sábado, 28 de março de 2020

O Também (juvenil)




            Foi que certa hora Lilás a menina percebeu tudo isto isso e aquilo. E argumentando escolhendo viajando procurando pacificando...
            Um dia era o sol que aparecia, outro dia nem era o sol que aparecia; uma noite era a lua que nem aparecia, outra noite eram a lua e as estrelas que apareciam. E os dias eram plantados, e as noites eram colhidas. As chuvas uniformes, os rios compridos, os serões contados.
Chegou um dia numa noite, como para toda criança de dez anos, que Lilás nem queria dormir cedo manhosa pertencida curiosa. Estava de visita na casa da tia Pindoba, lá em Riacho Grande distrito de São Bernardo do Campo. A tia começou insistindo, em quê?, no assunto desta história interestadual:
            - Vai.
            - Nem vou!
            - Vem.
            - Nem tem!
            - Eu digo que sim.
            - Eu já disse que nem!
            - Simboralá, meu bem primeira-ministra!
            - Nem vou cinquenta vezes!
            A tia desligou a tevê de plasma na sala de estar e arrastou, entre aspas, a menina para a cama para o quarto de dormir. Lilás resistiu até uns metros resistiu metro a metro, mas acabou se deitando se acomodando. O cômodo pintado de verdinho com azul.
            - Lilás, deixe de ser escandalosa. O que houve? Tou te estranhando. Tá com o dinhoso no couro? Você nunca foi disto!
            - É martelo camartelo marreta. Nem quero dormir, quero ver tevê ou redes.
            - Mas por hoje chega e apague apague a luz.
            - Nem chega nada. Nem vai nada. Nem por nada.
            A tia Pindoba, já casada com tio Janota e mãe de prima Pita e primo Cabal, apagou a luz do quarto e saiu sem mais palavras simples palavras. E Lilás, de manhosa mimada, só pegou no sono madrugada e, assim mesmo, por acaso, por cansaço.
            O mar tem tanto valor como tem penhor a floresta a praia a tribo caritiana os rios as praças o carnaval o campo Rio Pardo a sociedade o igarapé Água Branca em Tarumã (Manaus) a plantação de milho Careiro da Várzea soja amendoim legumes...
            Foi, então, que o Bicho Estranho e disfarce, de cabelos atirados de qualquer jeito sobre a cabeça e os ombros, entrou na história. Entrou pela janela, embora as janelas do quarto estivessem fechadas escuras com persianas. E o Bicho Estranho e abraço entrou e pegou a menina no colo nas costas e a carregou. Levou a menina para longe, para distante, para nem se sabe que sítio. Raptou-a. Capturou-a e a abduziu. Assim mesmo. E muito devido o balanço e os solavancos, a menina despertou e reclamou e nem entendeu perguntando:
            - Mas o que é isto? Que coisa é esta, meu? Quem é você, seu Bicho Estranho e maluco? Aonde pensa que me leva e me traz? Aonde pensa que vai e que volta? Por que faz e desfaz que me tira e me devolve? Me largue, me devolva, me solte e nem me perturbe!... Socoooorro!...     
            - Fique fria, menininha tão galante. Isto tudo é um sonho ou um pesadelo, depende de você de ocê de tu. Só você está sabendo e vendo e ouvindo e contando o que vai acontecendo. Continua...
            - Mas como?! Nem pode! Onde se viu!
            - Simples e fácil. Eu sou fruto da sua imaginação, da sua fantasia, do seu sonho e quimera. Sou uma turbulência do teu agitado dia a dia. Lembra do quindim a mais que você comeu se lambuzando?!
            - Mas como?! Nem pode! E os meus familiares parentes amigas conhecidos?
            - Simples e claro. Você tentou desobedecer sua tia Pindoba, e isso é grave, gravíssimo, fundamentalmente horrível. Tem mais. Sua tia pediu para você ir dormir e você se recusou, assim, na maior. Total: o seu próprio pesadelo me acionou e eu vim correndo lhe assustar e lhe raptar e lhe carregar para longe. E aqui estamos. Nem conhece a lenda? Eu sou o Bicho Estranho e desguedelhado, um animal da sua imaginação, um animal que vem de dentro do escuro de você mesma, um animal que surge e se alimenta da fantasia que nasce e morre de você mesma. E parece complicado, mas nem é. E parece do outro mundo, todavia nem é. Você sabe assobiar?
            - Nem acredito! Isto nem pode ficar assim! Eu vou contar por meu pai e minha mãe e meus avôs avós...
            - Mas se estou aqui, nem tá vendo?! Sou de corpo espírito e nuvem, tá ligada?!
            - Já tinha ouvido falar, mas... mas pensei que era coisa de criança medrosa.
            - Eu sou um sonho difícil de aturar, isto sim! Às vezes duro mais de um mês, e noite depois de noite.
            - O que você vai fazer comigo até lá? Eu nunca nunca nunca, três vezes, vi você na minha vida existente. Como que nasceu do dia pra noite?
            - Vou levá-la para longe, para bem longe, para qualquer lugar, para o fim do sonho, pra ilha de Itaparica, pra ilha Grande, pra ilha de Vitória, navegar no rio Puraquequara... Esse é meu trabalho. Nem tenho dó ou remorso de ninguém. E nada poderá me impedir me deter, salvo se você acordar imediatamente. O que também acho impensável neste momento. E vamos embora que já estamos atrasados, tá?!
            O Bicho Estranho e impreciso a carregava para onde for. E este animal tipo jacaré-açu morava onde, morava no fim do mundo, no fundo de uma montanha, num lugar sem endereço, num lugar inexistente, num lugar muito exótico, num lugar da imaginação assustada, num lugar sem gosto sem cheiro sem cor e de difícil acesso. O tal jacaré-açu, praticamente, só andava à noite, andava a pé, descalço, as solas dos pés muito grossas e acostumadas rachadas nas bordas. O trabalho do Bicho Estranho e doido era raptar crianças e pré-adolescentes que nem obedecem aos pais e às tias na hora de dormir comer estudar ir pra cama sem tevê ou redes.
            - Espera um nada de nada que vou telefonar - pediu a menina.
            Aí, a Lilás realmente pegou o telefone e escolheu os números, escolheu, dedou, escutou alguém atender e foi falando com a tia que estava no outro hemisfério do outro lado do mundo além da linha do equador:
            - Oi, tia Pindoba! Desculpe acordar, mas... quê? A tia já está acordada? Mas como? Por quê? Repete, por um favor!...
            - Nem posso te resgatar... entende?! Vou levar algumas horas para chegar ali... entende?! Você me autoriza a entrar no teu sonho, minha filha de coração?
            - Mas eu preciso me salvar, tia! Se eu nem me salvar imediatamente... o Bicho Estranho e biólogo me levará para nem sei onde! Coisas horríveis podem me acontecer e sem eu querer, tá ouvindo, tia Pindoba?!
            - Então, já vou, já vou...
            E a menina desligou o telefone e mais aliviada, desabafou, olhando séria:
            - A minha tia já vem vindo me salvar, aguarde, seu Bicho Estranho e governador, pretendente mal-agradecido mal-humorado mal-assombrado.
            A menina e o jacaré-açu estavam caminhando pelo acostamento de uma BR-116. Já era mesmo altura do município de Anicuns ou de Moreno ou Iranduba, possivelmente, ou mesmo serra do Cafezal, Juquitiba, Miracatu, Autazes...
E o Bicho Estranho e arranha-céu apreciava demais comer pasto, capim, grama, vegetais em geral, ervas, lianas, samambaias, ananaís... Era muito forte, mais forte, fortão, fortíssimo. Sempre permanentemente com fome e era muito guloso glutão. Apesar dos meios de transporte à disposição, o Bicho Estranho e carpinteiro nem gostava de viajar de ônibus, de trem, de metrô, de avião, de navio, a cavalo, moto, bicicleta, disco voador, internet, correios... ele preferia mesmo ir a pé e gastando sola dos pés sola dos chinelinhos de dedo rasto dos sonhos virtuais. O tipo físico dele era igual àqueles jacarés-açus da Amazônia, dos rios acreanos. Aliás, bem parecido com jacaré-açu e até um pouco maior mais perigoso. Se vem ao caso, um pouco pior.
            - Eu gosto de caminhar, caminho devagar e arrastando a cauda que é muito comprida e faz parte de mim. Um avião nem tem cauda? Então eu também tenho cauda e ninguém tem nada com isso - disse o Bicho Estranho e político.
            O tal tinha tudo de jacaré-açu tinha tudo de jacaré-coroa tinha tudo de jacaré-curuá, mas caminhava imitando um pato, e tropeçando, e tropicando.
            O Bicho Estranho e despenteado - o mesmo do sonho da guriazinha - era um pouco míope, usava uns óculos de lentes bem pesadas, tipo óculos fundo de garrafa. Na verdade o Bicho Estranho e legítimo podia andar nos dois pés, ou nas quatro patas, ou voando. Era muito versátil. Umas unhas longas e sujas de andar na terra, na tabatinga, no lodo, no pântano, no mangue. Cabelos compridos e sempre mal penteados, sem chapéu, sem boné, sem bandana patriótica. Tomava muito banho de imersão, e gostava de nadar e apanhar chuva. Umas orelhas grandes como os orelhões de telefone público de antigamente. Quando em pé, e de longe, parecia um macaco de couro grosso, de perto e em plena luz do sol se via que era mais parecido com jacaré-açu e dos grandes. Os dentes faziam fila dentro da boca, às vezes caíam para fora da boca larga e comprida. Falava numa língua presa igual taquara rachada soprada pelo vento minuano:
            - Fazer o quê, todo mundo me imagina assim ou assado - se desculpava ele.
            E o mais incrível e ameaçador, era que o Bicho Estranho e vazio, e disfarçado enrolado, tinha um chifre, só um, bem no alto da testa, bem na frente do queixo como se fosse um nariz olímpico e que era para ameaçar qualquer inimigo e chifrar os oponentes e impor respeito e impor afastamento distanciamento.
            - Quer me colocar no chão, quer? - sugeriu a menina, com pressa.
            O Bicho Estranho e figura de quadrinhos colocou a menina no chão da estrada de terra batida, no meio da estrada rural de terra e brita, no phn dos Guararapes. A menina novamente de novo debateu:
            - Este é um lugar longe da minha casa e estou certa!
            - Exatamente o que você sonha sempre sonhou. O lugar do sonho.
            - Onde estamos pousados? Que país pertence? É a terra de Joaquim Nabuco e Alexandre de Gusmão e cia? É à beira no rio Sucunduri? Vamos conhecer a tribo dos pucobié-gavião?
            - Nem sei. É andar e caminhar sem terminar. Dormir com dormir.
            A menina chegou a pensar um pouco. A Lilás coçou a ideia no couro cabeludo, preocupada. E logo em seguida voltou, repousada, simpática, heroína:
            - E nem há nada que possa fazer para sair desta situação encantada?
            - Bem. Você precisa... precisa acordar, despertar. Quanto antes melhor.
            - E como faço para acordar no meio deste sonho que me leva e traz?
            - Nem sei. Talvez, por quê? Pode-se negociar.
            - Será que minha tia chega ainda hoje para me resgatar? O que sugere?
            - Duvido e dou corda. O cunho é peça de cunhar moedas e medalhas, é. O elogio tanto faz tanto fez a ostentação da pompa e circunstância. Você sabe subir montanhas?
            A mais das vezes, o Bicho Estranho e vadio desocupado nem podia ficar muito tempo sem comer capim-sapê. Então, por isso, pararam entraram num restaurante Cariú vegetariano da beira da estrada, bairro Antônio Eneias Galvão rua Domício da Gama calçada arborizada bonita, periferia da cidade de Santo Antônio da Patrulha ou Borba ou Jaboatão dos Guararapes. Era ainda noite, era ainda madrugada, a lua trocava informações com as estrelas paraquedistas. E pediram uma boa salada de frutas e uma boa salada de legumes para dois, bom apetite!, obrigado pela preferência!
            - Nem come muito que você está dormindo, viu?! Nem é legal comer sonhando, comer e sonhar, pois engorda sem saber e muito - alertou o Bicho Estranho, e hilário.
            Ficaram ali por uma hora, mais ou menos, assistindo televisão e vendo um jogo de futebol bavi. Mas o Bicho Estranho e legenda comeu que foi muito, que foi uma coisa. Comeu com as duas mãos, na afobação. Ergueu o capim no ar como um troféu e encheu a bocara. Limpou os beiços com as patas curtas de cascos duros. A cauda de jacaré balançou de prazer e a barriga cheia. O tal jacaré-açu comentou no fim o gosto da comida verde tenra espumosa verdinha sem agrotóxico:
            - Uma delícia de grama verde, e ótima. Gosto de folhas e raízes, uma vez.
            Uma hora e meia após, os dois saíram fora, seguinte, reiniciaram a caminhada e ao que deus proverá e dará. O Bicho Estranho e enorme pagou a conta, conferiu o valor e pagou, aceitou o troco sem dar gorjeta. Convidou a menina para que o seguisse, e seguiram. Pegaram a velha estrada do alto sertão de Goiás, e conurbação passando por Vazante, Unaí, João Pinheiro, Sumidouro, Careiro... Uma noite em fim de carreira pelo carreiro pela carreteira. Uma noite com o prazo de validade vencido.
            No caminho clicorrota e andando devagar para fazer bem a digestão, o Bicho Estranho e grenhudo até chegou a arrotar umas muitas vezes, orque! orque!... E olhando para os lados pedindo desculpas, escusas, meneamentos.
            - Como foi que você nasceu com esta cara de animal diferente e exótico e assustador, seu Bicho Estranho e inédito?
            - Acho que foi aterrissagem forçada, né - e riu ele mesmo, para depois consertar. Que nada, é brincadeira. Eu nasci assim e aqui estou, pronto!
            - Nem vai fazer uma intervenção plástica? Troque o nariz e o queixo, arrume a barba, implante cabelos...
            - Ufa! Acho que nem. Minha profissão precisa desta carranca desnivelada.
            - E por que me levar até o fim do sonho? Nem seria melhor mais pertinho? Vamos até a caverna de Santa Fé e rezar! Vamos até a laguna de Araruama! Vamos até a ilha de Combu! Vamos flutuar no lago do Catalão!
            - Ora, que menina! Que tipo mais perguntador que você é, meu! Continue lembrando que eu sou o fruto dos teus belos sonhos, tá certo?! Que que fui arrumar!
            De repente no caminho ciclofaixa já passavam por umas árvores baixas, umas árvores altas, umas paxiúbas, umas pindobeiras, umas jaracatiás, onde um casal de murucututu fazia ninho no buraco da caramuru. Era uma quinta-feira de manhã.
            - Perceba - disse o Bicho Estranho e descabelado. Eu sou você no medo do escuro, eu sou você no meio da noite, eu sou você se revirando na cama e pensando bobagens asneiras idiotices. Eu e você somos a mesma pessoa, e por dentro e por fora. Você sabe nadar?
            - Eu imaginei você incomodando meu sonho, é? Onde foi que eu errei? Eu só queria andar pelas ciclovias de Manacapuru ou Codajás, tá legal?!
            - Você mesma que me fez assim como sou. Você mesma que se surpreendeu. Você mesma que tem receio de mim. Você mesma que me criou e desengonçado e desnorteado. Você mesma que me chamou pelo nome inventado da sua imaginação.
            - Tá, tá bom, entendi! Mas ainda nem sei o porquê. Nem sei até quando.
            Depois, clareando a manhã, passaram na frente da lagoa Mirim e esta alimentada pelo rio Castanho e rio Paquequer. Um bando de tudo que era ave do banhado voava e pulava e gritava ali, aqui, mais pra lá, colhereiros, maguaris, garças-brancas, guarás, quero-queros, tachãs, carões, gavião-pato, maçaricos, arapapás... Um monte de idiomas gritantes toadas chilreios...
            Faltava um tanto para chegarem ao cabo da jornada, no fim ou no infinito. Talvez estivessem já caminhando ali pela altura da cidade de Óbidos, próximos de Iguaba Grande. Então, riscou um raio no céu matinal, trovões, e começou a chover peneirado. Caiu um toró medonho. A trilha virou um minhocal. Nem demorou nada para que tudo começasse a alagar, transbordar, enxurrar, enlamear, embarrar, empapar, ensopar...
            - Tempo interessante, nem é?! Se nem é calor é frio, se nem é frio é calor...
            Por causa da chuva se abrigaram numa casinha em ruínas, a única que viram, bairro Magalhães de Azeredo em a rua Bento Bruno de Meneses já nas imediações no entorno de São José do Vale do Rio Preto.
            - Que lugar é este, meu?! Parece deserto ou despovoado ou desmatado - perguntou a menina, olhando a chuva a chuva.
            Bicho Estranho e molhado se sacudiu um pouco da água da chuva e respondeu:
            - Bem, aqui é a ruína do bangalô de um tal de Gigolô, bandido famoso na região tempos anteriores passados antigos. Um cara que vivia pensando em namorar todas as mulheres do mundo e do universo. Algumas eram raptadas e nem retornavam mais as suas famílias. E ele existe ou nem existe, é.
            - E isso era certo ou errado? Tempo bom ou tempo ruim? Dúvida ou certeza?
            - Que nada. Cada um cada um. O pensamento e o sonho são livres livres, de asas abertas no alto do céu. Voando no ar como um avião da Esquadrilha da Fumaça.
            - E daí? E daqui pra frente? Qual é a deste Camelô?
            - Daí que esse tal Gigolô foi também pirata nos tempos de moço e de rapaz e vivia atrás de aventuras pelos rios e igarapés e ilhas dos lagos e lagoas. Era um tempo antigo e desconfortável. Era um tempo que ele gostava muito, pois nem era politicamente correto. Um tempo de caçar tesouros e se encher de ouro e prata. Um tempo que passou. Uma época de navegar de gaiola e atirar de canhão fazendo guerra para conquistar os portos os fortes as fortalezas.
            - Continue. Eu pretendo ser engenheira no futuro, fique sabendo.
            - Aí, o Gigolô ficou cansado das lutas e das glorias e dos tesouros acumulados e escondidos e dos roubos e dos namoros e resolveu se recolher a este lugar sombrio e úmido e afastado da civilização.
            - É, e aqui se faz e aqui se corre do cobrador, nem é?! Um dia da caça e outro da arapuca, tô certa?!
            Os visitantes entraram na choupana para se esconder e se proteger da chuva. Logo na entrada o Bicho Estranho e interlocutor, decidido, bateu palmas, plaque! plaque!... se fazendo anunciar no pedaço.
            - Ei, Gigolô! É visita! Oh, de casa!
            Esperou ruído de vida lá por dentro. Voltou a chamar, chamando:
            - Podemos entrar, compadre? Plaque! Plaque!... Somos pela paz e na paz.
            As visitas finalmente ouviram alguém gritar lá de dentro, atrás das pedras e das esquinas da caverna, entre as ruínas, os cômodos mal e mal encobertos de lianas:
            - Entrem... se acheguem... se aproximem... se aprocheguem...
            Os viajantes chegaram finalmente mais para o fundo do buraco, lugar meio na penumbra, mais ou menos frio, umas poucas tochas acesas iluminando o ambiente. Gigolô estava ali sentado solito no mas, sentado num banquinho tosco e olhando o fogo de chão e tomando chimarrão um mate amargo. Tinha os cabelos verdes, a barba ruiva, sobrancelhas verdes escondendo olhos negros e interessados.
            - Olá!! - cumprimentaram as visitas.
            - Cheguem mais, amigos! - disse o Gigolô, o cramulhão.
            Os intrusos se aproximaram e cumprimentaram, apertaram a mão do Gigolô, o Gigolô nem quis se erguer do assento. Nem era um Gigolô dos piores ou melhores. Tinha os cabelos longos soltos e as pestanas azuis resaltando pupilas frias firmes.
            - Tudo em dia, Gigolô? - perguntou o Bicho Estranho e rifão.
            - Vai que nem para, né, meu! Nem repare na bagunça da toca, né, chapa!
            O Bicho Estranho e camuflado já conhecia e já frequentara outras oportunidades a toca do parente e nem achou defeito algum. Eram até muito amigões e contraparentes. Foram conversando e coisa e tal, se riram, o Bicho Estranho e artista foi explicando o acontecimento do dia da hora:
            - Estou levando esta menina para o fim dos finalmente. Ela fez desobedecer a tia dela Pindoba e se sabe como é. Quando acordar vai se sentir desconfortável e com remorsos. Já conhecemos a praia da Guarda do Embaú, o museu Gaspar Viana, o lago Mamirauá, navegamos o rio Preto... E assim eu procuro distraí-la, entende, amigo?
            Aos poucos os visitantes inesperados iam acostumando a vista no escuro. Buraco ali mais ou menos mobiliado. Uma caverna com pouco conforto. Do alto pingavam algumas gotas de água fria e calcária. Lugar para ficar uma noite e nem muito mais tempo. Circulavam sem cessar aranhas de alguns tamanhos, morcegos dorminhocos, lacraias procurando, sapos atrás de moscas... e coisas que nem tinham identificação.
            - Lá fora cai um aguaceiro que sai de baixo, compadre - narrou o jacaré-açu.
            A cuia do chimarrão passou das mãos verdes e pegajosas do Gigolô para as mãos ou garras secas e duras do Bicho Estranho e desgrenhado. Depois voltou. A menina Lilás nem se atreveu a beber mate-amargo, era muito quente e fervendo e amargo. A menina se distraiu com olhar o fogo e a fogueira as chamas e labaredas. Lá fora o lepe-lepe!... esportivo insistente da chuva. Chuva que veio, chuva que ficou, chuva que enxurrava, chuva que ia caindo flexível e deslizando tal qual a paciência dos peregrinos.
            - Eu habito aqui meio muito só, sabem? Nem tenho internet, nem tenho tevê, nem tenho telefone, nem tenho quase visitas. Eu nem sei mais o que fazer para passar o tempo. Fico olhando a parede da caverna. Fico pensando e olhando o fogo de chão. Nunca saio da minha toca das minhas ruínas antigas desgastadas arruinadas. Escrevo na rocha estes aí desenhos rupestres. Jamais saio da minha gruta, da minha caverna.
            Houve um minuto ou dois de elevação artística. Lilás percebeu o grande artista na pele do interessante Gigolô. A menina perguntou qualquer coisa para quebrar o gelo de clima sombrio apagado:
            - O tio nem sai da gruta, nem viaja ou conhece outros lugares, nem visita os parentes na cidade? E por que nem uma praia do tipo Estaleiro e Estaleirinho em ótimo Balneário Camburiú, já pensou, já realizou?!
            - Nem, e me faça o favor! É que estou condenado a ficar nesta gruta. É fato. De fato e de verdade. Sendo que a verdade é uma só.
            - Mas é pesado, nem é pesado?
            - Se é, menina sonhadora dorminhoca fantasiosa. Fico olhando as pedras da caverna, cheirando pedras, estudando pedras geólogo geologia e... virando pedra.
            No outro dia, somente no outro dia diferente, logo pela manhã bucólica, as visitas partiram. A chuva já havia ido embora e além da pedra do Sino. Lilás e o Bicho Estranho de morrer, e trabalhador, se despediram do Gigolô. E mais: saíram fora.
            - Até a próxima, anfitrião!
            - Deixem a próxima em cartaz, tá certo?! Andem pela sombra das ruivinhas-do-campo, tão ligados?!
            - Efe-u-i, fui!...
            E os viajantes pegaram o rumo do fim do território do fim do século do fim da Transamazônica. Pegaram pelos linheiros dos chapadões e araxás. Já estavam nas alturas da cidade de Itaituba, região da tribo goitacaz, municípios de Jandira e Paracatu e Guarda-Mor e Itapevi e Conchas e... A nascente começo do grande rio Solimões era mais para lá. Para o norte o distrito de Pedro Barros em Miracatu.
            - É logo aí o começo do rio Amazonas? - quis saber a Lilás.
            - E eu é que sei! Nem é você que tem o sonho, que está sonhando? E quer saber?! Pegue e me delete, então! - reclamou o Bicho Estranho e dançarino, amuleto de figa pendurado do pescoção.
            - Então, o fim da história é também o fim da picada.
            - Depende do teu sonho, já disse. Você sabe subir em árvore?
            A menina nem sabia mais o que dizer. Na beira do caminho, principalmente pela direita, muitas palhoças da aldeia dos índios paumari. Tinha um rio grosso gordo que passava perto da aldeia rio Piabanha e os índios pescavam e nadavam e navegavam de canoa ubá. Alguns aborígenes vendiam trocavam peixe pra comprar celular relógio.
Dois dias depois, por paragens estreitas e angusturas e vales e gargantas e cafundós e brechãos, cheias de peraus, a menina voltou e disse:
            - Esse tal fim de história é bom ou ruim, pra cá ou pra lá? Quando vamos passear de visita na reserva dos galibi-do-oiapoque, dos karipuna-do-amapá? E o festival do Sairé no vilarejo de Alter do Chão?
            - Cada qual tem o seu fim de episódio que merece, é.
            Horas depois, aquele mesmo dia oferecido a toda gente, algumas horas mais tarde, já no meio da mata atlântica, foram surpreendidos com um flechaço gravado repentinamente de repente, tufe!... numa árvore bem pertinho. Era um aviso de índio, por certo. Um índio ou vários índios estavam ali à espreita. E que queriam? Foi um susto e tanto. Olharam em volta... e nada de nada. Algum índio caçando por ali? Índios querendo caçá-los, então?
            - Que situação é esta, hein?! - falou a menina, perguntando para o ar. Estamos em terras dos índios matipurri e da etnia camba? Estamos na fronteira Ponta Porã quase divisa com a Bolívia? Estamos em terras da União?
            - É índio ou são índios e estão nos espreitando, tenho quase certeza - disse o Bicho Estranho e estoutro.
            - Acho que tem alguém querendo nos caçar, é.
            - Muito perigoso pra saúde. E depende bastante se você tá tendo sonho bom ou ruim, né, guria! Uta!, como é difícil.
            O Bicho Estranho e despenado pensou um pouco, olhando em volta, pensou e chegou a uma hipótese:
            - É, acho que sei... Deve ser o curupira. Pois deve ser mesmo o caapora.
            - Curupira... É, já ouvi falar nesse carinha. Ele quer nos acertar?
            - Nunca se sabe. Às vezes é meio atacado do mau humor. Eu nem sei. Ele nem suporta invasores da floresta. Ele desconfia que os invasores da floresta estragam as plantas, prendem os animais, poluem os rios...
            - Um diabinho ecológico e politicamente correto filiado a ongues financiadas.
            - É isso aí mesmo. Mas fale baixo. Ele tem ouvidos por toda parte. E ele é temperamental - explicou o Bicho Estranho e governador.
            Os dois intrépidos esquecidos viajantes prosseguiram, nem tinham outra escolha. Procuraram nem tropeçar, nem fazer barulho, nem esbarrar nas plantas, olhar onde pisar, olhar para os lados, esperando todo o momento por outro ataque e quem sabe um flechaço lançaço bordunada tiro de sarabatana.
            - Será que ele vai nos flechar com curare? Nem parece documentário dos irmãos Villas-Boas?
            - Depende do humor lá dele na hora, né. Vamos em frente e tentar nem irritá-lo - dizia o jacaré-açu e dentuço.
            - O que admiro é você mesmo, seu Bicho Estranho e internauta. Se você sabia que aqui era um caminho perigoso e cenário difícil, por que resolveu vir pra cá assim mesmo? Você é aventureiro.
            - Nem sou eu que decido os rumos do teu sonho. É você que está sonhando. É você que está na direção.
            - E eu que posso escolher o caminho do meu sonho? E como é que posso parar de sonhar este caminho fora de estrada, hein?! Qual a diferença entre sonho e pesadelo, me fale!
            A menina tirou o celular do bolso e telefonou:
            - Ei, tia?! Sou eu! Me acuda!...
            - Calma, estou indo, se cuide, me espere, já tou na estrada pra chegar aí... - respondia por telefone a tia Pindoba.
            - É urgente! É pra hoje, né, tia!
            - Já estou chegando. Estou aqui mesmo na rua Manoel de Oliveira Lima da estação rodoviária de Adamantina. Vou pegar um trem para Torre de Pedra passando rapidamente por Bofete e Juquiá e antes das 14h, é. Sim, chegarei em o tempo hábil!
            E a Lilás desligou o fone. E ela mesma nem tinha sossego, nem tinha consolo, nem tinha jeito. Vivia o pesadelo do qual nem podia sair, nem podia deixar de sonhar e com todos os perigos e caminhos perigosos. Horrível isso. Às vezes tinha receio de altura e de cair de uma árvore. Era como ficar com as mãos e os pés atados. Ir à piscina sem poder tomar banho. Gostar de sorvete e nem poder sorver sorvete porque se está sem dinheiro. Às vezes parecia balançar no alto de uma torre de tensão ou roda-gigante.
            - Medo de altura eu já sei o que é. Pesadelo é sofrer uma história que é muito má no sonho de quem está dormindo - desabafou a menina, e pensando no futuro.
            O interior da mata ficava cada vez mais escuro e estranho, e mais fechada a vegetação de paratudos-do-campo de morcegueiras de pitas de carnaúbas... mais estreitas as trilhas, mais perigosas as ravinas, tudo muito perigoso e assustador. Ali pelo lado da estrada um bando de macacos-da-noite atacando uma plantação de pacovas-sororocas. E faziam um auê!... escandaloso. Batiam ali, buscavam cá, pegavam ali, viravam por lá, corriam para acolá, saltavam dali, olhavam daqui, escalavam por tudo...
            Nem demorou mais nada, nem levaram mais dois quilômetros e veio outro aviso. Um zunido pelo ar... e uma flecha surgiu do nada e se cravou no solo com este ruído, tufe!... muito perto dos pés dos viajantes. Os dois intrusos da floresta pararam, claro, atônitos, olhando em volta e preocupados. Estavam sendo observados e de perto.
            - Uta, meu! Encardiu de vez - reclamou o Bicho Estranho e viajão.
            - Que que se faz? Que horas são?
            - E eu sei lá! Você gosta mais de viajar de trem ou de barco?
            - Nem adianta me culpar - dizia a menina. Eu estou sonhando, mas nem sou eu que fabrico meu sonho. O pesadelo é meu, mas nem mando no meu sonho, é isso. O pesadelo está em mim e nem é por minha própria culpa. A causa é desconhecida.
            - Tá, tá bom, nem é hora pra gente ficar discutindo. A paisagem é boa.
            - Seria interessante se pudéssemos sair das garras desse curupira ou jurupari. Daqui a pouco ele nos acerta. Nem sou churrasquinho pra acabar no espeto. Faça alguma coisa, você é fortão, você é de-maior, você é bicho, você foi pago pra isso, você usa capuz.
            A coisa era difícil. A coisa podia dar trabalho. Estavam, como se diz, no mato sem cachorro-do-mato-vinagre. Completamente nas garras retráteis do curupira ou diabinho do mato.
            - Me sinto uma caça na mira do caçador - lamentava a guriazinha.
            - É, o curupira ou saci tá com a faca e o queijo na mão. É só ele querer pra... - e Bicho Estranho e civil passou o dedo no pescoço, significando cortar a garganta.
            E os dois, fazer o quê?, continuaram em frente, em frente porque atrás vinha o fominha. E continuaram pelo caminho rodovia Régis Bittencourt entre os municípios de Sete Barras e Mariápolis cansativo e espinhoso e tortuoso. Nem havia alternativa segunda via. Pelo acostamento das bícis e equipes de resgate. Era mesmo um senhor tráfego sem controle. Uma história em quadrinhos com capítulos muito suficientemente cheios de ação altos e baixos ulteriores e posteriores.
            Lilás, histórica, nem estava gostando daquele desassossego todo. Era um sonho pesado que nem parava nunca, que ia longe demais, que caminhava a noite toda e o dia todo, cansava uma exaustão. E ela nem conseguia acabar com aquilo. Nem conseguia acordar e dar um basta basta. Que fazer? Se sabe lá até quando, até que horas terá de suportar o tempo ruim!
            - Isto tudo é muito chato e faz mal pro psicológico. E por que esse curupira nem aparece de uma vez para negociar, nem se apresenta, hein?! Por que todo sonho difícil tem de acabar em susto?
            - Como vou saber. Às vezes ele só quer impor respeito - disse o Bicho Estranho e compêndio. Ouvi dizer outro dia que o curupira quase sempre vem na forma de porco-do-mato e grunhindo.
            - Mas eu sou muito novinha em folha para andar com esses traumas. E na flor da idade, hem, meu?! Quanto tempo leva daqui até a praia do Pinho? É mais longe que a aldeia dos otxucaiana?
            - Esses pesadelos nem se escolhem, acontecem. Eu mesmo nem existo, de fato, de verdade, me ouvi?! Você sabe palavras do tupi-guarani?
            O caminho era o mesmo. O caminhar era aquele. O destino era o fim do sono. E havia nuvens no céu, praça João Cândido, árvores nas margens da trilha, cachoeira da Velha, uma trilha que descia por uma coxilha nada nada verdejante. Uma cidade de Irituia aparecendo no meio do vale verde limpo organizado. A rua Gentil Homem de Almeida Braga o poeta com janelas das casas lojas dos dois lados longe longa larga no sol quente, 16h e 31min. E igual passou no ar aves como flechas, irerês, urus, araras-azuis-de-lear, jacuapetis, nhampupês...
            Chegaram a uma clareira gramada. Um palco ideal para um acontecimento qualquer. E de fato ali foram ouvir um esquisito chamado, uma esquisita palavra, assim, que parecia canto, berro, grito, pio, linguajar de bicho do mato:
            - Ecou!... Ecou!... Ecou!...
            O chamado o anúncio o aviso vinha do interior escuro da mata, e era intraduzível. Chamado este que arrepiou toda a floresta e principalmente os viajantes do sonho do sonho. E para maior terror dos viandantes, de repente, se viram cercados por uma vara de porcos-do-mato ou catetos. Dentre todos os catetos se destacou o curupira. Este diabinho do mato vinha disfarçado de porco-do-mato. Daí, o curupira falou e veio para perto dos viajantes assustados, já falando alto e autoritário e mandachuva:
            - Estão sabendo que esta reserva florestal proíbe a entrada e a presença de estrangeiros de fora? E também proíbe bichos nada nativos? Então, vocês invadiram meu território, estão me desobedecendo, estão me devendo esta! Isso é perigoso para vocês, entenderam?! Preciso desenhar?
            Esse curupira, anãozinho velho e manhoso e esperto, tinha uma lança na mão e nas costas um arco com carcás cheio de flechas e setas. Tinha os calcanhares para frente e os dedos dos pés para trás. Pés invertidos. Ao caminhar deixava rastos enganosos, tipo assim como se estivesse indo quando voltava.
            - Aqui na selva quem manda sou eu mesmo e ponto. Aqui na floresta a minha lei é sagrada e ninguém irá violá-la - disse o anão vermelhinho de orelhas altas e peludas.
            É, o curupira ou caapora era muito brabo e nervoso. Nem gostava de estrangeiros na sua floresta, sua floresta nativa.
            - Nem gosto de estranhos e metidos e mexeriqueiros. Os estranhos só trazem lixo e destruição para a floresta e isso é péssimo. Bota péssimo nisso!
            Os porcos-do-mato gostavam do curupira. E escutavam o curupira falar e grunhiam concordando com tudo que o diabinho dizia. Mas esses porcos-do-mato um dia foram gente também. O que aconteceu foi que o curupira os pegou fazendo anarquia no meio da floresta e os transformou em catetos. Agora são porcos-do-mato um bando deles e que o curupira usa como escravos servos empregados cavalos domésticos serviçais mão de obra barata. Só para se vingar dos caçadores lenhadores humanos, das pessoas, das gentes, dos urbanos civilizados. Porque é assim: quem pensa entrar na floresta e roubar o curupira é que sai roubado e aniquilado. Quem arrisca roubar o curupira é que paga um alto preço até sempre. Nunca será anistiado perdoado nem receberá indulto de natal ou ano novo.
            - Que fazem aqui pela minha floresta que sou o dono o patrão e o senhor, hein?!
            Os dois viajados estavam envergonhados e confusos e assustados. Nem sabiam dar explicação razoável. Um medo de contrariar ainda mais o curupira. Qualquer ordem do caapora e aquela vara de porcos-do-mato pularia sobre eles. E que que se faz numa hora dessas? Lilás lembrou telefonar para a tia, mas só lembrou.
            - Olha, seu curupira. Nem queremos nada com a sua floresta e os animais que moram aqui - foi falando e explicando o Bicho Estranho e lonado. Nem vamos caçar, nem vamos pescar, nem vamos derrubar, nem vamos estragar nada, não estamos querendo fuçar no que nem nos pertence. De vez em quando vamos comer alguma coisinha, colher aqui e ali alguma frutinha, um pastinho e mais nada, prometemos. Na verdade queremos passar cruzar a floresta até chegar no nosso destino lá do outro lado. Lá no outro lado do sono.
            - É, nem vamos mexer no ecossistema, pode crer - completou a menina. E este sonho sonhado com tanta coisa tão assim e assim meio perigoso é todo meu e de minha inteira culpa e autoria, obrigada.   
            O curupira chegou mais perto, mais perto, perto demais. Tinha um olhar de fogo. Tinha um cheiro de terra molhada. Era meio baixinho e cinzento. Cabelos vermelhos. E ele mesmo foi dizendo em grunhidos traduzidos ao pé da letra:
            - Vocês são, ih ih ih!... vocês são muito engraçados e hilários, eh eh eh!...
            - ?? - os viajantes sonolentos ficaram boiando, sem entender nada, com caras de interrogantes.
            - Seguinte, viajantes despreparados! - gritou o curupira. Vocês vão ter de pagar um pedágio. Ou pagam ou viram escravos, escolhem. É a minha lei e antiga.
            - E o que você quer de regalo de lembrancinha, seu curupira? Perguntou o Bicho Estranho e farpela.
            O curupira pensou qualquer coisa rica. Pensou outra coisa sensacional. Pensou algumas coisas que nem deu para ver mas muito luxuosas. Pensou coisas que precisava no seu dia a dia e eram chiques. Depois o capetinha tascou, falou, relatou:
            - O que vocês têm para oferecer? Eu quero um bom e ótimo presente.
            - Nem temos nada de valor, seu curupira. Eu estou no sono dormindo e durmo sem relógio sem joias sem celular e apenas com simples pijama.
            - O quê?! Isso é mau e eu nem gosto e eu detesto e eu desafio. Transformo vocês em escravos acorrentados puxadores de carroça atrelo vocês no carretão, querem ver?!
            - Calma, calma, senhor caapora! - solicitou o BE e recém-criado. As coisas nem são assim! Vamos tomar um cafezinho enquanto negociamos.
            Os viajantes resolveram já imaginar e entregar os pertences valiosos para que o curupira nem se estressasse. Eram coisas pequenas, imaginadas na hora h, mas que o baixinho adorou: pulseira de plástico colorida, relógio digital preto com números grandes e luminosos, espelhinho de bolso com cabo, celular verde com internet, tênis legítimo de marca, foto enquadrada da usina hidroelétrica binacional de Itaipu, moedas de cobre, medalhas de prata, troféu de bronze, óculos escuros com aros azuis, escova de cabelo com cerdas artificiais verdes e amarelas...
            - Tá satisfeito? - negociou o Bicho Estranho e horóscopo. É bastante, né, meu?!
            A dupla de artistas viajantes já saía liberada. Só ficaram com a roupa do corpo. Curupira nem gostava de roupa e ele escondia as suas vergonhas como os moradores da mata costumam proceder, com uma tanguinha feita de folhas caídas e descartadas.
            - Ah, isso mesmo! Eu gostei dos presentes, seus intrusos - disse o curupira. Se todos os viajantes fossem assim tão cheios de regalos... bem, eu seria mais mais rico. Falando nisso menina...
            - Que que foi agora, seu curupira. Esqueceu alguma coisa? Onde se viu!
            - Na volta, quando vocês voltarem da viagem ao fim do sono, você me trás um perfume, um desodorante artificial. Dos bons, entendeu?! Se nem trouxer meu perfume nem vai passar, nem passe por aqui, tá certo, captou?! Sabe muito bem que eu nem tenho paciência com invasores intrusos depredadores interventores.
            - Tá, tá combinado.
            - Então, se está entendido... podem cair fora. Se mandem antes que eu mude de ideia! E nem olhem para trás, ecou! ecou! ecou!...
            Sem precisar segundo aviso e nota assinada, Lilás mais Bicho Estranho e parábola caíram fora rapidinhos. Por seu lado o curupira e seus compadres catetos se recolheram para os cafundós da mata, fazendo sendas e corredores e trilhas e trilhos... Lá adiante os viajantes desabafavam, e com razão:
            - Uta! Foi por pouco essa, nem?!, Bicho Estranho e comportado.
            - Foi por pouco. E esse curupira é um tal muito perigoso, cheio de si e sem coversa. Um espalha brasas. Um perigo ambulante.
            - Parece ser um feiticeiro xamã muito manhoso e mal-humorado mal-encantado.
            Enquanto os dois viajantes desfilavam andavam dentro do mundo no rumo do fim do sono, a menina Lilás dormia no mundo real, e sonhava com tudo isso, e o sonho corria e andava, o dia estava escuro, o céu ameaçava chuva mas nem choveria, o rio Ribeira do Iguape corria o rio Betari deslanchava a caverna do Diabo escondia estalactites estalagmites cortinas estavam no teto estavam no chão a cachoeira do Araçá rebrilhava reluzia faiscava ao sol da manhã...
            Mais umas horas e os viandantes, na altura de um brejo várzea baixada, ouviram resmungos rumores e ranger bater de dentadura de dentes. Se aproximaram e descobriram um sapo-ferreiro muito aborrecido papudo olhudo cheio de si e presente.
            - Nossa! Que figura! - exclamou a guria, muito sentida.
            O sossegado sapo, de fato, estava ali no chão, coitado, todo arrebentado, arremessado, esborrachado, esfiapado, estourado, recortado, retalhado, desdentado... e outros prejuízos. E chorando de tédio e frustração e desinformação:
            - Socooorro! Aiaiai!...
            O Bicho Estranho e gelado gelado chegou mais perto e falou ao sapo ali todo em frangalhos estilhaçado sucateado:
            - Que aconteceu, sapo? Uma jamanta passou por cima em riba de você?
            - Aiaiai!... - chorou mais uma vez o sapo-ferreiro.
            - Foi atacado por alguma fera, é? - indagou Bicho Estranho e primeiro-sargento. Quem foi e por quê? Anotou a placa?
            - Ai!... Ui!... Socoooorro!... - se queixava o desolado sapinho.
            - Conte pra nós, seu sapo. Quem sabe podemos ajudar - sugeriu a garotinha.
            - F-foi ho-horrível... Ai!... Ai!...
            - Algum animal predador te avançou, hein?! Você perdeu a família, hein?!
            - Eu... caí... lá... de cima. Caí... lá... das alturas... do céeeeu.
            Sim, o estado do sapo-ferreiro era lamentável e lastimável e inspirava mil cuidados e panos quentes e sopa de letrinhas. Os dois viajantes, então, resolveram agir, dar uma assistência, virar paramédicos, ajudar, orientar e muito solidários. Enfim, quem sabe amenizar os significados resultados do pequeno sapo desastrado e estonteado.
            Aí, a menina e o Bicho Estranho (jacareúna) e gama deram ao sapo ferido um pouco de água para beber, devagar, devagarzinho, aos golinhos, gota a gota. Pegaram um espinho de mandacaru e uns fios de teia de aranha, dos bem resistentes fortes de aço inoxidável, e começaram a costurar as gretas as rachaduras que o anfíbio sofrera por causa da queda. O batráquio fechou os olhos e deixou tudo na mão dos médicos de ocasião ou aos deuses do banhado. Tudo sem anestesia e na carne crua.
            - Aiaiai!... Cuidado! - reclamava o sapo, de vez em quando. Vão costurando devagar que o couro é o único que eu tenho... Aiaiai!...
            - Tente pensar outra coisa. Já estamos no terminando por fim. Calma.
            - Ai!... Ui!... Vou morrer. Perdi muito sangue. Perdi os dentes. Vocês são uns açougueiros de mão pesada de mão cheia.
            - Pouca coisa, você vai ver - disse o Bicho Estranho e sociável.
            - Aiaiai!... Que tortura que censura que acupuntura. Tá pior que a dor de dentes.
            A operação durou uma hora e meia. A coisa toda foi muito demorada e delicada e dolorida para o paciente. Muito difícil. Cheia de detalhes e costuras. Tempo que o sapo-ferreiro passou sempre gemendo e uivando e reclamando. Até mesmo chorar o batráquio chorou.
            - Aaaaah!... Que coisa cruel. Eu quero paz! Antigamente nem tinha disto!
            Por fim, ao fim da operação cirúrgica, o sapo, muito esgotado, acabou dormindo, acabou adormecendo. Estava com febre e tremia, delirava. No delírio o sapo-ferreiro conversou sozinho dialogou consigo, assim, murmurante:
            - Are! Are, vizinho urubu-branco! Nem, nem voe tão depressa... neeeem! Os meus compadres comadres de alagado, jandiás, vaga-lumes, gervão-de-folha-grande, uaçás, camarões-de-água-doce, salsaparrilha-do-rio, batata-do-rio... A sorte se  reparte em horas minutos 18h e 18min...
            Por isso, o sapo-ferreiro passou a noite muito mal e delirando todo agitado dialogando com imagens que só ele via. Assustou os dois viajantes que pensaram que o paciente ia morrer. O sapo estava muito ruim de saúde, e banguela e febre e calafrios.
            - Será que a costura piorou o estado dele, hein?! - temia a menina.
            - Nem. Acho que nem. Foi tudo bem feito e cosido. Vamos esperar esperar - pensou melhor o BE e jaquetão.
            Foram longas horas de paciência espera esperança. Os dois paramédicos sempre de olho vigilante no paciente descontente. Cuidaram do sapo a noite toda. O pobre remendado gemia e delirava, contava histórias, falava coisas estranhas, coaxava, se remexia na rede de dormir, repetia, “mur! mur! mur!...” em refrão, e pra ver:
            - Nem vendo nem empresto, mur! mur!... nem empresto nem vendo... E juncar de folha flores ramos frutas, mur! mur!... Gente do terreno inundável, quero-queros, barriga-d’água, rio Panauã, árvore-da-chuva, ananás-do-mato... mur! mur!... O juiz de linha bandeirinha ergueu a bandeirinha: fora!, mur! mur!...
            Pelas seis horas, clareando o novo dia e conforme, o acidentado já baixava a temperatura e parecia mais forte, mais tranquilo, já nem delirava, já nem reclamava tanto. A costura tinha sido bem feita cicatrizava e o anfíbio se salvava.
            Junto com a passarada em algazarra madrugadora, galos-da-serra, corcovados, gavião-das-taperas, barulhentos, juritis-carregadeiras, borboletas-oitenta... que saíam a procurar o de-comer, o sapo-ferreiro já pensava papar também alguma coisa. E implorou para os paramédicos:
            - Ei! Um favor. Minha barriga já está boa legal e consertada. Podem me arrumar uma mosquinha, hem?! Estou pedindo!
            A menina e o Bicho Estranho e característico acordaram de vez, esfregaram os olhos, bocejaram, esticaram os braços... O Bicho Estranho e inconfundível, até comentou, opinou:
            - Hum!... Vejo que você já está disposto. Fome é sinal de saúde.
            - E os meus dentes? Vocês esqueceram dos meus dentes! Recolham meus queridos dentes e me implantem, fazem o favor!...
            Daí, o Bicho Estranho e esverdeado e cósmico mais a Lilás levaram vinte dias, duas horas, para explicar ao sapo-ferreiro que ele tinha quebrado todos os dentes durante a queda. E nem era mais possível, por enquanto, fazer nada, só lamentar, somente lastimar, somente relembrar... e tomar sopa de legumes.
            O sapo-ferreiro foi até ali no canto procurando pensar e chiou mais um pouco. Depois se consolou e voltou todo refeito, mais ou menos bem, falando mostrando a língua pegajosa, se coçando nas cicatrizes, coaxando, imitando sapo:
- Meu estômago está vazio e roncando e pedindo água e comida. O que resolvem, os meus amigos?  
            - Só tem mais um probleminha - avisou a menina.
            O sapo-ferreiro rodou rolou os olhos redondos da Lilás para o Bicho Estranho e bitaca novamente para a menina e já meio desconfiado, olhar meio cansado, perguntou:
            - Que outro probleminha é esse, então? Os remendos têm prazo de validade?
            - É que eu ainda nem aprendi a fazer sopinha. Sou muito baixinha para andar perto do fogo. Nem sei o que fazer. Eu estou achando tudo isto muito raro, é! - declarou a menina Lilás e confessada.
            O sapo-ferreiro, ainda meio fraco por causa da operação cirúrgica, cosquento, ficou pra lá de chateado com a falta de prática da menina. E descarregou, descascou:
            - Mas uma mosquinha eu posso engolir e rapidamente. Eu posso engolir mosquitos inteiros e sem ossos, hem?!
            Lilás correu até ali na beira do riachinho e buscou um pouco de água para o sapo. O bicho saciou a sede e se sentiu melhor. Depois, uma hora depois, um pouco mais animado, esticou a longa e pegajosa língua para os lados e foi catando e caçando mosquitos e moscas e beruanhas e pernilongos e borrachudos e muriçocas... Um lanche farto completo e sem parar.
            Quando as coisas ficaram parecendo mais calmas e doces, eles se apresentaram. Cada um disse o nome e se gostava ou nem do nome. Sapo-ferreiro tinha o nome de Andirá. Morava ali naquele periantã de rio e nas sombras das aningas, por dentro dos gravatás e aguapés e tajás.
            - Vocês dois intrusos deste lugar, já conhecem direitinho todo o Petar: parque estadual turístico do Alto Ribeira, e Iporanga e Guapiara e Apiaí? Para quem vê do céu nas asas de um pássaro parece pouco embora enorme e louvável, é.
            Um outro dia do mesmo ano, o sol já ia quase no meio-dia. Um sol forte com temperatura alta. O Bicho Estranho e tagarela pegou e examinou o sapo mais uma vez. O sapo se deixou examinar e ainda sentia um ou outro cortezinho aqui e ali, cosquilhoso, a falta dos dentes a sensação de boca vazia a língua solta e comprida.
            - Sabem, meus amigos paramédicos estrangeiros em este lugar! Eu queria ser, e quando sapinho juvenil, queria ser um pássaro. Para quê? Para conquistar a lua, é. Depois voar pelaí sobrevoar as casas os armazéns os lugares, Itarana, Domingos Martins, Mimoso do Sul... olha lá a rua Eduardo da Silva Prado... tão vendo a aldeia dos galibi-marworno... reconhecem apreciam a pedra do Garrafão? Tá cheio por lá de erva capim-grama.  
            O sapo estava bem e sim, estava melhor, estava bom para outra. As cicatrizes saravam rapidamente. Conseguia mesmo esticar a língua em todo o seu comprimento. Conseguia rir sem dentes como um sapo qualquer. Cócegas um pouquinho? Sim, coçava um bocadinho. E já conseguia rir sem chorar, segurando a barriga. Tranquilamente bebia sem vazar nada. Sentia talvez um pouco de fraqueza, um tantinho de tonteira, a boca murcha e espumante, molambo, umas ideias sem razão de ser, cacoete da cosquinha. Estava setenta e oito por cento de saúde.
            Na parte da tarde, o sapo-ferreiro já se sentia com coragem até de dar uns pulos, uns saltos, uns passos, um passeio. Subiu numa pedra chata. Olhou longe e o possível.
            - Tá se sentindo ótimo, sapo? - Lilás perguntou.
            - Sinto um pouquinho os remendos, a boca vazia demais, mas já está tudo bem. E até gostaria de contar a minha história, se querem saber, pois nem!
            - Claro que queremos, seu sapo. Pode contar. Comece do começo ou do início e entre em todos os detalhes até o fim até a parte final o epílogo - convidou o Bicho Estranho e ativista.
            - Tá certo. E tudo começou há dois dias atrás, quando eu pretendia comparecer a uma festa nas nuvens da estratosfera. Eu estava bem de saúde e com todos os dentes inteiros brilhantes de pérola.
            - Uma festa no céu, seu sapo-ferreiro? - se admirou a guriazinha. Mas como se você nem voa e nem sabe pilotar avião? Sim, como?!
            - Sei e sabia muito bem que nem voava nem voo e nem pilotava nem piloto e nada. Mas tive vontade de ir para a nuvem mais alta, na festa do céu, no celeste império. E fiquei pensando comigo... aquele dia. Fiquei pensando por que os pássaros podiam e podem e os sapos nem podem. E pensei até com raiva e insatisfação: por que sapo nem tem asas nem sabe dirigir avião asa-delta balão dirigível ultraleve?... Pergunta.
            - Vai saber, né, seu sapo - disse a Lilás.
            - Bem que se diga: onde há sapos a natureza está cem por cento preservada. Aí resolvi que iria para a festa no céu de qualquer jeito maneira. Sou assim mesmo, quando decido uma coisa eu vou e cumpro o decidido. Eu simplesmente me obedeço. Me ofereço e me obedeço!
            - Você é teimoso e curioso e decidido - emendou o Bicho Estranho e jargão.
            - Pois é, ser BE e recém-convertido. Então, resolvido que iria de qualquer modo, eu fui atrás de arranjar uma ótima maneira de viajar. Fiquei pensando no transporte para a nuvem no mais alto do céu. O que eu precisava fazer para chegar até lá no último andar do céu? Eu estava bolando uma estratégia requintada e olímpica.
            - Que você conseguiu, Andirá?
            - Foi mesmo por acaso, sim. Descobri por sorte que o urubu-rei, que mora aqui perto do nosso brejo e sapal, na praça alagadiça José Veríssimo de Matos, que o urubu-rei também estava a fim de ir à festa na nuvem celestial. Inclusive o urubu-rei sempre vai à festa porque faz parte da banda que toca e anima aquele festival. Ele toca muito bem violão, por isso o convidam. Toda vez que acontece festa no céu e nas altas nuvens, o urubu-rei viaja pra lá para se divertir e tocar violão.
            - E o urubu-rei considerou e aceitou levar você na festa do céu?
            - Então eu explico melhor, ente BE e santo. Seguinte. Nem fiquei preocupado em arriscar e perguntar. Esperei, assim, a oportunidade em que o urubu-rei estava distraído e me enfiei dentro do violão. Lá fiquei todo encolhido e quieto aguardando. O urubu-rei nem percebeu nem cheirou. E chegado o momento de subir aos céus alçar voo, o urubu-rei pegou do pacotão sem nem desconfiar de nada e subiu voando subimos. A viagem eu nem enjoei nada admirei um montão, foi tranquila, confortável, sem maiores problemas, sem medo de altura, sem solavancos. Da janela pequena eu via bem e muito bem, a ponte Rio Negro, Faria Lemos, praia do Açutuba em Iranduba, pana do Jaú, Afonso Cláudio, Caapiranga, João Câmara, Jardim de Angicos... bom e muito bom. Certa altura senti um pouco a atmosfera meio rarefeita vertigem, mas tudo bem.
            - Deve ter sido estranho, já que você nem é animal de decolagens e alturas e asas e voos e sobrevoos. Você nunca tinha andado de aeroplano voo livre de parapente?
            - Foi, foi meio assustador, agora que eu acho melhor e pra falar a verdade. Senti sim um pouco de pânico, nem vou mentir. Mas procurei me distrair com a paisagem, o rio Muriaé, ilha de Marapatá, Novo Airão, Venda Nova do Imigrante, reserva dos ticuna e desano... Nem lembrei de pensar em cair de lá de cima. O cuidado foi mais com a turbulência e as correntes de ar quente. E chegados lá no céu. O céu fazia um ótimo tempo e muito um certo azul. Pois o urubu-rei deixou o violão de lado foi lá cumprimentar a cambada da banda musical seus conhecidos e eu saltei fora. Dei a volta no salão paroquial e me mostrei com a cara e a coragem de sapo-ferreiro, o Andirá, este senhor que vos fala.
            - Foi uma surpresa, acho - achou a menina Lilás. Um sapo no espaço e feliz.
            - Digo também que foi porque foi e foi mesmo. Foi uma surpresa eu aparecer no céu, eu um sapo, sem asas e de pernas curtas e tal. Todo mundo ficou nem acreditando. Eu era o único anfíbio e batráquio e anuro. Eu seria o único a coaxar um idioma ali tão alto e rarefeito.
            - Caso mesmo fantástico e felomenal. Exclusivo e inédito e curioso.
            - Digo mais, meus ouvintes telespectadores. Digo cinco razões e que eu entendo, e seguem, a conferir:
            “Primeira: eu nem sou mais sapo importante que ninguém.
            Segunda: eu devo ter sempre cuidados políticos brejais.
            Terceiro: eu nem sou isento que me aconteça algo de grave ao cruzar a trilha.
            Quarto: eu nem devo ser supersticioso e fazer o sinal.
            Quinto: eu preciso de sorte e acasos como todos todos.”
            E o sapo consentiu continuar a história dele e relatou, pra frente:
            - E o baile prosseguiu animado e na farra. Depois da surpresa da minha... batraquia, os outros povoadores da festa, muitas aves alados e penosas, sururinas, guaxes, tiés-pretos, cardeais, bate-bicos, matinzinhos... quase mais aves que qualquer outro animal, depois de se acostumarem comigo, o show continuou na boa. Todos se divertiam. Eu me diverti. Eu dancei e enrolei e pulei axé frevo maracatu congada samba pagode gafieira batucajé boi-de-jacá...
            - O urubu-rei nem te reconheceu como vizinho e conterrâneo?
            - Nem me reconheceu, nem desconfiou, nem sonhou e nem me apresentei. Até porque, aqui na terra, ele é meu adversário e predador, ele é ave de rapina, um perigo constante para minha saúde.
            - Que mais tinha no céu, seu sapo. Tinha anjo, tinha santo, tinha deuses e deusas no baile? Um enxame de abelhas?
            - Hum... D e deuses e deusas eu nem vi. Santo e santas e heróis de histórias com H maiúsculo eu nem vi ou reconheci. Anjo e iaras eu acho que vi. Eu vi mesmo foi muita ave empoleirada em algumas árvores frutíferas frugíferas frutígeras. Aves porque elas têm asas e é fácil voar até o céu, árvores porque elas crescem muito e sobem e é fácil chegar até as nuvens, angelim-pedra, jardineira, uafé, coajinguva, cambará-de-capoeira... Acho que assim sobra e explica toda a fauna e flora.
            - Que outros bichos havia no baile? Um cardume de peixes, quem sabe!
            - Sim, circulavam os macacos de várias espécies tipos e roncos. Eles subiam pelas árvores acapus, pitangueiras, guajiçaras, taperebás, cragoatãs-brancos... essas árvores enormes e cheias de alimentos pendurados. Perambulavam até mesmo algumas espécies de formigas, elas estão por toda parte, subiram pelas árvores, desceram da lua, pingaram com a chuva. Tinham abelhas e zangões e cabas, eles subiram para pegar mel das flores dos frutos e já ficaram para o forrobodó.
            - Que mais, que menos. Era muito grande o salão, meu chapa? - quis saber ainda o Bicho Estranho e roldão e baldão.
            - Muitos comes e bebes sobre as mesas colocadas em cantos estratégicos. Muito suco natural de fruta tropical. Muita salada de frutas com enfeites de flores típicas vermelhas amarelas lilases azuis... Uma ótima visão vertical panorâmica da reserva Adolfo Ducke e rio Carangola e Bom Jesus do Itabapoana e aldeia galibi-do-uaçá e da terra do planeta do mundo e até do universo.  
            - Que outros absurdos, que outras extravagâncias. Quem ria quem gargalhava quem brincava mais? Fazia frio fazia calor ar condicionado?
            - Hum... O absurdo maior era estar diante daquele momento. Bailar um baile nas nuvens, bem pertinho do céu, foi o máximo para mim. Daí, depois de horas e horas de folia e frevo, era hora de pegar carona para voltar pra terra. Eu nem queria ficar toda sorte no céu. Eu gosto da terra, entendem?! Aí, então, pé ante pé, pulo a pulo, fui e me escondi no oco do violão do urubu-rei. Eu queria voltar. Acabou a festança e viemos embora. Havia outras aves voltando mas eu preferi o meu vizinho porque nem queria me perder de casa, é. Aqui neste brejo e banhado e alagado eu respiro o meu lugar, é.
            - E o que aconteceu no voo de volta que você se deu mal e ficou destruído?
            - É, chegamos nesse ponto. Nem posso nem esquecer que você está me lembrando, nem é mesmo? Foi um fiasco. Me si dei mal. O caso foi que o urubu-rei estava caindo de sono. E se sabe, nem se pode dirigir cheio de sono senão... E o urubu-rei estava muito cansado e sonolento e sonâmbulo e sopitado. E viemos voando meio sem jeito, que eu senti. Ele, o urubu-rei, voando em zigue-zagues, ziguezagueando, costurando podando. O pouco responsável do urubu-rei voava sem noção, se confundindo com as nuvens e se atrapalhando com as geografias vistas da altura, perdidão, cidades localidades municipalidades, Caiçara do Rio do Vento, Apiacá, Apiacás... Entrava numa nuvem e se perdia na neblina, saía de uma nuvem e se atrapalhava com a claridade. Nem usava bússola relógio telefone mapa... Entrava numa nuvem, saía de outra, ia pela contramão, voltava, dava voltas, subia e descia sem noção. Se perdeu, nos perdemos, se confundiu e me deixou preocupadíssimo.
            - Erraram o caminho, erraram o voo? - pergunta da menina Lilás. É frio nas alturas do ar com o vento soprando na cara?
            - Disse tudo. O certo é que de repente recebemos um tremendo coice, um choque, um trompaço, um encontrão, uma tronchada, uma trombada. E começamos a cair vertiginosamente verticalmente pesadamente. Caímos como fruta madura, como pedra sem asas, fundamente, profundamente e rapidamente.
            - Caíram de muito alto, é? Com zunido, zuuuu!... e tudo, então.
            - Nem sei mais e desconfio. Eu estava dentro do violão e só torcia para tudo acabar em pizza. Nem via nada, nem queria ver. Sentia o perigo e adivinhava, me preocupava. Me agarrava às cordas do violão e tocava e torcia para tudo acabar em pizza portuguesa com certeza. E logo encontramos o chão... com ão!, da rua Mário Cochrane de Alencar e calçada de paralelepípedos de pedra basáltica.
            - E que chão duro e fim de linha, não?
            - Vocês viram o meu estado, nem viram?! Foi um tombo dos bem pelo amor de D e meus filhinhos. O que que vou dizer ainda? Senti logo logo uma dor de cabeça, umas dores de dentes, uma dor de meus ossos, uma dor pelo couro... Nem tive mais forças nem para pensar, nem para reclamar...
            - Mas você escapou, seu Andirá. Você já está bom para outra aventura. Já conhece Ilha de Itamaracá? E a praia do Sossego? E vá de visita ao rio Abacaxis? Pegue um avião e desfrute de Guaraciaba e São José do Cedro e Tombos... sugestão.
            - Também acho que foi um milagre, apesar dos dentes. Nasci de novo. Nem era a minha hora fatal. É preciso ter sorte e nem somente para acertar na loteria.
            - Da próxima vez você, que é sapo-ferreiro, se contente com sua sorte de sapo-ferreiro - achou por bem o Bicho Estranho e médico.
            - É, é uma - respondeu o sapo, conformado e ressabiado.
            E aí foi contada a façanha do sapo-ferreiro que foi no baile da nuvem do céu mais alto do mundo. E que quase perdeu o bonde, perdendo os dentes, com uma grande aventura pra contar e recontar. Sendo que cada história contada aumenta os seus kms.
            Bicho Estranho e dentuço mais a Lilás tinham que continuar a viagem rumo do fim do sonho, olê!... E foram, sãos salvos e sim senhores! Se despediram do sapo-ferreiro Andirá e foram. Este ficou no seu lugar, num periantã do rio Tapajós e pronto. Gostava de coaxar e continuaria coaxando inflando o papo muito todas as noites. Caçando varejeiras e carapanás.
            - Vão pela sombra, meus amigos ouvintes - recomendou o sapo. A área da reserva guajajara fica no caminho. Na ida ainda encontrarão Amarante do Maranhão e Campos de Júlio e Humaitá e Santa Maria de Jetibá...
            - E nos despedimos até outro dia e totalmente! - falou o BE e mucilagem.
            - Sabemos que sim! - respondeu o sapo.
            Era assim-assim o mundo local. E a seguir o país dos morros dos rios das árvores, tucuns-do-mato, algodões-do-brejo, lobolobos, pracaxis, andirobeiras... aves que falavam mil idiomas completamente diferentes entre elas, pia-pouco, suindaras, freirinhas, surucuás, guarubas... Era também o país o território a região dos autóctones aramuru e mais pra diante os guajá.
            Ainda pela floresta meio escura, os dois viajantes tiveram mais surpresas e encontros e fatos estranhos. Foi num piscar de olhos. Uma aparição feita de relâmpago. A coisa, um ser difícil de descrever, surgiu na frente dos viajantes e... mais rápido que um piscar de olhos, já sumia. Apareceu de súbito e sumiu assim... Que ser extraordinário seria aquele? Sem deixar rastros, sem deixar cheiros, sem deixar mais nada, sem deixar sequer uma imagem. Os viajantes só conseguiram ver mais ou menos que era animalzinho diferente. Sem placa. Ser virtual e de sonho e de carnaval. Surgiu e sumiu como mágica rápida, plofe!... Era parecido com espírito, a sua característica.
            - Você viu isso?! - pulou assustada a menina. Nem é máquina, tenho certeza.
            - Nem sinal. Que susto, meu! - declarou o Bicho Estranho e hectare já com dor no estômago. Foi tudo um instante instantâneo.
            - Acho que é um guaruçá ou alienígena, já meio usado plástico vidro borracha e madeira, cuja aparência descabelada desgrenhada lembra um espantalho.
            A aparição foi tão rápida que nem deu tempo de arrepiar o pelo. Pareceu uma alucinação. O que é alucinação? Seria mesmo um bugio vermelho um macaco-prego?
            - Esta aparição aguarda explicação, nem é mesmo, seu Bicho Estranho e ponte?
            - Deve ser um ente da mata. Um mito do lugar. A floresta está cheia de demônios diabos juruparis. Existe uma armadilha atrás da outra. O mundo é cheio de esconderijos e dificuldades e enigmas.
            - Já ouvi falar de saci-pererê matintaperera matimpererê...
            Apesar do susto, os dois prosseguiram pela trilha estreita da mata, caminho encoberto pelos ramos das árvores, pouca luz do sol em direto, etc. Sempre em frente mas com as orelhas em pé, os olhos mais abertos. Qualquer ruído era motivo de sobressalto. Paravam, escutavam, olhavam bem olhado, cheiravam o ar, seguiam avante com o coração batendo, tum! tum!... mais fora do compasso. Muita novidade num sonho só, e sem querer.
            Já bem mais tarde, bem mais cansados, pararam para descansar relaxar debaixo de um pé de maçaranduba. Descansavam. Deitaram no chão e fecharam os olhos. E fazia tanto calor que o Bicho Estranho e turbamulta os olhos de bicho solto acabou olhando para dentro de si âmago e dormiu.
A menina nem conseguiu dormir por causa do calor e teve mais uma alucinação ou miragem. Foi muito rápido, como rápido da outra vez, viu e nem viu. A aparição surgiu do nada e plofe!... bem na frente da cara da guriazinha, bem na frente cara a cara relampeou... Foi espantoso e assustador e extraordinário. E a menina somente estranhou ainda mais e exclamou, num sonho dobrado superposto sobreposto posto em cima:
            - Uta, meu! Mas que diachinho é esse? Que sono pesado eu tenho, camarada!
            A menina olhava para o nada, para o alto, para o ar, ao longe, para si mesma. Um minuto, se tanto, acordou o Bicho Estranho e cascudo que foi se erguendo e falando, meio confuso, perdido mais ou menos no sono no sonho no delírio:
            - Que... que... foi, hein?!
            - A aparição apareceu de novo mais novidade! - falou a menina. Foi mais, plofe!... que da outra vez, quer saber.
            - Como é? Calma. Responde com calma. Você viu mesmo? Agora? Aqui?
            - Sim, foi isso, exatamente isso. E foi mesmo aqui neste lugar. Depois o fantasminha desapareceu outra vez.
            - Conseguiu reconhecê-lo? Com que que se parece? Tem cara de quê?
            - Foi muito rápido como da outra vez e até mais. Apareceu e desapareceu no mesmo instante. Nem deu nem de piscar. Parecia um extraterrestre com cabeça deste tamanhão, um ente de peruca vermelha. Um tipo que nunca vi ou nunca verei.
            - Será que era um alienígena de um planeta qualquer, hein?! Pode até ser. Nem estamos sós no universo, ocê sabe! Um etê que veio conhecer a Amazônia e seu clima.
            - Acho e tenho quase certeza que esse tal estava rachando de rir do nosso receio de dormir, é. Ele tem ligação com os sonhos, entende?!
            - Deve ser novamente o caipora, valente caipora. Ele tem esse sistema de aparecer e desaparecer num abrir e fechar de olhos. Eu já ouvi falar. E ele adquire várias formas. Ele é muito mágico. Ele pode virar o que ele quiser, pode virar um maritacaca, uma acauã, uma árvore embira-branca, uma pedra seixo rolado na correnteza... Cada aparição ele vem transformado num ser diferente e estranho. Faz isso para brincar e se exibir e se divertir com os pobres limitados humanos. É assim que ele gosta de incomodar. Ele gosta de aprontar e de filar e de puçuquear. É muito útil para o equilíbrio do ecossistema. É muito intolerante com o ecoturismo.
            O caipora ou caapora, se é que era ele, realmente age como um diabinho folgado e mandachuva. Nem mede esforços para fazer molecagens peraltices e se exibir. Gosta muito de provocar os personagens que passam pela sua área de atuação, seu território na floresta. Desconfia de estranhos e viajantes. Ele gosta de imitar assobio de pássaro. Urro de onça-pintada. Guincho de sucuri. Ronco de cateto. Devido uma cinta que usa em volta do corpo muçuruna-maracá exercita frequentemente guizos chocalhos parecendo uns rechinares de cobra cascavel.
            E os dois viajantes dos sonos e sonhos da menina, mundo bem virtual cibernético da menina, continuaram andando e indo em frente se mandando que atrás vinha assombração.
            - Uma, hein!, Bicho Estranho e triangular. Esse fim de mundo nunca chega, né!
            - É isso também. Mas quem sonha é você mesmo. Te vire. E outra coisa...
            - Que outra coisa, seu Bicho Estranho e teleguiado?
            - Acho que estamos sendo seguidos ou perseguidos espionados. Nem tá sentido aquela sensação de estar sendo vigiado ou vigiada? Eu sinto. Digo mais: você está sonhando dois pesadelos ao mesmo tempo, um em riba do outro. Isso é muito sono profundo. Isso é um sono longo.
            A menina respirou fundo, olhou em volta, se arrepiou como devia, perguntou ao seu companheiro de viagem:
            - BE e geográfico! Tem certeza que é o caipora que está nos cercando? Eu nem enxergo no escuro.
            - Que é ele eu nem tenho certeza, mas que existe alguém isso é. Eu tenho certeza que algo ou alguém nos espiona atrás destas árvores, do meio destas folhagens, junto das pedras. E outra certeza muito certa certamente: tenho certeza absoluta que ele ou ela voltará a nos atacar de repente de supetão.
            A Lilás se incomodava mesmo com esses diabinhos assustadores e pouco amigáveis. Aquela floresta parecia cheia de uns quantos deles. O Bicho Estranho e garboso nem tinha tanto receio assim. Bicho Estranho e aristocrata parecia mais acostumado com diabinhos, capetinhas, monstros, mágicos, feiticeiros, juruparis.
            Mais uma noite chegou apagando tudo em volta na estrada. Uma noite com estrelas e lua no alto do céu. E daí?! Insetos faziam os ruídos, sapos-martelo martelavam, mosquitos pernilongos e borrachudos zoavam.
            - Vamos parar aqui mesmo, né, menina. Vamos fazer um fogo fogueira e dormir, descansar as pernas, descansar os ossos, descansar as cadeiras e as costas. Estou me sentindo perseguido por espinhos bando de espinhos espinhal.
            - Já manjei que esses diabinhos gostam mais da noite. Eu vivo poluída de aparições assustadoras noturnas. Nem vou conseguir pregar o olho e nem quero. Você fica comigo e vigiando?
            - Tente pensar outra coisa, uma outra coisa melhor, outra coisa bonita e bela. Você já pegou avião voar sozinha?
            Procuraram um pé de árvore, acharam uma jaracatiá, estacionaram ali. Cataram uns gravetos, umas palhas, umas pedras para segurar o fogo, tacaram fogo riscando duas pedras com um palito, o fogo alçou, o fogo amarelou e esquentou e iluminou, deitaram cada qual na sua esteira de japá.
            - Eu vou dormir de olhos bem abertos - decidiu a guriazinha.  
            Numa certa altura da noite, os dois viajantes já meio tontos de sono, foi que ficaram sabendo que algo ou alguém fazia um ruído por ali, por aqui. Uns marulhinhos na folhagem. Uns estalinhos de gravetos secos. Os dois viajantes sentiram também uns arrepios, dando a sensação que nem estavam sós ali no local. Algum tipo os vigiava de uma parte ali dentro da escuridão, de dentro do sertão da noite, atrás das sombras da noite. Podia ser o importuno caipora ou caapora ou saci.
            - Deve ser o dinhonhinho, é - suspirou a Lilás.
            Sem muita demora, do meio da fogueira, já saíam umas faíscas estalantes e mais faíscas, umas fagulhas e mais fagulhas fuligens, umas labaredas e mais labaredas as chamas. A fumaça azulou, a fumaça foi subindo, a fuligem começou a tomar a forma de um corpo, um corpo monstrinho que saía de dentro das línguas de fogo. E a fumaça e o corpo de fumaça azul ia aos poucos saindo das lenhas achas e subindo. Parecia sim um corpo de extraterrestre sanguanel. E era ele mesmo. E o diachinho gritou todo feliz e zombador e brincalhão e risonho, gargalhando:
            - E aí, hein?! Surpresa, ah ah ah!... Vocês trouxeram presentes para o degas aqui? Que por quê? Bom, muito bom!
            Os dois incautos viajantes, a menina mais, abriram os olhos e o assistiram. O caipora pulou do fogo e já era um menininho todo nervoso e esperto. Deu vários saltos como se estivesse quente de tanto pegar fogo e depois falou, falou com muito gestual:
            - O que fazem nas minhas terras patrimônios da humanidade? E nas minhas árvores, nas minhas pedras, nos meus rios igarapés igapós paranás? Nem sabem que só transita por aqui quem eu quiser? Sou muito mau ruim sou muito péssimo sou muito valente impávido, tão entendendo?!
            O Bicho Estranho e boca grande se adiantou e foi tentando falar e se explicar:
            - Vou explicar com minhas palavras, seu caipora. Eu e você estamos dentro do mundo virtual aí da menina Lilás. Ela tá é sonhando tudo isso junto e ao mesmo tempo combinado. Na verdade nada existe, nem eu existo, nem você existe, nem este mundo existe. Só existe mesmo o sonho fantasioso da Lilás. É tudo da cabeça dela. E ela acha que fantasiou todo mundo, e que essa fantasia é coisa séria e real e ideal e normal, é isso. Que de qualquer forma...
            O caiporinha ficou olhando, olhando, a mão no queixo, os dedos de unhas longas coçando o queixo, e demonstrou que nem entendeu, falou que nem entendia:
            - Nem entendi. Você quer dizer, seu Bicho Estranho e fanático que eu nem sou o que sou e nem estou onde estou, é isto? Eu estou aqui sem estar aqui, é?
            Sim, a coisa podia ser mesmo difícil de entender e esclarecer. Quem vai entender um sonho sonhado num sono pesado? Quem pode entender virar personagem do sonho de outra pessoa? Quem pode dizer se tudo é sonho ou se tudo é realidade? Quem pode ter certeza se o rio Itapacurazinho está aí mesmo e passando na correnteza? Quem pode dizer das localidades de Aveiro e Pedra Preta e Tapauá e Formosa da Serra Negra... A rua mais antiga da cidade Siqueira Mendes e que vende e compra e troca e arrenda o que faz ser tão Belém! O parque Mapinguari e sua enorme biodiversidade anônima. Então, o caipora nem entendia nem entendeu e pronto. Nem deixou de perguntar, portanto, mesmo assim, são salvo selvagem:
            - Para onde estão indo, atravessando minhas regiões e minhas propriedades e meus territórios e minhas geografias? E com que logística? Sou guardião destas terras junto com os silvícolas sanamaicã e uaiá e boca preta e cauaíbe...
            - Eu respondo por mim e pela menina - se sobressaiu o BE e exônimo. É ela que sonha, mas eu explico nos mínimos detalhes. Nós estamos indo para o fim do sonho. Ou o fim do mundo. É um lugar que, pode ser ou nem pode ser, nem está e que só está nas fantasias raramente sonhadas.
            - Peraí, peraí! Pensam que sou bobo?! Que palhaçada é essa? - gritou o caipora, todo descontrolado de nervoso malicioso.
            Lilás olhava o caipora e pensava que o ente mágico iria causar problemas confusão e até sururu. Esses tipos quando aparecem, e invadem os sonhos dos outros, já trazem encrencas e vários problemas e muitos distúrbios e insônias.
            - Que você tá olhando, menina? - intimou o caipora. Nem nunca me viu, cara de navio a vapor?! Cada tal e qual que me aparece, meu!
            - Vê se me esquece - foi só o que Lilás lembrou de falar. Nem tenho tempo de tropeçar em pedrinha de brita cascalho.
            - Olha, seu caipora valente e corajoso - continuou falando o Bicho Estranho e continental -, deixe a menina, ela tá muito assustada com toda essa novidade de entes estranhos e seres mágicos e entes feiticeiros e seres velozes e seres fantasmas que povoam a floresta e a noite da floresta da mata, é isso.
            - Nem me culpe de nada do teu sonho, hein?! - disse o caipora, apontando para a menina Lilás. Você que sonha e eu que sou o mau, em?! Te regula, cara!
            Aí, nesse ponto, aconteceu um tempo de silêncio que todos os três ficaram pensando sem dizer nada. Todos com interrogante dúvida na cabeça. Nem todos com a mesma dúvida, óbvio. Todos com silêncio moderado e pensativo. Como quando nem se sabe montar um quebra-cabeça umas palavras cruzadas.
            Umas nuvens andavam correndo pelo céu. Um caburé-do-mato passou muito baixo. Veio uma nuvem mais pesada e tapou a lua. Sensacional estupendo pois há tantas árvores como as que te digo, jangadinhas, araçaeiros, uacangas, tucunarés-mereçás...
            - Vamos dormir? - até que enfim falou alguém, falou o Bicho Estranho e madrugador. Vamos aproveitar um dia depois o outro. Você também gosta de peixinhos de aquário como bichos de estimação?
            O caipora nem disse nada dessa vez. Mas acatou a sugestão e foi se recolher para dormir. Foi e subiu nos galhos de uma tauri e deitou na forquilha. Coçou a testa, coçou as pernas pintadas de verde, bocejou tudo que queria bocejar, bocejou abrindo bem a boca de dentes de serrinha, fechou os olhinhos de fogo e apagou se desligando.
            Lilás ainda nem estava satisfeita com tudo que acontecia ao seu redor. Desconfiava das aventuras, suava com os sustos e nem gostava de certos acontecimentos naturais da noite. E preferiu dormir com um olho aberto, ou seja, com metade do pensamento. Como nem estava acostumada a se deitar como os morcegos, acabou dormindo sem querer e fechando os olhos bem cerrados.
            O fim do caminho do sonho da safra de grãos é um lugar neutro sem apresentações sem parque de diversões e com alta população de imagens fantásticas ou inéditas. Aparece parece o rio Tapajós e ETCs Miritituba e Santarenzinho em Itaituba. Nem existem discos voadores pousando, nem existem lojas com produtos à vista, nem existem águas rolantes borbulhantes tobogãs, se ramificam estradas de terra batida, nem se ouvem as canções dos interpretes favoritos. É um retorno para quem volta é um começo para quem vai, que assim se explica. Lugar frio e quente e inverno e verão muito sufocante. Tem um ponto turístico no alto do morro e com os braços abertos. Logo o movimento correria de multidão que anda e quer conhecer outros lugares. O fim do sonho sonhado desce escada rolante elevador de todos os altos pensamentos virtuais.
            Lilás quase chegou a esse local do fim do sonho ao ponto exato, ela e o Bicho Estranho e parecido com jacaré-açu. Se ela nem acreditou, até pode ser. Era uma manhã de verão pegando fogo no ambiente. Caminharam mais um pouco passo a passo por dentro da avenida Waldemar Henrique Pereira e sentindo a atmosfera. Caminharam à beira de um cânion muito legal de se ver. O perau fumegava fumaça azul ou cerração nevoeiro na serra do Rio do Rastro localizando Lauro Müller e Novo Progresso e Anori e Figueirópolis d’Oeste... Outros vales e várzeas fumegavam fumaça verde vermelha cinzenta dando a sensação de cerramento. A viagem era de carro, o voo era de tirolesa.
            - Lilás, aqui mesmo nós nos despedimos nos separamos, tchau! Fui!
            - Ei!, espere um tantinho apenas. Você vai me deixar abandonada à própria sorte? E se eu nem tiver ocasião neste lugar e nesta hora?
            A menina sentiu, então, uma mão no seu ombro, foi olhar, abriu os olhos e acordou de pronto:
            - Acorde, Lilás...
            - Hã! Hã!... Que que foi?...
            - Você tava sonhando? Onde você estava, guria? Na idade da pedra lascada?
            Lilás balançou a cabeça tentando se lembrar, ou tentando esquecer. Acordava aos pouquinhos, ou aos pulinhos, aos saltinhos, minguadamente. Olhou admirada para a tia Pindoba bem na sua frente, bem diante do nariz e se rindo. Rolou da nuvem.
            - Que filme e que cenário, meu! - suspirou a guriazinha.
            - Parecia que você estava noutro mundo noutra dimensão, nadando num mar enorme de nadar. Mas tudo bem. Agora você voltou e chegou e acordou e pode pular da cama que o café...
            - Me sinto cansada das pernas, dos braços. Eu quase quase nem dormi.
            - Foi talvez uma longa viagem e com jornada e tudo. Viu o rio Manicoré?
            - Nem lembro de nada, praticamente. Até gostaria de lembrar, mas nem recordo. Por que nem lembramos dos nossos sonhos sonhados, hein?! Foi mesmo uma viagem engraçada e boa, boa mesmo.
            Lilás olhou a tia Pindoba e declarou para sempre declarando:
            - Hum!... titia. Eu nunca mais vou dormir empanturrada e de barriga cheia, tá certo? Assim e deste jeito. Eu prometo e juro e dou a minha palavra!

             
           

  
           
           
           
           
           

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