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domingo, 14 de setembro de 2014

Quando Mais Não Seja


      

 
 

      

       No universo espiral flexível simpático... num horto qualquer e distante e sossegado do cosmos... etc., por onde anda e observa... etc., mais por força do hábito inventa dorme... etc., sem tempo sem pressa sem espaço... as palavras as sílabas as letras os números em as correntes de... etc., completo associado sagueiro-da-terra rio Alpercatas ilha das Flores formiga-cortadeira piraba cotia biguá onça-pintada... etc., misturado de todo em as brancas nuvens, o Senhor.

       Ainda não entendo nem acredito nem necessito e não imagino por que essas coisas aparecem na minha rua na minha retina em a minha aula no meu círculo de giz a minha frente na minha lata.

       E olha como se vê no céu em que uma estrela vale tanto quanto mil.

Há metamorfoses que antes de ser já pagam caro muitos e muitos dos pais dos avós dos bisavós, etc. Então, temos coisas carregadas que herdamos dessa gente dessa natureza dessa caravela dessa romaria. Porque uns têm que aprender a ser felizes, e outros a ser desfrutáveis.

       Esses dias eu vi um tatuapara cuandu mocó sagui-de-duas-cores. Ele tinha os dentes tão grandes e salientes que não podia parar de sorrir, sorria sem querer, sorria mastigado. E olhava sorrindo muito desenxabido os outros guris nos brinquedos brincando.

       O verde do mato, o verde dos tipis-bravos, o verde bonito e caprichado. Aves nadavam bem perto da água anambé-azul coscoroba tuim gaturamo-verde tetéu ajurucatinga anhuma itapema vira-folhas. O ouvido do rio com suas canções de água pedras árvores passarinhos e borboletas e besouros e zabelinhas. Outras árvores outras caras e outras figuras canela-de-ema coronha olho-de-cabra saguaraji erva-lanceta gameleira-de-cansaço avenca-da-terra. O dia que adora chuva. Manhã onde mora o sol ovo indez. Céu que não acaba. Lugar da chuva.

Assim vendo eu fiquei na minha, não sabia se eu era um dos que brincavam alvoroçados e sem noção ou se era aquele etê o da arquibancada plateia.

       É o que um menino sozinho pode querer e fazer? Se fosse em adulto teria as lembranças, poderia dizer das suas saudades, chamar amigos, mostrar as mãos, falar das cidades por onde andou, da aventura que explorou o Itaimbezinho, da quadra onde jogou, das árvores que escalou, do rio que nadou, da praia que conheceu fulana.

       Os coqueiros-carandaís da praça são três e lado a lado. E o bom tempo do verão que começa.

Mais e o menino que nunca teve uma bicicleta? Vai feliz de quê? Que lembrança? E dorme sem nenhum sonho de ir e vir.

Ficaria uma hipotética para outra vez. O espaço das árvores ibapoi, cigana, majuba, ajuru, vinhático-testa-de-boi, caixeta, bilreiro, tipuana. Haja vista o caso do caajuçara.

       Veio um piano do mundo mágico que entrou na sua história de coisa de nada de ninguém. Poderia ter sido uma bola, um carrinho, um avião, uma prancha, um livro de lendas dos índios coropó, até mil games, mas foi um piano. Aprendeu tudo de ouvido no prazo de três quatro meses.

Tocou tudo que os gênios compuseram e que os pedestres não sabem nem começar. Os acordes os sons e as harmonias.

Vontade de aquário é chuva. Os peixes aparecem cores circulam rendem alucinam cores por dentro da água límpida as folhas amarelas e as pedras polidas.

E as viagens consagradas para os lugares que só os talentosos têm direito de frequentar. Era um outro mundo. Mesmo de repente cheio de luzes tapete vermelho galerias e aplausos.

O céu azul e até mais. A baía de São José. O rio Araguari. A serra das Araras. Uma semana um mês muitas estações na aldeia dos gerém. Céu de beleza diáfana inefável. Os fins de semana em Itupeva.

Na praça Gonçalves Dias os arrulhos as conversas intermitentes, os três irmãos coqueiros.

Pois o rapazinho, camuflado ao piano, sorria com todos os seus enormes dentes, de olhos fechados, na sua cadeira elétrica, óculos grandes, pianíssimo, sorriso de cavalo, dentes de teclado, cabelos assombrados, braços mãos dedos driblando notas, dentes presas de sabre, engraçado, dentes de marfim.

E só necessitava do ar para ouvir.

       Dia de mil sóis e sinais de música. Dia de mil cantos e gorjeios e trissados e assovios. Dia de mil asas irisadas. Dia de mil folhas de árvores. Dia de tesouro escondido entre mil e uma ilhas Ubatuba de areias brancas. Dia de vento cantar nas folhas da cuipuna e uma duas trezentas mil. Dia de mil peixes comendo frutas amarelas com as pedras e a corrente.

       O recendente caldo de cana com abacaxi, o tempo para onde corre com os anos tão depressa, uma árvore desse porte castanheira-do-pará tem tudo em suas mãos, o rio que imita o vento.  

Os dedos e os ouvidos cheios de caminhos, inaugurando o tempo novo, ondas tímbricas temperando o ar, sons de cores.