Lilás estava de férias do colégio e
ia tirar férias no verão. A menina, de fita lilás amarrada na cintura,
reconheceu que tinha de viajar, escolher e viajar. Lilás sempre pensa assim: “o
que é que eu gosto de fazer?” E viajou fora.
Naquele dia, e naquele momento do
tal dia, o relógio do tempo do mundo nem pensava muito nem pensava duas vezes
nem pensava em muita coisa. E página por página.
Chegou o vento que inventaram em
algum lugar em alguma parte. Chegou o sol que amadureceu na montanha no
penhasco no calhau. Chegaram as cores das sete casas enfileiradas e lado a lado
juntas. Chegou a árvore pitaica-da-terra-firme que balançou as folhas. Chegaram
os passarinhos que despertaram e coloriram o meio ambiente. O rádio tocava uma
música importantemente já conhecida chilreava, uru, juruva, tucanos-de-peito-branco,
gurundi-azul...
Que lugares a menina Lilás preferia
conhecer e tirar férias lazer? Será que ela preferia ir para a reserva do
Xingu? Será que preferia conhecer Abrolhos? Será que preferia ver a ilha de
Itaparica? Será que seria melhor passear no deserto dos Lençóis Maranhenses?
Será que desejava saber das ladeiras de Ouro Preto, as trilhas ecológicas de
Pinhal da Serra?
Capão da Canoa era conhecida como a
praia da cidade dos araçás avermelhados. Fernando de Noronha era reconhecida como
viveiro natural de golfinhos tartarugas-marinhas e esponjas marinhas. Gramado e
Canela eram famosas por chocolate quente e invernos frios, com natal quente.
Pelotas conhecida pelo grande festival de doces enfeitados apetitosos
irresistíveis, e doces e guloseimas e quitutes o ano inteiro.
Foi nessas condições e férias que
Lilás visitou Vila Velha, parque da cidade de Ponta Grossa, Campos Gerais,
Paraná. E a menina estava em companhia de suas melhores amigas - Rê, Pérola e Esmeralda.
Todas na faixa dos dez, 4 x 10 anos de idade.
Acomodada nos Campos Gerais, a
menina telefona para casa, hora local (15h e 47min):
- Alô?! É você, Lilás? - perguntou a
mãe.
- Sim, pois não, sou eu. Chegamos
faz duas horas, chegamos quinze e meia, estou moída. Atravessamos os Campos
Gerais, olhamos um lugar chamado Guaratiba, e um rio de nome Tibagi. A avenida
Gonçalves de Magalhães e o hotel o Caimito três estrelas com piscina garagem
subterrânea e café da manhã já no preço da estadia. A Esmeralda delirou de
contente quando achou aqui perto uma cidade chamada: Esmeralda-RS.
Depois Lilás ainda emendou e perguntou:
- Mãe! E o que tem aí? Choveu, nem
choveu?
A mãe da menina contou o que havia
acontecido, simplesmente:
- Bem, filhinha dos meus olhos! Na
altura da esquina rua Sílvio Romero com rua Tobias Barreto, há centenas de
guabirobeiras carregadas de guabirobas doces amarelas caindo de maduras e ao
alcance da mão. E todo dia os pés de guabirobas estão ali em pé e completos e
prontinhos. E todo dia do ano, aí pelo fim de qualquer ano, as guabirobeiras
dão flores e guabirobas aveludadas sedosas fofas. E os passarinhos sabem disso
tudo e vêm chegando pelo ar e em bandos, em pares, aos poucos, e pousando nos
galhos, as abelhas irapuãs se divertem. E sem demora já começam a experimentar
as guabirobas belas e açucaradas e macias e nutritivas e de fazer água na boca.
A mãe parou de contar e ainda
perguntou:
- Já conheceram os pontos
turísticos? Quais? Já passearam pela cidade e arredores?
- Conhecemos até agora o museu Antônio
Mariano de Oliveira na velha estação ferroviária. Mas fica muito perto mesmo.
Amanhã iremos mais longe e de passeio. Talvez à Vila Velha. Até lá, então. Aqui
nem chove faz uma cara. Ouvimos dizer que nem chove uma gota faz dez mil anos,
é.
- Assim-assim, deve fazer um calor
tremendo e abafado...
- Tem um vento que faz mais calor
ainda. É um vento do sertão, parece. As pessoas daqui preferem o inverno. Gostam
de se agasalhar. A gente já vai tomar uns três banhos por dia. Vai ser assim
até o fim, acho.
No dia seguinte à chegada. Lilás e
as grandes amizades pessoais. Foram com ônibus turístico conhecer e apreciar e
gostar do parque Vila Velha. De longe era um castelo com muralhas gigantes e
gigantescas. Uma cidade de pedra com idade avançada. Mas era um lugar da lua,
da anta, do jacaré, da taça, do chapéu (ou parecido com chapéu).
O sol era uma fogueira com raios de
ouro triangulares. Todos já ouviram falar do sol, mas ninguém chegou perto. A
lua era uma lagoa voadora, aérea e alada. Todos já ouviram falar em lagoas
encantadas, mas ninguém nadou numa para experimentar. Depois a fogueira do sol
caiu na lagoa encantada. Tudo aconteceu, então. Mais tarde nasceu a famosa mata
atlântica e seus muitíssimos bichos. O bicho-preguiça sabe nadar muito bem.
A fogueira o fogareiro do sol virou
jacaré-de-papo-amarelo. Foi morar num banhado ali perto. A lagoa encantada caiu
entre dois morros pouco altos, rolou morros abaixo, se encheu de pedregulhos e
galhos secos e folhas secas o total do cisco. Teve um filhote que correu para o
meio do mundo, e que se chamou rio Botuquara.
Na noite, Lilás telefona para casa,
o pai atende e ainda mastigando o jantar:
- Hum?!...
- É a Lilás, de novo e outra vez,
entende?! Foi um dia muito quente, gente. Estou no meu quarto banho. É muito sufoco.
É muito bom. Eu prefiro o calor ao frio, já sabem. Mas hoje foi um calor
insuportável e sem uma nuvem.
- Vila Velha é bonita? É grande? É
importante? É natural e garantida pelo Ibama?
- Muito estranha essa Vila Velha.
Parece velha, mas... nem sei dizer. Uma cidade de pedra esculpida no vento e na
chuva e no tempo. Tem pedra em forma de capivara, calcule. Uns dizem que vieram
homens e mulheres do espaço para planejar tudo, tá certo?!
- Que altura do chão ao céu?
- Altura de uns vinte metros, calculo.
E conheci torres de castelo onde nem tem castelo porém com torres, viu?! E tem
uma cabeça de camelo ou dromedário muito igual. Tem um caxinguelê que habita aí.
Tem um pé de bota muito legal, acho que perdido do outro pé. Achei várias taças,
e muitas torres ou campanários.
- Qual você gostou mais e por quê?
- Eu gostei mais da taça. Uma taça
vermelha, mas nem tanto vermelha. De longe era uma taça vermelha. De perto era
uma taça avermelhada, por causa do tipo de rocha. Eu já conhecia a taça de ver
em fotografias, é.
Um instante depois, a menina
perguntou:
- Pai! O que tem aí pra contar? E
que eu possa saber imediatamente.
- Tem uma coisa. Ou até duas. Hoje
mesmo, de manhã, dia bonito aqui e ali, um dia como todos os dias, o gato da
vizinha e que você já conhece e já viu, tem nome até de Xiquexique, foi visitar
uma parenta cutia lá dele. A parenta cutia morava ali no prédio ao lado em
frente da praça Castro Rebelo Jr. Foi e caminhou oito dias e oito horas e oito
minutos. Chegou no apartamento da parenta cutia mais próxima. Chegou e foi
batendo na porta, toque! toque! toque!... (três vezes) e pedindo licença e já
entrando. A parenta cutia curtia da noite para o dia, e igual que qualquer
senhora.
- O gato Xiquexique tem parenta
cutia que trabalha de noite e de dia?
- Ele tem. Continua tendo. Ela
trabalha no shopping Vitoriano Palhares num salão de beleza. Aí, o gato
Xiquexique, mais esperto, caminhou no parapeito da janela, lá da casa dele, a
nossa vizinha, você já sabe. O Xiquexique caminhou no parapeito da janela e
caminhou e miou, com as mãos para trás. Depois, o gato Xiquexique continuou
dando suas voltinhas pelo parapeito da janela, pra frente pra trás, com as mãos
para cima. E o Xiquexique ficou até tarde no parapeito da janela até ver as
estrelas no céu até quando ouviu as estrelas no céu, sempre com as mãos para
baixo. De repente e na noite escura e alta ele miou um miado de gato, mas com
as mãos para o lado da esquerda.
Em seguida o pai perguntou e com
paciência exemplar:
- O hotel é bom, tem piscina
olímpica com raias demarcadas? O bairro tem de tudo? Nem pegue muito sol na
cabeça. Use chapéu e protetor solar, certo?!
- Amanhã acho que iremos dar uma
volta pelo centro velho histórico da cidade e uma feira livre do bairro
Valentim Magalhães, este revitalizado ultimamente recentemente. É uma proposta
que temos que pensar debater decidir, e quem sabe!
Na manhã seguinte sequente, as
gurias tão galantes acordaram cedo para aproveitar bastante da cidade.
Passearam pelo calçadão olhando vitrines delirantes. Umas casas antigas com as portas
e as janelas de olho na rua Álvares de Azevedo. Logo ali por perto a biblioteca
do poeta Raimundo Correia. Tudo bem e assim também. Já o parque do Monge João
Maria. Depois, sem querer, pararam numa sorveteria artesanal e muito chamativa.
O jabuti gosta de jabuticabas. O
jabuti se esconde, só um instante, da amiga jabota subindo um alto
cipó-escada-de-jabuti. A jabota gosta da brincadeira, escala e alcança e gosta
de sete-capotes.
Engraçado, mas foi assim, etc., e
quase tudo. Uma borboleta metálica parou numa árvore metálica com folhas verdes
metálicas. Outra borboleta verde parou numa árvore verde natural. Mais outra
borboleta amarela parou no ipê-amarelo. As borboletas escolheram parar onde melhor
exatamente encontraram o que estavam para encontrar.
O tuiuti já se chamou
periquito-tuim. De antes para hoje, o periquito-tuim agora se chama tuiuti. E
sua grande floresta é intocada.
Perto da noite a menina telefonou e
dentro do horário pré-estabelecido:
- Daí, mãe! O que tem aí de novidade
ou coisas novas? Beijos!...
- Bem, filhinha do meu carinho, vou
dizer a verdade. Olhei da minha janela. Passarinhos curiosos e felizes,
passarinhos plantando árvores, passarinhos beijando flores, passarinhos
provando frutinhas e florzinhas, passarinhos construindo casas e apartamentos e
estação experimental. E você, filha do meu sentimento mais duradouro?
- Eu, e nós quatro, rodamos pela
cidade, conhecendo o centro, o teatro Francisco de Castro, o estádio de futebol
EC Carreador e a recém-concluída e verde alameda Basílio da Gama... Tomamos
sorvete de açaí numa sorveteria do calçadão o Altiloquência. Depois andamos
mais e chegamos numa pracinha plantada de guararibas e jabutapitás e croatás e
grumixameiras e palmeiras-barrigudas.. que atendia como sempre pelo nome de
praça Dona Narcisa Amália de Campos. Tinha ainda uns passarinhos cantando, um
chafariz despejando água, umas duas estátuas de homens famosos e que diziam
poetas da região, Múcio Teixeira e Afonso Celso Jr. Depois veio a chuva banhar
todo o lugar e por cima. Tivemos que pegar um pouco de chuva na volta. Mas era
lá uma chuva peneirada. A chuva veio vindo do horizonte mais próximo. As nuvens
pesadas e redondas vieram todas rolando apressadas. Sapo-ferreiro que já estava
cantando, acho que já estava imitando. Passarinhos alegres com os primeiros
pingos de chuva, sangue-de-boi, saíra-de-lenço, arapopó, concriz, casal de
juritis-pupu cantando ou resmungando, pu-pu-puuuu!...
O ônibus com a excursão parou no
alto do penhasco. Lá embaixo o cânion Guartelá, e no meio dele o rio Iapó. Tudo
bonito e perigoso e mais bonito ainda visto das nuvens. Uma cratera, um rasgo
no chão feito por mil anos de erosão ou raios poderosos vindos das tempestades.
O guia de apelido Penhor, explicou bem decorado:
- Este é o cânion Guartelá. Uma
rachadura na terra e com pedra e tudo. Aqui viveram índios muito antes dos
brancos chegar, os charrua, os galibi-do-uaçá, os coroado, os carijó, os trumai
e outros mais. Lá embaixo, que vocês estão vendo!, há algumas grutas e pequenas
cavernas e túneis. Habita aí uma espécie de morcego que gosta de comer apenas
insetos. Pois nessas cavernas existem ainda inscrições rupestres, ou seja,
pinturas e desenhos pintados nas pedras. Datam de anos e anos a fio. Esses desenhos
são de animais como a anta, a capivara, o veado-campeiro, a onça-pintada, o
macaco bugio, o morcego-pescador... São bichos que os antigos moradores daqui,
os aborígenes ancestrais, caçavam no verão. E temos também muitas pequenas
cachoeiras que caem dos paredões dos peraus. Umas piscinas naturais que, quando
e se quiserem, podemos descer lá e tomar banho. E árvores frutíferas como o
araticum-pitaiá, a goiaba-do-mato, a pitanga, o araçá-guaçu, a sete-capote, o
guabiju, a pitomba...
Depois da explicação do guia, o
grupo de turistas desceu o paredão. Nem muito depressa. Com muito cuidado e se
segurando nas hastes de gramíneas. Ali por uma trilha selecionada e sem muito
perigo corrimão escadinha mal e mal. E os visitantes olharam muito e tiraram
fotos com o telefone, rindo sorrindo e às gargalhadas. Era uma aventura de
passarinho.
A Esmeralda se abriu de admiração
pelo lugar e a natureza indescritível:
- Eu estou paralisada emocionada
chocada. Nunca imaginei. Cânion Guartelá? Nem sabia que existia esse precipício
tão bonito. É um desastre natural, é. Será aqui a porta de entrada e de saída
portal do planeta Terra? Eu acredito que sim! O meu braço está até todo
arrepiado, vejam!
Uma hora depois o grupo chegava lá
embaixo no riachinho entre as pedras pedregulho. E reparava que a água era
muito fria e cantante. Que as cachoeiras pareciam véus de noiva caindo dos
lados dos paredões das paredes altas. E que tudo era diferente e importante e
único. E que estavam num lugar perto de D. Que estavam num lugar como tudo
muito importante.
Na hora do jantar, meia hora antes
do jantar, já no hotelzinho Epopeia, depois do banho, Lilás telefonou para
casa. O pai já escutava:
- Alou?!
- É, sou eu, pai.
- Sim, guria! Fala tudo, nem me
esconde nada.
- Tudo bem. Conhecemos o tal de
cânion Guartelá. É um buraco enorme e sem fim e gigantesco e lindo e
sensacional. Eu até gostaria de morar ali na beira da cratera. E lá embaixo nem
para de chover um instante sequer. Tem até nuvem com relâmpago e trovoada. Tem
coruja-mineira procurando o que fazer. Umas plantas, que dizem, somente moram
ali, piripiri, aderno-preto, sapé, jurema-da-pedra...
- Então, foi ótimo o passeio. Muita
chuva e pouco sol, sol e chuva?
- Que nada, meu! Ainda ali na beira
do cânion, subimos um morro alto e olhamos a paisagem e pra lá do horizonte.
Tudo uma pintura conforme. Olhei para todos os lados e mais de uma vez. Eu e as
gurias olhamos e demos muita risada, compreende?! Pérola disse que olhou um
saci saindo do oco da árvore baraúna. E o vento tinha uma quentura, ora! Aí, as
plantas cresceram e começaram a andar, as pedras começaram a engordar e
começaram também a andar, o gavião quiri-quiri começou a aparecer e voar por
tudo e fazer sombra na terra e na mata e no céu e no oceano e a fazer sombra
como uma cruz de avião, tá ligado?! O guia turístico, descendente direto dos
autóctones xoclengue ali da região do rio dos Pardos (Porto União), deu o grito
da pocema grito de guerra lá deles, huaaaaaá!... e que provocou muita farra
geral entre nós todos, etc.
- Uma maravilha de paisagem e com
panorama grandioso, pois claro!
- Muito federal, ppai! Vi mesmo uma
porção de azulões-do-sul, sanhaços-cinzentos, patativas, bem-te-vis-do-gado,
sabiás-do-campo, pica-paus-do-campo, saracuras... Beija-flor ou colibri vestido
de arco-íris. Vários anus-pretos tomando banho de poeira e folhas secas. E
outros passarinhos com tarefas para resolver e fazer e desfazer. E besouros do
arco-íris chamando árvores pelo nome: vinhático-do-campo, guarantã, imbuia,
cambuí, copaíba... Orquídeas com cores pintadas de novo e bicolores e
tricolores. Touceira de malvas-do-campo florindo de novas.
- Sabe, Lilás, eu queria estar ali
também e muito bem, é. Eu gosto e sonho com lugares bonitos que me falam que me
relatam que me narram, etc., e ouço dizer.
- Muito bom o lugar e tudo, digo e
repito. E aí em casa, que dê as novidades e acontecimentos, paizão?
- Coisas raras e muitas coisas
comuns. O galo cantou. Um galo cantou. Outros galos acompanharam e cantaram. O
galo Xerém, aqui da vizinha do lado direito, cantou e a casa caiu.
- Que piada é essa, pai? O galo
Xerém se acidentou com a casa em cima dele?
- Nem, ninguém foi hospitalizado.
Depois aconteceu outra coisa. O sol nasceu atrás do morro da Colina. A lua
nasceu atrás do morro do Cerro. O sol se escondeu atrás da lombada do Morro. A
lua se escondeu atrás do morro do Serro. O vento leve levou e trouxe. As
estrelas de diamante subiram e desceram. Foi isso e o que mais nem vi.
- Amanhã acho que iremos ver um
zoológico aqui por perto, cidade vizinha de Almas ou Palmeira ou Teixeira
Soares ou Mateiros... ficamos na dúvida para conferir. Vamos ver bichos da mata
nativa e local. Eu gosto. Tenho muita curiosidade associada à novidade.
- Eu também me encanto. Preferia
estar ali e muito.
- Antes tem uma lenda que as pessoas
contam aqui. A lenda de um índio e uma índia, um casal apaixonado. E tão comum!
- Comece, continue e termine de me
contar, então. Lendas de longitude. Pra mais de 2 mil anos, se for mentira.
- A lenda é muito cheia de partes e
capítulos que vão e que vêm. Cada história que passa carrega uma outra nas
costas. E são muitas histórias que passam e são carregadas e repassadas de
pessoa para pessoa, de tempos em tempos, dentro do município de Arapoti no
distrito de Teófilo Dias. Mas... A lenda mesmo, então, se passa lá para os
lados do cânion Guartelá. Naqueles Campos Gerais existem no mínimo três rios
ótimos e já conhecidos: o Iapó, o Tibagi, o Pitangui. Dizem que estes três rios
nunca correm para o mar. E uma bonita índia da tribo Tibagi - ela de nome
Potiraré - estava procurando frutas do mato perto da aldeia. Ela e suas
melhores companheiras e amigas de brincadeiras. Aí, sem querer, um guerreiro da
tribo Pitangui, tribo vizinha e inimiga - esse índio de nome Itamuru -,
conseguiu chegar perto de onde as cunhantãs estavam. Ouviu as conversas o
bate-papo e foi espiar direitinho. Espiou do meio da capoeira, de umas ervas
tapixabas. Armou o arco com flecha e foi espiar e conferir. Itamuru espiou e
viu Potiraré destacada na beleza dentre as melhores amigas. Viu e ficou
enfeitiçado pela lindeza inteira da índia comendo pitangas. Nem era sonho nem
fantasia. Já o índio se apaixonou de uma só vez à primeira vista e foi para
sempre e muito.
- O que Itamuru fez dali em diante,
filhinha da minha sorte?
- Ele quis namorar a índia Potiraré
para poder casar com ela. Por que namorar? Porque a tribo Tibagi, que era a
tribo da índia, e a tribo Pitangui, tribo do índio, estas duas vizinhas tribos
eram inimigas mesmo e há muito tempo fazia tempo. Assim, se Itamuru quisesse
casar com Potiraré tinha que convencê-la a fugir com ele e agora na hora h. E
foi o que ele pensou fazer, escondido de tudo e de todos, e sozinho.
- Será que iria dar certo? Que
novela!
- Até aí nem tinha acontecido
grandes coisas na história. Então, Itamuru foi e tentou falar com Potiraré.
Quem sabe ela aceitasse fugir com ele para longe, para um mato muito longe
dali, hein?!, ele deve ter pensado. E, então tá! o índio Itamuru foi procurar
falar com a sua amada para ver e ouvir se era também amado. E um dia ele
conseguiu falar com ela e se falaram por uns momentos. Escondidos ali na sanga
onde ela e toda a tribo tomavam banho todas as manhãs. Foram duas ou três horas
de conversas, das 6h às 9h, de sorrisos de amores e planos de namoro noivado
casamento. E decidiram que iriam morar para a Lagoa dos Patos, bem ao sul do
sul do país dos Tapes. E já combinados estavam prontos e na mesma hora, sem
nada para levar na viagem, foram embora. No mesmo dia que se reencontraram já
se beijaram e já se decidiam ir embora e foram. Abraçados e juntinhos e
contentes. Planejaram ali na hora e foram embora sem chamar a atenção de
ninguém, nem da tribo Tibagi e nem da tribo Pitangui. E foram se largando pelos
matos, comendo pinhão e outras frutinhas do mato e fugindo correndo, sempre
rumo do sul, além da serra do Espírito Santo, cruzando o rio do Coco numa
passagem cômoda que dava pé. Mas...
- Eia!... Sempre tem um porém, né,
filhinha do meu espírito?!
- E quem decidiu foi D ou Tupã.
- Tudo isso mesmo? O D vindo lá do
alto do céu? D das nuvens mais altas?
- Foi o deus Tupã em pessoa ou em
forma de nuvem. E deus Tupã ficou irritando com aquela ideia deles do
casalzinho. Simplesmente porque a índia Potiraré, e mesmo o índio Itamuru, nem
podiam aprontar esta desfeita com as suas famílias. Era vergonhoso e chato.
- Como assim? E esta história nem se
parece com a de Ceci e Peri, Iracema e Martim, Paraguaçu e Caramuru, hein?!
- É, eu disse. É uma história muito
comum. O pai de Potiraré, o cacique Iapó, tinha prometido a filha Potiraré para
Tupã em troca de boas colheitas de abóboras, mandiocas e milhos. Era um costume
dos índios naquela época antiga. Uma tradição e pronto.
- Espera um pouco, então! Esta
história vai longe e com capítulos episódios.
- E assim, o casal de índios foi
impedido de continuar a caminhada para o mundo da liberdade de expressão. D
Tupã convocou o cacique Iapó e lhe disse: “Escute, Iapó! Vê se cuida melhor da
sua filha Potiraré e de uma vez por todas, pois este namoro de sua filha Potiraré
com o índio Itamuru nem precisa ser assim de supetão e de repente, tá certo?!”
E Tupã falou tá falado. E o cacique Iapó apenas obedeceu e como obedeceu.
- Como obedeceu? Diga a mim, fia do
meu poema!
- Obedeceu e obedecendo o cacique virou rio. Virou o
rio Iapó. E o rio Iapó separou, com sua erosão, com ordem de Tupã, separou o
lado da tribo Pitangui do lado da tribo Tibagi.
- Impossível, filha! Foi assim mesmo? Esta lenda é
demais, hem?! E recomendo!
- Foi assim ou assado, indo e vindo e quando muito.
Houve uma confusão no clima, no ar, no interior do meio ambiente, espaço aéreo.
E deus Tupã chegou e já despejou mil e oitocentos raios com trovões e tudo
escureceu e o mundo tremeu e o mundo veio abaixo e a terra rachou e se abriu e
se rasgou ao meio. Houve uma grande explosão que se ouvi a quilômetros daqui. Daí
surgiu o cânion Guartelá. De onde vem Guartelá? E no meio dos dois paredões,
separando de um lado o índio Itamuru Pitangui da sua amada a índia Potiraré
Tibagi, corre o rio Iapó e muito: sim, senhor! Esse rio Iapó foi Tupã que
colocou ali de repente de supetão. Rio Iapó vai sempre caindo aos poucos lá
para baixo, batendo os queixos nas escadas degraus de pedras, gaguejando
qualquer coisa, correndo aos tombos e cambalhotas e encontrões, despencando que
nem sei o quê, caindo de todas as alturas, se atirando no meio do fígado do
cânion Guartelá. Parece uma revolta mas é tudo brincadeira. Assim a natureza. E
os dois enamorados ficaram muito tristes e chorosos e separados pelo rio Iapó.
Tanto que nasceram muitas cascatas de lágrimas que se despejaram lá dos peraus
abaixo. Os dois lados vivem até hoje se olhando e se admirando, mas nunca
podendo se tocar e se alcançar e se beijar e se acarinhar e mais nada. É isso
aí.
A cidade de Ponta Grossa sempre tem
um zoológico importante de fauna local. E foi para lá que a turma de turistas
se dirigiu levados pelos guias naquela manhã de domingo. Sol forte, dia claro,
sol quadrado e redondo e triangular. O pico do Marinzinho, a cachoeira da
Fragaria, usina hidroelétrica de Balbina, distrito Joaquim Manoel de Macedo...
e passando e visualizando paisagem em movimento. No meio do mato nativo,
primitivo, verde, gameleiras-de-pinga, avencas-paulistas, aráquis, iuquiris e
outros verdes, reserva dos índios potiguara.
E
foi na manhã durante das dez horas de domingo. De trás dos prédios, uns altos e
outros baixos, brotou o sol, eclodiu o tesouro. Um círculo completo e cheio de
ouro e fogo e forno. Depois algumas buzinas e roncos de motores e outros ruídos
barulhos. No instante seguinte os zunidos dos ônibus, dos carros, das motos,
dos aviões pequenos de dois motores e quatro passageiros. O círculo do sol
virou quadrado de luz, virou retângulo de ouro, virou multifacetado estrelado.
Dali em diante o sol foi descendo a rua Catu a avenida Francisco de Carvalho
Lima Jr a alameda Araújo Porto-Alegre. Ruas guardadas por ipês-amarelos e
ipês-roxos fazendo festa atapetando o chão. Antes das dez e doze o sol já
entrava numa sorveteria para experimentar sorvete de caju mais pitangas.
Depois da cidade já fora, o ônibus
com os turistas engraçados, entrou por uma estrada de terra batida cercada de
mato e capoeira acompanhada de casinhas e do rio Jatapu. E foi indo muito
tempo. Mais dois ou três quilômetros. Até chegar no parque do zoológico
Parauaçu.
Lilás tem os olhos de uma cor. O céu
tem os olhos azuis. A mata tem os olhos verdes como musgo na sombra. E assim
por diante. E Lilás tem os olhos engraçados brilhantes.
Quando a Lilás olha alguém, quando
ela conhece alguém, ou reconhece certa pessoa ou bicho, então, aí é que quando
ela vem mesmo pelo menos com uma pergunta:
- Você já conhecia e simpatizava com
estes sariguês? E cabas marimbondos vespas? E turus gusanos? Crustáceos e suas
estranhas patolas quelas garras pinças?
Lilás nem tinha olhos azuis. Lilás nem
tinha olhos verdes, ou qualquer dos verdes no mundo. Lilás nem puxou os olhos
do pai ou da mãe ou dos avós. Ela tinha os olhos castanhos e tão doces e
grandes como parecido do mar. Estuda ainda o fundamental na EEEF Capistrano de
Abreu em Itanhandu. Junto com suas melhores parceiras amigas de sempre.
O olhar da menina era a olhada
esperta e rápida. O sorriso da guria era quente e doce. O pensamento da
garotinha era melhor e bem exótico. A imaginação da Lilás era de aventuras e
lendas e causos. O jeito de caminhar da cunhantaim era simples e completo.
- Agora vamos ou nem vamos ao teatro
São João em Lapa, hem?! E é antigo do império e cheio de histórias revoltosas.
Justamente onze horas e poucos
minutinhos, chegaram ao parque Parauaçu. E era tudo muito cheio de mato. Muitos
matos, poucos matos, palmeiras piaçabas, paineiras, xaxins,
pinheiros-do-paraná, ervas-mates, angicos, cambuís, ervas-painas...
Depois grandes reservados jaulas e
grandes cercados de tela de arame. Muitas aves e pássaros, poucas aves e poucos
pássaros, tricolino, petrim, formigueiro-de-cara-preta,
periquitos-de-asa-dourada, rabo-amarelo, curucacas, pica-paus-do-campo...
sombras transparentes das árvores sonoros cantantes curiosos, tirivas, codornas,
perdizes e perdigãos, jacus de alguns tipos meio variados identificados...
seriema, saracuras, carão, emas, urubu-rei, inhambu-anhangá, irerês,
uru-do-campo, casal harpias no manejo e piando forte dominando o ambiente...
ararajuba, murucututu, beija-flor-de-garganta-verde, pica-pau-branco,
teque-teques, pitiguaris, cambacicas, cardeal, gaturamos-pretos... aves do alto
das árvores da capoeira do cerrado a mata fechada do pampa aquáticas do banhado
da beira dos rios enseadas...
Em territórios protegidos com água
ou valas, e em casas protegidas com grades ou telas, a variedade dos mamíferos.
Muitos bichos, poucos bichos, caxinguelê, pacas, guatis, cutias,
cachorro-vinagre-do-mato, tamanduá-mirim, antas, tatus-bolas, lobo-guará,
onça-pintada ou suçuarana, macacos-pregos, macacos-aranhas, macacos-de-cheiro,
micos-leões-da-cara-preta, lebre ou tapiti... de par em par de família em
família de grupo em turma...
De volta do parque zoológico,
anoitecendo, o dia cheio de bichos nos olhos esverdeados, já no hotelzinho, a
menina telefonou telefonou:
- Mmãe! E aí, o que que tem? Como
vão as coisas?! Desde quando...
- Ah, filhinha do meu esforço! Tem o
seguinte. Vento de cabreúva, vento de guabiroba, vento de pitangueira, vento de
jabuticabeira. Tanto vento com perfume, filha do meu celeste!
- O que mais tem aí e por mim por
mim? O dia a dia doméstico da residência.
- Eu vi hoje mesmo e daqui da
varanda. O aviãozinho de matéria plástica decolou, sim. O Carlinhos, você já
viu e conhece, o Carlinhos bufou, huuuu!... O aviãozinho dele passou dentro da
nuvem. O aviãozinho dele fez sombra dentro das árvores mais altas. O aviãozinho
lá dele congelou o sol e a lua e as estrelas. As estrelas viraram pontos
turísticos e com nomes próprios. O aviãozinho de Carlos caiu no rio Novo. O
Carlinhos nadou nadou se salvou com salva-vidas boia urgente e tudo. Foi a
história do dia, neste dia tão comentado e servido.
- E outras coisas importantes, mãe? Hora
em hora, as horas que fazem o sol andar.
- Passarinhos chegam até nossa
janela, você sabe e já viu. Passarinhos sobem nas árvores aqui por perto. Fico
olhando, e quando tenho um tempinho. Ouço o sabiá-do-campo, talvez
sabiá-laranja, come laranja, canário-da-terra que come pitangas, coleirinha que
come sementes de quaisquer capins, papagaio-de-peito-roxo que come pinhão no
inverno, tucano-de-bico-verde que come flor de goiaba-do-mato... Mas, filha,
como foi o passeio no zoológico. Viu bichos selvagens indomáveis ariscos esquivos?
- Vi ouvi principalmente pássaros,
aves, passarinhos invisíveis. Vi e reparei nos bichos de quatro pés e
invisíveis. Vi saltei macacos de rabo cauda preênsil e invisíveis, vi comportamento
jabutis e jabotas invisíveis, vi contei jacarés-de-papo-amarelo invisíveis.
Conheci o bugio ou macaco-uivador família e companhia. Uns sujeitos tipos
barbudos e roncadores. Bugio preto, bugio ruivo cuidando da prole. O teiú-branco
é ele o maior lagarto do país, todo listado em preto e branco, língua comprida
e sempre beliscando o ar em volta. Dizem os nutricionistas de teiús-brancos,
que esses répteis gostam muito de frutas e ovos. Gostam também de lagartear.
Jacupemba é um tipo de jacu que vive nos matos daqui e de muitos lugares, gosta
de sementes de toda espécie, etc., o papo vermelho, as penas todas pretas. Os
saguis, esses são tão muito ariscos que nem sei. Existem no parque uns saguis
muito rápidos e espertos e encantadores, puladores que nem sei, e saltam pra cá
e pra lá todo o tempo. Já o mão-pelada é quase um cachorrinho de pelo liso e
marrom, aquele ali! Uma coruja caburé-de-orelha, e olhe lá!
- E que mais, filha do meu sonho
sonhado e realizado? Quantas horas vocês passearam?
- Voltaremos já amanhã. A Rê está
com saudade, a Esmeralda e a Pérola estão com saudades, eu estou com saudade.
Até amanhã e em algum momento daquelas horas possíveis.
Lilás e companheiras acordaram o
último dia de férias ali nos Campos Gerais. Ainda estavam com vontade de voltar
e vontade de ficar mais uns dias. Podiam conhecer a tribo dos índios columbiara,
as localidades ao redor, Três Barras, Paulo Frontin, Itamonte, Novo Acordo...
Podiam visitar a feira de artesanato local no bairro João Francisco Lisboa
colônia de muitos descendentes do povo potiguar. A praia de Joanes. Podiam
fazer um passeio de trem maria-fumaça até Fagundes Varela. Podiam visitar uma
fábrica de chocolate e beber chocolate quente e comer chocolate em barra
bombons brigadeiros à vontade. Podiam tentar buscar a nascente do rio Tibagi.
Podiam esticar mais as férias ali pela cidade de São Mateus do Sul, ali pelos
arredores de Antônio Olinto, cachoeira de Iracema, fazenda Junqueira Freire com
museu dedicado à história da erva-mate caá, rebio do Uatumã...
A menina Lilás chegou no último dia
de férias com vontade de voltar e contar tudo. E pensou. Pensou e chegou a uma
só conclusão: nem sabia o que queria dali pra frente.
- Eu, hem! Nem sei muito bem o que
que eu quero. Pular voar de asa-delta do alto do morro do Aruá? Morar na aldeia
dos tabajara? Ver o parque do Cantão? E eu sou mais a água.
Bem, será que Lilás queria ser azul?
Será que a menina queria voltar e ao mesmo tempo queria ficar pelos tais Campos
Gerais? Será que Lilás gostaria de morar no interior do Mato Grosso do Sul?
Será que Lilás queria ser uma cascata do cânion Guartelá?
E uma segunda-feira - mês passado,
fevereiro -, Lilás já voltava mesmo da excursão aos Campos Gerais do Estado do Paraná.
Depois de cinco dias que passara lá ela e mais três amigas melhores amigas, Rê,
Pérola e Esmeralda. Lilás telefonou. O pai atendeu, eram umas onze e meia da
manhã, as cigarras fazendo ruído no calor do dia:
- Alô! É a menina? Tudo bem? Vem
mesmo e nem se demora, é?!
- Pai, o que tem aí? Me conta, me
diga, me fala.
- Me lembrei de uma coisa e várias
coisas, hausto hausto! Uma coisa e outras coisas. É assim um rio que corre em
família, seus afluentes até o mar. Até onde nem me lembro mais, meu tataravô
teve dois filhos: um filho e uma filha. Cada filho do meu tataravô tinha um bom
pedaço de terra para morar e plantar ou até vender. O meu bisavô teve dois
filhos: um filho e uma filha. Cada filho tinha uma roça de milho ou maniva-mandioca
ou abóbora e uma casa na cidade. O meu avô teve dois filhos: um filho e uma
filha. Cada filho teve uma casa e um pequeno armazém que vendia de tudo um
pouco. O meu pai teve dois filhos: um filho e uma filha. Cada filho teve um
carro e uma moto. Eu mesmo tenho, por enquanto, uma filha lilás. E é assim
mesmo. Vocês chegam que hora, mais ou menos?
- Tá certo. Lá pelas quinze e
qualquer coisa.
Então, as gurias voltaram, tudo bem,
até outro dia. Mas por que a menina Lilás
sempre esteve tão interessada em viajar sair pelo mundo? Quanto tempo quanto
lugar queria conhecer?
Lilás voltou e chegou. Lilás passou
o tempo. Lilás leu dois livrinhos de aventuras: um com um menino e um cão no rincão
dos pampas; outro com uma menina velejando com a família pela costa do país do
pindorama. Lilás ainda foi ao teatro do poeta Luís Guimarães Jr e naquele mesmo
dia. Lilás pedalou a magrela pra cima e pra baixo, pelas calçadas, pelo parque,
sozinha e acompanhada, praça Lúcio de Meneses de Mendonça. Lilás tomou pouco
sorvete, ou seja, quase todo dia, todo dia, um dia sim e outro nem, um dia sim
e outro também. E o tempo passou rápido e pronto. E o tempo nem passava quase
nada.
Outra semana, outro dia a Lilás, no
final das férias de aula, ainda no mês de fevereiro, lá na praia de Geribá,
vila de pescadores em Caseara. A menina Lilás passeava perto das ondas do mar.
Ouvia o ruído do mar a fala do oceano. E olhava muita coisa, olhava grande mar,
olhava areia, olhava pássaros marinhos voando baixo, olhava o vento marinho, as
ondas corcoveando. Aí, a menina viu uma onda chegando. A menina correu para
encontrar a onda e abraçar a onda e quem sabe até beijar a onda e mergulhar em
cheio no meio da onda. Lilás pulou na onda. Outras ondas subiam e sumiam na
espuma. Por isso, as gaivotas mais próximas, os pelicanos mais ali por perto,
as fragatas mais ali ali, os albatrozes mais rente da guria piaram e grasnaram
e chiaram com razão.
Qual pé-de-vento nem disse nada, nem
assobiou, nem resmungou, sequer murmurou. Tal e qual pé-de-vento chegou,
caiçara, levantou poeira e areia fina, saiu fora, foi levando, e foi embora, se
levantou. Sorveu o ar aventurou praiano esticou os braços bocejou. De repente,
o pé-de-vento ventania já ia longe chegaria em algum lugar porto ou praia ou
arquipélago ou atol ou fortaleza de São José de Macapá deste país que se ouve
desde o Ipiranga.