No
universo espiral flexível simpático... num horto qualquer e distante e
sossegado do cosmos... etc., por onde anda e observa... etc., mais por força do
hábito inventa dorme... etc., sem tempo sem pressa sem espaço... as palavras as
sílabas as letras os números em as correntes de... etc., completo associado
sagueiro-da-terra rio Alpercatas ilha das Flores formiga-cortadeira piraba cotia
biguá onça-pintada... etc., misturado de todo em as brancas nuvens, o Senhor.
Ainda não entendo
nem acredito nem necessito e não imagino por que essas coisas aparecem na minha
rua na minha retina em a minha aula no meu círculo de giz a minha frente na
minha lata.
E olha
como se vê no céu em que uma estrela vale tanto quanto mil.
Há metamorfoses que antes de ser
já pagam caro muitos e muitos dos pais dos avós dos bisavós, etc. Então, temos
coisas carregadas que herdamos dessa gente dessa natureza dessa caravela dessa
romaria. Porque uns têm que aprender a ser felizes, e outros a ser desfrutáveis.
Esses dias
eu vi um tatuapara cuandu mocó sagui-de-duas-cores. Ele tinha os dentes tão
grandes e salientes que não podia parar de sorrir, sorria sem querer, sorria
mastigado. E olhava sorrindo muito desenxabido os outros guris nos brinquedos
brincando.
O verde do
mato, o verde dos tipis-bravos, o verde bonito e caprichado. Aves nadavam bem
perto da água anambé-azul coscoroba tuim gaturamo-verde tetéu ajurucatinga anhuma
itapema vira-folhas. O ouvido do rio com suas canções de água pedras árvores
passarinhos e borboletas e besouros e zabelinhas. Outras árvores outras caras e
outras figuras canela-de-ema coronha olho-de-cabra saguaraji erva-lanceta
gameleira-de-cansaço avenca-da-terra. O dia que adora chuva. Manhã onde mora o
sol ovo indez. Céu que não acaba. Lugar da chuva.
Assim vendo eu fiquei na
minha, não sabia se eu era um dos que brincavam alvoroçados e sem noção ou se
era aquele etê o da arquibancada plateia.
É o que um
menino sozinho pode querer e fazer? Se fosse em adulto teria as lembranças, poderia
dizer das suas saudades, chamar amigos, mostrar as mãos, falar das cidades por
onde andou, da aventura que explorou o Itaimbezinho, da quadra onde jogou, das
árvores que escalou, do rio que nadou, da praia que conheceu fulana.
Os
coqueiros-carandaís da praça são três e lado a lado. E o bom tempo do verão que
começa.
Mais e o menino que nunca teve
uma bicicleta? Vai feliz de quê? Que lembrança? E dorme sem nenhum sonho de ir
e vir.
Ficaria uma hipotética para
outra vez. O espaço das árvores ibapoi, cigana, majuba, ajuru, vinhático-testa-de-boi,
caixeta, bilreiro, tipuana. Haja vista o caso do caajuçara.
Veio um
piano do mundo mágico que entrou na sua história de coisa de nada de ninguém.
Poderia ter sido uma bola, um carrinho, um avião, uma prancha, um livro de
lendas dos índios coropó, até mil games, mas foi um piano. Aprendeu tudo de
ouvido no prazo de três quatro meses.
Tocou tudo que os gênios compuseram
e que os pedestres não sabem nem começar. Os acordes os sons e as harmonias.
Vontade de aquário é chuva. Os
peixes aparecem cores circulam rendem alucinam cores por dentro da água límpida
as folhas amarelas e as pedras polidas.
E as viagens consagradas para
os lugares que só os talentosos têm direito de frequentar. Era um outro mundo. Mesmo
de repente cheio de luzes tapete vermelho galerias e aplausos.
O céu azul e até mais. A baía
de São José. O rio Araguari. A serra das Araras. Uma semana um mês muitas
estações na aldeia dos gerém. Céu de beleza diáfana inefável. Os fins de semana
em Itupeva.
Na praça Gonçalves Dias os
arrulhos as conversas intermitentes, os três irmãos coqueiros.
Pois o rapazinho, camuflado ao
piano, sorria com todos os seus enormes dentes, de olhos fechados, na sua cadeira
elétrica, óculos grandes, pianíssimo, sorriso de cavalo, dentes de teclado, cabelos
assombrados, braços mãos dedos driblando notas, dentes presas de sabre, engraçado,
dentes de marfim.
E só necessitava do ar para
ouvir.
Dia de mil
sóis e sinais de música. Dia de mil cantos e gorjeios e trissados e assovios.
Dia de mil asas irisadas. Dia de mil folhas de árvores. Dia de tesouro
escondido entre mil e uma ilhas Ubatuba de areias brancas. Dia de vento cantar
nas folhas da cuipuna e uma duas trezentas mil. Dia de mil peixes comendo
frutas amarelas com as pedras e a corrente.
O
recendente caldo de cana com abacaxi, o tempo para onde corre com os anos tão
depressa, uma árvore desse porte castanheira-do-pará tem tudo em suas mãos, o
rio que imita o vento.
Os dedos e os ouvidos cheios
de caminhos, inaugurando o tempo novo, ondas tímbricas temperando o ar, sons de
cores.