As coisas como são assim as coisas. Que homens
incomodados inconformados que se mudem que se retirem que se evaporem que se
transfiram que se defenestrem que se demitam que se transformem mudos e surdos para
outro planeta outra galáxia outra dimensão.
Por jogo ou espírito de comparação
competição contrafação contradição, veio a noite a noite.
Segundo dizem, porque a sorte...
está... nas... estrelas.
O vigilante o fiscalizador vai com sua melanco a todos
os lugares festivos deste planeta. A sua rotina é estendida esticada espichada
recontada. Chega sempre adiantado da hora nos encontros e aniversários e
compromissos e embarques e jantares. Até no carnaval sai muito cedo de casa. Em
dia de eleições vota na primeira hora da manhã. No dia sete de setembro aparece
no desfile e aplaude as crianças uniformizadas. Não atende e-mails não gosta de
carros não tolera filas não aceita comer fora de hora não entra em elevador
falante não viaja de avião não vai a estádio de futebol. Não é de muito beber,
mas precisa beber para ter coragem para ter ilusão para ter competência.
É ansioso, bravo, cerebral, cuidadoso, desconfiado, honesto,
previsível. Bebe em voz baixa, e quando chega em casa esmiúça e resmunga e rola
e troca de canais sem poder dormir. Não aparece de carro para não voltar
dirigindo bêbado. Não quer se comparar a ninguém, mas preferiria ser igual ou pior
daqueles tipos que despreza. Apesar de encandeado, sai das baladas
invariavelmente desacompanhado e antes da função terminar.
Namora e seca e olha e nem alcança a flor da festa. Pesquisa
investiga para ter certeza que ela não está acompanhada. Inveja o bobalhão e o
falastrão e o brincalhão que são os eternos mínimos múltiplos comuns os conquistadores
os que superam quaisquer carências os babões os últimos a partir embora. Nada
escapa a este olheiro este observador de faróis atônitos. Paga somente o que
consome. E consome até e somente o que não faz mal ao fígado.
Já pensou as duas maneiras de chamar a atenção de a flor
da festa. Chamando a atenção e não chamando a atenção. Dentro do grande mundo
do chamar a atenção, as variantes e as formas são múltiplas. Porém, longe dele
querer parecer o falastrão o bobalhão o brincalhão. Não sabe ser. E dentro do micromundo
do não chamar a atenção, a atitude é restrita é mínima. E se este é seu estilo
seu comportamento e o melhor jeito que encontrou para si, todavia ainda não
vingou.
Esquece dificilmente, embora não sabe o que vê o que
ouve o que pensa o que fala. O caleidoscópio de imagens e fantasias e luzes e
vozes pega tudo e o crucifica ao som, tum! tum! tum!... da moda da pista.
Agora, ali no bar do salão de eventos e convenções e
competições, o campanador o espreitador está falando com alguém conhecido qualquer
que esbarrou. Mas falar por falar não é o problema nem a solução. Sua estada
entre nós só tem um interesse um sentido. Nem mesmo ele é a sua máxima
prioridade. Somente uma coisa faz parte da sua vinda a este mundo o alvo da sua
preocupação: que é a flor da festa. Sendo bipolar, tem uma lógica monolítica
monoteísta.
É a sua sorte uma sorte esta sorteada aqui neste lugar
mesmo e nem pensa se expatriar ou abandonar para São Paulo Rio de Janeiro Guaratinguetá
Cabo de Santo Agostinho Alagoinhas rio Gameleira região do Bico do Papagaio reserva
dos paraitiri ilha das Flores praia Atalaia Velha.
A flor da festa não precisa se comprometer.
Em câmara lenta. Só cuida da festa, da cerveja, do riso, da liberdade de voar voar
entre os convidados e brincantes. Dança sozinha no centro do salão ou com a
turma em volta sem derramar o copo. Olhos que se confundem com os cabelos
cabeleira coivara cacheada rebelde ondeada encachada se encachoeirando pelas
espáduas. Impressionantemente, atrai todos os olhares dos homens e das mulheres
e dos bichos de estimação. O perfume o cabelo platina o passo o drible o olhar
perdido nos espelhos e para além de todos, e tudo nela já vem definido de casa
de fábrica automaticamente. Bebe mesmo muito, mas sem perder o poder de
sedução. À cada baile uma ou duas novidades. Só quer estas fotos para o face, bolos
decorados, sapos de brinquedo, legendas para tattoo, cachorros e gatos, praias
do Nordeste. Agora inventa um passo rebolado que todo mundo acha interessante
decora colar broche piercing brinco anel pulseira tiara sempre em dobro dobro. Não
se sabe de onde vem ou para onde foge livre leve e tatuada. Todos a conhecem de
vista, e ninguém diz o seu nome o endereço a placa do carro. Pernas altas
harmoniosas ágeis. Basta piscar os olhos para descarnar e sumir no fumo dos
cigarros na neblina do gelo seco no hálito das cervejas para o fundo do escurinho.
Se move entre os simples mortais como peixe entre outros peixes. Olhos de duas
nuvens, cabeleira de floresta, unhas decoradas com paisagens interplanetárias
ou paradisíacas. Seus requebros e caretas e batons e sorrisos são como dinheiro
miúdo, moedas trocos gorjetas. Abre alas se apresenta puxa fila com a turma a
galera com as primas e os primos escolhe o lugar e não pergunta nada nem
responde nada. E sai sem avisar sem pagar sem dever sem prometer sem se arriscar.
Bem no meio da música mais tonitruante, tum! tum! tum!... pernas de fora braços
de fora cintura fina maquiagem provocando os olhos fatais. Nunca mais volta.
Nunca esquece alguma coisa alguém. Nunca que é a mesma pessoa. Nem se sabe onde
ela agarra e tira tanta teoria, mas na prática faz o que quer: - Vou mostrar o
que você, com muito esforço e algumas características especiais, poderá tocar!
Já o bobalhão e o falastrão e o brincalhão sempre
serão os inventivos, os quentes, os gastadores, os suicidas, os apostadores, os
maconheiros, os maneiros, toda vida os caras preparados e os tipos disponíveis que
as mulheres querem para curtir curtir. Não levam a própria sorte a sério, e a
dos outros menos ainda. São os últimos a sair das festas e com muitas risadas e
empurrões e deboches e ziguezagues. Vomitam no banheiro e têm os tênis
encharcados. Também sempre encontram alguém que os queira perto e que os imite
e que os acompanhe e que os cumprimentem com cumprimento técnico.
Assim, o contemplador o bombeador tem um mínimo de um pouco
de todos de tudo seguro no seu lugar já passou por algumas poucas e boas e se
arrisca um nada desde o fundo dos salões de festa que pode ser aqui ou em Curitiba,
Aracaju, Itapecerica da Serra Tracunhaém Floriano Oeiras Embu das Artes
Januária Itarana aldeia dos mariaté. Olhos grandes acesos olhos de compota por
trás dos óculos de grau. Este lugar é bom pois morrerá aqui.
No terceiro dia da bagunça da zoeira, o espião o
seguidor descansa na cadeira vaga o braço na mesa apoiado a mão segurando o
copo meio vazio. Mastiga um pouco de poeira e toma um gole de gelada. Cansado
de caminhar onde os outros caminham. Como peixe fora da água, não para na festa,
entra e sai buscando o que fazer. Bebe pouco aos poucos, mas sempre mantendo
uma vigilância soporosa. E pisca os olhos verdes esperançosos e manhosos e
inflados para a alegre e a festiva e a brilhante e a flor da festa.
Ele o espreitador o perscrutador é
assim. Se todos nós fôssemos quatis domesticados urbanos, ele o verificador o
seguidor seria o quati que fugiria para o meio da mata atlântica. Subiria na
árvore ibabiraba mais alta e lá esperaria morrer pequeno velhinho esquecido
sozinho silencioso em paz.
O examinador o procurador é toda sorte tímido
retraído atento contencioso dissimulado com seu suspiro sua cerveja que nunca
acaba seu gesto sua investida. Fica enrustido na penumbra embalado pela música
e não se expõe. Sempre segurando um copo meio cheio na mão um cigarro nos dois
dedos, apesar de se controlar na bebida no fumo na cocaína no barbitúrico. Vai
embora antes dos outros e sempre arrependido do que não fez. Saudades do que
não passou. Olha a menina a flor da festa mais bela e guarda dela o sorriso o
gingado o exótico só para si. Olha para trás e admira ela magnífica mais uma
vez. Mas a flor da festa sorri para ela mesma sorri para os próprios pés sorri
para o balanço dos quadris sorri para os fãs sorri para o gosto de sorrir. Algo
nela sobra do eixo e isto o faz arrepiar e sonhar até o exagero até a obsessão até
a exaustão. Não irá perdê-la por nada deste mundo!
E o esquadrinhador o perquiridor tem
uma máxima que é só dele a seguinte a qual, depois de tudo visto e revisto
acima de tudo de todos, e que o deixa sobreviver no seco no dedo na fantasia: -
Não me pertence!!
Basicamente temos pouco para entender.
É um caso pato que fica no desejo de a flor da festa e somente a principal.
A luz macia das estrelas, branca,
brilhante, indivisível.
Ele o sondador o analisador adora
contar estrelas. Dizem que contar estrelas faz aparecer óvnis.
Sabiá-laranjeira canta perto. Corruíra
também canta perto. Um tié imita corruíra ou sabiá. Uma folha-de-urubu ri sem
nem saber por quê. Gorjeia o sanhaço mais para lá nas margens plácidas do rio
Traipu. Haja jataís-pretas enxame. As estrelas descontam em silêncio de espiãs.
E o sol abre as portas verdes
almofadadas fundos larguras alturas interessado em tudo por tudo, sim senhor.