sábado, 1 de dezembro de 2012

Meri Elen na Paisagem


       

       Eu sou o rio passo por aqui toda hora todo ano e corro as estações, embora, até o oceano pororoca contra o mar. E eu e você e nós e é ver Meri Elen na paisagem. 

       Meri, Meri Elen estava de arigó na fábrica de amendoim Abaruna, distrito de Botocudos, cidade de Vargem Alegre, Paraná. Nove horas diariamente completadas como uma mariposa voejando em torno de uma máquina ensacadora amparando limpando agilizando vigiando lubrificando aprontando trocando. Ela ficava ali como chegara como estava como todo dia e mais nada apenas nadando no molho sem fim nem começo do seu passivo interior enigmático, infiltrada de sonolência.

       O sorriso analógico.

       Como sempre, Meri ousava com seus olhos verdes e cabelos negros presos em rabo de cavalo cor bronze da pele pernas longas com às vezes um diadema para segurar a franja irrequieta. O corpo desempenado planejado as mãos nos bolsos as mãos nos quadris os braços cruzados os seios voando na frente olímpicos. Naturalmente com as unhas entupidas de poeira de semente e de gordura e de óleo. Se vestia como homem maquiagem pesada olhos riscados com sombras fortes e escuras dando nítida impressão de guria carismática olhar 3x4 e da mulher fatal. Com calos nas mãos nos pés sapatão o tempo todo em pé e cansada e faminta.

       O sorriso infraestrutura.

       Eu sou o rio e sempre e honesto já disse. Corro por todos, por mim, por você, por nós, por Meri Elen. Eu não tenho memória e tenho todas as outras coisas. Antes durante e depois é comigo. Você caminha por si mesmo. Porque ambos estamos no mesmo lugar e andamos.

       Mas impossível, olhando bem e tirando o encardido da pele, as horas de cansaço, a pele picada de borrachudos e de moscas e de carunchos e de formigas, se via que Meri poderia ser bonita e muito linda e uma beldade.

       De uma página do diário oficial de M. E.:

       "Sou quase sempre assim. Chego em casa e aumento o som. É pouco. Sou movida a rock pauleira, pedreira, pedradas, pedras do neolítico, chuva de granizo. Solto os cabelos e ando pela casa fazendo as coisas ordinárias. Não tenho guitarra vou de rock mesmo, pego a vassoura e power power. Na frente do espelho da sala eu executo e sacudo a cabeleira pro meu público virtual delirar. É rouco. Comprei esta pulseira e me agradeço, obrigada. Nem rock nacional nem rock latino nem rock português, o meu rock é power, é muito pesado, é muito metais, é muito suicídio. É louco."

       Os homens olhavam para ela e não acreditavam e não desligavam e não queriam mais viver e se desesperavam em pânico, batiam na cabeça com a mão fechada viravam a cabeça como fazem as corujas-buraqueiras batiam com a cabeça na parede mais próxima surtavam de ciúmes; de tão linda e distante e perigosa e deslumbrante: ela parecida.

       A minha sorte de viver como rio. Passo por dentro daquela hidroelétrica e faço acender algumas cidades aí. O meu leito é de areia e pedrinhas redondas. Passo agora e é bom demais. Eu me rolo porque o mundo é quadrado. Conto as cidades nos dedos e você é uma delas. Anoto os lugares do país e você é um deles. O vento batendo na copa das árvores com os ventos, etc.     

       Meri não terminou o ensino médio. Gostava de História e Geografia e meninos de cabelo curto e olhos azuis ou verdes. Mas ouvia bandas o dia todo no celular. Sempre aqueles rocks nervosos impulsivos furiosos famigerados. Então, ela ficava também possuída e abria a camisa e se agarrava e pulava da cadeira do sofá do degrau da escada. E tinha o diário que escrevia de vez em quando à noite ou nos fins de semana, quando apertava as saudades de quê, saudades de uma sorte que continha que perigava que transitava que permeabilizava:

       "Amanhã é natal e logo depois o ano novo, vem o verão e o carnaval. As manas me enlouquecem com seus gritinhos parecendo uivos de cachorrinhos abandonados. Casa de pobre quarto de pobre beliches de pobre e minhas irmãzinhas não ligam para os pufes... que largam no ar. Por que não nasci uma jabuticaba, por que não uma jabuticabeira? Por favor, meu, eu queria ser menino com nome de índio de pássaro Tapiranga!"

       Quando eu vou eu vou sem acidentes e sem incidentes e sem novidades porque eu sou o rio. Eu mesmo me cuido e me navego e me levo. Tenho os verbos do tempo na palma da mão. Viajo de canoa viagem divertida corro entre matos descanso num remanso olho uma restinga canto na chuva gargarejo na sombra entre pedras basálticas. Já conhece o Itaimbezinho? As capivaras correm para mim e me abraçar. Ariranhas mergulham riem e se penduram nos barrancos. Homens e mulheres se refrescam passeando de pés descalços e espantando garças-de-cabeça-preta. Eu sou um rio e meu rio é longo e inverso. Os curumins e cunhãs da tribo macu-camã brincam de mania de pular do trampolim dos galhos da cabiúna-do-campo. Os macacos bugios comem frutas dos galhos das árvores e deixam cair para a festa dos maparás. Um chirriar de irerês. Bando de papagaios-de-peito-roxo almoçam a minha direita e dormem a minha esquerda. 

       Um dia o gerente da fábrica chegou exatamente quando do intervalo para o almoço. Um seu Pita Jaguané de óculos muito escuros, sem bigode, barriga proeminente, roupa limpa, gravata de grife e limpíssima camisa polo azul com o bolsinho de outra cor cheia do celular. De repente este só queria ver os olhos dela, da impressionante Meri, olhos de felina, olhos de mistério num poço. E Elen tão linda tão linda que dava um nervoso de rir e de não sair de perto e de vício e de hipnotizar e de viajar e de imaginar tudo de bom.

       O sorriso gázeo.

       Meri comia chupava uma bergamota diante da televisão na sala de recreio. Tinha dentes ótimos. Toda suada, roupas do uniforme manchadas de graxa, a touca para segurar o cabelo, comia com a mão trêmula pelo esforço do serviço. Ela sozinha pensava uma palavra: Positivo.

       (Nuvens pianíssimas tocavam flautas ou eram oboés,

       Aeronaves redondas zumbiam luziam mirabolantes de Marte,

       Oito casais na sombra da canjerana discutiam o tintim! do caroço da camuá,

       Uma japira beijando a boca no espelho retrovisor.) 

       Sou um rio acostumado ao meu destino ao meu gosto ao meu comando ao meu instinto ao meu sorriso. As arraias-de-fogo farejam o fundo do meu aquário. Acompanho um matagal onde umas araucárias predominantes se agigantam se elevam como taças, assim, extraterrestres e imperiais e impessoais. Revoluteio por entre o resfolegar da sempre-lustrosa, o mexerico da gameleira, o sobe e desce da taiuiá-de-cipó. Conforme ouço o chiliar do chupa-mel, ali assobio da lavadeira-de-cabeça-branca, chirriar do japu-verde, arrulhar da pomba-galega, andar da anhuma, tatalar verde do coqueiro-guariroba, gargalhada do anambé-branco-de-bochecha-parda. Sou como o irmão rio Bagagem, assim-assim mais ou menos gueguê-guê.

       Lá vem a lua, lá vem! Noite de lua trepando. O satélite contornando o quarto da terra. Entre antes e depois as estrelas comem pipocas ou amendoins ou bombons recheados de cupuaçu. Já ficava tarde e saíram dormir no meu veio de rio.

       E o gerente com a garganta seca, o espírito em polvorosa, a carne em frêmitos de febre, esperou a guria de dezessete anos completar dezoito e levá-la até em casa. Ele tinha os dias contados como todo mundo, e Meri tinha os dias contados também. O jeito dela sorrir, então, o sorriso mais bonito da fábrica, o formato do rosto, os olhos, principalmente, a harmonia parecida.

       O sorriso parabólico. 

       Meri Elen foi no carro conversível, um vermelho ou bordô com tudo elétrico, os longos cabelos jogados fora para o alto para trás esvoaçantes e sensacionais e engraçados, e se sentiu mole. Um dia como sempre foram bonitos os cabelos de Meri! Meri morava tinha a sorte com a mãe e três irmãs menores, total estrela de cinco pontas.

       O sorriso perolado.

       Pita ligou o rádio nas últimas músicas de sempre a estrada a paisagem o vento as malícias virentes cento e vinte por hora mais ou menos. Ele olhava para ela Meri intermitentemente e sorria e falava muito em outras coisas. Pita prometeu ajudar a família e remediar o mundo todo e cumpriu a promessa.

       É isso. Meri carecia de aventuras, de invenções, de escolhas, de oportunidades, de opções. Meri Elen sorriso de Meri Elen. Meri era ela mesma e tinha a sua própria sorte com esse mundo. Meri tinha uma sorte e queria rever essa sorte numa ou noutra reencarnação, se possível, se necessário.

       Sei mesmo alguns lugares de cor, por passagem, já faz tempo, por desaguar naquelas paragens, Uruaçu, Jataí, Pouso Alto, Santa Rita, Serra Dourada, Santa Leopoldina, Gameleira de Goiás, eu sou rio enquanto líquido ambulante, em Morro Grande na época dos tropeiros parou uma mula e não conseguiu mais andar travou das quatro rodas foram ver e ela empacara por carregar um santo Antônio e todos se ajoelharam e fizeram uma capela para o protetor que mais tarde virou santo padroeiro do lugar da comarca.

       Elen aceitou o gerente como amante porque sua mãe lhe fez ver e aconselhou e recomendou e apoiou e orientou. E de fato ao longo do tempo Meri não se arrependeria muito. Calculando todas as coisas em prós e contras. A mãe deu seu último pitaco e depois calou, falando mais precisamente em confidência de mulher para mulher e pelo menos uma vez na história:

       - Olá! Meri Elen, ele vai querer cabelo barba e bigode e você pensa bem porque no fundo o lugar é todo somente teu. O homem todos eles é um bicho formigão não pode ver buraco que depois pra ti não tem volta, compreende?

       A primeira vez de Pita com Meri saiu todo arranhado. A primeira vez de Meri Elen com Pita oitenta e oito quilos e lábios secos e vontade de tomar chá de gravatá-das-rãs.

       O sorriso abruptamente.

       Sendo eu rio em Estado do Pará, regressei hoje mesmo de lá para cá em viagem de 2 a 8 dias. Ali do meu canal vi o mato encorpado e compacto e elevado. Deixei uma ilha de Tinharé e um lago Dumbá, para trás. Estou à vontade e escolhi o meu ritmo. O tal de tropeiro-da-serra canta porque procura uma família. Canguçu ronca para marcar território.

       Pita num dia de sol na piscina do hotel em Olinda, Sergipe, dizendo com boca de suco de abacaxi e a sorte barganhada:

       - Meri! Você é um anjo que desce e sobe e desce do céu, da terra, nasce das águas, etc.

       - Se você me gosta tanto, então, me tatue!

       O sorriso preciso.

       A família gostou muito dos negócios que iam remediando. Estridulavam birros no alto do jatobá junto à cerca. Chegaram cestas de alimentos, luz elétrica, geladeira ecologicamente, roupas de cama mesa e banho, tevês de plasma, computadores portáteis. Estrilavam avoantes na sarobá depois além da cerca. Muito passarinho quicando pendente de hastes de capim-da-colônia, capim-marmelada, cunabi, campainha-branca, anchieta, batatinha-do-campo de cá e de lá da tal cerca de arame farpado. Todo mundo da casa passou a comer iogurte beber refrigerante tomar banho quente diariamente mandar recado pelo feicebuque. Meri mudou mudou a família mudaram e viraram gente de outro estatuto. 

       O sorriso ecumênico.

       A missão de Meri era ser linda. Positivo. Demais a mais frequentar uma faculdade para ter o que fazer e o que pensar e onde ir. De carro, claro. Pintar o cabelo embora não precisasse. Por causa da vaidade. Disputar o concurso de miss cidade. Um exemplo.

       Era manhã emergente e eu descia em cachoeira cascata catarata degrau. Meio de longe avisto a serra do Lambari me acompanhando um bom pedaço, mato de landis arubatãs sarãs jaguaranas louros-tamancões, o irmão rio Corrente pela ala esquerda. 

       Do distrito de Botocudos ela foi montar apartamento na cidade mais ou menos grande da região e sozinha Muquém de São Francisco com 300 e tantos mil habitantes para perto de 400. Por ali morava muita gente e agora ela também. Edifício Araé oitavo andar pela avenida Araripe Júnior um vaso de jasmim-do-mato no corredor para o elevador e vice-versa.

       Uma vez Meri Elen escreveu no diário de bordo o que aconteceu num passeio com Pita, se falaram a dois dedos um do beiço do outro, trocando hálitos de doce de pequi:

       " - Tá vendo aquela bandeira ali atrás daquele prédio antigo e alto e neoclássico?

          - Tá, tô!

          - É a nossa bandeira nacional brasileira meu povo, positivo?

          - Por quê? É dia de sete de setembro?

       Me lembro porque era um dia como hoje de sol quente forte e agora rebrilhando na vidraça da sala fazendo um calor as cores todas do arco-íris... depois eu explico melhor."   

       O sorriso incidental.

       A lua terminou encontrando um enxame de nuvens, as nuvens entupiram estrelas, apagaram as luzes a tevê no quarto de dormir, o sol desceu pela parede, o mar escapava e retornava no oceano, o Pita (ele, sim) despertou perto da Meri (ela, não) dos cabelos acajus e baratinados.    

       Elen acabou se interessando e querendo mais ir ao cabeleireiro e passar toda a tarde lá. Tudo bem. E curtindo seus vestidos novos, acessórios, sapatos, meias com figurinhas e amigas para telefonar. Uma vez por  mês acompanhava o namorado em passeios pela capital do Estado uma vez por ano na capital do país e quem sabe quem sabe no fim do ano uma justa escapada na capital do mundo. O que custa o melhor hotel da Avenida Paulista em São Paulo São Paulo.

       E Meri foi perdendo aquela mania de pobre por favor desculpa obrigada as suas ordens bom dia sorria você está sendo filmado como vai se Deus quiser e ele há de querer.

       O sorriso experimental.

       Esses dias eu voltava do mar, e meio aéreo, vaporoso, nublado, subindo baixo a encosta abrupta da serra do Mar, entrando mais no continente já na serra do Pilão, quase em nuvens carregadas de chuva, me precipitando ali por volta da região de Apiaí e enchendo o rio Manuel Alves, rio Tubarão, rio das Mortes, rio Piraí, outros, de cima a baixo, etc., é que eu venho embora e porque sempre retorno vou em rios e volto em nuvens.

       Foi que recomeçou os estudos ou mais ou menos. Não deixava de telefonar para casa mas raramente ia lá. Os fins de semana ainda eram do ex-gerente agora namorado ou amante, as baladas e os jantares e as viagens e os vídeos pornôs.

       M. tinha o sorriso perolado. O quê? Como umas pérolas. Ah, é?! O sorriso Meri. Igual de umas opalas. Como assim? Da cor dessa pedra, a opala. Pura sorte Meri Elen. Um sorriso aperolado.

       Tomo uma medida de sol aqui mesmo nessa itapeba enfeitada de musgos liquens artrópodes. É bom. Árvores faladeiras mexeriqueiras resmungonas, cabelos ao vento, uma cor e uns tons apegados à sorte de verde, mapixi carajuru gameleira-de-purga fruta-de-lobo lixeira flor-de-maio suma ginjeira-da-terra uvá capim-gengibre.

       Meri ainda não lambia a axila do namorado. Talvez daqui um mês, um ano, talvez nunca embora. Os seios sublevados. Os seios do tamanho da mão, embora, maiores que a boca do freguês.

       Ela parou diante do espelho grande do quarto e desnuda e fez um solo de guitarra o som tremendo a casa toda o prédio todo, etc. Tocava a guitarra com tesão, como se fosse tocar uma com os dedos mais dedos... se fosse homem pegaria na mão do cabo... embora, fez um esforço danado, se atirou no chão, rolou, quicou pelo chão, rolou mais e gozou. 

       O sorriso fisiológico.

       De onde se avista o mar, posso dizer, eu passo passando pela serra de Paranapiacaba, etc. Eu sou feito de água pura, você sabe eu sei todos nós sabemos. Sapipocas pirararas arurás tubaranas nasceram crescem sorteiam e povoam o meu país. Bonito apelido esse de Paranapiacaba, hein?!

       Ela queria experimentar pular de paraquedas, pular de parapente, pular de asa-delta, mergulhar fundo em Abrolhos e na enseada lá da ilha Fernando de Noronha. Precisava como ninguém de autoafirmação confiança coragem poder de iniciativa se sentir solta independente desimpedida liberada desinterditada desobrigada viajar sozinha e dar um passo a frente.

       O sorriso locupletado.

       O diário abre as aspas e os anzóis e Meri fala pelo que escreveu se confidenciando:

       "Saí do banho e não me sequei pois fiquei debaixo do chuveiro duas horas. Já fui me deitar na varanda debaixo de um sol quente do tamanho de uma lua aquarela. Para falar a verdade eu queria ter sardas pelo corpo pela pele e cabelos vermelhos e pelos vermelhos e cabelos trançados. Eu até queria ser um menino pra mim mesmo com o nome indígena de pássaro ou ave Acanati-de-Bico-Verde. Agora lembrei, agora. Vou tatuar na perna direita essa uma rara e lendária ave pessoa superior mais imortal de quinhentos anos vermelha carrega um elefante põe ovo no alto da palmeira do Egito assim como o sol no seu ir e vir."

       (O tempo sempre tem escamas de itapema,

        A ponte sobre o rio de itamaracás suspensas,

        Alma que os dedos no vento das nuvens,

        Já os translúcidos azuis em raios de sol.)

       Na altura de Miracatu há muito jacaré-de-papo-amarelo, ainda bem, nas proximidades de Bujaru a reserva dos índios xambioá, ainda bem, na ilha Caviana profusão de maguaris mucuras ariranhas agriões-do-pará taguás, do parque dos Aparados da Serra o rio Urussanga e o rio Mãe Luzia desde ali me acompanham, em boa hora.

       Um céu maior e sem igual de azul plácido domingo. Por que o céu por que o azul ninguém sabe ninguém viu. Apesar do dia passageiro, o resto estava como Deus sempre quer. Tudo presença de Deus e perguntas.

       Meri E. a voz um pouco rouca, rouca de um certo modo gostoso natural dela e ótimo de se ouvir, os olhos, ou melhor, as pálpebras um tanto cerradas ou baixas ou semicerradas naturalmente que dão um charme um fascínio e um estilo de quem tem alergia ao sol ou muita claridade nos olhos, bandida, por exemplo, etc.

       A estonteante Meri fundou várias lojinhas em shoppings da cidade. Uma loja de bijuterias caras. Uma loja de comidas para cães e gatos e pássaros exóticos e peixinhos ornamentais da Amazônia legal com autorização do Ibama. Uma loja de roupas íntimas de rendas de bilros importadas do Rio Grande do Norte. Uma loja de roupas de verão com chimarrão sempre quente na térmica e biscoitos de polvilho na bandeja.

       O sorriso comercial.

       Meri sempre gostaria de se chamar um pássaro ou árvore na língua da tribo manitsauá, por exemplo. Ela foi ali e pegou a uva pegou o araticum-cortiça pegou a banana escolheu a maçã e mordeu com casca e tudo. Andou pelo quarto pela sala até perto da janela, só de bermuda, de tope. Se chamar pássaro Uracaçu e ter um pedacinho a mais de chocolate. Todos os dias pareciam domingo. Um dia ela vai e acorda com vontade de ler um livro e lê duas páginas e vai e liga a tevê e troca de canal centenas de vezes e vai e entra no feicebuque e vai e se debruça na janela da rua para ver o trânsito fluir.

       "Hoje é meu dia. Estou comendo essa maçã e escrevendo isso nesse diário. O resto estão todos bem. Você acha que é, você acha que sou? Há pouco vi um cara de olhos azuis muito perfeitos. Escrevo com as duas mãos enquanto seguro a maçã nos dentes. Ele me olhou de passagem não falou nada mas como se dissesse que queria muito me... morder. De repente senti essa vontade enorme inadiável de andar de bicicleta, mas eu preciso comprar uma bicicleta. Embora o Pita tenha olhos de outra cor, e daí, nada a ver."

       Um sorriso de um branco mais que precioso, transfigurado, brilho assim prateado, quando Meri ri tudo num raio de duzentos e setenta metros quadrados se ilumina, gota de água puríssima, aperolado, opala de cor preciosa e preferível.

       Choveu parte da noite e eu me enchi mais um pouco nas cabeceiras nos mananciais. No dia seguinte vi o sol às cinco e vinte e dois e a lua às seis e doze. Percorri um dia claro e tais e quais. Rolo dentro de uma caixa de areia e pedras, etc. O que eu destino o que eu oriento o que eu digo o que eu levo é muito por experiência própria. Chego e me distraio com a baía de Iguape. Essas paragens são ótimas e todas povoadas de socós, tuiuiús, garças-brancas, saracuras, colheireiros, biguás. A barra verde do rio Vermelho. Hoje, hoje mesmo, eu contemplei as aves aquáticas nos seus voos pesados o alvoroço que fazem na manhã e no fim da tarde e no almoço, no almoço, e me perguntei:

       Meri querida abriu uma loja de aviamentos lãs linhas novelos agulhas, Meri Elen Aviamentos. Não vingou pois o ponto era distante do centro. Alugou uma peça no centro da cidade e abriu uma loja de roupas masculinas calças bermudas camisas de botão gravatas meias cuecas sapatos cintos. Não durou muito pois a concorrência já estava instalada a bem mais tempo. Inaugurou uma loja de produtos de colégio cadernos lápis canetas borrachas lapiseiras pastas colas mochilas enfeites de aniversário o nome em inglês To Look e durou só um verão. É que o preço bom já vinha demarcado endereçado desde da 25 de Março.

       "Mas eu prefiro lamber ou ser lambida? Eu sei que ainda vou pensar sobre isso. Nada mais a declarar por hoje, tchau! Me falta alguma coisa então acho que vou tomar um comprimido para dormir. Estou sozinha e sem saco para a internet. Amanhã eu vou acordar às dez e depois não sei ainda se vou à praça de alimentação. Eu só queria me desligar de tudo só até amanhã ali pelas dez e meia. Antes que me esqueça, eu estou com vontade de levar uns tapas na bunda. De leve leve. A cidade lá embaixo noturna parece um fundo de mar e afogada. O mais importante que não sei de quem, se do Pita ou de alguém que estou pensando, de quem."

       Unhas pintadas em arabescos em mandalas, um dedo de outra cor ou outro desenho, com pedrinhas que faíscam conforme a luz e se perdem conforme o uso, unhas um pouco longas e tamanho feminino. Sair sem um motivo sem um lugar definido para bater o carro na saída do posto de gasolina.

       Com a loja de bichos de estimação, ela adotou um cachorro de nome Quenquém. Depois de dois meses um gato com apelido de Saputá. Mais tarde um pássaro da fauna internacional que chamou de Charão. Até chegar num peixe decorativo que ficou nomeado de Boró.

       O sorriso papagaio.

       O Quenquém era legal e divertido pois quase não parava de pôr a língua e sacudir a cauda. O Saputá fazia companhia para assistir televisão e trocava de canais e aumentava o volume na conta própria. Charão cantava imitando os pios que vinham de fora ou o gorjeio que vinha do rádio. O Boró nadava e mandava beijinhos e chupos e estalidos de beijinhos e de chupos de debaixo da água submerso mergulhado.

       Boró acordava cedo e despertava com a luz e vinha na superfície sempre que via Meri Elen por perto. O Charão cantava e arremedava sempre que queria comer ou brincar ou sair da gaiola. Pois Saputá acordava para comer e assistir o programa preferido. Quenquém acompanhava a dona pela casa seguia ela até no banheiro uivando o rock de garagem pela calçada até a padaria sentado no carona andando junto ao meio-fio cheirando as plantas da rua não perdendo a dona de vista sociável com outros da sua espécie.

       "Eu sou toda sensações, mas o que é isso de sensações? Depois da chuva eu e Quenquém demos a volta na praça dos Acroá. Enquanto Quenquém, eu fiquei lendo abri o livro na página oitenta e dois fiquei tentando me concentrar na leitura poucos diálogos da Alice Para Sempre. Os japiins-do-mato tricotavam no alto da bracatinga. As plantas gotejavam pingos moles. Paramos na padaria para comprar pão de queijo e melancia plastificada."

       O sorriso melífluo.

       O peixinho Boró tinha todo o aquário para si dois palmos quadrados e água todo dia renovada com enfeites no fundo pedrinhas arca caravela e umas algas que faziam as vezes de moitas. O gato Saputá tinha a caixa de areia no canto da área. O pássaro Charão a bandeja da gaiola ou o parapeito da janela ou a prateleira com enfeites esquisitos lembranças da Bahia de Vitória de Pelotas do Internacional. O cão Quenquém saía acompanhado toda manhã ali pelas onze e meia para a rua perto de uma árvore no jardim do meio da avenida na praça debaixo do guarda-chuva sobre a manchete do correio diário, conforme.

       Quando eu olho para mim mesmo eu me reconheço eu reconheço o céu o sol a cidade a montanha e todo mundo. Eu gosto de barcos de praias de peixes de aves aquáticas. Não sei se eu mereço, mas tenho o tamanho de tudo. Agora mesmo eu faço a curva e almoço na aba sul da montanha Dedo de Deus.

       O pássaro tinha olhos de Boró, o Quenquém tinha olhos de gato, o peixe tinha olhos de Charão, o Saputá tinha olhos de cachorro. Meri Elen tinha olhos e sorriso e focinho de dona de cachorro gato pássaro peixinho.

       O sorriso de Meri parava o tempo parava o ar parava o trânsito parava o país. Como um raio como os raios de luzes naturais sobre a prata ou sobre as preciosas pedras opalas. O sorriso de Meri jogava os longos cabelos para trás e ria. Tique-taques para sustentar as pontas dos cabelos e não pendularem diariamente diante dos olhos. Os homens reparavam distendiam convencionavam nela o que as outras não tinham nas outras faltavam. Quando ouvia barulho o seu sorriso era rocha rock pedras cantando.

       Um dia o aquário ficou tranquilo como água de tanque. Um certo dia o pássaro deixou saudade numa pena verde metálico abandonada no chão da sala de estar. O gato não compareceu ao pires de leite morno na pia da cozinha. O Quenquém saiu com a Meri pela coleira em horário de sempre e foram passear ao longo da rua arborizada Valentim Magalhães ida pela esquerda volta pela direita.

       "Fui no feice e mandei ver os recados aos quatro cantos e para tais e quais. Mas eu gostaria de viver em Manaus, pelo menos uma temporada da minha sorte. Mas eu gostaria de morar para sempre em Brasília, pelo menos uns meses. Mas eu tenho pena de mim que não saio daqui desta cidade nem com reza braba. Do meio dos meus ex-bichinhos de estimação, somente o Boró gostava de rock. O aquário se tremia todo Boró pegava onda a água se oxigenava. No fundo no fundo eu ainda queria ser índio gueguê e chamar Tiê-Preto. Certo, Chapéu?!"       

       Os oito anos já haviam se passado que Meri convivia com o amante e sem maiores pesos ou medidas ou sobressaltos. Cada um sabia o que o outro pensava, cada um sabia o que o outro sentia. E nessa altura o destino quis que Pita se fizesse separar da sua esposa e ficasse livre como um cachorro abandonado numa ilha anônima.

       O sorriso risonho.

       Sendo assim, Meri Elen Jacumaíba mais Pita Jaguané, casaram. Decidiram morar com a família dela, no interior, no distrito de Botocudos. E o distrito a essa altura depois de oito nove anos já tinha virado cidade dois mil e meio de habitantes com outro nome Paiaguá e o mesmo endereço a mesma latitude.

       (O gosto de pegar tudo com a mão,

        Esperando o sol secar igual cavalo na chuva,

        O melhor abacaxi vem do Nordeste,

        Nuvens fritando bolinhos de chuva.)

       As ruas estavam sempre calmas parecendo sempre no domingo de manhã em a nova cidade Paiaguá no bairro Curugu. Os joões-de-barro habitavam com suas gargalhadas assim mais ou menos. As casas de janelas escancaradas, flores em latas velhas de tinta, cães nervosos atrás de cerquinhas de ripas de madeira apontadas e pintadas de branco ou de azul. Carros tomando banho na frente da garagem ou no meio-fio e aproveitando o gosto contrafeito do vizinho para detonar uma certa música que acesa a todo volume. Um mundo com qualidade de vida, bem-te-vi na porta, gambá escondido no teto da garagem, cumaru-amarelo perfumando no pátio, cardume de taviriris conquistando os canteiros de orquídeas e de bromélias, sem dúvida sem demora sem pressa.

       "Estou sem cabeça para escrever ler na internet falar no celular. Sim, eu sei. Assisti um filme e fiquei impressionada, íntima, estonteada, recortada. Estou sem cabeça para pensar, então, eu penso em nada. Estou sem cabeça para dirigir, senão eu ia a algum lugar da cidade fazer alguma coisa que não sei, etc. A história se passava no interior do Espírito Santo, a cidade de Corumbá de Goiás, e narrava que dizia que o casal se separou e cada um foi para seu lado e existir a dita própria de cada um em separado e lá pelo segundo mês ela descobriu que estava grávida não disse nada pra ele nunca mais não disse nada pra ninguém nunca jamais e não se falaram nunca mais e ele nunca ficou sabendo de nada jamé."

       Era aquela noite grande de lua enorme fazendo luar doce e claro como o dia, praticamente. Cheguei a Guaratuba. As pessoas me olham e me curtem. São olhos de todo tipo. Onde no passado era um imenso carrascal hoje é Guaratuba e como cresceu e cresce. Provavelmente amanhã ou depois posso e devo embarcar numa chuva, amanhã.

       O céu achatado. Uns anzóis como aspas no diário de Meri:

       "Acordei, tomei banho, tomei café, fui com o Quenquém ao mercado comprar bolachinhas maria suco de açaí, vi uma porção de rolinhas-caldo-de-feijão espalhadas pelo chão da praça Mandaçaia, preparei o almoço, almoçamos com Pita, fiz chicote do cabelo, fui ao cinema assistir uma comédia, e dessa vez, jantamos com Pita e estou escrevendo este diário e pouco antes ansiosamente de dar que já me está paralisando o cérebro, praticamente."

       O sorriso sublime.

       Aqui me desvio para a esquerda para passar bem rente por esse lugar feliz e raro e conhecer de perto as grutas tão decantadas. O parque estatual Cunhambebe, o lago serra da Mesa. Repetidos sem conta e perdidos pios de urutau. Vou devagar e levando no bojo jurupocas, mandis-chorões, bagres, dourados, piratingas, joaninhas, acarás-disco, piraís.

       O rock invade os miolos e galvaniza todo o corpo num nervoso numa tensão num tesão de carne ossos ganidos cabelos pra baixo e pra trás. Ela esquece tudo e só fica pirada nuns desejos e pensamentos elevados e violentos e velozes, perturba tudo e fica cheia de sorrisos e satisfeita. Falou para o diário, depois, já meio mais calma e pacificada:

       "Eu amo rock! Demais! Tudo! Caramba! É um êxtase uma raiva um power tipo assim de animal na jaula, ira! Meu combustível, minha vitamina, muita adrenalina. As vozes dos caras, vozes muito cavernosas, letras satânicas, linguagens malditas, vozes muito cavas, muito cavas, vozes medonhas, muito central, muito ancestral, muito catedral, ok, cara!" 

       Já noutra manhã, de manhã, ainda, todo o mundo queria mesmo pegar o sol com a mão e ele escorregou para o céu. O novo céu brincando de avião a jato, andorinhas, peixe-frito, alma-de-tapuio, picaçu, japu, marianinha. As árvores crescendo com o vento, espinho-de-maricá, boicaá, bucha-dos-paulistas, assa-peixe, caabopoxi, cará-barbado.

       O sorriso ímpeto. 

       De outra página virada do diário aberto de Meri Elen:

       "Você me parece com cara de quê. E escreve e olha o que escreve e fica escrevendo o que pensa. Eu não te reconheço. Não sei de nada.

       E onde penso que vou, de onde penso que volto?   

       Sou a mesma de ontem. Quero ser a mesma de ontem. Não sou a mesma de ontem e de amanhã.

       Olho esse texto. Tá olhando?

       Olho o horizonte por trás daquele morro do Realengo. Tô olhando.

       O horizonte é um rio. Um rio é horizonte.

       É o que quero ver.

       Pois eu vou me dizer e te digo:"

       O dealbar do dia, jurupensém saltando no meu meio de rio, aves palradoras e gritadoras, teiú pacífico deitado no galho do curuiri. E farfalhando folhas caindo do guajará-branco, do cajueiro-bravo, do nó-de-porco, da beldroega-grande, do gulandim. A favor de quantos, de quem especialmente, a favor do mundo, a favor de um por vez e todos de uma vez. Passa voando a sombra do gavião-tesoura e chiando, pieeeé!... Eu bebo tudo, bebo as pedras, bebo a cidade de Giruá, bebo a minha sombra, o meu rio, bebo a minha maneira de ser. 

       Um ano, outro, mais outros, mais ainda.

       Depois da chuva. As estrelas brilham, os olhos brilham, as folhas verdes, anos-luz brilham, os insetos, as águas brilham depois da chuva.

       O sorriso obsoleto.

       Corro à rédea solta. De um lado terras dos pitaguari, do outro lado país dos pancaru. Passo no meio, desliso macio, sou bem fundo, largo e profundo. O que hoje em dia é pouco, no passado distante passei em meio às guerras lá entre esses. Sou bem tratado.

       Todos embarcam no mesmo rio, e eu cuido disso, e eu cuido, e cuido disso tudo. Conservo minha forma no verão, no inverno. De noite eu ando mais com vagar, sou bem dotado e ouço os grilos, os sapos-ferreiros, o bando de canelas-ruivas, os curiangus.

       Elen amanheceu. Não demorou muito, mais nada, pretenderam um filho. Meri muito mais que Pita. Fizeram de tudo e etc.

       O sorriso futuro.

       "Eu devo emagrecer vinte quilos, quinze quilos, cinco quilos, quatro quilos e assim por diante. Pita já emagreceu dez quilos e pretende mais dez ou quinze. Muito suco de melancia, que eu adoro. Tenho amigos no feice desde o Amapá até a Islândia a Austrália o Cabo Verde, etc."

       As minhas águas rolam, assim como os anos, e eu me levo junto. Sou da cor da terra como a cidade de Santa Rita do Araguaia e Anicuns e Itanhandu. Desliso pelas pedras corredeiras esfrego os olhos e corro. Devo descer mais um degrau desvio pela esquerda e procuro o poente do sol. Sinto vontade de chorar mas desisto.

       Dobro com essa curva para a direita e arredondo a cidade de Couto de Magalhães, terra bastante natural de tapanhoacanga, o morro Pedra Selada, irmão Jauru nos alcança, irmão Tibagi nos acompanha. Corro para o poente, aruanás rezam comigo, a noite é calma e fria, a ponto de. A lua, é meia-noite, cai dentro do meu álveo. Não sei mais o que vejo.

       Meri de barriga alta e grossas pernas pesadas rosto inchado os bicos pontudos os cabelos flutuantes. Se sentou na cadeira de balanço olhando o interior de si a barriga de si o mundo o planeta o Senhor dos mares e das estrelas dentro de si para si. Muitos talvezes e ses. Juntou os três dedos da mão esquerda nos beiços e ficou olhando fixada o olhar parado vazio pensativa em nada no infinito.

       "Deus?! E como se joga esse jogo e fica tudo bem? Me passa um recado. Eu rezo, é ousadia, e Você me passa um enigma. Queria começar de novo. E no princípio tudo era bom. Não acredito em Você, mas agora eu vou rezar, dá licença!"

       O sorriso altíssimo.

       Eu sou o sistema do rio e o céu continua côncavo distante imenso lendário. No mesmo ambiente de ingás-de-flor-amarela, mucujês, pacovas-catingas, favas-de-bolota, os alados cabatatus, araquãs, papagaios-da-serra, papa-capins que ficam disputando em andares diferentes o mesmo dia que inicia com a manhã. Sou a invenção dos números primos.

       Agora também sou o mesmo e sou outros ao mesmo tempo. Passo bem, passo ao largo de Boa Vista da Aparecida, são os dias 12, às 23h e 35min, quase os dias 13 de outubro, como se dizia. Grilos pendurados das estrelas e de cabeça pra baixo tocam dedilham se esforçam a gaita de fole. A cidadezinha tentando dormir como num espelho. Sou calmo paciente e venho da eternidade. 

       Meri e Pita tiveram o menino que puseram o nome de Tarumã, Tarumã Jacumaíba Jaguané. E passeavam com o filho no carrinho pelas calçadas com vitrines e na praça Pindamonhangaba. Dias de noitinha domingos feriados. Passeavam com elezinho no carrinho azul e branco pela rua de paralelepípedos trepidantes da rua Fagundes Varela. E era só eles dormirem que elezinho acordava.

       Noite de duas horas e trinta e sete minutos  quinta-feira do dia nove de novembro a lua no céu com as estrelas em escorpião brilhavam como nunca, Tarumã nasceu vestiu roupas casuais de toda cor foi lá fora correu atrás das coisas foi uma época que experimentou toda sorte de marca de cerveja casou com uma tal de Juriti da tribo dos guajá e foram morar em Volta Grande, não lia jornais não comia alface não suportou faculdade de direito nunca usou chapéu não visitou Aracaju fez a faculdade paga e tardia de administração beijou as duas filhas até os dezessete anos os oito netos à medida que surgiam passou porção de férias na praia Quatro Ilhas, veio a aposentadoria e a viuvez e oito viagens oito anos seguidos até Belém sempre para ver o Círio de Nazaré trocou o quarto carro colecionou um quadro com imagem da ponte Rio-Niterói a troco de decorar a sala de estar, fugiu do hospital para comer uma pizza de chocolate com queijo morreu ladeado por uma estrela e uma cruz às três e oito da tarde de sexta-feira vinte e um de outubro na cidade de Monte Alegre de Goiás capital do doce de murici plena de muricizeiros.

       Eu vinha vindo do interior de Rondônia, passo por campos de gado branco aqui e ali um chupim no cupim marruá escarvando vestígios de cerrado requeimado país dos janduí papagaios-moleiros fazendo buracos nos itaimbés suçuaparas corrupião-preto coçando a asa direitinho, deito na sombra, lia de olhos fechados a brisa com cheiro de brasa viva, me acomodei, me ajeitei desse lado que eu prefiro, almoço as pedras do leito, cochilei, cochilo.

       (Dormir pescar bater cabeça se é que se dorme uns cochilos intermitentes cochilos e mais cochilos nervosos um atrás dos outros;

        A chuva por trás da chuva, chuva por dentro da chuva, chuva antes e depois da chuva;

        Cores cítricas resolvidas cuidam como nunca de assobiar gorjear cantar para o amanhecer;

        A avenida Macurape com árvores postes cachorros automóveis, a praça Urupê deserta de árvores postes cachorros automóveis;

        A última mulher era boa morena adulta calça jeans apertadíssima piercing no nariz e com uma senhora sacola a tiracolo;

        Bateu três vezes a cabeça com a cabeça na lua;

        Então, uma alma não morre e volta sempre quando quiser e para rever e servir aos amigos redivivos.)

        Eu sempre fui rio e quando morri rezei muito para reencarnar em rio e consegui. Não é difícil ser rio, e eu gosto. Rio tranquilo por entre pedras por baixo das sombras das árvores, etc. Se passou essa história em Itapetim. O meu caso é sempre ser rio rumo do mar. Ser rio é difícil contentar a todo mundo. Vejo uritutu, teatro Santa Isabel, cardume de caranás, boi barroso, cardume de guaximbés. Para encher isso tudo no mundo, etc. Eu arrastando o sol daqui pra lá e de lá pra cá. É uma, né?!    

       "Quando eu era menina eu queria ser menino, agora sou arremesso. Mas na próxima encarnação eu quero ser borboleta com duas asas apenas duas semanas de vida e uma uma só chegada me chegará. Vou pendurar roupas na área para secar. Quando sobra tempo não tenho o que fazer, quando falta tempo tudo por fazer. Comprei ganhei todos os azuis possíveis para o pimpolho vestir daqui até o inverno o verão de 2020. Comprei um colar de ouro para enfeitar a esposa do meu marido." 

       O sorriso universal.

       Boa parte de mim mesmo já dormia o sono das águas paradas ou muito calmas, aí pelas 2h e pouco, quando descaiu uma chuva avassaladora e não pude mais dormir de ponta a ponta. As piraíbas muito bastantes gostaram imenso. Sem demora fico grosso vermelho e transbordante. Me precipitei por lá na altura de Timbé do Sul. Carrego no papo empapuçado o rolo compressor da enxurrada com terra e seixos e galharias de erosão em avalanche. Chovia todo dia. As pontas das montanhas e morros descem para me pegar com mais força e volume.

       A primeira palavra de Tarumã? A primeira letra de Tarumã? A primeira pergunta de Tarumã? O primeiro T de Tarumã? Quem adivinhou, quem soube, quem entendeu, quem viu primeiro.

       Apesar de sempre querer ser homem, Meri está cada vez mais mulher; apesar querer sempre partir para algum novo endereço, volta para o primeiro ninho; apesar de querer sempre ser independente, vive cada vez mais enfiada nos seus. A pele pegou um pouco mais de sol, mas os olhos e o sorriso não mudaram nada nem nunca.

       "Mas Taru já é um menininho afoito que empurra cadeira se joga para a luz da janela e chama quando tem fome e dorme em qualquer lugar e acorda sempre às três e vinte e oito. E ele me cheira e me olha e me sabe e me faz bem, um bem enorme. Não tenho palavras, só olho. É preciso entender para melhorar. É preciso que aconteça para se aprender. É preciso selecionar para sentir saudades."

       O sorriso ocidental.

       M. Elen sim gosta aí sim de cabelos longos e power power como o próprio coração power. Como se explicar que o rock dá um tesão enorme. E ela se joga e se abraça e o que vier na cabeça e power vira roqueiro fica numa pilha e se agiganta como defunto da tumba vira bicho de dente de sabre paisagem na era da pedra lascada homem das cavernas túnel mal-assombrado das eras antes e depois de Deus na terra, etc. Não é para entender, é para se ouvir, é rock, é power. O corpo tinindo com vontade de gritar e grita e ri e escabela. O som power é o som que ela sempre power power quis e tem vontade de power. Ela para de agitar e atende o feice, porra! é alguém.

       Naquele dia tão antigo de outrora que faz muito do tempo, oi então, eu viajava escoteiro, Deus por testemunha, Deus servido, ia pelo trilho escolhido, pelo valo sem fundo das terras dos guaná, noite e dia, chuva ou sol, pé por pé, pombas-de-bando em revoada ao longe, céu com terra, vou porque vou. E o futuro todo dos pés à cabeça todo ele de todos de todos nós depende de mim exclusivamente de mim, de mim. O meu braço esquerdo de mim estava caindo com força de irmão rio Paraibuna. Escuto os guachos cantando na mata ciliar. Passo raspando por Crixás.  

       No primeiro aniversário de Tarumã, elezinho aprendendo a segurar balão de ar da cor azul branca amarela vermelha, Meri contando pras comadres nos dedos da mão a trajetória dela com elezinho, o seu Pita envolvido debaixo da escada sugando o pescoço da irmã mais nova de Meri e talvez mais bonita que a própria Meri Elen dos bons tempos de Meri Elen lindíssima, etc. Foi depois de cantar os parabéns, Taru chorar oito vezes, acabar o guaraná e alguns convidados já terem ido embora, etc.

       O sorriso visível.

       Eu corria entre praias do Piauí, entre matos de buiuçus, tapiricas, canelas-capitão-mor, marias-pretas, e cidades altas e baixas, Aruanã, São Gonçalo do Amarante, Treviso, Ulianópolis, me junto com os irmãos rio do Peixe, rio Paraopeba, rio Meia-Ponte e é o que te digo. De quando em quando cai uma chuvinha que muito me acomoda e muito me apessoa.

       Quem contou isso tudo para a Meri foi a própria irmã caçula bendita Jarina conhecida na família como Já ou Ina, que disse tudo como foi e aconteceu e explicou direitinho, às vezes tentando olhar a irmã mais velha nos olhos e difícil, confessando por conta e risco, não sabendo onde pôr as mãos, descarrilando:

       - Tipo começou quando eu nem sei tipo quando vocês vieram para cá pra Paiaguá tipo de volta para nossa casa tipo um olhar dele me derreteu tipo um beijo forçado dele me derreteu tipo ele me emprestou trezentos reais a fundo perdido tipo houve outros beijos na boca tipo beijos no pescoço tipo eu prometi não abrir o bico tipo ele prometeu me ajudar e ajudou a comprar passagem aérea para BH tipo um dia eu descobri marcas de dedos nas coxas tipo eu descobri que não resisto a beijos no pescoço tipo ele me presenteou com um celular tipo não sei por que tudo isso comigo com ele com nós tipo fico alucinada com beijo no pescoço tipo ele soube explorar isso tipo mais beijos escondidos tipo lambida no pescoço tipo fiquei doida tipo não me segurava mais tipo o que ele queria eu dava tipo o que eu quero ele me presenteia tipo isso está rolando a três meses tipo é isso tipo não sei se mereço seu perdão tipo me perdoa tipo você nunca vai me perdoar tipo deixa eu chorar em paz tipo ninguém merece tipo eu errei mil vezes tipo se é para chorar então eu paro tipo...

       E a Já cansou de se confessar, e enquanto falava a voz ganhava um eco ridículo que dava até para rir se quisessem, e Já sentiu uma falta de fôlego, uma ânsia de acabar com tudo, e Jarina sentiu sede.

       Meri até teve muita calma nessa hora: cumprimentos e muito bem! Depois imediatamente, passou a mão nos cabelos assim. Foi que ouviu tudo que pôde com calma e segurança e olhar na parede. Sentiu algo flutuar, a ideia. E virou as costas se retorceu e se foi para a cozinha preparar o de-mamar do Tarumã. Ouviu algo estilhaçar, o rumo. Sentiu algo ranger e bufar, o prumo. 

       "Um pouco de risco é bom um pouco de dúvida um pouco de perigo um pouco de crise vai me fazer bem. Eu fiquei perto da parede com o dedo na parede e me perdi pensando em nada, acabrunhada, indiferente, o ombro na parede, muito não sentindo, e o tudo vazio, o frio, as lágrimas começando na garganta e com muita dó de  mim. Eu sei que sou um rio e meu filho é outro rio e os rios saem dos rios o rio saiu de mim. O que importa, importa muito, importa tudo. E nada disso aparece."

       O sorriso metafísico.

       As perguntas que se faz nessa hora e tudo mais:

       - Oi! Quando essas coisas explodem na nossa cara com a nossa cara como juntar todos os caquinhos? Como almoçar? Como dormir?

       Meri se sentiu muito imatura. Ademais tudo parecia mesmo praticamente novo. Se sentiu também como se tivesse que recomeçar do zero. E tudo chato, tudo polêmico. A tal da esperança.

       Me lembrei que já era domingo de carnaval, que já estava em o lago Arari, que já estava muito perto do macaréu, a chuva em boa parte de mim foi torrencial a noite toda, o dia seguinte todo e me espraiei. Positivo. As tabujajás piavam em meio aos sarandis. Pois não.

       O sorriso substrato.

       Meri olhou para dentro de si e tudo mais, olhou para si, olhou para Tarumã dormindo na caminha, olhou a noite quase no fim, olhou as casas se revelando ao dia, olhou sem olhar, olhou a rua Cuité, olhou e deu voltas e mais voltas. Pensou alto mais de uma vez:

       - Oi! O que fazer ou não fazer, fazer ou desfazer, fazer e acontecer?

       O sorriso aquífero.

       Depois do choque, a Meri Elen foi pensar uma saída para a falcatrua. Obrigação dela. Custava pensar nessa questão e o pensamento sorteava um moinho de opções. E houve dúvida como pintar uma flor. E houve dúvida como imitar a postura do bacurau. E houve dúvida como inaugurar um labirinto. E houve dúvida como achar um tesouro.

       O sorriso simplificado.

       Sou a novidade, o antigo, o que há de vir, etc. E vou dizer com todas as águas. Aqui eu coloco esta cidade de Diamante do Sul, ali a ponte estaiada, ali a serra da Canastra, os periquitos-reis na copa da jabuticabeira-branca, ali a Meri Elen me olhando sem me ver.

       Meri esperou três meses para se decidir e aprovou essas resoluções. Cortou fora o e jogou para além da janela aos cachorros. Meri encheu a cara de Pita no jantar foram fazer pela madruga afora e seria aquele o milésimo gol da milésima vez e ele dormindo anestesiado ela pegou a tesoura segurou na ponta e zape correu à janela aberta e jogou para o pátio onde os cachorros começaram a disputar com alvoroço lavou as mãos que o maior acabou engolindo o menor.

       O sorriso peixe.

       Elen foi no banco raspou a conta conjunta e convidou o melhor amigo do monte do marido para um passeio de fim de semana em Gramado e Canela e Nova Petrópolis e São Marcos. Quando voltou três dias depois Pita perguntou onde você se meteu sua maluca eu fui e passei um ótimo fim de semana com Juá seu melhor amigo nus em pelo nos hotéis paradisíacos com cama redonda paredes espelhadas cinema a bordo cascata artificial camareira e garção no toque de campainha e espumantes gelados para refrescar o banho na banheira de hidromassagem e com que dinheiro com o nosso dinheiro meu e seu por que não gostou achou pouco e olhe que ainda posso fazer melhor e mais longe e mais demorado e fila indiana com mais de um de dois dos seus ótimos amigos alguma mais pergunta alguma dúvida.

       O sorriso paisagem.

       Saiu de casa, ela e Tarumã, e foram viver numa cidade distante que até hoje não se sabe qual é mas que tem de tudo um pouco e se vive bem conforme tem praças tem teleférico tem shoppings tem praia na frente zoológico plantado dentro de um mato de árvores que cantam pássaros do dia a dia e até homens tico-tico dispostos ricos viajados em boa forma a escolher.

       O sorriso aventura.

       Não obstante. Pegou deu uns tapas na irmã sem noção jogou uns pratos e panelas e talheres na cabeça do Pita cara de pau disse as verdades aguardou uma semana levou uma semana e depois não se falou mais disso e a vida continuou por ali mesmo voltaram às mansas e assim e tudo mais e tudo muito corriqueiro e pacato e remendado. Até porque as pessoas são livres e devem ser livres para sempre e independentes e respeitadas nas suas liberdades esse negócio de casar e ficar preso em anéis e em casal é coisa inventada de passado antigo remoto ou coisa de araras-vermelhas-grandes.

       O sorriso estrela.

       Desliso por entre tardezinha laranja e matos verdes, vou deixando praias brancas ilhas verdes lagos engraçados, ouvindo o gargarejo das capororocas, e sempre por terras pretas ou vermelhas ou tabatingas. Tempo seco de poucas chuvas, frio, tempo chuvoso e quente, indo de menos cinco a mais de quarenta graus. Quase tudo dormia quando passávamos por Passa Vinte e cruzamos por baixo da ponte e sigo adiante.

       Assim, eu afirmo, eu mereço você merece nós merecemos Meri Elen merece, e que é que é sempre que se olha para uma ponte suspensa no ar embalado da tardezinha embalado na paisagem tardezinha.