Curitiba
tem vampiros de Curitiba. As chuvas não são ali tão abundantes, mas o inverno
faz faz muito frio. Arraial de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos Pinhais.
Aeroporto Afonso Pena, cidade do muito pinhão, Água Verde, Butiatuvinha, Atuba,
a temperatura oscilando entre 27°C
e 29°C .
Uma cidade bonita e sem volta.
Não, não, pois
os curiós não estão rachando a fluência de suas melodias. As pessoas andam nas
calçadas, não sobre os telhados; os aviões passam por entre as nuvens, não por
baixo das montanhas; a mulherada chama Maria das Graças; e os vampiros de
Curitiba também trabalham no período diurno.
Marcelle
berrou como num escândalo, e disse, mais ou menos:
-
Eia! Um rio!...
Era
mesmo um rio. Marcelle via o rio Iguaçu. Dizer pra ela que todas as cidades têm
seu rio ou seus rios. Ninguém se perde, ninguém se extravia, ninguém se belisca
na cidade estranha. A guriazinha pedalou:
-
Para onde corre o rio? Será que vai a Paranaguá?
O
rio que parecia mesmo com uma corda deitada, uma fita desamarrada, uma cobra
serpenteando, um rastro de lagarto. Um bando de borboletas brancas acompanhava
o curso. Mata ciliar, passarinhos da mata ciliar, japu, bem-te-vi-cinza,
colibri, sabiá-do-campo, tesoureira. Mata parecida, grandes folhas, árvores de
todos os tons, itaúba-vermelha, pinheiro-do-paraná, chichá, peroba-tabuada. Rio
correndo para Itaipu, bebendo água para beber, cintilando riso solto de
libélulas e besouros. Alice disse, de entrada:
-
Em primeiro lugar, e eu não sabia, será que fiquei mesmo sabendo?, que o
arco-íris tem a sua boa e própria sombra. Será? Nunca antes tinha pensado
nisso.
O
labirinto da cidade movimentada, parque Barigui, gente por todos os lados, rua
Saldanha Marinho, de dia um formigueiro, pé de sassafrás, de noite com as luzes
enevoadas. Cada cidade com seu mundo particular.
-
Vai que eu tenho mesmo um negócio com meu destino!
Todas as pessoas
das ruas, das calçadas, dos espaços aéreos, artérias viárias, levavam embrulhos
de compras debaixo do braço. E também nas mãos, nos braços, nas costas, no
arrasto e no arremesso. Todos carregavam alguma coisa para algum lugar,
podia-se reparar.
-
Muita gente também procura o que se procura, e não encontra em parte alguma.
Não seriam
nove horas de uma manhã de sábado, e mais um dia para Alice no seu curso de
aprendiz de atriz. No teatro Paiol o diretor, óculos verdes, boné do time do
coração, pente azul de cabo no bolso traseiro da calça azul, voz de barítono,
falou:
-
Contudo, você pode ser atriz.
-
Sim, e é meu longo sonho, senhor diretor.
-
Tudo bem. Se se sentir melhor pode realmente continuar me chamando de... Senhor
Diretor.
-
Posso aprender muito rapidamente.
-
A vida é representar. Uma atriz está sempre no palco. Não importa o lugar ou a
situação.
-
Aonde, Doroteu?, eu já to digo!
Alice
pervagou o olhar pelo salão real, praticamente decorado com ouro brasileiro.
Era a rainha Maria I, a louca, sentiu uns calores, desesperos, esquentamentos,
calafrios, ouviu uns estalidos, zumbidos, cochichos, assobios, e sempre nessas
horas se tomava de um frenético caminhar de cá para lá e de lá para cá, socava
o próprio crânio, e sabia que era rainha, não sabia que era louca, parou para
ouvir uma conversa reservada, aconselhada condenou o líder popular ao
enforcamento e ao esquartejamento, lhe falaram que seu procedimento era
justíssimo, depois de ouvir os conselheiros por mais cinco minutos decidiu,
assinou a condenação, e saiu para passear já que o dia lá fora estava ótimo
para passeio, nuvens fugindo do sol, passeio de mãos dadas com o irmão que já
morrera, andando entre aleias de lelias-amarelas, Maria I parou na sombra de um
caraipé.
Depois
de quilômetros de ensaio, meio-dia passado, Alice foi almoçar com o Mateus, um
dos atores, sujeito formidável.
O olhar de
Alice estava, então, cheio de distâncias a percorrer, sem montanhas no
horizonte, sem cidade, sem lastro. Naquela mesma manhã, Alice acordara com a
cara de sempre, acordara sabendo que estava acordando. Os olhos em compota? Os
olhos pisados? Os olhos acordando? Os olhos construindo um mundo redondo?
Alice
doía todas as partes do corpo, após o tal ensaio, e para o Mateus:
-
Será que devo ser atriz, meretriz ou perdiz?
-
E eu? Você não vê que fico todo santo dia me perguntando a mesma coisa super
importante? Mas eu queria mesmo morar para sempre na ilha de Itacolomis. E
conhecer o nome das plantas e dos bichos.
-
Então, isso dói na alma.
-
É, a alma sofre pra cachorro.
-
E sofre também pra burro ou burra.
-
Nosso segredo mais secreto é comum: é esse nosso pequeno mundo suficiente que
cada um vê e vai associando. Somos o que vemos.
Alice
devaneou, foi em frente, um olhar aéreo, olhar sem fundo, vontade de um troço,
de repente, e passava um trem de ferro correndo dentro da paisagem, a estrada
correndo, a paisagem contando, o trem correndo nhéque! nhéque!... correndo, a
paisagem correndo, e a esticada Alice ficando e não saindo do lugar, e não vai?,
não foi?, não vai?, não foi?, e Alice, tu tu tu!... e não era apenas um trem de
ferro e sim uma jamanta carregada de toras e sem freios morro abaixo,
galengalenga! galengalenga!... depois, Alice parou, balançou a cabeça, um navio
ancorado ali do lado, silencioso, Alice balançou a cabeça, saiu do devaneio,
voltou de súbito, chegou, foi falando:
-
Meu pescoço apertado, sufocado. Meu coração apressado. Talvez, olhando bem, até
esse vazio que me faz dobrar sobre mim mesma, me enrodilhar como um vira-lata
doente.
Mateus
tinha um ar de deboche, um olhar úmido, um ar de ator para três meses de
experiência, um olhar para o caos do bar, um olhar se achando, um olhar de etê,
uns olhos de jabuticaba. Alice, a saudosa:
-
Tive uma amiga chamada Tê, e tal.
-
Tê de quê? De tatu?
-
De Teresa, Teresinha, Tetê.
O
mundo parou um pouco em silêncio, e pararam de engolir, e o mundo não mais
funcionou como uma locomotiva atômica. Copos de chope bem assentados sobre as
bolachinhas na mesa. Alice voltou depois à tona como se estivesse acordando de
outro naufrágio, de um suicídio, de um martírio:
-
E se a gente se refugiasse no bairro Umbará, hein?!
-
E se a gente se suicidasse na ilha Guará, ãnh?!
-
Peraí, já sei, já sei!...
-
Santa Ágata, doenças do peito; Santo Antônio, cabeça vazia; São Pantaleão,
doido lunático.
Pouco
antes de acordar, naquela manhã bem cedinho, Marcelle já fazia seis anos de
idade, bonita que chamava a atenção, mais pelos cabelos altos de juba,
cacheados, cheios, seis anos em ponto, como uma juba de leão mesmo, igual um
leão, faminta, pacífica, bocejante e muito mais bonita.
Um
dia, uma hora, uma tarde quase noite, Alice e Marcelle passeavam, à tardezinha,
coisa calma, coisa feliz, pela rua XV de Novembro. A mão de Marcelle esticada
para a lua. Foi raro e rápido, nem deu pra ver. Alice, roupas claras e cabelo
solto, disse:
-
Você pegou, filhinha?
Marcelle,
os dedos lambuzados, menina leve, mansa, esvoaçante, disposta, engraçada,
retornou:
-
Vamos voltar outro dia, mãe? De dia ou de noite, tanto faz.
-
Mãe abraça você.
Semana
seguinte o diretor, aquele tal de brinco em aro numa orelha, lenço floreado no
pescoço, boina azul com rabicho, e um sotaque barriga-verde, o professor e
diretor de teatro, descobridor de talentos jovens, descobridor de novos
talentos, ensaiando trechos:
-
Quando eu disser: estátua!, todo mundo estátua, soquei?! Então, vamos nessa!
Dois, um, três e já... congela!
Alice
congelou olhando a parede branca, concentrada, esquecendo-se, não pensando em
nada, nada, não vendo nem mesmo a parede, que parede?, olhando um ponto entre
ela mesma e a parede, ali no ar, como fazem os monges budistas nos dois terços
da vida, como esses monges budistas olham o muro de pedras do mosteiro, fazendo
as refeições ali, ali dormindo, se balançando ali na posição de iogue,
esquecendo tudo, deixando a respiração quase parada, diminuindo em muito as
batidas do coração, como fazem os monges das montanhas muito tope do Himalaia,
no meio do vasto silêncio da altitude, no teto do mundo.
Uma
hora da tarde, Alice e Margarida, colegas na aula de teatro, pararam num
bar-café.
-
Ah!, Margarida, quase dormi de estátua. Muito bom.
-
Até esqueci de mim mesma. Não mais me sentia. Quase nem respirava. Ou talvez
nem isso. Me vi quase quase uma sucuri ali desocupada, uma jabota esperando o
mundo passar, uma tamanduá-bandeira jurumirim.
-
Lutei pra ficar estátua, tentando me convencer, fugindo dos pensamentos.
Depois, me deu um branco por sei lá que tanto tempo. Hibernei no fundo de uma
gruta. Me encolhi no oco de um jequitibá. Passei por dentro de uma pedra. Virei
uma boa pedra no muro de pedras. No final quando acordei ainda era estátua.
O
diretor explicava. O diretor careca em cima no coco, aeroporto de mosquitos, e
cabelos longos transados até o meio das costas, colar de penas de
arara-vermelha-grande. O diretor fazia desenhos no ar com a mão esquerda. Tinha
hora que a mão virava leque, lenço ou pandeiro. O diretor conduzia, dizendo:
-
Agora, somos carnívoros. Vamos comer uma vaca... ou preferem um boi? Já dividi o
corpo em 30 porções. Uma para cada um. Para um caberá o filé, outro terá carne
de pescoço, outra ainda o bofe e haverá aquele que roerá o osso. Para um as
entranhas, para outro a mala, para outra as orelhas. Roeremos ossos e beberemos
sangue. E não temam, pois o presunto é saudável, verde, musculoso, de boa
família. Hoje será esse boi servido cru e sem tempero, mas outra oportunidade
faremos um churrasco de cabritinhos regado a vinho crioulo de garrafão.
Bem
antes do mundo chegar, bem depois, bem antes de alguém ver e rever, a Marcelle
já olhava através da vidraça da janela da sala, olhava lá para fora, via tudo
que passava no espaço do céu e da rua Marechal Deodoro, olhava o ipê-amarelo, a
curupitã, olhava o beija-flor verde metálico com gola branca e que bicava,
flutuava igual helicóptero de flor em flor, e ela ainda olhava os
brincos-de-princesa de cor vermelha, e ainda as nuvens esgarçadas, reparava nos
coleirinhas reinando sem parar em voos curtos e pousos perigosos nas hastes de
capim, falou a ninguém:
-
Ipê-amarelo? Eu te reconheço. Não, não te conhecia. Te conheço de pouco tempo.
Eu não era daqui. Agora, já somos daqui mesmo.
Alice
e suas saudades do tempo que ainda não foi, tempo que não voltou, coisas que
poderia ter feito, viagens que não fez. Não foi e não voltou. Saudade que se
sente de um dia no futuro, um sonho que restará por fazer, saudade das cidades
que gostaria de conhecer... Paraí, Jati, Pedra Grande, Santo Ângelo, Baependi.
E ela já imaginou um dia passear por aí... Sapeaçu, Aurora, Anta Gorda,
Mariana, Curitibanos. E nessas cidades ela seria alguém?, não seria nada ou
anônima passando pelas ruas... Itambé, Iacanga, Piracicaba, Olinda. E Alice já
chegou, viu, gostou... Almadina, Passa Sete, Virgínia. E qual o dom tão bom
dessas cidades... Rio Preto da Eva, Melgaço, Jericó, Ijaci. Sempre que ela
poderá viajar e estar longe ou perto... Lagoa da Prata, Vertentes, Bacuri. E
estas saudades a completam e não a largam nunca mais... Abadia dos Dourados,
Boa Nova, Santa Maria. Alice gostaria de encontrar, realmente ver e se
encantar... Jiquiriçá, Pinhalzinho, Porto Firme. E a moça sorri um sorriso bobo
e ninguém lhe pergunta o pôr do sol em... Rio Bom, Camocim, Apiaí. A moça
quereria nascer cem vezes e nascer nas cidades que viu primeiro... Mamboré,
Caapiranga, Valo Fundo. E ela se demorará muito, um ano ou dois, talvez dois,
por aí, em... Ouvidor, Casca, Narandiba. E outras tantas mais longe e outras
mais longe ainda... Cedro, Canhotinho, Cabedelo, Conceição da Aparecida. Que
bonitas cidades, se se pudesse morar para sempre... Lajes, Jardim, Jardim
Alegre. Ali Áli descobriu um enigma em cada sombra... Mãe d’Água, Santo Amaro,
Pinheiros. E toda a vida esperará encontrar aventuras, tempos que não poderá
viver todas as saudades, cidades que não alcançará, cidades que ainda vão
inventar.
O
bar-café Boqueirão estava movimentadíssimo àquela hora da tarde. Gente sentada
em volta de mesinhas redondas, gente andando com cerveja na mão, gente de
cotovelo dobrado no balcão, pessoas rindo mascando gomas, pessoas falando e
rindo e bebendo. Aí, Alice sentiu, e viu, com surpresa, Margarida pegar sua
mão, a mão de Margarida como alçapão de pegar curió incauto, segurar a sua mão
e a sua alma, Alice tonteou, não tinha registro nas suas ideias sobre isso, não
soube o que fazer, vermelhou como tomate, o rosto e principalmente as orelhas
pegaram fogo. E se alguém reparasse? Olhou em volta uma primeira vez. Queria
recuperar a mão, mas não teve forças, ou coragem, ou alma. Não queria
decepcionar a amiga, talvez, e com sorte não fosse nada, e o papo rolando sobre
tudo, as conversas em torno, quem sabe não era nada mesmo, só um gesto mais
terno. Alice sentiu cócegas, vontade de rir, um riso nervoso e particular.
Margarida estava calma, calma, e com um olhar fundo, aguado, carinhoso demais,
com a outra mão Alice bebericava o guaraná, equilibrava os cabelos, sensação de
garganta seca, gole de guaraná, e tempo perdido. Como passar batida por essa
cena de novela? De repente fosse só o jeito sonso lá dela, só isso, pensou
Alice. Para onde foram todas as vozes do bar-café? Onde estavam as pessoas
todas do bar-café? A boca de Margarida colocando a voz rouca numa pergunta
curta, os dentes claros entre os lábios úmidos:
-
Vem comigo pra Floripa? Praia Pântano do Sul. Devo ir agora.
-
Existe a ilha da Magia.
-
Meiembipe, ilha dos Patos, Desterro, ilha de Santa Catarina.
Os
olhos de Margarida mantinham uma calma, aguados, praticamente cerrados, como de
alguém com vontade de dormir, uma gatinha preguiçosa, uma felina de miados
mansos, uma caxinguelê novinha em folha. Alice reparou melhor, sim, os olhos de
Margarida estavam lagrimejantes, o rosto de veludo cotelê e pêssego pediam
carícias, lábios em biquinhos afetados, rosto bonito feito para pegar, a boca
em forma de coração feita para beijar, umas mechas de cabelo em frente no olho
de cá. E Margarida falava pouco, mas quando articulava as palavras estas saíam
com as sílabas escandidas, movimentando os lábios com modos provocantes,
sensuais, como fazem os peixes. Embora elas duas ali ainda não tratavam de
assuntos íntimos e secretos... Alice, olhando pela janela ampla:
-
Olha!... Ouviu?!... O curió é clássico.
Alice
pôs um plano na ideia, e foi fazendo um esforço para retirar sua mão de debaixo
da mão de Margarida, levaria uma hora, uma eternidade, não queria magoar
ninguém, também não acreditava no que pensava que estava acontecendo, quem sabe
fosse nada, só o jeito dela, e foi puxando a mão, puxando, e quando só ficaram
as pontas dos dedinhos Alice parou, e parou. Por que não? Uma amiga não tinha o
direito de pegar na mão? Mas essa ideia seria melhor pensar mais tarde. Pensar
e rever noutra ocasião ou outra direção ou outro sentido. O hálito de Margarida
lembrava... o quê? Recordava um chá de camomila na tarde de chuva. Estaria
certa? Chá doce de camomila no inverno, chuva e vento carpinteiro?
Para
fora do bar-café, além da janelona, no capão de pitangueiras, cantava o curió,
cantava outro curió, e mais um ou dois, com certeza eram dois ou três. E a
tarde ia entrando com mais um bandinho de almas-de-gato. Eram umas dez aves
estrilando aí.
O
primeiro dia de escola e Marcelle se viu muito chateada e perdida. Uma calça de
linho verde, uma camiseta de algodão azul: cortadas e costuradas na fábrica,
vendidas prontas na loja, vestidas pela menina e que durariam uns dois anos.
Uma mochila, um grande caderno, dois cadernos, lápis de cor, celular verdinho e
foram para a escola. Foi sendo conduzida com calma, bonitinha e penteadinha. De
mão dada com a mãe. A mãe puxava assunto. E na hora de entrar para a sala de
aula, a guriazinha olhou os lugares, muitos lugares já ocupados pelos futuros
coleguinhas, as carteiras em fila, os aluninhos olhando em silêncio, disse para
a mãe:
-
Não tem lugar pra sentar, então, vamos voltar...
Alice
e Alberto foram mendigar, esmolar. A praça Tiradentes parecia sempre fim de
expediente, isso qualquer hora do dia. Pela calçada da XV de Novembro, onde o
trânsito de pedestres era intenso, foram desviando, entraram na padaria e
olharam com olhos doces as guloseimas doces e expostas e fraturadas. Os
curitibanos caminhavam logicamente apressados e sempre com embrulhos debaixo
dos braços. Alice faltava um dente e Alberto bêbado, imundos. Pararam no balcão
da loja de joias, na lanchonete ganharam pedaços de pizzas, sentaram no
passeio, os pedestres em volta seguiam acostumados. Alberto se deitou no banco
e dormiu. Alice sacudiu a caneca das moedinhas. Um policial ordenou que
andassem, andassem. Alberto fez xixi na parede. Foram vistos por um mendigo que
deixou bem claro que ali o território era seu lá dele e zero de concorrência.
O
diretor, bermuda floreada e chinelos de dedo, lenço verdinho amarrado no pulso
esquerdo, correntinha dourada com crucifixo dourado no pescoço, barba por
fazer, olhar de pescador, olhar de caçador, olhar de artilheiro, olhar de
cachorro-vinagre-do-mato, convidou:
-
Será um vídeo erótico, não pornô. Importante que os gemidos e sussurros e
palavrões e gritinhos sejam em português.
Então,
o grupo se trancou alguns dias num barracão na parte antiga da cidade, lá para
os lados do Xaxim. Seus nomes verdadeiros preservados, todas as mulheres de
unhas curtas e sem silicone nos peitos e na bunda e nos lábios ou outro lugar.
Assim: Gina estava sozinha na cama, uma música suave no fundo, só um violino
calmo, e ela foi se acariciando, gemendo, roncando como gata no cio,
despenteando o cabelo, chupando os dedos. Aí, correu para o chuveiro. Do nada
apareceu a Tina. Uma ensaboou a outra e se beijaram, estalinhos de beijos,
ajoelharam, rezaram. E logo Gina e Tina dançaram nuas no meio da sala de
ladrilhos floridos. Entrou o Michel, que abraçou Gina. O casal deitou no sofá
verde e fizeram amor sem piedade, chuchurreios, malabarismos, gols de letra.
Tina acompanhou com água na boca e língua entre os lábios ou entre os dentes
borrados de batom azul, e Gina convidou Tina, Michel gostou toda a vida e
muitíssimo. Um tempinho surgiu o Cacá. Gina e Cacá no quarto, Tina e Michel no
sofá verde. E já no almoço chegaram mais a Lili e o Rico. O grupo bebeu e fumou
e cantou caraoquê. Lili e Rico fizeram amor sobre a mesa e com o resto do
almoço, tapinhas na bunda, apetrechos eróticos que dizem não machucam e só
ajudam. Os assistentes torceram, narraram, vaiaram e riram. Foram para a cama
todos todos juntos de uma só vez. Quebraram a cama, isso sim.
O
sol que inventa o dia, que inventa as cores, que inventou Curitiba. Nessa idade
de seis anos para fazer sete anos, Marcelle tinha muito bem a fantasia
despreocupada, desarrumada. E cabelos esfarelados aos ventos. Uma menina que
não fazia nada de mais nem de menos:
-
Mãe! Quantos automóveis pela cidade?
-
Doze ou quinze... mil.
-
Vinte mil, então?
-
Um milhão.
-
Cinco milhões e novecentos e setenta, e pronto.
Quando
passeava de carro, quando andava de carro, quando andava de ônibus Marcelle
ficava olhando tudo, olhando as coisas, olhando com a cara no vidro, olhando as
pessoas na calçada, contando as garagens, contando as árvores mais crescidas,
contando os fuscas, contando as esquinas, e Marcelle era feliz:
-
Pega fusca oito, pega fusca nove...
A
cidade desafogada. Um domingo de tarde comum. Rua Voluntários da Pátria. O céu
alto, mas tão alto. Um domingo com dia claro. Um domingo para ir aos jardins de
Curitiba. Um domingo no parque Tanguá. Marcelle fazia gestos largos, redondos,
trançados, alados, rápidos. Marcelle apostou corrida com Alice:
-
Corre, corre, mãe!
Depois,
Alice e Marcelle sentaram num banco debaixo de umbroso pente-de-macaco. Ouviram
uns passarinhos importantes, bem-te-vis-piratas, gavião-carijó, tesoureiras,
corrupião. Uma tropa de pinheiros-do-paraná. Um laguinho com curimbatás. Outros
passarinhos, o coleirinha, o sabiá-do-campo, o jaguarana-pixuna, o
bico-de-lacre, o beija-flor-de-garganta-azul, a corruíra. Alice, saboreando um
ou dois pensamentos tranquilos, distendeu:
-
Ouvem que os curiós estão extintos. Mas é mentira. Os curiós estão aí. Os
curiós sobrevivem, sobrevoam, embora seus algozes.
Dizem
toda vida, que somente o destino consegue desembaraçar as pessoas. E as pessoas
são tão velozes ou lisas que só mesmo o destino para alcançá-las.
Outra
quinta-feira, noitinha, ainda clarinho, Alice e Margarida voltavam, cruzando
pelas ruas transversais, palácio Avenida, bares com roda de chope na calçada,
praças com crianças nervosas, cachorros e donos passeando de coleira, sapos
coaxando não se sabia onde, uma janela do prédio assistindo novela, museu Oscar
Niemeyer, quando Margarida travou e tomou a frente. Pessoas desconhecidas
cruzavam ruas e avenidas carregando embrulhos debaixo dos braços ou debaixo do
braço. Margarida pegou, com suas mãos em concha, as duas frente a frente, ela
pegou os cotovelos de Alice, Margarida desabafou:
-
Acho as mulheres mais macias e fofas e caldas de caju bem maduro. Sem contar
que são também bem mais bonitas. Gosto de muito cabelo.
-
Existe palavra mais bonita de dizer e ouvir que esta: pinacoteca!
-
Vamos fugir só nós duas, só nós três?! Vamos... Eu estava pensando numa cidade
alegre tipo, Pouso Alegre, Porto Alegre, Buriti Alegre...
O
diretor, olhos verdes e calmos, bandana patriótica segurando os cabelos
grisalhos, chegou ao balcão e depôs o seguinte: uma bem nutrida raiz de
cenoura, borboleta verde pulsante, bacia de alumínio com água, galho de
tinguaciba-do-pará, paralelepípedo, ramo de orquídea e curió raptado.
Esses apetrechos
foram distribuídos no cenário decorado como quintal. Alice, uma cenoura só de
cabelos verdes alçados; Mateus, uma tinguaciba de folhas dentadas, largas e
verdes; Margarida, um ramo de flor de orquídea de cor cor-de-rosa; Jerônimo,
uma pedra basalto de arremesso; Márcia, uma poça de água da chuva decorada com
nuvem branca; Rogério, uma borboleta verde e pulsante com olhos negros nas
asas; Marilu, um pássaro importante e canoro parecido com o famoso e
extrovertido curió.
Então,
Alice amanhecia coberta de sereno, com gosto de terra na boca; Mateus sacudia
de leve os galhos e perdia umas folhas; Margarida ia se abrindo conforme a luz
do dia; Jerônimo parado, parado, respiração presa, todo concentrado, congelado,
estátua; Márcia refletia o céu azul, ou mais ou menos, talvez até aquela uma
nuvem branca; Rogério bateu asas todo sem educação e, meio às tontas, pousou na
Margarida; Marilu voou sobre o quintal, deu uma voltinha, e escolheu um braço
de Mateus para pousar e curiosar o ambiente.
O
clima e o tempo e o relógio andavam girando sobre o ar do quintal. Marilu se
jogou ao chão onde bebericou uma líquida Márcia; Márcia tremeu em toda a
superfície, alargou círculos, se arrepiou, vibrou em círculos tímidos,
desidratando; Rogério sugava o néctar de Margarida que balançava muito leve no
vento calmo; Marilu viu o Rogério tremer a poucos metros; Marilu se sacudiu
toda e saltou para as costas de Jerônimo; e Rogério, sentindo o perigo, alçou
voo, tonto, tonto; Marilu irrequieta, esperta, desconfiada, observou o movimento
todo trêmulo de Rogério se afastando para o lado dos galhos protetores de
Mateus; antes que Rogério se visse, e com certeza Rogério saía talvez um pouco
devagar demais, a Marilu o caçou no ar com super, hiper, mais ou menos, muita
habilidade; e Marilu ainda descansou no braço de Mateus, limpou o bico no braço
mais alto de Mateus e cantou harmonicamente para quem esperasse ouvir.
Margarida
saiu de casa com o dia pintando. A sorte que nasce em Deus e que vai para cada
um e para todo o mundo. Tudo procurando seu eixo. Os olhos dela tinham aquele
brilho: desejava abraços. Passou na floricultura e olhou, olhou, comprou
flores. Olhou rosas amarelas, mosquitinhos e orquídeas. Olhou que uma
pomba-rola arriscava a vida procurando na calçada. As pessoas iam à feira e
voltavam para casa com pacotes debaixo dos braços ou nos braços.
Alice em casa
ouvindo música pelo rádio, “estou feliz, feliz, como na primeira vez que eu te
quis...” E Margarida encontrou Alice em casa ouvindo rádio. Alice era de ficar
olhando para uma coisa durante um bastante tempo, e somente depois era que
suspirava, acordava e seguia, nessa ordem, ou então, concluía:
-
O rádio toca cada música, guria!
-
São algumas margaridas pra ti, pra nós. Margaridas são as flores do
bem-me-quer. Você quer ir comigo viajar? Estava pensando... Eu me lembro de
umas cidades com bichos, Patos, Pato Branco, Uru...
Alice
deu uns passos até a janela, assim, abraçada às flores. Alice ainda cheirou as
pétalas. Alice comeu uma pétala de rosa amarela. Margarida, juntou:
-
Vamos vender cangas na praia de Torres ou redes de carijó na ilha Anchieta. A
gente poderia vender também outras coisas em outras praias e outras ilhas. Taí,
vamos conhecer o Itaimbezinho! Vamos para a ilha Triângulo! Para a praia de
Ibicuitaba!
Alice
não respondeu, ficou olhando pela janela. Margarida chegou perto, olhou pela
janela, perguntou:
-
O que tá pensando, guria?
Então,
Alice filosofou:
-
Uma formiga sabe quanto deve andar, um curió sabe quanto deve voar, um
guapuruvu sabe quanto deve crescer.
Três
quatro dias já haviam desistido. Aula laboratório. O diretor com um cocar
tingui na cabeça, pés descalços, guaiaca na cintura, um fuzil em bandoleira:
-
Você pode, Alice.
-
Ah, posso?
-
Se fazer de cega...
-
Hoje?! Assim?!...
Alice
saiu sozinha do teatro, ela e a bengalinha, toque! toque!... Cutucando os
caminhos escuros ou quase escuros. Foi costeando a parede do prédio do teatro
até a esquina. Alice seguia nervosa, reparando nos sons da cidade, guinchos,
chilros, urros... Via somente pontos de luz mais fortes, menos fortes. Esbarrou
em várias pessoas. A primeira vez que era cega. Bateu as aspas no orelhão e
doeu. Cruzou a rua com providencial ajuda. A praça ela já conhecia de vista e
de ouvir falar. Procurou pensar. Reparou os sons, os cheiros, os pontos mais
luminosos. Haveria curvas e ziguezagues. Sentou num banco. O chafariz
refrescava o ar. O sol queimava seu lado direito, ainda a manhã. Resolveu
voltar. Contou os passos até a avenida Barão do Rio Branco, o som do tráfego,
esperou fechar o sinal, alguém se ofereceu para guiá-la, e atravessou. Tateou a
parede do prédio do teatro. Encontrou a porta aberta. Tropeçou mais uma vez no
capacho e pronto.
Na
saída do ensaio, o diretor, anéis em todos os dedos das mãos, que eram largas e
grossas, puxou Alice para um canto e falou, um bafo de bala hortelã ou menta,
barba hirsuta, assim, falou:
-
Há uma proposta de emprego para ti.
-
Este mês??
-
Um estúdio japonês quer te contratar.
-
Tô com vontade de ir para Florianópolis. Lá sou amiga da praia Mole, da praia
dos Ingleses, da praia Brava, da praia Jurerê...
-
Cinema pornô. Querem uma atriz para filmes exóticos. Pagam seu peso em ouro.
-
De Ahu a Tóquio...
Naquela
quinta-feria, Marcelle telefonou para um coleguinha chamado Carlinhos, telefonou
para a melhor amiguinha da escola, exatamente a Elisinha, Lisinha, e telefonou
para uma outra amiguinha chamada Prim. E pensou. Depois, quis ter certeza e
perguntou:
-
Mãe! Posso telefonar pra profe?
Alice
veio da cozinha com uma cestinha de palinha cheinha de empadinhas:
-
A profe te deu o telefone?
-
A profe me deu o telefone.
-
Bom, então, se a profe te deu o telefone... telefone.
Margarida
não aparecia aos ensaios havia três dias. Alice pegou e foi, comprou doces
artesanais, caixa de bombons com recheio de marmelada de uva, um bonequinho
fofo de cachorrinho salsicha. Margarida a esperava, doentinha, tristonha,
camisa de pijama de florzinha, na cama de solteira. Margarida de olhos muito
apertadinhos e cabelo assustado, calça de pijama de bolinhas azuis em campo
branco.
-
Que ótimo. Obrigada. Tô na cama assistindo tevê e tomando chá de camomila. Tô
desanimada. Preferia um sorvete de laranja com goiaba.
Conversaram
coisas das aulas de ensaio, coisas aleatórias, coisas da sorte, a tevê ligada
em qualquer canal, viagem para uma cidade com rio ou rios tipo Palmas,
Alegrete, Cuiabá, o cedê tocando Villa-Lobos sem parar e bem baixinho, ritmo
lento e tropical.
-
Pensei numa cidade com nome de pessoa, Leopoldina, Marília, Castro, João
Pessoa...
-
Onde eu aportar, o centro do mundo.
Margarida
falava com uma voz quase rouca e arranhada e dolorida, ofereceu:
-
Cerveja? Refri? Chá? Suco de abacaxi? Chima? Água mineral sem gás? Água de
coco?
-
Qué uns tapinhas na bunda!
Depois
de uns goles de chá e colocar a xícara para descansar, Margarida foi e se
aninhou no colo de Alice. Assim, as duas ali na cama. Meio sentadas e meio
deitadas, meio assistindo tevê, meio ronronando. Tomando chá, ouvindo harmonias
tropicais e comendo biscoitos de chocolate com recheio de abóbora. Margarida
com os lábios finos e descascados, olhos puxados. Alice esticava de mansinho as
pontas suadas dos cabelos de Margarida. Margarida fez beicinho trêmulo, de
choro, Alice acariciou os ombros da amiga, Margarida foi foi até que escorregou
e beijou os joelhos de Alice.
-
Você tem joelhos lindos, Alice.
Alice
não falou nada, só sentiu que tinham chegado a um ponto. Alice se arrepiou
toda. Pensou pegar os seios de Margarida com as duas mãos e beijar. Achou
também que a vida estava bem. O arrepio pelo corpo era gostoso, que aquele
arrepio já passava, e se não passasse seria melhor. Foi até ali e olhou pela
janela. Não sabia por que tinha vontade de rir, um riso talvez nervoso, um riso
de alegria estranha, mas não riu, se concentrou para não rir alto e não riu
mesmo, Alice disse:
-
Não vamos mais para Florianópolis?
-
Praia da Armação, praia de Canasvieiras, praia da Joaquina...
-
Olha!... Ouviu?!... O curió, ainda agora, escapou...
Um
show beneficente. Era uma praia deserta, de difícil acesso, recanto
paradisíaco, mulheres quentes, filmagem pornô, cinco as atrizes, todas de
óculos escuros, Alice vestida de odalisca, música árabe no fundo e mil lenços
de seda coloridos caindo do corpo, o rosto encoberto por um véu verde
transparente, o ar de mistério, sensualidade, meneios coleantes de serpente
venenosa tentando hipnotizar a presa, muitos lenços de todas as cores, a
barriguinha muito reta com sobe e desce, Alice chutava o ar, parecia querer
voar, balançava as cadeiras, tentou nadar com as asas da borboleta, o véu verde
do rosto foi o último a cair.
Olhando
para o céu naquela hora calma da noite. Noite de Curitiba. Uma lua apareceu em
flagrante silêncio. A lua já subia em silêncio. E um silêncio ainda maior. E o silêncio
caía das estrelas por igual, o silêncio evaporava das águas por igual, o
silêncio crescia da terra por igual, o silêncio aflorava das árvores por igual,
o silêncio escalava dos prédios por igual. Silêncio imenso. Silêncio lunar.
-
Estou em silêncio, estou preocupada, estou interessada com ir para.
Então,
Alice e Marcelle e Margarida decidiram morar na Bahia de Todos-os-Santos. Já
inventavam outro pé na estrada, viajar. E Margarida fazendo as vezes de tia de
Marcelle. A Bahia calorosa, dos papagaios, da cidade alta e da cidade baixa,
das tantas igrejas e pais-de-santo e mães-de-santo, do candomblé, dos
raríssimos carnavais, da ladeira da Barra. Negras carregando tabuleiros de
cocada preta e branca, vendendo acarajés, vatapás, xinxins, pés de moleque.
Escadarias e calçadas e praias e praças e terreiros e ladeiras. Marcelle
carinhosa, calma, manhosa, canto harmônico como do curió. Bahia do recôncavo
baiano, da ilha de Itaparica, da música a todo volume, trio elétrico,
soteropolitanos sopitados.