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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Danações Históricas



           Isto tudo é uma looonga história. Voo tupiniquim.

      Tudo começou há muito e muito tempo. Época de trevas. O diabo andava à solta no mundo. Mesmo a própria igreja não saía à noite, medo de bruxas e beldades. E o que passo agora a narrar, portanto, são histórias de mortos e feitiços. Conto!

      Escrevo este causo para ser lido e ser lido na sua cama e sua madrugada e sua sozinho e sua quarto e sua noite e sua lua e sua cheia ou e sua tempestade. Não quero ouvir você dizer que minto, pois sou eu mesmo uma prova concreta, viva destes fatos. Basta reparar meu olhar, meu olhar.

      Tudo começou num tempo lá atrás, distante, com data certa, com nota. Um tempo descoberto. Tempo de terra em transe, ou mal transada, terra quadrada. 

       Era uma vez (a primeira vez), num belo dia parado de abril, que do mar abriram (as catadupas da esperança!) os portugueses. (Ou seria melhor com os holandeses, ou com os franceses). Chegaram para salvar esta terra esquecida, abençoada e bonita por natureza, mais que beleza, mais que certeza.

Eram gentes da Europa, gentes de nobres linhagens, finas castas, mancebos, boas-vidas (cá pra nós: piratas, bandoleiros, assassinos e loucos de toda espécie), brancos e com boa vontade de aqui enriquecerem sem despender esforço algum. Do dia pra noite uma cruz a Jesus e a guarda em nome do rei. Logo logo foram apontando as serras peladas. A terra prometia, era o que se escrevia. Que o povo que aqui vivia era pacífico: carecia de governo, carecia de religião. Eram habitantes satisfeitos, aceitavam presentes singelos: espelhos partidos, retalhos de pano amarelo, um tiro de espanto...Terra bela e rica; tudo que nela se plantar, se colhe com abundância. Os rios são muitos, se escrevia, de águas boas e cristalinas. Haveria por certo muito ouro e pedras preciosas para El-Rei.

       Não trouxeram consigo, estes tais portugueses (porque não foi com os japoneses?), nenhuma de suas mulheres. Para seus prazeres quantos tinham aqui belas índias, belas jovens negras. Tudo muito bem: índio era índio, negro era negro, e branco (dizia Nosso Senhor) era cristão. Sem sujar as mãos, cansar o nobre esqueleto, suar as brancas partes (que trabalhar é vergonhoso, somente dado a animais), almejavam prosperar em mágicos curtos tempos. Compraram o mato a preço vil. Levaram papagaios e tucanos-de-bico-verde e antas e sucuris e casal de índios de boa índole como amostras grátis. Criaram o melhor e maior e mais bem pago sistema de rapinagem que o mundo já conhecera (baseado na lei do mando). Assim, o tráfico-tráfego correu...

       E nunca se cresceu tanto em tão pouco tempo. Cinquenta anos em cinco. E a vida dos fidalgos continuava e dava gosto e dava divisas, frutos, sombra e água fresca, bancos, casas de massagem, casarões, bois, aguardentes, terras, canais de rádio e televisão, parabéns, ótimo. Tudo ia muito bem, tudo ia como Deus queria.

       O próprio rei português Júlio César (viva César!), dentre todos o maior português, suspirou um dia e, depois de ter devorado dezenas de coxinhas de galinhas (galegas e bem tostadinhas), coçado o apêndice ósseo, falou assim, dois pontos: abrem aspas, "Eu, Dom João (o povo deu: viva Gajão!), Rei Nobre e Muito Rico de Portugal e de Todos os Portugueses, Daqui e de Além-Mar... (assoaram-se as trombetas) Proclamo: A Partir Desta Data (que data, hem?!), Fica Decretado que Lá (aqui) Se Plantem Melancias e Bananas... Epa!, Já Se Tem Bananas?... (Yes, temos bananas). Isto Porque Quero Que Todos Saibam Que Lá (aqui) Dá-Se Muita Melancia e Banana; A Partir Desta Data (que horas são?), Todos Que Lá (aqui) Nascerem, Serão Batizados Com Nome Maria Para a Fêmea e José Para o Macho; A Partir Desta Data (que saco, não?!), Fica Estipulado a Marca do Pênalti Dentro da Grande Área, Sem Barreira... e Tenho... Ooooorque!! (arroto) Dito", fecham aspas.

       E o mundo não era mais então não seria mais o mesmo. As canções, as poesias, as novelas, os amores, enfim, nada mais seria como antes. Dormir é preciso, beber cerveja é preciso, criança no colégio não é preciso.

       Os fidalgos, tanto os de lá como os de cá (cuide o sotaque), exultaram muito com as novas medidas anunciadas pelo rei Dom João, coração de balão de festa de São João. Fizeram a maior das arrombas, pararam a cidade, chope, passeata, carreata, carnaval para toda vida. Os de cá se reuniram no bar do José Manuel (nome português) e beberam e bateram pandeiro e cantaram até cair. Nunca se viu e se ouviu e se cantou carnaval assim.

       Soda-se daí, lá por volta de tantas e tontas, que todos eles inventaram de esticar o sábado com um grande despacho (calafrio) de esquina. Um despacho? Sim, um despacho. E mas por que um despacho? Para amarrar as terras do Brasil, é claro! Portanto, saíram do bar do José Manuel (português politicamente correto) e cada qual se encarregou de juntar um ingrediente suspeito e satânico para, depois dos trecos e trens todos reunidos, dar e fazer o louco despacho planejado. Cada qual pro seu lado e por sua inteira conta e risco e as mãos à obra.

       Retornaram, dois minutos depois, assim: um primeiro (descendo a rampa do planalto em desordem técnica) com Getúlio Vargas; outro com rede de televisão rádio jornal; mega-sena e outras loterias; tudo a um e noventa e nove; o petróleo é nosso; capitanias hereditárias e sesmarias; Tiradentes com a corda no pescoço; FMI do fundo monetário internacional; proclamação da república; dragão da inflação; construção de Brasília; seleção brasileira; o primeiro (sem dúvida o primeiro) de abril; guerra com o Paraguai; marcha pela pátria pela religião pela família; renúncia de Jânio; café com leite e pão de queijo; casa-grande e senzala; jesuítas e reduções; milagre brasileiro; ciclo da borracha; e muitos, muitos outros mesmo, ingredientes urgentes de um país... mal pago. E morcegos (será o voo do morcego), pés de cabra, economistas, dentes de sobra, pelos de aranha, folhinhas de arruda, ala governista, comissão parlamentar de inquérito, estes também não podem faltar.

       E tudo posto dentro de um total caldeirão bruxólico. Sobre o fogo do trópico de capricórnio, Ceci e Peri no igarapé, Iracema dos lábios de mel, Capitu dos olhos quebrados. Cada um (mais importante e fundamental), dos participantes do ritual, teria que se assentar sobre o ninho de formigas lava-pés. Foi importado o ninho de formigas (o importado é fundamentalmente mais importante). Todos de acordo, então.

       Após isto, o orador (um tal de harpia de minissaia), em nome da galera toda, falou: "Para um lado, desse nosso e brilhante ("nosso" pronunciado com a maior sem cerimônia, batendo no peito, olhos nublados) Brasil, ficarão as terras férteis, as terras da situação, do dono, dos brancos, dos cristãos, dos barões, do caciques, dos caudilhos: terras do sossego do gado da cana do café; do outro lado (e cuspiu) ficarão as terras secas e áridas, nordestinadas, paradas, faveladas, empedradas, sem eira nem beira ou tribeira: terras a pão e circo de muito voto."

       E assim foi feito. Dito e vem sendo. Estava dividido a rês do aboio, Brasil dos seus brasis: o dos grandes para o funcionalismo público, o Itamarati, o mundo ocidental; o dos deserdados para o trabalho de sol a sol, o vazio, o salário mínimo, o futebol, o horário político gratuito, a esperança que nunca se alcança. Um bom negócio, negócio (da China) do Brasil.

Bons frutos e bons filhos e bons netos nasceriam (para uns raros e escolhidos) desta partilha desta sorte desta divisa em diante. Seriam os futuros potentados com todos os matizes e quilates. Estudar na Suíça, casar nas Bermudas, aposentar em Paris. O Brasil? Este só para torcer com a camisa da seleção.

       E a aventura perdura, continua, continuará, é eterna, sempre assim. Encruzilhado destino, amarrado e assentado sobre grandes formigueiros (ou o Brasil acaba com as saúvas ou as saúvas acabam com o Brasil). Dois brasis: um esperto e outro sem-teto. Uma dura caminhada sem fim, sem nada, nada. Ame-o ou deixe-o. Pra frente Brasil. Salve a seleção. De que lado você está? Tornar a pátria livre ou correr para New York City. Inter ou Grêmio? (Que horas são?)

       Dentro deste quadro e descendo veloz por esta looonga corredeira louca, sempre surgiu e surgirá sempre, ontem e hoje e amanhã, na tela embaçada da memória curta, um cavaleiro (um que se destaca dentre muitos que se apresentam) branco, cristão, louco, de chapéu na mão e cavalo branco, beijando a bandeira desfraldada e todos os chinelos desta nação.

E o branco virá com mãos oferecidas, braços dispostos prometendo acabar com o grande despacho feito alhures. Mas, coitado (depois de eleito), não se sabe o que lhes bate no trinco, não sei o que os acompanha ou acontece. E bem que o branco homem todo de branco tenta que tenta mudar a coisa. Tenta mas não consegue. E nunca dá certo. Será perseguição dos infernos? Assim, tudo acaba em mais uma lograda, outra ilusão roubada, conto que não dá em nada, nada.

Então, ele próprio todo branco homem branco, em meio ao desespero, perde a noção do ridículo e se assenta também sobre o formigueiro. O filme se repete com começo meio fim e recomeço. Portanto, outras tentativas virão, outras tentativas prometerão, outras iludirão, outras não faltarão.

       Ordem e progresso. O Brasil é um gigante adormecido. Este país é o país do futuro. Deus é brasileiro. Terra sem vulcões, terremotos, tsunamis, terrorismos. País tolerante, sem preconceitos de credo e cor. O clima é variado e bom o ano todo. As mulheres são as mais lindas. A Amazônia é nossa. Café do Brasil. O governo do povo para o povo com o povo. Todos tentam, só o Brasil é penta. Enfim: verde-amarelismo, nacionalismo, varguismo, coronelismo, tenentismo, militarismo, messianismo, patriotismo, bandeirantismo. E tudo palavras da ordem, ditos principescos, catecismos, anúncios de obras do governo outras palavras e canções e máximas. Estamos ainda esperando por Dom Sebastião ou São Jorge, o santo guerreiro, provável exterminador de nosso passado-presente dragão da corrupção. Que armação! Que desarrumação! Contra tamanho despacho (e minha garganta seca) só mesmo chamando o garção: Ei, garção!... por favor... mais uma cerveja estupidamente gelada e a conta pro Tadeu.

       Sete dias, sete dias tem o sol e sete dias tem a lua, sete são as verrugas do nariz do pajé, se errei nas contas vai tudo bem, acertarei nas intenções.

       Espíritos encaramujados do fundo do mar, acordem, subam, venham, apareçam, emirjam, venham todos à tona, venham soprar as forças novas, removedoras, sobre o altar da terra.

       Soprem bem forte, soprem lá pra nuvem mais forte e presente e limpa e alta e gelada. Pois com toda esta intempérie imensa, farei um grande remoinho, juntarei o raio o trovão o vento a chuva. Juntarei tudo numa caixinha, embalarei com papel colorido, um laço de fita vermelha. Pedirei para as asas da sorte que levem o presente às grutas caras e profundas do endereço geopolítico-norte.

       Com esse furacão afiado tempestivo revolucionário, rasgo o tísico corpo da rainha naja da Inglaterra, corto a rede da trama panamericana do americano do norte, calo o fado português com certeza, arranco os adesivos fidedignos e originais dos espanhóis, esfolo as cores vivas francesas, apago os dizeres consonantais dos alemães, enxugo as pegadas maquiavélicas italianas, descalço os tamancos holandeses, e muito, muito mais, todos que houver, etc...       

       Assim, os tais morcegos gigantes e espetaculares, donos do norte, perdidos nos labirintos frios e escuros e úmidos e solitários, abrirão o pacote e comerão gulosos no almoço no jantar misturado ao caviar, acharão fino pasto. Tendo esse manjar no bucho, esses morcegos fantásticos rebolarão o samba do crioulo doido. Perderão peso, ganharão vergonha no dentes, darão o ouro ao povo, deixarão de rapinar do terceiro mundo.

       E daí, sempre serão novos entes e novos mitos e novos homens que modificarão o mundo. E a verdade sairá na primeira página em todo o planeta. A certeza não será mais uma ilusão ou uma promessa de campanha. Até mesmo Deus despertará (estranhando o pouco barulho) na sua cama de nuvem ensolarada, lençol azul bordado de estrelas de todos os tamanhos, bocejará e verá, estupefato, a terra redonda e bem cuidada e pela primeira vez. Então, animado como um guri depois do banho (como um Peri), descerá do alto todo bonachão no dorso do arco-íris, pousará em qualquer lugar que quiser, gravará tudo com sua super hiper mega ultra filmadora da zona franca de Manaus.

       Assim então consequentemente portanto, e de um total acordo com essa nova fase ou ordem mundial, o Brasil se despertará de vez, se desencantará do feitiço vadio e tornará a ser encantado.