Sobre todos, embora,
o tempo pode fazer tudo o que bem entender.
Há quantos anos... se
perde. Por este tempo, aquele tempo, tempo sempre prometendo voltar presente no
dia seguinte.
De hoje para amanhã
feito ontem.
O dia se esboçava o
dia já estava alaranjado. Algazarras, borboletas supercoloridas, passarinhos
imortais, timburis farfalhantes, ar rarefeito, gorjeios domingueiros, quadrantes
invisíveis indiferentes dominantes.
Mormaço e poeira elevada
ou resignada e fumaça espichada alargada espalhada sobre tudo, o asfalto (de
derreter cocos e fritar ovos), a cidade de Itaguaí, o bairro Pavuna, a praça
Araréua - onde mora em pé de corpo inteiro sólido a estátua de Olavo Bilac -, o
centro labirinto da cidade, a avenida Carlos Augusto Ferreira, duas parentes tatuas,
horas minutos 9 com 9 ou 9 mais 9, do outro lado o supermercado Pixororé, etc.
As tatuas em dupla, quase
desassossegadas, hábitos diurnos e noturnos, confirmadas, aguardavam o melhor
momento de atravessar para a calçada oposta em frente a avenida que tinha um
trânsito alucinado alucinante pesado poluído metálico e todos os dias nos dois
sentidos.
Tá e Tua eram duas
tatuas tatuaívas amigas primas parceiras sempre juntas e confidentes falavam o
tempo todo dos namorados maridos ficantes idade e sucessão presidencial
almargeal da beira do rio Trapicheiros jogos olímpicos carnaval de Parintins praia
favorita teatro Guarany parque Barigui lojas do shopping oceanário de Santos e
outros assuntos.
Tatua Tá um olhar
raposíssima perigosa revolucionária quase sempre e manifestou:
- Eu tenho repulsa e
pena.
- Mas isso é meio
contraditório, meio caminho andado! - diz a outra, Tua, um olhar gatíssima convicta
graciosa.
- Só eu sei. É assim
que sinto. As duas coisas ao mesmo tempo e na contramão. Que que posso fazer?,
não sei não sei.
- Não vejo o
jaborandi-do-mato crescer, embora sem dúvida que cresce aparece e floresce e
frutifica.
Arregalavam os olhos
marrons para cima e para baixo na rua e nada do trânsito dar uma trégua uma
linha um tempo uma folga uma vaza uma chance. As duas mamíferas e focadas e
advogadas e planificadas e competitivas.
- Eu só procuro e
acho o que não tenho, e aquilo que tenho não procuro e nem quero mais - Tua, a
identificada.
- Então, falando
sério!, vou entrar com moção na próxima assembleia, etc. - Tá, a identificada.
Íncolas andorinhas em
voos arabescos tarde de trissos piruetas cambalhotas. E plasplás de folhas de
caaingás, frufrus de ramos de pixiricas, trestrês de palmas de indaiás-do-campo,
ren-rens de leques de caranaís-do-mato...
Restavam as duas ali junto
ao meio-fio aguardando o melhor momento para atravessar, que era difícil se
arriscar, que os carros não deixavam. Esperavam ali olhando chuleando os autos
que não paravam de passar. Nuvens consertando restaurando fumaças. Era um tempo
precioso, dava até uma inquietação. Prédios antigos tombados, prédios em
construção, prédios altos torreões espigões arranha-céus.
- Vamos até a faixa
de pedestres, é uma!
- E não qué?!
O tempo fica curto
para as medidas de última hora. O tempo que abre a porta, que porta, que janela?
e prefere para onde se atirar.
Os tatus sempre andam
com objetivo claro em mente em olfato: procurar o comer e o beber. E as tatuas
também não abrem mão desse preceito. Procurar o pão de cada dia manducar
bebericar e voltar para a toca descansar esperar o outro dia de noite se cuidar
se esconder dos inimigos. De preferência no meio do capim-andrequicé misturados
às secas folhas verdoengas ao lado perto de uma lavoura.
Os tatus não se
agregam em coletivos, mas em pares ou duplas ou casais. As tatuas também. Vão e
vêm dentro de uma área circulam já memorizada propícia delimitada organizada
particular.
Juntas parecidas fantasistas
esmalte e unha quando iam para o mesmo lugar buscavam as mesmas coisas, etc. No
meio de dezembro ou janeiro tudo estava seco demais. E faltavam quantos anos,
uns cinco depois quatro logo três e assim por diante...
- Eu adoro ouvir a
chuva - disse a Tá.
- Eu já adoro o
silêncio - foi a Tua.
- Estava pensando em
pegar um trem para Mar de Espanha, é.
- Embora Três Rios
seja fascinante na primavera e ou no verão.
Tá e Tua já tiveram
vários filhotes com vários tatus, tatuaparas, tatuapebas, tatuaçus... Dos tatus
elas só souberam na hora h. Dos filhotes se separaram por consequências da
idade e da independência natural, etc. Cada tatu com seu cuidado sua toca e seu
habitat ecossistema universo.
Não é sempre mas que
acontece. Apegado ao rio Santa Maria, Cacequi, houve por bem uma explosão
demográfica de tatus e de tatuas, belas tatuas-mulitas, belas tatuas-canastras,
lindas tatuas-bolas e assim por diante.
As tatuas melhores
amigonas olharam o cebola uma da outra conferindo. Estava marcado para as 23h
em ponto e atrasou uns vinte e cinco minutos por motivo de um imprevisto força
maior. Aliás, oito vezes naquela mesma semana. As duas tatuas foram impedidas
de entrar na horta, de cearem na rocinha da dona Urucurana-Roxa, de
experimentar as mandiocas e amendoins e carás-de-folha-miúda e inhames-cigarras
e abóboras, e por causa de quê? do fila fero cão de guarda.
O tempo todo quase passam
despercebidos a preguiça-de-três-dedos, o porco-do-mato, a formiga-carregadeira
o tiã-tiã-preto a brujajara os jovens vão mais ligeiro mas os velhos sabem o
atalho o narceja-de-bico-torto, juruviara, ibijaú, maitaca, sagui-amarelo a
araçuiava o grimpeiro...
Passa muito perto a
questão do tempo. E diz respeito a todos todas. Confirmado: e pasta capim-açu
muito verde o azul do tempo.
O rumo da mata,
passando uma sanga, até Pitimbu. Cidade pitoresca recreativa rodeada de
montanhas morros parque Serra da Concórdia cachoeiras gado córregos turismo jacarandás-do-pará
varudos rochas em forma de bicho doméstico ou selvagem comarca região vento
nordeste tribo caxinauá cedros-cheirosos ruas ladeiras pousadas ingazeiros
almas-de-gato tangarás camacilras aromas flutuantes desprendidos das tibuquinas
naturais cavernas e locas com inscrições pré-históricas.
Nem digo nada, mas as
duas estavam por aí. Fora e além da capoeira ficava um gramado uma grama verde
tenra e com um cupinzeiro de dar água na boca aos tatus em geral e às tatuas
duas em particular. Pequenas favas-de-besouro em a vernação. O céu lá em cima.
A Tua e a Tá estavam
olhando para o cupinzeiro e mostrando as línguas, os narizes no ar, as orelhas
vibrando espreitando, os pelos eletrizados dos afobados focinhos, os cascos
enrugados, as caudas insofridas, as orelhas vermelhas. Mas não se arriscavam em
pleno dia no limpo assim sem mais nem menos por causa dos predadores terrestres
e aéreos ou camuflados ou até mimetizados.
Tua, e falou:
- Eu prefiro um fuçador
que me dê folgança quase o ano inteiro e cem por cento de segurança principalmente
aí por setembro outubro.
- Digo mais. Um
fuçador com tempo suficiente para me farejar.
Os tatus e as tatuas
ficam no verão e se separam no inverno. Preferem a noite, mas saem a qualquer
hora. Isso é quase certo. Isso depende, não custa nada. Sabem quando vai chover
ou esfriar. Reconhecem quanto há quando não há de fruta madura.
O tempo leva nos
ombros o peso colecionado dos séculos e séculos. O tempo não se engana nem uma
ou duas vezes. O tempo não arrisca e joga em casa. O tempo nem é uma coisa ou
duas. O rio Belém tem exemplo muito a ver com o tempo. Também o largo da
Segunda-Feira.
Uma hora aquele dia
as duas melhores companheiras e amigas e comadres foram beber na sanga mais
próxima, manancial do rio Piratinim, comarca de Barra Mansa.
- De parte a parte.
- Perfeitamente que
claro, só que não.
Nuvens procurando
fumaças fazendo mudança. Nuvens com cara de caravela. Nuvens esgarçadas antes
do almoço acepipes petiscos aperitivos. Nuvens acachapantes. Nuvens mutantes.
Nuvens mascaradas disfarçadas de carnaval.
Chegaram no lajedo e
olharam em volta, sempre temendo a aventura, as idiotices do contingente. As
águas cantantes, um limo por sobre as pedras, umas árvores descansando na
sombra respirando o ar puro, icacoré-catinga cipó-caboclo cedro-cheiroso
caxicaém, uxicuruá, andirapuampé, fruta-de-papagaio, tamaquari, jarana...
Tá, e identificada:
- Será que tem tatu
por perto? Não estou cheirando muito bem. E você?
Tua, e identificada:
- Pelo menos deveria
ter toca de tatupoiú. Olha só o barranco de terra apetitosa e úmida e fofa...
As duas atentas e
mais nada assuntos suspensos, atentas. O tempo de duração das coisas. Foram
molhar o focinho, as garras, espairecer as novas ideias.
Nada mais nada, nada
vezes nada, nada a fazer. Uma chuva repentina repentina e muito apreciada.
Choveu bem e choveu solto e sem bagunça.
E no meio de outubro ou
novembro os dias estavam nesse pé ante pé, pé por pé, um a um, pata por pata,
quadrúpedes encouraçadas.
Uma cidade chamada
Protásio Alves bonita harmônica sinfônica filarmônica serrana vegetal igual
como outras tantas 10 mil habitantes igrejas velhas ruas calmas paisagem de
arvoredo e o rio da Prata. Sobre a visita o roteiro bucólico, a vista da cidade
de Protásio Alves, tem altos e algares casas e galpões ruas e travessões
cavernas e capelas relvas e terras desfeitas, assim como lá pra baixo se olha daqui
de cima.
E num canteiro de margaridões
quaisquer as duas conterrâneas camaradas companheiras parelhas. Em uma noite
fechada no jardim da praça Piracema. Morcegos buscando frutas doces da fruta-de-tatu,
grilos-dos-canteiros pulando falsos-orós, caburé-de-orelha e panema encolhido
no galho do molongó, fio de água por entre pedras seixos e curvas e declives. De
repente Tá foi cheirando o ar, erguida nas patinhas de trás, mugiu:
- Tô reconhecendo
sentindo o perfume de tatu!
Tua, e repercutiu:
- Sim, pois não, eu
conheço e reconheço e já o cheirei antes sem dúvida!
- Então, quem é?
- O tatuetê Sumaré.
E logo sem demora sem
drama viram realmente o tatu-galinha nome de batismo Sumaré, e farejando pelo
jardim à cata de cupins formigas taturanas raízes e outros. Todo ali num
canteiro próximo e preocupado com cavoucar o de-comer. Sorte que Sumaré (tuxaua,
tutunqué) não viu Tá nem Tua. Viu nem viu ou fingiu. Elas não acharam nem foram
conferir.
- Não quero nem
acasalar, hoje - Tá, espaventada.
- Claro e concordo.
Não é dia nem hora, veja - Tua, empoderada.
- E vamos sumir antes
de mais nada.
- E vamos dar o pira
saindo pelo lado oposto.
Há um tempo a esta
parte. Época, época mesmo, quase pra lá de indeterminada, remota. Os longos e
puxados tempos, sem esquecer de nada, sem abrir mão de nada, sem deixar nada
para quem quer que seja, sem negociar nada para depois agora ou ainda mais
tarde. E assim desfaz o rio, que o resto é presente.
Quando foi ninguém
ficou sabendo nem as duas irmãs escreveram anotaram. Uma manhã de agosto ou
setembro. Tinha sol o ano inteiro. Um jaú-torino caprichava correndo de um
guaipeca maduro na rua Gonzaga Duque Estrada, perto duzentos metros dali.
Centenas milhares de moças-brancas buscavam os polens em a riqueza das
timboúvas.
E Tua e Tá acharam de
atravessar o arroio Retiro, a nado. O rio, impensável primeiro, o rio coleante
sinuoso de largura provável e força indeterminada. Também intransigentemente
líquido. Comadre maria-irré. Para cima oitocentos metros tinha a ponte mista. Mais
para baixo uns quinhentos metros tinha o reservatório para as pessoas urbanas
de Pérola.
- Vamos nessa?!
- Eu ainda não sei
nadar e nem me decidi.
Ficaram olhando o rio
e pensando cada coisa cada uma por si. O rio precioso perene perfeito bonito e a
calhar. O rio todo o arroio procurando a laguna o mar e gravidade zero.
Tua, lembrou:
- Do outro lado tem
uma roça de mangaritos muito pomposos e esperando.
- O negócio é convencer
o rio, o rio caudaloso, vitorioso, apartoso.
Na beira do rio tinha
monte assim de plantas bastava olhar bolsa-de-pastor, maria-preta, sururucujá,
mentrasto-do-grande pitaica-da-terra-firme ibiranhirá uxirana, camaçari,
tatucaá... por dentro do arroio operavam jacaré-de-papo-amarelo, traíra,
timburé, bagre, acará-bererê... por sobrevoando o córrego adejavam
gavião-caboclo aviões comerciais jatinhos exclusivos.
- Que que tem de
ponta a ponta desse rio Retiro? - Tua, a identificada.
- Ocê não lembra me
faz puxar pela memória? - Tá, a identificada.
- Isso é freguesia de
Manhuaçu.
- Isso sim é paróquia
de Caratinga.
Pensaram um pouco as
duas primas colegas de aula. Almoçaram azedinhas amarelas agridoces derretendo
na boca e lacrimejando. O mundo é tão exótico! Elas falando entre elas, mais
cheirando que olhando, mais olhando que pensando:
- Na ponta de cima do
começo da fonte tem uma cidade de alma nova chamada Guaporema. Mas é ainda longinho.
- Na ponta de baixo
da foz tem a cidade de Guabiruba, mas é um eito e tanto.
E começou a chover de
mansinho e peneirado e murmúrio. A terra ficaria bem fofa para abrir um buraco
de tatu. Umas galerias uns corredores de labirinto organizado.
Ninguém vai deixar o
tempo achando que tudo é verdade. Tem tempo que apela para a posteridade. Tem
tempo que escolhe o dia de hoje. Tem cada tempo que D nos livre e guarde! E
cada tempo a sua fala o seu rio.
Os tatus e as tatuas
sempre foram cascas quentes costas grossas. Isso desde o tempo que só existiam gliptodontes
e mar e praias e rochas bastantes. Blindados encouraçadas prontas para a
guerra. Então assim, o passado das eras... do museu do Ingá, em Cantagalo,
opúsculos manifestos artigos discursos. Mas ninguém sabe certo ou mesmo melhor,
dizem, desmentem.
São muitas coisas
todas acontecendo e surgindo e sumindo ao mesmo tempo. Quando as coisas vêm e
vão, como vão e vêm as coisas. O tempo tem outro tempo nas costas. O importante
está que cada ser ou ente se sinta bem e os tatus e as tatuas também. Uma
carapaça convexa um escudo uma cobertura rija de placas móveis.
- Gosto de comer
chocolate mas faço muito barulho - Tua, a identificada.
- Indispensável e
essencial - Tá, a identificada.
É dito não dito, e
isso nem é nada. Uns acontecidos usados no mundo quando tudo começa uma vez mais
e etc. O mundo envolvido em teia espiral nebulosa campo afora.
As duas tatuas quase
sempre passavam voando correndo. Após, a não ser esperar e aguardar as
histórias. Os rios sempre ligeiros. Os clangores dos autos na rua Martins Pena.
As nuvens fazendo fumaça a partir do poente. No meio de julho ou agosto tudo
estava ventando. Os rios correntes e deitados pra frente. Até porque já eram
umas seis e meia. Então, tá!
Tua e Tá estavam aí.
E de súbito o tatu Uxipuçu cruzou a pequena área do gramadinho capim-gordo.
Muito voltado para si mesmo, se diga de passagem. Compenetrado filosófico e
ensimesmado. Sério correto e objetivo como um e duas são três.
- Ei, Tá! Olhe que é
o Uxipuçu!
- Será que ele não
nos viu ou fugiu?
Tatu Uxipuçu passando
aí no seu passo de tatu-mulita condicionado desde a tenra idade. E bem no
focinho das duas beldades. Ele nem aí pra elas. E tatuagem na pata direita dianteira.
Foi embora continuou seu caminho de tatuapé rumo do morro e pela Estrada da
Graciosa.
- Aonde que será ele
vai com essa pose?
- Aonde ele vai que
nem te ligo?
- Aonde ele vai se
apinchando pra nosso delírio?
- Aonde que vai, e sim
senhor! se dirigindo?
Atentaram ir atrás. E
trotaram. Seguindo o cheiro o traço e as pegadas. Em que pese alguns golpes de
vento frio, a hora estava pacífica e calma e propícia. O tempo a propósito. Era
interessante notar que floresciam as ganha-saias as comandaíbas os jerivás os
tauaris...
- Vamos segui-lo sem
assustá-lo?
- Você puxa o rabo
dele de vez em quando?
- Não é rabo, é
cauda.
- Qualquer coisa
serve.
Pelo tanto, por aí à
frente, o tatu Uxipuçu parou e olhou para trás, para as duas, o focinho erguido
e manhosamente sujo de terra vermelha, grunhiu:
- Que que parece que
já vão me seguindo há séculos?!
- Aonde tu vais, tatu
Uxipuçu? Primeira pergunta.
- Vou comer coquinhos
ali no morro. Alguma dúvida? Querem ir junto ao mesmo tempo me acompanhando?
- Você é de
Governador Mangabeira, suponho?
- Já conheço, mas sou
mesmo natural e tal e qual de Laje do Muriaé. Conhecem, meus brincos?!
- O que que você faz
lá, se diverte?
- Sou barista tenho
um bar e sirvo café expresso e decorado. Recomendo.
Acharam as duas de ir
e foram os três. Ele na frente achando o carreiro. Elas atrás e tirando onda. A
Tua cochichando para a Tá sem Uxipuçu ouvir:
- E se ele correr
atrás de uma de nós?
- Com certeza ele vai
correr atrás de... duas de nós. E cedo ou tarde, daqui até lá, nesse ou naquele
ponto, na ida ou na volta, durante ou depois, mais tarde ou mais cedo, após o
almoço e de barriga cheia, etc.
Subiram o morrinho e
já avistaram e cheiraram o ar e sentiram o amarelo doce trescalante dos
coquinhos do coqueiro-barrigudo. A palmeira sozinha no meio do gramado do
potreiro do capim-membeca.
Enquanto houver espaço...
o tempo aparece. Dizem os entendidos. Ou será que é o contrário? Ou será em
outro planeta. Quem sabe o discente da UFSC. Ou é a matinta perera. Ou é par ou
ímpar.
O tempo decorrido, o
antigo, o antiquíssimo o antiquado o antiquário e o resto o por vir deixado ao
silêncio silêncio.
Como sói acontecer,
os dias pulam de hora em hora e as noites inventam os corpanzis de estrelas
astros meteoros satélites artificiais morcegos corujinhas-do-buraco grilos-pretos
carapanãs vaga-lumes caamanhas...
Duas tatuas caíram do
ninho. O dia amanheceu exatamente às cinco e vinte e dois uma quinta-feira vinte
de março mesmo ano. As tatuas já estavam aí pelo mato, entre folhas e ramos caídos
e secos, cominhos-bravos, carurus-amargos, ananases-de-raposa... fuçando e cavoucando
e vasculhando e ponto.
- Uma vez me falaram
que só existiam tatus e tatuas.
- Assim que valia a
pena, então.
Tá pediu para a
trinca-ferro-de-asa-verde. Tua perguntou para a dama-da-noite. Tá indagou do
manaquim. Tua inquiriu da peroba-de-goiás. E interrogaram tudo e todos com
dúvidas e curiosidades.
- Os índios tuxá que
mandam na área no pedaço?
- É lógico verossímil
que vão construir uma estrada de ferro até Vassouras e Resende e Barueri?
Em vista disso, o chão
úmido pegajoso estava já todo esburacado. Ficaram ali espionando de espias. Tá,
a identificada:
- Digo com o tatu Caaobi.
Jantamos fora na sombra da lua nova. Juntamos as garras da frente, trocamos os
sorrisos, nariz com nariz, fios dos lábios bem eletrizados, céu da boca com
céu, noite estrelada inúmeras vezes, e rio Canoas passando perto, banco da
praça Coronel Gomes Carneiro, blu-blu-blus!...
- Agradecimentos de
gratidão - Tua, a identificada.
- E tudo simples,
tudo muito discreto. Te digo!
- Pouco bom para quem
gosta de contar histórias e nem achar o final.
Tinha sol amarelo e
único e presente. Céu magro esbelto com poucas nuvens de papel branco ou novo.
Por aquelas manhãs intropeçáveis e indefectíveis e inefáveis e indeléveis. E aquele
tempo todo não durou sequer uma semana de maio.
Parentes que se pareciam,
voleibolistas que nem deixavam a bola cair a peteca, as primas, pelotiqueiras, as
duas tatuas em volta do dia, etc. Uma queria conhecer Muritiba, outra Pati do
Alferes. Outra queria pular de paraquedas, uma botar loja de fantasias para
carnaval. Uma governar reger moderar, outra ilma. e exma. srª. prfª. drª.
É um tempo e se D
quiser. Os relógios mais cobiçados do mundo. Isto à vista dos preços
interessantes por que são hoje em dia comprados vendidos, etc.
Lá estavam as duas
tatuas, um lugar do mundo, algum lugar no mundo, e alheias ao mundo, alheias ao
todo do mundo, indiferentes ao imenso e resto do mundo. Assustadoramente
indiferentes à bola. E corriam os dias, e ficavam as horas os dias as semanas
os meses e as cascas de pinhão da pinha do pinheiro-do-paraná em Maringá. Mas
isso só na teoria. Porque na prática.
Tua abriu os olhos
dificilmente. Tá olhou em volta numa outra dúvida.
- Acho tenho certeza
que nem vou mais crescer.
- Estou comprometendo
as mesmas coisas que todo mundo comete. As coisas os produtos comestíveis e os
bichos, uma vez.
Mesmo assim o lugar
tinha latitude sul, longitude oeste, altitude de cem metros, área em
quilômetros quadrados, subtropical, distante da capital estadual 416 km federal
1.330 km, habitações habitantes em torno e o ano da graça do Senhor de 2018.
Que nem era final de conversa!
No meio de dezembro
os dias já se erguem brancos ou amarelos. Nuvens plantando fumaça. Dias rios
estradas de torcicolo. Tatus tatuas tatu-peludo que anda na mata de galeria e
de tocaia em tocaia de macega em macega de touceira em touceira. É para pegar
ou largar.
O que um tatu podia
fazer. O que duas tatuas também podiam dizer:
- Ah, claro! Nem
precisa dizer duas vezes - Tua, a identificada.
- Gostaria muito de
saber escalar uma inhaíba, por ex - Tá, a identificada.
Saíram da toca no
barranco em meio de cravos-do-mato e seguiram logo logo para o pinheiral atrás
de pinhões aquele inverno rigoroso de dia fechado e frio e prometendo sair o
sol depois das dez, e olhe lá! Que situação, perobas-iquiras, caaxiós,
elemis-do-brasil, coronilhas... e o rio Cavernoso fazendo o barulho comportado
por dentro no meio ambiente do mato.
No começo do café da
manhã, as duas se depararam com a concorrência dos matizados crau-craus. E eles
gritavam do alto dos galhos. Os pinhões já caíam roídos comidos abertos e
reduzidos a restos migalhas cascas farelos, etc.
Quando foi quando se
viu, o tatu Crejé se materializou no supetão, depois de hora e meia comendo
pinhão catando pinhão se fartando, e ainda por cima sem aviso resolveu correr
atrás da Tá. Neste mesmo momento já acontecia naquela imensidão de araucárias e
que todo mundo olhando. Tá correndo Crejé correndo e Tua correndo pega-pega. E
cada um por si e D por todos. Inclusive a plateia a torcida das baitacas.
Tá entrou por um lado
do tronco caído podre esburacado de ex-vinhático-do-mato e saiu pelo outro. O
tatu Crejé entrou pelo mesmo lado e não saiu pelo outro, ficou entalado, bem
feito! As duas primas riram risos de tatuas e foram embora enquanto tinham
tempo e podiam tomar dianteira. O tatu Crejé ficou chateado com aborrecimento
de tatu até emagrecer uns três quatro dias e tomando fôlego e muito que pensar.
Um tatu e uma tatua não falam não gritam não resmungam não
mugem não duvidam não perguntam não bocejam, mas articulam a mesma linguagem.
Os olhares os gestos os trejeitos os tiques os modos são todos animais e normais
e comuns e certos e correspondentes. Se manifestam muito pouco e deles se ouve
um somente sutilmente:
- Quem?! Eu?!...
Plano diário de
trabalho e serviço noite adentro: encontrar comida, água limpa e comer até
fartar fartar opiparamente. E já sabem onde. E já sabem cheirar a trilha. E
mamíferos xenartros têm marcado uma árvore como meta e referência.
Antes de tudo, ainda
na porta da toca, antes da irmã Tua acordar definitivo, Tá olhou em volta e
olhou tudo cheirou e pensou consigo:
- Vai chover. Ainda
bem. Perto das 18h.
Tá olhou pensando
consigo mais um pouco:
- Na terra dos meus
olhos... já vai chover. Ótimo.
Depois, já as duas braços
dados e inseparáveis, no muito alto e de repente e bem de repente, ouviram os
trovões rebentando rolando reboando alarmando, uns longes que eram pertos, uns chicotes
de aço queimado e estrondos acompanhados de terra tremente e sombras
fantasmagóricas e corujas assustadas e rios encachoeirados e caçadores jaicó
espreitando e vento ouriçado descabelando uxiranas, falsos-paratudos,
mognos-brasileiros, caixetas...
Ali, como em Manaus
ou Goiânia ou Ibiapina ou Atalaia do Norte ou Itapura... o sol se escondeu e
tudo ficou fechado e assombrado. A terra sedenta pedindo água da chuva. O globo
se preparando para o melhor. Vários rios mananciais pedindo provisão, rio
Forquilha rio Lava-Tudo, rio Pelotas rio Turvo...
Uma chuva como de uma
avalanche e para baixo, do alto para dentro da paisagem, e que deu paz certeza
sossego vento veloz chuva caindo e correndo. As mais das vezes... céu cinzento
cortina cordas cântaros tromba...
A chuva desabou
torrencialmente. Choveu a chuva tanto que os buracos dos tatus estavam sendo
postos à prova, correndo riscos, e tanto pela entrada como pelas saídas de
emergência.
Pelaí, amarrado num
galho seco da sapupira-da-várzea, um bacurau procurava esperar paciente quieto
afetuoso compreensivo tiritante a tempestade extratropical amainar. Também
gostava de chuva mas nem tanto.
O tempo, este ou aquele, não leva nunca a nada. Nem
desaforo pra casa. E o melhor é sair o mais tardar possível e sem saber o
porquê. Nem prever nem antever nem pressentir, nem prescrever.
Então, Tá e Tua admiraram
a neblina da manhã, algumas árvores desaparecer, e se entreolharam e balançaram
as compridas cabeças e foram andando, andejas, andadeiras, farejando de
costume, andeiras, que andam.
Vai lá que a Terra
toda estava amanhecendo. Não foi isto um jabuti-machado? Dois tururus, um
casal, subiram pelo céu com o trem de pouso as pernas balançando soltas. Pai
soldadinho pintado de verde. O cardume dos pirajaguaras emergindo imergindo,
etc. A arte da improvisação.
Quando a manhã estava
bem acelerada, os joões-de-barro batendo asas e gargalhadas, já as duas tatuas
andavam faceiras pelo capoeirão. E sempre procurando imóveis para alugar terrenos
para mear minifúndios para explorar. Gestos pausados e passos lentos de quatro
a oito perninhas curtas. Olhavam para o chão e principalmente simplesmente farejando.
Um solzinho saía de entre as nuvens pequenas e cinzentas muito mais mascaradas ou
fantasiadas de barco a vela.
Tempo que nem é passado
é este. Tempo integral, ambiente integral, pão integral, arroz integral, frutos
de fruta-de-tatu íntegros...
Enquanto ainda acontece
esta corrente de rio o tempo mantém o que der e permite o que vier.
O tempo, sobre todos
o tempo sobre tudo o tempo, sabe fazer o seu papel o seu show o seu showmício. Pois
o tempo de água passa, o tempo de fogo passa, o tempo de preguiça-terrícola-gigante
passou, o tempo de Sete Cidades passa, o tempo de sambaquis passou, o tempo do
peixe-boi preocupa, o tempo de marolinho-do-campo floresce, o tempo de terramarear
sempre renova se transforma.
- Nem nada nem
existia universo. Mas todos todas eram anfíbios sapos jias pererecas.
- Com cauda ou sem
rabo que diferença se faz?!
Tá não conseguia
conciliar o sono, Tua não conseguia dormir porque Tá não dormia e vice-versa. O
dia claro lá fora da toca já ia alto pela metade e de muito sol e estrídulos de
cigarras, apitos nasalados de curicacas, cantos de tempera-violas-de-asa-verde,
assobios de sabiacicas, jabués, tesourinhas... Restos
de frase uma palavra ou outra um chilreio aqui ou além, quem não ariscava não
petiscava.
- Isso passa, passa
tudo isto e muito mais - Tua, a identificada.
- É, eu sei. Eu sei e
às vezes me confundo - Tá, a identificada.
A bola de fogo já
passara pelo céu. Já estava do outro lado do mesmo planeta conhecido. Assim
ficava a noite, lá era um dia antes.
A noite já está
instalada. A noite é para isso mesmo. Tatus e tatuas na roça de mandioca aipim
macaxeira maniva e assim por diante.
E a lua beleza nua,
completamente, deslumbrantemente lua, linha perfeita de lápis preto... e
pronta, se exibe no céu infinito.
Que mais se dirá.
Uma explosão vinda de
onde amassa arma joga tudo para o ar. Quem aparecerá? Quem desaparece?
O início da linha
onde o presente para.