas e contava em nheengatu história vinda do tempo dos ancestrais ancestrais.
            - A feiticeira Iami se sentou na laje de três palmos perto do rio e se concentrou e entrou em transe. A tribo toda ficou esperando em silêncio e atenta para qualquer som e saber tudo que ia sair da boca e dos gestos da mulher velha. A santa Iami enxergava pouco e via longe... cuera!...
            O pajé tabajara de nome Aram viu um bando de papagaios-do-peito-roxo gritando muito no alto do céu e voando para os lados das ilhas. Esperou o gritaiedo se afastar para recomeçar:
            - Iami começou a falar e a dizer e a resmungar e a gesticular que as águas agora salgadas e frias do mar demorariam três anos para voltar a se aquecer. Só então os banhos matinais e principalmente a pesca diária poderiam ser feitos. Dona Iami abria as mãos e afastava as mãos, assim, como abrindo as nuvens... potira!...
            Aram viu um bando de maitacas-de-barriga-azulada gritaiando para os lados das ilhas e esperou tudo se acalmar, e prosseguiu:
            - Né que a feiticeira Iami falou ainda que os pés de abati seriam incendiados pelos vizinhos numa noite de lua cheia? Falou tudo isso e disse. Os invasores potiguar seriam vistos, mas nunca pagariam o prejuízo. Assim, aconselhou a piaga Iami, seria nem bom plantar pé de milho naquela temporada até se descobrir a intenção dos futuros incendiários. Senhora Iami cruzava os braços e parecia concordar com a sorte... uirá!...
            E um bando de papagaios-do-mangue em alta algazarra voou para o lado dos fundos das ilhas. Depois de voltar o sossego dos ouvidos, o pajé seguiu:
            - A índia falou que o marido de importante deusa da mata iria ser transformado num ser horrível e medonho e terrível e monstruoso. A magia sobre esse marido da deusa nem viria da mulher nem dos filhos, mas dos deuses imortais que governam a terra toda e vêem tudo. Xamã Iami de queixo erguido olhava o horizonte sem ver... ibira!...
            Cuidaram um bando de periquitos-das-ilhas numa tremenda balburdia voar para as ilhas. Ilhas cobertas de verde e de gritos secos. Ilhas jogadas ao acaso sobrenadando boiando no mar da tarde. Voltou o pajé Aram:
            - Ancestral Iami continuou falando os presságios. Ela disse que três mortos iriam voltar do fundo do rio Piaçaguera e iniciar uma busca por seus matadores. Os três foram descritos por ela nos mínimos detalhes sem todavia revelar os nomes. Grande mágica Iami encantava as pedras as árvores os bichos, às vezes se confundia com eles... jiquitaia!...
            Àquela hora da tarde, umas cinco, as araras-vermelhas-grandes voltavam de comer coquinhos de jerivá na serra e retornavam para as ilhas, e em altas falações. O gritedo foi se consumindo aos poucos. Depois o pajé emendou:
            - E mais outras coisas amiga Iami foi falando para seu povo que a rodeava e a ouvia. Falava dentro dum transe perturbado. Seu olhar arregalado estava pra lá da realidade e firme e penetrante no obscuro fundo vazio do mundo do futuro. Só ela via tudo e por todos. E causava horror nos assistentes. Os ouvintes viravam a cara e as costas enjoados ou até com ânsia de vômito. Iami estava dentro do seu mundo de delírios e alucinações, conversando e ouvindo os espíritos. Esses espíritos da floresta estavam bem juntos muito dentro dela mesma e empurrando seus ombros, seus pés, suas mãos, sua cabeça. As caretas e gestos de Iami eram assustadores. As crianças nem podiam ver e choravam. A entidade Iami caminhava flutuando suspensa no ar a dois metros do solo... anomati!...
            Já anoitecia e a primeira estrela, das grandes, apareceu no horizonte um pouco acima do mar. A noite estava pedindo passagem. O sol vermelhava as poucas nuvens. Os grilos e vaga-lumes e mariposas-espelhos estavam ouvindo as últimas araras-azuis-grandes voltar para casa, se internarem nas ilhas novas. E um bando de papagaios-de-coleira palravam rumo das ilhas matizadas de verde.
            - No fim do traquejo, quando todos estavam já saciados de visões, quando a própria sacerdote já estava morta de sono, Iami se ergueu da laje de três palmos toda fraca, esquecida, faminta, sedenta e esquecida. Andou dois passos e caiu no chão, desmaiando, e dormiu. O leve espírito Iami virava bicho pássaro cancão e peixe candiru-vermelho e abelha tataíra e cipó-cruz-verdadeiro e mais o que quisesse... arabé!...
            Aram, o pajé dos tabajara, olhou em volta e se viu abandonado. Os curumins e as cunhantains tinham ido dormir nas palhas das palhoças da aldeia. Ele olhou a noite, olhou as estrelas, olhou o fundo escuro do mar. Ouviu o urutau e pensou em dormir. Onde havia céu havia mar. Subiu num pé de cambucá, se acomodou entre os galhos uma forquilha e roncou:
            - Ceci!... Cendira!... Coema!...


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Contos de Santa Luzia (15)



            Uma manhã, então cedo, este um Engenheiro Pacamão Urupema chegou à aldeia de Santa Luzia - como de onde por quê -, e montado no pescoço da aliá Issé. Um cara nem alto nem baixo, nem magro nem gordo, nem nefasto nem nefando, nem infando nem infausto, nem funesto nem infrene, nem panema nem marupiara. Usava um boné sem marca para encobrir a tonsura precoce. Nariz de pepino azulado e olhos como de cebola cortada ao meio.
            Olhou em volta e o que conferiu. Choças cobertas com folhas secas de palmeiras jacitarapuís empanadas de cinza vulcânica. Quinze ou dezoito palhoças caindo aos pedaços. Uma pracinha de nada. Umas ex-árvores petrificadas paineira, lacre-branco, monjolo, araçazeiro... Cheiro de capoeirão requeimado. Uma capelinha para a santa Luzia.
            Eng. apeou da aliá em frente à capela. Chão escaldante. Entrou no santuário, tirou o boné, apontou dois dedos na pia seca e fez o pelo sinal. O padre, com um chapéu de boiadeiro carcomido na aba, apareceu das sombras das dobras para recebê-lo. O padre abriu o bico e tiquetaqueou:
            - Ora, ora esta!...
            Além do padre outros aldeões e aldeãs e aldeõezinhos apareceram de repente, assustando, vindos do nada, como fantasmas, como sombras, como caaporas. E conferenciaram ali mesmo, em pé e se coçando, uns poucos sentados de lado nos bancos de madeira ex-peroba-brava ou ainda nos degraus de pedra basalto à frente do altar da imagem.
            O Pacamão Urupema colocou dois dedos o indicador e o vizinho na boca e tentou assobiar assoviar, pigarreou, estridulou:
- Mas o que posso fazer por vocês, vilões e vilãs?
            - Uma caverna um abrigo antiaéreo cheio de galerias interligadas debaixo do chão da vila. Um labirinto subterrâneo. Um emaranhado de galerias, túneis, corredores e passagens secretas. Precisamos nos resguardar nos esconder do calor da radiação uv dos meteoritos dos gases nocivos das imagens via satélites.
            Os aldeães, sempre tendo o padre como interprete, lhe propuseram a construção desse um labirinto subterrâneo, etc. O Engenheiro Urupema duvidou ou fingiu não entender até onde ia o plano, inquiriu:
            - Ne-ne-né? Hum!...
            - Para uma eventual invasão extraterrestre, entende?!
            Enormes calores e as ondas intermitentes de poeira. No calor na poeira no terrão o vento articulando espirais de saci. E garranchos ressequidos de cabacinha-do-campo rolando de lá até aqui e de déu em déu e de léu ao léu.
            Assim, na reunião fecharam o negócio e com o padre explicando melhor:
            - Ainda nesta tarde o senhor deve vir com um desenho, um plano, um esboço de labirinto, um projeto, um rascunho, um esqueleto, um arcabouço. Trabalharemos no período da noite, e descansaremos durante o dia.
            - Hum!...
            O Engenheiro tentou sempre assobiar, o que nunca conseguia. Mania que tinha de querer aprender a assobiar depois de coroa. Comandaria todos os vilões e as vilãs. E ele se convenceu. E ele se posicionou.
            Agora todos se dispersaram. Voltariam mais tarde para pegar no batente, aí pelas 7h e 30min da tardezinha mormacenta poeirenta.
            O Engenheiro Pacamão ficou andando em volta da pracinha esturricada bolando um formato, um desenho para o abrigo. A ideia não era novidade, e não precisava ser muito cara extravagante sofisticada engenhosa. O dia estava muito quente, um forno, uma fornalha.
Não chovia há séculos e lá ia fumo. Paisagem cinzenta. Panorama rupestre. Mundo devastado por bactéria chamada Tapiragem e que provocara câncer na pele. Mundo lugar incinerado perempto e jogado fora.
A aliá srilanquesa se virava pela pracinha comendo folhas secas da ex-pitombeira-de-marajó, ex-braço-de-preguiça. Nuvens vermelhas de pó revoavam no oco. O saci diacho revolucionava em redemoinho no pó da única rua na rua Única.
            Assim, o Engenheiro andava de mãos às costas, olhando o chão, chutando as pedras soltas, meditando. Vez ou outra parava e erguia os olhos. Olhava então toda a aldeia. Poucas casas de pau-a-pique com telhado de sapê ao longo da única rua. Rua descalça e poeirenta. Meses sem uma chuvinha para remédio. Meninos de pés sujos jogando pedra na cruz da cumeeira da capela.
            - Hum!... O que posso fazer ou desfazer? - pensou alto para si mesmo.
Estava pensando no emprego na oportunidade na viabilidade. Deslizou a mão pelo breve que pendia do pescoço. Procurou assobiar colocando os dedos na boca soprando forte entre os dentes. Era difícil, saiu um ruído fraco e sem graça sincopado. E ele se convenceu. E ele se converteu.
            O Engenheiro Pacamão - sua cara transmitia cansaço e febre - ainda andou pensando ao longo daquela tarde. Pensava e mastigava um palito achado catado por ali mesmo. Às vezes em companhia da aliá Issé. Então, aproveitava para empurrar com o ombro a paquiderme. Fazendo força com o ombro para que a aliá tirasse o pé do chão e fosse para aquele lado ali ou para o lado de cá. Outras oportunidades, espiando por ali, flagrava a indisposição dos pivetes na praça brigando de se perseguir e de se aplicar rasteiras e voadoras e chaves de braço e cabeçadas.
            Às 19h e 30min, areia requeimada e poeira cinzenta, o Engenheiro Urupema se encaminhou para a capela. Os aldeães e as aldeãs todos já o aguardavam. O padre, chapéu pantaneiro comigo na junção da copa, perguntou:
            - Já pensou então no desenho do labirinto? Tem ideia de como vai ser? Já sabe como vai fazer? Nem precisa nos surpreender.
            O Engenheiro tentou assobiar como os moleques fazem. Olhou tudo aquilo. Tinha uma ideia estreita fechada sem saída. Mais ou menos isso e os requisitos:
            - Vamos ver. Assim como um corpo humano ao comprido, deitado, estendido, com seus órgãos ou entranhas. Um subterrâneo em o molde de um corpo humano. Entraremos pelo dedão do pé direito. Faremos um buraco aqui atrás do altar da santa Luzia. Uma entrada-saída, tão-somente. E o labirinto assim por baixo de toda a extensão da aldeia. Uma caverna com altura conveniente. Não consigo prever o prazo da obra acabada, mas não passará de dois a três meses. Serão galerias corredores valões canais sem conta. Que acham? Que me dizem? Que me permitem?
            O Engenheiro procurou treinar o assobio. A garganta seca os lábios cortados gretados e queimaduras na pele. Do chão subia uns vapores trêmulos estranhos. E ele se convenceu. E ele se percebeu.
            Assim, na mesma hora, já puseram mãos e ferramentas para obrar para funcionar. Começando por esburacar atrás do altar no íntimo da capela.
O Engenheiro no comando na engenharia na organização na logística. Os vinte aldeões e as vinte e uma aldeãs, mãos à obra, os acólitos, os fâmulos, os áulicos todos em ação sem exceção. E aí, então, entrou uma noite inteira e profunda e esfumaçada nos archotes de óleo queimado.
            Na primeira noite fizeram o poço a partir do qual iriam alargar em galerias de labirinto. E à medida que o entulho era levado para fora e despejado no carreto a aliá puxava o trole até um valão no meio da capoeira seca.
Noite pegada de cinzas vermelhas. No oco no côncavo, lá pela imensidão, lá por fora e pelo alto, nem estrelas nem planetas e as pesadas nuvens acompanhando as ondas do vento. A lua nem de vez em quando tampouco. Sacis rilhando soprando trens de poeira estalando paus de capoeira fazendo as bagunças e armadilhas.
            Às 7h e 30min. pararam, largaram. Cada aldeão seguiu para sua respectiva casinha feita de barro amarelo e capim-da-colônia seco.
Eng. Pacamão - suado e a cara mascarada de terra - mais a aliá, repousariam ali mesmo na capela.  
Sem se anunciar sem ser esperada, a cozinheira surgiu de supetão e carregando pelas alças um tacho de cobre. Colocou a peça com a gororoba borbulhante sobre um cepo de ex-angico-vermelho-do-campo e declarou:
- Temos aqui o refogado de borracha de pneu de patrola mais os cacos de garrafa e uns ramos secos de ex-casca-branca, e que é para forrar o estômago de ocês, tá certo?!
Na tarde de calor com o sol escondido na fuligem, o Engenheiro saiu para o pátio da capela. A aliá procurando dobrar com o nariz comprido os galhos secos e altos da ex-aroeira-do-rio-grande. Piás brincavam no terrão da pracinha atrás de uma lata vazia. E garranchos ressequidos de alfazema-brava rolavam de lá pra cá e de tão a quão e por jus em fás.
            Em uma semana só haviam estendido uma perna do labirinto. Então tá!, pois o trabalho não rendera aquilo que planejaram. Mas assim mesmo e conquanto, o Engenheiro achou que estava tudo dentro dos conformes esperados. Tentou assobiar do seu jeito. Tentou como sempre. E ele se convenceu. E ele se transferiu.
            O Engenheiro dava tudo de si. Já a aliá, jovem fêmea paquiderme, esta não se habituara àquela aldeia maquilada de pó vermelho, torrada ao calor excessivo, onde não chovia há dezenas de anos, onde não havia o que beber e o que pastar. A aliá sentia falta também de outros espécimes da raça. Estava na idade de namorar, não de trabalhar a noite toda sem ruminar sem beber. Queria o pasto a água corrente. Rolar no barro. Sonhava dormir no pasto com o namorado asiático, fugir de casa com o namorado, andar na chuva, sonhava com um namorado na cascata. Mas naquele deserto vermelho não acontecia nada disso. Era forçada a delirar sozinha e abandonada na capela pobre. Não raras vezes, durante o calor do meio-dia, ela suspirava uns resmungos que acordavam toda a aldeia.
            A cozinheira, avental de xadrez preto e vermelho, chegou como uma sombra na sombra da capela e perguntou de supetão ao Engenheiro, pissitou:
            - O Engenheiro não quer um caldo de pedra cristal com nós secos dos galhos de buranhém, porém?
            Então, a cozinheira o serviu. E ainda não contente, ficou observando-o sorver, babar, engolir, chupar os dentes, arrotar. A seguir se chegou perto rente para cheirar a boca do freguês, cheirar o hálito que sua sopa deixara lá dentro no esôfago do homem, cheirar a língua que acabara de provar seu grude. Olhou tudo isso e de perto rente com miopia com cobiça com desdém. Para depois sinalizar continência ao cliente e recolher a louça.
            O Engenheiro Urupema caminhava pela área da praça. Um calor seco. Ao lado, como uma sombra fiel enorme, a sua gigante aleá. Alguns pixotes esticavam o olho, abriam os beiços para reclamar e reclamavam. O Eng. pensava no seu empreendimento. A aliá calculava se podia alcançar com a tromba uns raminhos secos daquele petrificado oiti-bêbado. E logo ali mais uns culepes brigando de se empurrar, se chutar, se socar, se cutucar, se cacetear, se sarrafear...
            O Engenheiro Pacamão estava na casa das sessenta caçambas. E esperava chegar até completar as cem, no mínimo. Seus olhos ardiam na claridade atroz. Mal respirava o ar poluído a garganta ardia o nariz coçava os pulmões reclamavam o cabelo continuava a cair a pele enrugava e quebrava e descascava. Os sacis os entes espiritados em todos os cantos e o tempo todo.
            Somente depois de dias e dias foi que os moleques descobriram por acaso por interrogação seca e sem resposta que a bosta da aliá poderia poderia atrair um inseto coleóptero antenado até então inédito desconhecido para a aldeia: o escaravelho-bosteiro. Seria possível? Será que o inseto se deixaria atrair justamente para aquele deserto vermelho e inóspito? Vai saber! Todo caso a coruminzada lamberia a bosta até que houvesse bosta de aliá para lamber.
            O empreendimento do labirinto ia conforme a mania do ex-açougueiro vilão, ou seja, por partes por etapas por departamentos. Já haviam esburacado toda uma metade do projeto: as partes que iam dos pés até a cintura, digamos assim. A caverna o labirinto no formato humanóide deitado já estava escavado até a cintura.
            Uma tarde muito quente e comum, o Engenheiro Urupema - sua cara denunciava seriedade e conformismo - se encontrava sentado no degrau da porta da capela, quando a cozinheira veio surgiu do nada se aproximou como um espectro obscuro. Por trás, silenciosa mais que a sombra, pisando nas sombras, pé ante pé pelas sombras, triquete a triquete, ela o cutucou no ombro direito, o assustou:
            - Epa! Quer experimentar o meu sopão de arame farpado com lascas retorcidas de ferro-velho encorpado de graxa de rolamento?
            Quase anoitecia. Ex-árvore angico-rajado sem pé nem cabeça ali mesmo na pracinha. A aldeia de Santa Luzia se preparava para o trabalho noturno no labirinto. Sem sombra com sobras de dúvidas, era ali mesmo um mundo devastado por uma doença à época chamada de Taiuiá e que detonara por tudo arrasadora desdita.
Engenheiro-residente deglutia cuidadoso seu arame farpado com ciscos gravetos esturricados de cardo-melão e tingui-capeta. Nunca tinha comido e provado coisa parecida. A cozinheira a observá-lo com devoção, olhar manso, pescoço torto e cabeça pendida para o lado como costumavam fazer os cães, mãos juntas de dedos entrelaçados na altura do umbigo, etc. A aleá vadiava preguiçosa pelas dunas se empanturrando de pontas de galhinhos secos de ex-capituva, ex-breu-preto. Os piás faziam as artes escrevendo palavrões na poeira da rua, na poeira do campinho, na poeira do lajedo da entrada da capela.
            Pacamão Urupema levava sessenta casinhas de pedra na paleta. Queria chegar nas cento e poucas. Precisava cento e vinte. Mas, sabe-se lá, talvez chegasse somente até... Tentou assobiar, e fazia esse exercício diário diariamente. Tentou e tentava desde sempre. E ele se convenceu. E ele se perfilou. E ele se empipocou.
            A obra progredia, mas não no ritmo calculado e esperado e aguardado. Levariam uns trinta dias - projetava o Engenheiro -, para cavar as galerias correspondentes ao tronco da figura deitada. E tudo tinha de ser como um museu, ou seja, cheio de corredores, desvios, aclives, declives, paredes falsas ou movediças, túneis, pontes, esquinas, antecâmaras.
            Uma tarde, claridade terrível, calor moribundo, o chão ressecado, o Engenheiro foi até a cozinheira. E esta estava distraída dormindo sentada numa torra de ipê-do-cerrado. Aí, o Eng. Urupema foi chegando, pé ante pé, quando a quando, mais sorrateiro que um fantasma, pisando nas sombras, foi chegando, passo a passo, tanto a tanto, mais calmo que um sonâmbulo e tocou no ombro direito da moça. A cozinheira caiu no chão, mordeu a língua e depois disse, falou com dificuldade normal e infundada nostalgia:
            - Quer sobremesa de pedaços de vidro e plástico com hastes secas de ex-guaxima e ex-cipó-dourado? Eu recomendo!
            O Engenheiro tentou assobiar assoviar. Então, só tinham uma hora antes do começo do batente. E ele se convenceu, naquele dia. E ele se prontificou.
            A cozinheira trabalhava muito durante a noite, tinha todo o dia para descansar, e mais umas horinhas no fim da tarde para jiboiar. Então, escolhia fazer, entre as várias das variadas possibilidades, o que lhe dava na telha para o rango do dia. Tipo assim preparar sopas e mais sopões. Tipo assim dormir abraçada à cadeira e o queixo sobre o encosto assegurando o peso da cabeça. Tipo assim, ficar observando a aliá, bicho que nunca vira e jamais imaginara. Tipo assim também colher e experimentar as lascas ou as cascas de feridas das pernas dos braços.
            Na altura do umbigo - do tal labirinto humanóide -, o Engenheiro Pacamão resolveu fazer uma quadra de tênis. Quadra subterrânea, lógico. Era para jogar tênis durante uma invasão extraterrena. Seria uma garantia de esporte no escuro. A obra estava sendo feita, então, para valer pelos séculos e séculos, mesmo após invasões de marcianos e jupiterianos e venusianos e mais distantes.
            O Engenheiro - sua cara mascarava susto e sagacidade - passeava outra vez pelo terreiro calçado de lajotões da frente da capela. O mormaço estava insuportável. O vento erguia a poeira vermelha que maquilava tudo, fazia o ar irrespirável, mudava a cor da aldeia. O saci, em espirais soltos e leves, muito arrisco e manhoso, media a distância da entrada e saída da rua Única. Um peso morto de nuvens de poeira vermelha.
Assim mesmo ou por isso mesmo, o Engenheiro não se arrependia. Tentou assobiar porque esta era sua mais distante e frustrada ambição. Uma coisa era uma coisa outra coisa era outra coisa e etc. E ele se convenceu. E ele se considerou.
            A ex-plantinha macambira-de-serrote, espetada contra o oco, fazia parte da paisagem derrotada caduca da aldeia Santa Luzia. Não chovia há séculos, e o jogo da sapata ou amarelinha. E quando a aliá Issé se deitava preguiçosa a fim de fazer uma sesta, era somente delirando com pastos e águas que conseguia cochilar.
Culepes também aprontavam de arrastar arteiros e arteiras pelas pernas no pó vermelho, morro abaixo, morro acima. Faziam furo na orelha de um moleque pequeno atavam um barbante ou um fio de arame e o escravizavam por um dia inteiro, dia que demorava para passar.
            Escaravelho é o nome dado a vários insetos de cor negra parecidos com besouros - dizem os cientistas, que o conhecem por dentro e por fora. São seres sem sangue, por isso não sentem nada nada. Se pode até derrotá-los triturá-los esmagá-los com um pisão que não estão nem aí.
E mais. São coprófagos - animais que se alimentam de excrementos -, da família dos escarabeídeos, em especial os escarabeíneos, que andam sempre procurando excrementos de mamíferos herbívoros.
            Possuem uns pares de asas, umas verdadeiras e outras falsas. Quando pousam, recolhem-nas debaixo de uma carapaça, como num estojo. São assim mesmo e exatamente como foram feitos, e o pife-pafe.
As fêmeas de certas espécies preparam uma bolinha de excremento, na qual põem o ovo, e que enterram depois de empurrá-la a certa distância ao descobrirem um terreno propício. Isso lhes motivou vários nomes populares jocosos ou não: carocha, rola-bosta, bicho-bolo, capitão, coro, bicho-carpinteiro, mosca elefante (este último apelido em virtude do extraordinário prolongamento do corselete, em forma de tromba).
No antigo Egito (uma nação no nordeste da África banhada pelo lendário rio Nilo), tempo dos faraós construtores de gigantescas sepulturas de pedra em forma de pirâmide e esfinge, um tipo de escaravelho era sagrado por significar a ressurreição ou a imortalidade de tudo que é da terra. Simbolizava o deus-sol nomeado: Quepera.
             A cozinheira veio no seu estilo sorrateiro se esgueirando dando aquele susto no distraído Engenheiro Pacamão Urupema. Ela surgiu de dentro da sombra, pelo escuro da sombra, como uma sombra requentada daquele lugarejo perdido e sufocante. Falou com voz de sombra abafada morna:
            - Aqui está: suspiros feitos de rastos de lobisomem com pegadas de mula sem cabeça e sinais de cachorra-da-palmeira.
            O Engenheiro - sua cara imprimia insônia e impaciência - se debruçou ao encontro dos suspiros, e entre uma colherada e outra, cuidava do padre. Este andando ao relento com seu inseparável chapéu de palha arrebentado remendado. Não chovia há milênios, e outras ocasiões. E garranchos requeimados de mentrasto-do-grande rolavam daqui pra cá pra lá e tico com nica e plus mais extra.
Bochechando os suspiros, o Engenheiro tentou assobiar. O Pacamão olhou manhoso o corpo serpentino da cozinheira e achou que ela também daria um caldo qualquer. Procurou exercitar o assobio. E ele se convenceu, desde aquele momento. E ele se configurou.
            A maior parte do corpo do labirinto já estava esburacado escavado recortado. Agora o braço direito. Braços ao comprido do corpo, mãos espalmadas junto as suas respectivas coxas - vamos supor assim.
            A grande aliá não se conformava com o fato dos seus parentes estarem longe e distantes. Às vezes ficava naquele silêncio; às vezes berrava subindo o nariz assustando o arraial. A aliá fingia estar gripada ou com tosse, e tossia na cara dos aldeões e das aldeãs e das aldeãzinhas. Era um mundo desolado devastado por praga que até deram um apelido de Cavacué, por voar como um ex-cavacué.
            Uma tarde que caía - tempo abrasador e tudo silencioso e nada, tudo coberto de poeira -, o Engenheiro Pacamão e o padre passeavam pela praça incinerada. O padre com seu chapéu de barbicacho corrompido. Volta e meia se ouvia uns pixotes gritando palavrões desbocados. Os moleques lutavam e brigavam de enforcar um piá de cabelo arrepiado. Penduraram o pivete pelo pescoço e contavam as pedaladas que ele fazia, cara vermelha e olhos atônitos. Os assistentes circunstantes apostavam tanto até quando.
            Às três da tarde a elefanta - ou elafanta -, no seu modo pesado, se levantou da sombra no interior da capela e saiu enfrentando soalheira e tudo. Talvez fosse dar um rolê até ali no capoeirão seco. E por que não? E ela andou sem se distrair até o ressequido tombado ex-chibatã. Então, analisou o terreno seco e pedregoso. Enfim, se decidiu a escavá-lo. Escavou esburacou um sério buraco particular. Para chegar do outro lado do mundo? O calor muito forte. Um suador para sempre. Abriu o buraco, ficou dentro e se deitou lá no fundo. Achou que era possível e cochilou.
            Agora a última parte do monstro carunchoso: a cabeça do humanóide, ou a ara do labirinto. Nunca ninguém estranho à aldeia descobriria esse labirinto subterrâneo contra invasões alienígenas, contra os raios uv, etc. Talvez somente os sacis e lobisomens e mulas sem cabeça e juruparis e matintas-pereiras e cachorras-da-palmeira. Talvez talvez e mais ninguém.
            O Engenheiro Urupema - sua cara nem desmentia dor de cabeça - tentou aprender logo logo a assobiar com dois dedos na boca, o que era extremamente difícil nessa altura do campeonato. E ele se convenceu, já naquele dia. E ele se comprometeu.
            Houve uma ansiedade desnaturada e inexplicável diante dos finalmentes da obra secreta. Chegaram, enfim, ao ouvido esquerdo da gruta. Uma grande catacumba uma cripta sem saída lateral, sem porta de incêndio. Somente uma abertura: o poço cavado na entrada no interior da capela da santa Luzia. E percorreram tudo outra vez.
Tudo olhado e testado e conferido? Então, tudo estava pronto mesmo. O labirinto estava pronto e secreto e capacitado e entregue aos vilões da aldeia de Santa Luzia. O labirinto subterrâneo estava pronto, feito, concluído, acabado, finalizado e bem guardado no fundo da terra.
            Assim, todos os aldeões e as aldeãs se retiraram do organismo. Só voltariam a ocupá-lo outra vez numa eventual invasão extraterrestre, uma guerra nuclear, naqueles dias de uv insuportável, etc., ou outra coisa ainda pior.
            Por essa altura e nessa hora, os aldeões e as aldeãs trancaram o Engenheiro no labirinto. E pronto. Sem conversa. Foi lacrada também a passagem atrás do altar. Lacrada a única abertura e que ficava atrás do altar no âmago da capela.
E o Engenheiro ficou no escuro. E o Eng. se fechou no silêncio do escurão. E incomunicável. Tudo se fechou a sua volta e tudo ficou muito escuro. Ouviu rolar na entrada uma tal de enorme pedra granítica itacoatiara e pronto.
O Engenheiro estava fechado e trancado no escuro. No escuro seguro de não poder sair nunca nunca. Ele se recostou numa parede de túnel e pronto. Nem piou mais. Sabia que era inútil. Nem bufou mais. E ele se convenceu mesmo. E ele se consentiu.
E foi guardado na despensa à defumar como merenda para repouso para mais tarde para ser comido em outra oportunidade e ocasião.
            A aleá foi carneada para churrasquear a data de conclusão de finalização da obra. Da sua estrutura musculosa, os aldeães e as aldeãs conseguiram duzentos espetos muito enormes de carne dura e seca. Do couro grosso, o ex-sapateiro voltou a sapateiro e fez sessenta sandálias franciscanas de pescador. Das orelhas de abano da paquiderme, conseguiram alguns caldeirões de sopão. Dos ossos, saíram cem sacos de ração para comer com guisado de elefanta. Das unhas enormes, ferveram mil e tantos canecos de chá afrodisíaco de erguer moribundo. Do estrume encontrado nos três compartimentos do estômago da ex-herbívora - encontraram realmente pouca bosta - pensaram, e tão-só apenas matutaram, desenvolver uma horta orgânica para plantação de escaravelhos-bosteiros.