Um ano mais, um ano menos. Um ano
antes, um ano depois, mais ou menos. Quem olhava os lados da coisa via se repetir
a poeira. As horas pra lá de quentes.
O arraial o lugarejo a vila de Santa
Luzia sufocava debaixo das nuvens pesadas e vermelhas. Entorpecida de calor. A
rua Única governada pelos sacis arteiros. A pracinha das ex-paineiras ex-paratudos
ex-mata-cachorros... reduto dos piás que jogavam bola com lata vazia. Tempo
contrariado.
A prole espreitava a chegada de Boca-de-Barro
o progenitor. Umas 18h e o mormaço ainda matando a pau. Terríveis o calor e a
poeira vermelha. O bando todo ficava ali por conta do casebre espreitando o
retorno do pai. Olhavam o teto, olhavam as paredes, olhavam sem ver, falavam
sozinhos, se abanavam do calor extremo, cochilavam... Outros iam até a abertura
olhar a rua Única, vazia e irrespirável. Embora restassem mudos e pensativos jogados
ali quietos e delirantes. Perdendo todo o tempo do mundo e do universo. Todos sempre
aguardando a vinda do chefe.
Um dia com calor insuportável. Meses de
estiagem. Brasas na cabeça. A aldeia de Santa Luzia respirava poeira vermelha,
ventos quentes, mormacentos, redemoinhos de sacis. A poeira chegava do deserto
vermelho e já tomava conta das choças, entrava pelas aberturas, pelos buracos
da parede de pau-a-pique. Chão seco estorricado escaldante. Árvores da pracinha
como espetos de pontas pretas apontando o alto, ex-paineiras, ex-cajuaçus,
ex-icacorés-catingas... Nenhum ser se mexia no ambiente. Dias secos e abafados.
As pedras derretiam sob o calor intenso. Nuvens medonhas tapavam os raios do
sol. De dentro do redemoinho se ouviam risos, gargalhadas, assobios, malandragens,
ah eh eh eh!...
Finalmente o pai chegou, sempre na hora,
em cima da hora, seis e meia da tarde. Era o único que enfrentava a soalheira
infernal e trazia poeira de fora. A mãe ficava em casa, afundada até o queixo, abraçada
a si mesma, olhando eternamente o que-fazer ou o que-nem-fazer. O filho maior,
13 anos; o de 12 anos; o de 11 anos; a menina de 10 anos; o menino de 9 anos; e
a caçula de 8 anos quentíssimos e secos. Todos cansados de nem fazer nada,
todos cheios de aguardar a mala cair do alto que nem vinha nunca nunca. Flagelados
sem o que consumir ou reivindicar.
O patrão chegou e foi surpreendido com um
acesso de tosse. E tossiu três vezes. E tossiu quatro vezes bufando poeira. Tossiu
todas umas vinte vezes. E tossiu quantas vezes achou possível. Depois, os olhos
secos e vermelhos, a cara vermelha de sol, a pele vermelha de poeira do deserto,
contou e foi contando a prosa demorada e com pouquíssima variação:
- Olham vocês. Dentro de 15 ou 20 minutos vai passar
aqui o seu Poti, um camarada pedreiro, mora na pedreira, trabalha comigo na
pedreira, e vem trazer um filhotinho de guaipeca. Quem já viu cachorro? Quem nem
precisa de cusquinho, em?!
Aí, por toda família Boca-de-Barro transbordou
uma agitação, um tremor, um arrepio, um frenesi, uma vertigem. Os olhos de
todos esbugalharam, a cara de todos foi suou de escorrer, as pernas nem aguentaram.
No geral ficaram naquela expectativa dos olhos secos e bem acesos. Menos o pai maldormido
que já queria deitar. A mãe correu se esconder envergonhada. A molecada começou
a fazer previsões e planos e cálculos e projetos. E já repartindo o cãozinho em
mil pedaços partes e fatias. Os mais apressados até vomitaram ou desmaiaram.
Se postaram nas aberturas da parede, na
soleira da porta, no pátio cheio de calor e poeira, junto da cerquinha de
ripinhas pintadas de um branco já descascado. Cuidadosamente espiaram como
nunca espionaram. E curiosidade inédita calculada pegajosa.
O vento rolava na poeira, o sol parado
entre as cinzas, o tempo nem passava nem voltava nem dava as caras. Nem chovia
há dezenas. Dias e noites eram pesadíssimas a fuligem a areia.
E lá no fundo da rua Única, ponta norte, vinha
pintando quem? Primeiro uma nuvem de poeira muito baixinha. Depois uma sombra debruçada.
Só mais depois um enguiço chamado seu Poti, pelo chapelão. Depois o seu Poti
com um embrulho debaixo do braço. E mais logo o seu Poti com um pequeno au-au na
axila. Um cão que, de tão pequeno, parecia nem estar ali. Que de tão miúdo nem
precisava de nada. Que de tão simples nem dava para nada. A gurizada se mexeu,
a jaguarada correu, xingou, voou, atropelou, tropeçou...
Olhando o cãozinho dava até vontade de troçar,
à primeira vista. Um filhotinho de vira-lata, mais ou menos marronzinho com
umas manchas de vermelho, frágil, magro, tímido, inexperiente, medroso, olhos grandes
negros doentes, boné de orelhas dormentes e rabicó entre as perninhas tortas. Um
totozinho filho do nada do quase imperfeito descendente de ninguém.
O personagenzinho foi obrigado a rodar de mão em mão
pela curuminzada. E numa rapidez e afobação e maus-modos que o deixaram tonto,
estressado, enjoado, cansado, dolorido... Uma historinha sem nada de suspense e
com pavor de altura e de gente e de bicho. Nem tinha tempo de cheirar e olhar o
freguês. Cauda prevenida, língua balançando, olhos atônitos estúpidos. Sem
nome. Única coisa por enquanto saía um latido misturado com miado, assim, eunhé!
eunhé! eunhé!... O cãozinho mesmo nem sabia que estava no mundo ou que
procuravam tratá-lo como sopinha.
E na primeira hora a gurizada já
procurou um nome. Ah, mas ia ser difícil! Um vexame para a piazada. E o tipinho
do cão, que preferia explorar o território, nem conseguia parar no chão, nem
conseguia dar dois passos, nem conseguia se livrar das mãos e do excessivo
aperto dos pivetes. E o tipinho com já o hábito de farejar tudo e todos. E o
cãozinho já preocupado com quê. E o vira-latinha ainda sem saber latir, eunhé!
eunhé!...
No grande debate de escolha do nome
todos queriam declarar a particular falta de paciência. O pai foi para a pedreira.
A mãe tinha o dia todo para nada e cruzar os braços. E a biguazada achou melhor
fazer um sorteio ou uma assembleia com bingo. Cada qual escreveu uma sugestão
de nome num papelzinho. E jogaram todos os palpites dentro de uma caixinha de
sapatos. Se agitou sacudiu mexeu bastante. Já prontos todos para um vexame? Todos
rapidamente fizeram figa e apertaram nos beiços os dedos cruzados. E ia ser
retirado o nome premiado do cãozinho.... a-ten-ção mesmo:
- Filé!!
O nome escolhido simples assim remetia ao sorteado que
daí em diante seria o dono preferencial do cão. O mal dessas competições era
que a maioria, ou todos menos um, acabava perdendo e ficando com nojo rancor despeito
ódio. E eles acabaram perdendo e ficando com ciúmes e urrando como loucos. E
eles, os perdedores, restaram sérios e nem ficaram para mais nada mesmo.
- Filé?
Pronto, o nome do novo membro da família Boca-de-Barro
era o Filé. Quem vibrou muito foi o nº5. Então, assim, os fracassados e passados
para trás torceram o nariz e rogaram pragas. Menos a caçula, que era muito sem-noção
para entender questões de política e economia militares.
Mas era que a tarde estava muito quente e quieta e
anônima. As pedras sem o que falar nem se mexiam. As ex-árvores da pracinha
despidas carbonizadas mortas petrificadas esqueletos tocos sujos de
ex-candeias-de-caju, ex-embaúbas-purumas, ex-perovas-amarelas, ex-timbós-açus,
tocos de ex-marmelos-bravos... Saci no olho da rua poeirenta brigando de rodar
em volta de si mesmo. Terra rachada muda abafada estraçalhada. Nem chovia há
oito séculos e meio. O côncavo de nuvens vermelhas derretido como sucata no
forno. E nenhuma de nada de natureza.
Portanto, o nº5 passou a fazer tudo pelo Filé. E a
querer exclusividade. Fazia companhia acompanhamento e alisamento no dorso. Segurava
puxava a cauda com calma e na sacanagem. Rolava com ele no quarto sobre o
colchão de palha de milho, no assoalho da sala, no terrão do pátio. Achava um punhado
de capim-açu ressequido para ele mastigar. Encontrava sempre uma pedra rolada
para o bichinho lamber. Iam os dois atrás de rastos de lobisomem pela quiçaça
requeimada. Pois o quinto na escadinha gurizinho impedido de crescer,
amarelado, inchado, mazorro. Foi mesmo o n° 5 que preparou o lugar na despensa
vazia onde Filé iria dormir e se possível roncar.
O Filé odiava aquela luz toda do dia
todos os dias. E o cãozinho maldizia aqueles redemoinhos sempre dando risadas,
piando, fazendo sombras e ondas vermelhas. Corria atrás dos sacis, quando podia,
quando tinha disposição. Farejava o pé-de-garrafa quando menos esperava. O
cãozinho detestava aquilo de andar pelaí na vila. E evitava passear com o nº 5
no pátio, na rua Única. Ainda sem memória, o Filé já penava com os dias supercarregados
de mormaço e de nunca nada para engolir. Filé e seu desdém desdenhoso de se
desvencilhar. Que coisa!
Se mandaram os primeiros dias e num porre atrás do
outro. Passou a semana, um sufoco. E a semana foi mesmo muito tempo. Filé comia
terra, pastava palha seca, lambia pedras lisas, mascava pedaços de madeira,
farejava rasto de mula sem cabeça, martinta-pereira, bolaro. Olhava em volta
sem ver o mesmo horizonte tremendo evaporando no mormaço.
O cão já estava se adaptando àquele ambiente de
família fingida, falida? Adquirindo uma boa autoconfiança? Já estava deitando onde
queria e lhe dava na telha? Já acostumara com aquele ambiente de extremo mormaço?
Também estava se inteirando dos seus limites territoriais? Confiava nas
atitudes das criaturas que o adotaram, e o cercavam e o iludiam?
Um mesmo vento enjoado teimoso soprava
mais e mais hordas vermelhas, a lua e as estrelas pedalavam confusas congestionadas,
o lobisomem uivava, iuuuvi!... Aquele calor de forno chegava ao fim do mundo. As
ex-árvores da pracinha, ex-paineiras, ex-quebra-arados, ex-ingazeiros...
apontavam dedos roídos para as nuvens de areia. O oco amassado encardido
infiltrado. Nem chovia havia 13 anos.
O Filé tinha um ar desanimado, torto, misterioso,
cheio de enigmas ou escamoteamentos. Podia sujar as quatro patinhas o pelo ralo
as orelhas murchas no pó fedido do quintal. Outras coisas, e outras coisas
próprias da natureza do cão ele já tinha. Já queria se adonar de tudo e se
possível exigir coisas. Tinha mais ou menos noção já de que o pátio nem era o
limite do mundo. Olhava a rua e queria ir para a rua e tinha pavor de gente.
Sua principal visão, o olfato, lhe dizia que o mundo, o mundo poeirento, as
pessoas famintas, até mesmo as árvores incineradas, iam muito além dos puxões
de orelha e empurrões e pontapés e pedradas.
E no domingo de manhã ex-Filé desaparecia. No lugar
onde dormia e passava as noites só restaram uns poucos esquecidos pelinhos. Nem
sobrara nada do ex-cãozinho. Só aqueles ralos pelinhos abandonados deixados
para trás.
Os suspeitos eram os da casa mesmo.
Oito ao todo os participantes diretos interessados, vamos e viemos dizer assim.
Destes, quem? E por quê? Com que tamanha gana? Era dia de aniversário? Agora só
faltava saber quem fora o lazarento, ou os lazarentos.
O pai nem podia ser, tinha sono de
pedra, chegava em casa sempre cansado da pedreira e tinha sonho de basalto. A
mãe nem podia ser, detestava trabalho extra, nem água para fazer uma sopa ela podia
conseguir. O nº1 também nem, já estava em idade de namorar e namorava escondido,
nem ia pensar em cãozinho despreparado. O nº2 nem era, já estava na idade de
sonhar com garotas e espiar pelas frestas, nem queria nem pensar em
cachorrinhos feitos só de costelas. O nº3 nem podia ser, pois só pensava em
bola e tinha uma bola número 5 do lado do travesseiro, e nem sabia nem acender
um fogo no fogão. A nº4 nem era para ser, já que as meninas detestam estragar
as unhas e têm medo do escuro, e nem sabem o que fazer para sossegar um cão
surpreendido na calada da noite. O nº5 de jeito maneira, fora ele que batizara
o cãozinho de Filé, nem podia ter ciúme ou ódio ou covardia, nem pensava em destruir
o cãozinho para matar sua própria fome. E a nº6 claro que nem, era a caçula do
time e totalmente inocente nestas paradas de políticas e economias militares,
elazinha nem podia com o vira-latinha nem brincando.
Assim, o negócio era decifrar o
mistério que encobria o sumiço do ex-Filé. E descobrir quem fora o mascarado
assassino criminoso. Só restava desmascarar quem fora o servo do anhangá-pitã. Nessa
terra invertida esturricada quente como fornalha, etc.
Poderia ser a nº6; sem querer, é claro.
Seria o nº5, que como fora o padrinho já pretendia a exclusividade e a
paranormalidade ou a mediunidade do ex-cãozinho ex-Filé. Talvez fosse mesmo a
nº4, que pretendia ser veterinária e ousara espiar o ex-cão por dentro.
Naturalmente era o nº3, já que tinha receio que o ex-vira-latinha mordesse sua
bola de couro número 5. Com certeza poderia se pensar no nº2, pois queria
impressionar as meninas ao espalhar no terreiro da pracinha que matara um ex-canzarrão.
Agora sim o nº1, que voltava frequentemente tarde da noite e se assustava com o
resmungo do ex-Filé. Só poderia ser a mãe, que andava profundamente estressada
e com os nervos à flor da pele de tanta carência por atender e tanta boca para
encher e nada de grude aparecer. Teria sido o pai que, por causa de uma banal
desavença com o colega de trabalho, assim se vingava no ex-Filé.
Então, por quê?, a vila de Santa Luzia ia
adiando seus longos dias muito quentes e inóspitos.