domingo, 29 de outubro de 2017

Contos de Santa Luzia (21)

                                               

            Depois, um dia inseto, e por qualquer “se”, a menina se tornou uma moça - isso com força e vontade e aptidão. Aí, sua ilusão apareceu tresandou e passou ao comportamento do dia a dia. E ela não se preocupou mais com nada a não ser encontrar um namorado um chamego um ficante. Se revestiu de maquiagem dourada. E respirou, soprou, fungou, tossiu. E pensou viagens aleatórias. Quem entende? Agora uma coisa indiferente: ela se mostrou completamente outra.
            Cogitou de si para si remoeu, e suspirou:
            - Sei o que hei...
            Com quatorze anos e a dissimulação nos olhos azeitonados... Quando olhava não somente olhava, mas sugeria - cada um que entendesse o que quisesse.  Assim, um olhar enviesado, matreiro, manhoso, vesgo, indeterminado, três por quatro. Acompanhado de esgar debochado, sensual, venenoso, sugestivo, intercalado, inconcluso. Quem entende? E principalmente, ela não sabia o que pensar.
            A moça se lembrava sempre que quando era menor seu padrasto a jogava para cima, pegava na volta; e a jogava para riba, amparava na queda. O padrasto repetia essa palhaçada, e os dois se entendiam muito. Ela gritava de assustada, o padrasto uivava de tolo.
            O nome da moça: Batota. E ela procurava o Solstício. Andava na rua Única pegando Solstício na cara na cabeça. Descobriu o perigo que o Solstício cometia fazia a sua pele. E o Solstício até comprovou. Talvez pudessem andar juntos e uma para o outro. Talvez tivessem acontecido mesmo um para a outra. O Solstício para o calor; a Batota para o dourado.
E verão e calor e mormaço e poeira vermelha eram fenômenos truques que não faltavam na vila Santa Luzia. Os dias mais longos, as noites assim mesmo alaranjadas.
            Batota passou para o meio da única rua, rua Única, rua ali da aldeia de Santa Luzia. O pó vermelho encobrindo empanando empenhando tudo. O Solstício derretendo tudo. Não chovia há uma década. O calor provocava sonolência, preguiça, miséria, dor de cabeça. Batota se deitou perto da capoeira seca, no meio da areia cinzenta, pernas abertas para provocar e chamar para si toda a atenção do Solstício.
            E o Solstício veio logo veio pronto e com tudo. O Solstício, aliás, nunca saiu dali do lugar. O Solstício fazia o verão inventava o deserto, e entrou em contato com ela. Logo o Solstício foi para o zênite, e não saiu mais do meio-dia, e das doze badaladas. O dia quente tonteando todas as coisas. Solstício implicante. O dia abafadão, o oco meio encoberto de fuligem vermelha. O Solstício um forno, um caldeirão, uma fogueira, um vulcão.
            Uma mula sem cabeça que caiu na esparrela torturada atada pela perna presa na armadilha no meio do capoeirão incinerado.
            Batota torrava ao Solstício quanto podia. O corpo era dela... as partes também... ninguém tinha nada com isso. Nuvens de poeira vermelha às vezes atrapalhavam. E Batota abraçada ao Solstício, ao calor, ao dourado. Tudo podia acontecer com ela. E disse isso a si mesma e muita coisa mais:
            - A culpa não é só minha, minha.
            As árvores ressequidas e terminadas pensavam, pouco pensavam, lá entre com elas as desmilinguidas capebas-mirins: “Essa moçoila quer algo mais e uns quebrados.”
E passou um redemoinho dirigido por um saci que gritou, que ferveu, que já foi perguntando:
            - Aonde ela quer ir e chegar?
            E outro redemoinho de poeira irônica estacionou ali e respondeu:
            - É, eu nem duvido. Esta pergunta é desimportante.
            Quando Batota menos esperava, fosse à hora que fosse, pronto... uma pedra repicava no chão perto dos seus pés. Eram decerto os incertos moleques que estilingavam.
            À noite Batota namorava a Birra. Não perdia tempo. Podia ser da janela, ou do telhado de palha seca de ex-bacabaís, ainda mesmo do meio da rua Única. Olhava a Birra no alto, enfim. Quando as nuvens de poeira não eram tão fechadas, uma vez. Noites mais ilegais, a Birra aparecia a Birra prometia e a Birra confundia dentro dos seus olhos. E emaranhava o seu cabelo tinto de poeira amarela. Agora, ali na noite, Batota se mostrava outra.
            Nas noites os lobisomens se atrasavam e confundiam as horas. As matintapereras torciam o pescoço. Imagens rápidas, riscos de fogo e gás incendiando, ruídos camuflados dentro da escuridão, flashs acompanhados de grunhidos invisíveis. Rastos de sons não identificados. Presenças inventadas. Sensações mágicas, feiticeiras. Coisas indevidas. Eram os fantasmas da aldeoca. Eram entidades, elementos, patrocínios, e senhoras e senhores fantásticos. Eram rastos de pés descalços, eram riscos de rabos, marcas de dentes, eram impressões digitais, garatujas de garras, eram pegadas de patas, sinais de cascos.
            Um jurupari, encapotado na sua naturalidade de diacho, riscou com mais esta:
            - Outra vez essa Batota?
            O outro jurupari mais distante, já respondia:
            - É mesmo. É uma pergunta desinteressante.
            Batota, sardenta, penugens de cobre, cabelos de fogo, penugens nos braços e pernas. Os moleques e as molecas lhe atiravam paus, pedras, cacos de telha. Os pixotes a chamavam de mico-leão-da-cara-dourada. E Batota dizia ou gritava:
            - Vai ver que é!
            Batota, então, se escondia no capoeirão seco. Deitava ali à espera que o Solstício a consumisse, bronzeasse, lambesse, arretasse. Olhando o Solstício: bolo de fogo: carroça de fogo: serra circular de fogo. Fogo que engolia o deserto. Calor sufocante por dentro da poeira vermelha.
            Batota gritava desesperada, estonteada, furiosa, desnorteada, e surpresa:
            - Me coma inteira! Me lasque fogo! Me queime toda!
            Tanto tempo Batota ali no ex-roçado pegando o Solstício... O Solstício querendo lhe extrair o fígado. E ela pegou a tremer e a sofrer uma insolação. O Solstício querendo chupar seu fígado como por um canudinho feito de raio uv.
            Batota pegou fogo e o capoeirão queimou como gasolina. Não chovia nunca! E Batota levantou chamas enormes. O capoeirão subiu na fumaça.
Os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos correram para o incêndio. E não havia o que fazer ou desfazer. A estiagem conseguia provocar muitos desses incêndios perigosos e incontroláveis e criminosos e espontâneos e simultâneos.
            A Batota queimou até a boca da noite. Batota queimou até a medula. Aí, voltou, lábios queimados de Solstício, nariz pimentão vermelhão, pele assada de bronze e cobre. Olhos muito claros, muito abertos, e tipo peixe morto. Meninas dos olhos requeimadas também. Voltou para casa. No caminho pela trilha em zigue-zague tropeçou, se adiantou aos trambolhões e caiu, pofe!...
            Depois que se tornara uma moça, Batota vinha sentindo que também queria sair na noite. O vento terroso tentando pegar a sua mão. Procurando acobertar seus rastos. Ela procurava consertar a linha do cabelo, balançar a cabeça para os lados, sacudir os ombros para cima, ajeitar a linha dos olhos, arrumar a garganta, quase se engasgando, se engasgava, tossia, rufava, cuspia fora. De imediato lhe vinha à mente:
            - Onde já se viu!
E a Birra gostava dela, tanto que a enfeitiçava e a cobria de mitos e entes fantásticos. Assim, esse foi o motivo de Batota, às vezes - quando a caturrice incidia em certos dias da semana, sexta-feira, quando a caturrice varava as sombras das nuvens de poeira -, se transformar se modificar em mula sem cabeça.
Aí, era assim: pocotó! pocotó! e pocotó!... no meio da rua Única, pra cá e pra lá. Não importava a hora da noite. Trotava, mansa ou preocupada, pocotó! pocotó! e pocotó!... para cima e para baixo da única rua da aldeia de Santa Luzia.
            Dois anhangás-pitãs no alto do telhado de sapê da capela, comentando as coisas que viam e não viam, comentaram esportivamente, o primeiro falou:
            - Mais uma vez... olhe lá... a mula sem cabeça, na dela!
            O outro rabinho de escorpião, perguntou:
            - Perdeu a cabeça?
            - É, ora! É uma pergunta muito irreprochável.
            E um arbusto seco na capoeira ressequida ex-cipó-rego balançou pra cá e pra lá com o vento empoeirando, pensando: “Só não quero que venha pôr fogo na capoeira, por acaso!”
            Batota voltava no fim da noite para casa, quase claro, quase tonta. E de repente, os olhos vazios, vazios. O dia nascendo igual por dentro do deserto de poeira marrom. Ela com os cabelos cobertos de fuligem, folhas secas, pauzinhos secos grudados.
Pois a Batota ia passando e um, vuuuu!... raspou muito perto da sua orelha esquerda. Decerto uma pedra atirada com incerta atiradeira por um desses guris aloprados.
            Quando Batota saiu pra rua às dez horas em ponto, procurou no oco o tal e qual de Solstício... O Solstício dominando o mundo. Uma dupla de matintapereras, discutiu:
            - Por que dez em ponto?
            - Ora, o que é que você quer?!
            - Se bem quê!
            - Qual o quê!
            Batota, dois seios em início de carreira, descia uma pequena colina de areia, descia pelo outro lado. O Solstício muito forte quente intenso perverso. Do outro lado já os guris bobos a estilingaram. Geralmente era isso o que acontecia. Naquele dia também. E foi num dia que até lhe acertaram nas costas. Outra vez ela correu, tropeçou, abriu os braços para aterrissar, caiu e aterrou, pofe!...
De uma feita, Batota atravessou pelo atalho da capoeira seca, os pixotes no seu encalço, o Solstício olhando tudo, e o Solstício a incendiou. Aí, foi então, que Batota virou redemoinho de chamas círculos de fuligens. Parecia o saci endiabrado, em dia brabo, em dia de espiral de pó vermelho. Mas, sei lá, a capoeira ardeu e os moleques não tiveram mais chance alguma.
            O Solstício era rasteiro, chato, sem conversa, e queimava muito mal as meninas dos olhos da Batota. O Solstício vinha buscar na cama caso Batota não pensasse em se levantar tão cedo. O não deixava por menos. O Solstício queria porque queria todas as horas do dia.
            Batota conheceu um culepe de palavras surreais. Mas pra quê! O Solstício ficou borbulhando, ardendo, frigindo, torrando os seus ancestrais loucos ciúmes.
O crila falava coisas aéreas, aleatórias, alheias, e assim, destravou:
            - Valores, normas e padrões... Quebrados, decimais e proporções... Colônia, colonizador, colono, colonização...
            A desprendida Batota gostou do piá por vários motivos. E o catraio era cheio de truques e não só com as palavras etéreas. Já o Solstício não gostou nada. O Solstício espiava pelas frestas e frinchas. O guri era endemoniado, e Batota preferia fazer pirraça. O Solstício, um marmanjão com invejas de um guri merdinha seca! Dito e feito.
            Pois a mula sem cabeça se enleou numa corrente de armadinha, um pé destroncado doendo muito, e ficou presa torturada abandonada esgoelada no calor sufocante.
            Três anos se passaram. Sem chuva, que já durava um milênio.
            E o Solstício ficou insuportavelmente quente. E a noite ficou fria. E Batota pegou gripe. Pegou resfriado e cuspiu e enxugou o nariz com as costas da mão e ardeu. Cuspiu no chão, cuspiu para o outro lado, cuspiu mais uma vez. Batota respirava com dificuldade, espirava e cuspia.
            O Solstício às vezes acordava de péssimo humor, envolto em nuvens de pó vermelho, e queria saber, perguntando, indagou:
            - O que você pensa de mim?
            E Batota impaciente, ou manhosa, ou sestrosa, falou:
            - Hoje não, que estou vazia.
            À noite Batota saía, naquela noite Batota saiu, como quase sempre saía. A noite da aldeia de Santa Luzia era quase nada, deserta, secreta. Então era mesmo deserta. Por isso ninguém viu Batota sair. Nuvens de poeira. Talvez ninguém a tenha revisto mesmo. Só ouviram o tal patear de, pocotó! pocotó! e pocotó!... Depois de uma parada estacionada outra vez o, pocotó! pocotó! e pocotó...
            Batota viu a Birra no oco e bateu os dentes. A caturrice não tinha som. Som tinham uns rastos de lobisomem. Som tinham uma com duas matintapereras riscando gemendo nos seus voos corridos e rasantes. A caturrice tinha, isso talvez, uma cor normal de poeira roxa. Tinha gestos livres e soltos e secos. A caturrice que banhava seus cabelos de vermelho. A caturrice que banhava a Batota de poeira. A que jogava sombras na galáxia. A com sexta-feira e pânico de calças curtas. A caturrice noturna com fantasminhas nada calmos.
            A Birra chegou perto e suspirou, rasgou:
            - Como você é dourada, Batota!
            - Dourada?
            - Dourada com gosto de terra, no ponto.
            - Ponto?
            - Ponto, pois não! Ponto maduro com baba escorrendo pelos cantos da boca.
            - Escorrendo?
            - É, escorrendo porque muito de salivar.
            - Salivar?
            - Salivar no duplo sentido.
            Os aldeões e as aldeãs ouviam o trote, o passo, o pocotó! pocotó! e pocotó!... da Batota. Os vilões se reviravam na rede de dormir sem poder deixar de ouvir. As vilãs espiavam pelas frestas das janelas pequenas e portas tortas. Espiavam quietos, psiu!... E sabiam que podiam atirar, acertar e matar a mula sem cabeça. Porém, se errassem também sabiam que a vingança seria horrorosa horripilante. E mais. Para matar mesmo uma mula de padre só com um tiro de bala de prata entre os olhos da bichorna. E quede os olhos da mula sem cabeça, hein?!
Assim, por essa pata ou esse pé, estava a dúvida dos aldeões e das aldeãs em não interferir no rumo notívago da Batota. Até porque, os vilões e as vilãs eram todos iguais e parecidos com seus ancestrais. Ou seja, não há o que acrescentar nem tirar de manhosos e matreiros e ardilosos e sagazes e perspicazes.
            Era meia-noite, e era a hora h da Batota correr para cima e para baixo da rua Única, relinchar e escoicear e nitrir, pocotó! pocotó! e pocotó...
Um jurupari quase cego, comentou:
            - Essa bichorna é folgada.
            O outro jurupari ali perto, quase surdo, replicou:
            - Mas ela não morrerá nunca, então?
            - Taí, meu! Esta é uma pergunta indeterminada.
            Uma ex-paineira, cabeleira desgrenhada e seca, pensou: “Esta Batota tem mesmo o cheiro de areia madura ensolarada, no ponto, ou seja!
            Já Batota estava deitada pegando o Solstício pelas barbas ali no meio do capoeirão encarvoado. Grande de seios, larga de boca, firme de pernas, feiticeira de olhos. Seios pontudos e firmes como dois espetos de pau. Boca sedenta de lábios grossos.
Uns moleques resolveram incomodá-la de perto. Foi pra já! Batota os viu ou os adivinhou chegando, e tentou correr para o outro lado. Correu tudo que podia, mas foi pouco. Tropeçou, testavilhou e caiu, pofe!... Os moleques a pegaram pelo cabelo ruivo. Aí, foi difícil para Batota aguentar. Eram quantos mesmo? Uns oito ou nove. E puxaram o cabelo vermelho dela; e cuspiram na bunda lá dela; e apertaram os mamilos lá dela; e enfiaram os dedos nos buracos; e mostraram os vários e variados burrinhos tortos lá deles; e fizeram ela correr e se rasgar toda nos galhos secos espinhentos da capoeira.
Agora, uma coisa. O Solstício viu tudo e não fez nada. É mesmo? É sério! O Solstício olhou, viu, viu meio entre nuvens de poeira vermelha, e não fez nada. O Solstício decepcionou. Quem entende? Quem sabe? O Solstício sempre quer parecer esse ser incerto.
            Um arbusto comum miserável uirari balançando por causa da rusga, por causa do entrevero, pensou: “Por que o Solstício, esse nosso chefe do dia insuportável, praticamente um deus terrível, não a defendeu?”
            Alguns dias se passaram. Não chovia há dez anos.
E Batota não perdia o quefazer para chegar no meio do capoeirão minado, onde se sentia aguardada espiada, e se deitar toda pelada, relaxada, em x, e esticada ao... Solstício. E naquela manhã de oco entupido de pó, não fez diferente, não agiu por menos. Se estendeu de comprido de estrela mãos espalmadas no meio do capoeirão queimado.
Foi ali foi dali, nessa moleza, que os culepes da vila a encontraram. Foi cercada e não teve como escapar. Lutou lutou, mas eles a pegaram de jeito. Tentou correr, correu, tropeçou, titubeou e caiu, pofe!... Parecia repeteco do filme de outro dia, não?! Jogaram-na numa rede e a penduraram no alto, num galho queimado de ingazeira seca, penduraram-na de pés amarrados de cabeça para baixo. E fizeram cócegas e deram mordidas e arranharam e beliscaram até vê-la se mijar nas bermudas, e invertida.
            Batota ficou esquecida lá presa na rede, suspensa no galho, enovelada na rede, emaranhada nas malhas da armadinha: como um ponto de exclamação. O tal e qual Solstício indiferente e inclemente e expatriado.
Dois sacis comentaram o descaso entre si:
            - Praticamente condenada à morte.
            O outro separou estendeu diante de si em pequenos tabletes a sua ideia fantástica e falou, perguntando. Perguntou:
            - Será possível antes das dezessete horas?
            - É, seu! É uma pergunta e tanto ou quanto imponderável.
            Batota passou a tarde toda presa nas malhas da rede da teia. E veio a noite. Saiu a Birra. A Birra a convidou. Batota se metamorfoseou em mula sem cabeça. Com as labaredas próprias dela, queimou as malhas que a prendiam e despencou no chão, caiu assim, como um peso morto, escorregou, pofe!... Na queda sofreu uma pequena escoriação torção numa das patas, torceu o tornozelo. Foi rumo da rua Única da aldeia manquitolando capengando, poco-tó! poco-tó! e poco-tó!...
            Dia tomado de fuligem poluição escura tempestade de areia. Que calor! Que mormaço! Que bafão! Não chovia há anos. As ex-capitaris apontavam seus dedos carcomidos secos queimados para o oco.
A impaciente Batota estava histérica, pegando fogo, suando por todos os poros. Olhou pelo buraco da janela, viu os moleques na rua perseguindo um piá deficiente. O piá tortinho chorava lágrimas sujas de pó. O piá perseguido se encolhia de nojo. O sorteado sabia que estava pelo seu dia d. E o piá latia pedindo por sos. E logo o maltratado tropeçou desequilibrou abriu os braços num crucifixo e caiu, pofe!...
            Ao acordar pela manhã, então, Batota sentiu a barriga. É, estava diferente. Quiçá desinteressante. Alguma coisa lhe acontecia. Assim mesmo, saiu para andar pela rua Única e talvez pela capoeira morta. Chegou num lugar qualquer e vomitou tudo que sabia, tudo que podia e mais uns quebrados.
O Solstício viu tudo e a acompanhou. O Solstício sempre seguia de perto de junto encima dos calcanhares lá dela; pegando nos cabelos de fogo e medindo a sombra lá dela; lambendo a pele bronzeada dourada acariciando a penugem lá dela.
Aí, mais tarde, não muito, o Solstício levou Batota para o seco capoeirão. Batota subiu um morrinho e o Solstício foi atrás no rasto e no encalço. Ali mesmo o Solstício a incendiou na barriga. Batota se esparramou se derreteu cochilou. E lá naquela hora, Batota se transformou em outra.
            A Birra cuidava da escuridão. A Birra tão estouvada como uma aparição fantástica, assustadora, cheia, sempre atrás das nuvens vermelhas pesadas grossas. A Birra peculiar e sui generis.
E Batota, muito à vontade, andou pela vila, pocotó! pocotó! e pocotó!... A Birra a encontrou grávida. A Birra lhe apinchou um balde de poeira vermelha. E Batota estava mesmo isso aí de barriga redonda bojuda. Toda coberta de poeira prateada. Agora, me diga: e naquela certa hora já se mostrava outra?
            A Birra ainda quis ter certeza:
            - E isso aí, Batota?
            - Foi o Solstício, é.
            Então, a Birra satélite, lunática, luneta...
            E o Solstício mormaço, soalheira, bafão...     
            A mãe de Batota perguntou mesmo do seu jeito, apontando para a barriga da filha, chamou atenção injuriou e inquiriu:
            - Pode me dizer algo sobre essa sua tua barriga? Posso pretender entender alguma coisa sobre isso aí assim desse jeito graúdo abaulado arredondado?
            Batota olhou a própria barrigona, pôs o dedo no umbigo saltado, e pensou, disse, falou mesmo, interrogando:
            - O quê?
            Aí veio o padrasto, e se sentou de pernas abertas na cadeira de braços, e inquiriu:
            - Como assim? Qual é o “o quê?”
            E Batota, segurando com ambas as mãos os enormes seios fartos fartos volumosos volumosos, pensou e disse: vamos ouvi-la:
            - E-videntemente!... E-vi-den-te-mente!...
            Dia raivoso, caloroso dia. Batota, barrigão, cruzou a rua poeirenta, chegou na pracinha. Uma moribunda capeba-do-campo resolveu pensar fraco sufocada: “Por que sair de casa pegando esse Solstício todo na cabeça?”
            Dois sacis, dois redemoinhos, dois diachinhos, duas arruaças, entre si:
            - Ela vai ao capoeirão seco.
            - Quando volta nem sei.
            - Retornará somada ou dividida? Voltará hoje?
            - Tão-só e isto é. São umas deselegantes perguntas imperfeitas.
            Batota andou rumo do capoeirão calcinado, despreocupada, mãos nas cadeiras, cabelos longos caídos nos ombros. Ela ainda se preparou para o Solstício. E o Solstício a seguiu lá de cima, entre a poeira vermelha, raspando no teto do oco do côncavo.
            No capoeirão desmilinguido, num monte de pedras, Batota se sentou. O Solstício queimava. Uns pivetes escondidos atrás das capoeiras tortas mandaram fundadas. Uma pedra a acertou no ombro direito. Batota sentiu muita dor ali na hora e tal. Entortou, desmaiou, caiu de frente, pofe!... e rolou no chão.
            Solstício, o fabuloso verão, já ia solto. Eram o quê... dez horas!
Batota acordou toda doída, toda moída, toda coberta de pó vermelho e pronta, toda dolorida, no ponto para dar cria. E foi... umas dores... e umas dores por dentro querendo se abrir... contrações e dores rascantes querendo rasgar... Batota ficou sozinha nessa hora do começo ao fim. Cortou o cordão com uma pedra batendo contra outra ou com os dentes.
            E era um guri de asas de fogo. Um pixote com asas de pontas douradas. E as asas cobertas de poeira. Um curumim enrugado curvado sobre si. Um pivete de olhos de fogo. Um culepe de asas douradas. Um crila empoeirado. Um catraio empanado maquiado de poeira cinzenta.
            Batota o reconheceu, e o aconchegou no peito farto farto, lhe deu os seios volumosos volumosos, e o protegeu cobrindo com os braços, cobrindo com os cabelos ruivos ou empoeirados. Não chovia mesmo há duzentos mil anos-luz.
A Batota já sabia que a dita seria difícil naquela aldeia seca do meio do deserto abandonado. Não caía água há anos e anos. Assim, decidiu se livrar do filhote. Tentou incentivá-lo a partir para o espaço sem fim, para a galáxia sem começo, rumo às estrelas sem nome, para outro planeta desconhecido, para o meio do Solstício de verão:
            - Vá! Vá para o teu pai! Vá para o teu pai Solstício! Vá para onde você quiser e se sentir potente e útil! Vá e vire uma estrela inédita!
            E jogou o piá no ar como se joga um punhado de poeira. Como se joga uma pedra. O guri voou já pronto e insatisfeito. Como se joga uma paina. Titubeante no começo, sem prática no início, sem destino, mas sempre para cima, para o alto, para o Solstício. Nem precisou olhar para trás. E o pixote alado, então, de fato voou para o centro do Solstício naquele verão interminável. Agora, àquela hora ali, Batota se mostrava outra.
            Já o padrasto foi procurá-la no meio do capoeirão falido e chegou na hora. Encontrou a Batota naquela situação de moleza e naquela situação de sem rumo. Discutiram longamente como dois torcedores de times rivais. Por quê? Porque ninguém tinha razão. Veja por quê:
            - Eu já esperava e não pensei nisso...
            - Pois não.
            - Também nem sei...
            - Por isso mesmo...
            - E mais do que isso...
            - A quem?
            - Não há que ver.
            - De início...
            De certo modo, então, o padrasto pegou o bebê - que dormia de barriga vazia - e o levou para a palhoça. Eram mais ou menos umas 14h e 41min. O chão estalando de seco. O solo rachado trincado. As pedras estourando de quentes.
Batota, tonta de sono, tonta de dores recém-passadas, tonta de emoções desencontradas, tonta de tanto ficar ao Solstício, zonza de perder o filhote para o espaço sideral... correu atrás. Correu atrás como pôde. Os braços jogados pra frente das pernas. Correu como uma tonta mesmo. Correu, tropeçou, tentou se equilibrar, sobrou, e caiu, pofe!...
            O padrasto chegou primeiro à pracinha. Escolheu ao acaso uma imensa paineira seca. Uma mamica-de-cadela barriguda e sedenta. Depois, com ferramentas e esforço físico, abriu um buraco no tronco seco e barrigudo da ex-árvore. Feito isso, o ritual, na frente de todo o povinho da aldeia - inclusive de Batota que já havia chegado e estava ali toda sem vontade -, fez mais e foi mais em frente e enfiou a criança no cerne da ex-árvore. A cria resmungou dormindo, nhã-nhã-nhãs!... Então, o padrasto reparou a casca da ex-paineira de volta no lugar. Tapou o buraco muito fortemente, costurou, emendou, pregou, grampeou, amarrou, colou, lacrou, apertou muito apertado. Será que o bebê ia sobreviver na árvore exangue exaurida exausta? E se sacudir pelos galhos secos? E murmurar pelas folhas extintas? E sair pelas sementes falidas?
            A noite surgiu e a Birra veio pressurosa visitar de perto o mundo conhecido e mal pago. Batota estava sentada junto da ex-árvore barriguda. A Birra sumia entre as nuvens cinzentas, ou mais baixa ou mais alta, entre as nuvens vermelhas.
            Uma pedra não autorizada soprou, vu-huuu!... aterrissou cantou junto do pé da moça. Sem incerteza se foi um moleque arteiro atirando com bodoque. Podia ser mesmo, por aquelas bandas!
A mula sem cabeça, pocotó! pocotó! e pocotó!... pateava ali em torno da ex-paineira grávida. E depois escoiceou a ex-árvore tentando reaver o rebento. Tentando reaver o seu bebê. Não deixou a aldeia dormir aquela noite e outras noites e noites.
E a mula de padre tinha a memória derretida. Por onde andava naquelas noites sem estrelas sem lua sem nada? De repente caiu num buraco e ficou presa torturada na ratoeira. E se mostrou transformada outra.
  


sábado, 14 de outubro de 2017

Contos de Santa Luzia (17)



            Ana Paula, um nome e tanto, o nome mais bonito de todos, foi um dia ao baile mais próximo de casa somente para encontrar por acaso por deuses por sorte Antônio Cacequi. E Antônio Cacequi procurava... uma montanha?, uma namorada uma noiva e logo logo casou com ela. Ana Paula gostou muito dos dentes naturais e brancos e bem cerrados do Antônio. Não tinham casa nem carro nem moto nem bicicleta nem ensino médio; mal tinham a eles mesmos com fome de bola. Antônio não tinha nem dois sapatos. Ana Paula não gostava de futebol. As coisas se completaram, mas não se fecharam. Tiveram um primeiro filhote: o Inço. Nessa época foram morar em Lagoa Vermelha: Coronel Xavier Chaves: Praia Grande: Nazareno... Sem querer nasceu a Aimara. Antônio Cacequi se identificava com o Internacional, e Ana Paula com as novelas das seis das sete das oito das nove das dez das onze, de todos os canais abertos e/ou fechados. Veio a filhota Tapaiúna, abençoada. Se mudaram para Cruz Alta: Sombrio: bairro Ponta da Areia em Niterói: avenida Marquês de Valença... justamente na fase recém-recém que nascia a Ivete.
            Ivete - D do céu quis assim - tinha uma distinção ótima de nascença: os olhinhos verdadeiramente e belamente verdinhos. Primeiro abriu o de cá, olhou um pouco, fechou o olhinho, e aí sim, abriu os dois ao mesmo tempo: os dois olhinhos lindinhos e verdezinhos como verdes são as folhinhas das plantas lavadinhas pelas chuvas do verão as violetas-do-mato. E o tempo correu sem que se pudesse vê-lo revê-lo, foi correndo sem que ninguém o impedisse. O tempo o rio mudando as estações de vez em vez e de quando em quando e de vez em quando. E Ivete se arrancou de casa aos quinze anos. Para quê? Mas pra quê! Ela achava que sabia, mas... - vai saber! Por quê? Como? Ela achava que queria ser monja budista e... - não queria? Carregou consigo umas roupinhas, um álbum de figurinhas de artistas de música e um caderno escolar com inúmeras frases feitas tiradas de livros e revistas e almanaques. Foi, claro, para Porto dos Casais: Rolim de Moura: serra de São José: pedir luz e graça diante da estátua de Santa Rica de Cássia em Santa Cruz do Sul... Queria arrumar um emprego; queria fazer faculdade de medicina ou biologia; queria um mundo novo; e queria outras coisas que ia lembrando pelo caminho. Graças a D, e aos pais, tinha olhos verdes (que no comércio local vai muito bem e útil e vantajoso como acertar sozinho na mega-sena). Primeira coisa conheceu a rua da Praia também dos Andradas; o Beira-Rio; o parque da Redenção; o bairro Moinhos de Vento. Achou bonito charmoso aconchegante o nome: Moinhos de Vento: Menino Deus: Cidade Alta: Teresópolis... No primeiro trampo trabalhou uma semana num supermercado oferecendo produtos novos para sanduíche, na verdade uma mortadela especial original marca vinda de Chapecó: Barroso: Atílio Vivacqua: Montenegro... Mas por ter os olhos verdes sempre verdes, tão verdes como a brisa do mar, foi descoberta por um gerente, o tal e qual que lhe fez um convite irrecusável, intransferível, perturbável. Ivete recusou o assédio e voltou para Cruz Alta: Prados: Rosário do Catete: praia de Ibicuí... cheia cheia de saudades. Seu Antônio Cacequi, o pai, lhe perguntou o que não queria nem saber. Por isso mesmo Ivete levou uma sumanta de levantar vergões no lombo e fazer bicho, e que deu medo até na vizinhança. E como eram lindos seus olhos verdes inundados! Mas então, mesmo com a mãe muito quieta, Ivete revoltou sozinha ao Portinho: Janaúba: Turvo: cercanias do parque do Ibirapuera: rua Manoel Botelho de Oliveira... Procurou outros empregos dos bons e dos melhores, outros assuntos e termos, e que nem precisavam tanta referência e/ou experiência. Arrumou um salário mínimo como garçonete numa churrascaria típica gaúcha a Poncho Verde: Lanceiros Negros: Bagé: Costela na Vala... Graças graças aos seus olhos verdes, bem que se diga!, verdinhos como folhas de palmeirinhas-de-petrópolis. No verão, logo no princípio do verão, perdeu o emprego. Estava grávida. Juntou os trapos com um sargento brigadiano, o Ivan Murucu. Graças sobretudo aos seus excelentes olhos verdes. As coisas pareciam certas e completas e acabadas mas... sempre é bom esperar mais uma surpresa. E nasceu a filhinha que, entre milhares de nomes, escolheram chamá-la de Mônica.
            Mônica cresceu rápido como um flash. Com dois meses já fazia dezesseis anos de ótimas primaveras. Nesse ínterim meio-tempo, Mô-ni-ca criou sem sombras de dúvida um grilo pernóstico no meio das ideias. Esse grilo-cantor: como achar um tesouro? E um tesouro dos bons e caros. E um tesouro eterno e dourado. O que é preciso para achar um tesouro fabuloso magnífico prepotente? Bem, não sabia da resposta. Nem do tesouro do mapa da caverna da ilha da enseada do atol. A partir dos dezessete caiu no mundo. Instintivamente começou uma viagem ao redor do globo viajando à Praga capital da Ucrânia onde conheceu um mágico desempregado ex-brasileiro chamado Mário Aipo-Falso. Viajaram pela Europa de trem de navio de bicicleta de trenó no alto inverno escandinavo. As coisas foram bem, mas não fecharam. Nasceu um filho que chamaram na hora de Ricardo - e estavam entre Richard e Ricard. Então, foram pensando em viver sempre mais e mais. Assim conseguiram chegar à Índia, por coincidência atrás de especialistas na profissão mágica de Mário. Mônica aprendeu também alguns truques desses de tirar coelho da cartola, puxar tiras de pano da boca, achar moedas na orelha, cartas na manga, flores no sovaco, ovos no coque do cabelo. Visitaram outros lugares turísticos e sagrados e místicos e sânscritos e históricos e milenares: todos até muito dignos e famosos e antigos: uns com estátua da Xiva seis braços pernas trançadas cabeça de elefanta, do Buda deitado de lado segurando a cabeça sorrindo orelhas de elefante. Passaram sede, fome, frio, cansaço, insônia, raiva e calor. Tiveram, porque quiseram, mais um filho, uma filha e lhe deram o nome de Mirta. Então, com muita paciência, Mônica suportou o desaparecimento, pofe!... no ar, do companheiro Mário Aipo-Falso o feiticeiro. Enquanto nosso país decidia entre presidencialismo e parlamentarismo... o prestidigitador se escafedia num passe de mágica. Mônica pensou sozinha: que fazer em caso de incêndio? Mônica, dois filhos para criar e conviver diariamente, restava abandonada na insegurança. A primeira coisa que pensou foi abrir um quiosque de artesanato na rua 12 de Outubro. A última coisa que pensou foi em suicídio do alto do viaduto Mula Preta em Dois Lajeados. Um dia, teve de concluir na hora e foi o que fez: se amigou com um monge paraibano (fugido das revoltas ou entreveros ou escaramuças do Ronco da Abelha, 1851-52) radicado no Nepal. Se comunicavam por gestos, mímicas, coaxos, fom-fons, olhares e narizes. Foram morar em Goa Velha, capital da Tailândia. Só o monge sergipano ex-radicado no Nepal sabia onde ficava essa tal de Goa. E este monge ensinou a ela Mônica outros truques mágicos, por exemplo: cuspir fogo sem beber a gasolina, engolir espadas sem machucar a própria garganta ou sem sofrer a ânsia de vômito, mastigar vidro sem cortar as gengivas, entortar barra de ferro com as mãos, puxar com os dentes um carro de oitenta cavalos. E se presentearam com mais uma filha: a Lehicha (com h aspirado). Mônica já sabia muitos truques feiticeiros, e sozinha, podia fazer grandes espetáculos ao ar livre nas ruas nas praças nas esquinas na escadaria do museu Casa de Padre Toledo em Tiradentes. Participou de um concurso de magia em Bucareste capital econômica e política e artística do Mianmar e tirou o terceiro lugar. O prêmio em dinheiro serviu para se despedir do amigado brâmane, e daquela parte do mundo, e comprar a passagem de retorno ao Brasil: Piauí: Coronel Sapucaia: Ermo: rua Barão de Cotegipe... Oito semanas depois, em férias na praia do Cassino, encontrou o Lídio Cangambá, ex-colega da época que ela mesma morava na vila de Nossa Senhora da Madre de Deus de Porto Alegre. Lídio, ele e tal, o tal e qual, vendia suco de limão no verão e café com leite no inverno, ali pela praia, no centro nervoso de Cassino: bairro Acroá: avenida Marquês de São Vicente... Resolveram juntar os cobertores de orelhas. Mônica, um dia, olhou a praia tomada de banhistas e cangas coloridas leves esvoaçantes; e, um dia, olhou a praia com seus olhos renovados por dentro, e sem óculos escuros; e ainda, um dia, olhou a praia desinteressadamente; certo, um dia, ela olhou a praia que fazia repetia sempre uma meia lua de areia branca; espiou, outro dia, quem te viu e quem te vê!, o dia bom da praia deserta sob o sol do dia inteiro. Olhou a praia chapada de sol, dias e dias, sabendo que do outro lado tinha a África. Os dois juntos, Mônica e Lídio - ninguém conseguiu impedi-los -, tiveram trigêmeos filhos: o Papa-Arroz-Preto, o Nepomuceno, e a Patrícia.
            Patrícia nasceu por último no dia 8 de outubro com defeito na perna esquerda. Todos ficaram com dó da menininha e também com vontade de rir da guriazinha pelas costas. É, as coisas nunca são completas! Por mais concentrados sempre escapa alguma coisa. E os próprios familiares queriam esquecê-la e riscá-la do mapa do caderninho e protegê-la do mundo longe das pessoas e perto dos bichos domésticos de estimação cachorro gato porco rato. A guria em pequena comia terra já muito bebezinha. E gritava até rebentar os tímpanos dos próximos. Desejavam, na família, que morresse assim não sofreria o que sabiam que iria sofrer - principalmente na escola. Uma coitadinha. Até pensaram, mas sem executar, em largá-la no mato, ou jogá-la na lagoa Feia, ou escondê-la num poço vazio, ou ainda enterrá-la viva, ou esquecê-la numa cestinha perto de uma casa de caridade fora da cidade, ou abandoná-la na canoinha à deriva no rio Juquiá. Olhando bem, se tivesse nascido um bichinho seria presa fácil dos predadores, atrasaria o bando, atrairia aves de rapina falcão-peregrino e seria descartada sem apelação. Se tivesse nascido entre canibais não se sabe o que aconteceria. Na família normal civilizada ocidental, já se disse, era vista e revista como um estorvo ou um sacrifício ou uma provação ou uma condenação. Quando a viram nascer já sabiam daquele preconceito dentro deles dentro do mundo e que deixavam transparecer. E como tudo isso de pior acontecia com ela, logicamente que Patrícia não pôde ter uma vida social normal, conviver, aprender e ter sonhos burgueses. Não sabia em que mundo poderia resolver o seu caso particular. Não sabia confiar. Não sabia esperar. Não se engajou em nenhum partido ideológico. Se arrastando por aí, pela casa, na rua ou na praia, e se escondendo a maior parte. As crianças, principalmente as crianças, não a perdoavam, não a suportavam, e não queriam vê-la mais gorda mais magra. Patrícia talvez já achava que a história tinha que lhe ser assim. Pagava pecados que só os outros cometeram e que D sabia muito bem. Castigada por D pelo que os outros fizeram ou omitiram. Pior mesmo foi não poder aguentar a própria impaciência. Gostou de um menino com brincos de pirata e sotaque do interior de São Paulo: Batatais: Porto União: praia da Armação... Mas o carinha lhe fugia apavorado. O menino já não dormia mais de luz apagada. E foi por essas e outras que Patrícia resolveu abandonar a escola e a vida social e a vida pública e a vida ao ar livre na rua General Goes Monteiro e a vida familiar e a vida urbana. Fez de tudo para se esconder, para ser esquecida. Crescia? Crescia torta e com uma ira profunda. Aprendeu a tocar violão sozinha, de ouvido. Descobriu ter uma voz muito afinada. Os vizinhos também. E um dom especial para a invenção musical. Mesmo assim, nenhuma alma leve e sensível era profundamente boa para olhar para ela e aceitá-la ou acariciá-la ou educá-la ou prestigiá-la. Aprendeu a tocar ainda melhor no escuro. Chegou a um tal e qual alto estágio de evolução autodidata que até sabia compor com arranjo sofisticado. Tão inteligente que até compunha suas próprias canções com letras de pura poesia. Tão melodiosa que o sabiá-laranjeira parava para ouvir e vinha conferir de perto. E ninguém lhe dava a menor pelota. Crescia. Crescia meio para um lado; mais para um lado, menos para outro. Cantava e tocava e compunha seu próprio repertório. Fazia composições para os carinhas, mas nunca teve um namorado. Foi para Porto Alegre: bairro Passo dAreia: rua Felipe de Oliveira: edifício Bento Teixeira e gravar um disco às próprias expensas. E começou a engordar desnecessariamente acintosamente compulsivamente. E só cabia em grandes vestidos rodados. Ficou inchada, irreconhecível, lenta, ruminante, pouco saltitante. Pesava já como uma aliá. E se locomovia em cadeira de 4 rodas. Contratou uma moça para auxiliá-la na hora do banho, na hora de colocar o calçado, na hora de entrar no táxi, na hora de ver alguma coisa que caiu no chão, na hora de levantar da cama. A contratada não suportou dez dias o mau humor da patroa. Patrícia gravou o ano seguinte outro cd e foi morar em Salvador: bairro do Morumbi: rua Marquês do Paraná esquina com avenida Barão de Ubá. Todos a suportavam; ninguém queria conduzi-la ao matadouro. Idealizou um plano artificial: contratou um garoto de programa de nome Gilson Tíbi. Este Gilson tinha tatuagem sim na altura da virilha (nome e sobrenome de ex-namorada), e era mesmo forte o bastante. Foi contratado por dois meses, talvez mais. Era paciente, insistente, agressivo quando solicitado e tinha um burrichó enorme. Tudo que Patrícia precisava urgentemente. Patrícia, então, viu as nuvens mudar de sentido e só podia ser no céu; uma cirurgia bariátrica e emagreceu sessenta e sete quilos e trezentas gramas num piscar de olhos. Na verdade à beira tranquila de uma praia do Espírito Santo chamada Itaúna. E tudo isso lhe inspirou outras músicas românticas, psicodélicas, sambas canções, axés, baiões. E, coisa preciosa, viu a barriga aumentar de novo mas de um jeito suspeito. Era tudo o que queria. Largou tudo para trás. Foi para Gramado: Dom Pedro: Porto Walter: Nova Monte Verde esperar a filha bendita abençoada. O sucesso era passageiro e ela queria mudar de rumo? A vida artística era uma fábula e ela queria manter os pés no chão? Jurava ter toda a paciência do mundo para que a filha saísse sem defeitos e sem neuroses. Então, olharia para ela, apalparia seu corpinho, beijaria, consultaria os médicos e lhe daria o nome de Vitória. E Vitória nasceu no dia 2 de julho efeméride da independência da Bahia meio do ano de 2019. As coisas se ajeitaram, mas nem tudo foi mamão com mel puro de abelhas tubibas. Vitória veio ao mundo num dia de eclipse solar e, que coisa!, que raramente acontece.
            Pouco tempo depois de nascer, o mês do calendário, Vitória foi morar com a família da mãe em Canoas: perto da estação Mathias Velho do trem: beira do rio dos Sinos: alameda Barão do Campo Belo. Como não tinha um pai presente achou que não precisava de homem por perto. Acostumou assim e não sabia se era melhor. Saber que teria que ter um homem para uma coisa tão simples assim... ela sabia, mas no fundo no fundo não achou importante naquela hora não achou que alguns centímetros fossem tão importantes naquele momento. Na escola, Vitória gostava de aprender H do B. E viu que a História era sempre sem mulheres, nunca com mulheres, sempre sem mulheres, mulheres na cama na cozinha, e olhe lá! Isto a deixava sem forças, sem ânimo, desconsolada, muda, confusa, desolada e frustrada. Cansou de perguntar o que queria saber. Por estes e outros grandes ou pequenos motivos, se apaixonou pela melhor amiga a Marta (por acaso bisneta do barão de Rio Bonito). As coisas estavam mesmo completas, mas havia outras coisas além daquelas coisas. A melhor amiga, Marta (um olhar de felina selvagem tipo jaguatirica), lhe deu muita corda no começo da relação. Vitória teve algumas recaídas com rapazes, mas nada de grave ou gravíssimo, nenhuma sequela ou consequência. Então, V de Vitória aconteceu, já mais crescida, já vacinada, que resolveu existir como uma planta ou folhagem. Queria ser um vegetal assim: parada, quieta, estática, silenciosa, imóvel, concentrada e fazer sombra quando pudesse tipo assim no caminho de uma praça da cidade praça Sargento Noraldino Rosa: praça Montevideu: praça Marquês de Abrantes; e dar flores, sim; dar frutos, não. Como? Agora uma coisa: que espécie de árvore poderia dar flores sem frutos? Uma árvore infrutuosa. Uma árvore incidental e útil que somente oferecesse sombra ao freguês? Uma árvore de mais de trinta metros e galhos esticados para os lados. Uma árvore que os passarinhos nativos adoram. Uma perobeira, quem sabe? Uma paineira, quem sabe? Uma ipê-amarelo, quem sabe? Por assim dizer podia viver toda a sorte de um destino de mais de cento e cinquenta anos (os últimos) num lugar apenas e qualquer e firme da terra firme. Tinha medo de virar madeira de lei e tábua e caibro e peça de decoração de interior de apartamento no alto do prédio. Pensando, pesando, arriscando tudo isso e mais um pouco, foi que decidiu de uma vez para sempre existir e morar no espaço de um museu público museu do Morro da Caixa d’Água Velha. Escolheu o lugar por ali perto de um espelho d’água, numa clareira, longe da rua, ao lado de um chafariz do século XIX chafariz São José em Tiradentes. Não contou para ninguém e foi morar nessa vila Capitão Manoel Dias de Oliveira: arraial Garcia Rodrigues Pais: aldeia Sete de Abril... Ali se enterrou até o pescoço e esperou crescer. Esperou que as raízes se prendessem muito fundo. O solo não era dos melhores, mas fazer o quê?! É, as coisas nunca são completas ou exclusivas ou definitivas. Talvez por isso viveria uns cento e trinta ou cento e quarenta anos menos que o previsto. Ou seja, pau que nasce torto não serve para espeto! E quando surgiram as raízes mais fortes, a esperança começou a se fortalecer obviamente e a fazer sentido profundo. Daí para frente, para baixo e para cima, o tempo seria importante, ou não. E pagou para ver. Passou as horas muito sem atividades e contando as próprias folhas. Passou os meses sem nada para fazer ou desfazer. Os anos tinham as estações, vá lá! Os ventos carpinteiros, vá lá! As chuvas eram boas. Naquele lugar que escolheu morar e ficar vegetando, nada nada lhe dava preocupações. Não acontecia absolutamente nada. Do outro lado da rua talvez pudesse enxergar e se conseguisse cheirar uma feira livre de artesanato, um estacionamento de táxis, um quiosque vendendo suco de cana e rapadura, uma loja de eletrodomésticos. Um ou outro detalhe a mais, como por exemplo, os cães acompanhados de madames e senhores aposentados que vinham mijar no seu pé. Os passarinhos que descansavam nos galhos, e eram três espécies as mais assíduas, almas-de-gato, tchintchorrintchos, tesoureiras, beija-flores-cinza. Pipocou-lhe flores amarelas de todos os tons. Um perfume novo na diocese capela do Senhor Bom Jesus da Pobreza em Tiradentes. A prefeitura que lhe vinha aparar os galhos e a grama em volta dos pés. É, e foi assim que Vitória se esqueceu no vegetar vegetar. De tão lento era tudo que nem se via crescer. Perdeu a noção do mundo e cochilou anos a fio. O tempo era muito sossegado, pacato, pataco, profundo, solar, vegetal, clorofila, fotossíntese. Vegetava como dormindo o tempo todo. Um domingo atrás do outro. Um novembro atrás de novembro. E como era uma planta nativa, não gostava muito do vento minuano. Numa primavera resolveu despertar: deixou o vento morno sacudi-la muito bem sacudida. De repente, então, lhe veio um desespero tremendo, horroroso, enorme de chato, incontrolável de mau: “Ah, se arrependimento matasse!” - pensou. É que Vitória queria ser eterna. Sonhou ali na hora vegetal, que queria ser árvore florida, muito bem!, mas ainda uma árvore que desse flores depois frutos e estes com sementes ou caroços. Estava na centésima vigésima sexta primavera e queria evoluir além de planta florindo amarelo. Aproveitou que um funcionário da prefeitura veio para cortar a grama e lhe pediu para ser enxertada: evoluir a raça. Claro que foi atendida. Assim chegaram muitos profissionais para fazer o transplante. Muita discussão politicamente correta, no início. Houve mesmo a seguir uma operação difícil com todos os riscos de infecções e sequelas. Médicos e psicólogas com toucas na cabeça e máscaras no focinho e luvas e água com sabão. A esperança a vontade o ânimo de Vitória a fizeram superar os meses as estações de convalescença. Conseguiu, e total: foi ótimo. Superou todos os problemas traumas e entrou na outra etapa outra fase, mais produtiva mais evoluída, da longa estada vegetativa. Daí para frente, para baixo e para cima, com as folhas se renovando a cada primavera a cada temporada. E com a certeza de sempre se expandir, se perpetuar, se espalhar pelo mundo, se eternizar, lançar flores no espaço, atrair polinizadores e frutificar. E se passaram mais oitenta anos? A capital já não era mais Brasília, nem mais a mesma; passara a ser Água Azul do Norte, de fato e de direito. E no ano que se sentiu suficientemente forte, V carregou. Pintou um mundo de flores amarelas. E a seguir vieram as frutinhas verdes, depois amarelas e doces - que perturbaram os pássaros curiós as tuiparas-de-asa-laranja os tico-ticos as corruíras... Que nome o dessas frutinhas? Como era nativa foi tomada pelos passarinhos. Um passarinho em especial pegou uma das suas frutinhas e foi descomer em certo lugar na cobertura de um prédio de apartamentos - tudo por acaso. Também por acaso a semente, que sobrou do guloso passarinho, caiu em terreno fértil fofo de jardim suspenso. Era tudo de bom. E surgiu uma perspectiva de vegetal interessante? Algo apontando. Já brotou. Medrando. Surpresa para a senhora aposentada, dona Iara parente por parte de mãe do barão do Javari, que cuidava da floreira na sacada. Bastou apontar as folhazinhas macias e verdinhas para receber o nome de... Aurélia.
            Aurélia, corpo e alma, cresceu no encalço do sol. Um dia, quando botou botões para o mundo, a sua mãe, senhora aposentada e tal, dona Iara neta por parte de pai do visconde da Vila Real da Praia Grande, cortou-lhe um dos ramos e pôs o tal e qual rebentinho num vaso com água e açúcar na mesa da sala de visitas. É sério?! Aurélia se dividiu, então, por umas horas ou mais. E o clima ali naquele ambiente ficou mais sadio, mais bonito, mais refrescante e perfumado. As visitas não faziam mais que a obrigação de elogiar muito. Elas chegavam perto olhavam com carinho botavam o nariz e diziam: “Que linda!” “Eu nunca tinha visto uma haste assim.” “E é pura elegância festiva.” “Ou será que ela me ouve me vê me percebe... Obrigada!” E o ramo de Aurélia, ali no vaso com água da torneira, carne da sua carne, muito se envaideceu, mas não disse nada. Muito se achando, até. Recebeu um nome próprio e uma vida particular e independente: Arnalda. Então, tá! Tanto que não queria mais sair da frente do espelho; tanto que não queria mais perder cabelos; tanto que adorou se sentir prestigiada; tanto e mais que pretendia jogar vôlei na praia da Pipa em Tibau do Sul; tanto que pretendia tirar uma temporada na reserva extrativista do Alto Tarauacá; tanto que pedia murmurantemente que a acariciassem nas folhas tenras. E assim começou e foi mais longe além. Muitos chegaram naquela casa para elogiá-la, cheirá-la, tocá-la, regá-la, pedi-la em casamento. Uma noite de chuva e raios e trovoadas e escuridão, tudo ocorreu. Tudo aconteceu como nas estrelas. Mas foi aí que a Aurélia resolveu estender seus braços e alcançar resgatar salvar o seu galho separado, agarrar a Arnalda. E elas se encontraram no meio do espaço no meio do caminho no alto do muro e se abraçaram muito forte como ex-irmãs siamesas. E as duas se sentiram realmente nas nuvens e sacudidas pelos ventos brabos do pampa. Mas Arnalda já era superficial por demais calculista, e no outro dia já contava tudo para as visitas da casa. Aurélia ouviu e se confundiu no começo por causa desse fiasco mas, depois... bola pra frente!, achou que já podia rir disso tudo e se desprendeu daquele ciúme ou encosto. E viriam outros temporais. E agora, vamos supor, Arnalda. Que conheceu outras namoradas, pretendentes diversos a escolher, a Suzana: o jacaré-de-papo-amarelo: o descendente dos cagoã fulano Buritirana e natural do parque serra do Divisor: a igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes: o Cristo Redentor do Monte Corcovado em o bairro Santa Teresa: o mate refrescante tereré. Pois que passados dois anos e dois meses, Aurélia encontrou Arnalda e vice-versa na faculdade de geografia praça da alimentação. Se encontraram num dia ensolarado. E, para dizer a verdade, Arnalda já estava cheia ou vazia daquela sua vida de enfeite junto dos bibelôs. Aurélia e Arnalda começaram a conviver e a recordar os bons momentos, que foram poucos, mas intensos e certos. O país vivia uma crise sem precedentes no congresso com seus eternos e vitalícios políticos corruptos donos do poder, etc. Então, largaram tudo para trás e fugiram, no carro dela Aurélia, para bem longe... bem longe... lá para perto de Pelotas: talvez Cristal: Boqueirão do Leão: Pindoretama... Queriam esquecer ou deixar para depois e mais tarde quem sabe nunca o que não queriam agora ou de repente pra frente nem pensar mais. E acharam que podiam, e acharam que seria fácil, e acharam que era só recomeçar ou adotar um filho. Foi nessa época que Aurélia começou a esperar uma filha. Foi nessa época também que aquela uma ex da Arnalda as descobriu. Aí, foi uma correria para as duas se esconderem. O casal fugiu de Nova Prata a cavalo. Um cavalo baio de duas selas: duas asas: quatro patas. Arnalda nas rédeas e Aurélia, grávida ou gravidíssima, na garupa. A ex da Arnalda, que levava o nome de Capororoca-Verdadeira, perseguia num automóvel ou numa caminhonete rural hidramática. O par perfeito não tinha muita sorte já àquela altura. Tentaram umas trilhas por dentro de canhadas e brenhas e sangas, por cima de coxilhas e campos e chapadões, varando dias e noites, temporais e céus abertos. A ex seguia os rastos como cão perdigueiro como cão paqueiro como cão fila como cão fantasma. A ex tinha muita vontade de acabar com aquela palhaçada romântica e escorregadia e melodramática. E a tal Capororoca-Verdadeira correria atrás delas até o fim da vida para destruí-las. E a fuga do casal de pombinhas não tinha paz. A situação de Aurélia era para breve: a gravidez avançava para as rodadas finais. Uma manhã como outra qualquer. Uma manhã foram alcançadas num capoeirão perto de um monte de pedras em a cidade de Anta Gorda: São Pedro da Cipa: Itaituba: sesmaria de um barão de Iguape... A ex desembarcou do carro e metralhou as duas às 8h e 18min. Soprou a fumacinha branca tradicional que escapava do cano da arma. A ex, tal de Capororoca-Verdadeira, pegou o auto e retornou para casa, muito bem vingada, rádio do carro ligado na estação, pela orla valorizada da praia do José Menino. Mas, na cena do crime, se seguiu alguma coisa ainda mais surpreendente. Surreal. Nasceu espontaneamente uma criança. Aurélia, mesmo morta, detonada e perfurada, salvou a barriga e deu à luz. Era uma menina sem nome. É, as coisas nunca são completas mas... - parabéns! Bebezinha que já chorava louquinha para existir a qualquer preço, não importando como ou para quê. Era ninguém e queria ser assim mesmo: ninguém, com n minúsculo.
            Por sorte, por acaso, por destino, por hora, ali por perto passeava farejando uma Tamanduá-Bandeira. Esta estava ainda solícita de carícias e carente de alisamentos e solteira de namorados. Bastou ouvir aquele choro e foi lá ver o que era e o que não era. Foi puxada pelos instintos maternais ainda não experimentados não resolvidos. Achou tudo estranho, mas aquela droguinha que chorava estava evidentemente viva e devidamente pedindo mais cartas. A Tamanduá-Bandeira lambeu o pequeno ser e ele se acalmou, a bebezinha se acalmou e até parou de lamuriar. Mas também tinham que ter cuidado: os urubus estavam voando baixo e em círculos e ainda auxiliados pelas rajadas dos ventos quentes. Assim, a Tamanduá-Bandeira, instinto de mãe no dna dos ossos, dos nervos, do sangue, agarrou a menina sem nome e fugiu dali. Ficou tão encantada com aquele ser mole e pulsante e murmurante que decidiu ser mãe adotiva. E começou a amamentá-la, a lhe dar formigas na boca e cupins na boca e mel na boca. E haja tanta e tanta formiga tanto cupim tanto piolho tanto mel silvestre. Quando precisavam dormir se escondiam num buraco, quando precisavam procurar formigas a Tamanduá-Bandeira carregava a fedelha nas costas. E olha que no primeiro inverno a Poioquinha quase quase sucumbiu. Chorou muito, é verdade. Então, a mãe adotiva a deixava no buraco e ia buscar formigas ou cupins ou grilos-comuns. Poioquinha sobreviveu porque existem milagres e sortes e acasos e inexplicáveis. Depois, Poioquinha aprendeu a catar formigas e cupins e borboletas e caramujos e grilos-pretos e gafanhotos e escaravelhos por conta própria. Longe dos olhos da mãe adotiva, ela comia outros viventes semoventes maiores. Comia cogumelos, brotinhos de baririçó, pétalas de flores de pataquera, pitangas doces, goiabas-do-mato, talinhos de florzinhas azedinhas do meio do gramado. E até se equilibrava nas duas pernas. Um dia brigou com a mãe Tamanduá-Bandeira por causa de um ninho lindo de tanajuras. Foi uma briga feia e gulosa e separatista. A mãe adotiva lhe arranhou uma orelha. Daí, Poioquinha fugiu, fugiu, e com muitas dores no lugar do estrago e na alma. Odiou a mãe adotiva. De noite não sabia dormir sozinha, teve medo, não tinha buraco próprio para se esconder, então, foi procurar chorando a mãe Tamanduá-Bandeira. A mãe a deixou entrar na casinha-buraco com muitos conselhos e recomendações. Mas para Poioquinha o mundo já não era o mesmo, a vida já não era a de sempre, coisa e tal e qual, e assim por diante. Parecia mesmo que a coisa não estava correndo nos conformes. Então, Poioquinha procurou escapulir e estava muito escuro lá fora. Se encolheu num canto do buraco e esperou chorando pelo pior. Na manhã bem cedo, a Tamanduá-Bandeira saiu 5h e 05min para procurar formigas ou outros insetos quaisquer. Poioquinha fingiu que dormia e esperou. Quando se viu sozinha, então, saiu de casa definitivamente furtivamente e para sempre. Olhou para os lados, farejou o rasto da mãe adotiva, nem olhou para trás, e foi para o lado oposto. Estava decidida a procurar o seu destino, o seu lugar no mundo, embora sem saber se esses indivíduos existiam uma vez. Achava que já podia procurar comida por conta e nunca mais depender. Pegou um rumo ao acaso e, engatinhando como aprendera com a mãe adotiva, foi embora. Pelo caminho recolhia aqui e ali já ressequidos os cadáveres de formigas e outros bichinhos...
            ...nesse momento uma sombra de dúvida com preocupação uma nuvem grande pesada de areia transpareceu apareceu no meio ambiente no seu olhar...
...o capoeirão era enorme e requeimado. E o calor sempre mais intenso e feroz. Um sol encoberto e o deserto vermelho começando tudo do fim. Vinham ondas de poeira nociva tóxica mefítica. Não chovia há meses e meses. Chão muito quente minado de estrepes pedras tucuruvas. Não aconteciam mais lacraia, aranha, grilo-dos-canteiros, besouro, rastro de bicho algum. De repente faltou azar?
E Poioquinha estava longe da sua ex-loca. Olhou o oco carregado de nuvens de poeira vermelha, o calor de forno fornalha fogueira, cheiro de queimado, terra esturricada. De surpresa, Poioquinha ouviu uns batuques na lata. Para Poioquinha eram de suspeitos inimigos horripilantes. Só podiam ser de maus inimigos racionais. Tinha certeza que eram. Então, farejou o ar, exatamente como aprendera com a mãe adotiva, e teve certeza absoluta que estava em extremo sos. Procurou correr para o outro lado, e o mais rápido possível. Correu quase como gente. E já preocupada em encontrar um esconderijo. Corria tanto e tão desesperada que às vezes ficava correndo como um bípede normal. Era um bípede desajeitado. Os baticuns de lata os tum-tuns! do peito chegavam mais nítidos preocupantes. Poioquinha sentiu que o perigo batia a sua porta, entrava pelos ouvidos, contaminava até os ossos, aturdia o juízo. Por enquanto até esquecia do calor forte o mormaço o ambiente irrespirável. Viu um buraco e se enfiou urgentemente por ali. O buraco não era o buraco ideal, mas era um buraco oportuno. Não se lembrou, enquanto isso, que poderia estar ocupado, e ela invadindo casa alheia. Ou que o dono pudesse voltar e a coisa ficar pior que já estava. Tremia apavorada entocada no escuro. De repente faltou luz? Ficou ali, dentro do buraco, de olho muito aberto arregalado, farejando o buraco, orelhas altas, esperando pelo pior, cuidando a porta. E os batimentos de lata como do seu peito saltaram na boca se misturaram e vieram numa rapidez, tum! tum!... E bateram a sua porta! De onde estava sentiu o cheiro de inimigo e ouviu muito nítido a percussão do latedo. Estava perdida? Perdida e meia? Poioquinha estava rodeada de cinco ou seis aldeões aldeãs carrancudos falidos armados. Poioquinha estava para o próximo episódio.
Uma e outra espiral de poeira que subia descia e ia em frente e voltava conforme reinava o diachinho do saci. Terreno contaminado de minas terrestres extraviadas. Todo dia dias e dias de calor severo. Não chovia há vinte anos. Poeira preta encardida arrastada pelo vento empanturrava a boca dos boçais.
            Chegaram, então, a seguir, mais outros dois ou três aldeões, sempre calçando enormes e deformados chinelos de tiras de arame, sombras esticadas no chão calcinado, e que começaram a olhar a toca onde Poioquinha se enfiara. E que gritaram coisas, que andaram em volta da toca, que esfregaram as mãos, que bateram com os pés dando os tais e quais saltos acintosos.
Poioquinha estava apavorada, porém, esperava estar longe do alcance entalada no seu esconderijo. Ela, apesar, nem de longe pensava tudo que poderia temer. Poioquinha achava que o buraco a salvaria.
Então, os grandes bípedes aldeões cavaram em volta da boca do túnel e... foi o que deu de terror... Sem demora já sacaram Poioquinha de debaixo da terra... olharam com surpresa... aquilo era um crila humano com cara de poioquinha?! E uivaram, hei!... com os braços pro alto:
            - Uta! Que coisa, cambada! - disse e até rangeu os dentes sujos um dos aldeões, e que foi o bastante.
            Os aldeões passaram e repassaram as costas da mão nos beiços e numa fúria descontrolada ansiosa. A surpresa era dos caçadores, e da caça também. O côncavo avermelhado de nuvens de poeira já muito baixas e até rasteiras. O sol tapado desorientava mal e mal o dia. Tudo seco, seco, cinza, coberto pelo pó milenar e uns quebrados. O bafão que subia do chão tremia a paisagem dos 4 apocalipses.
            Poioquinha tinha vontade de arranhar e morder e espernear e fugir. Ao mesmo tempo tudo era muito furioso e, achou, muito perigoso e abichornante. De instante para instante tinha certeza que viraria petisco tira-gosto lanche sopa e o que desse.
            Ela de agora Poioquinha estava hiperestressada e coisas esquisitas aconteciam ao redor. Não, surpresas nem aconteciam? Poioquinha não acreditava em assombração porque não sabia que assombrações pudessem acontecer, uma vez. Já era tempo de horrores? O tempo o espaço as coisas tudo fora da matemática.
            A aldeia de Santa Luzia torrava ao alcance da mão do pé. Pixotes descalços e insuportáveis brigavam de se estapear socar perseguir chutar cheirar cola de sapateiro nos poucos degraus da capela. A pracinha pontilhada de espetos escuros ex-árvores caaxiós, ex-paineiras, ex-aricurirobas. O calor miserável.
Poioquinha foi colocada numa jaula para mais tarde, amanhã ou depois, atração turística. Os aldeões e as aldeãs, irados e desgrenhados e magros, se contorcendo de dores espumando sem poder resistir. A gula falava muito alto, mais alto, rilhava os dentes.
O saci, queimado no fogo, pulava endemoninhado no redemoinho da rua Única. A terra roncou por debaixo dos pés da vila e o tremor arruinou a maior parte das poucas pequenas choças cobertas de sapê e provocou desfez escorregar a poeira as pedras os paus dos morros ao derredor. O sismo teve uma amplitude de 9.2 graus (com base em 10) na escala de magnitude local. Depois 31 réplicas em menos de 30min., a menor de 6 graus.
Cinco horas depois, 15h e 51min., Poioquinha já estava com os minutos contados em franca regressiva. De repente faltou diálogo. E já os aldeões e as aldeãs decidiram moqueá-la direitinho. E no dia 9 de dezembro, aquele mesmo dia, as partes da Poioquinha foram numeradas e expostas e disputadas e distribuídas num bingo concorrido.



domingo, 24 de setembro de 2017

No que Ela disse Isso: Ela disse Isto

            

            As gurias gostam de suas aventuras mirabolantes. Não estão nem maleáveis nem retornáveis nem estáveis nem confiáveis e muito por demais miraculosas. E a cor dos olhos que sempre são bonitas.
            O dia o sol o vento o povo das horas as aves correm todos paralelos rumo certo do mesmo lugar escolhido a palhoça da estrela Antares, etc. As andorinhas assanham por aí, em a manhã.
            No meio do rio Mojimirim temos um mar tal e qual:
            - Onde tem andado, aonde pensa que vai?
            - Hem!... Sem esforço, a ave titeri se libertou no ar.
            - Umas 13h e 31min. subíamos a rua Visconde de Itaboraí na municipalidade de São Bento do Sapucaí banhada pelo rio Açungui rodeado de muricis povoados de muriquis na rota do balneário famoso a praia do Sambaqui.
            - E confesso agradeço e juro da ponta dos pés à cabeça que nunca mais vi um dia radiante como aquele. Nem cabia o céu azul e muito menos avião pássaro pandorga nuvem.
            - Somente ela é que há de decifrar.
            - A água passava fazendo memória inchando as pedras.
            - O que me adormecia eram os seus olhos oblíquos, se quer saber!
            - Afirmou reafirmou tê-los visto juntos.
As histórias sobre certa guria Chuva correm e discorrem já o mundo e todos nós sabemos que são meeentiras. Mas como essa guria Chuva de fato existiu, e para seu povo o que fez e falou tem a validade da lei validade que não perde a validade rivalidade de lenda, então o mundo começou por aí mesmo. E sinceramente, simboralá!
Na lua bairro da Lapa luminosa uma casa de 23 andares repleta de janelas azuis brancas amarelas, pelo menos uma rua Manitsauá com um carro vermelho na sombra da tapaiúna, uma praça Eduardo Gomes com monumento aos Pracinhas, uma ponte Iporanga com arcos de concreto, um rio Ribeira de Iguape terroso navegável piscoso, céu Caracaxá semeado de estrelas verdes amarelas brancas.
Caminha no parque serra do Itajaí uma paisagem diferente redonda relendo, nhanica, mapixi, balata-rosada, pinha-do-brejo... o nome das árvores:
“Me aparece que o tempo nem revolta mais ou menos. Nem vem nem vai nem aí. Que o tempero está parado aqui e agora na presente hora da aurora.”
            Essa guria Chuva cabelo feito coque entesourou territórios cabedais talentos, e teve muitos namorados que lhe fizeram muitos filhos e filhas. E então em certa época, no tempo dos seus eternos 19 anos, no império dos saquaremas e luzias, a guria Chuva começou a não aturar mais seus basbaques amantes. O que pensava a guria Chuva? Nem ela às vezes tinha consciência. Dizem que já a debochavam pelos salões da mansão: que era caducando que dava ordens e contra-ordens: sempre irada e com dores por todas as juntas e articulações.
            Safa! Atropelam pelo solar adentro latifúndio, alguns forçam impávidos os armários e geladeiras e despensas em busca de algo pra fumar e beber, tudo desprovido de guardas e serviçais e alarmes e passagens secretas, dona em estado de graça fazendo sala no vestíbulo dos eventos, a casona toda festiva piscina na cobertura iluminadas por dentro e por fora.
            Era tão bom se era tão bom e quem nem se lembra. E otimamente bem lembrado que nada nem nunca se há de esquecer o que aconteceu. Bem feito, inclusive!
            Um pingado diz o freguês que sempre tem razão seu sabor um martelinho de cachaça com poejo:
            “Um cafezinho, por favor!”
            A guria Chuva de olhos verdes-águas convidou um dos esposos para tal e qual experiência. Ela queria madrugar com amante latino no sereno? Subiram no alto do terraço para ver o mar ressalgar nas pedras lá embaixo. Mandou o bofe olhar da balaustrada, ele obedeceu, e então a guria Chuva o empurrou o empurrou com ambas as mãos e sem uma palavra de adeus.
            No meio do mar violeta-do-mato temos um rio tal e qual:
            - Começou narrando comentando pra nós os ouvintes a índia carismática tal e qual pajé dos galibi-do-uaçá: “Antes antigamente e quando eu mesma era semente de nhandu...”
            - O que foi tão isso como tão aquilo estava a árvore carnaúba.
            - Você já viu o ouriço-preto que passou por aqui ontem de tarde e mesmo hoje de manhã?
            - Mandou pediu solicitou para alguém de lá de dentro o obséquio de lhe encilhar o mate. E veio e foi e voltou e se juntou a Irara.
            - Onde é que andou e andou metido este por favor todo?
            - E seguiu deslumbrada embora para o fim dos tempos e contratempos.
            - Nem sei se você já viu uma pitangueira almoçar pitangas no pitangal.
            - Só foi descobri-la em dezembro dia estação e Pedra do Baú e hora e ano do acaso.
            - As árvores sabem tudo e não querem nem pensar.
            - Mas também a Vila Velha nem acordou do seu vasto horizonte, nem vê!
            - Sei que viajar pelo rio tal e qual foi a realização de um dos meus 3 sonhos mais ricos e caros e preciosos.
            Pois a guria Chuva continuou com esse esporte até esgotar os seus 18 maridos. Podia ser no hotel tal e qual ou na enseada tal e qual ou na praia do Boqueirão. Tanto foi que já todos sabiam, e o lugar o lugar do encontro do corpo que caía em as pedras da Moreninha de junto ao mar, virou atração turística, passou ao tempo como o balneário da criação cultural imaterial, foi tombado pelo iphan instituto do patrimônio histórico e artístico nacional.
            Quem olha ou finge olhar as árvores, malva-rosa, vinhático, pinhão-roxo, ouricurizeiro... A primeira cigarra berra trocentos decibéis nos ouvidos dos outros ouvintes. Andorinhas cortam a distância da aba da casa com os arredores, rua José Bispo Santos, Cabo de Santo Agostinho, Nova Lima, Lamim, Queimados... De momento a momento são duas cigarras outras e mais de mil cento e trinta e oito e nesta hora da primeira hora após o almoço.
            Dia de árvores e pássaros diferentes, pato-mergulhão, sabiá-do-piri, araponga, sanhaço-cinzento, tiziu... e plantas e cantos diversos em tons variados. No meio da pracinha Sílvio Romero no chafariz bebendo brincando se purificando no espelho um passarinho anu-da-serra não está nem aí nem dando a menor pelota camuflado entre os piris sem se importar com a conta do telefone saciando a sede a curiosidade a imagem a mania a alegria o repuxo, em que reluz de dia forte:
            “Eu nem vou conseguir fazer isto sozinho e com mesmo todos os meus sentidos ligados antenados empoderados.”
            No meio do mar erva-cidreira-do-mato temos um rio tal e qual:
            - Não, nem é a ilha das Cobras mas é espaçonave.
            - Uma ação provoca uma reação e posterior transação: embora nem sempre disto nos apercebamos.
            - Pois olha bem o que aparece! E que a cabreúva fica carregada e de tudo e no meio do mundo neste sudeste do país.
            - Tinha um sol grande mais um vento e umas árvores verdes conversando estes nossos calores o clima assuntos de janeiro na serra.
            - Acredito nem acredito o que pouco vem ao caso. O que se pode fazer? Meteoritos previsões que apedrejam toda década sobre nós sempre nós.
            - “Antigamente antes quando eu mesmo era semente de oitizeiro...”, iniciava toda vida assim contando nos contou narrou poranduba o vaidoso cacique tal e qual dos urumi.
            Mas para a guria Chuva, que achou tudo muito divertido e até uma reforma em forma de festival esportivo, a brincadeira devia continuar continuar. Não havia mais esposos, prosseguiu perseguiu então com os filhos e as netas e os bisnetos. Eram muitos, e muitos os dias de lazer no alto da sacada do casarão. Acabou também a prole.
            E a árvore preferida iricurana atenta atenta durante o dia de sol para no limiar da porta os galhos e ramos recostados nos umbrais das janelas, e dispara:
            “Foi aí que decidi pôr o verde à larga e aproveitar.”
            Então, a guria Chuva cabelo repartido em bandós se voltou para os empregados e agregados e auxiliares. Foram anos de muito exercício até o alto do palácio no trampolim. Percebeu os gritos que cada vítima fazia ao voar pombo sem asas para as pedras. Só poupou seu criado mais velho, uma entidade que já passara e repassara através dos tempos.
            D chegou e barritou toré de lá de cima pra baixo e com eco:
            “Estou o meu tempo perdendo o meu tempero eterno.”
            Quem olha pode ver e testemunhar e aguardar. Agora mesmo zumbe uma abelha mandaçaia em volta da corola da flor da tal e qual avenca-branca mais muitas outras enxame de abelhas. E árvores plantadas cheias enfeitadas de parasitas e barbas-de-velho. Fundos bojos de garrafas vazias emborcadas segurando a terra em redor dos canteiros. As andorinhas assanham por aí, em a tarde. Irmandade de periquitos-reis negociam coqueiros-babunhas barulhando algazarrando fragorando a praça das Bandeiras.
            No meio do rio Mojiguaçu temos um mar tal e qual:
            - Anotemos agora que de primeira de prima deste contexto emerge a localidade de Tapiraí. Em pós pelo rio Bacaxá margem leste margem oeste centros comerciais de Brumadinho, Tanguá, Santa Luzia, Porteirinha...
            - Se eu vi admirei? O cão andando aí na rua Rio Espera aparentemente procurando o ônus e o bônus do ano novo.
            - O pensamento contando nos dedos das mãos até dez achou a ave cardeal-amarelo.
            - A música voando espécime de sol a sol.
            - E estes e esses e aqueles e aqueloutros os sapuiá-quiriri os timbira os tucuju os urupá e sempre e para tudo com seus levantes revoltas rebeliões insurreições.
            - Sempre algumas nuvens garças-brancas flutuantes simbólicas almofadas burundangas caravelas, etc.
            - O que me adormecia eram seus olhares oblíquos, tá entendendo?!
            - Foi, foi legal porque só encontramos luzes e sol e cores e árvores pelo caminho.
            A guria Chuva cabelo sem querer 7h e 19min. enterrou seu tesouro magnífico na caverna da Laje Branca. Viaja o mundo inteiro e conhece aeroporto hotel auditório avenida principal. E depois 8h e 26min. subiu na sacada do 15° andar do prédio com uma última ordem-mensagem estampada na cara aberta:
            “Câmbio livre flutuante e desligo.”