domingo, 13 de agosto de 2017

A Joia da Cabeça das Soluções

         

        

                                     
         O hábito de falar assim começou quando muito menininha cheiro agradável olhos pretos quase livre de receios murmurou:
         - O sol reaparece material de cores de tempo cheio de dia de sol. Nem sei ignoro como cheguei até aqui a vista aérea da Paraíba do Sul sobrevoando. A não ser o frei José de Santa Rita Durão...
         Uma coisa a Jaci sabia como nunca: o que era um sorvete de abacaxi. O que foi que eu fiz: existe então árvore caroba?
Alvejei a árvore e fiquei. Barrou nossa saída logo na minha entrada. Estávamos rodando pela estrada BR-470. Fazia um tempo, e era um tempo. Olhei a estrada e fiquei. Apareciam do nada do nada as horas da noite. Vínhamos conversando normalmente e os assuntos. Coisas corriqueiras e banais e nem estava alcoolizado nem corríamos muito. A pista os traços na pista tudo bem desenhado como um jogo um vídeo gueime. Nem sei o que a árvore estava fazendo ali exatamente ali naquela hora nem sei o que pensar a árvore pensava fazer o que no meio da estrada. Olhei a árvore e parei. Passava uma ponte uma mensagem um convite sobre o rio Coruripe. Uma árvore invisível ou um toco. Procurei alguém para passar a bola porém não encontrei e olhei direitinho em milionésimos de segundo mas não encontrei. Chegamos tão perto da parada que bem que a vi de cortiça e casco de jabuti. Mais que olhar eu vi a árvore e fiquei. De repente de súbito do nada sem razão um grosso e imenso tronco pulou na nossa frente e nem pude desviar. Reparei que a planta... Bem na frente surgindo irrompendo e inesperadamente. Noite fechada sem ultrapassagem sem câmera lenta e chovendo a cântaros. Almejei a árvore e fiquei. Topamos o papangu a carranca dessas dos barcos no rio São Francisco fuças brabas chifrudas dentuças. Pechamos bem no meio de cheio e sobrei desacordado. Deparei a árvore e fugi. Nem estava com celular telefonando e o empecimento de grosso calibre porque se aproximou absurda e solidamente e com destroços. Em que se emitiram sons horríssonos vozes contraditórias e simultâneas e sobrepostas. E isso alongou ou encurtou o tempo.
         Voz firme cadenciada como o rodar do tráfego na rua professora Souza Leão:
         - O rio Jaguarão cidade Quiterianópolis: 70 por cento de cidade mais 30 de rio. A não ser o Afonso Pena Júnior... 
         É possível que venha chuva, é impossível que apareçam os tais e quais óvnis. Existe árvore tipo iauácano?
         Telefonei numa manhã verão quinta-feira: vou a Serro e Dores do Indaiá talvez ainda por São José de Espinharas: já estou indo de partida: quer ir junto mais comigo? Quer.
         A suçuarana soberana monarca abriu a boca e rugiu tão forte que fez tremer os alicerces as pilastras as paredes derrubando com a poeira do teto.
         Além do mais agora em boa hora, entráramos na cidade Bela Vista de Goiás para aprender, porque é isso sempre alguma coisa. A praça da Liberdade para as plantas, beija-flor-vermelho, jacutinga, avoantes e as aves sambambaias, são joão, feijão-do-campo...
         Uma coisa ela a Jaci sabia: o que era um sorvete de pitanga. Eu de minha parte meu modesto mundo: existe árvore sapucaia?
A sua voz cava e larga rolava pesadamente:
- Quero muito viajar. Quero por demais Rio Pardo, Mata de São João, Paulo de Faria, ilha Trinta Réis, praia do Cassino... A não ser o Cornélio Pires...
Estava a pé e descia pela rua Uruçumirim onde moro bairro Rocha Miranda, distraído pensando em outras coisas como tocar um concerto para piano frente à igreja São José em Tauá, quando, em meio do lixo da caçamba, vi uma perna direita de mulher e ali jogada displicentemente. Claro que parei surpreso abobalhado. Olhei em volta à procura de alguém. Vai que gente fulana me ache um vira-latas, né! Só a perna indisciplinadamente. Peguei e saí correndo a toda agora bem contente e de volta pra casa.
De repente ela via coisa além aquém do nosso espaço e tempo. E então mandava parar tudo parar o sol as estrelas o rio do Salto a rua da Glória no bairro Glória... E com sua revisão e previsão... ela via.
Ela sempre sim sempre sim tinha estes sonhos e voz melíflua:
- Aonde vai, hein?, seu bará-tucano. A não ser o Marcelo Gama...
E uma coisa sabia a Jaci: o que era um sorvete de mangaba. E eu nem sabia: existe árvore tipo borragem-brava?
A anta rosnou em tom de tédio e desassossego e impertinência.
Quando chuva caía de chuá na calçada na avenida Sete de Abril. Chuá. O vento fustigava os altos frondosos sebastiões-de-arruda, mulungus, juazeiros, muçambês... Frondosos. Parecia um dia imperdível. Dia. Me contou que viu disco voador. Disco. E não só viu como falou. Falou. Amizade respeito veneração. Divinal.
Na sua linguagem clara e impecável assim declarou com bonomia sorridente ela mesma:
- Desatado do chão de Cabaceiras do Paraguaçu o sol saiu de casa e na carreira aérea tórrida. E os feriados sábados domingos santos facultativos. Penso pergunto recomendo concluo. A flor-de-babado é planta que aparece em todo lugar, praticamente. A não ser o Diogo Álvares Correia o Caramuru...
Voltamos de Encruzilhada do Sul expansivos bem acima do solo e já ali mesmo pelo primeiro andar empolgados cheios tomados de novidades superioridades imagens informações notícias. O sol do dia era o próprio ás de ouro e zabelês, príncipes, téus, araris, lavadeiras... Floridas arborizadas belíssimas cidadezinhas.
O lobo-guará uivou com grande eco com forte voz até a liberdade.
Uma coisa ela sabia a Jaci: o que era um sorvete de pitomba. E eu nem sabia: existe árvore o que seja espinho-de-juvu?
         Ainda não confessei pra ninguém, mas estou montando um manequim de mulher. Meu desejo é colocá-la, quando inteira e completa, atrás da janela e de frente para a rua Macuxi e os prédios do outro lado. Portanto, esse achado da perna foi importante porque o conjunto está quase completo e falta pouco. Por hoje estou satisfeito com o achado mais importante da sorte. E pois tenho esta mesma perna que acabei de encontrar por acaso (é assim que prefiro). Já consegui uma peruca ruiva (por enquanto só ruiva, mas gostaria de uma loira uma rastafári uma encaracolada uma alçada estilo xaxim, etc). O busto com seios pequenos (um dia se achar seios maiores poderei ter opções) foi o começo de tudo. Ainda tenho os 2 abraços, sendo que o esquerdo é de uma madeira esbranquiçada chá-de-soldado, o direito de plástico pintado de amarelo. Me faltam uma perna esquerda e a cabeça. Manequim só de carne e ossos e materiais recicláveis.
         Contou disse tornou a falar e rosto rejuvenescido agradável redondo até insistiu ensinou:
         - E muitos céus todos extensos idas e vindas todos os dias largos longos relaxados. Eu tinha cinco anos e era natural que fosse assim e se bem me lembro e mais por aí a fora. E pronto, eu tinha de contar os autos as árvores maiores as aves as pessoas as casas; no outro dia daqui pra lá recontaria, se me lembrasse se estivesse a fim. A não ser o Emílio Guimarães Moura...
         Os roncos e os grunhidos e os cuinchos do porco-do-mato se elevaram acima da mata na serra da Tromba.
         Eu a encontrei na noite dentro do bar Pacanaua frente à praça Pádua Dias. De manhã nem mais a olhei cheirei toquei pensei. Quando parti já eu a havia esquecido.
         Fazia vento baixo começou a chover forte palavra chave: transformação abri as asas mesmo assim como os aviões os pássaros 8ª casa astrológica e as pessoas olharam das casas das lojas dos automóveis signo escorpião e acharam graça planeta regente Plutão e eu estava quiçá especulei engraçado.
         Uma hora após saímos à desfilada. A estrada era nova lisa reta bonita de se dirigir. As placas sinalizantes amarelas destacadas e novas. Perfeitamente no trecho entre Itaara e Bonfinópolis de Minas. Entradas de estradinhas vicinais e os nomes dos sítios pitorescos. Parecia que nem tinha fim meio começo e etc.
E ela falou em linguagem simples e precisa o seguinte:
         - A ave matia de duas cores gazinou o que gostava de gazear e compreendi. A São Mamede fica pra lá da Frei Lagonegro. A não ser o João da Silva Tavares...   
         Até completar o manequim vou colecionando as partes debaixo da cama ou no armário ou em cima da mesa. Na verdade na verdade, se eu fosse atrás e procurasse bem logo encontraria todas as peças faltando e até umas sobressalentes. O lixão da cidade deve ter de montão e para todos os gostos e fins. Podia comprar na loja ou mandar fazer. Mas não, prefiro o meu jeito, prefiro do modo mais difícil ao acaso e engraçado, esbarrando com o indeterminado e engraçado, a surpresa, a coincidência, a esperança.
         Em Rio de Janeiro, Arraial do Cabo, rua Barão de Macaúbas, bairro Ricardo de Albuquerque, sete de agosto de 2011, 10h com sol encomendado recomendado.
         O grande professor capincho e já sábio e profeta declamou em voz alta.
         Depois da festa queríamos chegar e dormir sossegados como as duas pedras irmãs do fundo do poço. O devido tempo lugar litoral e circunstância. Existe árvore tipo canela-guaiacá?
         Voz remansada e firme e dela assim contou olhos brilhantes e indecisos solfejou:
         - Um problema uma equação outra questão mais uma fórmula. Se considera sempre que o pi continua um escore irracional e transcendente. Onde e convenhamos os mais renomados cientistas se acercam. E a resposta é Rosário do Sul. A não ser o Quintino AFS Bocaiuva...
         O jacaré-de-papo-amarelo já falou tá falado sobre as praias de rio que conheceu as lagoas que navegou os barrancos que madrugou os aguapés as baronesas os gravatás-das-rãs que visitou e até indicou umas coroas de areia que mais gostou.
         Uma coisa ela sabia a Jaci: o que era sorvete de açaí-pequi-caju.
         Quando a completar (já falei do manequim) já pensei, vou usá-la como amostra grátis atrás da janela e de frente para a avenida e os prédios vizinhos do bairro Taquarembó. Então, fiquem tranquilos, não me passa na cabeça ter manequim para fins devassos. Talvez para afastar os espíritos maus, aí sim. Alguém para xingar na hora certa: ora bolas! Ou se for muito bonita nos olhos bonitos, para trocar olhares.
         Surgia a manhã e Entre Rios do Sul. Pouco mais era de meio-dia. Visitamos a cachoeira da Jiboia. Nuvens com fisionomia de santo santa e até de D. Conhecemos a gruta de Maquiné. Cinco motivos para visitar a serra da Borborema. Aborígenes sanumá. O sapo-intanha é batráquio que aparece em todo lugar, praticamente. Existe a árvore tipo almecegueira? Anoitecia.
         A harpia se aproximou de repente de frente de frente e perguntou com a voz firme e pausada.
         Uma das 200 mais belas do país a de Porto Real, um dos 20 maiores do Estado do Maranhão o de Santa Bárbara, uma das 100 maiores em habitantes a de Cândido Rodrigues.
         Eu ainda escuto a sua voz de entonação nervosa arrebatada e até apreensiva:
         - A Redução São João Batista até Entre-Ijuís apareceu em 7 de setembro 1697 com 2.840 habitantes, e depois em 5 de maio do ano da graça de NSJC de 1768 com seus 4.016 habitantes. Todos brincam de índio e bandeirante. A não ser o Martim Afonso de Sousa o Arariboia...
         O colibri uma colibri qualquer colibri que atravessa pra cá pra lá vaivéns os dois mundos basta ser colibri. E por que colibri? A alma eterna. Continua linda e a cara espaçosa. Um sol interessadíssimo. O azul diáfano do céu com infinito com universo inefável.
         Segundo me disseram segundo eu li por aí a cabeça de manequim é mais difícil. De repente terei de comprar ou mandar fazer artística artesanalmente. E com que material. Mas pretendo ter várias e ir trocando com outros colecionadores idiotas.


sábado, 5 de agosto de 2017

Contos de Santa Luzia (20)




            Cará Cupincha galopava seu zaino na frente na vanguarda e na dianteira; e os ruins os maus desalmados famigerados, uma caterva uma súcia, vinham na rabeira e no rasto e na cola e no encalço e nos calcanhares, pelas costas e pelas sombras - o que era muito perigoso e abichornante.
Eles os contrários, os estranhos, os não sei o quê, vinham perseguindo o Cará Cupincha e mandando bala mandando ver. Um matraquear, metralhar, gargalhar de balas viciadas de revólveres, espingardas, fuzis e rifles de repetição com luneta longo alcance. As balas zuniam, zuiiiiim!... rente à cabeça do Cará às ilhargas da cavalgadura. Malucos doidos facínoras querendo acertar o CC e na distância de um tiro de doze.
Era de noite, e olhando rapidamente por cima do ombro, CCupincha viu ou entreviu ou resumiu uns relâmpagos chicoteando estrias para cima de sua cacunda e alimária montaria. Hora perdida da noite. Momento denso e ruim do breu.
            No início ninguém sabia de nada.
            Quando foi quando veio? Habitante de Quevedos ou Arroio do Padre partidário caramuru do visconde de Cerro Alegre região da serra dos Tapes junto da beira do rio Forqueta no Estado do Tocantins. Em 2003 tinha quatro anos, já em 2024 somando não ultrapassaria os vinte e cinco.
            - Hoje é hoje - seu espiritado registro de guerra aos quatro ventos gerais.
            Cará Cupincha tinha a sensação de carregar mais de quinhentos anos na paleta. E Cará envelhecia precocemente como extintos sapos-ferreiros ou senembis ou sarigueias... a olhos vistos olhos vistos.
            E era mesmo uma surriada um tiroteio de esquecer de que lado ficava o sul do norte. A poeira atirada no ar pelos cascos do cavalo fugitivo ainda atrapalhava a visão dos seres maus que vinham na captura. Eram muitas subidas e descidas, curvas e caminhos estreitos, picadas, corredores, passos, atalhos, carreiros e desvios. Pedrinhas que saltavam chutadas sem querer.
            Pontualmente pelas 20h contornaram uma ex-restinga de mato.
Cavalo Cupincha Cará zaino adivinhando o caminho no escuro, no atropelo, na afobação, ao acaso e no par ou ímpar. Cará agachadão na sela ou colado de cá de lá na tábua do cavalo, o pipocar das balas, piuuu!... piuuu!... e o som dos cascos na estradinha de terra batida, potopoto-có!... potopoto-có!... e o estouro/estrondo do peito de cavalo-cavaleiro, tum! tum!...
            A noite estava amarrada com as pesadas nuvens vermelhas de poeira. Nada de estrelas piscando e lua subindo e planetas girando. Noite de vento despejando areia nas fuças. Escuridão mal-habitada por mistérios insondáveis sobrenaturais. Enigma atochado de lobisomem, mula sem cabeça, jurupari.
            Cará cavalo o Cupincha zaino corria muito veloz. Já caíra o boné que o rapaz perdera pela capoeira seca do barranco do abismo. E suava frio e o cavalo suava mais. Cupincha a cavalgadura, centauro, olhos arregalados pelo esforço, pela situação, pelo deus nos acuda. Olhando para trás, de esguelha, Cará não via nada por causa da nuvem de poeira, por causa da escuridão, da picada sinuosa, da velocidade. Só umas faíscas com a sequência dos estrépitos dos disparos, teu! teu!... Ah! se era um risco grande de perder o posto aqui no piso da terra e ganhar o de mais abaixo, e cavando.
            Os perseguidos quase não pensavam. Não se perguntavam nada. Cavaleiro não perguntou nada, inimaginou, repassou raras coisas pela cabeça. Era como uma febre um pesadelo bebedeira delírio.
E cavalo-cavaleiro comia estrada, simbora!, comia rumo, tragava caminho, boqueirões, algares, taperas, encruzilhadas. Noite fechada e só podia adivinhar o chão. Nem sabia onde andava, para onde estaria se pinchando, onde a estrada o deixaria. Poderia quem sabe ir parar num outro mundo, num outro tempo, outra galáxia. Nunca que havia andado em hipótese alguma por aqueles grotões, croões, valões, peraus, fragas, báratros, covas, cafundós.
            Cavalo zaino só tinha uma chance: cansar menos que seus inimigos. Cará já secara sua ração de balas. A noite os ajudava, mas só um pouco. As pernas iam aguentando o tranco. A estrada ruim e desnivelada e estreita ajudava a protegê-los das balas, porém só um pouco. As balas zunindo raivosas e violentas muito perto das patas rente da cabeça atoleimada, entre curvas e desvios das estradas. Só podia ser o inferno, mas muito perdido no seu labirinto. A previsão era de que num momento já-já fosse atingido por um incandescente projétil de chumbo.
            Uma placa de latão enferrujada retangular perfurada a balas e suspensa por duas torinhas de imbuia, num vale de dunas e pedregulho, escrevia e apontava para a entrada do acampamento de Santa Luzia.
Entrou centauro realmente no lugarejo como se fosse um tufão um pampeiro de poeira vermelha e pedrinhas soltas correndo cantando em redor. Um furor destampado.
O Cará percebeu que os capangas os jagunços haviam se perdido ou desistido ou cansado ou retardado. A única rua do carcomido arraial. Surgia a manhã em 7h e cheia de poeira entupindo o oco. As casinhas silenciosas desamparadas caindo aos pedaços. Nada se mexia.
Cupincha-Cavalo parou na pracinha de pacaris secos petrificados. Centauro suava muito, cabisbaixo, sem fôlego. Cará apeou do zaino e se esticou todo, se espreguiçando, estalando dobradiças, espaçando em xis. Puxou o relho da anca do animal desabafando e o vibrou estalou bateu no ar.
            Amanhecia encardido sobre a aldeia paralisada e sem nada a perder.  
- Hoje é hoje.  
Cavaleiro sentou num degrau ali fora da capela em honra de santa Luzia. Cavalo baixara a cabeça cansado preocupado procurando capim queria beber. Não chovia há dezenas de meses, e anos-luz.
            O seu Cará pensou em procurar uma padaria comer um pão de forma com café e leite. Mas, enfim, já sabia tudo, não havia padaria, não havia açougue, boteco, armazém, não havia mais nada funcionando naquele lugar detonado e destruído e contaminado.
            Cará preferia o verde, e ali o verde já desistira há muito e nunca mais reapareceria. As ex-paineiras ex-copaíbas-curiaranas ex-jamburanas da pracinha, como tudo e todos, pediam água, pediam chuva, chuva. Talvez não chovesse há 12 anos ac.
Uma sombra de sol já despejava calor mormaço sufoco. Nuvens de poeira avermelhada. E mais um cheiro de óleo queimado jogado fora.
Aldeões e aldeãs vigiando das janelinhas e portinhas das suas casinhas de barro cobertas de palha seca de buçuís. Saci pulando de espiral em espiral. Tudo dominado pelo calor excessivo e a poeira do deserto.
            Uns moleques encarvoados, desgrenhados e ossudos, chegaram chegando e cercaram o zaino. A besta cavalar arregalou mais ainda os olhos num horror. Logo os pivetes agarraram umas pedras juntaram uns paus com pregos na ponta e começaram a fustigar o quadrúpede.
Indignado, Cará pulou na frente e mandou parar. Ressolhante, o cavalo pataleava de terror e pavor. Os piás teimavam e não queriam aceitar. Somente depois de Cará estalar o rebenque lá na altura das orelhas deles que lentamente desistiram e saíram fora.
            Cupincha desconfiou da aldeia e habitantes, do tempo, da própria desdita. Tinha uma sensação braba de que caíra numa arapuca esparrela. Tinha a dura impressão que era o fim da linha das tentativas dos negócios dos tempos. Tinha a incerteza que pisara na ponta da cauda do diacho. Tinha a incerteza que não podia estar naquele lugar. Tinha a incerta incerteza que as horas estavam se esgotando terminando concluindo fechando.
            - Hoje é hoje.
            Uma hora depois Cará ouviu um, pofe!... como se um corpo pesadão caísse ao chão. Se virou assustado e... realmente lá estava um corpo gigante estendido na poeira incinerada. E era o zaino esperneando asfixiado e já estrebuchando estertorando arreganhando os dentes. Cupincha correu para o cavalo, tentou uns primeiros socorros... uma desgraça.
            CC agora somente tinha o desconsolo da alma assaltada do corpo partido. E esse era um momento cru e mortal e nefasto, praticamente. E ele, o Cará Cupincha, ex-Cupincha-Cavalo, foi foi e se escorou no tronco da ex-figueira-de-lombrigueira. Se juntou ao toco da ex-árvore, abraçou-o e procurou resistir ao cerco, ao sono, ao desamparo. E o tempo não parava não parava nem pra poder desembarcar.
            Então chegaram até o Cará Cupincha mais uns cinco vilões negociadores. Um deles falou com o Cará, discutindo qualquer coisa com cifra cifrão com preços valores algarismos:
            - Mmmmm.
            - Opa!
            - ...
            - !
            - Dois?
            - Vezes dois.
            Os aldeões e as aldeãs se afastaram um tanto, se juntaram em conferência e assembleia, cochicharam. Fizeram, lá entre eles, uns trejeitos, muxoxos, salamaleques, arabescos ininteligíveis no ar poluído, mímicas, macaquices. E vieram com outra proposta:
            - Três?
            - Vezes três.
            Os vilões e as vilãs deram um tempo ali, se juntaram em conversa e discussão, cochicharam. Uns ficaram desanimados. Outros nem tanto. Ainda os exaltados. Uma ou outro contou um caso, explicou, teimou, insistiu, caminhou de vaivém, coçou, sacudiu a cabeça, pediu a palavra, perdeu a compostura. Reincidiram com um argumento e tentativa diferente:
            - Quatro?
            - Vezes quatro.
            Os vilões e as vilãs disfarçaram uma saidinha, se juntaram em associação e confederação, cochicharam. Um falou e outras ouviram. Duas palraram e outros pensaram. Dois entrevistaram e logo três inquiriram. Decidiram aceitar:
            - Falou, tá falado.
            - Hoje é hoje.
            Assim, então, os aldeões e as aldeãs levaram o ex-cavalo de arrasto. Puxaram o morto pela cauda, pelas pernas, e a inteira rua Única. Precisaram fazer muita força. Riscaram o chão com o corpo pesado moribundo do bicho falido. E não havia nem cães inquietos chorando batendo a cauda, nada disso. E não havia nem urubus de bico aberto língua seca e dura asas grandes enormes, nada disso. E nem havia graxains ganindo bufando farejando rodeando raivosos, e nada disso. Pouquíssemos e mirados e duros e rafados semoventes aldeões vilãs, mais nadica de nada.
            E Cará nem sabia de onde vinha a origem desse tal cheiro de betume. Entre outras coisas, o ambiente cheirava a óleo queimado? Óleo queimado reutilizado para outros fins. Cará Cupincha esquecera de perguntar qual que era o daquele cheiro de petróleo. E dizia, volta e meia, pensando alto nos seus solilóquios:
            - Hoje é hoje.
            O visitante fez nova aproximação com aquele esqueleto de cupuaçueiro. Estava por isso mesmo abraçado com aquela ex-árvore ali. Memória toda torrada e moída e prensada. E quando foi, anoiteceu.
E por que não?, subiu na forquilha para ficar longe afastado dos anhangá e matinta perera e caapora... Se instalou lá em cima se enrolando num galho seco periclitante. Mas o ar recendia a óleo queimado, óleo requeimado, asfalto derretido. E ninguém podia negar.
            Fazia um calor importante, e a tarde ia caindo, e as nuvens de pó iam rebolando no alto no oco. Tudo dominado pelas dunas de areia e pedreiras e pardieiros e montes de ferro velho acúmulos de máquinas imprestáveis sucateadas elefantes brancos.
            A noite chegou pesada sem estrelas sem lua sem direção e com ponto de interrogação. As matintas pereras riscavam o ar aqui e ali, muito perto, muito acintosas. Lobisomem saiu e caminhou pela capoeira, croque!... croque!... estalando gravetos secos, e sem dizer aonde ia de onde vinha. Um desonesto e desagradável e insistente cheiro de óleo reutilizado batizado.
            Cupincha se ajeitou entre os galhos secos, felinamente, escanchado, montado perigosamente. Já queria fechar os olhos. Depois ficou imaginando... Relincho de mula sem cabeça ali para aquele lado do capoeirão incendiado. Um cheiro pesado e estonteante de óleo sujo. E pegou no sono. Não era para dormir, e adormeceu.
            Horas tardes da noite enfumaçada CC acordou com um cheiro de queimado no ar. E tossiu valentemente muitas vezes. O corpo ardendo envolto em fumaças e catinga. Cará se viu comendo fumaça, engolindo fumaça, tragando fumaça. Tudo assando como lenha de fogueira para são João. “Mas é mês de janeiro!”, pensou. E era ele mesmo sem a menor dúvida sem chances de errar ali no alto no meio das labaredas facho archote acariciado pelas chamas desamparado? E ele o Cará Cupincha sentiu odores de carne humana assando no brasil.
            Foi quando Cará Cupincha não aguentou mais e explodiu em tocha humana. E caiu lá de cima... despencou já tostado, tofe!... já um carvão chamejante. Caiu no meio da poeira, no solo esturricado, tofe!... soprando erguendo pequena nuvem vermelha. Pegou fogo como feixe de sarandis secos. Incandesceu como touceira seca de matapasto.
            E não estava morto, era só o começo, só um lampião, só um candeeiro. Fora um ensaio. Pois quando o turista mal e mal recobrou os sentidos automaticamente que percebeu a gravidade da desventura. Estava amarrado num poste de ex-cauchorana para servir de alvo às pontarias paramilitares. Saíam do seu corpo estragado, chamuscado, esfolado, umas fumacinhas azuis outras pretinhas e ainda as branquinhas. Um churrasco mal passado. Odiou o cheiro amargo de carne humana pegando fogo no óleo reutilizado.
            Para a aldeia, os aldeões e as aldeãs e os aldeõzinhos, era dia de grande concurso. E o infausto infeliz fora o escolhido pelo acaso a bola da vez. Os exercícios de artilharia de arremesso foram distribuídos sorteados desta maneira: eram três molecas de saia ou vestido, cinco de tranças, três de pés no chão, duas de rabo de cavalo, uma de franja caída nos olhos, duas sardentinhas, uma de cabelo vermelho, duas de sandálias franciscanas de pescador, quatro de brinquinhos odalisca, duas de óculos de grau, seis com os dentes precários, duas atacadas de maleita, quatro de olhos castanhos: um total de onze. E emparelhadas lado a lado em meio círculo. Como se fossem treinar cobrança de penalidades máximas. Ou pelotão de fuzilamento? Todas ansiosas para fazer o dever de casa. Cada uma com o seu arco e a sua flecha à mão, e a coceira nos olhos sufocados de areia. Cada qual com seu cabaz de flechas às costas, e as pernas abertas preparadas. Assim, então, mais da metade atirará com o braço esquerdo esticado. Outras atirarão com o braço direito esticado. Disputa competição de tiro ao alvo com arco e setas pontiagudas.
            No entanto CC mal podia se dar conta disso, ou daquilo, ou daquele outro. Cará no centro das atenções na frente do tronco atado à ex-árvore. Muitos homicídios! Não pensava em nada, o Cará, o Cupincha. Ele era a grande atração do circo. Os olhos já fechados os ouvidos praticamente trancafiados.
Cará Cupincha nem tinha muita ideia onde iria parar naquela mesma noite.
- Estejam à vontade! - o aldeão capitão gritou ordenou.
As pixotinhas todas elétricas e nervosas e urgentes e arregaladas, miraram o alvo todo lambido de fogo. Miraram o fígado do tição. Miraram o peito aberto sem camisa do ex-centauro. Miraram o gogó encaroçado da vítima. E miraram o meio dos olhos da presa. Uma das cobradoras de pênalti observou, displicente:
            - Ele ainda está acordando ou de acordo.
            A outra do lado também viu:
            - Ele está quase olhando de olho apertado.
            Alguém queria saber:
            - Terá um nome comum, pelo menos?
            Mais uma em dúvida:
            - Quantos anos já carregou na paleta na cacunda?
            Outra balbuciou:
            - Não será um ex-mecânico de patrolas ou ex-criador de camboatás?
            A quinta daqui pra lá e que sabia falar e sabia mentir:
            - Se fosse eu ele desistia de vir aqui.
            Cará Cupincha o CC ele mesmo estava muito mal na parada e podia acontecer o pior. De cada dobra do corpo subiam umas fumacinhas azulzinhas e cinzentinhas e branquinhas tricolores. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas já com o tacho grande de cobre sobre o fogo. Cará vertia lágrima somente pelo ex-olho esquerdo e olhe lá. Sentiu tão que estava perdendo tempo:
            - Hoje é hoje.
            Ansim, as sapecas cobradoras de penalidades máximas tiveram ordem de treinar uma rodada de flechaços ao Cará Cupincha: o Álvaro, o São Sebastião. Foram disparando à toa e com incerta inclemência. Os espetinhos espinhentos voaram sérios, riscando o ar, zunindo um breve zunido, zuuuupe!... até encontrar um obstáculo, um ponto de apoio, um corpo trêmulo e estorricado de Cará Cupincha.
E quando a flechinha, grupe!... cravava no alvo fazia esse ruidozinho característico artístico, grupe!... Os dardos entravam tão comportados e fortemente no corpo torrado do ex-CC que pareciam espetar um sanduíche de pão repartido com deslizante margarina ou manteiga, palitinhos segurando as tampas do pão no recheio, grupe!...
                       


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Contos de Santa Luzia (14)



            Um cavalo sebruno com sorte, uma vez, cavalgará dezoito anos; uma tartaruga-da-amazônia e muita sorte, uma vez, nadará trinta e dois anos; um uiramiri natural da sorte na floresta, uma vez, cantará os cinco anos; uma galinha de sorte, uma vez, cacarejará setenta e cinco dias; uma borboleta-corujinha voará uma semana, duas semanas, borboleteará um mês, seis meses no máximo.
            Uma árvore chapéu-de-sol, na luz clara da manhã, sonhou ser uma ave anhupoca. Um pássaro sanhaço-amarelo, no rigor do inverno sulista, desejou ser uma árvore alta cedro-branco. Uma planta cardamomo-da-terra pensou se transplantar para a beira-mar e virar se naturalizar peixe pititinga. E uma pedra rolada, ali no fundo limoso do rio Tramandaí, capitalizou duzentos e dois milhões de anos e uns quebrados ao quadrado.
            Anoiteceu. Amanheceu. Dia claro aberto de clima diáfano com céu profundo e enigmático.
E o seu Tinhorão, naturalmente falante índio dos suiá, estava em a casa das trinta e duas para trinta e três primaveras... Biblicamente tinha setecentos e vinte anos. Cronologicamente tinha quarenta e dois. Biologicamente avançava um nada além dos trinta e sete anos e seis meses. Bibliograficamente nem foi para além dOs Segredos de Taquara-Poca nos dezesseis do ensino médio. Geologicamente, reza a lenda, que acumulava por em torno da idade do Pão de Açúcar. A mãe dele dona Tibuquina natural da ilha do Cardoso dizia confirmava vinte e um anos incompletos.
Tinhorão imaginava... tinha ojeriza à visitas. Tinhorão pensava... declarava em alta voz para si mesmo:
            - Mania que eu tenho esta de ter medo de cachorro; mania que eu também tenho de gostar de cães. E digo o porquê.
            Quando criança queria uma bola correr atrás e alcançou. Pouco depois pediu uma bicicleta e pedalou pela rua Gupeva. A adolescência aventurou e fantasiou pular de paraquedas ou parapente ou asa delta. Depois entrou para a aeronáutica porque o sonho se realizava de voar no jato da FAB. E quem sabe Tinhorão, hein?, na estação espacial internacional boiando gravitacional em órbita do planeta mais popular em o sistema solar da Via Láctea.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um novo dia escolhido entre tantos e tantos com espetado sol no desenho do caderno escolar.
             Tinhorão estava no quintal de casa comento frutas amarelas maduras do pé. Frutos suculentos e doces mangabas araçás pequis abios guabirobas. Tinhorão de áries, regido por marte, elemento primordial o fogo. Pegou um caju apetitoso, olhou, mordeu, apreciou, devorou, aproveitou. Provocou pequenas lágrimas agridoce de escorrer pelo rosto.
Era marmanjão feito estoura-vergas o Tinhorão. Resolveu sair de casa para sempre e sempre. E saiu de casa mordendo punhado de jabuticabas maduras. Porque tudo já vem destinado, porque tudo é destinado. Como era como não era, murmurinhou:
- Vamos ao local do teste! E digo um porquê.
Ele sempre aquele Tinhorão, foi até a casa da princesa namorada a Pipira, cunhantã dos aborígenes cueretu, para uma volta passear fazer uma caminhada pelaí contornar a ilha Boipeba. (Na mesma tarde que os dois foram pegos abordados pelos home numa barreira, eu também fui. Mas outra hora outro lugar e nem muito longe nem muito depois na mesma tarde). Antes ou depois, deitados na grama da praça Paris, ficaram se esguichando água com aquelas garrafinhas de plástico de água mineral fabricadas em Vazante mirando o alvo na parte que mais gostavam se interessavam um do outro etc., e até cansar de rir. Pipira olhar olhar de cativante naturalidade ensaiava uns uivos:
- Huuu-u! huuu-u!...
- D superou o nada. Foi invenção introdução organização e fixação da criação. E digo o porquê.
Anoiteceu. Amanheceu. O dia a dia abriu comportas de ouro e sol e repartições públicas e lojas de eletrodomésticos e obras em vias públicas e fábricas de artefatos de couro.
            Na altura das quinas das ruas Presidente Vargas e Borges de Medeiros e Cacequi o Tinhorão olhou para trás. E para trás e para os lados como fazem certos vira-latas sem dono. Viu muita coisa e não viu nada que o perturbasse surpreendesse. E já não comia mais azedinhas ou guabijus ou sete-capotes esquecido das frutinhas do mato. Desejou casar com a Pipira ou a Moema ou a Paraguaçu ou a primeira tupinambá bonita que visse pela frente viesse à mente. Tivesse ela enfeites que tivesse, obrigado. Tocasse a inúbia ou o uatapu ou o uapi. E não demorou nada para ver logo três de uma vez e juntas em trio caminhando lado a lado as Três Marias de mãos dadas tiara na fronte do céu. Escolheu a loura de olho azul por ser ideal sideral zodiacal como uma menina rica e aparecida com a santa Luzia.
            - E tal e qual das Três Marias é a mais inteligente? E digo o porquê.
            Então, Tinhorão saiu de casa para arredondar o mundo. Cabeça redonda. E parecia querer andar à procura de alguma maravilha do outro mundo. Uma maravilha com a cara dele mesmo. Um milagre que era para ele mesmo. Uma cidade parecida Itapissuma como ele mesmo. Interpretar um cainamé ente mítico irresponsável até por ruins acontecimentos maléficos.
            Sexualmente ele passava já dos trinta e dois, mas não tinha completado ainda os trinta e oito anos. Viu as libélulas engatadas uma na ponta da outra, voando por cima do canteiro na beira da calçada da rua Guimarânia, a favor do vento. No longe o Dedo de Deus na serra dos Órgãos com a cidade de Guapimirim. O dia caminhava muito rápido. E olhava para dentro dos carros e via o que estava acontecendo. Olhou para os quatro cantos porque sentiu que algo ou alguém o seguia, e mugiu:
            - Mania que tenho de ter aversão a cachorro; e mania que tenho de gostar de cães. E digo o porquê.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um outro dia como outro qualquer e em todo lugar do azul pacífico atlântico índico terráqueo planeta.
            Tinhorão parou na frente de um zoológico ali em Sapucaia do Sul e cruzou os braços e apreciou os animais. Leu, releu, treleu as placas de orientação. Depois olhou para os lados, pôs as mãos nos bolsos, vasculhou, não achou nada no interior das algibeiras e guaiaca. Não tinha nada de útil nos bolsos. Queria entrar logicamente no zoológico, caminhar pela mata predominante das pinhas-do-brejo, andar, nadar, voar. Queria ver os quatis. Queria ver os graxains. Então, desejou ser um graxaim. Por quê? Graxaim um bicho quase extinto, quase tão difícil exclusivo e até mais inédito que político honesto. E jogou cascas de bananas nos bichos; o cercado da família da ema: a gruta dos tamanduás-bandeiras: a embaúba da aí-igapó: o banhado das irerês: o viveiro dos caurés: a gaiola dos saguis-leãozinhos.
Assim, Tinhorão era aquele macaco-prego pulando pulando e se exibindo atrás de pedaços de mamão. Um macaco-aranha raro com namorada e cinco filhotes para cuidar. Um macaco-barrigudo exibido que gostava não ser fotografado. E se penduravam pela cauda nos galhos das caqueras desfolhadas.
            Pois a tachã podia durar de cinco a sete anos. O jerivá de cinquenta a oitenta anos conforme o ambiente. Um maracujá-mirim tem idade de sobra para além dos quarenta e lá se vão. A canela-de-garça tem duração maior que uma garça-branca-pequena. De três a seis os pesquisadores calculam para os biguás. Quinze anos os astros confirmam para os saguipirangas.
            Alto espadaúdo Tinhorão viu uma porta de colorido vidro batido; viu uma escada branca que subia para o primeiro andar e outros andares; viu uma mulher acompanhada de um filhote que queria porque queria assistir tevê. Tinhorão se sentou na escada de mármore escavado extraído em Cordilheira Alta. Não pensava em nada. Nem fome nem vontade de comer. A temperatura baixa nada mais era que termômetros despencados devido ao frio.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um renovado dia novo dia se anunciou na gargalhada dos joões-de-barro gurandis-azuis marias-com-a-vovó...
            O Tinhorão estava em frente do boteco Urupema no largo do Rosário de braço com a rua Visconde de Ouro Preto olhando um pastel de queijo na vitrine. O boteco era típico de esquina. Tinhorão não sabia a idade do pastel e suas procedências e malícias e variedades. Motivos para navegar pelo rio Poxim que tinha de sobra. As ruas que se cruzavam tinham pressa, e muita pressa, e nenhuma maravilha assim do outro mundo. Avenida Guarapiranga começava no parque Henrique Lage rodeava toda uma área por fora até o bairro Cosme Velho. Tinhorão também não sabia se o pastel era de queijo com brócolis ou de queijo com abóbora-do-campo.
            Por volta das dez e dez Tinhorão entrou na igreja São João Batista padroeiro da cidade dos neopratenses. Antes de entrar sentiu um desconforto súbito e olhou instintivamente para trás crente que estava sendo inquirido. Olhou, olhou... e não viu nada que lhe confirmasse ou lhe intrigasse ou lhe encafifasse ou lhe negasse. Mas estava com as mãos às costas e entrou na casa de D. O templo parecia um subterrâneo do século XVIII ou XIX. Foi aí que Tinhorão decidiu que seria profeta de DNS. Um homem de muita fé, um homem puro, um homem humano, um homem divino, um semideus, um homem iluminado, um humilde servo que jamais se metia em política partidária em discussões de futebol em heranças de família em jogos de azar e loteria.
            Quando saiu da capela de São Sebastião em OP ainda estava pensando nessa ideia. A imagem de santo parecia boa e cairia como uma luva uma uva uma chuva. E o filho dos suiá não tinha nada para fazer naqueles dias e nos dias seguintes e nos dois três oitenta meses seguintes. Assim, ele quis ser o profeta para toda a vida; ou o término de tudo ou até resolver querer outra coisa. E a ideia era tão boa, apesar de muito grande e pesada. Se sentiu um pinheiro-do-paraná abraçando o mundo inteiro, e bocejou:
            - Vou ser santo na minha própria terra. E digo o porquê.
            Nem tinha outro Tinhorão profeta e entre ele e o mundo e entre ele e o outro lado do mundo ficava essa uma trilha de formigas-corredeiras. Teve que levantar as pernas. As formigas vermelhas não reconheceram o profeta Tinhorão e isso era o suficiente. Formigas isso sim formigas vermelhas presumidas. Insetos estudados no encontro agropastoril de Juscimeira. Formigas antes do mundo depois do mundo baratas e formigas.
            Assim mesmo o profeta passou pelo terreno baldio e viu a anta. A anta era malhada e estava amarrada e estava atada e estava presa a um pé de pau-lacre. A anta tinha manchas pretas e brancas pelo corpo e pastava num círculo. O profeta a olhou com carinho e atenção e devoção e glória e confusão e estimativa. O profeta olhou para os lados e para trás como fazem os cusquinhos perseguidos. Aí o profeta pegou na corda e puxou a anta. A ruminante tugiu tossiu mugiu urinou berrou caminhou acompanhou.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um perfeito dia do outro lado da noite inclusive na serra Formosa região controlada pelos uapixana.
            O poeta então no caminho do S falou para a anta:
            - Tenho uma mania que é ter receio de cachorro; e outra mania que é gostar de cães. E digo o porquê.
            E a anta respondeu na língua grossa das quadrúpedes dos pantanais junto ao rio Ibirapuitã e capins-milhãs e flores-de-babado e cardos-ananás:
            - Mmmm!...
            E o poeta olhou para trás e viu a anta lhe acompanhando e seguindo cabisbaixa e farejando. A cauda lá dela batia nas moscas inoportunas. E a anta imitava o poeta. E a ruminante malhada colava perseguia o profeta de barbas brancas longas barbas encardidas barbas debaixo do nariz.
            O poeta ia andando e puxando a tapir. Passavam por um túnel o da Conceição. Um miolo de montanha, montanha bem grande e pesada pico Itapeva. Brilho no fundo da abertura da luz. O poeta falou pra tapiretê:
            - A guracava aprecia um gavião-caburé, uma jacaroa adoraria ser uma cutia, uma jandaíra gostaria de ser uma saíra-lagarta, um mico-leão sonha ser um surubim, uma arraia-cocal quer ser um angico novo em folha. E digo o porquê.
            A anta bateu os cascos no solo da pátria e jurou para o deus dos tapiras:
            - Mmmm!...
            E então já fora da montanha após vazar a montanha, os dois olhando para o céu, o tempo começou a chover. E o poeta e a anta continuaram andando naquele mesmo e demorado passo. Não tinham medo da chuva. Não eram de açúcar. Não gostavam de muito sal na comida. Rua das Uirás lotada de tapuias e emboabas, uns escorados nos balcões bebendo a destilada catimpuera a ardente tiquira o estalado paiauaru. Os ingarune tinham ido colher pinhão em pros lados de Chorozinho e Canto do Buriti.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um pleno dia limpo e ordeiro e genial e majestoso e temporal.
            O Tinhorão olhou o caminho. Que será que o pateta e a anta têm com o futuro? Talvez um nada. E o dia passou rápido. No começo da noite esfriou esfriou. O pateta não disse nada, e a anta não falou nada. O pateta era honesto. A anta era herbívora.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um novo dia de muita calma e pássaros piando na beira da praia no lajedo do rio Bandeirinha.
            O mundo vivia respirando naquela tranquilidade em que o acaso também respira. E o profeta mais a anta seguiam por um imenso butiazal à beira da estrada. Parna da serra da Canastra localidade de Mangaratiba. Alvoroço gritaria em bando dos periquitos-do-pantanal. Butiazal de um lado e pequizeiral de outro lado. A anta já se enamorava de butiás maduros. O poeta pensou e logo disse:
            - Hum!... hein?! Enormidade de cajueiral? Você está vendo o que eu estou vendo, sei. Quer caju? Caju é muito legal. E digo o porquê.
            E a anta respondeu com uma baba se esticando no canto dos lábios carnudos de dentes fora da boca nariz trombudo água na boca:
            - Mmmm!...
            Depois do imenso açaizal havia um gabioto de costaneiras perto do caminho. Precária habitação toda rachada em péssimo estado escorada de um lado. A palhoça dava muita dó e dor de cabeça e bichos que andam pelas frestas frinchas e arestas. A casinha teimava em não desmoronar de hoje para amanhã. No pátio dessa oca tosca tinha um guaipequinha sentado, e olhando mais com suas orelhas indomáveis o movimento da rua poeirenta. Olhando muito atento, e sentado no chão, olhando os passageiros da estrada de terra batida. O profeta se lembrou da anta. O dia morno. O poeta disse logo:
            - Tenho aquela, você já sabe comadre, de ter medo de cachorro; e tenho a mania outra, junto e parelha paralela, de gostar de cães. E digo o porquê.
             A anta ergueu as orelhas em parabólicas, bateu a cauda curta no ar e resmungou farejando grunhindo bufando para frente:
            - Mmmm!...
            O pateta e a anta passaram cumprimentando, com um leve entortar de cabeça. O tal jaguarinha balançou a cauda e pendeu a cabeça. O profeta olhou para trás, olhou a anta que ele puxava pela rédea, a anta olhava o chão que pisava. Aí nesse instante a anta olhou o poeta e este olhou o guaipeca. O cusco olhava as próprias mãos e as cheirava e as lambia e as testava e as admirava.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um novo dia com sol na proa na proa subindo sem sustos por entre os ramos do marmeleiro-branco.
            O Tinhorão pensou e a anta conjeturou. O poeta olhou um jatobá frondoso e sugeriu:
            - Antes de mais nada vamos repousar naquela sombra. Acha melhor? Eu também acho. Podemos conversar em calma. Jogar um carteado. Até mesmo descansar o suficiente até esta lua se repartir em quatro. E digo o porquê.
            A tapiira olhou o sol, o sol a flechar as meninas dos olhos, e disse na sua língua grossa das antas ruminantes apreciadoras da capitiçoba:
            - Mmmm!...
            Foram para a sombra da ingarana. O jambeiro-do-mato não falou nada, mas respirava por mil folhas verdes. Já o pau-de-cachimbo olhou do alto do seu imenso tamanho vinte metros os dois viajantes. O tacacazeiro muxoxou do patamar das nuvens e cruzou os braços. E o dia passou rápido com as horas no especial arqueado aéreo percurso.
            Anoiteceu. Amanheceu. Um dia outro dia embora de astro ocluso e luz oclusa.
            Aqui os suspenses os enigmas as charadas os ocultismos os labirintos. O deserto com a cruz de malta a cruz oriental a cruz patriarcal a cruz de caravaca e para todos os confins. Onde pifou restou São Nicolau cruz missioneira da Redução de São Nicolau - entre uma e outra houve ciclone e incêndio.
            Anoiteceu. Amanheceu. E o dia com seus pertences fechado repleto de ondas de terra vermelha, no más.
            O poeta puxava a anta pela corda. A anta seguia, sem memória sem dúvida, puxada pelo profeta. E o pateta vaticinou:
            - Este calor e esta ausência de água escassez de comida nem uma cor verde sequer para remédio. Nada, nenhuma gota de água, pedaço de pão. E digo o porquê.
            E a tapir pareceu concordar, ou não, e balbuciar. A anta revirou os olhos pelo lugar, rodeada de pedras e pedregulhos, ondas de pó vermelho, capoeirão esturricado, mugiu finalmente desanimada:
            - Mmmm!...
            Anoiteceu. Amanheceu. Uma luz pesada atrasada de nuvens de carvão.
            Tinhorão e anta entraram na aldeia de Santa Luzia com os moleques em estado de choque choque. E os tais culepes pareciam mesmo odiar seres e coisas. Ou odiavam estrangeiros, viajantes, políticos, mascates, vendedores, bichos, surpresas do outro mundo. O Tinhorão, alisando o escapulário, falou pra companheira anta:
            - Minha principal mania é a de ter pavor de cachorro; e a mania também primeira de entender de cães. E digo o porquê.
            A anta depois de tossir o pó da estrada, bater os pés na brita, tentar abanar o suor das axilas, devolveu em outro tom e linguajar:
            - Mmmm!...
            A aldeia de Santa Luzia era nada e tudo a maldizer. Uns tijupás de pau-a-pique e cobertos de sapê. Uma rua de poeira vermelha dividindo o burguinho em dois palheiros secos e carcomidos. Frequentada de aldeões e de aldeãs ariscos, pixotes cheiradores de cola de sapateiro; povinho todo tísico. Pontilhada na sua paisagem de tucurus engraçados abandonados espedaçados. Capoeirão seco. Não chovia há trezentos mil anos. Um saci ou outro redemoinhando na poeira da encascalhada rua Única.
            Enquanto o Tinhorão se dirigia à ex-padaria para tentar ver se conseguia um pedaço de acarajé, a anta ficou ali na pracinha das ex-paineiras conversando com os pivetes. E negociando a cabeça do companheiro de viagem. Detalhe: outros arteiros já seguiam nos calcanhares do Tinhorão.
            Quando o Tinhorão voltou, sem água mineral, sem pão caseiro fatiado, sem um naco de mortadela mato-grossense, sem um feixinho de capim-dos-pampas sequer, a anta e os piás todos da vila já estavam acertados no negócio que envolvia milhares de patacas centenas de patacões e cruzeiros.
            Tinhorão chegou ali de volta no terreiro da pracinha das ex-manjeronas-do-campo. E viu a anta e os pixotes fixarem-no de um jeito estranho e medonho e trapaceiro. Pareciam pais e parentes e partidários de políticos em dia de votação, em dia de eleição, em dia de sufrágio universal. Aí o Tinhorão estranhou tudo na infausta desventura e perguntou:
            - Que que foi que estão me olhando com essas caras de... de graxains mortos de fome? E digo o porquê.
            A anta mostrou uns dentes de gado selvagem em dia de ex-feira agropecuária, deu um mugido bovino característico, mmmu!... e revelou, bateu os pés no chão, declamou, comunicou traduzido a quem interessar possa:
            - Mmmm!... Hoje é sábado de aleluia...
            - E o queco?! E digo um porquê - respondeu brabo o Tinhorão.
            - Mmmm!... E eu o vendi debaixo de alta proposta de dobrões e cruzados novos para estes culepes raquíticos.
            A anta ficou olhando sem remorso para o fim ou início da explicação. E os pixotes todos, então, pegaram da pessoa do Tinhorão e o penduraram ali no primeiro galho da ex-catingueira, galho seco mais baixo e mais forte. Penduraram-no pelos pés, de cabeça para baixo, de pernas para o ar, ao contrário oposto do mundo. Depois, com desordem com força com desdém, e como sempre sabiam, os diabinhos começaram a malhar o judas.
            E o mundo com tudo mais ficou atrapalhadíssimo para as contas as costas do judas. Tudo tudo de pernas para o ar, e em desacordo com o ponto de vista qualquer ponto de vista.
            Com a imagem dessa cena perigosa, a anta tratou de sair de fininho e sorrateira e pela direita. Foi caiu na tiguera. Nem pensou em esperar pelo pior. Nem pensou em esperar os patacões e mil-réis. Tratou de não se fazer ouvida ou entendida nem nada e se mandou da vila. Pegou o caminho da roça extinta. Sabia que os aldeões e as aldeãs não a poupariam.
            Assim, a anta já estava um pouco adiantada e andando. Pegou a estrada do empanado ausente sol tombante. E já eram umas cinco horas da tardezinha. Logo a luz escassearia apagaria e seria melhor para ela continuar a fuga a fuga.
            Enxergando no escuro passando das vinte e trinta e a anta já estava longinho quase sossegada sozinha. Já imaginava com a fuga fugida e a garantia de outros dias e dias. Ia decidida e sumindo na escuridão empoeirada. Noite calorenta e suja de terra vermelha.
            Aí na descida de um morrinho a anta saiu da estrada e foi descansar ali no meio de uma capoeira ressequida espinhenta. E deitou no chão de areia. Contava se safar. Contava ter passado pelo pior. Até resmungou para si mesma, meio ressabiada da proeza:
            - Mmmm...
            E tentou dormir. Quando fechou os olhos de olhar na noite para tentar um sono... ouviu ruído de pé ante pé e de graveto estalado se esgueirando. Ergueu a cabeça e não viu sombra de nada. Umas figuras de pedra se passando por bichos empalhados.
            Ficou atenta uma meia hora e tantinho. Nem viu nascer a lua. Nem tinha lua, tudo atrapalhado pelas nuvens de poeira vermelha. Quem sabe uma martinta-pereira um caapora um anhangá. Uns fantasmas secos lerdos silenciosos deslizantes.
            Mais outro tanto e já se posicionava para recostar a cabeça num toco de embiruçu quando... ouviu, sique! sique!... de passos sutis ali bem por perto dela no cisco da sombra. Se incomodou e levantou a cabeça. Se preocupou e até se arrepiou no pelo grosso. Olhou para cá e para lá e para acolá... Não viu nada no chão nem cheiro no ar. A lua era só uma sombra. O vento mal e mal insistia com as nuvens pesadas de pó. Bafo de forja fornalha apagada.
            A anta pensou uma coisa. A anta suava emagrecida e já só os ossos. A anta pensou umas coisas tipo: eu posso aproveitar a noite para caminhar! Amanhã, durante o dia, o calor vai estar de matar e vou me derreter sufocada! Eu posso isso?
A quadrúpede chegou a resmungar mugir desabafar confidenciar:
            - Mmmm...
            Então a anta se ergueu decidida resolvida dentro da proposta de continuar a fuga. Caminhou com o nariz apontando a estrada e os olhos constantemente puxados para os lados e para trás. Noite mais ou menos fechada complicada areia na cara. Não descobria ninguém e não ouvia nada. Um silêncio terroso. E o deserto era sem fim. E o vento soprava ondas de fuligem. E as ex-árvores eram tenebrosos esqueletos.
            Numa certa altura, quando já calculava quarenta quilômetros além da vila de Santa Luzia, a ruminante chegou numa subida e parou para olhar melhor. Olhou a lua escondida na poeira. Uma escuridão pegajosa sem lua sem estrelas sem planetas. E a anta olhou de olhos noturnos para trás e teve certeza que não era seguida. Continuou a fuga fugitiva.
            Mais adiante parou para descansar junto a um tronco de ex-espinho-de-maricá petrificado. Resolveu parar e adquirir um fôlego. Estava com a língua grossa toda fora da boca os olhos entupidos de cinzas.
            - Mmmm...
            Se recostou no tronco seco e pensou na longa e destilada jornada. Era pouco para pensar e fechou os olhos grandes e secos e luminosos. Pensou um pouco do pouco que tinha para pensar. Esperou adormecer e... ergueu a cabeça. Imaginou ter ouvido um ruído vindo daquele lado ali. Tentou visualizar... Não, não havia nada. De certo era o medo. Mas ela tinha horror a lobisomem. Resmungou:
            - Mmmm.
            E tentou esquecer. E tentou cochilar pelo menos meia hora. Encostou a cabeça no tronco preto queimado do ex-uirari. Fechou os olhos. Cochilou. Sonhou que era uma ave tesourinha toda alada e sabia voar acima do deserto e fugia para um lago grande e rodeado de verdes ou o mar como um peixe piruá um xaréu. Sonhou um sonho que dava ar e mar. Um sonho em que fugia voando nadando por cima de tudo e encontrava um lugar povoado de muitas aves, peixes, águas, verdes. Sonhou que fugia alto, voando debaixo de uma chuva de verão, e que mais tarde aterrissava num lago cheio de enseadas e restingas e aves gargalhando. Sonhou que voava em paz sobre um lugar de vales verdes e povoados... quando ouviu um ruído qualquer e acordou acordou...
...despertou e alçou a cabeça de duas orelhas atônitas. Acendeu os olhos. Mugiu para si mesma:
            - Mmmm...
            Olhou para todos os lados e não viu nada. Pensou preocupada: será que sonhei também isso? Será que sonhei que alguém se aproxima? Será que alguém está me espreitando? Que alguém está de sacanagem? E confessou ruminante:
            - Mmmm.
            Sem mais pensar bobagem nem nada a anta resolveu continuar a fuga. E se mandou outra vez pela estrada ressequida. Com sede, principalmente. A lua ainda não nadava lá no alto no meio de nuvens de poeira. O vento amontoava dunas pelos cantos. O vento ignorava as pedras os tocos os montes de ferro velho carcaças de carros retorcidas.
            A anta ainda caminhou um bocado. Uma hora e meia. E subiu um morrinho de nada. Estava sem fôlego. Parou na subidinha e olhou para trás. A vila de Santa Luzia está bem para trás, pensou. Procurou ouvir... e não ouviu nada. Espalhou os olhos acesos e nem viu nada. A vila está bem para trás, reforçou o pensamento. Bufou com certa voz pesada embargada desabrida:
            - Mmmm!
            Continuou subindo o morrinho e chegou ao topo da colina. Caminhava devagar, mil vezes devagar. Olhou e viu, surpresa, umas casinhas logo ali no meio do deserto, ainda perdidas na noite, umas casinhas poucas e pequenas e quebradas. Se decidiu e balançou a cauda curta. E a anta foi andando toda pensativa para o arraial. Quem sabe encontraria gente que a adotasse e a socorresse?
            - Mmmm!
            A anta entrou na vila pela única rua que padecia ali. Foi procurando encontrar alguém... olhando todos os casebres... A anta estava cansada e com atraso de dormir, comer um pasto que podia até ser pasto seco, beber muita água gelada.
            No meio da única rua da vilinha a anta parou. Olhos remelentos, coberta de poeira marrom. Havia reconhecido a rua e a vila... Os aldeões e as aldeãs olhos atônitos vieram de todos os lados para grunhi-la rinchá-la zurrá-la agarrá-la. E na vila Santa Luzia a anta estava de volta. Estava de volta por quê? Estava com quê?
            Assim, os vilões e as vilãs e as vilãzinhas pegaram a cauda da anta e a fizeram rodar e girar e cirandar. A anta rodou por conta dos vilões e das vilãs e dos vilõezinhos.
Depois, os cramulhões agarraram a anta pelas orelhas curtas e a fizeram baixar a cabeça até o chão. E a anta ajoelhou debruçou lambeu a poeira vermelha. Os mesmos vilões e vilãs subiram um por um, dois por dois, e até três por três no lombo da anta. E a anta virou táxi peluda de quatro patas. O carro de praça buzinou cornetas flautas e trombetas. Uns cramulhões e umas cramulhonas tentaram tirar leite da anta. A anta não tinha leite nem fora mãe para ter leite nem teria a chance de ser mãe para vir a ter leite.
            Então, ali pela hora da manhã, na primeira hora da manhã cheia de poeira tapando a luz do sol, os aldeões e as aldeãs já tinham loteado toda a tapir. Cada família já sabia a parte da anta que lhe cabia em partilha merecida merecida.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Escuto e Obedeço

            




            Amanhecia em Mato Castelhano e o ir e vir dos pássaros. Nuvens altas soltas higienizadas. Um e outro automóvel exibido do ano. Uma ou outro dono de cachorro puxado passeando na calçada. O sol quente já de início anunciando mormaço durante o período. E as abelhas-mulatas os agaús os bate-bicos os araçaris as saracuras-do-brejo... As árvores já tinham consciência que o dia correria quente e seco. Um bando de periquitos-verdes revoluteou rápido estridente.
- Gostaria de ter a faca e o queijo em as minhas mãos as minhas mãos.
E Pocema tomava o café da manhã sossegada. O dia claro ridente era bom com isso. Os mínimos e vantajosos detalhes examinados reconsiderados. Olhava pela janela lá fora uma gameleira-branca. A atmosfera cristalina era boa por isso mesmo. O sol resolveu trilhar a estrada repetida já sabida e decorada de ponta a ponta, etc. A árvore devia ter o quê?, uns 20 anos.
            - Aí teria uma sorte de sonho, viveria emoções sadias, acreditaria que estou aqui para plantar árvores e não simplesmente para assistir libar distrair.
            Logo de início se percebeu e se amou a jovem de grande beleza e suprimentos. De fala lenta e segura. Traduzia três línguas idiomas bolsa capanga a tiracolo e sempre com as mãos nos quadris. Não olhava para ninguém. Morava habitava um apartamento orçado em 3 e meio milhões de reais. O teto colorido desenhado pintado e as paredes com quadros caros artísticos. Ricos móveis em saboeiro e manacá-açu beneficiados nas fábricas de Piancó.
            Quando as estrelas chegaram para a noite clara, nas margens do rio da Prata, quando as estrelas mais a lua chegaram para a noite tranquila, Pocema se encontrava outra vez na varanda. A noite opípara. A noite serelepe. A noite elementar.
- Mas no fundo entendo muito bem que tudo não passa de ilusão e fantasia.
Um rio nasce espontâneo e assim por diante. E é uma certeza como outra qualquer. Pois, quem não é rio, quem?
- Até mesmo a minha mentira é preguiça-gingante megatéria.
Hoje em dia e ultimamente mês de maio de 2011, as coisas andavam assim a guria Pocema uma excelente pessoa amável ser humano.
E eu conto uma história um conto uma crônica uma narrativa um causo, um fragmento um trecho.
Pocema sonhou a mãe do ouro visões indolentes ali largada no sofá lilás que pegava todo um lado da parede preso ao pescoço um quadrado mágico de nove casas almofadas com inscrições desenhos de bichos.
Sim porque os quintais de Olinda parecem 3 ou 4 vezes mais. Árvores frondosas de verdes azuis trilos de saíras-de-papo-preto se estendem até o rio Paraíba.
- Por que prefiro sempre a minha estrela mais impertinente, alucinante, psicodélica?
A primeira cidade dos 7 povos das Missões da companhia de Jesus dos padres espanhóis, redução que abrigou a nação guarani e o lar de Sepé Tiaraju, foi São Borja - hoje e como sempre São Francisco de Borja.
Uma vez para sempre uma abelha das jataís-amarelas resolveu ir até o soberano imperador e carregando a tiracolo com um presente. A oferta um jogo lúdico para distrair o monarca e se mandou sozinha. Reza a tradição e a lenda. Voo ante voo foi cruzando a nação de oeste para leste como se fosse procurar a fonte do sol do ouro. A distância essa aí era voar enorme. No caminho parou para aperfeiçoar o jogo ensaiando jogadas com quem encontrasse formigas besouros lacraias tatuíras. Os dias competiam com os dias para ver qual o mais longo o mais longe. Se virou sem dinheiro no bolso aprendendo ofícios novos costureira diagramadora articulista de revista de modas presidenta de escola de samba revendedora de perfumes de porta em porta repositora de mercado. A Vila Rica de Albuquerque e se alimentava pousando de flor em flor. Peregrinou pela região dos aborígenes cauaíbe. Atravessou o território conhecendo serras vales rios morro do Cruzeiro em Ouro Preto pois era para lá que morava o soberano mandatário. Abelha jataí estonteante beleza andou voando mais de 9m8c7d6u quilômetros em linha reta. Num lugar Santa Maria da Boca do Monte foi bem recebida e noutro escorraçada nem tanto. Em um vilarejo Vila de São Paulo de Piratininga permitiram que comesse da flor da alfazema-brava em outro arraial isso mesmo nem pensar. Procurava descansar sempre pousando numa flor de sua preferência de sabor de cor. Nunca teve dinheiro mil-réis de sobra para comprar uma passagem de carroça ou de lombo de burro ou de trem ou de gaiola por isso ia como podia voando de voo em voo. Uma viagem de 800 dias 3 horas por dia. A jati estranha abelha sem importância fazia um mel suave e de aroma. Os dias de chuva procurava se esconder atrás de uma folha larga de lomba-verde. Namorou por que não! namorou um índio assurini-do-xingu na batalha de Caiboaté. Quando caía a noite abelha-ouro olhava as estrelas lembrava da promessa de entregar o jogo ao renomado líder do povo e dormia satisfeita satisfeita. Uma aventura como um mito contado e escrito por mil penas de poetas inspirados. Teve sorte escapou de arapucas laços e alçapões. Saiu natural da cidade de Cachoeiras de Macacu longe da capital e caminhou voando durante meses primaveras e verões. Contando sempre com a mundialmente repleta ciência das grandezas formas números medidas funções movimentos e forças. Sete-portas era uma abelha comum da colônia e por isso anônima. Cruzando o litoral se aproximando para voo completo viu entre as ondas sombras de cardumes de cangulos e manjubas e sardinhas. Bateu na vidraça do palácio imperial no largo do Batata e ficou aguardando uma oportunidade para audiência audiência. No segundo império o PL era progressista e o PC era dos regressistas. Em frente à praça da igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos vendeu breves bentinhos escapulários patuás. Foi depois do carnaval, um dia o monarca magnânimo majestoso estava num bom dia e resolveu recebê-la atendê-la. Em poucos dias a abelha três-portas explicou como se jogava o interessante e instrutivo jogo e assim colaborou para distrair as horas de folga de tédio do poderoso grande chefe do país de pindorama. E o feito e o dito ficou registrado permanente nas asas das borboletas-oitenta-e-oito beija-flores-tesoura-verdes lavadeiras caturritas jacapás e demais alados do grande vale do rio Jatapu.
- Essa guia nunca descerá até aqui no meu mundo o mundo.
A Pocema, também mãe do ouro, nasceu no fim do dia na tarde o último esplendor do sol. Deslumbrante e feiticeira e prestidigitadora. Sabia como encontrar estontear um amante enamorado. Sabia como separar o ouro do sol. Sabia como atrair o incauto para a febre do ouro. Sabia como se fazer de difícil. Sabia como proceder para parecer encantada. Sabia se proteger na tarde que caía.
            - Vou pensar agora o que farei amanhã. Espero lhe ver. Espero lhe dizer. Espero amém.
            Por trás das timbaúbas camaradinhas folhas-de-padre por baixo do capim-gengibre por cima das pedras roladas patos-mergulhões sempre com pepitar de anuns corre um fiapo de água e que lá na frente rio Gurjaú sempre faz esta uma cachoeira Casca d’Anta.
            A manhã aconteceu e veio de muito longe. Também doce. Tão boa como a cidade de Conceição do Mato Dentro. Correria moderada dos ventos. Eis aí, para atender, o sol em verão! Tão amigável como a impagável Igarassu a inimaginável Rosário do Sul. Mágica que somente acontece.
- Ficarei olhando sem querer pra você como se olha aquela fria estrela na noite friinha.
A Cajazeiras do Piauí está de frente pro rio Ximbocu. Conhece? O presidente encontra entra no palácio do Planalto procura com o pé direito. A rua ministro Marcos Freire e a praça 12 de Março já foram desobstruídas e entregues ao tráfego. Entende? As andorinhas turistas falam nordestinês. Que sugere por sorte a praia de São José a cidade de Crato o município de Cachoeiro do Itapemirim.
- Você passará por mim e eclodirá o sol no meu do meu dia.
A respeitada praia Pedra do Xaréu, areia branca e dunas cônicas originais, águas claras mornas pouco profundas com média intensidade de ondas, espraiado de piscinas longas dadas oferecidas desde os pré-cabralinos andira autóctones, coqueiros e vestígios de vegetação da mata atlântica, serviu antigamente como porto seguro para o desembarque de escravos, possui vista panorâmica da enseada de Suape e ilhas Tatuoca e Cocaia, entrada protegida por barreira natural de arrecifes de arenitos, terminam abastecem as águas do rio Massangana, desfila asfaltada a avenida Tuyuty e deslumbra a cidade edificada progressista procurada de Lavras do Sul.
- Ficarei atendendo no escritório por lá me acabando como uma palerma uma pamonha.
Um ano e quatro meses Pocema veio de tão longe cidade Três Fronteiras serra do Cervo pegou um barco desceu o rio Nhundiaquara até esse ponto bem rente à praça General Osório. O tríplex em vidros fumê com vista panorâmica circular privilegiada sobranceira.
- Saciada das migalhas que você me ofertou de sobra e de sobejo.
A guria colheu passarinhos de voar sobre o mar, palmeira macaíba palmeira acuri palmeira carnaúba, de banho tomado era assim que pretendia sonhar.
Passava por nós de passo normal e nem sentia penso eu a menor curiosidade um olhar sequer e conferir o que se passava em redor.
As procissões do tempo recolhendo catando colhendo nomes de rios de cidades de lugares, pico do Itapeva, rio Couto Magalhães, Barreiros, Tamandaré, Iraí e enquanto isso São Luiz Gonzaga nasceu de São Luiz Gonzaga.
- Você tem a sorte o tempo o espaço todo pela frente e eu nem sei.
E maior surpresa ainda do museu Antônio Francisco Lisboa o Aleijadinho na igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias em Ouro Preto nas Minas Gerais. E são os passos os oratórios as capelas as igrejas as pontes os chafarizes. A capela na ponte na vila no colégio no presídio no convento no quartel no hospital no hotel na fazenda na igreja.
- Eu tenho uma estrada cada dia mais estreita para o interior da caatinga o sertão.
A mãe do ouro trocou sempre um favor com uma cobrança. Pocema sabia negociar o que quer que fosse com a ganância ou o egotismo das pessoas. Era uma cobrança justa. Era uma maneira de dar com uma mão e retirar com a outra. Uma loteria aqui um prêmio ali noite de Coromandel manhã de Anápolis tarde de Pedro Cardoso. Um desconto um jogo perigoso e para o apostador chegava a ser um suicídio suicídio.
            - Já sei o que você está pensando nesta hora, bem.
            O morcego Marumbi mais seus familiares centenas ou milhares saiu da gruta na serra de Ouro Fino e caçou e comeu 80 insetos dos variados noturnos. Ele mais seus colegas voadores brincalhões sobrevoavam a praça do Carmo em Olinda lua prestigiosa no alto e caçavam comiam uns 20 mil pequenos bichinhos variados. O verão em Ponta de Pedras o morcego chegou a consumir um prato de 5 mil mariposas da mesma espécie. Durante a vida toda e útil da colônia mais de 800 mil insetos eram tirados de circulação em Vicente Dutra e Condado e Bezerros e Mundo Novo por exemplo. Somente em Brás Pires o morcego Marumbi triturou nos seus 7 janeiros mais de 3 mil desprezíveis voadores impertinentes zumbidores. Sem contar que toda a coletividade aumentava exponencialmente com seus filhos netos bisnetos um sem cálculo de tantos indivíduos familiares com ramificações desde a localidade de Coivaras até Cataguases. O morcego esse Marumbi teve uns 80 filhotes com 200 fêmeas algumas de Catende outras de Itapicuru a mais maioria de Cabeceiras em torno da cachoeira do Itiquira e então já uma pequena parcela de culpa nessa nuvem de engolidores de mosquitos incidentais nocivos notívagos.
- Você prepara outro golpe fulminante fulminante para me conquistar derrubar.
O turista a rua Brigadeiro Jordão 100% cem por cento presente. E vamos e viemos que a cidade de Barra do Piraí sem nem alterar é fera. Nunca tem pressa. E quando pode ir a Teixeira e a Casimiro de Abreu no mesmo dia e achar que os lugares se parecem e são os mesmos muito semelhantes mas não é assim.
- Você só quer a conquista e usa essas poderosas armas que D lhe outorgou, os olhos, os cabelos ondulados, as mãos quentes, a língua melíflua, etc.
Tinha chuva tinha reserva marimã tinha rio Camanducaia tinham aguapés tinham lírios-verdes tinha sapo-gameleiro tinham caititus fuçando os tacurus tinha virá tinha zorrilho tinham mandaçaias tinha sítio arqueológico Bisnau tinha sensitiva tinha capim-pé-de-galinha tinha cipó-cravo tinha um poleiro no pé da pindaíba-vermelha com o furriel batendo as asas no peito como chefe caudilho político.
- Alguém quer abio? Que idade tem o Monte Pascoal dos pataxó?
Nasceu em São José da Coroa Grande trabalha hoje em dia pros lados de São Roque de Minas, primeiro e único atual namorado original de Caçapava, comprou num fechado condomínio pra sempre em Sítio do Mato fez as últimas férias de verão em Ocara junto ao rio Choró mas perguntada onde gostaria de passar seus últimos momentos na terra o lugar escolhido e decorado e sorteado seria a praia de Gaibu em Herval.
- Nem precisa ser pajé ou herói ou mártir ou natural de Nova Trento ou índio coropó para me cativar.
Pois a mãe do ouro esperava aparecer para certa pessoa escolhida a dedo. De tantos que a procuravam Pocema escolheu um felizardo. Então ela apareceu de supetão para esse sorteado do destino. Junto do mato no capão das guaximas à beira da lagoa Feia no distrito de Saicã. O indivíduo escolhido passando por ali distraído ou preocupado ou interessado em alguma coisa e... sem aviso de repente ela se posiciona na frente. No final da tarde, geralmente. E toda iluminada em resplendores magníficos fantásticos de cores irisadas. Como uma estrela das mais navegáveis astronômicas.
- Basta chamar minha atenção me olhar.
O rasto de avião cruzando sem dúvida o alto azul lá alto universal. Demorava no céu interminável. Os h as m as c ficaram contemplando a partir de São Jerônimo da rua Marechal Floriano Peixoto. E nem acreditavam no que viam. A claridade do céu aberto apertando os olhos. E depois continuaram olhando o céu maior.
- Você é mais apelativo que Peri. Eh, má!
Ela desceu os degraus da piscina e ficou com a água até a cintura. Uma água limpa e azulejada. E agora, meu?, pensou de braços erguidos em estátua sagrada indiana. Em geral as pessoas nem sabem como começar. Depois olham pros lados para trás para frente vê se tem alguém. Mas em geral todo bicho já nasce sabendo nadar.
            - Fiz um pacto com o Senhor dos exércitos dos mares dos céus da serra do Pau-d’Arco.
            Outro dia o rio Piracuama invadiu a calçada da ladeira de São Francisco em Olinda. Muitas açucenas-do-mato falaram que aquela era uma baita de uma ressaca. Mas como é que pôde? Um pequeno bando de suias afastaram debandaram precavidas. E logo veio o sol. Entre dentro os quintais guapuruvu, timbó-do-campo, flores-de-couro e arapongas, xexéus, sabiá-gongá. Dia depois a chuva grossa com furacão extratropical. Um barco de pesca entrando no porto passou sufoco por pouco antes de desabar a tempestade a procela.
- Não sei se D toparia, Ele não fala comigo assim diretamente: troco meu reino por uma aventura contigo.
A Pocema se pegou contando as árvores da praça João Lisboa. Depois os carros estacionados. E os misteriosos casais namorados que não chegavam nunca sempre atrasados. Os degraus da igreja Nossa Senhora do Rosário em Ouro Preto sentando para descansar no meio da escadaria e olhar ao derredor. Uma cruz latina alcançando seus braços de madeira magnólia-do-mato lavrada. Produto quociente resto, e somando tudo.
            - Agora estou preparada e mais do que vaticinada.
            Ela tinha tempo de pensar geralmente pela manhã até 10h a partir então daí os preparativos do almoço. Uma ou outra nuvem com vela enfunada aparecendo velha nau ou caravela. Ontem ela estava jardineira na abertura do oitavo andar. O guincho do gavião-carrapateiro. Boa parte da rua Miguel Burnier no bairro do Caverá. A copada das araratucupi.
- Só aguardo desassossegada pelas férias o verão o voo para Água Limpa.
Pocema aos domingos pela manhã e o parque natural municipal do Tabuleiro. O sol é com ela. Cidade comportada. A rua de bermuda curta curta. Tudo morno ensolarado calmo preguiçoso devagar, e atentos atenciosos. Dia e horas profundamente iluminado. É uma cidade Rio Formoso que sempre fez parte da bacia do rio Guarita hidrográfica. E tudo que conseguiu aprender e guardar da escola arredores e até hoje aquele dia. Pedalando na marcha usual bicicleta com adesivo da bandeira. Perfumes no ar especialmente as flores da erva-cidreira-do-mato.
- Se você me olhar bastará tudo e meu cérebro se acenderá e terei sucesso.
Olhou o dia quieto que descia com o sol. Sentiu vontade de viajar largada tipo Arcoverde tipo Catas Altas tipo Formosa tipo Santo Ângelo que nasceu de Santo Ângelo Custódio. Sentiu saudade de viajar largada emboralá!, navegar rio Ipojuca visitar forte Castelo do Mar conhecer parque Pedra do Segredo. A ladeira da Sé, Olinda, os plenos quintais de cedros-batatas, japecangas, beques, guacos e rua das Mercês, Ouro Preto, os grandes quintais de tibunas e preguiça-de-coleira e porutis e codornas-mineiras. Nem sabia mais o que fazer o que veio fazer que horas eram.
- Só há um jeito e esse jeito é o nosso jeito.
A noite com alguns planetas saltando como pipocas afundando espiralada a galáxia. E assim falou crendice:
- Pois ainda penso que tenho o sinal de ter a minha estrela na minha testa na minha mão tão alta.