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sábado, 25 de fevereiro de 2017

Contos de Santa Luzia (4)




         Um ano mais, um ano menos. Um ano antes, um ano depois, mais ou menos. Quem olhava os lados da coisa via se repetir a poeira. As horas pra lá de quentes.
         O arraial o lugarejo a vila de Santa Luzia sufocava debaixo das nuvens pesadas e vermelhas. Entorpecida de calor. A rua Única governada pelos sacis arteiros. A pracinha das ex-paineiras ex-paratudos ex-mata-cachorros... reduto dos piás que jogavam bola com lata vazia. Tempo contrariado.
         A prole espreitava a chegada de Boca-de-Barro o progenitor. Umas 18h e o mormaço ainda matando a pau. Terríveis o calor e a poeira vermelha. O bando todo ficava ali por conta do casebre espreitando o retorno do pai. Olhavam o teto, olhavam as paredes, olhavam sem ver, falavam sozinhos, se abanavam do calor extremo, cochilavam... Outros iam até a abertura olhar a rua Única, vazia e irrespirável. Embora restassem mudos e pensativos jogados ali quietos e delirantes. Perdendo todo o tempo do mundo e do universo. Todos sempre aguardando a vinda do chefe.
         Um dia com calor insuportável. Meses de estiagem. Brasas na cabeça. A aldeia de Santa Luzia respirava poeira vermelha, ventos quentes, mormacentos, redemoinhos de sacis. A poeira chegava do deserto vermelho e já tomava conta das choças, entrava pelas aberturas, pelos buracos da parede de pau-a-pique. Chão seco estorricado escaldante. Árvores da pracinha como espetos de pontas pretas apontando o alto, ex-paineiras, ex-cajuaçus, ex-icacorés-catingas... Nenhum ser se mexia no ambiente. Dias secos e abafados. As pedras derretiam sob o calor intenso. Nuvens medonhas tapavam os raios do sol. De dentro do redemoinho se ouviam risos, gargalhadas, assobios, malandragens, ah eh eh eh!...
         Finalmente o pai chegou, sempre na hora, em cima da hora, seis e meia da tarde. Era o único que enfrentava a soalheira infernal e trazia poeira de fora. A mãe ficava em casa, afundada até o queixo, abraçada a si mesma, olhando eternamente o que-fazer ou o que-nem-fazer. O filho maior, 13 anos; o de 12 anos; o de 11 anos; a menina de 10 anos; o menino de 9 anos; e a caçula de 8 anos quentíssimos e secos. Todos cansados de nem fazer nada, todos cheios de aguardar a mala cair do alto que nem vinha nunca nunca. Flagelados sem o que consumir ou reivindicar.
         O patrão chegou e foi surpreendido com um acesso de tosse. E tossiu três vezes. E tossiu quatro vezes bufando poeira. Tossiu todas umas vinte vezes. E tossiu quantas vezes achou possível. Depois, os olhos secos e vermelhos, a cara vermelha de sol, a pele vermelha de poeira do deserto, contou e foi contando a prosa demorada e com pouquíssima variação:
- Olham vocês. Dentro de 15 ou 20 minutos vai passar aqui o seu Poti, um camarada pedreiro, mora na pedreira, trabalha comigo na pedreira, e vem trazer um filhotinho de guaipeca. Quem já viu cachorro? Quem nem precisa de cusquinho, em?!
         Aí, por toda família Boca-de-Barro transbordou uma agitação, um tremor, um arrepio, um frenesi, uma vertigem. Os olhos de todos esbugalharam, a cara de todos foi suou de escorrer, as pernas nem aguentaram. No geral ficaram naquela expectativa dos olhos secos e bem acesos. Menos o pai maldormido que já queria deitar. A mãe correu se esconder envergonhada. A molecada começou a fazer previsões e planos e cálculos e projetos. E já repartindo o cãozinho em mil pedaços partes e fatias. Os mais apressados até vomitaram ou desmaiaram.
         Se postaram nas aberturas da parede, na soleira da porta, no pátio cheio de calor e poeira, junto da cerquinha de ripinhas pintadas de um branco já descascado. Cuidadosamente espiaram como nunca espionaram. E curiosidade inédita calculada pegajosa.
         O vento rolava na poeira, o sol parado entre as cinzas, o tempo nem passava nem voltava nem dava as caras. Nem chovia há dezenas. Dias e noites eram pesadíssimas a fuligem a areia.
E lá no fundo da rua Única, ponta norte, vinha pintando quem? Primeiro uma nuvem de poeira muito baixinha. Depois uma sombra debruçada. Só mais depois um enguiço chamado seu Poti, pelo chapelão. Depois o seu Poti com um embrulho debaixo do braço. E mais logo o seu Poti com um pequeno au-au na axila. Um cão que, de tão pequeno, parecia nem estar ali. Que de tão miúdo nem precisava de nada. Que de tão simples nem dava para nada. A gurizada se mexeu, a jaguarada correu, xingou, voou, atropelou, tropeçou...
         Olhando o cãozinho dava até vontade de troçar, à primeira vista. Um filhotinho de vira-lata, mais ou menos marronzinho com umas manchas de vermelho, frágil, magro, tímido, inexperiente, medroso, olhos grandes negros doentes, boné de orelhas dormentes e rabicó entre as perninhas tortas. Um totozinho filho do nada do quase imperfeito descendente de ninguém.
O personagenzinho foi obrigado a rodar de mão em mão pela curuminzada. E numa rapidez e afobação e maus-modos que o deixaram tonto, estressado, enjoado, cansado, dolorido... Uma historinha sem nada de suspense e com pavor de altura e de gente e de bicho. Nem tinha tempo de cheirar e olhar o freguês. Cauda prevenida, língua balançando, olhos atônitos estúpidos. Sem nome. Única coisa por enquanto saía um latido misturado com miado, assim, eunhé! eunhé! eunhé!... O cãozinho mesmo nem sabia que estava no mundo ou que procuravam tratá-lo como sopinha.
         E na primeira hora a gurizada já procurou um nome. Ah, mas ia ser difícil! Um vexame para a piazada. E o tipinho do cão, que preferia explorar o território, nem conseguia parar no chão, nem conseguia dar dois passos, nem conseguia se livrar das mãos e do excessivo aperto dos pivetes. E o tipinho com já o hábito de farejar tudo e todos. E o cãozinho já preocupado com quê. E o vira-latinha ainda sem saber latir, eunhé! eunhé!...
         No grande debate de escolha do nome todos queriam declarar a particular falta de paciência. O pai foi para a pedreira. A mãe tinha o dia todo para nada e cruzar os braços. E a biguazada achou melhor fazer um sorteio ou uma assembleia com bingo. Cada qual escreveu uma sugestão de nome num papelzinho. E jogaram todos os palpites dentro de uma caixinha de sapatos. Se agitou sacudiu mexeu bastante. Já prontos todos para um vexame? Todos rapidamente fizeram figa e apertaram nos beiços os dedos cruzados. E ia ser retirado o nome premiado do cãozinho.... a-ten-ção mesmo:
         - Filé!!
O nome escolhido simples assim remetia ao sorteado que daí em diante seria o dono preferencial do cão. O mal dessas competições era que a maioria, ou todos menos um, acabava perdendo e ficando com nojo rancor despeito ódio. E eles acabaram perdendo e ficando com ciúmes e urrando como loucos. E eles, os perdedores, restaram sérios e nem ficaram para mais nada mesmo.
- Filé?
Pronto, o nome do novo membro da família Boca-de-Barro era o Filé. Quem vibrou muito foi o nº5. Então, assim, os fracassados e passados para trás torceram o nariz e rogaram pragas. Menos a caçula, que era muito sem-noção para entender questões de política e economia militares.
Mas era que a tarde estava muito quente e quieta e anônima. As pedras sem o que falar nem se mexiam. As ex-árvores da pracinha despidas carbonizadas mortas petrificadas esqueletos tocos sujos de ex-candeias-de-caju, ex-embaúbas-purumas, ex-perovas-amarelas, ex-timbós-açus, tocos de ex-marmelos-bravos... Saci no olho da rua poeirenta brigando de rodar em volta de si mesmo. Terra rachada muda abafada estraçalhada. Nem chovia há oito séculos e meio. O côncavo de nuvens vermelhas derretido como sucata no forno. E nenhuma de nada de natureza.
Portanto, o nº5 passou a fazer tudo pelo Filé. E a querer exclusividade. Fazia companhia acompanhamento e alisamento no dorso. Segurava puxava a cauda com calma e na sacanagem. Rolava com ele no quarto sobre o colchão de palha de milho, no assoalho da sala, no terrão do pátio. Achava um punhado de capim-açu ressequido para ele mastigar. Encontrava sempre uma pedra rolada para o bichinho lamber. Iam os dois atrás de rastos de lobisomem pela quiçaça requeimada. Pois o quinto na escadinha gurizinho impedido de crescer, amarelado, inchado, mazorro. Foi mesmo o n° 5 que preparou o lugar na despensa vazia onde Filé iria dormir e se possível roncar.
         O Filé odiava aquela luz toda do dia todos os dias. E o cãozinho maldizia aqueles redemoinhos sempre dando risadas, piando, fazendo sombras e ondas vermelhas. Corria atrás dos sacis, quando podia, quando tinha disposição. Farejava o pé-de-garrafa quando menos esperava. O cãozinho detestava aquilo de andar pelaí na vila. E evitava passear com o nº 5 no pátio, na rua Única. Ainda sem memória, o Filé já penava com os dias supercarregados de mormaço e de nunca nada para engolir. Filé e seu desdém desdenhoso de se desvencilhar. Que coisa!
Se mandaram os primeiros dias e num porre atrás do outro. Passou a semana, um sufoco. E a semana foi mesmo muito tempo. Filé comia terra, pastava palha seca, lambia pedras lisas, mascava pedaços de madeira, farejava rasto de mula sem cabeça, martinta-pereira, bolaro. Olhava em volta sem ver o mesmo horizonte tremendo evaporando no mormaço.
O cão já estava se adaptando àquele ambiente de família fingida, falida? Adquirindo uma boa autoconfiança? Já estava deitando onde queria e lhe dava na telha? Já acostumara com aquele ambiente de extremo mormaço? Também estava se inteirando dos seus limites territoriais? Confiava nas atitudes das criaturas que o adotaram, e o cercavam e o iludiam?
         Um mesmo vento enjoado teimoso soprava mais e mais hordas vermelhas, a lua e as estrelas pedalavam confusas congestionadas, o lobisomem uivava, iuuuvi!... Aquele calor de forno chegava ao fim do mundo. As ex-árvores da pracinha, ex-paineiras, ex-quebra-arados, ex-ingazeiros... apontavam dedos roídos para as nuvens de areia. O oco amassado encardido infiltrado. Nem chovia havia 13 anos.
O Filé tinha um ar desanimado, torto, misterioso, cheio de enigmas ou escamoteamentos. Podia sujar as quatro patinhas o pelo ralo as orelhas murchas no pó fedido do quintal. Outras coisas, e outras coisas próprias da natureza do cão ele já tinha. Já queria se adonar de tudo e se possível exigir coisas. Tinha mais ou menos noção já de que o pátio nem era o limite do mundo. Olhava a rua e queria ir para a rua e tinha pavor de gente. Sua principal visão, o olfato, lhe dizia que o mundo, o mundo poeirento, as pessoas famintas, até mesmo as árvores incineradas, iam muito além dos puxões de orelha e empurrões e pontapés e pedradas.
E no domingo de manhã ex-Filé desaparecia. No lugar onde dormia e passava as noites só restaram uns poucos esquecidos pelinhos. Nem sobrara nada do ex-cãozinho. Só aqueles ralos pelinhos abandonados deixados para trás.
         Os suspeitos eram os da casa mesmo. Oito ao todo os participantes diretos interessados, vamos e viemos dizer assim. Destes, quem? E por quê? Com que tamanha gana? Era dia de aniversário? Agora só faltava saber quem fora o lazarento, ou os lazarentos.
         O pai nem podia ser, tinha sono de pedra, chegava em casa sempre cansado da pedreira e tinha sonho de basalto. A mãe nem podia ser, detestava trabalho extra, nem água para fazer uma sopa ela podia conseguir. O nº1 também nem, já estava em idade de namorar e namorava escondido, nem ia pensar em cãozinho despreparado. O nº2 nem era, já estava na idade de sonhar com garotas e espiar pelas frestas, nem queria nem pensar em cachorrinhos feitos só de costelas. O nº3 nem podia ser, pois só pensava em bola e tinha uma bola número 5 do lado do travesseiro, e nem sabia nem acender um fogo no fogão. A nº4 nem era para ser, já que as meninas detestam estragar as unhas e têm medo do escuro, e nem sabem o que fazer para sossegar um cão surpreendido na calada da noite. O nº5 de jeito maneira, fora ele que batizara o cãozinho de Filé, nem podia ter ciúme ou ódio ou covardia, nem pensava em destruir o cãozinho para matar sua própria fome. E a nº6 claro que nem, era a caçula do time e totalmente inocente nestas paradas de políticas e economias militares, elazinha nem podia com o vira-latinha nem brincando.
         Assim, o negócio era decifrar o mistério que encobria o sumiço do ex-Filé. E descobrir quem fora o mascarado assassino criminoso. Só restava desmascarar quem fora o servo do anhangá-pitã. Nessa terra invertida esturricada quente como fornalha, etc.
         Poderia ser a nº6; sem querer, é claro. Seria o nº5, que como fora o padrinho já pretendia a exclusividade e a paranormalidade ou a mediunidade do ex-cãozinho ex-Filé. Talvez fosse mesmo a nº4, que pretendia ser veterinária e ousara espiar o ex-cão por dentro. Naturalmente era o nº3, já que tinha receio que o ex-vira-latinha mordesse sua bola de couro número 5. Com certeza poderia se pensar no nº2, pois queria impressionar as meninas ao espalhar no terreiro da pracinha que matara um ex-canzarrão. Agora sim o nº1, que voltava frequentemente tarde da noite e se assustava com o resmungo do ex-Filé. Só poderia ser a mãe, que andava profundamente estressada e com os nervos à flor da pele de tanta carência por atender e tanta boca para encher e nada de grude aparecer. Teria sido o pai que, por causa de uma banal desavença com o colega de trabalho, assim se vingava no ex-Filé.

         Então, por quê?, a vila de Santa Luzia ia adiando seus longos dias muito quentes e inóspitos.