Começou
a chover... e tico-ticos de topete, listrados de branco e preto, lenço vermelho
no pescoço, costas barradas de marrom e preto, peito e barriga acinzentados,
saíram aí atrás do lanche.
Uma
corruíra moça, na manhã assim assim ao sul de novembro, e se achando a última
bolachinha de açúcar do pacote, caiu das nuvens na rua Jurema. Foi em frente.
Chegou à rua das Embuias. Passou logo pela praça Triangular. Entrou pela rua
Catauixi. Esbarrou na avenida dos Tinhorões. Estava passeando, a mocinha. Sem
capa de chuva. E voltou mais animada. E retornou. Cantora plumosa.
Se ouvia
o barulho da chuva sacolejando carros pipas no céu. A água se mexendo, se
agitando em volume de cascata, transbordando das nuvens. Era verão e choveria o
que Deus quisesse. Chuva de pancada. Se ouvia barulho e riscos de chuva
rachando com o céu. Raios de fogo chicoteando as nuvens pesadas. Os passarinhos
avisando todo o mundo. Profundos e altos céus derretendo cascatas, cataratas.
Vento descabelando árvores centenárias. Os passarinhos apenas adivinharam. Os
passarinhos cheiram o ar.
E
desabou um toró!... Mas olha, um toró!... E as pessoas correram para a rua,
para as ruas, os passeios, os jardins e o parque da cidade de I-M. As pessoas
estendiam as mãos para pesar as gotas, botavam a língua para degustar as gotas.
O canário-da-terra, amarelo maduro, saiu aí acompanhado da namorada carijó. E
eram todos passarinhos e tal, cambaxirras, carriças, garrinchas.
E
todos da cidade resolveram passear na chuva. E os passarinhos resolveram
almoçar fora. O céu caía em cascatas escondendo o horizonte de sempre,
escondendo o morro, escondendo os matos do fundo do parque do lago. Escondendo
as flores silvestres de cabeça baixa. Banhando a plantinha ornamental dos
brincos-de-princesa. Banhando todas as folhas vestidas de verde do grumané.
Fazendo as delícias dos marurus.
Lilás
pegou a bicicleta e foi pedalar nos caminhos molhados do parque do lago. Ainda
não chegou às proximidades da praça Triangular. Chovia sem parar. Passava uma
poça que ela ria... passava outra poça que ela ria... passava mais essa poça
que ela achava de inventar uma troça. Lilás pedalava na chuva e lembrou de
dizer:
- Eu
conheço o parque, o entorno e o morro como a palma da minha mão. Os passarinhos
pulam dos galhos para a chuva e voltam.
A
menina Lilás encontrou a Rê. As duas de bicicleta lado a lado atravessando
poças pelos caminhos alagados. E riam como nunca. E era mesmo divertido e
diferente. A chuva batendo no rosto, molhando a roupa do corpo, molhando os
cabelos, lavando a cidade de alto a baixo, a roupa ensopada. A chuva já lavara
tudo fazia um tempão. E a água corria pelos lados das ruas e das trilhas.
No
caminho as meninas encontraram o casal, qual seja, a cunhantã, agora esposa
Caúna, com seu esposo Hipocampo. Vinham no automóvel real, caro e vermelho,
capota arriada, pegando chuva, molhando tudo por dentro. Os longos cabelos da
luz Caúna amontoados no banco de trás. O vento incapaz de sobrar e erguer
aqueles longos cabelos molhados de cunhantã. O carro seguia lento com o casal
ouvindo uma sinfonia de Villa-Lobos. Andavam à moda antiga, de charrete movida
por trezentos cavalos de aço e capota arriada. Toda a chuva do mundo na cara.
Volta e meia, o casal se olhava e ria. Ele beijava os cabelos dela.
Mais
adiante o Sorro brincando com sua pedrinha branca inestimável inseparável. O
iluminado atirava a pedrinha branquinha a dois metros e ia buscá-la, atirava a
pedrinha a três metros e ela esperava pacientemente ser recolhida. Sem falar
nas aves que não paravam de subir e descer das plantas, alimentando ninhos de
muito apetite.
E
choveu a manhã toda até o meio-dia. Relampeava à esquerda, trovoava; relampeava
à direita, trovoava. Céus e terras se sacudiam com todas aquelas trovoadas,
ribombadas, atroadas. Caiu principalmente aquela chuva grossa e pesada. Os
índios guaicanãs, família de avós avôs pais mães filhos netos, nuvens baixas,
araras-grandes-azuis micos-leões-dourados-da-cara-preta, tracajás tomavam
chimarrão debaixo de uma tenda de capim, deitados em esteiras de trançados de
tucum, olhando o tempo cair.
Depois que a chuva parou, os
moradores de Ivy-Marae se reuniram na praça Triangular para decidir alguma
coisa. A anta Camaquã, propôs:
- Já
pensei e vamos pensar todos nós. Seguinte. Por que a gente, todo o mundo, nós
todos juntos, não vamos e fazemos uma horta comunitária, hein?! Para aproveitar
que a terra está molhada e favorável para um plantio qualquer.
Alguém
perguntou a Camaquã:
- Tá
certo. E vamos plantar o quê?
-
Vamos plantar quase de tudo. Poderemos plantar quase tudo. Sugestões não
faltam?
O
povo não pensou muito e foi sugerindo abóboras, porongos e chuchus, por
exemplo, pés de araticuns, pés de sete-capotes, pés de azedinhas, pés de
pentes-de-macaco, pés de timbaúvas, pés de cajus. Então, decidiram plantar isso
mesmo, e logo antes que o tempo esquentasse.
Naquela
tarde prepararam a terra, capinaram, lavraram e aterraram. Deixaram a terra nua
e livre para receber as sementes. Fizeram caminhos na terra vermelha e úmida,
fizeram canteiros, fizeram o que precisava ser feito. Depois tudo ficou plantado e a noite chegou. Era o tempo de
esperar por uns dias e aguardar que tudo fosse indo bem.
Quatro ou cinco dias após, as
primeiras folhinhas apareceram e todos vieram olhar. A horta era comunitária e
crescia com os olhos dos donos.
Chegaram
mais uns dias e as folhinhas ou brotinhos começaram a se arriscar e a aparecer
ao sol. De noite tudo descansava, e de dia recebiam a força da luz. Aquela
semana choveu pouco, aquém da medida para a horta. A horta respeitava o dia de
sol e a noite com as marés da lua.
E a
tal chuvinha necessária não vinha ou demorava. Decidiram em assembleia que
tocariam uns tambores. Os índios tenetehára ensinaram a tocar tambor e timbatu
para a chuva cair. Telefonaram para chamar uma chuvinha. A chuvinha veio e
todos se abraçaram.
- A chuvinha veio em boa hora
- todos disseram.
Assim,
a plantação ainda crescia e teria mais uns dias para crescer e se desenvolver
até que pudesse despejar flores e frutos. A comunidade aguardava e cuidava com
o olho bom do dono, mas não era o suficiente.
Então,
uma manhã acordaram com uma chuva muito forte. Todos temeram pela enchente e a
enchente levar a horta. Chovia muito forte e rápido. Chovia o que Tupã mandava
e era já muito. A comunidade correu na chuva e se reuniu para pensar como parar
a chuva. Decidiram bater tambores e tocar timbatus. Os índios guajajaras
ensinaram tocar tambor para fechar as torneiras do céu. Bateram os tambores e
coisa e tal, chocalharam os maracás, porém não era o suficiente. A chuva não
parava e chovia muito. As pessoas e bichos tomavam chimarrão sob os telheiros
das casas e olhando a chuva.
A
chuva não parava e já ia para quatro dias de muita água. Um passarinho azul
debaixo da chuva, ali pousado no galho pelado do guabiju, azul-claro nas costas
e azul-clarinho na barriga e peito, não se importando com chuva e cantando, e
às vezes, de repente, se sacudindo todo. E a chuva que caía murmurante ou
rumorejante.
As pessoas não tinham mais
ânimo para brincar na chuva e muito menos para olhar com olho de dono a horta
alagada. Se reuniram e decidiram tocar muito mais tambor. E tocaram tanto mais
tambores. Apelaram para os índios das tribos beiço-de-pau e boca-preta.
A
chuva parou bem na hora para que não perdessem a lavoura. E não perderam quase
nada. Bem na hora mesmo. Logo veio o sol, a força da luz do sol, e as flores
apareceram. Todos vibraram na manhã que a horta se encheu de flores de muitas
cores e variedades.
Mais
uns dias e os pequenos pontos de frutos já davam o ar da graça. Eram tantos que
pararam de contar. E os frutos iam crescendo a olhos vistos dos donos e donas.
Seria bom amanhã ou depois
mais uma chuvinha mansa. E a chuvinha veio. Seria bom mais uma capinada e eles
todos capinaram. Os frutos já despertavam interesse e orgulho. Os cordões
cheios de frutos redondos e verdes se espalhavam pelos canteiros. Toda a terra
cultivada se esparramou de verde, de frutos redondos ou pra lá de redondos. Os
frutos aparecendo, espantando. Eram frutos que nasciam debaixo da terra,
rasteiros, no alto dos galhos, mais altos.
Esperaram
mais duas semanas para colher as abóboras e colheram os chuchus. Esperaram mais
uma semana. Esperaram mais duas semanas para colher as abóboras e colheram os
melões. Esperaram mais duas semanas para colher as abóboras e colheram as
abóboras. Esperaram mais uma semana e colheram as melancias. Esperaram duas
semanas e tanto. Esperaram dois meses para colher os porongos. Esperaram dois
anos e meio para colher as pitangas e guabirobas e jabuticabas.
Ivy-Marae é feliz por
natureza. É assim. Não vive esperando surpresas, fim de mundo ou coisa inédita.
Somente aguarda os anjos verdes. Não há falta de ar, não há falta de passeios,
não há falta de esperança, não há falta de mato verde. É sim um lugar aberto
para as luzes, os bons fluidos da terra e do ar. Ali só restam qualidades. As
pessoas e os bichos e as coisas estão ali ensaiando o céu. E Ivy-Marae ainda
existe. Terra do tudo.
E
pela rua Jitirana feita de terra ou asfaltada ou empedrada... passaram cenouras
brancas, passaram tomates gordos, passaram abóboras tímidas, passaram pés de
agriões, pés de cebolas, pés de araticuns maduros, pés de pitombas
qualificadas. Passaram pessoas bichos coisas que chegavam vindo de Arraial do
Cabo, Santa Isabel, Igaratá, Serro, Bocaina.
***
Um
dia de sol como nenhum outro. E o Sorro saiu para passear e pegar sol junto com
sua pedrinha branca. Ivy-Marae era e é longa. Sentou numa pedra e ficaram aí
pegando sol, ele e a pedrinha. Graxaim olhou, pensativo... e disse, falando
para a pedrinha:
- É,
tem um vento. Tem um vento, sim. Tem um vento que brinca com as folhas verdes
das árvores ajarás. Vejo que o pé de jabuticabas está sempre carregado, que as
frutas pretas estão maduras, que os passarinhos no seu apetite por brincadeiras
brincam de pegar... que as borboletas verdes procuram beber a água das folhas
verdes...
O
Sorro não sabia o que fazer o que pensar o que imaginar quando se deparava com
palavra nova ou desconhecida, exemplos: carraca, patacho, urca, fragata,
galeão, bergantim... O que era isso para onde ia isso tudo?
Depois,
Sorro viu as duas meninas passeando ali por perto. Lilás e Rê vinham gastando
simpatia. Talvez estivessem indo dali direto para a sorveteria. Quem não gosta
de sorvete? Sorvete de jabuticaba, pitanga, abacaxi, açaí, pequi. E Sorro
pensou, olhando as menininhas, falou para a pedrinha:
- A pouca idade é fogo, água,
ar, nuvem, rio, tudo.
Sorro
estava simpatia. Sorro era simpatia. E as pessoas e bichos e coisas que
cercavam o Graxaim já ficavam simpáticas. E tudo respirava doce harmonia.
Dia
de sol e calor como nunca. Ótimo dia aberto de sol e calor. Suor na testa.
Algazarra de variados passarinhos incidentais, estrelinhas-do-pará, cauintãs,
chora-chuvas-pretos, gaitas, cardeais-do-banhado, curixos, cada um na sua
altura de árvore. Flores um pouco entregues ao calor, árvores entregues ao
calor, o cenário todo entregue ao calor, mormaço, forno. A paisagem daqui para
lá.
E
Sorro disse uma vez que as pedras sentem, sentem e pressentem. E as pedras
batem e rebatem. E Sorro ainda completou que as pedras têm coração e um coração
mole. É, Sorro falou. Quem lembrou?
Por
onde as duas meninas andavam rua José de Alencar, suor na testa, viam aquele
dia de sol quente, ouviam o grito dos passarinhos, ouviam o conversar das
pessoas. A Rê com um coque moderno espetado por uma travessa de osso; Lilás um
vestido vaporoso amarrado na cintura por faixa de fita verde. Não havia nuvens
no céu. Os passarinhos trabalhando, pousando nos galhos, rimando, voando. As
borboletas de folga tirando férias de fim de semana. O morro subindo com um
coqueiro nas costas. Um caponete de araçazeiros e gabirobeiras e sacambus e
moacãs. As meninas ainda não haviam chegado à sorveteria Ararau.
De
repente saiu de onde?, um tatu. Este atravessou a rua Caeté-do-Mato, atravessou
a rua, foi rasteiro e focinhando, e foi em direção ao lago. E Rê explicou para
a amiga:
- Não
sabia desses tatus aqui.
Assim,
a Lilás:
- Ei,
Rê! Vamos andar de bíci?!
- Vou
na garupa.
Rê se
sentou na barra da frente da bicicleta e a Lilás foi pedalando para os lados do
lago. Aí, esperaram um pouco vendo uns meninos com meninas brincando de vôlei.
Alguém sacou e a bola fez uma tal parábola até outro lado da rede, onde entrou
numa jogada da equipe de lá. A equipe de lá devolveu com uma cortada
definitiva. Nesse instante veio a surpresa. O tatu apareceu, cruzou a quadra de
areia pisada, passou farejando baixinho e rasteiro preocupado somente com sua
tarefa. Todo mundo deu um passo atrás ou ficou parado, frio, estátua. O tatu
acabara de cruzar a quadra. Muita gente se obrigou a sorrir do susto e rir da
atitude do tatu:
-
Olha só o tatu!
-
Quem diria, hein?! Ah ah ah!...
E
Lilás falou para a Rê:
- Ué!
Nem sabia que esses tatus existiam aí.
Era
isso mesmo. Tudo porque um gato é um gato, um cachorrinho é um cachorrinho e um
tatu é uma coisa animal e móvel existindo no meio do povo. E olha o céu nesta
hora... o arco-íris... as andorinhas em ondas atravessando quase sem som o arco
alto do arco-da-velha sete cores!
Pelo
meio da rua Airi, rua em si, passaram acontecimentos. Passaram carnavais,
passaram romarias, passaram desfiles de escolas militares em dia cívico.
Passaram índios timbiras.
Um
século depois as meninas já andavam calmamente de bicicleta à beira do lago.
Existia em torno do lago uma faixa de areia que era praia, existia uma faixa de
pedras postadas que era a calçada. E aí, uns coqueiros distribuídos em alas
entre outras árvores. Aí, aí pararam por parar as meninas. O sol, como sempre,
distribuindo cores para todos. Rê, observou:
-
Hem?! Não é a cunhantã Caúna e atual esposa, nossa querida, e seu esposo
Hipocampo lá, assim, passeando de barco no meio do lago?
Lilás
olhou, concordou:
- É.
É mesmo. A tal índia, nossa amiga, e seu esposo cavalo-marinho, nossos amigos.
No
meio do lago, então, a esposa Caúna, dos cabelos alçados pelo vento igual cauda
de tamanduá-bandeira, e o Hipocampo, cavalo-marinho, tomavam banho de sol. Cabelos
alados tão alados em algazarra do ponto de vista: você viu só?! Enquanto isso a
canoa boiava pacífica e anônima sobre o centro líquido do lago. As coisas
aconteciam aí afora na paz... A rainha de biquíni, o Hipocampo de sunga. O sol
indiferente e presente distribuindo cores por todos. O lago azul, a mata de
verdes, o céu azul com manchas de nuvens brancas. A rainha de óculos escuros
esverdeados; cavalo-marinho de óculos escuros azulados.
Caúna,
inundada de luz, madeixas e penachos ao vento, se ergueu do barquinho e falou
apressadamente:
-
Olhe, olhe... Hipo... é um tatu!
Hipocampo
ficou procurando ver... com receio que até o barquinho virasse... Depois disse:
-
Quê?! Nem sabia que tatus existiam aqui.
- E
ele nada como um manditinga.
- É.
Nem sabia que esses tatus nadavam tão bem aí.
O
tatu passou por eles nadando como um peixe. Tatu ou peixe-tatu. Nem olhou, nem
os olhou, nem deu a mínima bola. E o tatu nadou mesmo com pressa e muito bem.
Agora o tatu estava concentrado em nadar para a margem. Não tinha olho
arregalado e nadava concentrado, mas muito concentrado, boca fechada.
Praticamente o focinho de fora. O que se viu. Enfim, o que se podia fazer?
***
No outro dia. E já ia
amanhecendo devagar no ritmo normal, um pouco claro, um pouco escuro, assim
como um dia inédito. Era já um outro dia com tempo e mundo à parte.
O vento soprando luz, soprando
chuva, soprando ventos. Palmeira catulé agitando os braços no sopro do vento.
Passarinhos conhecidos e passarinhos diferentes indiferentes.
Saíram ali da capoeira mãe
cutia, os filhotes de cutia, três filhotes, e mais atrás o pai cutia, família
cutia.
A esposa Caúna passeava em seu
palácio de vidro, majestoso e espaçoso, o Jardim Botânico, cabelo sofisticado,
pensando... Ela foi até uma das cem janelas do palácio de vidro e olhou para o
pátio, para os jardins, para o gramado. Depois olhou para algumas coisas da
cidade até onde a vista podia alcançar. Olhou a paisagem... E pensou... E ao
sentir que queria fazer alguma coisa e não tinha nada que fazer ali no palácio
de vidro, decidiu:
- Hã?
Já sei. Vou passear como todo o mundo. Vou aí, ora.
Na
rua Mulungu passaram espetáculos e paradas e cavaleiros em dia de cavalgada.
Passou um ginasta olímpico; passou uma equilibrista; passou um jaguacampeba, que
com o focinho cabeceava uma bola amarela de plástico; passou a ginasta
olímpica, namorada do ginasta olímpico, agitando cordas e fitas em espirais.
O céu
era açúcar de se olhar.
A
cunhantã desceu a alta escada de mármore branco, desceu com cuidado para não
tropeçar, para não derrapar, e já no salão pegou pela trilha vermelha do tapete
vermelho e desceu mais um lance da escada até o pátio. O sol já vivia no céu
todo solto e aberto distribuindo as cores que todos conhecem. Estava um dia.
Ela, linda exótica magra abstrata, falou a seu esposo Hipocampo:
-
Pois é. Vamos passear de carro aberto no dia aberto?
O
esposo sorriu, concordou e esfregou as mãos. Hipocampo também estava feito para
passear.
Os
dois ainda não chegavam à praia do lago.
Estavam
andando pelas ruas calmas e estreitas da cidade, quando o esposo da esposa
freou bruscamente o carro. A cunhantã, dos cabelos alçados pelo vento, fez um
movimento para frente no banco do carona e se assustou:
- Que
foi, meu?!
-
Olha só, esposa amor, amor de esposa... É um tatu que acaba de atravessar a rua
sem avisar e fora da faixa de segurança.
A
soberana se espantou e espantada desabafou:
- Mas
como, gente! Eu nem sabia que tínhamos tatus aqui!
O
tatu não deu bola para o carro, ou nem se dignou a perceber que podia ter sido
atropelado. Ele simplesmente atravessou a rua Carnaúba, concentrado no seu faro
normal, atravessou a rua, e saiu na calçada, andando pela calçada, reparando
quem sabe as vitrines enfeitadas. As pessoas olhavam, outros animais olhavam e
era um tatu de sorte. E o tatu ia tão concentrado e virado para si mesmo, que
nem parecia preocupado com o mundo dos outros bichos e gentes e coisas.
E
sempre modéstia a parte, o tatu muita aventura de tatu.
***
A
Lilás a Rê o Eduardinho planavam flanavam por aí, cidade de I-M, rua Caixana,
dia de sol acelerado, muitas paturis-pretas piando no lago. O leve e plumoso
Quatipuru pulou se apresentando:
-
Tenho chegado, oquei?!
-
Quatipuru?!
- O que foi ou deixou de ser?
-
Quantos dentes você tem?
- Tenho
vinte e dois, ou seja, todos.
Continuaram
a perguntar para o Quatipuru. Desta vez era a Rê.
-
Quatipuru?
-
Você por aqui, menina Rê?
- E
se você fosse árvore, que árvore você adoraria ser?
- Se
eu fosse árvore... Eu preferiria morar na cidade de Lapão, é.
- Por
onde tem andado, o Quatipuru?
- Eu,
eu mesmo, tenho andado pelo Caminho da Paz, Amargosa, Mutuípe, Jiquiriçá,
Ubaíra.
- Com
quem você casou, Quatipuru?
- Eu
casei com ela uma quatiaipé e tive cinco caxinguelezinhos em dois mil e dez, eu
tive quatro agutipuruzinhos em dois mil e onze, eu tive oito quatimirins em
dois mil e doze, eu tive seis filhotes caxinxezinhos em dois mil e treze, eu
tive cinco filhotes acutipuruzinhos de ambos os sexos em dois mil e quatorze...
Depois pouco mais tarde eu morri.
E
Ivy-Marae não era cidade dos mortos, sim cidade das almas que esperavam o
chamado dos céus.
***
Por
esse horário da tarde se ouviu o tradicional barulho no meio do céu azul. Nas
ampliações do céu, além das tempestades, beirando as pouquíssimas nuvens
brancas. E descendo. Assim vinha a nave dos anjos verdes para mais uma seleção
especial uma convocação.
A nave apareceu de vez...
pousou na praça Triangular. Uma nave verdadeira, uma esfera de vidro ou
diamante lapidado. Nave aparição, envolta em soberana e sonora luz. Tão
chocante quanto um ovo em pé.
O
povo multidão foi juntando em torno da nave que se acomodava. A porta da mesma
se abriu e os anjos verdes se apresentaram. Os anjos verdes flutuavam um
pouquinho, uns dois ou três centímetros altos do chão. Flutuavam equilibrados
no pensamento. As asas mal e mal abertas.
Como prefeito de Ivy-Marae,
Hipocampo, o conhecido cavalo-marinho e esposo da cunhantã Caúna, fez as honras
e estendeu a mão.
-
Sim, isso mesmo, seu anjo verde e divino e adivinho, estamos aguardando a
convocação. Ora, quem já saiu na lista? Que lista é essa, divinos?!
O
anjo verde responsável acionou o computador de mão e escalou os convocados
daquele mês. Eram treze os eleitos do livro de ouro. Um deles vinha já vindo
ali, entrando sem cerimônia pelo tapete e subindo a rampa da nave. Um dos
escolhidos era o tatu.
Poucas pessoas sabiam que os
tatus andavam aí. E este Tatu em especial já estava para deixar a cidade e ir
definitivamente para o céu. E isso o alegrava muito, bastava ver o brilho dos
seus olhos e ver sua empolgação ao subir a rampa e se internar na espaçonave.
Entrou pela nave todo faceiro, farejando, focinho alto, concentrado e faceiro.
Os
anjos verdes ainda levaram encomendas as mais diversas: cinco porções de
bolinhos de chuva, feitos em dias de chuvas; uma já cantante mudinha de rio
Caí; cem dúzias de jabuticabas; vinte arrobas de café moído de safra especial
dos cafezais de Nova Olímpia; um casal de beija-flores-brilho-de-fogo; sementes
de tipos de abóboras; oito arrobas de mel de abelhas silvestres; fotos e mais
fotos das cascatas morros e canhadas da região de Minas Novas.
A
nave ouviu um barulho por dentro, o povo multidão ouviu um barulho vindo de
dentro da nave, a astronave fez um ruído xucro, a nave toda tremeu e zumbiu...
bzzzz!, o povo viu a nave tremer e a cidade tremer e a poeira levantar...
Rapidamente a nave se ergueu, o povo apertou os olhos por causa do reboliço. A
multidão segurou o boné quem tinha boné. O povo botou a mão em pala para ver
mais longe. A nave subiu e desapareceu até a vista não mais alcançar ou
aguentar. Lá muito no fundo do céu a nave sumiu sem mais comentários e bem
feito.
Crianças
enforquilhadas nas ancas das mães, exclamavam:
- Tê,
pa-te-tintó... qui tunibó... on-re-meeê!
***
Ivy-Marae
é uma cidade única, pequena e total. Cidade sem tirar nem pôr. Cidade bonita,
justa, ideal e bonita. Cidade para todos morar quando estão entre a vida e o
céu. Uma cidade pequena para todo o mundo se conhecer, tirar férias e passear.
Uma cidade com lago, praça, morro e mato nativo.
A
esposa Caúna, dos cabelos alçados ao vento, e seu esposo Hipocampo, o
cavalo-marinho, saíram para caçar passarinhos. Caçar passarinhos? Mas isso é legal
em Ivy-Marae? Não, iam mesmo espreitar passarinhos. Espreitar, bizolhar, espiar
com binóculos, entrar na vida alheia lá deles. Ah, então!
O
Hipocampo, comentou:
- Já
pegou seu binóculo, comadre Caúna?
A
esposa Caúna era sempre simpática e riu:
- Ah
ah ah!... E você, compadre Hipocampo?
Foram
nas bicicletas até o morro do lago. Junto ao lago, no alagado, entre gravatás
ou caraguatás e preás e sapos-martelos e jias:
-
Hum... É um quero-quero...
Os
quero-queros vivem nos banhados ou muito próximos a eles. São aves de voar
pouco, de voos curtos e rasteiros. São aves nervosas, escandalosas, esganadas,
alarmadas, alarmantes e corajosas. Têm o peito de penas pretas e a barriga de
penas brancas, e as costas de penas cinzentas. Levam uma pena no alto da cabeça
como crista. Caminham com pernas longas e vermelhas, com pés de quatro dedos
abertos e vermelhos. Mãos nas costas.
Depois
o casal real subiu o morro a pé. A grama escondia os pés, apareciam algumas
flores, ervas-lanceta amarelas, gramas-do-pará, árvores de tamanhos diversos,
borboletas de cores, almofadas de nuvens brancas no alto, muita luz do sol.
Hipocampo e Caúna caminhavam sem pressa. Ela sinalizou um coleirinha ali ali se
equilibrando numa haste de capim-cheiroso:
-
Hum... É um coleirinha...
Os
coleirinhas são passarinhos miúdos e engraçados e peso de pluma. Muito
irrequietos, apressados, buliçosos, rápidos, divertidos, engraçados,
brincalhões, interessantes, curiosos. Têm uma cor cinzenta clara pelo corpo,
onde nas costas são um pouco mais escuros. O bico é curto e grosso. Têm um
canto peculiar. E uma coleirinha preta no pescoço. Gostam de andar em pares e
até em turma. E trabalham em trapézios, já se vê, pelo poder de se equilibrar
nos talinhos de capim e rir de tudo o tempo todo.
Hipocampo
quis elogiar sua esposa e elogiou:
-
Olha... como você tá bonita debaixo de toda essa luz do dia! Suas sardinhas se
destacam todas todinhas, seu cabelo gigante espantando o vento...
Ela,
a Caúna, parou sorrindo na frente do nariz do marido. Aí, se olharam muito
pertos um do outro.
Sentaram
na grama para olhar em volta sem pressa. Ouviram um bem-te-vi gritando no alto
de um pé de angico. Ou seria uma árvore canjerana. Caúna suspirou:
-
Hum... É um bem-te-vi...
Os
bem-te-vis são aves muito desconfiadas. São aves nervosas e territoriais. Não
suportam concorrência por perto, logo dão o alarme e correm atrás. Vivem nas
árvores altas bem no alto, mangabeiras, copaíbas, maraximbés, andirobas.
Investem em qualquer um que invadir seus domínios. Têm o peito amarelo e as
costas escuras. Um penachinho no alto da testa. Um risco preto na altura dos
olhos como se fosse uma máscara de bandido. Mas existem diversos tipos de
bem-te-vis, e mais ou menos parecidos.
Ali,
sentados na grama verde do morro... o casal real espreitava os passarinhos...
um olhava pro outro... o outro olhava pro um... as nuvens no céu quase nem se
decidiam para que lado se mover. Hipocampo olhou o cabelo de Caúna e não disse
nada. E era mesmo um cabelão alçado no ar pelo vento, como um rabo de peixe,
como uma toalha no varal, como uma bandeira na praça da Bandeira. Foi a índia
quem falou:
-
Hum... É um beija-flor...
Há
espécies e tipos de beija-flores. Este que a Caúna estava focando era um
beija-flor de pescoço branco, asas escuras e resto do corpo verde. Um verde
metálico, como dos peixes. Muito elétrico, irrequieto, rápido, peso de suspiro.
Aparece e some de surpresa, de repente, no modo de helicóptero. Beija, como o
nome diz, todas as flores que encontra. Se alimenta do néctar. Ele se move no
ar para todos os lados e canta estridente.
Depois,
Hipocampo beijou a esposa no rosto. Quanto mais o dia resplandecia, mais as
sardas da esposa se destacavam. E a Caúna sorria muito quieta ou quase
distraída com os passarinhos, besouros, nuvens, folhas das sucupiras. Aliás, os
dois vieram ali para espiar os aladinhos. E eram às vezes indiscretos com os
passarinhos, as árvores, as corruíras, os gafanhotos esperança-dos-pastos, os
louva-a-deus.
***
Lilás, Rê e companhia, como a
maioria do povo, então, depois de assistir à partida da nave, foram brincar
descendo até o lago.
- Vamos brincar no lago, é?!
- Venha ver como vai ser
bonito!
Na cidade de Ivy-Marae, em
noite calma e estrelada, era muito comum as pessoas aproveitar a noite e
praticar o esporte de acender velas à beira lago. O lago calmo e a noite
estrelada convidavam.
As pessoas vão em grupos de
amigos, conversando sobre tudo, levam biscoitos e sucos, chimarrão, chá, se
sentam na grama, na areia, sobre as pedras, enfim, e acendem as velas, ligam
celulares. Olham pro lago, olham pro céu, falam pouco ou quase nada, falam
muito, falam o que for necessário, riem, contam, recontam, olham as estrelas
cadentes e fazem planos para a eternidade. Talvez falem um pouco assim:
- Olha lá... Que estrela é
aquela?
- Onde? Onde?... Ah, é! Isso
mesmo.
- Quanta estrela... Isso até
confunde, né?!
- Já olhou a Mimosa do
Cruzeiro do Sul?
- Ah-an!...
- O astrônomo mestre João,
tripulante da esquadra de Cabral, foi ele que descobriu o Cruzeiro do Sul, é.
- Como sabe? Você estava lá?
Assistir velas boiando no
lago, pisca-pica de celulares. Assistir estrelas pingadas no espaço. Tudo é
como assistir um filme mudo comentado na plateia. Muita gente perde o senso. É
comum poetas perder o senso olhando aquele céu noturno organizado de estrelas,
respingado de fogueirinhas mornas. Muito fácil olhar estrelas e luzinhas no
lago e luzinhas no gramado, e sair palpitando. Coisa também de pensador.
- Que estrela é aquela lá?
- Qual aquela lá?
- Aquela lá, maiorzinha, aqui,
na direção do meu dedo. Tem nome? Tá reconhecendo? Tá vendo?
- Hum... É da constelação de
Aquário.
- E como tem certeza?
- É só olhar o mapa
astrológico.
- Pra mim parece tudo muito
virtual. É tudo como um desenho de escola.
- Tá bom!
Os cidadãos de Ivy-Marae se
posicionavam em torno do lago, cercando a água, espalhados na grama do
barranco. Uns mais já acendiam outras velas, já eram muitos, mais outros
chegavam com celulares, velas acesas, candeeiros, lampiões, lanternas mágicas.
Mais tarde, antes das velas se
apagarem, todos que estavam ali apreciando a noite, entraram nas águas do lago.
Quando uma estrela riscava o céu e tombava no espaço explodindo em silêncio, os
desejos eram pedidos em segredo. Cada um que visse aquele fenômeno fazia o seu
pedido sem contar para ninguém. Só de superstição.
- Fez seu nhenhenhém?!
- Nhonhonhô!
A noite toda se passava assim.
No céu pouco se via as coisas mudar. E ali no chão conversas com amigos, e
velas acesas tremendo ao sabor do vento. Mas ninguém voltava cedo para casa. Se
mergulhava, se remava, se conversava, se ria, se olhava o céu como um lago
iluminado.
- Sabe o que eu lembrei,
assim, no mais?
- Não. O que é?
- É que me contaram uma vez
que as estrelas no céu são fogueirinhas de São João espalhadas.
- E onde foram parar as
bandeirinhas de papel de seda de cores, os balões de cores, o quentão, o
pinhão, o amendoim, a pipoca?
- Dizem até muito mais.
Inventam que são janelinhas do céu ou anjos pegando fogo.
Muitos já se acostumaram olhar
o céu e ver graça nas estrelas aparentemente frias, mudas, distantes, bem mais
distantes. Outros esperavam sempre uma cadente e logo logo faziam pedidos
secretos e audaciosos. Aplaudiam quando explodia. Sempre há os que se
entusiasmam mais e melhor que outros.
- Ah!... É dez, é cem, é mil!!
- É lindo! É cem! Como o ouro
que é belo, amazônico.
Apreciar as estrelas no céu
era reconhecer o mundo muito grande e ao mesmo tempo se sentir encolher
encolhendo diminuindo diminuto.
***
Eduardinho
estava na sua sala de brinquedos e com vontade de fazer nada, fazer qualquer
coisa, talvez uma mágica, talvez tudo. Aí, começou a arrumar desesperadamente
tudo que via pela frente. Ele arrumou a postura da cadeira, limpou o pó do
quadro da parede, ajeitou o tapete, juntou um pé de tênis com o outro da mesma
espécie, escovou o par de sapatos. Aí, inventou de agarrar uma almofada com
cara de peixe-boi engraçado. Um tempinho mais parou assustado do seu
temperamento. Peraí que ele parou! Foi e se olhou no espelho e quase não se
reconheceu.
Edudinho
arrumava assim todas as coisas que via porque no fundo queria jogar uma boa
partida de futebol e ser um craque da Seleção. Mas ele não tinha bola, nunca
ganhara de presente uma bola, nem no natal. Quando queria um presente, em vez
da bola, pedia sempre um jogo de vídeo game. E todo natal eram joguinhos de
vídeo game. Todo aniversário pedia mais joguinhos de vídeo game. E assim por
diante. Desse modo, nunca ganhara uma bola de futebol. Nem bicicleta, para ver
o absurdo, ele tinha!
Bem,
aí Edinho esperou, se encostou na janela, ouviu a begônia-de-folha-estreita
falar entre folhas totalmente verdes, olhou a guabirobeira pesada de frutos,
olhou a paineira cobrindo o chão de sombra... As sombras do mulungu deitavam na
sombra do mulungu, por preguiça.
Ed ao
telefone falando com a Rê:
- Oi,
Rê! Vamos jogar bola? Você quer? Você tem bola de futebol?
-
Olha, eu tenho bola de futebol. Então, vamos. Convida também a Lilás.
Eduardinho
telefonou para a Lilás:
- Oi,
Lilás! Vamos jogar bola no parque do lago? Vai ser hoje mesmo. Daqui um minuto.
Topas?
-
Olha, eu vou sim. Todo mundo vai calçado de chuteiras? Ou vão de tênis? Ou
ainda de sandálias franciscanas de pescador? Pé no chão?
O
menino Edu passou na casa da Lilás; e eles dois passaram na casa da Rê.
Passaram na confeitaria para provar uns doces em forma de peixinhos, vidrados e
listados de colorido, sortidos. Assim os três miúdos foram ao campinho de areia
solta do parque da beira do lago. Ali, já acharam a cancha de jogar bola, com
goleiras de canos de ferro e sem as redes, um chão de areia fofa, em volta algumas
pitangueiras e araçás e timbés.
Outras
pessoas circulavam de bicicleta pelos caminhos estreitos do parque. Uns e
outros de velocípedes. Uma canoa amarrada numa pedra aguardava convite para
navegar no lago. Outro e outros bandos de andorinhas davam rasantes na
superfície da água para molhar a ponta das asas. Muitos aladinhos cruzavam a
área de visão de quem andasse pelo parque àquela hora. Um jaguarinha descansava
sentado olhando os prováveis jogares de futebol.
Os
três amigos iam jogar mas, olhando bem, faltava gente para formar dois times
completos. Faltava gente até para formar um time incompleto. Decidiram, então,
brincar de bater e agarrar pênaltis. Tipo assim: cobrador e bola, de um lado;
goleiro e goleira, do outro.
Pois
aí, um caso a parte. Quem iria para o gol? O Eduardinho já reclamou:
- Eu
inventei jogar bola, então, não vou para o gol!
A
Lilás falou por ela:
- Eu
sou convidada, então, não mereço ser empurrada para o gol!
A Rê
disse:
- Eu
sou a convidada e dona da bola, então, não mereço mofar debaixo das traves!
Haveria
uma saída pela direita? Conclusão. O Eduardinho foi para o gol. Teve que se
sujeitar porque senão as meninas fariam greve de jogar bola. Porém, acertaram
revezar para que todos pudessem sentir o gostinho que é chutar no gol.
A
Lilás foi cobrar o pênalti. Se preparou para isso, ajeitando o cabelo que caía
na carinha, na frente dos olhos, se preparou a vida inteira para esse momento.
Colocou a bola na marca, olhou o goleiro lá todo tímido. Aí, Lilás pensou:
“Nossa!, como eu vou fazer agora?” Ela só sabia chutar mais ou menos porque
vira isso mal e mal na tevê. Então, correu para a bola... calculou mal a
distância entre a bola e o pé que se levantava... e seu próprio passo ficou
esquisito... chutou... chutou a bola de raspão. E esta rolou fraca e torta lá
para fora. Mesmo assim o Eduardinho foi atrás e se pinchou como goleiro que era
e a agarrou. E a agarrou caindo abraçado com as duas mãos na redonda.
Daí,
foi a vez da Rê. Ela colocou a bola na marca do cal (onde calcularam pudesse
estar a marca do cal). Fez um montinho de areia. Tomou a distância
regulamentar, mordeu os lábios muito tensa, ajeitou os cabelos para trás das
orelhas, olhou as traves para ver se ainda estavam lá, mirou a bola, escolheu o
pé para o chute e partiu... E correu muito veloz para a bola... Assim, passou
da bola e quase nem chutou, atropelou a bola... A bola saiu mascada, torta,
esquisita pela linha de fundo e foi parar lá no lago.
O
lago fez uma ondinha, fez outra ondinha, e a bola voltava para a praia, mais
uma ondinha e a bola chegou à praia e foi recuperada pela galera.
Pela
rua dos Sateré passavam os que passavam e muitos outros mais. Passou uma paca
puxando sua própria sombra, passou um cachorro-guará puxando uma piscina
olímpica, passou um caminhão baú puxando um ruído carregado de trovões e
tempestade.
Para
dizer a verdade, as pessoas e os bichos que passavam aí pedalando tinham medo
de cruzar perto da bola. Um e outro ainda parava para ver os três jogar, mas
desanimavam no minuto seguinte. O jaguarinha olhava de língua de fora, não
latia, não roncava, não acoava, não ria, sossegado na sombra da árvore
jacarandá-cabiúna. Um bem-te-vi se escandalizou quando o goleirinho defendeu um
pênalti da Rê.
Quarenta
e cinco minutos mais tarde, o Eduardinho reclamou que estava cansado do gol, e
queria ir para a linha, queria chutar ao gol. Lilás foi para o gol. Vinte
minutos depois a menina enjoou de pegar bola lá para trás da goleira e pediu
troca. Rê foi para o gol. E a Rê foi a melhor do goleiro ou das goleiras. Mas
nem tanto melhor assim. Mais ou menos melhor assim.
Uma
hora e meia de jogo, o Eduardinho disse que não queria mais chutar nem agarrar
no gol. Rê escondeu a bola debaixo do braço. E vieram os três embora. O
campinho de areia ficou só. As goleiras ficaram de boca aberta esperando novos
jogadores. Os bem-te-vis respiraram em paz. O jaguarinha já não estava mais
ali. Os três amigos não chegavam ainda à rua dos Andirá.
No
caminho para casa, os três encontraram o casal real ali na praça Triangular. A
Caúna e o Hipocampo estavam no lazer e desenhando e pintado. Cada qual sua tela
mirando os atrativos da praça.
Os
três se aproximaram e procuraram olhar que desenhos interessantes, tanto da
Caúna como do Hipocampo. No desenho da esposa dos cabelos embandeirados ao vento
do dia, apareciam: o discoporto, que vivia ali; uma árvore grande, a sucuuba,
que vivia e morava ali; cinco canteiros de flores diversas e coloridas, que
viviam ali; um navio de mil janelas cor de abóbora, que não estava ali; uma
palmeira juçara carregadinha de bolinhas coloridas de natal, que não estava
ali. E sobre tudo um número absurdo de passarinhos, principalmente andorinhas,
paturis-pretos, surucuás-de-barriga-amarela, bem-te-vis, gralhões,
anuns-pretos, todos faceiros que voavam perigosamente rente aos obstáculos, e
que estavam ali ao vivo ou não.
O
Hipocampo cavalo-marinho desenhou estas coisas: o discoporto, que estava aí; no
meio da pista do discoporto, onde as espaçonaves divinas aterrissavam, havia
uma poça de água onde o sol do dia se espelhava, parecendo um ovo frito e que
não estava aí; uma árvore com um mico-leão-dourado-de-cara-preta pendurado pela
cauda, que não estava aí; uma casinha de show que o pessoal chamava de coreto,
que não estava aí; sobre tudo a nave divina de ouro chegando vindo buscar os
escolhidos do céu, que podia estar por aí ao vivo a qualquer momento.
Depois
os desenhistas-pintores deram um passo para trás, cada qual olhando a sua
preciosa tela, e disseram:
-
Bem, terminei.
- É,
acabei.
Por
essa vez, os dois desenhistas, e muito amigos esposo e esposa, resolveram um
intervir no desenho-pintura do outro. Foi assim. A Caúna desenhou um pescador
para o ovo frito desenhado pelo Hipocampo. E o Hipocampo desenhou presentes ao
pé da árvore de natal desenhada pela Caúna.
Aí,
os três amiguinhos Rê e Lilás e Edu, e só aí mesmo, aplaudiram porque os
desenhos eram bonitos, surrealistas e bem caprichados. Afinal, todo mundo
entende e adora desenhos ou poesias surrealistas. Faltava mesmo pintar com
cores. Quem teve outra ideia foi a Rê:
-
Vamos brincar de caçador?
O
convite foi uma surpresa. E logo todos se alegraram e pularam o que puderam
comemorando a boa lembrança da Rê. Concordaram todos. Foi aí mesmo na área
destinada aos discos voadores, no discoporto.
As
nuvens giravam de branco no céu que a pouco tempo era só azul. As aves piavam e
discutiam o dia que já estava dando sinal de entardecer. As pessoas passavam em
duplas, em trios, e até em velocípedes enfeitados de decalques ou adesivos. Um
grupo de periquitos-verdes passou voando alto palrando alto.
Para
a primeira partida foram a Caúna num extremo e o Hipocampo no outro. A segunda
partida foram a Rê e a Lilás. O maior vencedor, que não era fácil caçá-lo, era
justamente o Eduardinho. Não, ele era muito rápido. Cada caçada era comemorada
e valia pontos. O melhor caçador era ainda a Rê. Muitas comemorações para o
melhor caçador e o mais invicto ótimo dos não caçados.
Tudo
bem, todos riram e conversaram animadamente. Tudo bem. Por isso o Eduardinho se
lembrou que poderiam brincar de estátua. A Caúna complementou a ideia:
-
Assim, para ficar estátua a gente deve tocar no ombro da pessoa e dizer:
Estátua!
Enquanto
a turma brincava de estátua, que é coisa muito boa de se brincar, coisa antiga
e já esquecida, a cidade continuava cada um aproveitando o que pensava fazer do
dia. Tem por aí alguém ou alguns que acham que o bom ainda é pouco. Há pessoas
e bichos e coisas que acham que o bom é pouco e quase nada. Tudo bem, tudo bem
mas não é bem assim.
Um casal passeava, ela na bicicleta e ele a
pé. Uma paineira contava e recontava as folhas verdes, auxiliada pelo vento.
Uma senhora de cabelo cor de rosa atravessou o calçadão, acompanhada de uma
vira-latinha vestida de camiseta do colorado.
Pelas
ruas de Ivy-Marae acontecem passeios. Passou uma turma de guris para o jogo de
bola na quadra do parque do lago, passou um trem com janelas andando em altas
velocidades, passou uma jangada com vela vermelha bem grande, passou um avião
monomotor fazendo propaganda do rodeio no CTG Pindorama.
***
Pelas
11h e 30min, a nave apareceu no oco do céu profundo. Que belo! E que bela! Ela
baixou e baixou na pista do discoporto. Parecia uma ave para o seu ninho de
ovos. Pousou, desligou as energias, abriu a porta mágica, estendeu a rampa de
aço e o tapete verde de franjas. Os anjos verdes desceram com sorrisos
profissionais e verdes. Não trouxeram cheiro de nada. O povo a multidão já
fechava em volta ansioso.
O
prefeito, seu Bem-Te-Vi-de-Crista, recebeu, e bem, os ilustres viajantes
visitantes:
- Bentevi!
Bentevi! Bentevi!...
O
anjo verde todo chefe foi abrindo o tablete e lendo os nomes dos escolhidos.
Num total de cinco.
Foi chamando e chamou o casal
real Caúna e Hipocampo. Os dois assim de mãos dadas, olhando para trás só para
sorrir e dizer tchaaaaau!... subiram a rampa e se internaram no fígado da nave.
Subiu a Rê toda tímida. Era sempre difícil mudar para melhor. Enfim, a Rê ia
com a cara toda boa. Se despediu e entrou para o fundo da nave engolidora.
Subia agora o Eduardinho muito empolgado como se fosse com um brinquedo novo.
Edu era todo sorrisos e espontaneidade. Muito curioso e mexeriqueiro queria já
conhecer a nave por dentro, desmontá-la e remontá-la. Tocava e tocou aqui e
ali. Tropeçou. De repente sumiu no oco do estômago do monstro divino, entrou
para o miolo, entrou para o fundo, afundando, sumindo.
Dos quatro subidos restava o
quinto, a quinta passageira que era a menina Lilás. E ela embarcou acenando com
sorrisos e alegria. Olhou para trás, para os que esperavam sua vez, uma próxima
vez, e se despediu. Entrou na nave e foi reparando o colosso por dentro. Todo
de aço brilhante limpo escorregadio. Muito cheia por dentro de luzes coloridas
botões para todas as funções corredores e vidros fumê para apreciar as
paisagens interestelares.
O céu paraíso eterno era um
sonho que se realizava e ao mesmo tempo era uma interrogação. Ninguém voltara
para dizer se realmente tudo era como se pensava tudo aquilo que se sonhava que
a propaganda prometia que os profetas explicavam.
Os
anjos verdes ainda levaram as encomendas muito apreciadas lá no fundo do azul
celeste, no vale azul eterno: uma porção de bolinhos de chuva, feitos
especialmente no dia de chuva; um pacote de erva-mate safra especial colhida e
torrada em Timbó Grande; um quilo de queijo Minas; um pote de mel puro de
abelhas silvestres jataí; cinco mil dúzias de pequis maduros; uma torta de
chocolate para aniversário; um boião de vidro cheio de balas sortidas; uma
maquete de Ouro Preto, cidade patrimônio da humanidade; uns vinte e tantos pacotes
de pipocas com sabor chocolate; um pratão de beiju; um chapéu cheio de
araticuns.
A
nave pegou no arranque, tremeu com tudo em volta, tremeu com a cidade de
Ivy-Marae, tremeu com o coração e tremeu com o espaço aéreo, tremeu com o
arvoredo, tremeu com as ideias das pessoas que ficaram tapando os ouvidos. O
monstro papão levantou rápido, zuniu o ruído de bzzzz!... e se apagou no
profundo do universo. Caindo no azul abissal e intemporal e internacional.
Com
rara habilidade, o sol saciava o mundo com seu belo dia de domingo. Os pássaros
anambés-brancos-de-bochecha-parda, avoantes, sanhaços-frades, ferros-velhos,
ajurucurucas, macucos, saíras-de-papo-preto, também saciavam. O lago saciava os
barquinhos de passeio. As capivaras saciavam o andar de bicicleta. As árvores
timbapebas, morototós, ananis, índigos-do-brasil, congonhas-de-goiás,
catauaris, rosas-do-campo, saciavam o vento contando folhas verdes. As pessoas
bichos e coisas de Ivy-Marae saciavam seus sabores de sorvete abraçados às
cores de uva abacaxi caju pitanga pequi. Ruas e avenidas e praças de Ivy-Marae
saciavam nomes de árvores e bichos e gentes de boa qualidade.
O sol
caiu e a tarde começou. Em Ivy-Marae as tardes vêm antes das noites. E isso
assim é bom.