quarta-feira, 10 de abril de 2019

Obirici, a Lenda do Lago - 6 (juvenil)




Capítulo 6

1

            Depois dali a uns dias para outubro e novembro...
            Os índios mais velhos, as índias mais velhas, uns gostavam de mascotes e outros nem tinham mascotes. Todos os mais velhos da tribo se reuniam vez ou outra na tijupá das reuniões. Sentados no chão, nos tocos, nas torrinhas, ao redor de um fogo de chão. Eram umas cinco da tarde, e chuviscava lá fora, aquela boa tarde de sexta-feira.
            Participavam da reunião dos velhos e velhas da tribo, o cacique Jarivá; sua principal esposa, a Jarina, com seu mascote o maitaca Buriti, que matraqueava muito, creeê! creeê!...; pai de Upatã, índio Carandaí; a mãe de Upatã, a índia Carandá; pai de Obirici, o índio Guacuri; a mãe de Obirici, a índia Guarijuba; o pai de Uirá, o índio Taquari; a mãe de Uirá, a índia Sapupira, mais seu bichinho de estimação o preazinho Quebracho, que trincava os dentes, bim! bim!...; o velho pajé Conabi acompanhado de Piaçaba, tseee! tseee!... e do maracá, tretetê! tretetê!...
            No começo ninguém sabia o que fazer como fazer.
            Todos estavam em silêncio, pensativos, cansados, quase dormindo. Menos em silêncio, o Buriti, creeê! creeê!... E Buriti ainda nem sabia falar como gente. Menos outro em silêncio, o Quebracho, que falava consigo mesmo ou com as sombras, bim! bim!...
            Lá fora a boca da noite, a tardezinha avermelhada, esta tinha sons confusos. Podiam se ouvir grilos, cri-cri! cigarras, inhéeee!... passarinhos numa confusão de pios, pipipio! sisisiooo! criiieeê!... macacos guabiras gritando muito alto, uh-u! uh-u!... e também alguns espíritos da floresta, almas esquisitas, fantasmas perdidos e invisíveis, curupira, zu-zu-zum! mapinguari, tu-tu-tooo! anhangá-pitã, a-a-a-ah-ah-ah! boicininga-cascavel, siiiil-ve! siiiil-ve!...
            O cacique Jarivá tossia, tofe! tofe!... fumava seu cachimbo de barro, tossia, tofe! tofe!... pensava meio de cabeça baixa. De repente quis falar e ergueu os olhos os braços a voz. E disse, falando para o coletivo:
            - Eu nem sei de nada! - falou bem alto.
            O pai de Upatã, Carandaí, se balançou se agitou e também falou:
            - Eu menos ainda! - falou bem alto.
            A mãe de Upatã, Carandá, falou gritando:
            - Eu bem mais muito menos ainda!
            Então, ninguém sabia. Ninguém sabia tratar o problema. Ninguém queria errar no remédio do problema. E se existe o problema é preciso um remédio muito bom e eficaz.
            Era uma terça-feira, mas o tempo chato confundia terça com sexta-feira já de tardezinha. As árvores braúnas tinham flores, e também as alamandas-de-jacobina, capitiús, jenipapins... e as vespas cabatatus buscando doce colhendo doce.
            Outra vez os índios e as índias em silêncio pensativo. Buriti queria conversar com Jarina, creeê! creeê!... Jarina estava pensando outras coisas. Quebracho dizia coisas importantes na língua dele, bim! bim!... E lá fora um mundo fervia. Se ouviam latidos de lobo-guará, au-au-au!... pios de coruja caburé-de-orelha, o-oh! o-oh!... guinchos de morcegos, reee-che!... papagaiada de papagaios maitacas, craaa! craaa!... casais de gralhas-pretas brigavam em altos grasnados, creeeiii! creeeiii!... ali na árvore assa-peixe, lá na copa do cambucá.
            A reunião estava sossegada, morna, cansada, pensativa. Uns já dormiam. Outros ainda dormiam. Os que fumavam cachimbo ainda tinham o que distrair. Quebracho ralhava, bim! bim!... Buriti queria conversar as coisas, creeê! creeê!... E até assim uns índios e umas índias conseguiam cochilar, bater cabeça, pescar, ralar os olhos vermelhos de sono.
            O cacique Jarivá se lembrou de algum detalhe importantíssimo:
            - Velho Guacuri, velha Guarijuba. O dia que nasceu Obirici?
            A mãe de Obirici, a índia Guarijuba, respondeu:
            - Em meados de abril. Cinco meses cinco luas depois do último grande tufão que derrubou todas as nossas palhoças. Lembram?!
            O cacique Jarivá concordou. O cacique Jarivá renovou a pergunta:
            - Velho Taquari, velha Sapupira. O dia que nasceu Uirá?
            A mãe de Uirá, a índia Sapupira, respondeu:
            - Na primeira semana de janeiro. Um mês uma lua depois do último grande furacão que destruiu nossa aldeia. Lembram?!
            Então, estava decidido. Uirá era mais velha três ou quatro meses luas de Obirici. Uirá, assim, casaria com Upatã. E pronto. Tudo certo, tudo decidido.
            Tudo normal. Sempre fora assim. Que bom!
            Anoitecia. A natureza estava entre o azul o amarelo o branco. O céu arquitetava um arco-da-chuva. Bando razoável de papagaios-verdadeiros voava de volta pros matos de araucária.
            Muita coisa se fez e se deixou de fazer. Tempo houve, tempo foi, e de lá pra cá.
            A chuvinha passava uma limpeza no dia no mundo. Tudo muito curioso e enigmático. As árvores tinham mudado de roupa. Uma planta rara e oxigênica a uacoi-mirim. Uma anta parecia uma capivara uma cutia parecia um gambá. Uma paca contornou a paquevira e apareceu lobo-guará.
            O riachinho Jacuí os rios iam ao encontro dos outros rios ao encontro do que tinha de ir e vir. O rio tem sorte, a árvore tem sorte, algazarra de pássaros, algazarra de insetos, algazarra de rio descendo de cor e salteado em correnteza. Voavam aves em confusão. E todos as aves os bichos as plantas já bebiam o rio. E todos alcaçuz-da-terra jurubeba-de-espinho barbatimão samambaia-douradinha socozinho guigó tico-tico-do-campo... já bebiam o rio, e cada qual o seu rio.
2
            E o sol que caminha déu em déu e ao léu.
O bom das estrelas que são muitas. As estrelas mais disponíveis amigáveis mais perto das mãos. Com estrelas nem se brinca. Estrela por estrela a prioridade o principal está a estrela sistemática do sol. Um silêncio contemplativo pensativo organizado silencioso. Uma noite como esta estrelada com oportunidade de comer estrelas.
            Na melhor cor de céu com cor de nuvem, quando o sol encontrou a linha do horizonte, quando os pássaros fogo-apagou procuraram um banho de poeira, e se preparavam para pernoitar, foi aí, sem demora urgente, que apareceram surgiram brotaram milhares de bandos de carapanãs fabricados naturalmente.
            As pedras queriam esquecer o tempo e dormir dormir.
            Pois olha, Auí tinha conhecimento e conhecidos por esse mundo dos espalhados repartidos e distribuídos. Ela era da aldeia natural dos tapimirim, mas andara conhecer outras terras de índios e de brancos, os guaraio, os emeriom, os iuberi, os guaicuru, os arara-do-aripuanã, os suruí-paíter, os camacã, as cidades de Nova Xavantina, São Felipe, Buritinópolis, Porto da Folha, Igarassu, Cajueiro, a baía da Ilha Grande de Paraty, praça das Bandeiras, rua Pistoia, viajou por toda a extensão do rio Paraíba do Sul... A índia Auí era isso era assim. Gostara muito e recomendava a famosa e bonita Banabuiú. Sabia de histórias que começavam na aldeia potiguara e terminavam em Sorocaba. Lembrava muito a idade que passou em Serra Azul e rua Barão de Santo Ângelo. Seus hábitos continuavam os mesmos, e falando, ruflando, esticando o braço na vertical:
            - Meus hábitos continuam os mesmos, praticamente. E continuarão iguais ou parecidos com poucas mudanças, assim ou assado.
Dona Auí ergueu o braço e começou a contar as novidades, grugulejou:
            - Prestem atenção! É mais uma história sem fundo sem endereço sem nome. Uma história que começa no rio e termina na montanha. Uma história sem capivaras e sem jaburus e sem cricriós. O estilo de vida dos preás e raramente uns poucos preás andavam farejando por lá.
            “Agora eu digo. O rio sempre aceita o campinho do rio, sempre joga o jogo do rio, sempre acerta o placar do rio, sempre vence o campeonato do rio.
“Pois sim. Era uma época que os índios nem existiam e muito menos habitavam a terra a mata o rio o ar o tempo. A terra toda era dos...
“Isso mesmo. Muita chuva para vir. O mundo sonhando dormindo... Tudo dava saudade. Tudo tão longe e tão distante. Tudo desabitado. Os tapimirim nem estavam aqui, os trumai idem, os carajá também, os tapirapé, os camaiurá, os nauquá, os suiá igualmente nem. Tudo tão natural. Tudo tão quieto. O mundo só no começo. O planeta boiando no espaço. Assim era tudo ou quase nada.
“Podem aumentar vossas atenções! Assim era por toda a parte. O tempo podia ir como não ir, existir como nem existir. Acho que o tempo nem tinha dor de cabeça pra pensar tanta coisa ao mesmo tempo. O tempo nem tinha relógio de pulso. O tempo tinha tempo pra tudo e nada.
“Só no dia seguinte fiquei sabendo que o mundo já tinha acabado. Mundo sem eira nem beira ou ramo de figueira-de-lombrigueira.
            “Eu respondo. Era de dia naquela data e o verde da mata caprichava. Riscou um raio dois raios de uma vez todos os raios possíveis em bando. Os trovões ajudaram a terra tremer as pedras as árvores. Ninguém se apavorou porque não havia ninguém no mundo. Ninguém de olhos para ver e se arregalar. Ninguém nem ouviu nada. Ninguém nem me contou isso.
“Pois é. E a chuva começou a cair. Eu até tinha poderes pra contar os milhões de pingos os bilhões de chuva. Mas nem contei. Hoje me arrependo, hoje me arrependo.
            “Como ia dizendo. A chuva despencou dentro do mundo primitivo. Chuva selvagem. Trovões ribombantes. Chuva coragem. Ninguém ficou admirando a chuva porque nem havia ninguém na terra. O tempo nem podia ser calculado, talvez quinhentos mil anos atrás, talvez mais, talvez cinco milhões de anos atrás, talvez oito mil anos à frente. E a quilômetros e quilômetros daqui, de lá, de acolá.
            “E vou falar. A chuva tomou banho de chuva. A chuva alcançou rio montanha árvore e até as nuvens. A chuva alagou. As águas caindo e fazendo rio, rios lagos e outros lugares de água. A chuva chorando bastante, murmurando, “Vam’embora! Vam’embora!...”
            “Respondendo ao perguntado. Os meses foram de chuvas. Os anos passaram passando... mas o rio nem passou. O rio nem passou o vento não passou o tempo nem passou. Tudo passa, mas eles nem passaram porque não havia ninguém para passar, nem havia índio tapimirim, nem havia índio sapuiá, índio e índia quencatejê-canela, curuminzada nuquini ou índio marimã, nem havia branco morador de Tuntum ou de Piranguçu ou de Corinto ou de Juazeiro ou de Penedo, nem havia tal coisa, não havia japim-de-costa-vermelha, nem havia surubim, nem havia formiga saúva ou içabitu, nem havia quem apreciasse melancia-do-campo, nem havia nem caapora...
“É o que eu informo. Foi aí que o rio correu. O rio correu para imitar os rios que correm. Água com gosto de pedra fria ou mato ou flor de primavera. O rio e umas árvores. Águas correntes todos os dias dez vezes ao dia. O rio imitando os outros rios e nem se conheciam. O rio seguiu uma estrada feita de rio feita pro rio. O rio rebrilhando ao sol maduro. O rio com alma cheia de lua e de estrelas farejando o próprio rasto noturno.
“Digo mais para mais e melhor. Era bom sonhar um rio Maria Preta, o sol brilhando por dentro dos raios, o rio que desanda entre as pedras contorna as terras cresce no meio das plantas, begônias-de-folha-estreita, gerânios-brasileiros, amapolas, açucenas-do-campo, meruquiás, lírios-da-pedra... e fabrica cascatas açudes alagados remansos pra nadar com os peixes dianemas.
“Quem sou eu pra saber?! O sol subiu as alturas e foi horas e horas esquentar o planeta. E, então, por surpresa e por milagre e por acaso, meio-dia em ponto, Tupã apareceu. Ali perto do rio. Sobrevoou o rio. Se abaixou esticando o braço de mil quilômetros. Tupã cumprimentou o rio, “Oi, rio Piranga!” Foi fuçou e conseguiu tirar do rio uma pedra de oitenta quilos no mínimo. E a pedra, a partir daí, em vez de diminuir de volume e de peso fez o contrário. A pedra fez foi só crescer. Cresceu e se tornou ainda maior que um absurdo. A pedra cresceu se desenvolveu a perder de vista. O próprio Tupã botou a mão em pala pra ver debaixo do sol. A pedra ficou arisca e com o corpo afunilado igual de montanha.
“Ora essa ora aquela. Natural que o mundo era mundo antes mesmo de alguém andar ou comer ou beber ou saber ou nomear. O mundo era mundo por opção. E um cavapitã perguntou para uma orelha-de-onça que passava aí, indagou:
- O que é isto aí, hein? - pergunta do cavapitã apontando uma nuvem no céu.
- É o Pão de Açúcar, nem sabe?! - respondeu de imediato a orelha-de-onça.
- E como veio parar aí? Será que veio visitar os parentes?
- Pois ele é daí, tá!
Índia Auí vivia entre a aldeia e as cidades. Se vestia com roupas de branca e enfeites típicos da tribo, quando na cidade; de cunhã tapimirim e óculos de grau quando na taba com os seus parentes. Auí foi criada nos dois ambientes e conhecia os costumes dos parentes, estudou na cidade e conhecia lugares viajantes, Mariana, Pereiro, Salvador do Sul, ilha de Santo Aleixo... em todo lugar possível. Morou em Vale Real em a rua Moura Azevedo. Auí prosseguiu, tamborilou: 
- Quando uma goiabeira-serrana morre. A alma da árvore fica leve solta e se solta. E vai subindo quanto mais leve melhor. Chega e vai entrando em alguma estrela logo a primeira que aparece. Daria até para escolher preferindo cor tamanho altura posição braços pernas, mas nem escolhe. Toda árvore que vai para o alto vira gafanhoto quando quiser. E vai morar numa cratera que quiser da estrela que achar melhor. E nada nada a decepciona.
“Os índios xipaia plantam mandioca a vida inteira, os canamari plantam amendoim a vida toda, os tenharim plantam milho vermelho toda safra, os paumari plantam abóboras pela história afora, os diguti plantam mandioca a sorte inteira, os cariri gostam muito de cajus e plantam cajueiros, os txicão gostam de semear peixes na lagoa...
- Que lagoa, tia Auí? - pergunta de Acapu.
- Lagoa ou lago ou balneário, profe? - era Inhaíba.
- E de água doce? - a cunhantaim Puruuara.
Auí abraçou todos eles e acabaram rindo muito. Auí prometia trazer presentes e cumpria a promessa. Prometia contar história e contava. Tanto que nem perdeu o enredo, e miou:
- O rio desceu subiu desceu pelo seu leito, rio misterioso, rio em todo lugar. Pedaço de tronco caiu no rio foi ao fundo e virou peixe-boi. E o rio quis o caminho os quilômetros os lugares o centésimo vigésimo andar. O pacu de lenço vermelho no pescoço, veste amarela com lista preta, nadou em diagonal do fundo para a superfície. Peixe comendo vegetais aquáticos respirando água para fazer outros peixes. E os peixes surgiram em cardumes e peixes. Tinha tracajá tinha arraia-de-fogo. O grande rio fez tudo igual como o primeiro rio do mundo. Tudo direito em ziguezagueio. Rio enorme feliz como bando de rios satisfeitos como rios com corredeiras e cascatas. Assim, muitos bichos vieram se banhar no rio. Naquele dia nem deu tempo de todos beber o rio. Faltou luz. E chegou a noite e alguns tiveram de beber no escuro. Mais outros tiveram sede durante a madrugada e foram beber assim mesmo. Por fim, o rio morou em companhia de muitos peixes bichos aves de gargalhada estridente plantas, guabirobeira, caroba, ibaviú, jarrinha-batatinha... tão legal que só vendo.
“Os dois primeiros meses passaram rápidos. Um dia bonito, 27, um mês jovem e esportivo, março, um ano sem muito ti-ti-ti e renovado, 1998, o sol, mãos nos cabelos, passando pelas 14h e 20min. E o sol foi muito forte nos dias 26 a 30. Fazendo rebrilhar o rio as pedras as árvores o casal de bem-te-vis-de-gamela. E os dois pássaros conversaram. Em breve acharam graça e se abraçaram e se beijaram no dia de sol. E sem lema sem problema sem dilema. 
“Quando nem mais que de repente. Se passaram estações meses décadas ventos rios e o caso foi esquecido.”
A dona Auí parou de falar. Pensou outras coisas. Nem disse nada mas pensou. Saudades dos lugares que ainda nem conhecia e que conheceria, Felixlândia, Pedro Leopoldo, São Sebastião, Divinópolis, Pedro Afonso, praça Mauá, aldeia dos machineri, reserva dos caiapó-aucre, o território dos bará-tucano, o rio Uaupés... como conhecer Belo Horizonte as ruas velhas conhecidas travessa dos Venezianos de BH o Mercado Público de Beagá o parque Municipal de BH as lindas quase desertas praias de areias brancas branquíssimas de Belô.
Na manhã haveria sol rio pássaros e árvores uniformizados. E o arlequim-pequeno disputando flores com abelhas e borboletas.
Sim, os raios de sol cruzados de cores quase que driblaram as folhas ramadas. Os pássaros gorjearam camuflados, crejuás, inhambus-pretos, bem-te-vis-de-coroa, japués, pintassilgos-da-mata, coroinhas... Os raios de sol e apareceram gritos de maritacas em bando. 
Como de costume, como de dia de sol, Auí falou de flores, violetas-do-mato, cravos-do-mato, cravinas-do-campo, begônias-sempre-florida... elogiou a beleza, a fragrância, o dia claro de setembro, a doçura de cada qual.
3
Um dia tinha que acontecer. Um dia tinha que acontecer? Por que que tinha que acontecer um dia? Porque tinha que acontecer. E aconteceu. Aconteceu dentro de um certo dia. O destino apronta dessas coisas. E a sorte ninguém segura. O rio pega o seu caminho, desce pedregulho abaixo.
            A natureza estava tranquila. E um sol mais que muito quente. Árvores vestidas de verdes amarelos azuis bonitas complicadas altas belas e algumas bem floridas de época.
            O sol apareceu na manhã de curicacas e joões-de-barro e pica-paus-dourados. Isso sim que foi milagre! O dia todo para funcionar as coisas, o riachuelo Jacuí, as mumbacas, os capixins, as iaiás-de-cintura... O dia nascendo na manhã festival.
            Depois, o dia voltando do capão das pitangueiras, os embornais cheios de pitangas, Upatã com Obirici do lado direito e Uirá do lado esquerdo, vinham também mais índios e índias jovens, quando, e já chegando na aldeia, ficaram todos sabendo quê; o cacique falou para todos ouvir, destampou:
            - Upatã é noivo de Uirá. Uirá é noiva de Upatã. E vão casar dentro em breve, na primeira lua cheia. Prometidos. Pronto, falei!
            Obirici nem acreditou no que acabara de ouvir. Uirá acertou acreditar no que acabara de ouvir. Os velhos da tribo tinham decidido que Uirá desposaria Upatã, Upatã desposaria Uirá. Desta vez, Obirici estava do lado direito de Upatã. Obirici nem acreditou, deixou cair o pote cheio de pitangas, os cabelos arrepiaram, o coração tremeu, as pernas amoleceram, caiu ela mesma no chão, rolou na grama, caiu para trás e desmaiou, ton-que!...
            Um amarelo de tarde escorregava para um céu quase no horizonte. E logo o sol virou palmeira jataí. A palmeira viu as horas se juntarem às horas e fazer os dias, os dias aos meses, os meses foram ao longo do ano. As banisteriópsis viram tudo isso passar. Se passaram dias e o caso foi pendurado para secar.
            Quem nem foi feito para esquecer nem esquece jamais.
            Aquele verão foi muito quente, aquele inverno foi muito frio. Quando o verão é muito quente, o inverno é muito frio e chuvoso. Quando chove pouco no verão, chove muito no inverno. E aquele ano a canafístula floriu abundantemente bem antes da enchente.
            Obirici era outra pessoa. E Obirici viu que a melhor amiga, a Uirá, não era mais sua melhor amiga nem de longe nem de perto. Obirici viu e comprovou que Uirá era agora melhor e única amiga de Upatã. E Upatã era melhor e único amigo de Uirá. E Uirá andava de mão no ombro de Upatã, tanto do lado direito como do lado esquerdo. Obirici nem queria ver, mas olhava Upatã com Uirá e Uirá com Upatã. Aonde um ia a outra acompanhava. Onde um estava a outra aguardava. Obirici via muito claramente, não queria ver, nem queria olhar, mas via claramente que Uirá era a sombra de Upatã. Upatã caminhava e Uirá o seguia como sendo um bicho de estimação. E dividiam risos, e dividiam frutas boas, e dividiam pedaços de caça, e dividiam a mesma sombra para descansar, e tomavam banho juntos íntimos no rio. O casal se via se entendia pelos olhos. Um admirava a outra, uma ouvia atentamente o outro.
            Era como se Obirici estivesse noutro mundo. Estava noutro planeta com certeza. E via embaçado, e ouvia confuso. A cabeça entortada sobre o ombro esquerdo.
            - Por que ela e nem eu? Por quê? Por quê?
            Quando Upatã atravessava o pátio da aldeia, Uirá o acompanhava. Uirá com a mão esquerda no ombro direito de Upatã. Quando voltavam pelo mesmo pátio, Upatã vinha puxando Uirá que segurava o seu ombro com a mão. Obirici olhava tudo isso, não se conformava, nem queria pensar, mas pensava, e olhava cada vez mais. Sentia profundamente o estômago, o vazio no estômago. Como se levara joelhada na boca do estômago. Então, caía para trás, ton-que!... rolava no chão, perdia os sentidos, desmaiava, entrava em transe, despenteava os cabelos, se cobria de cinzas, se arrastava na poeira vermelha, nem queria mais se levantar, preferia viver como arara-azul-pequena entocada no oco da árvore ou suindara escondida na caverna.
            Ideia fixa era bom e era ruim.
            Upatã era de Uirá. Uirá tinha Upatã. E isso Obirici não queria acreditar. E nem acreditava. E só acreditava vendo com os próprios olhos. Obirici achava que estava vivendo um longo e prolongado e horroroso e difícil pesadelo. Se sentia envenenada por cobra cruzeira. E se perguntava a todo instante, batendo com o punho fechado na testa, mordendo os lábios:
            - Por que escolheram Uirá e nem Obirici? Por quê? Por quê?
            E Obirici pensava e falava olhando sua imagem refletida no espelho da água. Pesava diversas coisas impossíveis. Também estendia os braços abria as mãos as palmas viradas para cima os olhos no céu. E falava para si ou para o além ou para o aquém:
            - Por que Obirici nem mereceu casar com Upatã? Por quê? Por quê?
            Assim, Obirici vivia os seus dias logo após a divulgação do acordo de casamento entre Upatã e Uirá. E Obirici existia muito mal. E Obirici queria desaparecer. E Obirici queria virar qualquer coisa, e qualquer coisa desumana, para não mais sentir o coração, para nem mais sentir aquele desprezo. Queria ser uma árvore e viver de vento. Queria ser uma preá e viver no meio das ervas amendoeiranas e cauaçus da várzea. Obirici pretendia viver como cuxiú-de-nariz-branco ou codorna-buraqueira.
            Os dias eram longos enormes desertos para Obirici. As noites eram longas desertas silenciosas para Obirici. E Obirici via que os dias eram curtos para Upatã e Uirá. Obirici via que as noites eram agradáveis e curtas para Uirá e Upatã. Obirici dormia sozinha na rede. Upatã fechava os olhos quando Uirá fazia cafuné. Obirici cuidava pensativa pensativa as estrelas pequenas ou médias ou grandes da noite. Uirá nem cuidava de estrelas, cuidava de Upatã. E Upatã cuidava de Uirá. Sendo assim, Obirici sentia um forte golpe na boca do estômago e caía de lado no chão, ton-que!... Caía já desmaiada... tooon-que!...
            A aldeia era muito pequena para comportar, junto e no mesmo espaço, a pensatividade de Obirici e a jovem felicidade do casal Upatã-Uirá. E todos os dias Obirici via os dois pombinhos para lá e para cá. O casal de pombas-rolas se merecia. Uirá e Upatã pareciam, e às vezes eram, um casal de guaracigás, um casal de araras-grandes-vermelhas, um casal de tesouras-cinzentas. Obirici sentia o soco na boca do estômago, caía, ton-que!... não via mais nada, rolava no chão, comia terra, totalmente desmaiada, nem tomava mais banho. Obirici pertencia ao desejo de existir como uma árvore mangabeira ou canela-sassafrás, uma anfíbio sapo-folha, uma peixe sapipoca.
            Um dia Obirici, quando estava no alto da pitangueira mais carregada do pitangal, ouviu vozes e conversas e risadinhas. Olhou o chão e viu passar, muito namorados, viu passar Upatã e Uirá. Upatã seguia na frente, marchando, e Uirá atrás, segurando seu ombro. O casal passou por debaixo da pitangueira, não a viu no alto, nem olhou para as bonitas pitangas coloridas de vermelho e amarelo, continuou seu rumo, foi bem para lá. Mesmo assim, Obirici nem aguentou, se sentiu mal, levou um chute nas costas, um soco no estômago, caiu do alto da pitangueira, tooon-que!... e quase se arrebentou toda.
            Na sanguinha, Uirá nadava puxando a perna de Upatã. Obirici olhava da margem, sentada numa laje, atrás das moitas de cuaxinguba. Obirici sentia mais nada. Ouvia mais nada. Mas só sentia mesmo uma dor no peito e o estômago magoado. Obirici caía no chão desacordada, tooon-que!... Estirada estendida no chão deitada de comprido com as mãos segurando a dor no estômago. E Obirici nem queria mais nada do mundo.
            O dia estava esfuziante. No chão rasteiro passou uma sombra, no alto por dentro do sol, rasgou, pieeeéu!... um pio de falcão-de-peito-vermelho. Emas e filhotes de emas comendo da fruta-de-ema. As cores tinham idade, e o verde era novo e o amarelo era maduro. Uma tropa de cutias comendo da fruta-de-cutia. Algumas juritis-purus voaram para os rumos os lados as bandas de Minas Gerais ou Espírito Santo. Que saíra-amarelo curtindo o dia claro, etc., ex. O sol subiu nas curuatingas de cachos amarelos e cantou território em bem-te-vi-do-campo, e-viiii! e-viiii!...
4
            Céu noturno muito espacial. Céu muito estrelado, lua rara, Lilás procurando a estrela ou planeta ou galáxia da sua preferência. Ali na aldeia tapimirim tudo cheirando a ruídos da noite, tu-tu-tu!... pios de caburé-do-campo, vu-uh!... voos e chiados de morcegos, se-se-sê!... árvores na sombra, vaga-lumes, o pio, buuuu! buuuu!... do nambu, ou ave parecida, mosquitos borrachudos, zzzzzz!... muitos sapos e jias na orquestra do capim-gordo, cro-á! cro-á!...
            De onde estava, sentada no chão, Lilás mesma contava e perdia a conta do número das estrelas. E nem encontrava o seu país. Perguntas sobre perguntas. Mas também eram muitos países. E também nem tinha pressa.
            Auí chegou perto dos curumins e cunhantains ali à beira do fogo. A índia Auí falava de uma estrela e dizia o nome. A índia vivia na cidade e conhecera as tradições do mundo todo, nem só dos tapimirim. Cabeleira uma alta uma farta uma quente uma castanha. Visitara viajou por dentro e por fora do país, Salinas da Margarida, Paracambi, São João da Barra, Aracoiaba, Planaltina, Maruim, Igreja Nova, Serrana, navegou no rio Potenji, tribo dos craô, aldeia dos waurá, foi longe, foi alto, subiu serra do Cipó, viu a cachoeira do Tabuleiro, o monte Jaraguá, a ilha da pedra que canta Itamaracá... estação ecológica do Tripuí... em Conceição do Almeida na rua Pinto Bandeira. A noite estava agradável para uma história comprida. Auí esticou o braço esquerdo assim para o alto e começou com a narrativa, a poranduba, destramelou, piou:
            - Dois meses, pouco mais ou menos, já passados desde que o rio se enchera de chuva e corria o seu caminho de rio. Rio limpo e rio límpido e transparente.
            “O rio vai e volta. Todos os rios são assim. O rio fica e vai e volta. Todos os rios são desse jeito. As chuvas se acostumam e, daí em diante, voltam e caem assim de vez em quando. O rio vai e volta a cada dia a cada mês a cada temporal a cada ano a cada século.
            “De manhã o rio é azul, de tarde o rio é amarelo, de noite o rio é branco com pontos de luz.
            “O rio pelo menos faz o tempo andar. O rio o tempo o vento são três irmãos pescando à beira do rio, pescando com suruiás, pescando matrinxãs biribiris carás mandins tabaranas...
            “E o rio caminha todo sempre por dentro do rio, o mesmo caminho de sempre e nem tem do que se queixar. Rio de pele de vidro rebrilhando ao sol.
            “Pois o rio, diz: - Capais!
            - Dona Auí, a senhora já conheceu o riacho Pirajuçara? - pergunta de Tatajuba. Dizem que passa por dentro de cidade e alaga cidade nas cheias nas grandes chuvas...
             - É verdade. E o rio é sempre o mesmo rio. E o rio vê tudo. Vê a paisagem nas margens do rio. Vê por dentro do rio. Cada coisa que vê pega para si. Leva o que encontra pelo caminho. Bem manhoso e cheio de mumunha, quer tudo o que vê. Quer uma duas três vezes o que já tem. Tudo é importante para o estômago do rio. Principalmente o rio gosta de espelhos e vidros e perfumes, tudo que brilha e dá cheiro e cor ao rio. Rio cheio de curiosidades e novidades e lembranças.
            “Pedra fria pedra lisa pedra verde pedra dura tanto bate até que fura! Quem já nem foi rio nesta altura da sorte?!
            “Assim, o rio desce e volta vai e vem só para buscar reencontrar quilômetros de coisas e objetos e presentes. Longo e largo, o rio é orgulhoso de mundos e fundos.
            “O famoso rio, diz: - Capais!
            “Nem só é capaz como líquido e certo e sendeiro.
            “O rio cintila bonito sempre mais longo que a sorte do próprio rio. Os rios mais importantes navegam naquela região, naquela direção, rio das Velhas, rio Jequitinhonha, rio Pelotas, rio Sarapuí, rio Benevente...
            “Corre ou anda por entre a mata ciliar exuberante, malva-rosa, peúva, marajá-do-igapó, pindaíba-vermelha, bananeira-do-mato... Pega força máxima nos meses de abril e maio. Pula pedras troncos caídos cascatas e corre e sorri correnteza.
            “Na noite o rio faz uma espécie de silêncio e carrega a lua nas costas. No dia o rio gargalha e quebra espelhos no sol. Tem memória líquida. Faz tudo que quer e possui a força que pode mover uma cidade duas cidades, Aloândia, Carolina, Barra do Garças, Itacajá... Nem sabe que empurra tanta vaidade. Banha a cidade de Marques de Souza.
            “Mas o rio é o próprio moço o próprio rio a própria moça o próprio boto-cinza o pirajaguara. E quem te viu e quem te vê.
“Rio para onde vai de onde retorna. E rio que sabe que desce que chega até o mar. Rio que é dia e é noite. O rio que vende peixe e compra farinha de milho. O mesmo rio que tem cachoeira possui navio. O mesmo rio que tem nome, por exemplo Cristalino, por exemplo Coliseu, leva destino destinos.”
            Menina Lilás, duas tranças amarradas nas pontas por dois laços uma fita lilás e outra fita verde, ergueu a mão e falou pediu para a índia Auí:
            - Tá certo, tia Auí! Conte uma história de cavalos e nuvens.
            - Sim, dona Auí! Conte desta vez a história das “Cem Noites Tapuias”, faz favor - solicitou Tapiá.
            - Pois sim, profe Auí! Conte uma história com com com onça-pintada e jiboia e harpia - pediu Acapu.
            - Ora, dona Auí! Conte a história da cunhantaim que virou planta maniva - insistiu a cunhantaim Tatajuba com seu esperto amiguinho sagui Capeba enrolado no pescoço.
            - Tem mais, amiga Auí! Conte história como “A Mina de Ouro” - lembrou o curumim Caxim.
            Em vez de responder contando uma história mirabolante, a índia Auí falou assim, perguntou:
            - Olá, olá, curuminzada! Para onde vocês mais gostariam de viajar, se fosse bem possível? Querem ir a Uruguaiana, São Borja, Marau?
            Era tudo o que eles e elas mais queriam responder falando e brincando e sorrindo, a guria Lilás foi dizendo:
            - Seria ótimo passear de barco de trem de avião até Japoatã, Aquidabã, Timon, Guarani, hein?!, que acham?!
            - Vamos, podemos ver visitar? a aldeia dos catuena - ideia de Ariri.
            - Eu quero ir até a distante cidade localidade de Serinhaém e depois continuar até mais Lucélia e Salesópolis - preferência de Tatajuba, o mascote Capeba sentado no ombro.
            - Bem melhor e mais bonito conhecer de perto a Camumu - desejo viajeiro de Caxim.
            Índia Auí ouviu com sorriso todas as propostas de viagem e achou boas e ainda somou mais e mais aumentando ampliando o tempo o espaço o futuro. E tiquetaqueou:
            - Certo dia, na beira da estrada BR-470, paramos a excursão na porteira de um sítio dentro do município de Pitangui. Paramos diante de uma vaca malhada de branco e vermelho leiteira e tiramos selfies, é. Com a mãe-vaca e os filhotes-bezerrinhos, meeeé! meeeé!...
            - Eu também gostaria de morar lá em o forte de São Tiago das Cinco Pontas - observação de Acapu, que ficou olhando o espaço olhar aéreo embarcado longe longe...
            Lá fora, na vizinhança, um pássaro assoviou avisou na japaranduba. Ou poderia ser a árvore imitando um japuaçu, fiiié! fiiié!... Um tucano-gritador entre os ramos da árvore imitando um macaco-aranha imitando um tié-galo, prrri! prrri!... empoleirado nos galhos da cavitinga.
5
            No dia seguinte saíram todos os curumins e as cunhantains para buscar butiás no butiatuba. Dias e dias quentes por demais. Passarinhos brincando, a corruíra, ireee-trotrotrotroeeê!... o coleirinha, piste! piste!... voos para cá e para lá, os peixes pulando no remanso do riozinho, blupe! blupe!... cunhantaim Tatajuba, sagui Capeba no colo, nique! nique!... suspirou e disse para todos ouvir:
            - Ora! Se se comparar o papagaio-da-cara-roxa com os outros papagaios, ele é bonito; se se comparar o sabiá-tropeiro com os outros sabiás, ele é mais ou menos lindo.
            Vento leve com o vento leve nas manhãs feitas de ouro ouro. Um pássaro talvez um trinca-ferro, tin-uii! tin-uii!... comia a fruta de araçá limpava o bico no galhinho olhava precavido opinativo sempre toda vida muito leve brilhante ao vivo ao sol.
            A curuminzada sacudia a guabirobeira, entortava os galhos mais leves das guabirobeiras mais jovens. Descobriram embuás debaixo de um tronco podre de guamirim. Lilás já acostumada com o comer de insetos e larvas e tudo que se mexia.
            Jovens guerreiros foram buscar tronco de ubá para fazer canoa. Obra de muitos dias. Apitos de taquara, chocalhos de coquinhos, flautas de osso, trombetas inúbias feitas de casca de árvore. Os índios sabiam olhar a mata, ouvir a mata, descobrir as coisas novas. Bicho que se esconde, bicho que voa, bicho que foge, bicho que se espanta, bicho que finge de morto, bicho nas frestas e fendas das pedras, bicho carregado pelas formigas tracuás, bicho verde que se esconde no verde com verde, passarinho que canta imitando o alferes, sio-sio-sio! sio-sio-sio!... Um gavião-carrapateiro crocitou no galho da catanduva, inhéee! inhéee!... pendeu a cabeça para um lado, pendeu a cabeça para outro, os olhos mirando os invasores, depois voou gritando, inhéee! inhéee!...
            Era tão bom a curuminzada ali que parecia que o mundo tinha sido feito naquele lugar naquela hora com aqueles os seres vivos e pacatos e mais nada.
            As árvores em geral ali na mata, brincavam no meio da correria dos ventos. Os ventos vinham de, de onde?, de longe, vinham soprando e bufando desde Novo Barreiro e Santo Antônio de Jesus e Barra Funda... vinham suspirando e batendo os dentes as asas, vvvvuuu! vvvvuuu!... vinham trazer sementes, soprar flores e derrubar frutos, iam para onde, até Arapeí e Nova Boa Vista e área indígena tucuju... Certos frutos caíam na água e os peixes consumiam, jaraqui, tambaqui, traíra, cascudo...
            Dias certos e noites certas, certos dias do ano, os índios esperavam as manadas de porcos-do-mato. Os porcos-do-mato vinham pelas trilhas de taiaçuapés. Então, os índios tapimirim esperavam com todo tipo de armadilhas e camuflagens. Era praxe.
            Pajé Conabi na palhoça dos espíritos largando fumaça do cachimbo de barro. Piaçaba, tseee! tseee!... mastigando pedaços de abóbora cozida. Pajé invocando espírito Caruana. Espírito do fim do mundo para o bem e para o mal. Espírito sobrenatural para levar embora as doenças e as dores e os dias de seca na aldeia.
            O feiticeiro tapimirim ouvia e sentia os espíritos invisíveis. E esses entes conversavam mesmo e de verdade com o pajé. Sobre todos os assuntos, vários assuntos, assuntos de doença, assuntos de boa caça, assuntos de dias bons e épocas boas. Assuntos de chuvas, e verões, e invernos. Espíritos envolvidos na fumaça do cachimbo. Espíritos sagrados que chegavam ou partiam chamados pelo maracá, tretetê! tretetê!... Perguntava o pajé:
            - É hoje ou amanhã, o acontecimento o acontecimento?
            - Aguarde mais uns dias ou mais umas horas - dizia o espírito sobreposto.
            Os espíritos sempre têm muita força para soprar longe as doenças e dores de cabeça, dores de barriga, febres altas, soprar o mal e o ruim e a caruara para bem distante dos índios. Os ancestrais avós e avôs saíam do cemitério, subiam lá do fundão do grotão, entravam pela tontura do pajé. Os espíritos passeavam na fumaça do cachimbo do pajé Conabi. Os espíritos radioativos dançavam o poracé da tribo. Os espíritos entravam pelas orelhas e olhos e saíam pelo nariz cheio de fumaça do xamã. Velho Conabi todo-poderoso com a ajuda do caruana.
Depois a lua tão perto, tão grande, tão baixa, tão bichada. Ovo da floresta, ovo do campo, ovo da capoeira, ovo do pedregulho, ovo do grotão. Ovo da garça-branca. Ovo da onça-preta. Ovo com lua, lua ou ovo.
À uma hora do dia tal, o pajé foi para o mato alto, Piaçaba debaixo do braço, tseee!, tseee!... foi para o campo aberto atravessou alagados e banhados infestados de gravatás e pios de quero-queros, que-que-qué! que-que-qué!... A tatuagem do braço se soltou bateu asas o gavião-pinhé voou rodou alto aéreo, ieeeé! ieeeé!... sombra arrastando no chão. Lá para as bandas e partes de um lugar chamado serra da Fartura. Dias que o tempo apagou os dias. Depois, depois regressou para a aldeia muito depois.
O pajé tinha aventuras perigosas e secretas espirituais, uma vez.
6
            O dia seguinte foi um sábado ensolarado, mas muito mais na parte da manhã. Sol disse a todos ali presentes juntos reunidos, começou falando:
            - Vocês...
Ninguém sabia o que rodava por dentro da cabeça de Obirici depois do vexame de perder Upatã. Perdeu Upatã para a melhor amiga, ex-melhor amiga, Uirá. E Obirici nem queria mais nada. Não tinha mais futuro. Nem tinha mais passado. Não tinha mais presente. Pretendia ficar viver para sempre como pé de pessegueiro-do-mato. Nem tinha nem ideia fixa. Não tinha ânimo para erguer os pés do chão. Nem tinha nada. Andava parava ia não ia, como uma sonâmbula. Queria continuar daí em frente viver como uma palmeira açaí-chumbo.
            A pacífica e bonita Obirici queria fazer milagre? Queria encher o cesto o poracá de peixe e provocar uma festa do peixe na aldeia tapimirim? Queria subir até Jaci e pedir uma estrela de presente? Queria ser um besouro serrador? Queria ser periquito-de-asa-azul e viver em bando pela mata?, craaa! craaa!...
            - Nem quero mais ser chamada de... O-bi-ri-ci! - era o que murmurava de vez em quando, testa franzida.
            Obirici chegou no tronco da árvore, e abraçar. Estava se sentindo muito mal esses dias semana semanas. Não queria mais nada. Nem queria mais comer e beber e cheirar as flores da flor-da-esperança. Nem queria mais dormir. Não queria sair da rede. Não queria ajudar a mãe a ralar mandioca. Nem precisava de ninguém. Não queria parar de andar andar andar... Nem acreditava mais nada em Tupã. E muito não nada nunca... para nem reviver.
            Naquela tarde Obirici espiou da palhoça onde ela mesma morava. Olhou o pátio. Debaixo de um pé de anani, Upatã e Uirá conversavam. Uirá com a mão no ombro de Upatã. Upatã fazendo miçanga para enfeitar o pescoço de Uirá.
            A algazarra das avezinhas aumentava ainda mais a claridade do dia. E araçari-castanho casquinou para o mundo ver e ouvir, qua-qua-rá! qua-qua-rá!... Tudo ali aprovado aprovado.
            Então, Obirici saiu fora e foi andar andar andar... com perguntas com dúvidas. Saiu andando para o campo, rumo do grotão, meio que por acaso, sem destino, sem respostas, arrastando os pés descalços. Fez que ia fazer xixi e pronto. Talvez nem voltasse mais. Sempre o vazio no estômago. Sumiria no mundo. Ia mesmo virar numa árvore arisca tipo marimari.
            Obirici com tudo incompleto, coração incompleto, olhos incompletos, olhar incompleto, todo o corpo incompleto. Um vazio único e muito grande dentro dela mesma. Ela viu a árvore alta, subiu na alta taxizeiro, subiu no mais alto da árvore alta, quase bem no alto do último andar. Quase no lugar bem alto do gavião-carijó, crite! crite!...
            Soprava um vento chato ali pelo alto. Vento que vinha do mundo todo. Vento que rodeava os montes e morros e coxilhas, vinha do sol, levantando poeiras e folhas secas, vinha do riozinho, cheiro de água do riozinho, vinha da capoeira, aroma de flores doces e amarelas, algumas comestíveis, sumarés-do-campo, petúnias, piaçabas-bravas, caneleiras, copaíbas, poejos, jatobás-do-campo, porangabas...
            Obirici desceu da árvore gigante. Lá ia ela para a beira do riozinho, lá ia ela de pedra na cabeça, lá ia ela para sentar nas lajes, lá ia ela brincar com os peixes, blupe! blupe!... lá ia ela mergulhar na noite das águas, tibum!... lá ia ela sentar nas pedras da beira do riozinho, lá ia ela ouvir os sapos-ferreiros coaxar, croooi! croooi!... lá ia ela conversar sozinha, lá ia ela sentir dor no vazio da barriga. Brincou de passar a mão suavemente os dedos suavezinhos na pele calma do riachuelo.
            - Meu nooome é... rio Jacuí - disse o riachinho Jacuí.
            E de repente Obi-rici começou a chorar alto e mais alto e forte e como se fosse uma fonte brotando forte do seu coração maduro, soluçando, fu-fu-fu! fu-fu-fu!...
            Raios chicotearam o céu flechas de fogo rabiscos elétricos com rugidos de trovões, tru-tru-truuu, tru-tru-truuu!...
            Um dia que começou a chover e ela Obirici a chorar sem parar sem parar...
            Obirici fugiu. Correu, se espalhou, correu se esconder no meio dos gravatás. Cruzou três ou quatro sumidouros, ouviu jacaré-de-papo-amarelo assobiando, fiuuu!... atravessou riachinho Jacuí com água na cintura, uma cruzeira lhe fechou o caminho na trilha do matinho, chuva na cabeça, foi seguida horas e horas por onça-parda, urrrrrro!... passou na porta da gruta da encantada teiniaguá.
            Várias vezes, muitas vezes, todas as vezes necessárias, em rabiscos, em relances, os relâmpagos riscavam o alto o escuro, e vinham trovões, trooou! trooou!... sacudindo tremendo abalando a terra agitando todas as plantas. Chuva em cordas murmurante muralhante cantante, etc., ex.
            E ela Obirici perdera já toda a alma chorando chorando. Se passaram dias e mais outros dias de chuva intensa. Noites e dias correndo pelo mato, no campo, se espinhando toda e sendo seguida por bichos devoradores, predadores, exterminadores, destruidores, aniquiladores...
            Foram caminhos, caminhadas, subidas, esconderijos, atoleiros, chuvaradas nas tardes, chuvaradas nas noites, bolhas nos pés, sustos, correrias, espinhos, carrapichos, ruídos ocultos nas sombras, tiuuu! cruuu-ê! pu-que! pu-que!... tooooim!... papagaio-de-cabeça-amarela gritava, criiia! criiia!... noites sem lua, resfriados, espirros, noites de lua uivante, ui-ui-ui!... chuva por remédio, água até a cintura, caminho alagado, chape! chape!... lobo-guará uivando, au-au-auuu!...
            Obirici índia pôs as duas mãos na boca. Rosto de lua cheia, cabelos da noite, olhos da noite, enxurrada que brotava dos seus olhos dos seus olhos cara lavada lavada.
            Para onde estava Obirici? Aonde ia? Aonde queria chegar com tanta água? Água até a cintura nem sabia se nadava ou se morria afogada no próprio choro. Chorava tudo por tudo muito muito.
            A chuva continuava a cair em fios em cordas em tranças grossas chuva fechada com pressa pesada e com barulho, chuuuá! chuuuá!...
            Outros dias e outras noites sem sossego. Chuvas o dia todo os dias e mais fortes sempre nas tardes. Os bichos predadores a seguiam, a acompanhavam, famintos de língua de fora babando riscando o chão com as garras afiadas. Os bichos perguntavam ofereciam propostas mostravam os dentes uivavam se irritavam bramavam sacudiam as árvores molhadas:
            - Vamos parar com essa correria na chuva, ru-tu! ru-tu!...
            - Deixe segurar a tua mão, rém-rém-rém!...
            - E tenha aqui o meu abraço, tá-tá-tá-tá!...
            - Por que chorar tanto do perdido por perdido e meio?, rum-rum-rum!...
             A cunhantã atravessou a noite as noites e de lágrimas, desceu ao fundo do perau. Chegou ao fundo fundo do grotão toda vestida de barro vermelho e se sentou na pedra perto do cemitério dos avós. E chorando sem parar. E chorava como nunca. Passava o dia e a noite se lamentando no meio do cemitério. E chorou como chuva. Os barrancos nem se aguentaram e desmoronaram. Obirici derramou lágrimas copiosas, chorou o de chorar. E chorou o que Tupã mandou. Chuva até os ossos. E chorou ainda mais o que Tupã nem mandou. Chorou e choveu o que já nem cabia.
            A índia Obirici esquecida do mundo, sumida da taba já há alguns dias, algumas semanas, perdida da tribo tapimirim. Abandonada à própria sorte. Sua sorte. A sorte que ela buscava afogar. Dias de chuva sem descanso. Chuva vento frio inverno e enchente e enxurrada. Céu se derretendo, paredões da cratera virando pura paisagem de cascatas, cachoeiras, toboáguas, e o chão virando alagado banhado lagoa.
            Obirici era uma fonte de água chorando com chuva selvagem. Brotavam muitas águas dos seus olhos dos seus cabelos. E águas sem fim. Tudo pingando, as mãos, os braços, os cabelos pingando, as folhas das árvores. Águas do tamanho e da profundidade de um lago. Estava dentro das águas. Águas da cor da terra vermelha do grotão que ia sendo tragado. Águas verdes dos campos alagados. Águas longas dos longos cabelos negros como rios caudalosos. Chuva que chovia despropositadamente. Águas pretas dos olhos negros cheios de nuvens baixas e pesadas.
            Os pingos de chuva caíam na cara dela Obirici e a deixavam derretida muito encharcada se derretendo. E desde o início desde sempre. Olhos duas bolsas de água que nem permitiam enxugar. Chuva cada vez mais forte. Água até a cintura e subindo. Enchente como nunca se viu, onde se viu!
            E a água foi subindo os barrancos do grotão. O grotão enorme foi enchendo de lágrimas amontoadas empilhadas e dias e dias de chuva. A água que explodia dos olhos de Obirici ia enchendo o grotão e causando grave erosão. Os bichos do fundo do cânion já viravam em peixes de água salgada ou doce. Pássaros do fundo do grotão, psiiii!... pinhéee!... que-que-qué!... ensopados, surpreendidos e afogados em tanta água, viravam peixes de água salobra, jundiá, mandi, pacu, poraquê, blu-blu! blu-blu!...
            Obirici chorou o que nem parou mais de chorar. Tromba de água sem fim. Onda varrendo tudo, arrancando tudo, carregando troncos, enchendo o vale, derrubando barranco sobre barranco. Água gorda, lago engordando, cobrindo todo o buraco do fundão. Rio de choro, cascata de lágrimas grossas. E rios enchendo e despejando ali no valetão valão.
            Houve uma semana que chorou tanto tanto que o riacho virou rio corrente e a enxurrada a arrastou ela Obirici para o lago. E as águas continuavam nem paravam mais de crescer. Um mundo de água, glu-glu!...
            Só o silvo da chuva e das águas. As águas que deslizavam para um lugar mais baixo. Enchendo enchendo o grotão como nunca se previu.
            Enquanto Obirici chorava, um raio outros raios riscavam o alto acompanhados de barulhos grossos de trovões, tru-trom! tru-trom!... Águas crescendo para cobrir todo o grotão e arredores. O céu se unia com Obirici para encher o grotão de água-água.
            Vinham enchentes desciam por ali o rio Jacuí, o rio Taquari, o rio Gravataí, o rio dos Sinos, arroio Tabatingaí e outros rios turma de rios da região. Tanta água tanta água que enchia o grotão que virava em lago ou lagoa. O encontro das águas doces em estuário. As águas grossas e que tinham pressa, chegando do dia para a noite. Na superfície das águas barrentas, uns galhos, troncos, peixes pulando e remoinhos e espumas. Parecia um oceano para acabar com tudo e recomeçar outro mundo. O grotão virava um mar de água doce um mar de água doce.
            Nuvens pesadas e agitadas, água-água, chuva-chuva, rio-rio, transbordamento de enchente, mania de anfíbios, país dos peixes, piratantã, piraputanga, pirarara, pirá-tamanduá, pirapetinga...
Obirici se derretendo, se matando, se transformando em iara ou mãe-d’água. As águas crescendo tanto, subindo, engordando, enchendo o mundo. E Obirici já nem era mais Obirici. Obirici se tornava iara ou mãe-do-rio, senhora-das-águas-doces, filha da lua, senhora das cores do arco-da-chuva.
Com o passar dos dias e noites, inconformada, ela Obirici pegou e se deixou levar pelas águas, sumiu, desapareceu, virou peixe, virou iara, virou sombra no fundo das águas, virou o que a água tem de melhor.
7
Nuvens lentas poucas em vozes conversas baixas quase passando desenrolando os longos lençóis brancos por volta do meio-dia rumo do norte vindas talvez do sul.
No ar sempre o perfume, o hálito que sabia a flores, que nem era nunca o mesmo, essências de alfazema-brava, trinado do tizio, ivió-ivió-ivió-ivió-iviii!...
E o mundo do grotão, ali à beira da taba dos tapimirim e seus vizinhos, se transformou absurdamente num lago gigante. Tanta água junta nunca vista. Nem era um mar, mas quase. E era um lago ou lagoa. Uns chamaram Guaíba. Outros chamaram rio grande. Outros ainda chamaram encontro nacional das águas doces. E continuam chamando.
E a água que caíra dos céus, que saíra dos olhos da índia, que vertera dos olhos de Obirici, que brotara dos olhos da jovem índia tapimirim, molhou o mundo todo, molhou todas as pessoas e bichos e coisas, encharcou para valer o finado grotão. Tanta água que era até bom navegar, remar com canoa feita de árvore ubá, tchaaa! tchaaa!...
Já se sabia nadar e remar e pescar. Piavam entre os aguapés umas quantas caraúnas, biiiu! biiiu!... E cantavam e trauteavam os tachãs, qua-ri! qua-ri!... A ilha das Pedras Brancas cheia de verdes alecrins-de-são-josé, umiris, caetés-vermelhos...
No dia seguinte, um dia claro de sol, os índios tapimirim viram o lago a lagoa o mar de água doce e foram pescar. Já se habituavam com a profundidade e a amplidão das águas. Competiam nadando.
Lilás pensou, se um meteorito caísse no lago acabaria se estragando se sufocando se afogando se resfriando, frigindo, chiiiiio!... Por quê? Porque era muita água até mesmo para meteorito gigante de extração sideral.
Ainda bem que agora a tribo podia pescar muito peixe. Muita água e muito peixe se gostam. Ainda bem que agora a tribo tinha muito lugar para peixe proteína. Ainda bem que agora os tapimirim tinham muito espaço para nadar e tomar banho. Ainda bem que agora a tribo e as tribos vizinhas seriam especialistas no governo das grandes águas. Ainda bem que agora os tapimirim e seus vizinhos seriam grandes canoeiros. Ainda bem que de hora em hora aumentarão ainda mais as traíras e os bagres e os pintados e os lambaris e os dourados, mais preás ratões-do-banhado saracuras garças-brancas patos-selvagens, tuiuiús...
Rio imenso, imensa lagoa, bonita de se olhar, olhar as cores do pôr do sol do Guaíba. E também as lágrimas dos olhos de Obirici para sempre. Lago que reflete a lua, as estrelas, os astros, os cometas, as estrelas cadentes, as nuvens brancas. E ainda era rio largo, rio que imita uma baía. O rio grande fruto dos olhos doces doces de Obirici.
Obirici foi com o aguaceiro e nem mais voltou. Deixou no rasto o cheiro da flor dos aguapés.
O sol procura o sol, o rio procura o rio, as borboletas voam em pleno céu azul, os pássaros voam em plena mata verde, os rios que chegam correm entre os matos e as pedras, tudo um silvo natural, mio-mio-mio!... vem árvore cajazeira-de-fruto-grande, ilha da Pintada, ilha do Humaitá, ilha das Garças, aparece uma joaninha, aparece o papagaio-do-peito-roxo que imita repete os gritos e alardes que ouviu dos outros papagaios, creee!... sol acende uma fogueira branca, aparece uma acoaramuru, de onde vêm tantos rios?, joão-de-barro rindo a namorada respondendo rindo, te-re-rê!... vem planta alfavaca-de-cobra, uma família de emas descansando na sombra do angelim-araroba, casal de pintassilgos manchados malhados pintados, pis-te! pis-te!... já é só o começo, o lago ondeia nuvens com luz quente chegada recém-recém do sol azulado, etc.
Vem bem que o sol aparece. O fabuloso sol arrebenta o dia abre o sorriso desde a manhã no leste anacãs ou hias pelo ar em bando trocando de moradia, ri-ri-ri!... o sorriso doura o dia todo a manhã a tarde e a noite as árvores os pássaros as estrelas e a lua o lago a aldeia a montanha...
E a Lilás de sorriso de ponta a ponta das orelhas, a última palavra, falou:
- Como com que sorte eu gostaria de estar aqui, e estou.
Fim.

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