Isto tudo é uma looonga história. Voo tupiniquim.
Tudo começou há muito e muito tempo.
Época de trevas. O diabo andava à solta no mundo. Mesmo a própria igreja não
saía à noite, medo de bruxas e beldades. E o que passo agora a narrar,
portanto, são histórias de mortos e feitiços. Conto!
Escrevo este causo para ser lido e ser
lido na sua cama e sua madrugada e sua sozinho e sua quarto e sua noite e sua
lua e sua cheia ou e sua tempestade. Não quero ouvir você dizer que minto, pois
sou eu mesmo uma prova concreta, viva destes fatos. Basta reparar meu olhar,
meu olhar.
Tudo começou num tempo lá atrás,
distante, com data certa, com nota. Um tempo descoberto. Tempo de terra em
transe, ou mal transada, terra quadrada.
Era uma vez (a primeira vez), num belo
dia parado de abril, que do mar abriram (as catadupas da esperança!) os
portugueses. (Ou seria melhor com os holandeses, ou com os franceses). Chegaram
para salvar esta terra esquecida, abençoada e bonita por natureza, mais que
beleza, mais que certeza.
Eram gentes da Europa, gentes de nobres linhagens,
finas castas, mancebos, boas-vidas (cá pra nós: piratas, bandoleiros,
assassinos e loucos de toda espécie), brancos e com boa vontade de aqui
enriquecerem sem despender esforço algum. Do dia pra noite uma cruz a Jesus e a
guarda em nome do rei. Logo logo foram apontando as serras peladas. A terra
prometia, era o que se escrevia. Que o povo que aqui vivia era pacífico:
carecia de governo, carecia de religião. Eram habitantes satisfeitos, aceitavam
presentes singelos: espelhos partidos, retalhos de pano amarelo, um tiro de
espanto...Terra bela e rica; tudo que nela se plantar, se colhe com abundância.
Os rios são muitos, se escrevia, de águas boas e cristalinas. Haveria por certo
muito ouro e pedras preciosas para El-Rei.
Não trouxeram consigo, estes tais
portugueses (porque não foi com os japoneses?), nenhuma de suas mulheres. Para
seus prazeres quantos tinham aqui belas índias, belas jovens negras. Tudo muito
bem: índio era índio, negro era negro, e branco (dizia Nosso Senhor) era
cristão. Sem sujar as mãos, cansar o nobre esqueleto, suar as brancas partes
(que trabalhar é vergonhoso, somente dado a animais), almejavam prosperar em
mágicos curtos tempos. Compraram o mato a preço vil. Levaram papagaios e
tucanos-de-bico-verde e antas e sucuris e casal de índios de boa índole como
amostras grátis. Criaram o melhor e maior e mais bem pago sistema de rapinagem
que o mundo já conhecera (baseado na lei do mando). Assim, o tráfico-tráfego
correu...
E nunca se cresceu tanto em tão pouco
tempo. Cinquenta anos em cinco. E a vida dos fidalgos continuava e dava gosto e
dava divisas, frutos, sombra e água fresca, bancos, casas de massagem,
casarões, bois, aguardentes, terras, canais de rádio e televisão, parabéns, ótimo.
Tudo ia muito bem, tudo ia como Deus queria.
O próprio rei português Júlio César (viva
César!), dentre todos o maior português, suspirou um dia e, depois de ter
devorado dezenas de coxinhas de galinhas (galegas e bem tostadinhas), coçado o
apêndice ósseo, falou assim, dois pontos: abrem aspas, "Eu, Dom João (o
povo deu: viva Gajão!), Rei Nobre e Muito Rico de Portugal e de Todos os
Portugueses, Daqui e de Além-Mar... (assoaram-se as trombetas) Proclamo: A
Partir Desta Data (que data, hem?!), Fica Decretado que Lá (aqui) Se Plantem
Melancias e Bananas... Epa!, Já Se Tem Bananas?... (Yes, temos bananas). Isto
Porque Quero Que Todos Saibam Que Lá (aqui) Dá-Se Muita Melancia e Banana; A
Partir Desta Data (que horas são?), Todos Que Lá (aqui) Nascerem, Serão
Batizados Com Nome Maria Para a Fêmea e José Para o Macho; A Partir Desta Data
(que saco, não?!), Fica Estipulado a Marca do Pênalti Dentro da Grande Área,
Sem Barreira... e Tenho... Ooooorque!! (arroto) Dito", fecham aspas.
E o mundo não era mais então não seria
mais o mesmo. As canções, as poesias, as novelas, os amores, enfim, nada mais
seria como antes. Dormir é preciso, beber cerveja é preciso, criança no colégio
não é preciso.
Os fidalgos, tanto os de lá como os de cá
(cuide o sotaque), exultaram muito com as novas medidas anunciadas pelo rei Dom
João, coração de balão de festa de São João. Fizeram a maior das arrombas,
pararam a cidade, chope, passeata, carreata, carnaval para toda vida. Os de cá
se reuniram no bar do José Manuel (nome português) e beberam e bateram pandeiro
e cantaram até cair. Nunca se viu e se ouviu e se cantou carnaval assim.
Soda-se daí, lá por volta de tantas e
tontas, que todos eles inventaram de esticar o sábado com um grande despacho
(calafrio) de esquina. Um despacho? Sim, um despacho. E mas por que um
despacho? Para amarrar as terras do Brasil, é claro! Portanto, saíram do bar do
José Manuel (português politicamente correto) e cada qual se encarregou de
juntar um ingrediente suspeito e satânico para, depois dos trecos e trens todos
reunidos, dar e fazer o louco despacho planejado. Cada qual pro seu lado e por
sua inteira conta e risco e as mãos à obra.
Retornaram, dois minutos depois, assim:
um primeiro (descendo a rampa do planalto em desordem técnica) com Getúlio
Vargas; outro com rede de televisão rádio jornal; mega-sena e outras loterias;
tudo a um e noventa e nove; o petróleo é nosso; capitanias hereditárias e
sesmarias; Tiradentes com a corda no pescoço; FMI do fundo monetário
internacional; proclamação da república; dragão da inflação; construção de
Brasília; seleção brasileira; o primeiro (sem dúvida o primeiro) de abril;
guerra com o Paraguai; marcha pela pátria pela religião pela família; renúncia
de Jânio; café com leite e pão de queijo; casa-grande e senzala; jesuítas e
reduções; milagre brasileiro; ciclo da borracha; e muitos, muitos outros mesmo,
ingredientes urgentes de um país... mal pago. E morcegos (será o voo do
morcego), pés de cabra, economistas, dentes de sobra, pelos de aranha,
folhinhas de arruda, ala governista, comissão parlamentar de inquérito, estes
também não podem faltar.
E tudo posto dentro de um total caldeirão
bruxólico. Sobre o fogo do trópico de capricórnio, Ceci e Peri no igarapé,
Iracema dos lábios de mel, Capitu dos olhos quebrados. Cada um (mais importante
e fundamental), dos participantes do ritual, teria que se assentar sobre o
ninho de formigas lava-pés. Foi importado o ninho de formigas (o importado é
fundamentalmente mais importante). Todos de acordo, então.
Após isto, o orador (um tal de harpia de
minissaia), em nome da galera toda, falou: "Para um lado, desse nosso e
brilhante ("nosso" pronunciado com a maior sem cerimônia, batendo no
peito, olhos nublados) Brasil, ficarão as terras férteis, as terras da
situação, do dono, dos brancos, dos cristãos, dos barões, do caciques, dos
caudilhos: terras do sossego do gado da cana do café; do outro lado (e cuspiu)
ficarão as terras secas e áridas, nordestinadas, paradas, faveladas,
empedradas, sem eira nem beira ou tribeira: terras a pão e circo de muito
voto."
E assim foi feito. Dito e vem sendo.
Estava dividido a rês do aboio, Brasil dos seus brasis: o dos grandes para o
funcionalismo público, o Itamarati, o mundo ocidental; o dos deserdados para o
trabalho de sol a sol, o vazio, o salário mínimo, o futebol, o horário político
gratuito, a esperança que nunca se alcança. Um bom negócio, negócio (da China)
do Brasil.
Bons frutos e bons filhos e bons netos nasceriam (para
uns raros e escolhidos) desta partilha desta sorte desta divisa em diante.
Seriam os futuros potentados com todos os matizes e quilates. Estudar na Suíça,
casar nas Bermudas, aposentar em Paris. O Brasil? Este só para torcer com a
camisa da seleção.
E a aventura perdura, continua,
continuará, é eterna, sempre assim. Encruzilhado destino, amarrado e assentado
sobre grandes formigueiros (ou o Brasil acaba com as saúvas ou as saúvas acabam
com o Brasil). Dois brasis: um esperto e outro sem-teto. Uma dura caminhada sem
fim, sem nada, nada. Ame-o ou deixe-o. Pra frente Brasil. Salve a seleção. De
que lado você está? Tornar a pátria livre ou correr para New York City. Inter
ou Grêmio? (Que horas são?)
Dentro deste quadro e descendo veloz por
esta looonga corredeira louca, sempre surgiu e surgirá sempre, ontem e hoje e
amanhã, na tela embaçada da memória curta, um cavaleiro (um que se destaca
dentre muitos que se apresentam) branco, cristão, louco, de chapéu na mão e
cavalo branco, beijando a bandeira desfraldada e todos os chinelos desta nação.
E o branco virá com mãos oferecidas, braços dispostos
prometendo acabar com o grande despacho feito alhures. Mas, coitado (depois de
eleito), não se sabe o que lhes bate no trinco, não sei o que os acompanha ou
acontece. E bem que o branco homem todo de branco tenta que tenta mudar a
coisa. Tenta mas não consegue. E nunca dá certo. Será perseguição dos infernos?
Assim, tudo acaba em mais uma lograda, outra ilusão roubada, conto que não dá
em nada, nada.
Então, ele próprio todo branco homem branco, em meio
ao desespero, perde a noção do ridículo e se assenta também sobre o
formigueiro. O filme se repete com começo meio fim e recomeço. Portanto, outras
tentativas virão, outras tentativas prometerão, outras iludirão, outras não
faltarão.
Ordem e progresso. O Brasil é um gigante
adormecido. Este país é o país do futuro. Deus é brasileiro. Terra sem vulcões,
terremotos, tsunamis, terrorismos. País tolerante, sem preconceitos de credo e
cor. O clima é variado e bom o ano todo. As mulheres são as mais lindas. A
Amazônia é nossa. Café do Brasil. O governo do povo para o povo com o povo.
Todos tentam, só o Brasil é penta. Enfim: verde-amarelismo, nacionalismo,
varguismo, coronelismo, tenentismo, militarismo, messianismo, patriotismo,
bandeirantismo. E tudo palavras da ordem, ditos principescos, catecismos,
anúncios de obras do governo outras palavras e canções e máximas. Estamos ainda
esperando por Dom Sebastião ou São Jorge, o santo guerreiro, provável
exterminador de nosso passado-presente dragão da corrupção. Que armação! Que
desarrumação! Contra tamanho despacho (e minha garganta seca) só mesmo chamando
o garção: Ei, garção!... por favor... mais uma cerveja estupidamente gelada e a
conta pro Tadeu.
Sete dias, sete dias tem o sol e sete
dias tem a lua, sete são as verrugas do nariz do pajé, se errei nas contas vai
tudo bem, acertarei nas intenções.
Espíritos encaramujados do fundo do mar,
acordem, subam, venham, apareçam, emirjam, venham todos à tona, venham soprar as forças
novas, removedoras, sobre o altar da terra.
Soprem bem forte, soprem lá pra nuvem
mais forte e presente e limpa e alta e gelada. Pois com toda esta intempérie
imensa, farei um grande remoinho, juntarei o raio o trovão o vento a chuva.
Juntarei tudo numa caixinha, embalarei com papel colorido, um laço de fita
vermelha. Pedirei para as asas da sorte que levem o presente às grutas caras e
profundas do endereço geopolítico-norte.
Com esse furacão afiado tempestivo
revolucionário, rasgo o tísico corpo da rainha naja da Inglaterra, corto a rede
da trama panamericana do americano do norte, calo o fado português com certeza,
arranco os adesivos fidedignos e originais dos espanhóis, esfolo as cores vivas
francesas, apago os dizeres consonantais dos alemães, enxugo as pegadas
maquiavélicas italianas, descalço os tamancos holandeses, e muito, muito mais,
todos que houver, etc...
Assim, os tais morcegos gigantes e
espetaculares, donos do norte, perdidos nos labirintos frios e escuros e úmidos
e solitários, abrirão o pacote e comerão gulosos no almoço no jantar misturado
ao caviar, acharão fino pasto. Tendo esse manjar no bucho, esses morcegos
fantásticos rebolarão o samba do crioulo doido. Perderão peso, ganharão
vergonha no dentes, darão o ouro ao povo, deixarão de rapinar do terceiro
mundo.
E daí, sempre serão novos entes e novos
mitos e novos homens que modificarão o mundo. E a verdade sairá na primeira
página em todo o planeta. A certeza não será mais uma ilusão ou uma promessa de
campanha. Até mesmo Deus despertará (estranhando o pouco barulho) na sua cama
de nuvem ensolarada, lençol azul bordado de estrelas de todos os tamanhos,
bocejará e verá, estupefato, a terra redonda e bem cuidada e pela primeira vez.
Então, animado como um guri depois do banho (como um Peri), descerá do alto
todo bonachão no dorso do arco-íris, pousará em qualquer lugar que quiser,
gravará tudo com sua super hiper mega ultra filmadora da zona franca de Manaus.
Assim então consequentemente portanto, e
de um total acordo com essa nova fase ou ordem mundial, o Brasil se despertará
de vez, se desencantará do feitiço vadio e tornará a ser encantado.