Mostrando postagens com marcador elefante. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador elefante. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alice Para Sempre (romance) Capítulo 11




            Curitiba tem vampiros de Curitiba. As chuvas não são ali tão abundantes, mas o inverno faz faz muito frio. Arraial de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais. Aeroporto Afonso Pena, cidade do muito pinhão, Água Verde, Butiatuvinha, Atuba, a temperatura oscilando entre 27°C e 29°C. Uma cidade bonita e sem volta.
Não, não, pois os curiós não estão rachando a fluência de suas melodias. As pessoas andam nas calçadas, não sobre os telhados; os aviões passam por entre as nuvens, não por baixo das montanhas; a mulherada chama Maria das Graças; e os vampiros de Curitiba também trabalham no período diurno.
            Marcelle berrou como num escândalo, e disse, mais ou menos:
            - Eia! Um rio!...
            Era mesmo um rio. Marcelle via o rio Iguaçu. Dizer pra ela que todas as cidades têm seu rio ou seus rios. Ninguém se perde, ninguém se extravia, ninguém se belisca na cidade estranha. A guriazinha pedalou:
            - Para onde corre o rio? Será que vai a Paranaguá?
            O rio que parecia mesmo com uma corda deitada, uma fita desamarrada, uma cobra serpenteando, um rastro de lagarto. Um bando de borboletas brancas acompanhava o curso. Mata ciliar, passarinhos da mata ciliar, japu, bem-te-vi-cinza, colibri, sabiá-do-campo, tesoureira. Mata parecida, grandes folhas, árvores de todos os tons, itaúba-vermelha, pinheiro-do-paraná, chichá, peroba-tabuada. Rio correndo para Itaipu, bebendo água para beber, cintilando riso solto de libélulas e besouros. Alice disse, de entrada:
            - Em primeiro lugar, e eu não sabia, será que fiquei mesmo sabendo?, que o arco-íris tem a sua boa e própria sombra. Será? Nunca antes tinha pensado nisso.
            O labirinto da cidade movimentada, parque Barigui, gente por todos os lados, rua Saldanha Marinho, de dia um formigueiro, pé de sassafrás, de noite com as luzes enevoadas. Cada cidade com seu mundo particular.
            - Vai que eu tenho mesmo um negócio com meu destino!
Todas as pessoas das ruas, das calçadas, dos espaços aéreos, artérias viárias, levavam embrulhos de compras debaixo do braço. E também nas mãos, nos braços, nas costas, no arrasto e no arremesso. Todos carregavam alguma coisa para algum lugar, podia-se reparar.
            - Muita gente também procura o que se procura, e não encontra em parte alguma.
Não seriam nove horas de uma manhã de sábado, e mais um dia para Alice no seu curso de aprendiz de atriz. No teatro Paiol o diretor, óculos verdes, boné do time do coração, pente azul de cabo no bolso traseiro da calça azul, voz de barítono, falou:
            - Contudo, você pode ser atriz.
            - Sim, e é meu longo sonho, senhor diretor.
            - Tudo bem. Se se sentir melhor pode realmente continuar me chamando de... Senhor Diretor.
            - Posso aprender muito rapidamente.
            - A vida é representar. Uma atriz está sempre no palco. Não importa o lugar ou a situação.
            - Aonde, Doroteu?, eu já to digo!
            Alice pervagou o olhar pelo salão real, praticamente decorado com ouro brasileiro. Era a rainha Maria I, a louca, sentiu uns calores, desesperos, esquentamentos, calafrios, ouviu uns estalidos, zumbidos, cochichos, assobios, e sempre nessas horas se tomava de um frenético caminhar de cá para lá e de lá para cá, socava o próprio crânio, e sabia que era rainha, não sabia que era louca, parou para ouvir uma conversa reservada, aconselhada condenou o líder popular ao enforcamento e ao esquartejamento, lhe falaram que seu procedimento era justíssimo, depois de ouvir os conselheiros por mais cinco minutos decidiu, assinou a condenação, e saiu para passear já que o dia lá fora estava ótimo para passeio, nuvens fugindo do sol, passeio de mãos dadas com o irmão que já morrera, andando entre aleias de lelias-amarelas, Maria I parou na sombra de um caraipé.
            Depois de quilômetros de ensaio, meio-dia passado, Alice foi almoçar com o Mateus, um dos atores, sujeito formidável.
O olhar de Alice estava, então, cheio de distâncias a percorrer, sem montanhas no horizonte, sem cidade, sem lastro. Naquela mesma manhã, Alice acordara com a cara de sempre, acordara sabendo que estava acordando. Os olhos em compota? Os olhos pisados? Os olhos acordando? Os olhos construindo um mundo redondo?
            Alice doía todas as partes do corpo, após o tal ensaio, e para o Mateus:
            - Será que devo ser atriz, meretriz ou perdiz?
            - E eu? Você não vê que fico todo santo dia me perguntando a mesma coisa super importante? Mas eu queria mesmo morar para sempre na ilha de Itacolomis. E conhecer o nome das plantas e dos bichos.
            - Então, isso dói na alma.
            - É, a alma sofre pra cachorro.
            - E sofre também pra burro ou burra.
            - Nosso segredo mais secreto é comum: é esse nosso pequeno mundo suficiente que cada um vê e vai associando. Somos o que vemos.
            Alice devaneou, foi em frente, um olhar aéreo, olhar sem fundo, vontade de um troço, de repente, e passava um trem de ferro correndo dentro da paisagem, a estrada correndo, a paisagem contando, o trem correndo nhéque! nhéque!... correndo, a paisagem correndo, e a esticada Alice ficando e não saindo do lugar, e não vai?, não foi?, não vai?, não foi?, e Alice, tu tu tu!... e não era apenas um trem de ferro e sim uma jamanta carregada de toras e sem freios morro abaixo, galengalenga! galengalenga!... depois, Alice parou, balançou a cabeça, um navio ancorado ali do lado, silencioso, Alice balançou a cabeça, saiu do devaneio, voltou de súbito, chegou, foi falando:
            - Meu pescoço apertado, sufocado. Meu coração apressado. Talvez, olhando bem, até esse vazio que me faz dobrar sobre mim mesma, me enrodilhar como um vira-lata doente.
            Mateus tinha um ar de deboche, um olhar úmido, um ar de ator para três meses de experiência, um olhar para o caos do bar, um olhar se achando, um olhar de etê, uns olhos de jabuticaba. Alice, a saudosa:
            - Tive uma amiga chamada Tê, e tal.
            - Tê de quê? De tatu?
            - De Teresa, Teresinha, Tetê.
            O mundo parou um pouco em silêncio, e pararam de engolir, e o mundo não mais funcionou como uma locomotiva atômica. Copos de chope bem assentados sobre as bolachinhas na mesa. Alice voltou depois à tona como se estivesse acordando de outro naufrágio, de um suicídio, de um martírio:
            - E se a gente se refugiasse no bairro Umbará, hein?!
            - E se a gente se suicidasse na ilha Guará, ãnh?!
            - Peraí, já sei, já sei!...
            - Santa Ágata, doenças do peito; Santo Antônio, cabeça vazia; São Pantaleão, doido lunático.
            Pouco antes de acordar, naquela manhã bem cedinho, Marcelle já fazia seis anos de idade, bonita que chamava a atenção, mais pelos cabelos altos de juba, cacheados, cheios, seis anos em ponto, como uma juba de leão mesmo, igual um leão, faminta, pacífica, bocejante e muito mais bonita.
            Um dia, uma hora, uma tarde quase noite, Alice e Marcelle passeavam, à tardezinha, coisa calma, coisa feliz, pela rua XV de Novembro. A mão de Marcelle esticada para a lua. Foi raro e rápido, nem deu pra ver. Alice, roupas claras e cabelo solto, disse:
            - Você pegou, filhinha?
            Marcelle, os dedos lambuzados, menina leve, mansa, esvoaçante, disposta, engraçada, retornou:
            - Vamos voltar outro dia, mãe? De dia ou de noite, tanto faz.
            - Mãe abraça você.
            Semana seguinte o diretor, aquele tal de brinco em aro numa orelha, lenço floreado no pescoço, boina azul com rabicho, e um sotaque barriga-verde, o professor e diretor de teatro, descobridor de talentos jovens, descobridor de novos talentos, ensaiando trechos:
            - Quando eu disser: estátua!, todo mundo estátua, soquei?! Então, vamos nessa! Dois, um, três e já... congela!
            Alice congelou olhando a parede branca, concentrada, esquecendo-se, não pensando em nada, nada, não vendo nem mesmo a parede, que parede?, olhando um ponto entre ela mesma e a parede, ali no ar, como fazem os monges budistas nos dois terços da vida, como esses monges budistas olham o muro de pedras do mosteiro, fazendo as refeições ali, ali dormindo, se balançando ali na posição de iogue, esquecendo tudo, deixando a respiração quase parada, diminuindo em muito as batidas do coração, como fazem os monges das montanhas muito tope do Himalaia, no meio do vasto silêncio da altitude, no teto do mundo.
            Uma hora da tarde, Alice e Margarida, colegas na aula de teatro, pararam num bar-café.
            - Ah!, Margarida, quase dormi de estátua. Muito bom.
            - Até esqueci de mim mesma. Não mais me sentia. Quase nem respirava. Ou talvez nem isso. Me vi quase quase uma sucuri ali desocupada, uma jabota esperando o mundo passar, uma tamanduá-bandeira jurumirim.
            - Lutei pra ficar estátua, tentando me convencer, fugindo dos pensamentos. Depois, me deu um branco por sei lá que tanto tempo. Hibernei no fundo de uma gruta. Me encolhi no oco de um jequitibá. Passei por dentro de uma pedra. Virei uma boa pedra no muro de pedras. No final quando acordei ainda era estátua.
            O diretor explicava. O diretor careca em cima no coco, aeroporto de mosquitos, e cabelos longos transados até o meio das costas, colar de penas de arara-vermelha-grande. O diretor fazia desenhos no ar com a mão esquerda. Tinha hora que a mão virava leque, lenço ou pandeiro. O diretor conduzia, dizendo:
            - Agora, somos carnívoros. Vamos comer uma vaca... ou preferem um boi? Já dividi o corpo em 30 porções. Uma para cada um. Para um caberá o filé, outro terá carne de pescoço, outra ainda o bofe e haverá aquele que roerá o osso. Para um as entranhas, para outro a mala, para outra as orelhas. Roeremos ossos e beberemos sangue. E não temam, pois o presunto é saudável, verde, musculoso, de boa família. Hoje será esse boi servido cru e sem tempero, mas outra oportunidade faremos um churrasco de cabritinhos regado a vinho crioulo de garrafão.
            Bem antes do mundo chegar, bem depois, bem antes de alguém ver e rever, a Marcelle já olhava através da vidraça da janela da sala, olhava lá para fora, via tudo que passava no espaço do céu e da rua Marechal Deodoro, olhava o ipê-amarelo, a curupitã, olhava o beija-flor verde metálico com gola branca e que bicava, flutuava igual helicóptero de flor em flor, e ela ainda olhava os brincos-de-princesa de cor vermelha, e ainda as nuvens esgarçadas, reparava nos coleirinhas reinando sem parar em voos curtos e pousos perigosos nas hastes de capim, falou a ninguém:
            - Ipê-amarelo? Eu te reconheço. Não, não te conhecia. Te conheço de pouco tempo. Eu não era daqui. Agora, já somos daqui mesmo.
            Alice e suas saudades do tempo que ainda não foi, tempo que não voltou, coisas que poderia ter feito, viagens que não fez. Não foi e não voltou. Saudade que se sente de um dia no futuro, um sonho que restará por fazer, saudade das cidades que gostaria de conhecer... Paraí, Jati, Pedra Grande, Santo Ângelo, Baependi. E ela já imaginou um dia passear por aí... Sapeaçu, Aurora, Anta Gorda, Mariana, Curitibanos. E nessas cidades ela seria alguém?, não seria nada ou anônima passando pelas ruas... Itambé, Iacanga, Piracicaba, Olinda. E Alice já chegou, viu, gostou... Almadina, Passa Sete, Virgínia. E qual o dom tão bom dessas cidades... Rio Preto da Eva, Melgaço, Jericó, Ijaci. Sempre que ela poderá viajar e estar longe ou perto... Lagoa da Prata, Vertentes, Bacuri. E estas saudades a completam e não a largam nunca mais... Abadia dos Dourados, Boa Nova, Santa Maria. Alice gostaria de encontrar, realmente ver e se encantar... Jiquiriçá, Pinhalzinho, Porto Firme. E a moça sorri um sorriso bobo e ninguém lhe pergunta o pôr do sol em... Rio Bom, Camocim, Apiaí. A moça quereria nascer cem vezes e nascer nas cidades que viu primeiro... Mamboré, Caapiranga, Valo Fundo. E ela se demorará muito, um ano ou dois, talvez dois, por aí, em... Ouvidor, Casca, Narandiba. E outras tantas mais longe e outras mais longe ainda... Cedro, Canhotinho, Cabedelo, Conceição da Aparecida. Que bonitas cidades, se se pudesse morar para sempre... Lajes, Jardim, Jardim Alegre. Ali Áli descobriu um enigma em cada sombra... Mãe d’Água, Santo Amaro, Pinheiros. E toda a vida esperará encontrar aventuras, tempos que não poderá viver todas as saudades, cidades que não alcançará, cidades que ainda vão inventar.
            O bar-café Boqueirão estava movimentadíssimo àquela hora da tarde. Gente sentada em volta de mesinhas redondas, gente andando com cerveja na mão, gente de cotovelo dobrado no balcão, pessoas rindo mascando gomas, pessoas falando e rindo e bebendo. Aí, Alice sentiu, e viu, com surpresa, Margarida pegar sua mão, a mão de Margarida como alçapão de pegar curió incauto, segurar a sua mão e a sua alma, Alice tonteou, não tinha registro nas suas ideias sobre isso, não soube o que fazer, vermelhou como tomate, o rosto e principalmente as orelhas pegaram fogo. E se alguém reparasse? Olhou em volta uma primeira vez. Queria recuperar a mão, mas não teve forças, ou coragem, ou alma. Não queria decepcionar a amiga, talvez, e com sorte não fosse nada, e o papo rolando sobre tudo, as conversas em torno, quem sabe não era nada mesmo, só um gesto mais terno. Alice sentiu cócegas, vontade de rir, um riso nervoso e particular. Margarida estava calma, calma, e com um olhar fundo, aguado, carinhoso demais, com a outra mão Alice bebericava o guaraná, equilibrava os cabelos, sensação de garganta seca, gole de guaraná, e tempo perdido. Como passar batida por essa cena de novela? De repente fosse só o jeito sonso lá dela, só isso, pensou Alice. Para onde foram todas as vozes do bar-café? Onde estavam as pessoas todas do bar-café? A boca de Margarida colocando a voz rouca numa pergunta curta, os dentes claros entre os lábios úmidos:
            - Vem comigo pra Floripa? Praia Pântano do Sul. Devo ir agora.
            - Existe a ilha da Magia.
            - Meiembipe, ilha dos Patos, Desterro, ilha de Santa Catarina.
            Os olhos de Margarida mantinham uma calma, aguados, praticamente cerrados, como de alguém com vontade de dormir, uma gatinha preguiçosa, uma felina de miados mansos, uma caxinguelê novinha em folha. Alice reparou melhor, sim, os olhos de Margarida estavam lagrimejantes, o rosto de veludo cotelê e pêssego pediam carícias, lábios em biquinhos afetados, rosto bonito feito para pegar, a boca em forma de coração feita para beijar, umas mechas de cabelo em frente no olho de cá. E Margarida falava pouco, mas quando articulava as palavras estas saíam com as sílabas escandidas, movimentando os lábios com modos provocantes, sensuais, como fazem os peixes. Embora elas duas ali ainda não tratavam de assuntos íntimos e secretos... Alice, olhando pela janela ampla:
            - Olha!... Ouviu?!... O curió é clássico.
            Alice pôs um plano na ideia, e foi fazendo um esforço para retirar sua mão de debaixo da mão de Margarida, levaria uma hora, uma eternidade, não queria magoar ninguém, também não acreditava no que pensava que estava acontecendo, quem sabe fosse nada, só o jeito dela, e foi puxando a mão, puxando, e quando só ficaram as pontas dos dedinhos Alice parou, e parou. Por que não? Uma amiga não tinha o direito de pegar na mão? Mas essa ideia seria melhor pensar mais tarde. Pensar e rever noutra ocasião ou outra direção ou outro sentido. O hálito de Margarida lembrava... o quê? Recordava um chá de camomila na tarde de chuva. Estaria certa? Chá doce de camomila no inverno, chuva e vento carpinteiro?
            Para fora do bar-café, além da janelona, no capão de pitangueiras, cantava o curió, cantava outro curió, e mais um ou dois, com certeza eram dois ou três. E a tarde ia entrando com mais um bandinho de almas-de-gato. Eram umas dez aves estrilando aí.
            O primeiro dia de escola e Marcelle se viu muito chateada e perdida. Uma calça de linho verde, uma camiseta de algodão azul: cortadas e costuradas na fábrica, vendidas prontas na loja, vestidas pela menina e que durariam uns dois anos. Uma mochila, um grande caderno, dois cadernos, lápis de cor, celular verdinho e foram para a escola. Foi sendo conduzida com calma, bonitinha e penteadinha. De mão dada com a mãe. A mãe puxava assunto. E na hora de entrar para a sala de aula, a guriazinha olhou os lugares, muitos lugares já ocupados pelos futuros coleguinhas, as carteiras em fila, os aluninhos olhando em silêncio, disse para a mãe:
            - Não tem lugar pra sentar, então, vamos voltar...
            Alice e Alberto foram mendigar, esmolar. A praça Tiradentes parecia sempre fim de expediente, isso qualquer hora do dia. Pela calçada da XV de Novembro, onde o trânsito de pedestres era intenso, foram desviando, entraram na padaria e olharam com olhos doces as guloseimas doces e expostas e fraturadas. Os curitibanos caminhavam logicamente apressados e sempre com embrulhos debaixo dos braços. Alice faltava um dente e Alberto bêbado, imundos. Pararam no balcão da loja de joias, na lanchonete ganharam pedaços de pizzas, sentaram no passeio, os pedestres em volta seguiam acostumados. Alberto se deitou no banco e dormiu. Alice sacudiu a caneca das moedinhas. Um policial ordenou que andassem, andassem. Alberto fez xixi na parede. Foram vistos por um mendigo que deixou bem claro que ali o território era seu lá dele e zero de concorrência.
            O diretor, bermuda floreada e chinelos de dedo, lenço verdinho amarrado no pulso esquerdo, correntinha dourada com crucifixo dourado no pescoço, barba por fazer, olhar de pescador, olhar de caçador, olhar de artilheiro, olhar de cachorro-vinagre-do-mato, convidou:
            - Será um vídeo erótico, não pornô. Importante que os gemidos e sussurros e palavrões e gritinhos sejam em português.
            Então, o grupo se trancou alguns dias num barracão na parte antiga da cidade, lá para os lados do Xaxim. Seus nomes verdadeiros preservados, todas as mulheres de unhas curtas e sem silicone nos peitos e na bunda e nos lábios ou outro lugar. Assim: Gina estava sozinha na cama, uma música suave no fundo, só um violino calmo, e ela foi se acariciando, gemendo, roncando como gata no cio, despenteando o cabelo, chupando os dedos. Aí, correu para o chuveiro. Do nada apareceu a Tina. Uma ensaboou a outra e se beijaram, estalinhos de beijos, ajoelharam, rezaram. E logo Gina e Tina dançaram nuas no meio da sala de ladrilhos floridos. Entrou o Michel, que abraçou Gina. O casal deitou no sofá verde e fizeram amor sem piedade, chuchurreios, malabarismos, gols de letra. Tina acompanhou com água na boca e língua entre os lábios ou entre os dentes borrados de batom azul, e Gina convidou Tina, Michel gostou toda a vida e muitíssimo. Um tempinho surgiu o Cacá. Gina e Cacá no quarto, Tina e Michel no sofá verde. E já no almoço chegaram mais a Lili e o Rico. O grupo bebeu e fumou e cantou caraoquê. Lili e Rico fizeram amor sobre a mesa e com o resto do almoço, tapinhas na bunda, apetrechos eróticos que dizem não machucam e só ajudam. Os assistentes torceram, narraram, vaiaram e riram. Foram para a cama todos todos juntos de uma só vez. Quebraram a cama, isso sim.
            O sol que inventa o dia, que inventa as cores, que inventou Curitiba. Nessa idade de seis anos para fazer sete anos, Marcelle tinha muito bem a fantasia despreocupada, desarrumada. E cabelos esfarelados aos ventos. Uma menina que não fazia nada de mais nem de menos:
            - Mãe! Quantos automóveis pela cidade?
            - Doze ou quinze... mil.
            - Vinte mil, então?
            - Um milhão.
            - Cinco milhões e novecentos e setenta, e pronto.
            Quando passeava de carro, quando andava de carro, quando andava de ônibus Marcelle ficava olhando tudo, olhando as coisas, olhando com a cara no vidro, olhando as pessoas na calçada, contando as garagens, contando as árvores mais crescidas, contando os fuscas, contando as esquinas, e Marcelle era feliz:
            - Pega fusca oito, pega fusca nove...
            A cidade desafogada. Um domingo de tarde comum. Rua Voluntários da Pátria. O céu alto, mas tão alto. Um domingo com dia claro. Um domingo para ir aos jardins de Curitiba. Um domingo no parque Tanguá. Marcelle fazia gestos largos, redondos, trançados, alados, rápidos. Marcelle apostou corrida com Alice:
            - Corre, corre, mãe!
            Depois, Alice e Marcelle sentaram num banco debaixo de umbroso pente-de-macaco. Ouviram uns passarinhos importantes, bem-te-vis-piratas, gavião-carijó, tesoureiras, corrupião. Uma tropa de pinheiros-do-paraná. Um laguinho com curimbatás. Outros passarinhos, o coleirinha, o sabiá-do-campo, o jaguarana-pixuna, o bico-de-lacre, o beija-flor-de-garganta-azul, a corruíra. Alice, saboreando um ou dois pensamentos tranquilos, distendeu:
            - Ouvem que os curiós estão extintos. Mas é mentira. Os curiós estão aí. Os curiós sobrevivem, sobrevoam, embora seus algozes.
            Dizem toda vida, que somente o destino consegue desembaraçar as pessoas. E as pessoas são tão velozes ou lisas que só mesmo o destino para alcançá-las.
            Outra quinta-feira, noitinha, ainda clarinho, Alice e Margarida voltavam, cruzando pelas ruas transversais, palácio Avenida, bares com roda de chope na calçada, praças com crianças nervosas, cachorros e donos passeando de coleira, sapos coaxando não se sabia onde, uma janela do prédio assistindo novela, museu Oscar Niemeyer, quando Margarida travou e tomou a frente. Pessoas desconhecidas cruzavam ruas e avenidas carregando embrulhos debaixo dos braços ou debaixo do braço. Margarida pegou, com suas mãos em concha, as duas frente a frente, ela pegou os cotovelos de Alice, Margarida desabafou:
            - Acho as mulheres mais macias e fofas e caldas de caju bem maduro. Sem contar que são também bem mais bonitas. Gosto de muito cabelo.
            - Existe palavra mais bonita de dizer e ouvir que esta: pinacoteca!
            - Vamos fugir só nós duas, só nós três?! Vamos... Eu estava pensando numa cidade alegre tipo, Pouso Alegre, Porto Alegre, Buriti Alegre...
            O diretor, olhos verdes e calmos, bandana patriótica segurando os cabelos grisalhos, chegou ao balcão e depôs o seguinte: uma bem nutrida raiz de cenoura, borboleta verde pulsante, bacia de alumínio com água, galho de tinguaciba-do-pará, paralelepípedo, ramo de orquídea e curió raptado.
Esses apetrechos foram distribuídos no cenário decorado como quintal. Alice, uma cenoura só de cabelos verdes alçados; Mateus, uma tinguaciba de folhas dentadas, largas e verdes; Margarida, um ramo de flor de orquídea de cor cor-de-rosa; Jerônimo, uma pedra basalto de arremesso; Márcia, uma poça de água da chuva decorada com nuvem branca; Rogério, uma borboleta verde e pulsante com olhos negros nas asas; Marilu, um pássaro importante e canoro parecido com o famoso e extrovertido curió.
            Então, Alice amanhecia coberta de sereno, com gosto de terra na boca; Mateus sacudia de leve os galhos e perdia umas folhas; Margarida ia se abrindo conforme a luz do dia; Jerônimo parado, parado, respiração presa, todo concentrado, congelado, estátua; Márcia refletia o céu azul, ou mais ou menos, talvez até aquela uma nuvem branca; Rogério bateu asas todo sem educação e, meio às tontas, pousou na Margarida; Marilu voou sobre o quintal, deu uma voltinha, e escolheu um braço de Mateus para pousar e curiosar o ambiente.
            O clima e o tempo e o relógio andavam girando sobre o ar do quintal. Marilu se jogou ao chão onde bebericou uma líquida Márcia; Márcia tremeu em toda a superfície, alargou círculos, se arrepiou, vibrou em círculos tímidos, desidratando; Rogério sugava o néctar de Margarida que balançava muito leve no vento calmo; Marilu viu o Rogério tremer a poucos metros; Marilu se sacudiu toda e saltou para as costas de Jerônimo; e Rogério, sentindo o perigo, alçou voo, tonto, tonto; Marilu irrequieta, esperta, desconfiada, observou o movimento todo trêmulo de Rogério se afastando para o lado dos galhos protetores de Mateus; antes que Rogério se visse, e com certeza Rogério saía talvez um pouco devagar demais, a Marilu o caçou no ar com super, hiper, mais ou menos, muita habilidade; e Marilu ainda descansou no braço de Mateus, limpou o bico no braço mais alto de Mateus e cantou harmonicamente para quem esperasse ouvir.
            Margarida saiu de casa com o dia pintando. A sorte que nasce em Deus e que vai para cada um e para todo o mundo. Tudo procurando seu eixo. Os olhos dela tinham aquele brilho: desejava abraços. Passou na floricultura e olhou, olhou, comprou flores. Olhou rosas amarelas, mosquitinhos e orquídeas. Olhou que uma pomba-rola arriscava a vida procurando na calçada. As pessoas iam à feira e voltavam para casa com pacotes debaixo dos braços ou nos braços.
Alice em casa ouvindo música pelo rádio, “estou feliz, feliz, como na primeira vez que eu te quis...” E Margarida encontrou Alice em casa ouvindo rádio. Alice era de ficar olhando para uma coisa durante um bastante tempo, e somente depois era que suspirava, acordava e seguia, nessa ordem, ou então, concluía:
            - O rádio toca cada música, guria!
            - São algumas margaridas pra ti, pra nós. Margaridas são as flores do bem-me-quer. Você quer ir comigo viajar? Estava pensando... Eu me lembro de umas cidades com bichos, Patos, Pato Branco, Uru...
            Alice deu uns passos até a janela, assim, abraçada às flores. Alice ainda cheirou as pétalas. Alice comeu uma pétala de rosa amarela. Margarida, juntou:
            - Vamos vender cangas na praia de Torres ou redes de carijó na ilha Anchieta. A gente poderia vender também outras coisas em outras praias e outras ilhas. Taí, vamos conhecer o Itaimbezinho! Vamos para a ilha Triângulo! Para a praia de Ibicuitaba!
            Alice não respondeu, ficou olhando pela janela. Margarida chegou perto, olhou pela janela, perguntou:
            - O que tá pensando, guria?
            Então, Alice filosofou:
            - Uma formiga sabe quanto deve andar, um curió sabe quanto deve voar, um guapuruvu sabe quanto deve crescer.
            Três quatro dias já haviam desistido. Aula laboratório. O diretor com um cocar tingui na cabeça, pés descalços, guaiaca na cintura, um fuzil em bandoleira:
            - Você pode, Alice.
            - Ah, posso?
            - Se fazer de cega...
            - Hoje?! Assim?!...
            Alice saiu sozinha do teatro, ela e a bengalinha, toque! toque!... Cutucando os caminhos escuros ou quase escuros. Foi costeando a parede do prédio do teatro até a esquina. Alice seguia nervosa, reparando nos sons da cidade, guinchos, chilros, urros... Via somente pontos de luz mais fortes, menos fortes. Esbarrou em várias pessoas. A primeira vez que era cega. Bateu as aspas no orelhão e doeu. Cruzou a rua com providencial ajuda. A praça ela já conhecia de vista e de ouvir falar. Procurou pensar. Reparou os sons, os cheiros, os pontos mais luminosos. Haveria curvas e ziguezagues. Sentou num banco. O chafariz refrescava o ar. O sol queimava seu lado direito, ainda a manhã. Resolveu voltar. Contou os passos até a avenida Barão do Rio Branco, o som do tráfego, esperou fechar o sinal, alguém se ofereceu para guiá-la, e atravessou. Tateou a parede do prédio do teatro. Encontrou a porta aberta. Tropeçou mais uma vez no capacho e pronto.
            Na saída do ensaio, o diretor, anéis em todos os dedos das mãos, que eram largas e grossas, puxou Alice para um canto e falou, um bafo de bala hortelã ou menta, barba hirsuta, assim, falou:
            - Há uma proposta de emprego para ti.
            - Este mês??
            - Um estúdio japonês quer te contratar.
            - Tô com vontade de ir para Florianópolis. Lá sou amiga da praia Mole, da praia dos Ingleses, da praia Brava, da praia Jurerê...
            - Cinema pornô. Querem uma atriz para filmes exóticos. Pagam seu peso em ouro.
            - De Ahu a Tóquio...
            Naquela quinta-feria, Marcelle telefonou para um coleguinha chamado Carlinhos, telefonou para a melhor amiguinha da escola, exatamente a Elisinha, Lisinha, e telefonou para uma outra amiguinha chamada Prim. E pensou. Depois, quis ter certeza e perguntou:
            - Mãe! Posso telefonar pra profe?
            Alice veio da cozinha com uma cestinha de palinha cheinha de empadinhas:
            - A profe te deu o telefone?
            - A profe me deu o telefone.
            - Bom, então, se a profe te deu o telefone... telefone.
            Margarida não aparecia aos ensaios havia três dias. Alice pegou e foi, comprou doces artesanais, caixa de bombons com recheio de marmelada de uva, um bonequinho fofo de cachorrinho salsicha. Margarida a esperava, doentinha, tristonha, camisa de pijama de florzinha, na cama de solteira. Margarida de olhos muito apertadinhos e cabelo assustado, calça de pijama de bolinhas azuis em campo branco.
            - Que ótimo. Obrigada. Tô na cama assistindo tevê e tomando chá de camomila. Tô desanimada. Preferia um sorvete de laranja com goiaba.
            Conversaram coisas das aulas de ensaio, coisas aleatórias, coisas da sorte, a tevê ligada em qualquer canal, viagem para uma cidade com rio ou rios tipo Palmas, Alegrete, Cuiabá, o cedê tocando Villa-Lobos sem parar e bem baixinho, ritmo lento e tropical.
            - Pensei numa cidade com nome de pessoa, Leopoldina, Marília, Castro, João Pessoa...
            - Onde eu aportar, o centro do mundo.
            Margarida falava com uma voz quase rouca e arranhada e dolorida, ofereceu:
            - Cerveja? Refri? Chá? Suco de abacaxi? Chima? Água mineral sem gás? Água de coco?
            - Qué uns tapinhas na bunda!
            Depois de uns goles de chá e colocar a xícara para descansar, Margarida foi e se aninhou no colo de Alice. Assim, as duas ali na cama. Meio sentadas e meio deitadas, meio assistindo tevê, meio ronronando. Tomando chá, ouvindo harmonias tropicais e comendo biscoitos de chocolate com recheio de abóbora. Margarida com os lábios finos e descascados, olhos puxados. Alice esticava de mansinho as pontas suadas dos cabelos de Margarida. Margarida fez beicinho trêmulo, de choro, Alice acariciou os ombros da amiga, Margarida foi foi até que escorregou e beijou os joelhos de Alice.
            - Você tem joelhos lindos, Alice.
            Alice não falou nada, só sentiu que tinham chegado a um ponto. Alice se arrepiou toda. Pensou pegar os seios de Margarida com as duas mãos e beijar. Achou também que a vida estava bem. O arrepio pelo corpo era gostoso, que aquele arrepio já passava, e se não passasse seria melhor. Foi até ali e olhou pela janela. Não sabia por que tinha vontade de rir, um riso talvez nervoso, um riso de alegria estranha, mas não riu, se concentrou para não rir alto e não riu mesmo, Alice disse:
            - Não vamos mais para Florianópolis?
            - Praia da Armação, praia de Canasvieiras, praia da Joaquina...
            - Olha!... Ouviu?!... O curió, ainda agora, escapou...
            Um show beneficente. Era uma praia deserta, de difícil acesso, recanto paradisíaco, mulheres quentes, filmagem pornô, cinco as atrizes, todas de óculos escuros, Alice vestida de odalisca, música árabe no fundo e mil lenços de seda coloridos caindo do corpo, o rosto encoberto por um véu verde transparente, o ar de mistério, sensualidade, meneios coleantes de serpente venenosa tentando hipnotizar a presa, muitos lenços de todas as cores, a barriguinha muito reta com sobe e desce, Alice chutava o ar, parecia querer voar, balançava as cadeiras, tentou nadar com as asas da borboleta, o véu verde do rosto foi o último a cair.
            Olhando para o céu naquela hora calma da noite. Noite de Curitiba. Uma lua apareceu em flagrante silêncio. A lua já subia em silêncio. E um silêncio ainda maior. E o silêncio caía das estrelas por igual, o silêncio evaporava das águas por igual, o silêncio crescia da terra por igual, o silêncio aflorava das árvores por igual, o silêncio escalava dos prédios por igual. Silêncio imenso. Silêncio lunar.
            - Estou em silêncio, estou preocupada, estou interessada com ir para.
            Então, Alice e Marcelle e Margarida decidiram morar na Bahia de Todos-os-Santos. Já inventavam outro pé na estrada, viajar. E Margarida fazendo as vezes de tia de Marcelle. A Bahia calorosa, dos papagaios, da cidade alta e da cidade baixa, das tantas igrejas e pais-de-santo e mães-de-santo, do candomblé, dos raríssimos carnavais, da ladeira da Barra. Negras carregando tabuleiros de cocada preta e branca, vendendo acarajés, vatapás, xinxins, pés de moleque. Escadarias e calçadas e praias e praças e terreiros e ladeiras. Marcelle carinhosa, calma, manhosa, canto harmônico como do curió. Bahia do recôncavo baiano, da ilha de Itaparica, da música a todo volume, trio elétrico, soteropolitanos sopitados.