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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Terra Sem Mal (juvenil) cap. 14



           
            Começou a chover... e tico-ticos de topete, listrados de branco e preto, lenço vermelho no pescoço, costas barradas de marrom e preto, peito e barriga acinzentados, saíram aí atrás do lanche.
            Uma corruíra moça, na manhã assim assim ao sul de novembro, e se achando a última bolachinha de açúcar do pacote, caiu das nuvens na rua Jurema. Foi em frente. Chegou à rua das Embuias. Passou logo pela praça Triangular. Entrou pela rua Catauixi. Esbarrou na avenida dos Tinhorões. Estava passeando, a mocinha. Sem capa de chuva. E voltou mais animada. E retornou. Cantora plumosa.
            Se ouvia o barulho da chuva sacolejando carros pipas no céu. A água se mexendo, se agitando em volume de cascata, transbordando das nuvens. Era verão e choveria o que Deus quisesse. Chuva de pancada. Se ouvia barulho e riscos de chuva rachando com o céu. Raios de fogo chicoteando as nuvens pesadas. Os passarinhos avisando todo o mundo. Profundos e altos céus derretendo cascatas, cataratas. Vento descabelando árvores centenárias. Os passarinhos apenas adivinharam. Os passarinhos cheiram o ar.
            E desabou um toró!... Mas olha, um toró!... E as pessoas correram para a rua, para as ruas, os passeios, os jardins e o parque da cidade de I-M. As pessoas estendiam as mãos para pesar as gotas, botavam a língua para degustar as gotas. O canário-da-terra, amarelo maduro, saiu aí acompanhado da namorada carijó. E eram todos passarinhos e tal, cambaxirras, carriças, garrinchas.
            E todos da cidade resolveram passear na chuva. E os passarinhos resolveram almoçar fora. O céu caía em cascatas escondendo o horizonte de sempre, escondendo o morro, escondendo os matos do fundo do parque do lago. Escondendo as flores silvestres de cabeça baixa. Banhando a plantinha ornamental dos brincos-de-princesa. Banhando todas as folhas vestidas de verde do grumané. Fazendo as delícias dos marurus.
            Lilás pegou a bicicleta e foi pedalar nos caminhos molhados do parque do lago. Ainda não chegou às proximidades da praça Triangular. Chovia sem parar. Passava uma poça que ela ria... passava outra poça que ela ria... passava mais essa poça que ela achava de inventar uma troça. Lilás pedalava na chuva e lembrou de dizer:
            - Eu conheço o parque, o entorno e o morro como a palma da minha mão. Os passarinhos pulam dos galhos para a chuva e voltam.
            A menina Lilás encontrou a Rê. As duas de bicicleta lado a lado atravessando poças pelos caminhos alagados. E riam como nunca. E era mesmo divertido e diferente. A chuva batendo no rosto, molhando a roupa do corpo, molhando os cabelos, lavando a cidade de alto a baixo, a roupa ensopada. A chuva já lavara tudo fazia um tempão. E a água corria pelos lados das ruas e das trilhas.
            No caminho as meninas encontraram o casal, qual seja, a cunhantã, agora esposa Caúna, com seu esposo Hipocampo. Vinham no automóvel real, caro e vermelho, capota arriada, pegando chuva, molhando tudo por dentro. Os longos cabelos da luz Caúna amontoados no banco de trás. O vento incapaz de sobrar e erguer aqueles longos cabelos molhados de cunhantã. O carro seguia lento com o casal ouvindo uma sinfonia de Villa-Lobos. Andavam à moda antiga, de charrete movida por trezentos cavalos de aço e capota arriada. Toda a chuva do mundo na cara. Volta e meia, o casal se olhava e ria. Ele beijava os cabelos dela.
            Mais adiante o Sorro brincando com sua pedrinha branca inestimável inseparável. O iluminado atirava a pedrinha branquinha a dois metros e ia buscá-la, atirava a pedrinha a três metros e ela esperava pacientemente ser recolhida. Sem falar nas aves que não paravam de subir e descer das plantas, alimentando ninhos de muito apetite.
            E choveu a manhã toda até o meio-dia. Relampeava à esquerda, trovoava; relampeava à direita, trovoava. Céus e terras se sacudiam com todas aquelas trovoadas, ribombadas, atroadas. Caiu principalmente aquela chuva grossa e pesada. Os índios guaicanãs, família de avós avôs pais mães filhos netos, nuvens baixas, araras-grandes-azuis micos-leões-dourados-da-cara-preta, tracajás tomavam chimarrão debaixo de uma tenda de capim, deitados em esteiras de trançados de tucum, olhando o tempo cair.
Depois que a chuva parou, os moradores de Ivy-Marae se reuniram na praça Triangular para decidir alguma coisa. A anta Camaquã, propôs:
            - Já pensei e vamos pensar todos nós. Seguinte. Por que a gente, todo o mundo, nós todos juntos, não vamos e fazemos uma horta comunitária, hein?! Para aproveitar que a terra está molhada e favorável para um plantio qualquer.
            Alguém perguntou a Camaquã:
            - Tá certo. E vamos plantar o quê?
            - Vamos plantar quase de tudo. Poderemos plantar quase tudo. Sugestões não faltam?
            O povo não pensou muito e foi sugerindo abóboras, porongos e chuchus, por exemplo, pés de araticuns, pés de sete-capotes, pés de azedinhas, pés de pentes-de-macaco, pés de timbaúvas, pés de cajus. Então, decidiram plantar isso mesmo, e logo antes que o tempo esquentasse.
            Naquela tarde prepararam a terra, capinaram, lavraram e aterraram. Deixaram a terra nua e livre para receber as sementes. Fizeram caminhos na terra vermelha e úmida, fizeram canteiros, fizeram o que precisava ser feito.   Depois tudo ficou plantado e a noite chegou. Era o tempo de esperar por uns dias e aguardar que tudo fosse indo bem.
Quatro ou cinco dias após, as primeiras folhinhas apareceram e todos vieram olhar. A horta era comunitária e crescia com os olhos dos donos.
            Chegaram mais uns dias e as folhinhas ou brotinhos começaram a se arriscar e a aparecer ao sol. De noite tudo descansava, e de dia recebiam a força da luz. Aquela semana choveu pouco, aquém da medida para a horta. A horta respeitava o dia de sol e a noite com as marés da lua.
            E a tal chuvinha necessária não vinha ou demorava. Decidiram em assembleia que tocariam uns tambores. Os índios tenetehára ensinaram a tocar tambor e timbatu para a chuva cair. Telefonaram para chamar uma chuvinha. A chuvinha veio e todos se abraçaram.
- A chuvinha veio em boa hora - todos disseram.
            Assim, a plantação ainda crescia e teria mais uns dias para crescer e se desenvolver até que pudesse despejar flores e frutos. A comunidade aguardava e cuidava com o olho bom do dono, mas não era o suficiente.
            Então, uma manhã acordaram com uma chuva muito forte. Todos temeram pela enchente e a enchente levar a horta. Chovia muito forte e rápido. Chovia o que Tupã mandava e era já muito. A comunidade correu na chuva e se reuniu para pensar como parar a chuva. Decidiram bater tambores e tocar timbatus. Os índios guajajaras ensinaram tocar tambor para fechar as torneiras do céu. Bateram os tambores e coisa e tal, chocalharam os maracás, porém não era o suficiente. A chuva não parava e chovia muito. As pessoas e bichos tomavam chimarrão sob os telheiros das casas e olhando a chuva.
            A chuva não parava e já ia para quatro dias de muita água. Um passarinho azul debaixo da chuva, ali pousado no galho pelado do guabiju, azul-claro nas costas e azul-clarinho na barriga e peito, não se importando com chuva e cantando, e às vezes, de repente, se sacudindo todo. E a chuva que caía murmurante ou rumorejante.
As pessoas não tinham mais ânimo para brincar na chuva e muito menos para olhar com olho de dono a horta alagada. Se reuniram e decidiram tocar muito mais tambor. E tocaram tanto mais tambores. Apelaram para os índios das tribos beiço-de-pau e boca-preta. 
            A chuva parou bem na hora para que não perdessem a lavoura. E não perderam quase nada. Bem na hora mesmo. Logo veio o sol, a força da luz do sol, e as flores apareceram. Todos vibraram na manhã que a horta se encheu de flores de muitas cores e variedades.
            Mais uns dias e os pequenos pontos de frutos já davam o ar da graça. Eram tantos que pararam de contar. E os frutos iam crescendo a olhos vistos dos donos e donas.
Seria bom amanhã ou depois mais uma chuvinha mansa. E a chuvinha veio. Seria bom mais uma capinada e eles todos capinaram. Os frutos já despertavam interesse e orgulho. Os cordões cheios de frutos redondos e verdes se espalhavam pelos canteiros. Toda a terra cultivada se esparramou de verde, de frutos redondos ou pra lá de redondos. Os frutos aparecendo, espantando. Eram frutos que nasciam debaixo da terra, rasteiros, no alto dos galhos, mais altos.
            Esperaram mais duas semanas para colher as abóboras e colheram os chuchus. Esperaram mais uma semana. Esperaram mais duas semanas para colher as abóboras e colheram os melões. Esperaram mais duas semanas para colher as abóboras e colheram as abóboras. Esperaram mais uma semana e colheram as melancias. Esperaram duas semanas e tanto. Esperaram dois meses para colher os porongos. Esperaram dois anos e meio para colher as pitangas e guabirobas e jabuticabas.
Ivy-Marae é feliz por natureza. É assim. Não vive esperando surpresas, fim de mundo ou coisa inédita. Somente aguarda os anjos verdes. Não há falta de ar, não há falta de passeios, não há falta de esperança, não há falta de mato verde. É sim um lugar aberto para as luzes, os bons fluidos da terra e do ar. Ali só restam qualidades. As pessoas e os bichos e as coisas estão ali ensaiando o céu. E Ivy-Marae ainda existe. Terra do tudo.
            E pela rua Jitirana feita de terra ou asfaltada ou empedrada... passaram cenouras brancas, passaram tomates gordos, passaram abóboras tímidas, passaram pés de agriões, pés de cebolas, pés de araticuns maduros, pés de pitombas qualificadas. Passaram pessoas bichos coisas que chegavam vindo de Arraial do Cabo, Santa Isabel, Igaratá, Serro, Bocaina.
                                                                 ***
            Um dia de sol como nenhum outro. E o Sorro saiu para passear e pegar sol junto com sua pedrinha branca. Ivy-Marae era e é longa. Sentou numa pedra e ficaram aí pegando sol, ele e a pedrinha. Graxaim olhou, pensativo... e disse, falando para a pedrinha:
            - É, tem um vento. Tem um vento, sim. Tem um vento que brinca com as folhas verdes das árvores ajarás. Vejo que o pé de jabuticabas está sempre carregado, que as frutas pretas estão maduras, que os passarinhos no seu apetite por brincadeiras brincam de pegar... que as borboletas verdes procuram beber a água das folhas verdes...
            O Sorro não sabia o que fazer o que pensar o que imaginar quando se deparava com palavra nova ou desconhecida, exemplos: carraca, patacho, urca, fragata, galeão, bergantim... O que era isso para onde ia isso tudo?
            Depois, Sorro viu as duas meninas passeando ali por perto. Lilás e Rê vinham gastando simpatia. Talvez estivessem indo dali direto para a sorveteria. Quem não gosta de sorvete? Sorvete de jabuticaba, pitanga, abacaxi, açaí, pequi. E Sorro pensou, olhando as menininhas, falou para a pedrinha:
- A pouca idade é fogo, água, ar, nuvem, rio, tudo.
            Sorro estava simpatia. Sorro era simpatia. E as pessoas e bichos e coisas que cercavam o Graxaim já ficavam simpáticas. E tudo respirava doce harmonia.
            Dia de sol e calor como nunca. Ótimo dia aberto de sol e calor. Suor na testa. Algazarra de variados passarinhos incidentais, estrelinhas-do-pará, cauintãs, chora-chuvas-pretos, gaitas, cardeais-do-banhado, curixos, cada um na sua altura de árvore. Flores um pouco entregues ao calor, árvores entregues ao calor, o cenário todo entregue ao calor, mormaço, forno. A paisagem daqui para lá.
            E Sorro disse uma vez que as pedras sentem, sentem e pressentem. E as pedras batem e rebatem. E Sorro ainda completou que as pedras têm coração e um coração mole. É, Sorro falou. Quem lembrou?
            Por onde as duas meninas andavam rua José de Alencar, suor na testa, viam aquele dia de sol quente, ouviam o grito dos passarinhos, ouviam o conversar das pessoas. A Rê com um coque moderno espetado por uma travessa de osso; Lilás um vestido vaporoso amarrado na cintura por faixa de fita verde. Não havia nuvens no céu. Os passarinhos trabalhando, pousando nos galhos, rimando, voando. As borboletas de folga tirando férias de fim de semana. O morro subindo com um coqueiro nas costas. Um caponete de araçazeiros e gabirobeiras e sacambus e moacãs. As meninas ainda não haviam chegado à sorveteria Ararau.
            De repente saiu de onde?, um tatu. Este atravessou a rua Caeté-do-Mato, atravessou a rua, foi rasteiro e focinhando, e foi em direção ao lago. E Rê explicou para a amiga:
            - Não sabia desses tatus aqui.
            Assim, a Lilás:
            - Ei, Rê! Vamos andar de bíci?!
            - Vou na garupa.
            Rê se sentou na barra da frente da bicicleta e a Lilás foi pedalando para os lados do lago. Aí, esperaram um pouco vendo uns meninos com meninas brincando de vôlei. Alguém sacou e a bola fez uma tal parábola até outro lado da rede, onde entrou numa jogada da equipe de lá. A equipe de lá devolveu com uma cortada definitiva. Nesse instante veio a surpresa. O tatu apareceu, cruzou a quadra de areia pisada, passou farejando baixinho e rasteiro preocupado somente com sua tarefa. Todo mundo deu um passo atrás ou ficou parado, frio, estátua. O tatu acabara de cruzar a quadra. Muita gente se obrigou a sorrir do susto e rir da atitude do tatu:
            - Olha só o tatu!
            - Quem diria, hein?! Ah ah ah!...
            E Lilás falou para a Rê:
            - Ué! Nem sabia que esses tatus existiam aí.
            Era isso mesmo. Tudo porque um gato é um gato, um cachorrinho é um cachorrinho e um tatu é uma coisa animal e móvel existindo no meio do povo. E olha o céu nesta hora... o arco-íris... as andorinhas em ondas atravessando quase sem som o arco alto do arco-da-velha sete cores!
            Pelo meio da rua Airi, rua em si, passaram acontecimentos. Passaram carnavais, passaram romarias, passaram desfiles de escolas militares em dia cívico. Passaram índios timbiras.
            Um século depois as meninas já andavam calmamente de bicicleta à beira do lago. Existia em torno do lago uma faixa de areia que era praia, existia uma faixa de pedras postadas que era a calçada. E aí, uns coqueiros distribuídos em alas entre outras árvores. Aí, aí pararam por parar as meninas. O sol, como sempre, distribuindo cores para todos. Rê, observou:
            - Hem?! Não é a cunhantã Caúna e atual esposa, nossa querida, e seu esposo Hipocampo lá, assim, passeando de barco no meio do lago?
            Lilás olhou, concordou:
            - É. É mesmo. A tal índia, nossa amiga, e seu esposo cavalo-marinho, nossos amigos.
            No meio do lago, então, a esposa Caúna, dos cabelos alçados pelo vento igual cauda de tamanduá-bandeira, e o Hipocampo, cavalo-marinho, tomavam banho de sol. Cabelos alados tão alados em algazarra do ponto de vista: você viu só?! Enquanto isso a canoa boiava pacífica e anônima sobre o centro líquido do lago. As coisas aconteciam aí afora na paz... A rainha de biquíni, o Hipocampo de sunga. O sol indiferente e presente distribuindo cores por todos. O lago azul, a mata de verdes, o céu azul com manchas de nuvens brancas. A rainha de óculos escuros esverdeados; cavalo-marinho de óculos escuros azulados.
            Caúna, inundada de luz, madeixas e penachos ao vento, se ergueu do barquinho e falou apressadamente:
            - Olhe, olhe... Hipo... é um tatu!
            Hipocampo ficou procurando ver... com receio que até o barquinho virasse... Depois disse:
            - Quê?! Nem sabia que tatus existiam aqui.
            - E ele nada como um manditinga.
            - É. Nem sabia que esses tatus nadavam tão bem aí.
            O tatu passou por eles nadando como um peixe. Tatu ou peixe-tatu. Nem olhou, nem os olhou, nem deu a mínima bola. E o tatu nadou mesmo com pressa e muito bem. Agora o tatu estava concentrado em nadar para a margem. Não tinha olho arregalado e nadava concentrado, mas muito concentrado, boca fechada. Praticamente o focinho de fora. O que se viu. Enfim, o que se podia fazer?
                                                                       ***
No outro dia. E já ia amanhecendo devagar no ritmo normal, um pouco claro, um pouco escuro, assim como um dia inédito. Era já um outro dia com tempo e mundo à parte.
O vento soprando luz, soprando chuva, soprando ventos. Palmeira catulé agitando os braços no sopro do vento. Passarinhos conhecidos e passarinhos diferentes indiferentes.
Saíram ali da capoeira mãe cutia, os filhotes de cutia, três filhotes, e mais atrás o pai cutia, família cutia.
A esposa Caúna passeava em seu palácio de vidro, majestoso e espaçoso, o Jardim Botânico, cabelo sofisticado, pensando... Ela foi até uma das cem janelas do palácio de vidro e olhou para o pátio, para os jardins, para o gramado. Depois olhou para algumas coisas da cidade até onde a vista podia alcançar. Olhou a paisagem... E pensou... E ao sentir que queria fazer alguma coisa e não tinha nada que fazer ali no palácio de vidro, decidiu:
            - Hã? Já sei. Vou passear como todo o mundo. Vou aí, ora.
            Na rua Mulungu passaram espetáculos e paradas e cavaleiros em dia de cavalgada. Passou um ginasta olímpico; passou uma equilibrista; passou um jaguacampeba, que com o focinho cabeceava uma bola amarela de plástico; passou a ginasta olímpica, namorada do ginasta olímpico, agitando cordas e fitas em espirais.
            O céu era açúcar de se olhar.
            A cunhantã desceu a alta escada de mármore branco, desceu com cuidado para não tropeçar, para não derrapar, e já no salão pegou pela trilha vermelha do tapete vermelho e desceu mais um lance da escada até o pátio. O sol já vivia no céu todo solto e aberto distribuindo as cores que todos conhecem. Estava um dia. Ela, linda exótica magra abstrata, falou a seu esposo Hipocampo:
            - Pois é. Vamos passear de carro aberto no dia aberto?
            O esposo sorriu, concordou e esfregou as mãos. Hipocampo também estava feito para passear.
            Os dois ainda não chegavam à praia do lago.
            Estavam andando pelas ruas calmas e estreitas da cidade, quando o esposo da esposa freou bruscamente o carro. A cunhantã, dos cabelos alçados pelo vento, fez um movimento para frente no banco do carona e se assustou:
            - Que foi, meu?!
            - Olha só, esposa amor, amor de esposa... É um tatu que acaba de atravessar a rua sem avisar e fora da faixa de segurança.
            A soberana se espantou e espantada desabafou:
            - Mas como, gente! Eu nem sabia que tínhamos tatus aqui!
            O tatu não deu bola para o carro, ou nem se dignou a perceber que podia ter sido atropelado. Ele simplesmente atravessou a rua Carnaúba, concentrado no seu faro normal, atravessou a rua, e saiu na calçada, andando pela calçada, reparando quem sabe as vitrines enfeitadas. As pessoas olhavam, outros animais olhavam e era um tatu de sorte. E o tatu ia tão concentrado e virado para si mesmo, que nem parecia preocupado com o mundo dos outros bichos e gentes e coisas.
            E sempre modéstia a parte, o tatu muita aventura de tatu.
***
            A Lilás a Rê o Eduardinho planavam flanavam por aí, cidade de I-M, rua Caixana, dia de sol acelerado, muitas paturis-pretas piando no lago. O leve e plumoso Quatipuru pulou se apresentando:
            - Tenho chegado, oquei?!
            - Quatipuru?!
            - O que foi ou deixou de ser?
            - Quantos dentes você tem?
            - Tenho vinte e dois, ou seja, todos.
            Continuaram a perguntar para o Quatipuru. Desta vez era a Rê.
            - Quatipuru?
            - Você por aqui, menina Rê?
            - E se você fosse árvore, que árvore você adoraria ser?
            - Se eu fosse árvore... Eu preferiria morar na cidade de Lapão, é.
            - Por onde tem andado, o Quatipuru?
            - Eu, eu mesmo, tenho andado pelo Caminho da Paz, Amargosa, Mutuípe, Jiquiriçá, Ubaíra.
            - Com quem você casou, Quatipuru?
            - Eu casei com ela uma quatiaipé e tive cinco caxinguelezinhos em dois mil e dez, eu tive quatro agutipuruzinhos em dois mil e onze, eu tive oito quatimirins em dois mil e doze, eu tive seis filhotes caxinxezinhos em dois mil e treze, eu tive cinco filhotes acutipuruzinhos de ambos os sexos em dois mil e quatorze... Depois pouco mais tarde eu morri.
            E Ivy-Marae não era cidade dos mortos, sim cidade das almas que esperavam o chamado dos céus.
                                                                       ***
            Por esse horário da tarde se ouviu o tradicional barulho no meio do céu azul. Nas ampliações do céu, além das tempestades, beirando as pouquíssimas nuvens brancas. E descendo. Assim vinha a nave dos anjos verdes para mais uma seleção especial uma convocação.
A nave apareceu de vez... pousou na praça Triangular. Uma nave verdadeira, uma esfera de vidro ou diamante lapidado. Nave aparição, envolta em soberana e sonora luz. Tão chocante quanto um ovo em pé.
            O povo multidão foi juntando em torno da nave que se acomodava. A porta da mesma se abriu e os anjos verdes se apresentaram. Os anjos verdes flutuavam um pouquinho, uns dois ou três centímetros altos do chão. Flutuavam equilibrados no pensamento. As asas mal e mal abertas.
Como prefeito de Ivy-Marae, Hipocampo, o conhecido cavalo-marinho e esposo da cunhantã Caúna, fez as honras e estendeu a mão.
            - Sim, isso mesmo, seu anjo verde e divino e adivinho, estamos aguardando a convocação. Ora, quem já saiu na lista? Que lista é essa, divinos?!
            O anjo verde responsável acionou o computador de mão e escalou os convocados daquele mês. Eram treze os eleitos do livro de ouro. Um deles vinha já vindo ali, entrando sem cerimônia pelo tapete e subindo a rampa da nave. Um dos escolhidos era o tatu.
Poucas pessoas sabiam que os tatus andavam aí. E este Tatu em especial já estava para deixar a cidade e ir definitivamente para o céu. E isso o alegrava muito, bastava ver o brilho dos seus olhos e ver sua empolgação ao subir a rampa e se internar na espaçonave. Entrou pela nave todo faceiro, farejando, focinho alto, concentrado e faceiro.
            Os anjos verdes ainda levaram encomendas as mais diversas: cinco porções de bolinhos de chuva, feitos em dias de chuvas; uma já cantante mudinha de rio Caí; cem dúzias de jabuticabas; vinte arrobas de café moído de safra especial dos cafezais de Nova Olímpia; um casal de beija-flores-brilho-de-fogo; sementes de tipos de abóboras; oito arrobas de mel de abelhas silvestres; fotos e mais fotos das cascatas morros e canhadas da região de Minas Novas.
            A nave ouviu um barulho por dentro, o povo multidão ouviu um barulho vindo de dentro da nave, a astronave fez um ruído xucro, a nave toda tremeu e zumbiu... bzzzz!, o povo viu a nave tremer e a cidade tremer e a poeira levantar... Rapidamente a nave se ergueu, o povo apertou os olhos por causa do reboliço. A multidão segurou o boné quem tinha boné. O povo botou a mão em pala para ver mais longe. A nave subiu e desapareceu até a vista não mais alcançar ou aguentar. Lá muito no fundo do céu a nave sumiu sem mais comentários e bem feito.
            Crianças enforquilhadas nas ancas das mães, exclamavam:
            - Tê, pa-te-tintó... qui tunibó... on-re-meeê!
***
            Ivy-Marae é uma cidade única, pequena e total. Cidade sem tirar nem pôr. Cidade bonita, justa, ideal e bonita. Cidade para todos morar quando estão entre a vida e o céu. Uma cidade pequena para todo o mundo se conhecer, tirar férias e passear. Uma cidade com lago, praça, morro e mato nativo.
            A esposa Caúna, dos cabelos alçados ao vento, e seu esposo Hipocampo, o cavalo-marinho, saíram para caçar passarinhos. Caçar passarinhos? Mas isso é legal em Ivy-Marae? Não, iam mesmo espreitar passarinhos. Espreitar, bizolhar, espiar com binóculos, entrar na vida alheia lá deles. Ah, então!
            O Hipocampo, comentou:
            - Já pegou seu binóculo, comadre Caúna?
            A esposa Caúna era sempre simpática e riu:
            - Ah ah ah!... E você, compadre Hipocampo?
            Foram nas bicicletas até o morro do lago. Junto ao lago, no alagado, entre gravatás ou caraguatás e preás e sapos-martelos e jias:
            - Hum... É um quero-quero...
            Os quero-queros vivem nos banhados ou muito próximos a eles. São aves de voar pouco, de voos curtos e rasteiros. São aves nervosas, escandalosas, esganadas, alarmadas, alarmantes e corajosas. Têm o peito de penas pretas e a barriga de penas brancas, e as costas de penas cinzentas. Levam uma pena no alto da cabeça como crista. Caminham com pernas longas e vermelhas, com pés de quatro dedos abertos e vermelhos. Mãos nas costas.
            Depois o casal real subiu o morro a pé. A grama escondia os pés, apareciam algumas flores, ervas-lanceta amarelas, gramas-do-pará, árvores de tamanhos diversos, borboletas de cores, almofadas de nuvens brancas no alto, muita luz do sol. Hipocampo e Caúna caminhavam sem pressa. Ela sinalizou um coleirinha ali ali se equilibrando numa haste de capim-cheiroso:
            - Hum... É um coleirinha...
            Os coleirinhas são passarinhos miúdos e engraçados e peso de pluma. Muito irrequietos, apressados, buliçosos, rápidos, divertidos, engraçados, brincalhões, interessantes, curiosos. Têm uma cor cinzenta clara pelo corpo, onde nas costas são um pouco mais escuros. O bico é curto e grosso. Têm um canto peculiar. E uma coleirinha preta no pescoço. Gostam de andar em pares e até em turma. E trabalham em trapézios, já se vê, pelo poder de se equilibrar nos talinhos de capim e rir de tudo o tempo todo.
            Hipocampo quis elogiar sua esposa e elogiou:
            - Olha... como você tá bonita debaixo de toda essa luz do dia! Suas sardinhas se destacam todas todinhas, seu cabelo gigante espantando o vento...
            Ela, a Caúna, parou sorrindo na frente do nariz do marido. Aí, se olharam muito pertos um do outro.
            Sentaram na grama para olhar em volta sem pressa. Ouviram um bem-te-vi gritando no alto de um pé de angico. Ou seria uma árvore canjerana. Caúna suspirou:
            - Hum... É um bem-te-vi...
            Os bem-te-vis são aves muito desconfiadas. São aves nervosas e territoriais. Não suportam concorrência por perto, logo dão o alarme e correm atrás. Vivem nas árvores altas bem no alto, mangabeiras, copaíbas, maraximbés, andirobas. Investem em qualquer um que invadir seus domínios. Têm o peito amarelo e as costas escuras. Um penachinho no alto da testa. Um risco preto na altura dos olhos como se fosse uma máscara de bandido. Mas existem diversos tipos de bem-te-vis, e mais ou menos parecidos.
            Ali, sentados na grama verde do morro... o casal real espreitava os passarinhos... um olhava pro outro... o outro olhava pro um... as nuvens no céu quase nem se decidiam para que lado se mover. Hipocampo olhou o cabelo de Caúna e não disse nada. E era mesmo um cabelão alçado no ar pelo vento, como um rabo de peixe, como uma toalha no varal, como uma bandeira na praça da Bandeira. Foi a índia quem falou:
            - Hum... É um beija-flor...
            Há espécies e tipos de beija-flores. Este que a Caúna estava focando era um beija-flor de pescoço branco, asas escuras e resto do corpo verde. Um verde metálico, como dos peixes. Muito elétrico, irrequieto, rápido, peso de suspiro. Aparece e some de surpresa, de repente, no modo de helicóptero. Beija, como o nome diz, todas as flores que encontra. Se alimenta do néctar. Ele se move no ar para todos os lados e canta estridente.
            Depois, Hipocampo beijou a esposa no rosto. Quanto mais o dia resplandecia, mais as sardas da esposa se destacavam. E a Caúna sorria muito quieta ou quase distraída com os passarinhos, besouros, nuvens, folhas das sucupiras. Aliás, os dois vieram ali para espiar os aladinhos. E eram às vezes indiscretos com os passarinhos, as árvores, as corruíras, os gafanhotos esperança-dos-pastos, os louva-a-deus.
                                                                       ***
Lilás, Rê e companhia, como a maioria do povo, então, depois de assistir à partida da nave, foram brincar descendo até o lago.
- Vamos brincar no lago, é?!
- Venha ver como vai ser bonito!
Na cidade de Ivy-Marae, em noite calma e estrelada, era muito comum as pessoas aproveitar a noite e praticar o esporte de acender velas à beira lago. O lago calmo e a noite estrelada convidavam.
As pessoas vão em grupos de amigos, conversando sobre tudo, levam biscoitos e sucos, chimarrão, chá, se sentam na grama, na areia, sobre as pedras, enfim, e acendem as velas, ligam celulares. Olham pro lago, olham pro céu, falam pouco ou quase nada, falam muito, falam o que for necessário, riem, contam, recontam, olham as estrelas cadentes e fazem planos para a eternidade. Talvez falem um pouco assim:
- Olha lá... Que estrela é aquela?
- Onde? Onde?... Ah, é! Isso mesmo.
- Quanta estrela... Isso até confunde, né?!
- Já olhou a Mimosa do Cruzeiro do Sul?
- Ah-an!...
- O astrônomo mestre João, tripulante da esquadra de Cabral, foi ele que descobriu o Cruzeiro do Sul, é.
- Como sabe? Você estava lá?
Assistir velas boiando no lago, pisca-pica de celulares. Assistir estrelas pingadas no espaço. Tudo é como assistir um filme mudo comentado na plateia. Muita gente perde o senso. É comum poetas perder o senso olhando aquele céu noturno organizado de estrelas, respingado de fogueirinhas mornas. Muito fácil olhar estrelas e luzinhas no lago e luzinhas no gramado, e sair palpitando. Coisa também de pensador.
- Que estrela é aquela lá?
- Qual aquela lá?
- Aquela lá, maiorzinha, aqui, na direção do meu dedo. Tem nome? Tá reconhecendo? Tá vendo?
- Hum... É da constelação de Aquário.
- E como tem certeza?
- É só olhar o mapa astrológico.
- Pra mim parece tudo muito virtual. É tudo como um desenho de escola.
- Tá bom!
Os cidadãos de Ivy-Marae se posicionavam em torno do lago, cercando a água, espalhados na grama do barranco. Uns mais já acendiam outras velas, já eram muitos, mais outros chegavam com celulares, velas acesas, candeeiros, lampiões, lanternas mágicas.
Mais tarde, antes das velas se apagarem, todos que estavam ali apreciando a noite, entraram nas águas do lago. Quando uma estrela riscava o céu e tombava no espaço explodindo em silêncio, os desejos eram pedidos em segredo. Cada um que visse aquele fenômeno fazia o seu pedido sem contar para ninguém. Só de superstição.
- Fez seu nhenhenhém?!
- Nhonhonhô!
A noite toda se passava assim. No céu pouco se via as coisas mudar. E ali no chão conversas com amigos, e velas acesas tremendo ao sabor do vento. Mas ninguém voltava cedo para casa. Se mergulhava, se remava, se conversava, se ria, se olhava o céu como um lago iluminado.
- Sabe o que eu lembrei, assim, no mais?
- Não. O que é?
- É que me contaram uma vez que as estrelas no céu são fogueirinhas de São João espalhadas.
- E onde foram parar as bandeirinhas de papel de seda de cores, os balões de cores, o quentão, o pinhão, o amendoim, a pipoca?
- Dizem até muito mais. Inventam que são janelinhas do céu ou anjos pegando fogo.
Muitos já se acostumaram olhar o céu e ver graça nas estrelas aparentemente frias, mudas, distantes, bem mais distantes. Outros esperavam sempre uma cadente e logo logo faziam pedidos secretos e audaciosos. Aplaudiam quando explodia. Sempre há os que se entusiasmam mais e melhor que outros.
- Ah!... É dez, é cem, é mil!!
- É lindo! É cem! Como o ouro que é belo, amazônico.
Apreciar as estrelas no céu era reconhecer o mundo muito grande e ao mesmo tempo se sentir encolher encolhendo diminuindo diminuto.
                                                                 ***
            Eduardinho estava na sua sala de brinquedos e com vontade de fazer nada, fazer qualquer coisa, talvez uma mágica, talvez tudo. Aí, começou a arrumar desesperadamente tudo que via pela frente. Ele arrumou a postura da cadeira, limpou o pó do quadro da parede, ajeitou o tapete, juntou um pé de tênis com o outro da mesma espécie, escovou o par de sapatos. Aí, inventou de agarrar uma almofada com cara de peixe-boi engraçado. Um tempinho mais parou assustado do seu temperamento. Peraí que ele parou! Foi e se olhou no espelho e quase não se reconheceu.
            Edudinho arrumava assim todas as coisas que via porque no fundo queria jogar uma boa partida de futebol e ser um craque da Seleção. Mas ele não tinha bola, nunca ganhara de presente uma bola, nem no natal. Quando queria um presente, em vez da bola, pedia sempre um jogo de vídeo game. E todo natal eram joguinhos de vídeo game. Todo aniversário pedia mais joguinhos de vídeo game. E assim por diante. Desse modo, nunca ganhara uma bola de futebol. Nem bicicleta, para ver o absurdo, ele tinha!
            Bem, aí Edinho esperou, se encostou na janela, ouviu a begônia-de-folha-estreita falar entre folhas totalmente verdes, olhou a guabirobeira pesada de frutos, olhou a paineira cobrindo o chão de sombra... As sombras do mulungu deitavam na sombra do mulungu, por preguiça.
            Ed ao telefone falando com a Rê:
            - Oi, Rê! Vamos jogar bola? Você quer? Você tem bola de futebol?
            - Olha, eu tenho bola de futebol. Então, vamos. Convida também a Lilás.
            Eduardinho telefonou para a Lilás:
            - Oi, Lilás! Vamos jogar bola no parque do lago? Vai ser hoje mesmo. Daqui um minuto. Topas?
            - Olha, eu vou sim. Todo mundo vai calçado de chuteiras? Ou vão de tênis? Ou ainda de sandálias franciscanas de pescador? Pé no chão?
            O menino Edu passou na casa da Lilás; e eles dois passaram na casa da Rê. Passaram na confeitaria para provar uns doces em forma de peixinhos, vidrados e listados de colorido, sortidos. Assim os três miúdos foram ao campinho de areia solta do parque da beira do lago. Ali, já acharam a cancha de jogar bola, com goleiras de canos de ferro e sem as redes, um chão de areia fofa, em volta algumas pitangueiras e araçás e timbés.
            Outras pessoas circulavam de bicicleta pelos caminhos estreitos do parque. Uns e outros de velocípedes. Uma canoa amarrada numa pedra aguardava convite para navegar no lago. Outro e outros bandos de andorinhas davam rasantes na superfície da água para molhar a ponta das asas. Muitos aladinhos cruzavam a área de visão de quem andasse pelo parque àquela hora. Um jaguarinha descansava sentado olhando os prováveis jogares de futebol.
            Os três amigos iam jogar mas, olhando bem, faltava gente para formar dois times completos. Faltava gente até para formar um time incompleto. Decidiram, então, brincar de bater e agarrar pênaltis. Tipo assim: cobrador e bola, de um lado; goleiro e goleira, do outro.
            Pois aí, um caso a parte. Quem iria para o gol? O Eduardinho já reclamou:
            - Eu inventei jogar bola, então, não vou para o gol!
            A Lilás falou por ela:
            - Eu sou convidada, então, não mereço ser empurrada para o gol!
            A Rê disse:
            - Eu sou a convidada e dona da bola, então, não mereço mofar debaixo das traves!
            Haveria uma saída pela direita? Conclusão. O Eduardinho foi para o gol. Teve que se sujeitar porque senão as meninas fariam greve de jogar bola. Porém, acertaram revezar para que todos pudessem sentir o gostinho que é chutar no gol.
            A Lilás foi cobrar o pênalti. Se preparou para isso, ajeitando o cabelo que caía na carinha, na frente dos olhos, se preparou a vida inteira para esse momento. Colocou a bola na marca, olhou o goleiro lá todo tímido. Aí, Lilás pensou: “Nossa!, como eu vou fazer agora?” Ela só sabia chutar mais ou menos porque vira isso mal e mal na tevê. Então, correu para a bola... calculou mal a distância entre a bola e o pé que se levantava... e seu próprio passo ficou esquisito... chutou... chutou a bola de raspão. E esta rolou fraca e torta lá para fora. Mesmo assim o Eduardinho foi atrás e se pinchou como goleiro que era e a agarrou. E a agarrou caindo abraçado com as duas mãos na redonda.
            Daí, foi a vez da Rê. Ela colocou a bola na marca do cal (onde calcularam pudesse estar a marca do cal). Fez um montinho de areia. Tomou a distância regulamentar, mordeu os lábios muito tensa, ajeitou os cabelos para trás das orelhas, olhou as traves para ver se ainda estavam lá, mirou a bola, escolheu o pé para o chute e partiu... E correu muito veloz para a bola... Assim, passou da bola e quase nem chutou, atropelou a bola... A bola saiu mascada, torta, esquisita pela linha de fundo e foi parar lá no lago.
            O lago fez uma ondinha, fez outra ondinha, e a bola voltava para a praia, mais uma ondinha e a bola chegou à praia e foi recuperada pela galera.
            Pela rua dos Sateré passavam os que passavam e muitos outros mais. Passou uma paca puxando sua própria sombra, passou um cachorro-guará puxando uma piscina olímpica, passou um caminhão baú puxando um ruído carregado de trovões e tempestade.
            Para dizer a verdade, as pessoas e os bichos que passavam aí pedalando tinham medo de cruzar perto da bola. Um e outro ainda parava para ver os três jogar, mas desanimavam no minuto seguinte. O jaguarinha olhava de língua de fora, não latia, não roncava, não acoava, não ria, sossegado na sombra da árvore jacarandá-cabiúna. Um bem-te-vi se escandalizou quando o goleirinho defendeu um pênalti da Rê.
            Quarenta e cinco minutos mais tarde, o Eduardinho reclamou que estava cansado do gol, e queria ir para a linha, queria chutar ao gol. Lilás foi para o gol. Vinte minutos depois a menina enjoou de pegar bola lá para trás da goleira e pediu troca. Rê foi para o gol. E a Rê foi a melhor do goleiro ou das goleiras. Mas nem tanto melhor assim. Mais ou menos melhor assim.
            Uma hora e meia de jogo, o Eduardinho disse que não queria mais chutar nem agarrar no gol. Rê escondeu a bola debaixo do braço. E vieram os três embora. O campinho de areia ficou só. As goleiras ficaram de boca aberta esperando novos jogadores. Os bem-te-vis respiraram em paz. O jaguarinha já não estava mais ali. Os três amigos não chegavam ainda à rua dos Andirá.
            No caminho para casa, os três encontraram o casal real ali na praça Triangular. A Caúna e o Hipocampo estavam no lazer e desenhando e pintado. Cada qual sua tela mirando os atrativos da praça.
            Os três se aproximaram e procuraram olhar que desenhos interessantes, tanto da Caúna como do Hipocampo. No desenho da esposa dos cabelos embandeirados ao vento do dia, apareciam: o discoporto, que vivia ali; uma árvore grande, a sucuuba, que vivia e morava ali; cinco canteiros de flores diversas e coloridas, que viviam ali; um navio de mil janelas cor de abóbora, que não estava ali; uma palmeira juçara carregadinha de bolinhas coloridas de natal, que não estava ali. E sobre tudo um número absurdo de passarinhos, principalmente andorinhas, paturis-pretos, surucuás-de-barriga-amarela, bem-te-vis, gralhões, anuns-pretos, todos faceiros que voavam perigosamente rente aos obstáculos, e que estavam ali ao vivo ou não.
            O Hipocampo cavalo-marinho desenhou estas coisas: o discoporto, que estava aí; no meio da pista do discoporto, onde as espaçonaves divinas aterrissavam, havia uma poça de água onde o sol do dia se espelhava, parecendo um ovo frito e que não estava aí; uma árvore com um mico-leão-dourado-de-cara-preta pendurado pela cauda, que não estava aí; uma casinha de show que o pessoal chamava de coreto, que não estava aí; sobre tudo a nave divina de ouro chegando vindo buscar os escolhidos do céu, que podia estar por aí ao vivo a qualquer momento.
            Depois os desenhistas-pintores deram um passo para trás, cada qual olhando a sua preciosa tela, e disseram:
            - Bem, terminei.
            - É, acabei.
            Por essa vez, os dois desenhistas, e muito amigos esposo e esposa, resolveram um intervir no desenho-pintura do outro. Foi assim. A Caúna desenhou um pescador para o ovo frito desenhado pelo Hipocampo. E o Hipocampo desenhou presentes ao pé da árvore de natal desenhada pela Caúna.
            Aí, os três amiguinhos Rê e Lilás e Edu, e só aí mesmo, aplaudiram porque os desenhos eram bonitos, surrealistas e bem caprichados. Afinal, todo mundo entende e adora desenhos ou poesias surrealistas. Faltava mesmo pintar com cores. Quem teve outra ideia foi a Rê:
            - Vamos brincar de caçador?
            O convite foi uma surpresa. E logo todos se alegraram e pularam o que puderam comemorando a boa lembrança da Rê. Concordaram todos. Foi aí mesmo na área destinada aos discos voadores, no discoporto.
            As nuvens giravam de branco no céu que a pouco tempo era só azul. As aves piavam e discutiam o dia que já estava dando sinal de entardecer. As pessoas passavam em duplas, em trios, e até em velocípedes enfeitados de decalques ou adesivos. Um grupo de periquitos-verdes passou voando alto palrando alto.
            Para a primeira partida foram a Caúna num extremo e o Hipocampo no outro. A segunda partida foram a Rê e a Lilás. O maior vencedor, que não era fácil caçá-lo, era justamente o Eduardinho. Não, ele era muito rápido. Cada caçada era comemorada e valia pontos. O melhor caçador era ainda a Rê. Muitas comemorações para o melhor caçador e o mais invicto ótimo dos não caçados.
            Tudo bem, todos riram e conversaram animadamente. Tudo bem. Por isso o Eduardinho se lembrou que poderiam brincar de estátua. A Caúna complementou a ideia:
            - Assim, para ficar estátua a gente deve tocar no ombro da pessoa e dizer: Estátua!
            Enquanto a turma brincava de estátua, que é coisa muito boa de se brincar, coisa antiga e já esquecida, a cidade continuava cada um aproveitando o que pensava fazer do dia. Tem por aí alguém ou alguns que acham que o bom ainda é pouco. Há pessoas e bichos e coisas que acham que o bom é pouco e quase nada. Tudo bem, tudo bem mas não é bem assim.
 Um casal passeava, ela na bicicleta e ele a pé. Uma paineira contava e recontava as folhas verdes, auxiliada pelo vento. Uma senhora de cabelo cor de rosa atravessou o calçadão, acompanhada de uma vira-latinha vestida de camiseta do colorado.
            Pelas ruas de Ivy-Marae acontecem passeios. Passou uma turma de guris para o jogo de bola na quadra do parque do lago, passou um trem com janelas andando em altas velocidades, passou uma jangada com vela vermelha bem grande, passou um avião monomotor fazendo propaganda do rodeio no CTG Pindorama.
                                                                       ***
            Pelas 11h e 30min, a nave apareceu no oco do céu profundo. Que belo! E que bela! Ela baixou e baixou na pista do discoporto. Parecia uma ave para o seu ninho de ovos. Pousou, desligou as energias, abriu a porta mágica, estendeu a rampa de aço e o tapete verde de franjas. Os anjos verdes desceram com sorrisos profissionais e verdes. Não trouxeram cheiro de nada. O povo a multidão já fechava em volta ansioso.
            O prefeito, seu Bem-Te-Vi-de-Crista, recebeu, e bem, os ilustres viajantes visitantes:
            - Bentevi! Bentevi! Bentevi!...
            O anjo verde todo chefe foi abrindo o tablete e lendo os nomes dos escolhidos. Num total de cinco.
Foi chamando e chamou o casal real Caúna e Hipocampo. Os dois assim de mãos dadas, olhando para trás só para sorrir e dizer tchaaaaau!... subiram a rampa e se internaram no fígado da nave. Subiu a Rê toda tímida. Era sempre difícil mudar para melhor. Enfim, a Rê ia com a cara toda boa. Se despediu e entrou para o fundo da nave engolidora. Subia agora o Eduardinho muito empolgado como se fosse com um brinquedo novo. Edu era todo sorrisos e espontaneidade. Muito curioso e mexeriqueiro queria já conhecer a nave por dentro, desmontá-la e remontá-la. Tocava e tocou aqui e ali. Tropeçou. De repente sumiu no oco do estômago do monstro divino, entrou para o miolo, entrou para o fundo, afundando, sumindo.
Dos quatro subidos restava o quinto, a quinta passageira que era a menina Lilás. E ela embarcou acenando com sorrisos e alegria. Olhou para trás, para os que esperavam sua vez, uma próxima vez, e se despediu. Entrou na nave e foi reparando o colosso por dentro. Todo de aço brilhante limpo escorregadio. Muito cheia por dentro de luzes coloridas botões para todas as funções corredores e vidros fumê para apreciar as paisagens interestelares.
O céu paraíso eterno era um sonho que se realizava e ao mesmo tempo era uma interrogação. Ninguém voltara para dizer se realmente tudo era como se pensava tudo aquilo que se sonhava que a propaganda prometia que os profetas explicavam.
            Os anjos verdes ainda levaram as encomendas muito apreciadas lá no fundo do azul celeste, no vale azul eterno: uma porção de bolinhos de chuva, feitos especialmente no dia de chuva; um pacote de erva-mate safra especial colhida e torrada em Timbó Grande; um quilo de queijo Minas; um pote de mel puro de abelhas silvestres jataí; cinco mil dúzias de pequis maduros; uma torta de chocolate para aniversário; um boião de vidro cheio de balas sortidas; uma maquete de Ouro Preto, cidade patrimônio da humanidade; uns vinte e tantos pacotes de pipocas com sabor chocolate; um pratão de beiju; um chapéu cheio de araticuns.
            A nave pegou no arranque, tremeu com tudo em volta, tremeu com a cidade de Ivy-Marae, tremeu com o coração e tremeu com o espaço aéreo, tremeu com o arvoredo, tremeu com as ideias das pessoas que ficaram tapando os ouvidos. O monstro papão levantou rápido, zuniu o ruído de bzzzz!... e se apagou no profundo do universo. Caindo no azul abissal e intemporal e internacional.
            Com rara habilidade, o sol saciava o mundo com seu belo dia de domingo. Os pássaros anambés-brancos-de-bochecha-parda, avoantes, sanhaços-frades, ferros-velhos, ajurucurucas, macucos, saíras-de-papo-preto, também saciavam. O lago saciava os barquinhos de passeio. As capivaras saciavam o andar de bicicleta. As árvores timbapebas, morototós, ananis, índigos-do-brasil, congonhas-de-goiás, catauaris, rosas-do-campo, saciavam o vento contando folhas verdes. As pessoas bichos e coisas de Ivy-Marae saciavam seus sabores de sorvete abraçados às cores de uva abacaxi caju pitanga pequi. Ruas e avenidas e praças de Ivy-Marae saciavam nomes de árvores e bichos e gentes de boa qualidade.
            O sol caiu e a tarde começou. Em Ivy-Marae as tardes vêm antes das noites. E isso assim é bom.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Obirici, a Lenda do Lago - 6 (juvenil)




Capítulo 6

1

            Depois dali a uns dias para outubro e novembro...
            Os índios mais velhos, as índias mais velhas, uns gostavam de mascotes e outros nem tinham mascotes. Todos os mais velhos da tribo se reuniam vez ou outra na tijupá das reuniões. Sentados no chão, nos tocos, nas torrinhas, ao redor de um fogo de chão. Eram umas cinco da tarde, e chuviscava lá fora, aquela boa tarde de sexta-feira.
            Participavam da reunião dos velhos e velhas da tribo, o cacique Jarivá; sua principal esposa, a Jarina, com seu mascote o maitaca Buriti, que matraqueava muito, creeê! creeê!...; pai de Upatã, índio Carandaí; a mãe de Upatã, a índia Carandá; pai de Obirici, o índio Guacuri; a mãe de Obirici, a índia Guarijuba; o pai de Uirá, o índio Taquari; a mãe de Uirá, a índia Sapupira, mais seu bichinho de estimação o preazinho Quebracho, que trincava os dentes, bim! bim!...; o velho pajé Conabi acompanhado de Piaçaba, tseee! tseee!... e do maracá, tretetê! tretetê!...
            No começo ninguém sabia o que fazer como fazer.
            Todos estavam em silêncio, pensativos, cansados, quase dormindo. Menos em silêncio, o Buriti, creeê! creeê!... E Buriti ainda nem sabia falar como gente. Menos outro em silêncio, o Quebracho, que falava consigo mesmo ou com as sombras, bim! bim!...
            Lá fora a boca da noite, a tardezinha avermelhada, esta tinha sons confusos. Podiam se ouvir grilos, cri-cri! cigarras, inhéeee!... passarinhos numa confusão de pios, pipipio! sisisiooo! criiieeê!... macacos guabiras gritando muito alto, uh-u! uh-u!... e também alguns espíritos da floresta, almas esquisitas, fantasmas perdidos e invisíveis, curupira, zu-zu-zum! mapinguari, tu-tu-tooo! anhangá-pitã, a-a-a-ah-ah-ah! boicininga-cascavel, siiiil-ve! siiiil-ve!...
            O cacique Jarivá tossia, tofe! tofe!... fumava seu cachimbo de barro, tossia, tofe! tofe!... pensava meio de cabeça baixa. De repente quis falar e ergueu os olhos os braços a voz. E disse, falando para o coletivo:
            - Eu nem sei de nada! - falou bem alto.
            O pai de Upatã, Carandaí, se balançou se agitou e também falou:
            - Eu menos ainda! - falou bem alto.
            A mãe de Upatã, Carandá, falou gritando:
            - Eu bem mais muito menos ainda!
            Então, ninguém sabia. Ninguém sabia tratar o problema. Ninguém queria errar no remédio do problema. E se existe o problema é preciso um remédio muito bom e eficaz.
            Era uma terça-feira, mas o tempo chato confundia terça com sexta-feira já de tardezinha. As árvores braúnas tinham flores, e também as alamandas-de-jacobina, capitiús, jenipapins... e as vespas cabatatus buscando doce colhendo doce.
            Outra vez os índios e as índias em silêncio pensativo. Buriti queria conversar com Jarina, creeê! creeê!... Jarina estava pensando outras coisas. Quebracho dizia coisas importantes na língua dele, bim! bim!... E lá fora um mundo fervia. Se ouviam latidos de lobo-guará, au-au-au!... pios de coruja caburé-de-orelha, o-oh! o-oh!... guinchos de morcegos, reee-che!... papagaiada de papagaios maitacas, craaa! craaa!... casais de gralhas-pretas brigavam em altos grasnados, creeeiii! creeeiii!... ali na árvore assa-peixe, lá na copa do cambucá.
            A reunião estava sossegada, morna, cansada, pensativa. Uns já dormiam. Outros ainda dormiam. Os que fumavam cachimbo ainda tinham o que distrair. Quebracho ralhava, bim! bim!... Buriti queria conversar as coisas, creeê! creeê!... E até assim uns índios e umas índias conseguiam cochilar, bater cabeça, pescar, ralar os olhos vermelhos de sono.
            O cacique Jarivá se lembrou de algum detalhe importantíssimo:
            - Velho Guacuri, velha Guarijuba. O dia que nasceu Obirici?
            A mãe de Obirici, a índia Guarijuba, respondeu:
            - Em meados de abril. Cinco meses cinco luas depois do último grande tufão que derrubou todas as nossas palhoças. Lembram?!
            O cacique Jarivá concordou. O cacique Jarivá renovou a pergunta:
            - Velho Taquari, velha Sapupira. O dia que nasceu Uirá?
            A mãe de Uirá, a índia Sapupira, respondeu:
            - Na primeira semana de janeiro. Um mês uma lua depois do último grande furacão que destruiu nossa aldeia. Lembram?!
            Então, estava decidido. Uirá era mais velha três ou quatro meses luas de Obirici. Uirá, assim, casaria com Upatã. E pronto. Tudo certo, tudo decidido.
            Tudo normal. Sempre fora assim. Que bom!
            Anoitecia. A natureza estava entre o azul o amarelo o branco. O céu arquitetava um arco-da-chuva. Bando razoável de papagaios-verdadeiros voava de volta pros matos de araucária.
            Muita coisa se fez e se deixou de fazer. Tempo houve, tempo foi, e de lá pra cá.
            A chuvinha passava uma limpeza no dia no mundo. Tudo muito curioso e enigmático. As árvores tinham mudado de roupa. Uma planta rara e oxigênica a uacoi-mirim. Uma anta parecia uma capivara uma cutia parecia um gambá. Uma paca contornou a paquevira e apareceu lobo-guará.
            O riachinho Jacuí os rios iam ao encontro dos outros rios ao encontro do que tinha de ir e vir. O rio tem sorte, a árvore tem sorte, algazarra de pássaros, algazarra de insetos, algazarra de rio descendo de cor e salteado em correnteza. Voavam aves em confusão. E todos as aves os bichos as plantas já bebiam o rio. E todos alcaçuz-da-terra jurubeba-de-espinho barbatimão samambaia-douradinha socozinho guigó tico-tico-do-campo... já bebiam o rio, e cada qual o seu rio.
2
            E o sol que caminha déu em déu e ao léu.
O bom das estrelas que são muitas. As estrelas mais disponíveis amigáveis mais perto das mãos. Com estrelas nem se brinca. Estrela por estrela a prioridade o principal está a estrela sistemática do sol. Um silêncio contemplativo pensativo organizado silencioso. Uma noite como esta estrelada com oportunidade de comer estrelas.
            Na melhor cor de céu com cor de nuvem, quando o sol encontrou a linha do horizonte, quando os pássaros fogo-apagou procuraram um banho de poeira, e se preparavam para pernoitar, foi aí, sem demora urgente, que apareceram surgiram brotaram milhares de bandos de carapanãs fabricados naturalmente.
            As pedras queriam esquecer o tempo e dormir dormir.
            Pois olha, Auí tinha conhecimento e conhecidos por esse mundo dos espalhados repartidos e distribuídos. Ela era da aldeia natural dos tapimirim, mas andara conhecer outras terras de índios e de brancos, os guaraio, os emeriom, os iuberi, os guaicuru, os arara-do-aripuanã, os suruí-paíter, os camacã, as cidades de Nova Xavantina, São Felipe, Buritinópolis, Porto da Folha, Igarassu, Cajueiro, a baía da Ilha Grande de Paraty, praça das Bandeiras, rua Pistoia, viajou por toda a extensão do rio Paraíba do Sul... A índia Auí era isso era assim. Gostara muito e recomendava a famosa e bonita Banabuiú. Sabia de histórias que começavam na aldeia potiguara e terminavam em Sorocaba. Lembrava muito a idade que passou em Serra Azul e rua Barão de Santo Ângelo. Seus hábitos continuavam os mesmos, e falando, ruflando, esticando o braço na vertical:
            - Meus hábitos continuam os mesmos, praticamente. E continuarão iguais ou parecidos com poucas mudanças, assim ou assado.
Dona Auí ergueu o braço e começou a contar as novidades, grugulejou:
            - Prestem atenção! É mais uma história sem fundo sem endereço sem nome. Uma história que começa no rio e termina na montanha. Uma história sem capivaras e sem jaburus e sem cricriós. O estilo de vida dos preás e raramente uns poucos preás andavam farejando por lá.
            “Agora eu digo. O rio sempre aceita o campinho do rio, sempre joga o jogo do rio, sempre acerta o placar do rio, sempre vence o campeonato do rio.
“Pois sim. Era uma época que os índios nem existiam e muito menos habitavam a terra a mata o rio o ar o tempo. A terra toda era dos...
“Isso mesmo. Muita chuva para vir. O mundo sonhando dormindo... Tudo dava saudade. Tudo tão longe e tão distante. Tudo desabitado. Os tapimirim nem estavam aqui, os trumai idem, os carajá também, os tapirapé, os camaiurá, os nauquá, os suiá igualmente nem. Tudo tão natural. Tudo tão quieto. O mundo só no começo. O planeta boiando no espaço. Assim era tudo ou quase nada.
“Podem aumentar vossas atenções! Assim era por toda a parte. O tempo podia ir como não ir, existir como nem existir. Acho que o tempo nem tinha dor de cabeça pra pensar tanta coisa ao mesmo tempo. O tempo nem tinha relógio de pulso. O tempo tinha tempo pra tudo e nada.
“Só no dia seguinte fiquei sabendo que o mundo já tinha acabado. Mundo sem eira nem beira ou ramo de figueira-de-lombrigueira.
            “Eu respondo. Era de dia naquela data e o verde da mata caprichava. Riscou um raio dois raios de uma vez todos os raios possíveis em bando. Os trovões ajudaram a terra tremer as pedras as árvores. Ninguém se apavorou porque não havia ninguém no mundo. Ninguém de olhos para ver e se arregalar. Ninguém nem ouviu nada. Ninguém nem me contou isso.
“Pois é. E a chuva começou a cair. Eu até tinha poderes pra contar os milhões de pingos os bilhões de chuva. Mas nem contei. Hoje me arrependo, hoje me arrependo.
            “Como ia dizendo. A chuva despencou dentro do mundo primitivo. Chuva selvagem. Trovões ribombantes. Chuva coragem. Ninguém ficou admirando a chuva porque nem havia ninguém na terra. O tempo nem podia ser calculado, talvez quinhentos mil anos atrás, talvez mais, talvez cinco milhões de anos atrás, talvez oito mil anos à frente. E a quilômetros e quilômetros daqui, de lá, de acolá.
            “E vou falar. A chuva tomou banho de chuva. A chuva alcançou rio montanha árvore e até as nuvens. A chuva alagou. As águas caindo e fazendo rio, rios lagos e outros lugares de água. A chuva chorando bastante, murmurando, “Vam’embora! Vam’embora!...”
            “Respondendo ao perguntado. Os meses foram de chuvas. Os anos passaram passando... mas o rio nem passou. O rio nem passou o vento não passou o tempo nem passou. Tudo passa, mas eles nem passaram porque não havia ninguém para passar, nem havia índio tapimirim, nem havia índio sapuiá, índio e índia quencatejê-canela, curuminzada nuquini ou índio marimã, nem havia branco morador de Tuntum ou de Piranguçu ou de Corinto ou de Juazeiro ou de Penedo, nem havia tal coisa, não havia japim-de-costa-vermelha, nem havia surubim, nem havia formiga saúva ou içabitu, nem havia quem apreciasse melancia-do-campo, nem havia nem caapora...
“É o que eu informo. Foi aí que o rio correu. O rio correu para imitar os rios que correm. Água com gosto de pedra fria ou mato ou flor de primavera. O rio e umas árvores. Águas correntes todos os dias dez vezes ao dia. O rio imitando os outros rios e nem se conheciam. O rio seguiu uma estrada feita de rio feita pro rio. O rio rebrilhando ao sol maduro. O rio com alma cheia de lua e de estrelas farejando o próprio rasto noturno.
“Digo mais para mais e melhor. Era bom sonhar um rio Maria Preta, o sol brilhando por dentro dos raios, o rio que desanda entre as pedras contorna as terras cresce no meio das plantas, begônias-de-folha-estreita, gerânios-brasileiros, amapolas, açucenas-do-campo, meruquiás, lírios-da-pedra... e fabrica cascatas açudes alagados remansos pra nadar com os peixes dianemas.
“Quem sou eu pra saber?! O sol subiu as alturas e foi horas e horas esquentar o planeta. E, então, por surpresa e por milagre e por acaso, meio-dia em ponto, Tupã apareceu. Ali perto do rio. Sobrevoou o rio. Se abaixou esticando o braço de mil quilômetros. Tupã cumprimentou o rio, “Oi, rio Piranga!” Foi fuçou e conseguiu tirar do rio uma pedra de oitenta quilos no mínimo. E a pedra, a partir daí, em vez de diminuir de volume e de peso fez o contrário. A pedra fez foi só crescer. Cresceu e se tornou ainda maior que um absurdo. A pedra cresceu se desenvolveu a perder de vista. O próprio Tupã botou a mão em pala pra ver debaixo do sol. A pedra ficou arisca e com o corpo afunilado igual de montanha.
“Ora essa ora aquela. Natural que o mundo era mundo antes mesmo de alguém andar ou comer ou beber ou saber ou nomear. O mundo era mundo por opção. E um cavapitã perguntou para uma orelha-de-onça que passava aí, indagou:
- O que é isto aí, hein? - pergunta do cavapitã apontando uma nuvem no céu.
- É o Pão de Açúcar, nem sabe?! - respondeu de imediato a orelha-de-onça.
- E como veio parar aí? Será que veio visitar os parentes?
- Pois ele é daí, tá!
Índia Auí vivia entre a aldeia e as cidades. Se vestia com roupas de branca e enfeites típicos da tribo, quando na cidade; de cunhã tapimirim e óculos de grau quando na taba com os seus parentes. Auí foi criada nos dois ambientes e conhecia os costumes dos parentes, estudou na cidade e conhecia lugares viajantes, Mariana, Pereiro, Salvador do Sul, ilha de Santo Aleixo... em todo lugar possível. Morou em Vale Real em a rua Moura Azevedo. Auí prosseguiu, tamborilou: 
- Quando uma goiabeira-serrana morre. A alma da árvore fica leve solta e se solta. E vai subindo quanto mais leve melhor. Chega e vai entrando em alguma estrela logo a primeira que aparece. Daria até para escolher preferindo cor tamanho altura posição braços pernas, mas nem escolhe. Toda árvore que vai para o alto vira gafanhoto quando quiser. E vai morar numa cratera que quiser da estrela que achar melhor. E nada nada a decepciona.
“Os índios xipaia plantam mandioca a vida inteira, os canamari plantam amendoim a vida toda, os tenharim plantam milho vermelho toda safra, os paumari plantam abóboras pela história afora, os diguti plantam mandioca a sorte inteira, os cariri gostam muito de cajus e plantam cajueiros, os txicão gostam de semear peixes na lagoa...
- Que lagoa, tia Auí? - pergunta de Acapu.
- Lagoa ou lago ou balneário, profe? - era Inhaíba.
- E de água doce? - a cunhantaim Puruuara.
Auí abraçou todos eles e acabaram rindo muito. Auí prometia trazer presentes e cumpria a promessa. Prometia contar história e contava. Tanto que nem perdeu o enredo, e miou:
- O rio desceu subiu desceu pelo seu leito, rio misterioso, rio em todo lugar. Pedaço de tronco caiu no rio foi ao fundo e virou peixe-boi. E o rio quis o caminho os quilômetros os lugares o centésimo vigésimo andar. O pacu de lenço vermelho no pescoço, veste amarela com lista preta, nadou em diagonal do fundo para a superfície. Peixe comendo vegetais aquáticos respirando água para fazer outros peixes. E os peixes surgiram em cardumes e peixes. Tinha tracajá tinha arraia-de-fogo. O grande rio fez tudo igual como o primeiro rio do mundo. Tudo direito em ziguezagueio. Rio enorme feliz como bando de rios satisfeitos como rios com corredeiras e cascatas. Assim, muitos bichos vieram se banhar no rio. Naquele dia nem deu tempo de todos beber o rio. Faltou luz. E chegou a noite e alguns tiveram de beber no escuro. Mais outros tiveram sede durante a madrugada e foram beber assim mesmo. Por fim, o rio morou em companhia de muitos peixes bichos aves de gargalhada estridente plantas, guabirobeira, caroba, ibaviú, jarrinha-batatinha... tão legal que só vendo.
“Os dois primeiros meses passaram rápidos. Um dia bonito, 27, um mês jovem e esportivo, março, um ano sem muito ti-ti-ti e renovado, 1998, o sol, mãos nos cabelos, passando pelas 14h e 20min. E o sol foi muito forte nos dias 26 a 30. Fazendo rebrilhar o rio as pedras as árvores o casal de bem-te-vis-de-gamela. E os dois pássaros conversaram. Em breve acharam graça e se abraçaram e se beijaram no dia de sol. E sem lema sem problema sem dilema. 
“Quando nem mais que de repente. Se passaram estações meses décadas ventos rios e o caso foi esquecido.”
A dona Auí parou de falar. Pensou outras coisas. Nem disse nada mas pensou. Saudades dos lugares que ainda nem conhecia e que conheceria, Felixlândia, Pedro Leopoldo, São Sebastião, Divinópolis, Pedro Afonso, praça Mauá, aldeia dos machineri, reserva dos caiapó-aucre, o território dos bará-tucano, o rio Uaupés... como conhecer Belo Horizonte as ruas velhas conhecidas travessa dos Venezianos de BH o Mercado Público de Beagá o parque Municipal de BH as lindas quase desertas praias de areias brancas branquíssimas de Belô.
Na manhã haveria sol rio pássaros e árvores uniformizados. E o arlequim-pequeno disputando flores com abelhas e borboletas.
Sim, os raios de sol cruzados de cores quase que driblaram as folhas ramadas. Os pássaros gorjearam camuflados, crejuás, inhambus-pretos, bem-te-vis-de-coroa, japués, pintassilgos-da-mata, coroinhas... Os raios de sol e apareceram gritos de maritacas em bando. 
Como de costume, como de dia de sol, Auí falou de flores, violetas-do-mato, cravos-do-mato, cravinas-do-campo, begônias-sempre-florida... elogiou a beleza, a fragrância, o dia claro de setembro, a doçura de cada qual.
3
Um dia tinha que acontecer. Um dia tinha que acontecer? Por que que tinha que acontecer um dia? Porque tinha que acontecer. E aconteceu. Aconteceu dentro de um certo dia. O destino apronta dessas coisas. E a sorte ninguém segura. O rio pega o seu caminho, desce pedregulho abaixo.
            A natureza estava tranquila. E um sol mais que muito quente. Árvores vestidas de verdes amarelos azuis bonitas complicadas altas belas e algumas bem floridas de época.
            O sol apareceu na manhã de curicacas e joões-de-barro e pica-paus-dourados. Isso sim que foi milagre! O dia todo para funcionar as coisas, o riachuelo Jacuí, as mumbacas, os capixins, as iaiás-de-cintura... O dia nascendo na manhã festival.
            Depois, o dia voltando do capão das pitangueiras, os embornais cheios de pitangas, Upatã com Obirici do lado direito e Uirá do lado esquerdo, vinham também mais índios e índias jovens, quando, e já chegando na aldeia, ficaram todos sabendo quê; o cacique falou para todos ouvir, destampou:
            - Upatã é noivo de Uirá. Uirá é noiva de Upatã. E vão casar dentro em breve, na primeira lua cheia. Prometidos. Pronto, falei!
            Obirici nem acreditou no que acabara de ouvir. Uirá acertou acreditar no que acabara de ouvir. Os velhos da tribo tinham decidido que Uirá desposaria Upatã, Upatã desposaria Uirá. Desta vez, Obirici estava do lado direito de Upatã. Obirici nem acreditou, deixou cair o pote cheio de pitangas, os cabelos arrepiaram, o coração tremeu, as pernas amoleceram, caiu ela mesma no chão, rolou na grama, caiu para trás e desmaiou, ton-que!...
            Um amarelo de tarde escorregava para um céu quase no horizonte. E logo o sol virou palmeira jataí. A palmeira viu as horas se juntarem às horas e fazer os dias, os dias aos meses, os meses foram ao longo do ano. As banisteriópsis viram tudo isso passar. Se passaram dias e o caso foi pendurado para secar.
            Quem nem foi feito para esquecer nem esquece jamais.
            Aquele verão foi muito quente, aquele inverno foi muito frio. Quando o verão é muito quente, o inverno é muito frio e chuvoso. Quando chove pouco no verão, chove muito no inverno. E aquele ano a canafístula floriu abundantemente bem antes da enchente.
            Obirici era outra pessoa. E Obirici viu que a melhor amiga, a Uirá, não era mais sua melhor amiga nem de longe nem de perto. Obirici viu e comprovou que Uirá era agora melhor e única amiga de Upatã. E Upatã era melhor e único amigo de Uirá. E Uirá andava de mão no ombro de Upatã, tanto do lado direito como do lado esquerdo. Obirici nem queria ver, mas olhava Upatã com Uirá e Uirá com Upatã. Aonde um ia a outra acompanhava. Onde um estava a outra aguardava. Obirici via muito claramente, não queria ver, nem queria olhar, mas via claramente que Uirá era a sombra de Upatã. Upatã caminhava e Uirá o seguia como sendo um bicho de estimação. E dividiam risos, e dividiam frutas boas, e dividiam pedaços de caça, e dividiam a mesma sombra para descansar, e tomavam banho juntos íntimos no rio. O casal se via se entendia pelos olhos. Um admirava a outra, uma ouvia atentamente o outro.
            Era como se Obirici estivesse noutro mundo. Estava noutro planeta com certeza. E via embaçado, e ouvia confuso. A cabeça entortada sobre o ombro esquerdo.
            - Por que ela e nem eu? Por quê? Por quê?
            Quando Upatã atravessava o pátio da aldeia, Uirá o acompanhava. Uirá com a mão esquerda no ombro direito de Upatã. Quando voltavam pelo mesmo pátio, Upatã vinha puxando Uirá que segurava o seu ombro com a mão. Obirici olhava tudo isso, não se conformava, nem queria pensar, mas pensava, e olhava cada vez mais. Sentia profundamente o estômago, o vazio no estômago. Como se levara joelhada na boca do estômago. Então, caía para trás, ton-que!... rolava no chão, perdia os sentidos, desmaiava, entrava em transe, despenteava os cabelos, se cobria de cinzas, se arrastava na poeira vermelha, nem queria mais se levantar, preferia viver como arara-azul-pequena entocada no oco da árvore ou suindara escondida na caverna.
            Ideia fixa era bom e era ruim.
            Upatã era de Uirá. Uirá tinha Upatã. E isso Obirici não queria acreditar. E nem acreditava. E só acreditava vendo com os próprios olhos. Obirici achava que estava vivendo um longo e prolongado e horroroso e difícil pesadelo. Se sentia envenenada por cobra cruzeira. E se perguntava a todo instante, batendo com o punho fechado na testa, mordendo os lábios:
            - Por que escolheram Uirá e nem Obirici? Por quê? Por quê?
            E Obirici pensava e falava olhando sua imagem refletida no espelho da água. Pesava diversas coisas impossíveis. Também estendia os braços abria as mãos as palmas viradas para cima os olhos no céu. E falava para si ou para o além ou para o aquém:
            - Por que Obirici nem mereceu casar com Upatã? Por quê? Por quê?
            Assim, Obirici vivia os seus dias logo após a divulgação do acordo de casamento entre Upatã e Uirá. E Obirici existia muito mal. E Obirici queria desaparecer. E Obirici queria virar qualquer coisa, e qualquer coisa desumana, para não mais sentir o coração, para nem mais sentir aquele desprezo. Queria ser uma árvore e viver de vento. Queria ser uma preá e viver no meio das ervas amendoeiranas e cauaçus da várzea. Obirici pretendia viver como cuxiú-de-nariz-branco ou codorna-buraqueira.
            Os dias eram longos enormes desertos para Obirici. As noites eram longas desertas silenciosas para Obirici. E Obirici via que os dias eram curtos para Upatã e Uirá. Obirici via que as noites eram agradáveis e curtas para Uirá e Upatã. Obirici dormia sozinha na rede. Upatã fechava os olhos quando Uirá fazia cafuné. Obirici cuidava pensativa pensativa as estrelas pequenas ou médias ou grandes da noite. Uirá nem cuidava de estrelas, cuidava de Upatã. E Upatã cuidava de Uirá. Sendo assim, Obirici sentia um forte golpe na boca do estômago e caía de lado no chão, ton-que!... Caía já desmaiada... tooon-que!...
            A aldeia era muito pequena para comportar, junto e no mesmo espaço, a pensatividade de Obirici e a jovem felicidade do casal Upatã-Uirá. E todos os dias Obirici via os dois pombinhos para lá e para cá. O casal de pombas-rolas se merecia. Uirá e Upatã pareciam, e às vezes eram, um casal de guaracigás, um casal de araras-grandes-vermelhas, um casal de tesouras-cinzentas. Obirici sentia o soco na boca do estômago, caía, ton-que!... não via mais nada, rolava no chão, comia terra, totalmente desmaiada, nem tomava mais banho. Obirici pertencia ao desejo de existir como uma árvore mangabeira ou canela-sassafrás, uma anfíbio sapo-folha, uma peixe sapipoca.
            Um dia Obirici, quando estava no alto da pitangueira mais carregada do pitangal, ouviu vozes e conversas e risadinhas. Olhou o chão e viu passar, muito namorados, viu passar Upatã e Uirá. Upatã seguia na frente, marchando, e Uirá atrás, segurando seu ombro. O casal passou por debaixo da pitangueira, não a viu no alto, nem olhou para as bonitas pitangas coloridas de vermelho e amarelo, continuou seu rumo, foi bem para lá. Mesmo assim, Obirici nem aguentou, se sentiu mal, levou um chute nas costas, um soco no estômago, caiu do alto da pitangueira, tooon-que!... e quase se arrebentou toda.
            Na sanguinha, Uirá nadava puxando a perna de Upatã. Obirici olhava da margem, sentada numa laje, atrás das moitas de cuaxinguba. Obirici sentia mais nada. Ouvia mais nada. Mas só sentia mesmo uma dor no peito e o estômago magoado. Obirici caía no chão desacordada, tooon-que!... Estirada estendida no chão deitada de comprido com as mãos segurando a dor no estômago. E Obirici nem queria mais nada do mundo.
            O dia estava esfuziante. No chão rasteiro passou uma sombra, no alto por dentro do sol, rasgou, pieeeéu!... um pio de falcão-de-peito-vermelho. Emas e filhotes de emas comendo da fruta-de-ema. As cores tinham idade, e o verde era novo e o amarelo era maduro. Uma tropa de cutias comendo da fruta-de-cutia. Algumas juritis-purus voaram para os rumos os lados as bandas de Minas Gerais ou Espírito Santo. Que saíra-amarelo curtindo o dia claro, etc., ex. O sol subiu nas curuatingas de cachos amarelos e cantou território em bem-te-vi-do-campo, e-viiii! e-viiii!...
4
            Céu noturno muito espacial. Céu muito estrelado, lua rara, Lilás procurando a estrela ou planeta ou galáxia da sua preferência. Ali na aldeia tapimirim tudo cheirando a ruídos da noite, tu-tu-tu!... pios de caburé-do-campo, vu-uh!... voos e chiados de morcegos, se-se-sê!... árvores na sombra, vaga-lumes, o pio, buuuu! buuuu!... do nambu, ou ave parecida, mosquitos borrachudos, zzzzzz!... muitos sapos e jias na orquestra do capim-gordo, cro-á! cro-á!...
            De onde estava, sentada no chão, Lilás mesma contava e perdia a conta do número das estrelas. E nem encontrava o seu país. Perguntas sobre perguntas. Mas também eram muitos países. E também nem tinha pressa.
            Auí chegou perto dos curumins e cunhantains ali à beira do fogo. A índia Auí falava de uma estrela e dizia o nome. A índia vivia na cidade e conhecera as tradições do mundo todo, nem só dos tapimirim. Cabeleira uma alta uma farta uma quente uma castanha. Visitara viajou por dentro e por fora do país, Salinas da Margarida, Paracambi, São João da Barra, Aracoiaba, Planaltina, Maruim, Igreja Nova, Serrana, navegou no rio Potenji, tribo dos craô, aldeia dos waurá, foi longe, foi alto, subiu serra do Cipó, viu a cachoeira do Tabuleiro, o monte Jaraguá, a ilha da pedra que canta Itamaracá... estação ecológica do Tripuí... em Conceição do Almeida na rua Pinto Bandeira. A noite estava agradável para uma história comprida. Auí esticou o braço esquerdo assim para o alto e começou com a narrativa, a poranduba, destramelou, piou:
            - Dois meses, pouco mais ou menos, já passados desde que o rio se enchera de chuva e corria o seu caminho de rio. Rio limpo e rio límpido e transparente.
            “O rio vai e volta. Todos os rios são assim. O rio fica e vai e volta. Todos os rios são desse jeito. As chuvas se acostumam e, daí em diante, voltam e caem assim de vez em quando. O rio vai e volta a cada dia a cada mês a cada temporal a cada ano a cada século.
            “De manhã o rio é azul, de tarde o rio é amarelo, de noite o rio é branco com pontos de luz.
            “O rio pelo menos faz o tempo andar. O rio o tempo o vento são três irmãos pescando à beira do rio, pescando com suruiás, pescando matrinxãs biribiris carás mandins tabaranas...
            “E o rio caminha todo sempre por dentro do rio, o mesmo caminho de sempre e nem tem do que se queixar. Rio de pele de vidro rebrilhando ao sol.
            “Pois o rio, diz: - Capais!
            - Dona Auí, a senhora já conheceu o riacho Pirajuçara? - pergunta de Tatajuba. Dizem que passa por dentro de cidade e alaga cidade nas cheias nas grandes chuvas...
             - É verdade. E o rio é sempre o mesmo rio. E o rio vê tudo. Vê a paisagem nas margens do rio. Vê por dentro do rio. Cada coisa que vê pega para si. Leva o que encontra pelo caminho. Bem manhoso e cheio de mumunha, quer tudo o que vê. Quer uma duas três vezes o que já tem. Tudo é importante para o estômago do rio. Principalmente o rio gosta de espelhos e vidros e perfumes, tudo que brilha e dá cheiro e cor ao rio. Rio cheio de curiosidades e novidades e lembranças.
            “Pedra fria pedra lisa pedra verde pedra dura tanto bate até que fura! Quem já nem foi rio nesta altura da sorte?!
            “Assim, o rio desce e volta vai e vem só para buscar reencontrar quilômetros de coisas e objetos e presentes. Longo e largo, o rio é orgulhoso de mundos e fundos.
            “O famoso rio, diz: - Capais!
            “Nem só é capaz como líquido e certo e sendeiro.
            “O rio cintila bonito sempre mais longo que a sorte do próprio rio. Os rios mais importantes navegam naquela região, naquela direção, rio das Velhas, rio Jequitinhonha, rio Pelotas, rio Sarapuí, rio Benevente...
            “Corre ou anda por entre a mata ciliar exuberante, malva-rosa, peúva, marajá-do-igapó, pindaíba-vermelha, bananeira-do-mato... Pega força máxima nos meses de abril e maio. Pula pedras troncos caídos cascatas e corre e sorri correnteza.
            “Na noite o rio faz uma espécie de silêncio e carrega a lua nas costas. No dia o rio gargalha e quebra espelhos no sol. Tem memória líquida. Faz tudo que quer e possui a força que pode mover uma cidade duas cidades, Aloândia, Carolina, Barra do Garças, Itacajá... Nem sabe que empurra tanta vaidade. Banha a cidade de Marques de Souza.
            “Mas o rio é o próprio moço o próprio rio a própria moça o próprio boto-cinza o pirajaguara. E quem te viu e quem te vê.
“Rio para onde vai de onde retorna. E rio que sabe que desce que chega até o mar. Rio que é dia e é noite. O rio que vende peixe e compra farinha de milho. O mesmo rio que tem cachoeira possui navio. O mesmo rio que tem nome, por exemplo Cristalino, por exemplo Coliseu, leva destino destinos.”
            Menina Lilás, duas tranças amarradas nas pontas por dois laços uma fita lilás e outra fita verde, ergueu a mão e falou pediu para a índia Auí:
            - Tá certo, tia Auí! Conte uma história de cavalos e nuvens.
            - Sim, dona Auí! Conte desta vez a história das “Cem Noites Tapuias”, faz favor - solicitou Tapiá.
            - Pois sim, profe Auí! Conte uma história com com com onça-pintada e jiboia e harpia - pediu Acapu.
            - Ora, dona Auí! Conte a história da cunhantaim que virou planta maniva - insistiu a cunhantaim Tatajuba com seu esperto amiguinho sagui Capeba enrolado no pescoço.
            - Tem mais, amiga Auí! Conte história como “A Mina de Ouro” - lembrou o curumim Caxim.
            Em vez de responder contando uma história mirabolante, a índia Auí falou assim, perguntou:
            - Olá, olá, curuminzada! Para onde vocês mais gostariam de viajar, se fosse bem possível? Querem ir a Uruguaiana, São Borja, Marau?
            Era tudo o que eles e elas mais queriam responder falando e brincando e sorrindo, a guria Lilás foi dizendo:
            - Seria ótimo passear de barco de trem de avião até Japoatã, Aquidabã, Timon, Guarani, hein?!, que acham?!
            - Vamos, podemos ver visitar? a aldeia dos catuena - ideia de Ariri.
            - Eu quero ir até a distante cidade localidade de Serinhaém e depois continuar até mais Lucélia e Salesópolis - preferência de Tatajuba, o mascote Capeba sentado no ombro.
            - Bem melhor e mais bonito conhecer de perto a Camumu - desejo viajeiro de Caxim.
            Índia Auí ouviu com sorriso todas as propostas de viagem e achou boas e ainda somou mais e mais aumentando ampliando o tempo o espaço o futuro. E tiquetaqueou:
            - Certo dia, na beira da estrada BR-470, paramos a excursão na porteira de um sítio dentro do município de Pitangui. Paramos diante de uma vaca malhada de branco e vermelho leiteira e tiramos selfies, é. Com a mãe-vaca e os filhotes-bezerrinhos, meeeé! meeeé!...
            - Eu também gostaria de morar lá em o forte de São Tiago das Cinco Pontas - observação de Acapu, que ficou olhando o espaço olhar aéreo embarcado longe longe...
            Lá fora, na vizinhança, um pássaro assoviou avisou na japaranduba. Ou poderia ser a árvore imitando um japuaçu, fiiié! fiiié!... Um tucano-gritador entre os ramos da árvore imitando um macaco-aranha imitando um tié-galo, prrri! prrri!... empoleirado nos galhos da cavitinga.
5
            No dia seguinte saíram todos os curumins e as cunhantains para buscar butiás no butiatuba. Dias e dias quentes por demais. Passarinhos brincando, a corruíra, ireee-trotrotrotroeeê!... o coleirinha, piste! piste!... voos para cá e para lá, os peixes pulando no remanso do riozinho, blupe! blupe!... cunhantaim Tatajuba, sagui Capeba no colo, nique! nique!... suspirou e disse para todos ouvir:
            - Ora! Se se comparar o papagaio-da-cara-roxa com os outros papagaios, ele é bonito; se se comparar o sabiá-tropeiro com os outros sabiás, ele é mais ou menos lindo.
            Vento leve com o vento leve nas manhãs feitas de ouro ouro. Um pássaro talvez um trinca-ferro, tin-uii! tin-uii!... comia a fruta de araçá limpava o bico no galhinho olhava precavido opinativo sempre toda vida muito leve brilhante ao vivo ao sol.
            A curuminzada sacudia a guabirobeira, entortava os galhos mais leves das guabirobeiras mais jovens. Descobriram embuás debaixo de um tronco podre de guamirim. Lilás já acostumada com o comer de insetos e larvas e tudo que se mexia.
            Jovens guerreiros foram buscar tronco de ubá para fazer canoa. Obra de muitos dias. Apitos de taquara, chocalhos de coquinhos, flautas de osso, trombetas inúbias feitas de casca de árvore. Os índios sabiam olhar a mata, ouvir a mata, descobrir as coisas novas. Bicho que se esconde, bicho que voa, bicho que foge, bicho que se espanta, bicho que finge de morto, bicho nas frestas e fendas das pedras, bicho carregado pelas formigas tracuás, bicho verde que se esconde no verde com verde, passarinho que canta imitando o alferes, sio-sio-sio! sio-sio-sio!... Um gavião-carrapateiro crocitou no galho da catanduva, inhéee! inhéee!... pendeu a cabeça para um lado, pendeu a cabeça para outro, os olhos mirando os invasores, depois voou gritando, inhéee! inhéee!...
            Era tão bom a curuminzada ali que parecia que o mundo tinha sido feito naquele lugar naquela hora com aqueles os seres vivos e pacatos e mais nada.
            As árvores em geral ali na mata, brincavam no meio da correria dos ventos. Os ventos vinham de, de onde?, de longe, vinham soprando e bufando desde Novo Barreiro e Santo Antônio de Jesus e Barra Funda... vinham suspirando e batendo os dentes as asas, vvvvuuu! vvvvuuu!... vinham trazer sementes, soprar flores e derrubar frutos, iam para onde, até Arapeí e Nova Boa Vista e área indígena tucuju... Certos frutos caíam na água e os peixes consumiam, jaraqui, tambaqui, traíra, cascudo...
            Dias certos e noites certas, certos dias do ano, os índios esperavam as manadas de porcos-do-mato. Os porcos-do-mato vinham pelas trilhas de taiaçuapés. Então, os índios tapimirim esperavam com todo tipo de armadilhas e camuflagens. Era praxe.
            Pajé Conabi na palhoça dos espíritos largando fumaça do cachimbo de barro. Piaçaba, tseee! tseee!... mastigando pedaços de abóbora cozida. Pajé invocando espírito Caruana. Espírito do fim do mundo para o bem e para o mal. Espírito sobrenatural para levar embora as doenças e as dores e os dias de seca na aldeia.
            O feiticeiro tapimirim ouvia e sentia os espíritos invisíveis. E esses entes conversavam mesmo e de verdade com o pajé. Sobre todos os assuntos, vários assuntos, assuntos de doença, assuntos de boa caça, assuntos de dias bons e épocas boas. Assuntos de chuvas, e verões, e invernos. Espíritos envolvidos na fumaça do cachimbo. Espíritos sagrados que chegavam ou partiam chamados pelo maracá, tretetê! tretetê!... Perguntava o pajé:
            - É hoje ou amanhã, o acontecimento o acontecimento?
            - Aguarde mais uns dias ou mais umas horas - dizia o espírito sobreposto.
            Os espíritos sempre têm muita força para soprar longe as doenças e dores de cabeça, dores de barriga, febres altas, soprar o mal e o ruim e a caruara para bem distante dos índios. Os ancestrais avós e avôs saíam do cemitério, subiam lá do fundão do grotão, entravam pela tontura do pajé. Os espíritos passeavam na fumaça do cachimbo do pajé Conabi. Os espíritos radioativos dançavam o poracé da tribo. Os espíritos entravam pelas orelhas e olhos e saíam pelo nariz cheio de fumaça do xamã. Velho Conabi todo-poderoso com a ajuda do caruana.
Depois a lua tão perto, tão grande, tão baixa, tão bichada. Ovo da floresta, ovo do campo, ovo da capoeira, ovo do pedregulho, ovo do grotão. Ovo da garça-branca. Ovo da onça-preta. Ovo com lua, lua ou ovo.
À uma hora do dia tal, o pajé foi para o mato alto, Piaçaba debaixo do braço, tseee!, tseee!... foi para o campo aberto atravessou alagados e banhados infestados de gravatás e pios de quero-queros, que-que-qué! que-que-qué!... A tatuagem do braço se soltou bateu asas o gavião-pinhé voou rodou alto aéreo, ieeeé! ieeeé!... sombra arrastando no chão. Lá para as bandas e partes de um lugar chamado serra da Fartura. Dias que o tempo apagou os dias. Depois, depois regressou para a aldeia muito depois.
O pajé tinha aventuras perigosas e secretas espirituais, uma vez.
6
            O dia seguinte foi um sábado ensolarado, mas muito mais na parte da manhã. Sol disse a todos ali presentes juntos reunidos, começou falando:
            - Vocês...
Ninguém sabia o que rodava por dentro da cabeça de Obirici depois do vexame de perder Upatã. Perdeu Upatã para a melhor amiga, ex-melhor amiga, Uirá. E Obirici nem queria mais nada. Não tinha mais futuro. Nem tinha mais passado. Não tinha mais presente. Pretendia ficar viver para sempre como pé de pessegueiro-do-mato. Nem tinha nem ideia fixa. Não tinha ânimo para erguer os pés do chão. Nem tinha nada. Andava parava ia não ia, como uma sonâmbula. Queria continuar daí em frente viver como uma palmeira açaí-chumbo.
            A pacífica e bonita Obirici queria fazer milagre? Queria encher o cesto o poracá de peixe e provocar uma festa do peixe na aldeia tapimirim? Queria subir até Jaci e pedir uma estrela de presente? Queria ser um besouro serrador? Queria ser periquito-de-asa-azul e viver em bando pela mata?, craaa! craaa!...
            - Nem quero mais ser chamada de... O-bi-ri-ci! - era o que murmurava de vez em quando, testa franzida.
            Obirici chegou no tronco da árvore, e abraçar. Estava se sentindo muito mal esses dias semana semanas. Não queria mais nada. Nem queria mais comer e beber e cheirar as flores da flor-da-esperança. Nem queria mais dormir. Não queria sair da rede. Não queria ajudar a mãe a ralar mandioca. Nem precisava de ninguém. Não queria parar de andar andar andar... Nem acreditava mais nada em Tupã. E muito não nada nunca... para nem reviver.
            Naquela tarde Obirici espiou da palhoça onde ela mesma morava. Olhou o pátio. Debaixo de um pé de anani, Upatã e Uirá conversavam. Uirá com a mão no ombro de Upatã. Upatã fazendo miçanga para enfeitar o pescoço de Uirá.
            A algazarra das avezinhas aumentava ainda mais a claridade do dia. E araçari-castanho casquinou para o mundo ver e ouvir, qua-qua-rá! qua-qua-rá!... Tudo ali aprovado aprovado.
            Então, Obirici saiu fora e foi andar andar andar... com perguntas com dúvidas. Saiu andando para o campo, rumo do grotão, meio que por acaso, sem destino, sem respostas, arrastando os pés descalços. Fez que ia fazer xixi e pronto. Talvez nem voltasse mais. Sempre o vazio no estômago. Sumiria no mundo. Ia mesmo virar numa árvore arisca tipo marimari.
            Obirici com tudo incompleto, coração incompleto, olhos incompletos, olhar incompleto, todo o corpo incompleto. Um vazio único e muito grande dentro dela mesma. Ela viu a árvore alta, subiu na alta taxizeiro, subiu no mais alto da árvore alta, quase bem no alto do último andar. Quase no lugar bem alto do gavião-carijó, crite! crite!...
            Soprava um vento chato ali pelo alto. Vento que vinha do mundo todo. Vento que rodeava os montes e morros e coxilhas, vinha do sol, levantando poeiras e folhas secas, vinha do riozinho, cheiro de água do riozinho, vinha da capoeira, aroma de flores doces e amarelas, algumas comestíveis, sumarés-do-campo, petúnias, piaçabas-bravas, caneleiras, copaíbas, poejos, jatobás-do-campo, porangabas...
            Obirici desceu da árvore gigante. Lá ia ela para a beira do riozinho, lá ia ela de pedra na cabeça, lá ia ela para sentar nas lajes, lá ia ela brincar com os peixes, blupe! blupe!... lá ia ela mergulhar na noite das águas, tibum!... lá ia ela sentar nas pedras da beira do riozinho, lá ia ela ouvir os sapos-ferreiros coaxar, croooi! croooi!... lá ia ela conversar sozinha, lá ia ela sentir dor no vazio da barriga. Brincou de passar a mão suavemente os dedos suavezinhos na pele calma do riachuelo.
            - Meu nooome é... rio Jacuí - disse o riachinho Jacuí.
            E de repente Obi-rici começou a chorar alto e mais alto e forte e como se fosse uma fonte brotando forte do seu coração maduro, soluçando, fu-fu-fu! fu-fu-fu!...
            Raios chicotearam o céu flechas de fogo rabiscos elétricos com rugidos de trovões, tru-tru-truuu, tru-tru-truuu!...
            Um dia que começou a chover e ela Obirici a chorar sem parar sem parar...
            Obirici fugiu. Correu, se espalhou, correu se esconder no meio dos gravatás. Cruzou três ou quatro sumidouros, ouviu jacaré-de-papo-amarelo assobiando, fiuuu!... atravessou riachinho Jacuí com água na cintura, uma cruzeira lhe fechou o caminho na trilha do matinho, chuva na cabeça, foi seguida horas e horas por onça-parda, urrrrrro!... passou na porta da gruta da encantada teiniaguá.
            Várias vezes, muitas vezes, todas as vezes necessárias, em rabiscos, em relances, os relâmpagos riscavam o alto o escuro, e vinham trovões, trooou! trooou!... sacudindo tremendo abalando a terra agitando todas as plantas. Chuva em cordas murmurante muralhante cantante, etc., ex.
            E ela Obirici perdera já toda a alma chorando chorando. Se passaram dias e mais outros dias de chuva intensa. Noites e dias correndo pelo mato, no campo, se espinhando toda e sendo seguida por bichos devoradores, predadores, exterminadores, destruidores, aniquiladores...
            Foram caminhos, caminhadas, subidas, esconderijos, atoleiros, chuvaradas nas tardes, chuvaradas nas noites, bolhas nos pés, sustos, correrias, espinhos, carrapichos, ruídos ocultos nas sombras, tiuuu! cruuu-ê! pu-que! pu-que!... tooooim!... papagaio-de-cabeça-amarela gritava, criiia! criiia!... noites sem lua, resfriados, espirros, noites de lua uivante, ui-ui-ui!... chuva por remédio, água até a cintura, caminho alagado, chape! chape!... lobo-guará uivando, au-au-auuu!...
            Obirici índia pôs as duas mãos na boca. Rosto de lua cheia, cabelos da noite, olhos da noite, enxurrada que brotava dos seus olhos dos seus olhos cara lavada lavada.
            Para onde estava Obirici? Aonde ia? Aonde queria chegar com tanta água? Água até a cintura nem sabia se nadava ou se morria afogada no próprio choro. Chorava tudo por tudo muito muito.
            A chuva continuava a cair em fios em cordas em tranças grossas chuva fechada com pressa pesada e com barulho, chuuuá! chuuuá!...
            Outros dias e outras noites sem sossego. Chuvas o dia todo os dias e mais fortes sempre nas tardes. Os bichos predadores a seguiam, a acompanhavam, famintos de língua de fora babando riscando o chão com as garras afiadas. Os bichos perguntavam ofereciam propostas mostravam os dentes uivavam se irritavam bramavam sacudiam as árvores molhadas:
            - Vamos parar com essa correria na chuva, ru-tu! ru-tu!...
            - Deixe segurar a tua mão, rém-rém-rém!...
            - E tenha aqui o meu abraço, tá-tá-tá-tá!...
            - Por que chorar tanto do perdido por perdido e meio?, rum-rum-rum!...
             A cunhantã atravessou a noite as noites e de lágrimas, desceu ao fundo do perau. Chegou ao fundo fundo do grotão toda vestida de barro vermelho e se sentou na pedra perto do cemitério dos avós. E chorando sem parar. E chorava como nunca. Passava o dia e a noite se lamentando no meio do cemitério. E chorou como chuva. Os barrancos nem se aguentaram e desmoronaram. Obirici derramou lágrimas copiosas, chorou o de chorar. E chorou o que Tupã mandou. Chuva até os ossos. E chorou ainda mais o que Tupã nem mandou. Chorou e choveu o que já nem cabia.
            A índia Obirici esquecida do mundo, sumida da taba já há alguns dias, algumas semanas, perdida da tribo tapimirim. Abandonada à própria sorte. Sua sorte. A sorte que ela buscava afogar. Dias de chuva sem descanso. Chuva vento frio inverno e enchente e enxurrada. Céu se derretendo, paredões da cratera virando pura paisagem de cascatas, cachoeiras, toboáguas, e o chão virando alagado banhado lagoa.
            Obirici era uma fonte de água chorando com chuva selvagem. Brotavam muitas águas dos seus olhos dos seus cabelos. E águas sem fim. Tudo pingando, as mãos, os braços, os cabelos pingando, as folhas das árvores. Águas do tamanho e da profundidade de um lago. Estava dentro das águas. Águas da cor da terra vermelha do grotão que ia sendo tragado. Águas verdes dos campos alagados. Águas longas dos longos cabelos negros como rios caudalosos. Chuva que chovia despropositadamente. Águas pretas dos olhos negros cheios de nuvens baixas e pesadas.
            Os pingos de chuva caíam na cara dela Obirici e a deixavam derretida muito encharcada se derretendo. E desde o início desde sempre. Olhos duas bolsas de água que nem permitiam enxugar. Chuva cada vez mais forte. Água até a cintura e subindo. Enchente como nunca se viu, onde se viu!
            E a água foi subindo os barrancos do grotão. O grotão enorme foi enchendo de lágrimas amontoadas empilhadas e dias e dias de chuva. A água que explodia dos olhos de Obirici ia enchendo o grotão e causando grave erosão. Os bichos do fundo do cânion já viravam em peixes de água salgada ou doce. Pássaros do fundo do grotão, psiiii!... pinhéee!... que-que-qué!... ensopados, surpreendidos e afogados em tanta água, viravam peixes de água salobra, jundiá, mandi, pacu, poraquê, blu-blu! blu-blu!...
            Obirici chorou o que nem parou mais de chorar. Tromba de água sem fim. Onda varrendo tudo, arrancando tudo, carregando troncos, enchendo o vale, derrubando barranco sobre barranco. Água gorda, lago engordando, cobrindo todo o buraco do fundão. Rio de choro, cascata de lágrimas grossas. E rios enchendo e despejando ali no valetão valão.
            Houve uma semana que chorou tanto tanto que o riacho virou rio corrente e a enxurrada a arrastou ela Obirici para o lago. E as águas continuavam nem paravam mais de crescer. Um mundo de água, glu-glu!...
            Só o silvo da chuva e das águas. As águas que deslizavam para um lugar mais baixo. Enchendo enchendo o grotão como nunca se previu.
            Enquanto Obirici chorava, um raio outros raios riscavam o alto acompanhados de barulhos grossos de trovões, tru-trom! tru-trom!... Águas crescendo para cobrir todo o grotão e arredores. O céu se unia com Obirici para encher o grotão de água-água.
            Vinham enchentes desciam por ali o rio Jacuí, o rio Taquari, o rio Gravataí, o rio dos Sinos, arroio Tabatingaí e outros rios turma de rios da região. Tanta água tanta água que enchia o grotão que virava em lago ou lagoa. O encontro das águas doces em estuário. As águas grossas e que tinham pressa, chegando do dia para a noite. Na superfície das águas barrentas, uns galhos, troncos, peixes pulando e remoinhos e espumas. Parecia um oceano para acabar com tudo e recomeçar outro mundo. O grotão virava um mar de água doce um mar de água doce.
            Nuvens pesadas e agitadas, água-água, chuva-chuva, rio-rio, transbordamento de enchente, mania de anfíbios, país dos peixes, piratantã, piraputanga, pirarara, pirá-tamanduá, pirapetinga...
Obirici se derretendo, se matando, se transformando em iara ou mãe-d’água. As águas crescendo tanto, subindo, engordando, enchendo o mundo. E Obirici já nem era mais Obirici. Obirici se tornava iara ou mãe-do-rio, senhora-das-águas-doces, filha da lua, senhora das cores do arco-da-chuva.
Com o passar dos dias e noites, inconformada, ela Obirici pegou e se deixou levar pelas águas, sumiu, desapareceu, virou peixe, virou iara, virou sombra no fundo das águas, virou o que a água tem de melhor.
7
Nuvens lentas poucas em vozes conversas baixas quase passando desenrolando os longos lençóis brancos por volta do meio-dia rumo do norte vindas talvez do sul.
No ar sempre o perfume, o hálito que sabia a flores, que nem era nunca o mesmo, essências de alfazema-brava, trinado do tizio, ivió-ivió-ivió-ivió-iviii!...
E o mundo do grotão, ali à beira da taba dos tapimirim e seus vizinhos, se transformou absurdamente num lago gigante. Tanta água junta nunca vista. Nem era um mar, mas quase. E era um lago ou lagoa. Uns chamaram Guaíba. Outros chamaram rio grande. Outros ainda chamaram encontro nacional das águas doces. E continuam chamando.
E a água que caíra dos céus, que saíra dos olhos da índia, que vertera dos olhos de Obirici, que brotara dos olhos da jovem índia tapimirim, molhou o mundo todo, molhou todas as pessoas e bichos e coisas, encharcou para valer o finado grotão. Tanta água que era até bom navegar, remar com canoa feita de árvore ubá, tchaaa! tchaaa!...
Já se sabia nadar e remar e pescar. Piavam entre os aguapés umas quantas caraúnas, biiiu! biiiu!... E cantavam e trauteavam os tachãs, qua-ri! qua-ri!... A ilha das Pedras Brancas cheia de verdes alecrins-de-são-josé, umiris, caetés-vermelhos...
No dia seguinte, um dia claro de sol, os índios tapimirim viram o lago a lagoa o mar de água doce e foram pescar. Já se habituavam com a profundidade e a amplidão das águas. Competiam nadando.
Lilás pensou, se um meteorito caísse no lago acabaria se estragando se sufocando se afogando se resfriando, frigindo, chiiiiio!... Por quê? Porque era muita água até mesmo para meteorito gigante de extração sideral.
Ainda bem que agora a tribo podia pescar muito peixe. Muita água e muito peixe se gostam. Ainda bem que agora a tribo tinha muito lugar para peixe proteína. Ainda bem que agora os tapimirim tinham muito espaço para nadar e tomar banho. Ainda bem que agora a tribo e as tribos vizinhas seriam especialistas no governo das grandes águas. Ainda bem que agora os tapimirim e seus vizinhos seriam grandes canoeiros. Ainda bem que de hora em hora aumentarão ainda mais as traíras e os bagres e os pintados e os lambaris e os dourados, mais preás ratões-do-banhado saracuras garças-brancas patos-selvagens, tuiuiús...
Rio imenso, imensa lagoa, bonita de se olhar, olhar as cores do pôr do sol do Guaíba. E também as lágrimas dos olhos de Obirici para sempre. Lago que reflete a lua, as estrelas, os astros, os cometas, as estrelas cadentes, as nuvens brancas. E ainda era rio largo, rio que imita uma baía. O rio grande fruto dos olhos doces doces de Obirici.
Obirici foi com o aguaceiro e nem mais voltou. Deixou no rasto o cheiro da flor dos aguapés.
O sol procura o sol, o rio procura o rio, as borboletas voam em pleno céu azul, os pássaros voam em plena mata verde, os rios que chegam correm entre os matos e as pedras, tudo um silvo natural, mio-mio-mio!... vem árvore cajazeira-de-fruto-grande, ilha da Pintada, ilha do Humaitá, ilha das Garças, aparece uma joaninha, aparece o papagaio-do-peito-roxo que imita repete os gritos e alardes que ouviu dos outros papagaios, creee!... sol acende uma fogueira branca, aparece uma acoaramuru, de onde vêm tantos rios?, joão-de-barro rindo a namorada respondendo rindo, te-re-rê!... vem planta alfavaca-de-cobra, uma família de emas descansando na sombra do angelim-araroba, casal de pintassilgos manchados malhados pintados, pis-te! pis-te!... já é só o começo, o lago ondeia nuvens com luz quente chegada recém-recém do sol azulado, etc.
Vem bem que o sol aparece. O fabuloso sol arrebenta o dia abre o sorriso desde a manhã no leste anacãs ou hias pelo ar em bando trocando de moradia, ri-ri-ri!... o sorriso doura o dia todo a manhã a tarde e a noite as árvores os pássaros as estrelas e a lua o lago a aldeia a montanha...
E a Lilás de sorriso de ponta a ponta das orelhas, a última palavra, falou:
- Como com que sorte eu gostaria de estar aqui, e estou.
Fim.