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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 16




Nem Podia Imaginar

            Hoje, mais ou menos hoje, mais cedo do que nunca, acordei lembrando do pesadelo. Saído de uma nuvem baixa. Depois de uma cerração densa. Que nem fora uma história, mas pedaços ou desvios ou instantâneos de susto. Tá certo?!
As circunstâncias sempre chocavam: uma picada pela mataria, o perigo que eu sentia e nem via, e parava para ouvir, olhava o mato e nada, nada saía dali. As plantas se mexiam com sombras suspeitas. Rangidos de árvores antigas e altas que nem conhecia. Coisas estalando perto e mais longe. Pios e sussurros e risadinhas e deslizes no escuro. Rasga-mortalha deslizando no ar sem fazer onda. E tudo mais e anônimos.
E essas coisas e imagens e cenas e ensaios se repetindo todas as noites. Como se fosse um teatro de monstrinhos. As cenas se repetindo ao ar livre. Os bastidores escuros e estranhos e labirínticos.
Quando fechar os olhos e o assunto era o mesmo e se repetia e de repente.
                                                           ***
            Inspirado pelo céu todo azul de aço novo admirável, fui para a rua a avenida Placidina de Araújo. E sempre de um lado os ipês-de-impigem do outro os ipês-de-flor-amarela. Prédios nenhuns e somente casas com garagem. A calçada livre de cães e seus donos. A subida a descida e logo se chegou ao Centro.
Um gurizinho voltava da aula, boné para trás, mochila pesada às costas, chutando latinha de refrigerante, arqueado ao peso da mochila, sempre com o pé direito. Buscava a latinha com o pé esquerdo e chutava com o direito. Adversário imaginário driblado, goleira imaginária bem no canto indefensável. Vinha pensando em ser que seria o último minuto do segundo tempo. E a torcida esperava um milagre.
No início da noite entrei no cinema descansei um pouco e antes das 22h voltei à rua já pela calçada da avenida.
                                                                       ***
            Dona Uacari se queixando do marido, ou o que fosse:
            - Ele quer me destrambelhar, é.
            - Quê?! Mas como, dona Uacari?
            - Enlouqueceu. Já me prometeu diversas vezes me fazer rato e sapato. Me diz cobras e lambaris. Discutimos como cachorro e gafanhoto.
            - Pois olha, né...
            - Eu trabalho e ele fica com o dinheiro pra jogar e beber, aquele louco. Eu já nem aguento mais. Já falei com a polícia. Estou muito velha pra tanta gauchada.
***
            No entanto andei pelas ruas troque-troque!... durante toda a manhã inadvertidamente e diga-se de passagem resolvi entrar no bar Tuiúca na verdade na verdade a primeira vez que aparecia ali sentei numa cadeira alta giratória pedi uma água que passarinho nem gostei da iluminação do ambiente fraca prometi nunca mais voltar o balcão em forma de u o atendente e dono por dentro com toalha no ombro e lá no canto diante de uma mesa de sinuca dois camaradas disputavam o troco pra pagar o trago de abrir o apetite o Cigarro no Canto da Boca versus o Braço na Tipoia a calçada na sombra das árvores tevê ligada no jogo de handebol feminino debruçado no balcão o cotovelo de apoio a guria subia diversas vezes para o alto bola na mão como um punho num salto acrobático em câmara lenta.
                                                                       ***
            O trem antigo, lenga-lenga!... corria por fora na paisagem do cerrado, vamos dizer, e sempre ligando os pontos pretos, Jacarezinho, Cornélio Procópio, Marialva, Marumbi, Santa Maria do Oeste...
Pelo meio de dezembro de 1976, a data era essa, chegou de férias a filha do meio do seu Piraí. Este era borracheiro ali num posto do bairro São Cristóvão, todo mundo se conhecia no bairro. A guria, a filha do borracheiro, de nome Pitangui, era formada em geografia na UFSC e depois arrumara trabalho num escritório de contabilidade em Esteio. Chegou de férias depois de três anos sem aparecer sem aparecer. Veio mesmo. Bom seria, principalmente para ela mesma, que nem nunca tivesse retornado.
- N sei de nada, n mando nada, n sou de nada, n sou daqui.
                                                                       ***
            O seu Itabapoana se sentou na cadeira de plástico junto da mesinha de plástico encostada na parede de tijolos à vista. O bar Urupê estava meio abandonado. Eu estava ali por acaso e naquele dia. Uma entrada de galeria com diversas lojas sortidas. Itabapoana sentou e pediu um chope clássico:
            - Um chope clássico, garção!
            Acendeu um cigarro e pediu também um cinzeiro. Olhou em volta, pescoço duro, acenou para nosotros. Tinha um olhar de catita-anã-de-rabo-gordo.
            Em Salvador a dona Maria Quitéria recebeu condecorações de militar de estátua. Avenida grande sob o sol de Feira de Santana. Filha de fazendeiro depois casou depois ainda enviuvou.
            Itabapoana, barrigão sobre os joelhos, pediu mais outro chope. Acendeu um cigarro no outro. Puxou conversa com os presentes mais próximos, no caso eu mesmo:
            - Será que a Seleção ganha do Paraguai? O jogo é lá!
            Pediu outro chope, acendeu um cigarro no outro. Eu nem tinha nada com a sina daquele senhor de idade nem de ninguém. Uns sessenta e tantos anos, espaçoso, resfolegante, olhar ansioso, mania de tossir, parecia na beira de ter um enfarto, língua de fora. Um cigarro atrás do outro. Muita sede.
            O homem bebeu mais outros chopes, uns oito chopes mais. Ficou ali umas duas horas e vinte minutos. Eu nem bebia chope, por isso fiquei mais, fiquei por ali umas quatro horas e vinte minutos. Todo mundo tinha tempo naquela estação do ano. Itabapoana pediu um tempo.
            O guia turístico procurava interessados aos passeios de Itapororoca, Jequiriçá, São Felipe, Aratuípe, Videira, Santa Terezinha, São João Batista... Praias de água verde tartarugas-marinhas baleias procriando ao largo das ilhas e atóis espetáculos de cores e muita luminosidade. Um dia inteiro de sol e um mergulho de 2h numa piscina natural e exclusiva.
            Enfim, o seu Itabapoana se ergueu com ranger de cordas e ferragens, com cuidado, com dificuldade, com perigo iminente, se apoiando na mesa na cadeira e pediu a conta. Foi até o balcão pagar a conta. Todo pesado e largo. Todo precário. Todo cuidado era pouco. E pediu a conta:
            - A conta do total do estrago, garção!
            Olhou a nota que se via alongando o braço, cigarro no canto da boca, e falou emo-cionadamente:
            - Tem um descontozinho aí, meu?!
                                                                       ***
            E o filhote de onça-parda foi um bem e um mal para os moleques da dona Juparanã e seu Lagamar. Os pequenos vizinhos faziam fila para acariciar o bicho lá entre as orelhas.
            Um ou dois dias de sina na casa dos Parangaba e o filhote já tinha um nome que foi escolhido depois de muita disputa e discussão e briga e empurrões e ameaças: ela foi nomeada de: Cimarrão. E quem deu o nome foi o Papari que era o mais forte e mais chato dos três. As duas meninas nem disseram mais nada e só fizeram acariciar o pelo bonito macio confortável animal entre as orelhas da Cimarrão.
            Cimarrão com cinco dias de história na casa já era a rainha da casa. Queria brincar com tudo e com todos como um gatinho e miava, freeeiii!... Com dez dias de Cimarrão na sorte da família, o Papari nem queria mais cuidar e tratar todo dia da Cimarrão. Com onze dias, a Cimarrão foi pega no flagra: rasgava o sofá da sala, novinho. Mais um pouco e quinze dias, a Cimarrão já falava uma língua nem muito inteligível mas quase, bri-bri-bri!... Mais oito ou nove dias, e Cimarrão já cantava um pagode ouvido no rádio ou na tevê, belaliáaa! bilaliáaa!... Um mês na casa, e Cimarrão tinha um quarto apropriado e próprio e quem brincava com ela era a Papeba.
            Um dia, foi na primavera, Cimarrão acordou cantando, acordou todo mundo, pediu comida boa de comer, comida de onça-parda e continuou de bom humor e cantando, belaliáaa! bilaliáaa!... Cantava e cantarolava umas músicas que ouvia no rádio ou na tevê ou no devedê. E cantou toda a manhã por umas duas horas e foi uma surpresa para a família. Cimarrão quase praticamente nem falava, mas cantava muito bem, cantava como cantora profissional. Aprendera com quem?
            Na segunda-feira a Cimarrão queria abóbora, na terça queria ir ao cinema no Centro, na quarta queria passear sem coleira na praça da Bandeira, na quinta queria sobremesa de creme de laranja do céu, sexta teimou que nem ia ao dentista, no sábado queria dormir debaixo da mucuná, no domingo queria ir sempre na cascata da Usina e quem sabe dar um rolê por Protásio Alves.
            Mas o mais impressionante era que a Cimarrão ficava muito grande e muito rapidamente e isso incomodava e até se tornava perigoso. Um vizinho sugeriu que a família se desfizesse da onça-parda e doasse a gato-do-mato para o zoo de Sapucaia do Sul. Era o mais sensato a fazer. Disse e foi para a casa dele telefonar para o Ibama.
            A família discutiu e nem chegou a nenhuma solução. A solução seria mesmo doar ao zoo. Seria mesmo colocá-la numa jaula? Seria devolver ao tio Messejana. Seria voltar no tempo e nem aceitar o presente do tio Messejana?
            E a família ficou dividida até que começou uma briga intestina. Foi uma briga que qualquer família estava sujeita amanhã ou hoje em dia, e por hábito naqueles tempos também. Coisas curvas de decidir atender aderir.
            Naquele então, Papebinha pegou sua amada Cimarrão e fugiram de casa. Foram pela estrada, pelo mato. Foram para onde? Andaram fugindo lá pros lados de Uruguaiana, São Borja, Unistalda, São Martinho da Serra, Cerro Branco... Ouviam intermitentemente os cantos dos salta-caminhos, bem-te-vizinhos-riscados, vira-folhas, beija-flores-azuis-de-rabo-branco, graúnas, curiós, arapongas-da-amazônia... sempre em trilhas pelo mato serra de Maracaju fora longe das estradas de rodagem.   
            Alguém viu, alguém nem viu? Praticamente Papebinha e Cimarrão nem foram vistas. Elas viajavam na noite. Ela fotogênica disfarçada com cabelo platinado, ela gata disfarçada com pelo flutuante.
            Uma vez chegou uma notícia que estariam numa aldeia dos paracatejê-gavião pros lados do rio Butuí, Estado de Minas Gerais ave símbolo a seriema. Mas amizades de animais com risco de extinção com humanos de menor nem se domesticavam mais. E chegou outra informação que era por arredores do rio Ibicuí. Um outro rio foi ventilado que era o rio Inhanduí. Quem sabe o rio Cacequi. Quem sobe o rio Quaraí.
                                                                       ***
            Sol forte, fogaréu, mormaço, forno, fornalha e combustíveis vários postos para queimar. Sol, girassóis, e poucos passarinhos pelas capoeiras à beira da estrada. Mais cigarras que passarinhos. As folhas das árvores tremiam na sombra do chão, buçus, sananduvas, cambarás-do-campo, batiputás-bravos... Bonito e muito calor. Formigas tenazes vermelhas abrindo a Transamazônica. O calor mais que o bonito do dia.
            Era domingo de manhã. Os foguetes batiam, rebatiam, espancavam o ar da madrugada, 7h, o buzinaço da procissão do santo. Dia do santo São Cristóvão padroeiro dos motoristas, nome do bairro, e a tradição de colar santinho no parabrisa e prender com alfinete fitinhas verde e vermelha na camisa.
            Nesse nosso lugar, aqui nesse lugar, um pequeno canto do todo, cidade que nem vai nem nada, um ponto pequeno no mapa, nesse lugar que já disse, parece que a sorte nem chegou grande para ninguém. Ninguém que saiu daqui e que foi para conquistar o mundo, e viajou via BR-470 ou via RS-324, se viu aparecer conquistando o mundo e mesmo aquém bem menos que isso.
            A festa do padroeiro no salão da sociedade sábado e domingo e sorteio de prendas. Eu procurava pela Enigmática. Talvez andasse pela festa. Ou seria um tipo assim que nem se misturava e preferia ficar em casa num dia espocado como aquele?
            Jogo de futebol entre os Pitu e os Goiamum. Gostaria que Enigmática estivesse por ali. Eu e Enigmática. Mas por que tanta Enigmática? Já sabia, era fixação. Era vício. Ela me parecia uma pirâmide maia ou egípcia. Uma pirâmide que nem se sabe como foi arquitetada e como veio parar ali. Uma esfinge com corpo de veada-campeira e cabeça de onça-pintada bico de gavião-carijó cauda de teiú e sombra de cunhantã galibi.
            O atacante Goiamum desceu pela direita deu uma meia-lua deu uma janelinha e chutou, para foooooora!... E Enigmática merecia um país a seus pés, uma história de teatro de peça famosa e com versão no cinema, uma lenda da salamanca com ouros e pratas escondidos na caverna, inteirinha para ela pra ela.
            O dia claro, bonito e oco. Dia calmo, cheio de luz e vazio. O cruzamento veio do lateral esquerdo o centroavante cabeceou, sobre o gol... O que era dia oco?
            Aquele mesmo dia. O dia festejado. O dia convidando. O dia chamando por Enigmática, já disse. As taiocas subindo o tronco da iatá. Eu via e reparava em tudo.
            O jogador do Pitu pedalou, deu cinco ou seis voltas com as pernas, enganou o marcador e chutou... alto, alto para fora. A bola caiu no pátio da casa de azul com janelas marrons jabuticabeira sem jabuticabas e com cachorro.
            Pensava em Enigmática, obsessivamente. Pensava nela e ninguém tinha nada com o caso. Vários de mim pensavam nela. Contra o vento, desenhada. E sem solidariedade. De uma maneira muito própria e particular e anônima e estúpida e neurótica. Eu pensava nela e era sempre fácil me enganar.
            Fui encontrá-la na miragem do deserto de areia. O corpo dela no vapor do pensamento quente da sofreguidão. Pareceu um ser desenhado a lápis ou bico de pena. Uma estátua de pedra ou bronze enterrada na areia. Um chafariz ou oásis ou lago com licurizeiros.
            Infração perto da área marcada justamente no risco da chuteira do juiz. Um perigo e tanto na cobrança do adversário. Quem ia cobrar era o melhor cobrador do país, da seleção, do adversário. O árbitro autorizou. O tal cobrador do Pitu correu para a bola - onde ia bater, em que canto, em que ângulo - e chutou... aquela foi por pouco, tirou tinta da trave, a torcida ficou no, uuuuuh!...
            Raptar, seduzir Enigmática e nos esconder no mato, numa ilha fluvial, pegar um barco e ficar navegando por rios e planetas e lagoas. Enganá-la, abduzi-la para voar pelo espaço sideral, sumidos no espaço fundo inédito mais vermelho que azul. Pelo litoral, de porto em porto, de árvore em árvore como os micos-leão-pretos.  
            Se eu fosse morar eu ia arrastá-la comigo para Manaus, Maceió, Palmas, Morungaba, Rio Branco, Cruz Machado, Dona Emma, Capão Bonito do Sul... Isso eu já estava decidindo prepotentemente.
            Pênalti! Pênalti!... Pelos cabelos lisos da Enigmática! Foi pênalti! Foi e será pênalti, meu torcedor!
Cobrador, bola, goleiro. O cobrador nem olhava para o goleiro. Goleiro, bola, cobrador. O goleiro olhava para o pé direito do cobrador. A bola esperava a vez dela, gorducha e branca com pintas de preto. O cobrador Goiamum nem olhava as arquibancadas. O goleiro Pitu abriu os galhos e arregalou os bugalhos.
            Eu iria morar em Fernando de Noronha, se fosse eu. Todo o mundo elogiava o lugar e o arquipélago. Pelas imagens de tevê, que se via seguido, que se via daqui, era um lugar procuradíssimo e ótimo e Atlântico. É, iria para lá. Iria e voltaria um dia somente para contar. Voltaria mais tarde, mas voltaria para contar anedotas. Iria para aprender, e voltaria para narrar histórias de pescador de tesouros submarinos. Já estava vendo a ilha e as praias e os golfinhos e as rochas em forma de seios. Embora, também se sabe, nem permitem moradores estrangeiros por lá.
            O arbitro autorizou, trilando o apito. O cobrador do pênalti se decidiu. E correu para a bola. O mundo correu com ele, o mundo olhou, meio mundo a favor e meio mundo contra, o mundo na expectativa... baterá com o pé direito, sem dúvida. O goleiro, dando uma de munganga, ia esperar e decidir na última batida da fração. A bola aguardava toda enrolada em si mesma, abraçada na sua verdade redonda como um tatu-bola. E o goleiro, sínico, escolheu já o seu canto preferido para o salto mortal, e nem passar vergonha, já deu o salto. O goleiro só queria, queria no mínimo, sair na foto. E parece que nem saiu. A câmara sempre acompanhou a bola. As câmaras mostraram a bola o goleiro o cobrador a procissão de Corpus Christi a mãe do Badanho roendo as unhas.
            Era impossível ter o meu destino ligado ao de Enigmática. Ela era muito melhor que eu. E eu a via de vez em quando brilhando estrela no céu única. Ela nem era do nosso mundo, do nosso lugar, pro nosso bico, do nosso século. Nem era pro teu bico, também. Ela nasceu aqui porque como nascem as tempestade de verão: no meio do nosso nada. Era muita areia pro meu trenzinho, e o seu barquinho também e principalmente.
            O cobrador empurrou de chapa o pé na bola. Um pé com chuteira e tudo. A bola nasceu e respondeu imediatamente ao impulso. Nasceu num verdadeiro choque, uma bomba. O goleiro pulou como uma rã acossada, pareceu um peixe ou uma ave de rapina na hora do bote, na hora que o olho fica procurando a surpresa, pulou elasticamente para o lado, como um felino de desenho animado, por que o futebol.
            Qual a função da beleza? Agradar a um, a todos, a ninguém? Agradar aos Pitu e aos Goiamum? Qual a certeza da obra-prima? Qual a preferência da moda? E a beleza é amazônica. Pedra rara esmeralda de oitenta e oito quilates. Beleza é amazônica!
            O cobrador... a bola no ar como um ovo apinchado... o goleiro no voo de pombo de asas sem penas... as nuvens altas mobilizadas com rapidez...
            Apenas ela, a Enigmática, no seu próprio universo. Apenas e somente ela na solteirona de sua imaginação e pensamento. Viveiro dela de sonhos. Redemoinho próprio lá com ela de sonhos. Enigmática era um dicionário de palavras prontas, certas, quietas, lilases, marcianas. Uma enciclopédia de praças, cidades, rios, montanhas por conhecer. Ninguém de nós, àquela horinha, tinha nada a ver com Enigmática. E ela nascera pro mundo, pra Florianópolis, pra Gaurama, pra Búzios, pra Marechal Cândido Rondon, pra Santo Antônio do Sudoeste... E ela nascera para desfilar de enduape.
            E o gol que nem saiu. E a bola para fora. E o pênalti batido. Mesmo o pênalti batido para, foooooraaa!...
                                                                       ***
            Tem outro sonho que me aconteceu. Digo ou nem digo.
            E foi assim, nem adianta remendar diferente. Eu estava num lugar, sentado na janela da casa. Estávamos eu e a turma toda. Fazendo o quê? Onde? Vai saber! Aí, pegamos e viemos embora.
            Certa altura me lembrei que havia deixado lá, naquele certo lugar, extraviado uns meus chinelos de tiras de borracha. Pensei voltar. Falei pro pessoal:
- Ei, estou de pé no chão! E eu vou voltar por causa das chinelas que esqueci!
            Então, a Bocaina pegou de debaixo da camisa as chinelas de tiras, as tais e quais coisas enfiadas na cintura da bermuda, e me mostrou e ainda disse se rindo também:
            - Estão aqui, seu otário, ah ah ah!...
            Eu me admirei, aprovei, agradeci e ainda por cima dei-lhe um beijo no rosto. Ela ainda me agradeceu muito e rindo. Eu a beijei no rosto, me lembro, e a pele dela era meio cheia de espinhas. Ela tinha eu sabia uma foto minha que levava junto na carteira. Eu agradeci e ela me agradeceu me chamando de Perdido.
                                                                       ***
            Talvez o ano da graça do Senhor de 1557, um pouco mais ou um pouco menos. Litoral paulista, capitania de São Vicente. Uma baleia franca e seu filhote navegavam nas águas azuis perto da ilha de Santo Amaro, que os índios tabajaras chamaram de Guaibê.
            Em frente à ilha e ao forte de São Filipe, a majestosa sombra verde da serra do Mar. A natureza exuberante como ninguém sonhara. Um paredão de verde e mataria, grápia, pau-brasil, ipê-roxo, paracuuba, goiabeira-do-mato, marupá, cumbaru, pindabuna, itapiúna... misturadas e sem critério.
            Na sombra, debaixo de um pé de jerivá, na subida do morro, o pajé tabajara, rodeado de curumins e cunhantains, negociava mentiras e conselhos, olhava o mar azul, o mar verde, a baleia franca amamentando o filhote de quantas toneladas e contava em nheengatu história vinda do tempo dos ancestrais ancestrais.
            - A feiticeira Iami se sentou na laje de três palmos perto do rio e se concentrou e entrou em transe. A tribo toda ficou esperando em silêncio e atenta para qualquer som e saber tudo que ia sair da boca e dos gestos da mulher velha. A santa Iami enxergava pouco e via longe... cuera!...
            O pajé tabajara de nome Aram viu um bando de papagaios-do-peito-roxo gritando muito no alto do céu e voando para os lados das ilhas. Esperou o gritaiedo se afastar para recomeçar:
            - Iami começou a falar e a dizer e a resmungar e a gesticular que as águas agora salgadas e frias do mar demorariam três anos para voltar a se aquecer. Só então os banhos matinais e principalmente a pesca diária poderiam ser feitos. Dona Iami abria as mãos e afastava as mãos, assim, como abrindo as nuvens... potira!...
            Aram viu um bando de maitacas-de-barriga-azulada gritaiando para os lados das ilhas e esperou tudo se acalmar, e prosseguiu:
            - Né que a feiticeira Iami falou ainda que os pés de abati seriam incendiados pelos vizinhos numa noite de lua cheia? Falou tudo isso e disse. Os invasores potiguar seriam vistos, mas nunca pagariam o prejuízo. Assim, aconselhou a piaga Iami, seria nem bom plantar pé de milho naquela temporada até se descobrir a intenção dos futuros incendiários. Senhora Iami cruzava os braços e parecia concordar com a sorte... uirá!...
            E um bando de papagaios-do-mangue em alta algazarra voou para o lado dos fundos das ilhas. Depois de voltar o sossego dos ouvidos, o pajé seguiu:
            - A índia falou que o marido de importante deusa da mata iria ser transformado num ser horrível e medonho e terrível e monstruoso. A magia sobre esse marido da deusa nem viria da mulher nem dos filhos, mas dos deuses imortais que governam a terra toda e vêem tudo. Xamã Iami de queixo erguido olhava o horizonte sem ver... ibira!...
            Cuidaram um bando de periquitos-das-ilhas numa tremenda balburdia voar para as ilhas. Ilhas cobertas de verde e de gritos secos. Ilhas jogadas ao acaso sobrenadando boiando no mar da tarde. Voltou o pajé Aram:
            - Ancestral Iami continuou falando os presságios. Ela disse que três mortos iriam voltar do fundo do rio Piaçaguera e iniciar uma busca por seus matadores. Os três foram descritos por ela nos mínimos detalhes sem todavia revelar os nomes. Grande mágica Iami encantava as pedras as árvores os bichos, às vezes se confundia com eles... jiquitaia!...
            Àquela hora da tarde, umas cinco, as araras-vermelhas-grandes voltavam de comer coquinhos de jerivá na serra e retornavam para as ilhas, e em altas falações. O gritedo foi se consumindo aos poucos. Depois o pajé emendou:
            - E mais outras coisas amiga Iami foi falando para seu povo que a rodeava e a ouvia. Falava dentro dum transe perturbado. Seu olhar arregalado estava pra lá da realidade e firme e penetrante no obscuro fundo vazio do mundo do futuro. Só ela via tudo e por todos. E causava horror nos assistentes. Os ouvintes viravam a cara e as costas enjoados ou até com ânsia de vômito. Iami estava dentro do seu mundo de delírios e alucinações, conversando e ouvindo os espíritos. Esses espíritos da floresta estavam bem juntos muito dentro dela mesma e empurrando seus ombros, seus pés, suas mãos, sua cabeça. As caretas e gestos de Iami eram assustadores. As crianças nem podiam ver e choravam. A entidade Iami caminhava flutuando suspensa no ar a dois metros do solo... anomati!...
            Já anoitecia e a primeira estrela, das grandes, apareceu no horizonte um pouco acima do mar. A noite estava pedindo passagem. O sol vermelhava as poucas nuvens. Os grilos e vaga-lumes e mariposas-espelhos estavam ouvindo as últimas araras-azuis-grandes voltar para casa, se internarem nas ilhas novas. E um bando de papagaios-de-coleira palravam rumo das ilhas matizadas de verde.
            - No fim do traquejo, quando todos estavam já saciados de visões, quando a própria sacerdote já estava morta de sono, Iami se ergueu da laje de três palmos toda fraca, esquecida, faminta, sedenta e esquecida. Andou dois passos e caiu no chão, desmaiando, e dormiu. O leve espírito Iami virava bicho pássaro cancão e peixe candiru-vermelho e abelha tataíra e cipó-cruz-verdadeiro e mais o que quisesse... arabé!...
            Aram, o pajé dos tabajara, olhou em volta e se viu abandonado. Os curumins e as cunhantains tinham ido dormir nas palhas das palhoças da aldeia. Ele olhou a noite, olhou as estrelas, olhou o fundo escuro do mar. Ouviu o urutau e pensou em dormir. Onde havia céu havia mar. Subiu num pé de cambucá, se acomodou entre os galhos uma forquilha e roncou:
            - Ceci!... Cendira!... Coema!...