quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Quem Diria




            Sobre todos, embora, o tempo pode fazer tudo o que bem entender.
            Há quantos anos... se perde. Por este tempo, aquele tempo, tempo sempre prometendo voltar presente no dia seguinte.
            De hoje para amanhã feito ontem.
            O dia se esboçava o dia já estava alaranjado. Algazarras, borboletas supercoloridas, passarinhos imortais, timburis farfalhantes, ar rarefeito, gorjeios domingueiros, quadrantes invisíveis indiferentes dominantes.
            Mormaço e poeira elevada ou resignada e fumaça espichada alargada espalhada sobre tudo, o asfalto (de derreter cocos e fritar ovos), a cidade de Itaguaí, o bairro Pavuna, a praça Araréua - onde mora em pé de corpo inteiro sólido a estátua de Olavo Bilac -, o centro labirinto da cidade, a avenida Carlos Augusto Ferreira, duas parentes tatuas, horas minutos 9 com 9 ou 9 mais 9, do outro lado o supermercado Pixororé, etc.
            As tatuas em dupla, quase desassossegadas, hábitos diurnos e noturnos, confirmadas, aguardavam o melhor momento de atravessar para a calçada oposta em frente a avenida que tinha um trânsito alucinado alucinante pesado poluído metálico e todos os dias nos dois sentidos.
            Tá e Tua eram duas tatuas tatuaívas amigas primas parceiras sempre juntas e confidentes falavam o tempo todo dos namorados maridos ficantes idade e sucessão presidencial almargeal da beira do rio Trapicheiros jogos olímpicos carnaval de Parintins praia favorita teatro Guarany parque Barigui lojas do shopping oceanário de Santos e outros assuntos.
            Tatua Tá um olhar raposíssima perigosa revolucionária quase sempre e manifestou:
            - Eu tenho repulsa e pena.
            - Mas isso é meio contraditório, meio caminho andado! - diz a outra, Tua, um olhar gatíssima convicta graciosa.
            - Só eu sei. É assim que sinto. As duas coisas ao mesmo tempo e na contramão. Que que posso fazer?, não sei não sei.
            - Não vejo o jaborandi-do-mato crescer, embora sem dúvida que cresce aparece e floresce e frutifica.
            Arregalavam os olhos marrons para cima e para baixo na rua e nada do trânsito dar uma trégua uma linha um tempo uma folga uma vaza uma chance. As duas mamíferas e focadas e advogadas e planificadas e competitivas.
            - Eu só procuro e acho o que não tenho, e aquilo que tenho não procuro e nem quero mais - Tua, a identificada.
            - Então, falando sério!, vou entrar com moção na próxima assembleia, etc. - Tá, a identificada.
            Íncolas andorinhas em voos arabescos tarde de trissos piruetas cambalhotas. E plasplás de folhas de caaingás, frufrus de ramos de pixiricas, trestrês de palmas de indaiás-do-campo, ren-rens de leques de caranaís-do-mato...
            Restavam as duas ali junto ao meio-fio aguardando o melhor momento para atravessar, que era difícil se arriscar, que os carros não deixavam. Esperavam ali olhando chuleando os autos que não paravam de passar. Nuvens consertando restaurando fumaças. Era um tempo precioso, dava até uma inquietação. Prédios antigos tombados, prédios em construção, prédios altos torreões espigões arranha-céus.
            - Vamos até a faixa de pedestres, é uma!
            - E não qué?!
            O tempo fica curto para as medidas de última hora. O tempo que abre a porta, que porta, que janela? e prefere para onde se atirar.
            Os tatus sempre andam com objetivo claro em mente em olfato: procurar o comer e o beber. E as tatuas também não abrem mão desse preceito. Procurar o pão de cada dia manducar bebericar e voltar para a toca descansar esperar o outro dia de noite se cuidar se esconder dos inimigos. De preferência no meio do capim-andrequicé misturados às secas folhas verdoengas ao lado perto de uma lavoura.
            Os tatus não se agregam em coletivos, mas em pares ou duplas ou casais. As tatuas também. Vão e vêm dentro de uma área circulam já memorizada propícia delimitada organizada particular.
            Juntas parecidas fantasistas esmalte e unha quando iam para o mesmo lugar buscavam as mesmas coisas, etc. No meio de dezembro ou janeiro tudo estava seco demais. E faltavam quantos anos, uns cinco depois quatro logo três e assim por diante...
            - Eu adoro ouvir a chuva - disse a Tá.
            - Eu já adoro o silêncio - foi a Tua.
            - Estava pensando em pegar um trem para Mar de Espanha, é.
            - Embora Três Rios seja fascinante na primavera e ou no verão.
            Tá e Tua já tiveram vários filhotes com vários tatus, tatuaparas, tatuapebas, tatuaçus... Dos tatus elas só souberam na hora h. Dos filhotes se separaram por consequências da idade e da independência natural, etc. Cada tatu com seu cuidado sua toca e seu habitat ecossistema universo.
            Não é sempre mas que acontece. Apegado ao rio Santa Maria, Cacequi, houve por bem uma explosão demográfica de tatus e de tatuas, belas tatuas-mulitas, belas tatuas-canastras, lindas tatuas-bolas e assim por diante.
            As tatuas melhores amigonas olharam o cebola uma da outra conferindo. Estava marcado para as 23h em ponto e atrasou uns vinte e cinco minutos por motivo de um imprevisto força maior. Aliás, oito vezes naquela mesma semana. As duas tatuas foram impedidas de entrar na horta, de cearem na rocinha da dona Urucurana-Roxa, de experimentar as mandiocas e amendoins e carás-de-folha-miúda e inhames-cigarras e abóboras, e por causa de quê? do fila fero cão de guarda.
            O tempo todo quase passam despercebidos a preguiça-de-três-dedos, o porco-do-mato, a formiga-carregadeira o tiã-tiã-preto a brujajara os jovens vão mais ligeiro mas os velhos sabem o atalho o narceja-de-bico-torto, juruviara, ibijaú, maitaca, sagui-amarelo a araçuiava o grimpeiro...
            Passa muito perto a questão do tempo. E diz respeito a todos todas. Confirmado: e pasta capim-açu muito verde o azul do tempo.
            O rumo da mata, passando uma sanga, até Pitimbu. Cidade pitoresca recreativa rodeada de montanhas morros parque Serra da Concórdia cachoeiras gado córregos turismo jacarandás-do-pará varudos rochas em forma de bicho doméstico ou selvagem comarca região vento nordeste tribo caxinauá cedros-cheirosos ruas ladeiras pousadas ingazeiros almas-de-gato tangarás camacilras aromas flutuantes desprendidos das tibuquinas naturais cavernas e locas com inscrições pré-históricas.
            Nem digo nada, mas as duas estavam por aí. Fora e além da capoeira ficava um gramado uma grama verde tenra e com um cupinzeiro de dar água na boca aos tatus em geral e às tatuas duas em particular. Pequenas favas-de-besouro em a vernação. O céu lá em cima.
            A Tua e a Tá estavam olhando para o cupinzeiro e mostrando as línguas, os narizes no ar, as orelhas vibrando espreitando, os pelos eletrizados dos afobados focinhos, os cascos enrugados, as caudas insofridas, as orelhas vermelhas. Mas não se arriscavam em pleno dia no limpo assim sem mais nem menos por causa dos predadores terrestres e aéreos ou camuflados ou até mimetizados.
            Tua, e falou:
            - Eu prefiro um fuçador que me dê folgança quase o ano inteiro e cem por cento de segurança principalmente aí por setembro outubro.
            - Digo mais. Um fuçador com tempo suficiente para me farejar.
            Os tatus e as tatuas ficam no verão e se separam no inverno. Preferem a noite, mas saem a qualquer hora. Isso é quase certo. Isso depende, não custa nada. Sabem quando vai chover ou esfriar. Reconhecem quanto há quando não há de fruta madura.
            O tempo leva nos ombros o peso colecionado dos séculos e séculos. O tempo não se engana nem uma ou duas vezes. O tempo não arrisca e joga em casa. O tempo nem é uma coisa ou duas. O rio Belém tem exemplo muito a ver com o tempo. Também o largo da Segunda-Feira.
            Uma hora aquele dia as duas melhores companheiras e amigas e comadres foram beber na sanga mais próxima, manancial do rio Piratinim, comarca de Barra Mansa.
            - De parte a parte.
            - Perfeitamente que claro, só que não.
            Nuvens procurando fumaças fazendo mudança. Nuvens com cara de caravela. Nuvens esgarçadas antes do almoço acepipes petiscos aperitivos. Nuvens acachapantes. Nuvens mutantes. Nuvens mascaradas disfarçadas de carnaval.
            Chegaram no lajedo e olharam em volta, sempre temendo a aventura, as idiotices do contingente. As águas cantantes, um limo por sobre as pedras, umas árvores descansando na sombra respirando o ar puro, icacoré-catinga cipó-caboclo cedro-cheiroso caxicaém, uxicuruá, andirapuampé, fruta-de-papagaio, tamaquari, jarana...
            Tá, e identificada:
            - Será que tem tatu por perto? Não estou cheirando muito bem. E você?
            Tua, e identificada:
            - Pelo menos deveria ter toca de tatupoiú. Olha só o barranco de terra apetitosa e úmida e fofa...
            As duas atentas e mais nada assuntos suspensos, atentas. O tempo de duração das coisas. Foram molhar o focinho, as garras, espairecer as novas ideias.
            Nada mais nada, nada vezes nada, nada a fazer. Uma chuva repentina repentina e muito apreciada. Choveu bem e choveu solto e sem bagunça.
            E no meio de outubro ou novembro os dias estavam nesse pé ante pé, pé por pé, um a um, pata por pata, quadrúpedes encouraçadas.
            Uma cidade chamada Protásio Alves bonita harmônica sinfônica filarmônica serrana vegetal igual como outras tantas 10 mil habitantes igrejas velhas ruas calmas paisagem de arvoredo e o rio da Prata. Sobre a visita o roteiro bucólico, a vista da cidade de Protásio Alves, tem altos e algares casas e galpões ruas e travessões cavernas e capelas relvas e terras desfeitas, assim como lá pra baixo se olha daqui de cima.
            E num canteiro de margaridões quaisquer as duas conterrâneas camaradas companheiras parelhas. Em uma noite fechada no jardim da praça Piracema. Morcegos buscando frutas doces da fruta-de-tatu, grilos-dos-canteiros pulando falsos-orós, caburé-de-orelha e panema encolhido no galho do molongó, fio de água por entre pedras seixos e curvas e declives. De repente Tá foi cheirando o ar, erguida nas patinhas de trás, mugiu:
            - Tô reconhecendo sentindo o perfume de tatu!
            Tua, e repercutiu:
            - Sim, pois não, eu conheço e reconheço e já o cheirei antes sem dúvida!
            - Então, quem é?
            - O tatuetê Sumaré.
            E logo sem demora sem drama viram realmente o tatu-galinha nome de batismo Sumaré, e farejando pelo jardim à cata de cupins formigas taturanas raízes e outros. Todo ali num canteiro próximo e preocupado com cavoucar o de-comer. Sorte que Sumaré (tuxaua, tutunqué) não viu Tá nem Tua. Viu nem viu ou fingiu. Elas não acharam nem foram conferir.
            - Não quero nem acasalar, hoje - Tá, espaventada.
            - Claro e concordo. Não é dia nem hora, veja - Tua, empoderada.
            - E vamos sumir antes de mais nada.
            - E vamos dar o pira saindo pelo lado oposto.
            Há um tempo a esta parte. Época, época mesmo, quase pra lá de indeterminada, remota. Os longos e puxados tempos, sem esquecer de nada, sem abrir mão de nada, sem deixar nada para quem quer que seja, sem negociar nada para depois agora ou ainda mais tarde. E assim desfaz o rio, que o resto é presente.  
            Quando foi ninguém ficou sabendo nem as duas irmãs escreveram anotaram. Uma manhã de agosto ou setembro. Tinha sol o ano inteiro. Um jaú-torino caprichava correndo de um guaipeca maduro na rua Gonzaga Duque Estrada, perto duzentos metros dali. Centenas milhares de moças-brancas buscavam os polens em a riqueza das timboúvas.
            E Tua e Tá acharam de atravessar o arroio Retiro, a nado. O rio, impensável primeiro, o rio coleante sinuoso de largura provável e força indeterminada. Também intransigentemente líquido. Comadre maria-irré. Para cima oitocentos metros tinha a ponte mista. Mais para baixo uns quinhentos metros tinha o reservatório para as pessoas urbanas de Pérola.
            - Vamos nessa?!
            - Eu ainda não sei nadar e nem me decidi.
            Ficaram olhando o rio e pensando cada coisa cada uma por si. O rio precioso perene perfeito bonito e a calhar. O rio todo o arroio procurando a laguna o mar e gravidade zero.
            Tua, lembrou:
            - Do outro lado tem uma roça de mangaritos muito pomposos e esperando.
            - O negócio é convencer o rio, o rio caudaloso, vitorioso, apartoso.
            Na beira do rio tinha monte assim de plantas bastava olhar bolsa-de-pastor, maria-preta, sururucujá, mentrasto-do-grande pitaica-da-terra-firme ibiranhirá uxirana, camaçari, tatucaá... por dentro do arroio operavam jacaré-de-papo-amarelo, traíra, timburé, bagre, acará-bererê... por sobrevoando o córrego adejavam gavião-caboclo aviões comerciais jatinhos exclusivos.
            - Que que tem de ponta a ponta desse rio Retiro? - Tua, a identificada.
            - Ocê não lembra me faz puxar pela memória? - Tá, a identificada.
            - Isso é freguesia de Manhuaçu.
            - Isso sim é paróquia de Caratinga.
            Pensaram um pouco as duas primas colegas de aula. Almoçaram azedinhas amarelas agridoces derretendo na boca e lacrimejando. O mundo é tão exótico! Elas falando entre elas, mais cheirando que olhando, mais olhando que pensando:
            - Na ponta de cima do começo da fonte tem uma cidade de alma nova chamada Guaporema. Mas é ainda longinho.
            - Na ponta de baixo da foz tem a cidade de Guabiruba, mas é um eito e tanto.
            E começou a chover de mansinho e peneirado e murmúrio. A terra ficaria bem fofa para abrir um buraco de tatu. Umas galerias uns corredores de labirinto organizado.
            Ninguém vai deixar o tempo achando que tudo é verdade. Tem tempo que apela para a posteridade. Tem tempo que escolhe o dia de hoje. Tem cada tempo que D nos livre e guarde! E cada tempo a sua fala o seu rio.
            Os tatus e as tatuas sempre foram cascas quentes costas grossas. Isso desde o tempo que só existiam gliptodontes e mar e praias e rochas bastantes. Blindados encouraçadas prontas para a guerra. Então assim, o passado das eras... do museu do Ingá, em Cantagalo, opúsculos manifestos artigos discursos. Mas ninguém sabe certo ou mesmo melhor, dizem, desmentem.
            São muitas coisas todas acontecendo e surgindo e sumindo ao mesmo tempo. Quando as coisas vêm e vão, como vão e vêm as coisas. O tempo tem outro tempo nas costas. O importante está que cada ser ou ente se sinta bem e os tatus e as tatuas também. Uma carapaça convexa um escudo uma cobertura rija de placas móveis.
            - Gosto de comer chocolate mas faço muito barulho - Tua, a identificada.
            - Indispensável e essencial - Tá, a identificada.
            É dito não dito, e isso nem é nada. Uns acontecidos usados no mundo quando tudo começa uma vez mais e etc. O mundo envolvido em teia espiral nebulosa campo afora.
            As duas tatuas quase sempre passavam voando correndo. Após, a não ser esperar e aguardar as histórias. Os rios sempre ligeiros. Os clangores dos autos na rua Martins Pena. As nuvens fazendo fumaça a partir do poente. No meio de julho ou agosto tudo estava ventando. Os rios correntes e deitados pra frente. Até porque já eram umas seis e meia. Então, tá!
            Tua e Tá estavam aí. E de súbito o tatu Uxipuçu cruzou a pequena área do gramadinho capim-gordo. Muito voltado para si mesmo, se diga de passagem. Compenetrado filosófico e ensimesmado. Sério correto e objetivo como um e duas são três.
            - Ei, Tá! Olhe que é o Uxipuçu!
            - Será que ele não nos viu ou fugiu?
            Tatu Uxipuçu passando aí no seu passo de tatu-mulita condicionado desde a tenra idade. E bem no focinho das duas beldades. Ele nem aí pra elas. E tatuagem na pata direita dianteira. Foi embora continuou seu caminho de tatuapé rumo do morro e pela Estrada da Graciosa.
            - Aonde que será ele vai com essa pose?
            - Aonde ele vai que nem te ligo?
            - Aonde ele vai se apinchando pra nosso delírio?
            - Aonde que vai, e sim senhor! se dirigindo?
            Atentaram ir atrás. E trotaram. Seguindo o cheiro o traço e as pegadas. Em que pese alguns golpes de vento frio, a hora estava pacífica e calma e propícia. O tempo a propósito. Era interessante notar que floresciam as ganha-saias as comandaíbas os jerivás os tauaris...
            - Vamos segui-lo sem assustá-lo?
            - Você puxa o rabo dele de vez em quando?
            - Não é rabo, é cauda.
            - Qualquer coisa serve.
            Pelo tanto, por aí à frente, o tatu Uxipuçu parou e olhou para trás, para as duas, o focinho erguido e manhosamente sujo de terra vermelha, grunhiu:
            - Que que parece que já vão me seguindo há séculos?!
            - Aonde tu vais, tatu Uxipuçu? Primeira pergunta.
            - Vou comer coquinhos ali no morro. Alguma dúvida? Querem ir junto ao mesmo tempo me acompanhando?
            - Você é de Governador Mangabeira, suponho?
            - Já conheço, mas sou mesmo natural e tal e qual de Laje do Muriaé. Conhecem, meus brincos?!
            - O que que você faz lá, se diverte?
            - Sou barista tenho um bar e sirvo café expresso e decorado. Recomendo.
            Acharam as duas de ir e foram os três. Ele na frente achando o carreiro. Elas atrás e tirando onda. A Tua cochichando para a Tá sem Uxipuçu ouvir:
            - E se ele correr atrás de uma de nós?
            - Com certeza ele vai correr atrás de... duas de nós. E cedo ou tarde, daqui até lá, nesse ou naquele ponto, na ida ou na volta, durante ou depois, mais tarde ou mais cedo, após o almoço e de barriga cheia, etc.
            Subiram o morrinho e já avistaram e cheiraram o ar e sentiram o amarelo doce trescalante dos coquinhos do coqueiro-barrigudo. A palmeira sozinha no meio do gramado do potreiro do capim-membeca.
            Enquanto houver espaço... o tempo aparece. Dizem os entendidos. Ou será que é o contrário? Ou será em outro planeta. Quem sabe o discente da UFSC. Ou é a matinta perera. Ou é par ou ímpar.
            O tempo decorrido, o antigo, o antiquíssimo o antiquado o antiquário e o resto o por vir deixado ao silêncio silêncio.
            Como sói acontecer, os dias pulam de hora em hora e as noites inventam os corpanzis de estrelas astros meteoros satélites artificiais morcegos corujinhas-do-buraco grilos-pretos carapanãs vaga-lumes caamanhas...
            Duas tatuas caíram do ninho. O dia amanheceu exatamente às cinco e vinte e dois uma quinta-feira vinte de março mesmo ano. As tatuas já estavam aí pelo mato, entre folhas e ramos caídos e secos, cominhos-bravos, carurus-amargos, ananases-de-raposa... fuçando e cavoucando e vasculhando e ponto.
            - Uma vez me falaram que só existiam tatus e tatuas.
            - Assim que valia a pena, então.
            Tá pediu para a trinca-ferro-de-asa-verde. Tua perguntou para a dama-da-noite. Tá indagou do manaquim. Tua inquiriu da peroba-de-goiás. E interrogaram tudo e todos com dúvidas e curiosidades.
            - Os índios tuxá que mandam na área no pedaço?
            - É lógico verossímil que vão construir uma estrada de ferro até Vassouras e Resende e Barueri?
            Em vista disso, o chão úmido pegajoso estava já todo esburacado. Ficaram ali espionando de espias. Tá, a identificada:
            - Digo com o tatu Caaobi. Jantamos fora na sombra da lua nova. Juntamos as garras da frente, trocamos os sorrisos, nariz com nariz, fios dos lábios bem eletrizados, céu da boca com céu, noite estrelada inúmeras vezes, e rio Canoas passando perto, banco da praça Coronel Gomes Carneiro, blu-blu-blus!...
            - Agradecimentos de gratidão - Tua, a identificada.
            - E tudo simples, tudo muito discreto. Te digo!
            - Pouco bom para quem gosta de contar histórias e nem achar o final.
            Tinha sol amarelo e único e presente. Céu magro esbelto com poucas nuvens de papel branco ou novo. Por aquelas manhãs intropeçáveis e indefectíveis e inefáveis e indeléveis. E aquele tempo todo não durou sequer uma semana de maio.
            Parentes que se pareciam, voleibolistas que nem deixavam a bola cair a peteca, as primas, pelotiqueiras, as duas tatuas em volta do dia, etc. Uma queria conhecer Muritiba, outra Pati do Alferes. Outra queria pular de paraquedas, uma botar loja de fantasias para carnaval. Uma governar reger moderar, outra ilma. e exma. srª. prfª. drª.
            É um tempo e se D quiser. Os relógios mais cobiçados do mundo. Isto à vista dos preços interessantes por que são hoje em dia comprados vendidos, etc.
            Lá estavam as duas tatuas, um lugar do mundo, algum lugar no mundo, e alheias ao mundo, alheias ao todo do mundo, indiferentes ao imenso e resto do mundo. Assustadoramente indiferentes à bola. E corriam os dias, e ficavam as horas os dias as semanas os meses e as cascas de pinhão da pinha do pinheiro-do-paraná em Maringá. Mas isso só na teoria. Porque na prática.
            Tua abriu os olhos dificilmente. Tá olhou em volta numa outra dúvida.
            - Acho tenho certeza que nem vou mais crescer.
            - Estou comprometendo as mesmas coisas que todo mundo comete. As coisas os produtos comestíveis e os bichos, uma vez.
            Mesmo assim o lugar tinha latitude sul, longitude oeste, altitude de cem metros, área em quilômetros quadrados, subtropical, distante da capital estadual 416 km federal 1.330 km, habitações habitantes em torno e o ano da graça do Senhor de 2018. Que nem era final de conversa!
            No meio de dezembro os dias já se erguem brancos ou amarelos. Nuvens plantando fumaça. Dias rios estradas de torcicolo. Tatus tatuas tatu-peludo que anda na mata de galeria e de tocaia em tocaia de macega em macega de touceira em touceira. É para pegar ou largar.
            O que um tatu podia fazer. O que duas tatuas também podiam dizer:
            - Ah, claro! Nem precisa dizer duas vezes - Tua, a identificada.
            - Gostaria muito de saber escalar uma inhaíba, por ex - Tá, a identificada.
            Saíram da toca no barranco em meio de cravos-do-mato e seguiram logo logo para o pinheiral atrás de pinhões aquele inverno rigoroso de dia fechado e frio e prometendo sair o sol depois das dez, e olhe lá! Que situação, perobas-iquiras, caaxiós, elemis-do-brasil, coronilhas... e o rio Cavernoso fazendo o barulho comportado por dentro no meio ambiente do mato.
            No começo do café da manhã, as duas se depararam com a concorrência dos matizados crau-craus. E eles gritavam do alto dos galhos. Os pinhões já caíam roídos comidos abertos e reduzidos a restos migalhas cascas farelos, etc.
            Quando foi quando se viu, o tatu Crejé se materializou no supetão, depois de hora e meia comendo pinhão catando pinhão se fartando, e ainda por cima sem aviso resolveu correr atrás da Tá. Neste mesmo momento já acontecia naquela imensidão de araucárias e que todo mundo olhando. Tá correndo Crejé correndo e Tua correndo pega-pega. E cada um por si e D por todos. Inclusive a plateia a torcida das baitacas.
            Tá entrou por um lado do tronco caído podre esburacado de ex-vinhático-do-mato e saiu pelo outro. O tatu Crejé entrou pelo mesmo lado e não saiu pelo outro, ficou entalado, bem feito! As duas primas riram risos de tatuas e foram embora enquanto tinham tempo e podiam tomar dianteira. O tatu Crejé ficou chateado com aborrecimento de tatu até emagrecer uns três quatro dias e tomando fôlego e muito que pensar.
            Um tatu e uma tatua não falam não gritam não resmungam não mugem não duvidam não perguntam não bocejam, mas articulam a mesma linguagem. Os olhares os gestos os trejeitos os tiques os modos são todos animais e normais e comuns e certos e correspondentes. Se manifestam muito pouco e deles se ouve um somente sutilmente:
            - Quem?! Eu?!...
            Plano diário de trabalho e serviço noite adentro: encontrar comida, água limpa e comer até fartar fartar opiparamente. E já sabem onde. E já sabem cheirar a trilha. E mamíferos xenartros têm marcado uma árvore como meta e referência.
            Antes de tudo, ainda na porta da toca, antes da irmã Tua acordar definitivo, Tá olhou em volta e olhou tudo cheirou e pensou consigo:
            - Vai chover. Ainda bem. Perto das 18h.
            Tá olhou pensando consigo mais um pouco:
            - Na terra dos meus olhos... já vai chover. Ótimo.
            Depois, já as duas braços dados e inseparáveis, no muito alto e de repente e bem de repente, ouviram os trovões rebentando rolando reboando alarmando, uns longes que eram pertos, uns chicotes de aço queimado e estrondos acompanhados de terra tremente e sombras fantasmagóricas e corujas assustadas e rios encachoeirados e caçadores jaicó espreitando e vento ouriçado descabelando uxiranas, falsos-paratudos, mognos-brasileiros, caixetas...
            Ali, como em Manaus ou Goiânia ou Ibiapina ou Atalaia do Norte ou Itapura... o sol se escondeu e tudo ficou fechado e assombrado. A terra sedenta pedindo água da chuva. O globo se preparando para o melhor. Vários rios mananciais pedindo provisão, rio Forquilha rio Lava-Tudo, rio Pelotas rio Turvo...
            Uma chuva como de uma avalanche e para baixo, do alto para dentro da paisagem, e que deu paz certeza sossego vento veloz chuva caindo e correndo. As mais das vezes... céu cinzento cortina cordas cântaros tromba...
            A chuva desabou torrencialmente. Choveu a chuva tanto que os buracos dos tatus estavam sendo postos à prova, correndo riscos, e tanto pela entrada como pelas saídas de emergência.
            Pelaí, amarrado num galho seco da sapupira-da-várzea, um bacurau procurava esperar paciente quieto afetuoso compreensivo tiritante a tempestade extratropical amainar. Também gostava de chuva mas nem tanto.
            O tempo, este ou aquele, não leva nunca a nada. Nem desaforo pra casa. E o melhor é sair o mais tardar possível e sem saber o porquê. Nem prever nem antever nem pressentir, nem prescrever.
            Então, Tá e Tua admiraram a neblina da manhã, algumas árvores desaparecer, e se entreolharam e balançaram as compridas cabeças e foram andando, andejas, andadeiras, farejando de costume, andeiras, que andam.
            Vai lá que a Terra toda estava amanhecendo. Não foi isto um jabuti-machado? Dois tururus, um casal, subiram pelo céu com o trem de pouso as pernas balançando soltas. Pai soldadinho pintado de verde. O cardume dos pirajaguaras emergindo imergindo, etc. A arte da improvisação.
            Quando a manhã estava bem acelerada, os joões-de-barro batendo asas e gargalhadas, já as duas tatuas andavam faceiras pelo capoeirão. E sempre procurando imóveis para alugar terrenos para mear minifúndios para explorar. Gestos pausados e passos lentos de quatro a oito perninhas curtas. Olhavam para o chão e principalmente simplesmente farejando. Um solzinho saía de entre as nuvens pequenas e cinzentas muito mais mascaradas ou fantasiadas de barco a vela.
            Tempo que nem é passado é este. Tempo integral, ambiente integral, pão integral, arroz integral, frutos de fruta-de-tatu íntegros...
            Enquanto ainda acontece esta corrente de rio o tempo mantém o que der e permite o que vier.
            O tempo, sobre todos o tempo sobre tudo o tempo, sabe fazer o seu papel o seu show o seu showmício. Pois o tempo de água passa, o tempo de fogo passa, o tempo de preguiça-terrícola-gigante passou, o tempo de Sete Cidades passa, o tempo de sambaquis passou, o tempo do peixe-boi preocupa, o tempo de marolinho-do-campo floresce, o tempo de terramarear sempre renova se transforma.
            - Nem nada nem existia universo. Mas todos todas eram anfíbios sapos jias pererecas.
            - Com cauda ou sem rabo que diferença se faz?!
            Tá não conseguia conciliar o sono, Tua não conseguia dormir porque Tá não dormia e vice-versa. O dia claro lá fora da toca já ia alto pela metade e de muito sol e estrídulos de cigarras, apitos nasalados de curicacas, cantos de tempera-violas-de-asa-verde, assobios de sabiacicas, jabués, tesourinhas...      Restos de frase uma palavra ou outra um chilreio aqui ou além, quem não ariscava não petiscava.
            - Isso passa, passa tudo isto e muito mais - Tua, a identificada.
            - É, eu sei. Eu sei e às vezes me confundo - Tá, a identificada.
            A bola de fogo já passara pelo céu. Já estava do outro lado do mesmo planeta conhecido. Assim ficava a noite, lá era um dia antes.
            A noite já está instalada. A noite é para isso mesmo. Tatus e tatuas na roça de mandioca aipim macaxeira maniva e assim por diante.
            E a lua beleza nua, completamente, deslumbrantemente lua, linha perfeita de lápis preto... e pronta, se exibe no céu infinito.
            Que mais se dirá.
            Uma explosão vinda de onde amassa arma joga tudo para o ar. Quem aparecerá? Quem desaparece?
            O início da linha onde o presente para.
           

           


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O Sol em Torno da Terra



            Tupã, o raio, tem asas tem mãos tem folhas tem rios tem asas nos pés tem fantasmas... e sempre no plural. E Tupã, o verão, anda com as árvores com os rios nas montanhas na escuridão no Raso da Catarina por dentro das árvores dos bichos nas cores no vento nos pássaros...
            Pajé Paracambi atravessou a nado o pequeno estreito canal que hoje ainda separa o continente da ilha de Boipeba. Preso na cintura o maracá cabeça diminuta de inimigo enfeitado de penas miçangas pedras coloridas fazendo barulho por dentro ruídos. O abaré índio temominó espadanou pedalou respingou a água de braçada em braçada nem titubeou nem piscou.
            Uei! Uma enorme e centenária tartaruga-aruanã desanda a repor ovos na areia quente fina da praia branca enseada nas dunas.
            O filho do pajé Pocema voou sobre o pequeno canal até a ilha onde sempre ia fazer suas orações e retiros e meditações, uma vez. Apetrechos a tiracolo, a quicê na cintura, a membixuê presa no pescoço, cobertor de couro de anta, outros. Olhou em volta as ilhotas abrolhos até onde a vista azul-esmeralda alcançava almejava Maragogipe, Itacaré, Camamu, Jacobina, Aquidabã, Piraí do Norte, Uibaí, Guarapari...
            Uei! O japucanimpium repassa no alto em torno espalhando o ar nas asas arrulhos trilos grulhos sombra rasteira no chão.
            Andou andou o pajé sobre as águas do canal entre continente e ilha paradisíaca e como um milagre dos sete dias e sete noites. Levou no ombro o maracá o arco e o carcás de flechas. Procurou pelo ambiente e ver com quem estava negociando lidando. Almoçou na casa da mãe guaçatunga.
            Uei! Uma nuvem um enxame de arapuãs vizinhas do rio de Contas chegam surgem também por este dia por este caminho a este lugar a este repasto.
            Paracambi remou a igara feita de tronco de cacaurana e atravessou o canal que o separava da ilha Boipeba. Levava no fundo da canoa os mantimentos utensílios de sempre para rezas feitiços magias milagres pajelanças.
            Uei! O cametaú se ergue nas perninhas arrepia as penas olha a rota de fuga preferida e pressentindo invasão de território se esconde camufla entre os tufos de juçapés.
            Oito horas o xamã orgulhoso apeteceu sorver o ar a longos goles de pulmões cheios e plenos tórax peito pra frente de pombo-anambé. Se faziam harmonias ouviu de viola flauta assobio apito sino teclado pandeiro e batuques em geral. Vestido despido como índio na tradição da tribo temominó. Conhecia de muito o país da ilha. O território predileto esperava por ele desde sempre. Ilha tomada de mato manguezais por todas as praias, cercado de amigos amigas árvores aves em todos os recantos. A ilha a mãe a terra e das legítimas endêmicas tapaciribas-brancas. Foi agitou os braços velozmente para voar, se apoiou na apojitaguara, balançou as pernas vibrou com o corpo total tentando voar sobre a praia e o resto do mundo. Agora tinha o mar ao redor. E uns rochedos altos para aproveitar o horizonte.
            De repente na noite de lua cheia o feiticeiro acordou. Caminhou na praia branca, levou de comum acordo o mascote taiaçu. Este o seguiu sem perguntar nada, embora roncando e farejando sem parar, comendo tudo que encontrou pra comer. A lua nua trapaceira aventureira falcatrua. Depois os montões de estrelas em desenhos joias cordões laços coroas cruzes tiaras...
            Uei! Uma guarapiapunha-do-banhado agita a cabeleira verde a marreca-cricri alerta o arapapá acorda no esconderijo a acauã pressente vem espiar, olhos acesos, arregala os olhos, segue o transeunte de perto em voos curtos silenciosos rasantes por perto por dentro entre os arbustos o carrascão.
            Tupã, o caracol, tem frequentemente se arrastado se arriscado diariamente pela terra dos papagaios. Aragens brisas ventos o que for buscam no oceano sobrevoam a ilha temperam o continente. Bate aquela aragem de fim de tarde. E aquele par de tesoureiras se beijando no ar, e vão sossegar pousar no alto da mangabeira. E depois? O tempo que nem chega suficiente e já parte reparte.
Paracambi, o pajé temominó, se sacudiu, se mexeu e se remexeu nos seus pensamentos - e há três dias e três noites, ansioso, nervoso, agitado, sem comer e fumando sem parar, bebendo vinho das raízes do alcaçuz-da-terra -, procurou por uma saída conforme seu desejo e correspondente necessidade. Queria ser sauá queria ser graxaim queria ser coruja-preta pretendia ser jiboia-vermelha...
Um olhar que não era possível traduzir logo e de pronto de fera felino carniceiro feroz predador. O sentido fixo num ponto da mesma ideia e surdo cego obscuro para o completo mundo exterior. Riscou o chão com a ponta do pé direito com a pata com um graveto seco de aroeira com a ponta do dedo indicador da mão esquerda com a garra de unhas enormes retráteis.
Parava assim aí antevendo escutando as árvores... o passaredo... e respondia:
- Oê! Se formam grupos de oito ou de quatro e as duplas os pares os casais como de araras-canindés!
            Tupã, a praia, e mais uma época de sol forte e céu branco e tudo invadido de algazarra, etc. Já acontece como numa estreia. A brisa sopra calma do sul, no entanto. O barulho inconveniente das ondas do mar. Já existem nos adaptamos os galeões sumacas caravelas naus.
            As estrelas saíram correndo por todas as regiões para todos os lados para todas as direções quando uma delas ricocheteou escorregou e foi capturada destinada guiada para satisfazer o feitiço de Paracambi. Se desprendeu do zodíaco distante, vejam só! O pajé caiu para trás e se fingiu de morto. A nova no céu noturno riscou uma parabólica magnífica infinita e supersticiosa.
            Tupã, o trovão, pertence à natureza das árvores plantas cupiras besouros libélulas aromas betarus-amarelos... Os dias tão perfeitos como os de ontem hoje e amanhã. O sol responde a lua as pedras as águas da chuva. Tem rio que começa na chuva da montanha e deságua na barra do Atlântico. E Tupã, o uei!, volta e meia retorna aparece trazendo exclusividades bicudinhos-do-brejo, cipós-tripas-de-galinha...
E o pajé Paracambi viu, sorriu, assobiou, parou para acender seu cachimbo forno feito de barro cozido braço de taquara-mansa. Suspirou e foi um pouco de alma para fora. Fantasmas esvoaçaram, figuraram, viraram coisas concretas risonhas falantes intrometidas no ambiente presente. Quantos acontecimentos, ações, mudanças, transformações, alterações, pretensões.
            O pajé dos temominó cuspiu pros lados, consultou o vento com a ponta da língua, rosto com traços tensos preocupados, ergueu o dedo indicador lambido. Para onde sacudia o vento? Quanto tempo até a chuva chegar na hora certa? Viria como quase sempre do mar de ondas altas regulares pequenas.
            Uei! Gaivotas-marias-velhas retocam a tarde, balançam no ar, sopradas pelo vento do mar, desequilibradas sobrevoam o pedregulho os esqueletos de rocha. Ao longe, nem tão longe, vez e outra, passam lá longe, na sombra do meio do horizonte, um petroleiro, uma jangada de vela vermelha ou amarela, um navio de cruzeiro radiante de sol, a ponta telescópica de um submarino.
            Olhou para si mesmo pajé, olhou para fora de si, olhou o caaetê, olhou o céu, olhou a praia branca de espuma branca. Olhando para todos os lados como passarinho irrequieto assustado. Agitou os braços em helicóptero. Fez de tudo fez tudo até que um raio caiu aos seus pés. Cabelos desgrenhados. Olhos arregalados que mandaram chispas faíscas coriscos relâmpagos. No rosto assombraram segredos da consciência.
            Tupã, o oceano, conta e desconta as ondas empurrando para a areia branca devolvendo puxando. As baleias jubartes viajam pelo final do ano descansar aqui e ali por perto fugir dos predadores dos pescadores e amamentar os bebês de trinta e uma toneladas.
Uei! O pato-de-crista se protege atrás da moita de timbó-do-campo, o sapo-cururu canta rouco entre os aguapés, a irara sobe na rampa natural do tronco caído de tajurá, e cardumes de anus-pretos revoluteiam demorado trissam no céu de um azul íntimo.
O filho de Pocema rumou pela trilha, pediu licença para o curupira, o sumé, o cabeça de cuia, a iara, o anhangá, o jurupari, o saci, a macaxera, o ipupiara... todos os entes e seres do chão do ar das cavernas dos ocos das árvores. Pediu licença pediu paz pediu acordos e foi ingerindo beberagem apropriada para a ocasião.
            Cocar de penas de nandu, vários colares miçangas de caroços e grãos e ossos, Paracambi comeu folha de vinhático-testa-de-boi, casca de andá-açu e raiz do caapiá-da-lagoa-santa porque tinha fome e já iam três dias e três noites que não comia nada. Precisava de ganas agora em diante para não fazer feio nem desmerecer o pedido do desejo balançando o maracá nem do gosto nem do instinto nem do lazer bajulando os antepassados.
            Uei! Diversos sauins-unas almoçam no alto da pitanga-traíra jogam as cascas as sementes os bagaços na cara dos fregueses e riem os dentes pontiagudos os risos guinchados.
O mágico, que via tudo conhecia tudo não tinha mais surpresa, viu que já era hora de alcançar o seu alvo o seu presente o seu tesouro o seu bem-bom. Procurou um espelho-d’água para caprichar nos cabelos negros longos escorridos índios ornados de penas. Fez muque de braço duro cheio de energia testosterona adrenalina, etc.
Tupã, o arquipélago, sorte dos búzios jogados despertados ótimos satisfeitos interessantes e naturalizados. Os raios do sol infiltrados de cores em cores. Nem é possível tanta riqueza! O beija-flor-de-topete amigado das flores beijando as flores de diversas cores da flor-da-quaresma. Dia chega e as ilhas ficam de aniversário e comemoram, parabéns!
            O pajé chegou no cemitério antigo e se sentou, farejou e investigou como um lobo-guará, se preparou, sentou na laje aguardando. Ali os camucins dos avós, ancestrais, antecedentes, etc. As árvores respiravam com o movimento do vento, sussurravam. Estalavam cigarras com pedidos em casamento. Desde muito desde colomim que Paracambi conhecia visitava o sítio cheio das mensagens boas e não tão boas e perigosas. Vinha ao lugar sagrado da tribo temominó com o pai pajé Pocema o avô pajé Guajaraí e outros índios antigos índias antigas e sempre consultar os espíritos.
Quando foi o feiticeiro sentir sentiu o chão tremer tremer, terremoto, movediço. A terra se rachou se zangou em zigue-zagues. O rio subterrâneo de magma se movimentou explodiu e as ubás feitas de fogo vieram naufragar e carregadas de esqueletos contentes incontestes insensatos brancos armados de tacapes tições fumegantes.
            Uei! O macuquinho-da-várzea se joga do galho da anavinga e voa com o pescoço retorcido os braços esticados a cauda em leque, o sapo-boi exercita pulo de meio metro e desaparece na poça-d’água, o nhambibororoca reúne a família no capim-rabo-de-gato.
Assim uma cunhantã nuinha, nuinha como uma flor de almecegueira, saiu de dentro da terra da beira da água do fundo do oco do babaçu. Passou as mãos nos cabelos e o perfume comparado à flor de uruá se espalhou por tudo aí. Estava bonita e querida. Vinha do fundo do pensamento, do comando das ideias, estava sarada e trincada, dos altos anseios nervosos inconscientes.
O Paracambi falou:
A cunhantã disse:
Abriu os braços que a recebia dádiva como uma conquista taça anunciada esperada prometida presente merecido, caminhou para ele e leve como a borboleta e suave como a uiramiri e aérea como um sorriso. E dois flancos exclamativos. Olhos de água. Cabelos negros lisos longos pelas costas. O dia todo o tempo completo os guainumbis fazendo festa. Olhos magnéticos, hipnóticos, bonitos, infinitos. Cabelos desmanchados sobre as costas. E muito legal e emocionante também.
            E quantos beijos compartidos abraços beijos nos olhos nos braços nos cabelos na boca nos braços no queixo na boca nas mãos... Se ataram e se desataram algumas vezes. Se completaram e se desacoplaram oito vezes. Passearam por aí rápidos e vagarosos, interessados desleixados, comportados histéricos. Comeram coquinhos de murumuru. Nadaram no rio Camaquã. Deitaram festivos no meio das flechilhas. Se deram as mãos e olharam o céu.
            E ela na sua nudez estava bem e estava normal e amiga. Sem falar e olhando muito com calma. Cabelos espalhados e o pescoço inundado de suor. Presenteada com flor de guaçatunga. Olhando como araciuirá olhando em toda parte para toda parte um pouco por tudo olhando soldadinho ouvindo cantar assobiando muito bem equilibrado no raminho da axuá.
            Tupã, o presente, por hora volta e meia pra casa. Há muito tempo que não se faz um dia como o de hoje. Parece fácil mas nem é. O cardeal-do-sul anda por aí solto elétrico saudável e namorando. Irmãos irmãs arborícolas macacos-de-cheiro caminham as árvores escalam as copas arqueiam os ramos bebem os méis néctares comem as polpas amêndoas pendurados como enfeites brincam macaqueiam e cada macaco no seu galho fazem desfazem de cabeça pra baixo pela cauda preênsil.
            O sangue do pajé ferveu e tumultuou as veias alagando todo o tronco os galhos as folhas os olhos interessados. Um furor pelos olhos certeiros e ferozes e valentes, etc. Um calor tomou conta do rosto afogueou. O sangue estrugiu de gosto limpando a mente e iluminando o olhar consumindo os olhos de fome e sede bastantes. Olhos injetados olhar de predador onça-vermelha felino gato-do-mato pé ante pé no tremembé.
Uei! Atita a saíra-de-papo-preto quando faz o voo de reconhecer de enxergar de visualizar a beira do açude... pousa interessada na pedra escolhida bebe bebe... e pula para a haste de capim-marmelada equilibrista.
            Eram impressionantes quatorze horas quando a cunhantã tornou a si e fugiu se refugiou. Um dois três correu nove passos e... ela cunhantã pulou para dentro de uma utuaba. Abanou a cauda satisfeita. Ainda olhou para trás com um para lá de circunstancial sorriso.
            Tupã, o sobrenatural, comportado em cada coisa. O vento revoluteia sobre as copas os topes. O sol o mesmo que sempre. E mais e mais iruçus-do-chão promovem a colheita da estação. E o que já pronto se vê de Tupã, o groçaí-azeite, são os seus maiores poderes dentro dos limites deste aquário.
            Arrebol da tarde, o pajé se abraçou cruzando os braços, aniquilado, olhou em volta como um gavião-preto, estropiado, riu de si para si, a flecha que morreu, riu com embaraço, nem sempre acertando, confirmou consigo mesmo, nem sempre satisfeito:
            - Oê! Eu fui e já voltei!
            Tupã, o verde, fala mais alto e responde com o Cruzeiro do Sul o cardeal-do-brasil o matrinxã a baía do Guajará... Os perfumes misturados os cheiros misturados os zumbidos misturados os voos confundidos dos pequenos pitos-de-saci. Com vistas para o oceano. Horizonte de sobre azul no verde no verão. Tudo sim envolvido nas ondas dos verdes ou dos azuis. A uva-do-mato perfumando uvas maduras. O cupuaçueiro oferece cupuaçus.
            Pajé temominó caminhou pelos galhos de árvore em árvore. Subiu na copa da andiroba e observou o panorama sempre ali entre céu e mar. E rodeios, evasivas, palpites, comentários secretos, rumores de pura sabedoria, perguntas sem resposta. Ilha para encontrar segredos. E procurou coisas visíveis entre as cores do dia os sons os cheiros os rastos, etc., no vento que vinha e passava, os fundamentais raios de sol de flor em flor como de cor em cor. Um céu limpo azul fenomenal.
            Índio lembrou um tempo passado de jovem guerreiro de lutas peleias enfrentamentos combates guerras com os carajá, ali por volta das terras disputadas da serra do Sinfrônio. Mais entreveros com os guaianá, em a beira do rio Canoas. As desavenças com os pacaá-nova, já na profunda floresta reserva do Alto Juruá. As surumbambas e assaltos e correrias e tropelias contra os reriú, pelos capões e banhados e guaritas de Caçapava do Sul.
            Uei! É tudo sim ao mesmo tempo agora. Umas nuvens se mostram são cunhantãs nuas bonitas em plena forma. Lindas cunhantãs aéreas, empoderadas, asas nas costas nos pés nos braços nas asas nos cabelos longos longos. Infladas de vapor sopradas de nordeste fazem caras e gestos de bichos caretas carrancas.
            Paracambi manejou raízes de almecegueira-de-minas, atiçou o fogo, sacudiu o maracá, cuspiu, mexeu com penas de diversos passarinhos e pássaros e aves, olhos graves, desgrenhado, suarento, a pele do rosto marcada de tempo tostada de sol forte riscada de espinhos nos caminhos da selva. Fazia o que queria, quando queria, onde achava melhor.
            O filho mais velho de Pocema convidou as jarinas, os urus, etc., tinha sempre os seus planos e desejos plenos. Remexia os lábios frios, galrador, erguia os braços acima das árvores, sentava no chão de laje de terra vermelha de areia fina, esperava o dia clarear. Mergulhava entre os peixes apaiaris, tucunarés, curimbatás, piavas, jurupocas... brincava de boiar de buscar no fundo as pedras redondas seixos rolados diferentes engraçados preciosos.
            Se abriu outra cratera num outro ponto e subiu da fenda, e como não assim, uma cunhantã nova e feliz e flexível e rara. Olhos garços como num sumidouro. Asas trocando plumas verdes amarelas vermelhas. Sorriu tanto e ideal com seus eternos trinta e dois dentes. E vinha para ficar ou até onde pretendia. Concreta palpável e sessenta quilos menos duas costelas.
            E cunhantã pisando as gramas e se rindo das pequeninas queimaduras, os cabelos seguros na mão para o alto da cabeça procurando não embaraçá-los. Em volta dela a nebulosa cerração azul suave irisada da cascata do Avencal.
            Tupã, a tempestade, cresce nos verdes nos azuis nos colibris nos pios da inhumapoca na trilha dos caititus dos ouriços-pretos nos ninhais de jaburus... Tupã, a utopia, completa o longo dia, passa a noite, despenca estrelas, entra na manhã e tudo desperta com gritos e alaridos de arapaçu de juruva de anhuma de concliz... As árvores esfrolham as folhas. Sabiá-do-campo também gorjeia como sempre se vê.
            Se abraçaram pajé e cunhantã aos agarrões e rolos e rechinos fingidos. Ela fez cócegas na sola dos pés arranhou a palma das mãos lambeu as axilas despenteou o pajé. O pajé cruzou os braços acima da cabeça, cunhantã pôs a mão na cumbuca-de-macaco; Paracambi ria bem humorado, cunhantã esbanjava otimismo: eles reviveram assim.
            Uei! A juriti tudo quanto existe em torno de si. A patativa-do-sertão já vem fazer oito anos este verão. O zorrilho pisa mansinho folhas ciscos focinho no ar tentando entrar em contato procurando caçando o almoço.
            O sangue do neto de Guajaraí queimou as carnes e incendiou os olhos. Órbitas fundas. Corpo emagrecido. Olho de animal acuado, faróis ligados. Seu sangue pulou nas veias como um rio de enchente despejando no olhar um fervor de incêndio. O fogo esquentou o sangue e os olhos se exaltaram com tudo de força indomável. Olhos rutilantes. Olhar de coivara.
Uei! A lua quase se enrosca numa palmeira guriri, e um susto. Oitibó voa para lá em plumas suaves e sem ruído, e um sopro noturno.
            No dia seguinte os enamorados despertaram ao mesmo tempo e envolvidos nessa cantoria dos alados dos zumbidos dos apressados. E tudo ocorreu como tinha de ser. O dia apresentava ao mundo todos os seus convidados. De instante foram aí comer amoras-verdes maduras. E tudo harmonia e calma sons organizados e orvalho na ponta das folhas tenras. A asa do vento empurrou as respostas das folhas. O tico-tico-do-biri escondido na sombra da timboúva. Despencavam as flores amarelas do ipê-amarelo. Dia alvacento. Dia comparativo. Dia contemplativo.
            Quando a cunhantã esfregou os olhos, fez aquele esforço de memória, balançou a cauda, voltou a olhar tudo por tudo e foi se jogar se jogou de encontro ao tronco da embaúba-vermelha. Pronto, alguma coisa extraordinária já acontecia. Ela abraçou a árvore encostou o rosto ficou abraçando por uns minutos. O fenômeno sugeria a transferência de matéria de um ser para outro ser.
            O pajé, totalmente um pouco surpreso, prostrado e fraco e sucumbido, arco e flechas descansando, dores nas juntas, não obstante falou para alguém, o braço dormente de abraçar cunhantã, jogou verde para colher maduro, esboçou um sorriso:
            - Oê! Daqui a pouco ou logo mais!
            Então, ele fez e refez umas beberagens incomuns extravagantes absurdas naturais experimentais quase nocivas. Esconjurou várias diversas vezes tais e quais. Marcou rastos na areia fina. Comeu broto de poaia-do-campo, paricá-de-curtume, mascou folha de begônia-de-folha-estreita, fumo-de-jardim, cheirou flor de sapucaia-de-flor-grande, degustou fruto de araticum-folha-de-salgueiro... Parou um pouco para ouvir o canto chamativo do guiratã. Assim, buscando entender os espíritos superiores e avançados do chão e do ar, subiu o morro e abriu os braços para o céu. Do alto do rochedo gritou de sobre o oceano:
            - Oê! E de novo outra vez até onde for!
Olhos veementes, Paracambi não descansava não dormia não parava, e já iam mais de dois três dias diretos.            Chegou perto de um laguinho admirável lago de Serra da Mesa. Tudo calmo que era um dia bom. As aves aquáticas ali catando e bebendo e aninhando. E caminhavam devagar, paravam, caminhavam devagar, estacavam, caminhavam automaticamente, esperavam, e ora vejam! bicavam o chão vez em vez, e eram umas porções de marrecas-piadeiras, colhereiros, garças-brancas, guarás, macuquinhos-da-várzea...
            Tupã, o temporal, acredita na previsão dos caraipés-verdadeiros, dos ingás-de-quatro-folhas, das gravatás-da-lagoa-santa, das flores-das-almas...
            Naquele dia complexo, por volta das três e meia horas da tarde local, a terra rachou entre as árvores e surgiu de surpresa uma cunhantã sem malícia alguma nem pintura cabelos negros soltos desenastrados, cunhantã nascendo da terra fofa germinada.
            Uei! Passam as fases da lua, e mais uma lua crescente. Quando eclodem os ovos das tartarugas-verdes. A ilha oferece concede as oportunidades opções das águas do rio Doce ou das águas do mar.
            A cunhantã não tinha nome e parecia de tão linda uma jacina. Flor de cacho-de-mosquitos na orelha esquerda. Tão importante como o sol e a chuva juntos. Linda e macia por todos os lados que se desejasse. Olhos incomparáveis e gázeos gázeos. Uma elegância silhueta que contagiava provocava os espectadores.
            Tanto tanto o pajé e a cunhantã foram seguindo de mãos dadas para uma tapera uma aldeia desabitada e mal-assombrada ali perto um antigo acampamento abandonado dos temominó. Tinha uma vegetação crescendo nanica praticamente chavasqueira palravam papagaios-de-cara-roxa nos copados abricós-de-macaco ziniam os enxames múltiplos tipos de insetos residentes.
            O casal conversou muitas perguntas e respostas fáceis, por enquanto. Apontaram o dedo com inocência ingenuidade, por hora. Depois muitas respostas e perguntas bem longe no infinito, etc. Ficaram cismando à vontade. Acomodados nas ervas paracaris. Magnífico o pajé tinha memória ótima infalível e a cunhantã mocinha uma curiosidade trescalante, praticamente.
            Na grande ocara deserta debaixo do pé de flor-de-coral pararam um momento para ouvir os assobios da ana-velha. Ficaram ouvindo o canto da ave por muito tempo. O tombo de chuá do mar nas pedras. Mas tudo era motivo para abraçar. O tempo primitivo e andava uma eternidade circular. Tudo era motivo para olhos nos olhos mão na mão dedos nos dedos língua na língua...
            O tempo comprou embira e amarrou os dias o dia nas horas da esquecida dupla. Os guaracavuçus fizeram ninho colocaram chocaram alimentaram e foram embora para a serra das Três Orelhas, e a família numerosa. Tudo isso que o tempo puxou embira para pajé e para cunhantã sossegar. Uma coçando o pé do outro. Um trocando tarumã na boca da outra.
            A cunhantã o canto expressivo eloquente sentimental e mais os cabelos longos. Uns olhos sempre surpresos pela luz pelos pássaros pelas árvores pelas pedras do caminho. Uma boca voluntariosa. Olhar insistente. Correndo para a beira do córrego e mergulhando de peixinho.
            O sangue vermelho do rio das veias do pajé gargalhou estrepitoso e foi desaguar enxurrada em cascata rubra no céu dos olhos do mar. Os músculos se crisparam se retesaram e nuvem vermelha tapou a vista o pensamento. As veias requeimaram. Os olhos pastaram mil fogos vivos e o sangue galopou mil jaguatiricas felinas. O vermelho queimando nas brasas fervendo. As chamas refletidas nos espelhos dos olhos.
- Oê! É nosso dia de nadar com os aruanãs, acarás, piaus, charutos, lambaris!...
Os dois em um completos em uma salada mista. Um mês uma hora uma semana um dia um segundo um pensamento, agora. Mais sede que fome. E o tempo complexo passou sem que se dessem conta. Dia de chuva torrencial olhando a chuva cair com estrondo. Língua de fora delícia de beber os pingos da chuva. Noite de estrelas lavadas. Manhã de matinada para acordar antes do sol aparecer.
            De repente a cunhantã se ergueu, balançou, correu e se jogou com tudo para o oco da icica, vinte passos dali. Parecia irmã da árvore. Parecia a natureza do vegetal. Parecia afilhada da madrinha. Parecia o dever da salvação.
            O pajé abriu os olhos seus olhos se abriram e se espalharam preguiçosos, entregue, armas no chão, incompleto, que acabou dizendo sozinho sentado nos garrões no cantinho da ocara, o sorriso constrangido, a mente dormente:
            - Oê! O que tenho a dizer, por mim, é bem pouco!
            Paracambi saiu para rever umas amigas amigos e ele tinha muitos todas a escolher por ali. Se lavou na sanga escorrendo água pela cintura. Amiga amigo tesoura-de-fronte-violeta, e estendia o braço. Amigo amiga irapuá, e colhia um bocado de mel. E assim o araçá-branco a goiaba-do-mato o cajueiro a jabuticabeira o tarumazeiro o jambuaçu...
            Uei! A brisa do mar desfila ampla e sossegadamente mansamente equilibradamente. Conforme o dia as horas do dia e estas que vão passando. O tempera-viola-de-asa-verde almoça guabirobas. As jandaias amarram o cardume de canas-do-rio. O meio ambiente mesmo procura se adaptar ao mundo nativo.
            O pajé cumprimentou as amigas e amigos de plantão que ia encontrando reconhecendo revendo apreciando, embaúba-puruma, peroba-açu, uirari, araputanga, macucu-do-rio-negro, curuatinga... umas plantas com ideias de verão nas folhas, olho-de-gato, cabeça-de-preguiça... descendo um morrinho subindo uma elevação, sete-sangrias-amarela, ubiratã, gameleira-de-veneno... E se enroscou hesitante avançando sossegado e quieto e anônimo se ocultou.
            Tupã, a amajouva, põe o sol no seu lugar do dia põe a lua no seu lugar da noite põe as estrelas por perto dos planetas redondos as espirais nos primeiros capítulos do universo. Bate palmas e faz as estrelas brilhar com o pó de diamante. Lava os pés as mãos arquitetônicas nas algas marinhas e derruba pérolas no fundo do mar.
            O filho principal de Pocema sentiu um tremor no lábio inferior, duas lágrimas descendo uma para cada face, não podia dizer nada de si para si tentando segurar a forte emoção, etc., garganta presa, voz embargada, pensamentos atropelados, nervos à flor da pele e que o consumiam por inteiro. O que sorrir numa hora dessas?
Pois um vento agitou muito as copas das amigas e dos amigos do pajé e a terra se abriu para dar passagem uma cunhantã bem empolgada e parecida e fina como nova palmeira buriti. Vinha de mãos dadas com o verde da mata com o azul do céu com a esmeralda da água e com os cabelos ao vento até com o sorriso o mais espontâneo possível.
            Uma cunhantã alta e bem lançada, sofisticada, seios formidáveis e favoráveis e empinados e eficientes, olhos verde-azulados, farejando o ar com seu narizinho de meia cuia. Ela mesma ainda na oca dos seus dezenove anos e bonita como uma azedinha-de-corumbá como a tamiarana como a sabiá-da-serra como a avoante como a beija-flor-de-bochecha-azul... Os cabelos flutuantes arremessados ornamentais luminosos explosivos.
            Uei! A manhã em folha então vibrante vibra agitada de fortes comensais exercitando os braços e conversando, voos, gorjeios. O barulho do mar que comparece no ouvido das ondas longas médias e curtas. Os maracanãs-guaçus que trocam de ilhas. Os guaguaçus que agitam as palmas os leques.
            A cunhantã pulou nas costas do pajé e brincaram por muito tempo de cavalinho, upa! upa!... Cunhantã segurou o pensamento com o dedo no queixo. Pés descalços. Acariciando volta e meia a própria cauda de peixe esguio voador. Correu na frente olhando para trás e se rindo como nunca riu e se viu. Deixando marcas descalças na areia úmida macia branca foz beira do rio Acará.
            O sangue do pajé subiu até seus olhos vidrados atônitos famintos. O efeito do calor no sangue se manifestou no olhar parado perverso furioso furibundo. O sangue vibrou e os olhos como setas romperam o ar atrás da presa. O sangue se revolveu revoluteou e transpareceu nos seus olhos penetrantes. Sangue novo ganancioso. Olhar frenético. As narinas se dilataram imensamente. Sangue incandescido. Se jogou no açude para nem pegar fogo.
            Tupã, o calanguinho, diz uma vez e já basta. Toda árvore vem de uma árvore, todo rio vem do rio, toda ave vem da ave. E depois cada dia é um dia. E por isso mesmo o círculo o quadrado o triângulo na matemática da natureza.
            Os bípedes, os olhos escolhidos, o sonho, a ressaca, os olhos cunhantã Paracambi colhidos num olhar. Treparam na altura da utuaúba e se acomodaram na forquilha. E se enroscaram e se desenroscaram. E treparam e se deixaram trepar. Uns macacos pulando brincando comemorando de macaco-aranha.
            Uei! A jipoúba tem comportamento de árvore, o manimbé tem comportamento de pássaro, o untanha tem comportamento, a ilha tem compartimentos, o mundo todo tem comportamento de obedecer o solar.
            De ímpeto a cunhantã, e mais rápida que um veado-campeiro ou mesmo uma potiri, correu como nunca correu voou como todos os tais e quais até o manacá-da-serra sacudiu a cauda formosa e se jogou para dentro do tronco furado onde se apinchou.
            O pajé caminhou mais uns metros, de ânimo perdido e caído e vencido, tacape derretido e obsoleto, resmungou vencido, sem uma sombra para se apoiar, arrasado de asa ferida, preso de pés e mãos atados, constrangido com a cara que sempre tinha:
            - Oê! Agora estou calmo, mas amanhã!
            O sexagenário Paracambi subiu no alto dos galhos do cupuaí, entre os galhos, deitou e sonhou com todos os amores passados e futuros. Urutago ficou de sentinela do outro lado do território. Então, os sonhos do pajé foram de fantasmas e ancestrais, espíritos do bem que vinham aconselhar e dar opinião, entes das grutas e grotões que queriam abraçá-lo, etc. Sonhou as coisas pensadas esperadas e até as extraordinárias. Conversou durante o sonho e falou com as imagens do sonho, ouviu também os conselhos, as recomendações de boa conduta, falou com elas:
            - Oê! Uma suave canção pra dormir na rede carijó!
            Tupã, a baía, atende o temominó como atende o uirina como o tingui-botó e o panati até o chiquena mais o mundurucu ainda o taguari igualmente o maraguá também todos os outros índios do pindorama o paracanã o aracadaini o embaiá... Tupã, a nuvem, nasce e recria e transforma a terra o mar o gavião-pega-macaco os rios os guaraçaís-pardos e tudo mais que existe aqui ali acolá. Faz isso tudo de novo renova e encerra diário os trabalhos os afazeres os encargos as tarefas as empreitadas.
            Quando foi sexta-feira às 10:01 hora local o lugar se agitou e o pajé caiu do galho da siparuna e se estatelou no chão. De dentro de uma cratera feita de fumaça azul, do perfumado vapor azulado, foi surgindo uma cunhantã muito formosa verde completa e alada. Apareceu batendo asas voando cautelosa como borboleta-do-manacá. Outro sim parecia uma flor da guapeba-vermelha. Bonita como jandaia. Aerodinâmica como jurupensém.
            Uei! Tropa de nuvens sobre nuvens aeronaves máscaras de animais no alto do céu sobre o nascente sobre o poente sobre o mar desde a corda bamba do horizonte.
            Tupã, a chuva, começa a chover. Finalmente começa a chover e riscos de fogo relâmpagos e estrondos descem à terra com tudo sem parar. É festa de São João. As florestas nem podem acreditar nem esperar. Os rios súbitos mais importantes enchem a caixa. O mar com ondas grandes intermédias e pequenas faz vai chia como no começo do mundo no princípio dos mortais.
            A índia cunhantã que era mesmo uma imagem vaporosa e transparente e estimulante e recreativa. Objeto de cobiça. Uma beleza nua a escolher. Apetite de esteira jirau e banho. Molhada de toda a água e que linda. Crescia seu sorriso com brilho e alegria em cascata. Toda esperta indomável insaciável atlética e cabelo colado ao corpo. Cunhantã qualificada doida acelerada.
Uei! A atmosfera toda importante da ilha a chuva que não passa chuva engraçada independente vertiginosa, etc. Assim pronto como chove do lado da guarapicica. Como chove na serra da Barriga e vem e vai se alastrando.
Tupã, o amuri, tamborila pingos de água da chuva nas folhas teclados dos mangues-da-praia. A ilha se lava de uma vez só e a chuva parece ficar para a noite e os dias seguintes. A ilha redonda e bem coberta de água por todos os lados.
            E correram uma para o outro como se aguardassem por isso há muito tempo. O pajé a beijou nos cabelos, primeiramente. Se abraçaram cheios de ternura dramaticidade grande urgência. A bonita cunhantã um pouco mais alta e o mesmo corpo que a mãe a avó a bisavó a tataravó.
            Uei! Muita coisa na lama no barro no lodo e chove mesmo para amainar o tempo. As árvores batem copas no meio da borrasca. Os pássaros se agarram dentro dos ocos e furos e buracos e outros esconderijos. Vento com chuva e as árvores aproveitam dançam no gingado no molejo.
            Os dois namorados se sentaram na grama-de-pernambuco e ficaram lado a lado. Conversando e elogiando o pio da carana, o assobio do capuchinho, a migração das marrecas-rãs, as flores molhadas do inimbó, as folhas bem mais verdes da baunilha-falsa, a placidez lavada da dedaleira-amarela.
            O sangue descendente de Pocema espadanou dentro das artérias e veias até fazer espuma. A vista se turvou. Seu motor cardíaco mais bateu por dentro do peito, tum! tum!...  Olhos de vaga-lume. O sangue batendo volumoso borbotando dentro do peito, os olhos furibundos, a atonia geral. Devorava com os olhos. E seu sangue se revolveu e seus olhos se abrasaram como morcegos no escuro, como cachorro-do-mato-vinagre afrontando a noite.
            Nadaram na poça-d’água da chuva animados pelos beijos. Pararam mesmo de se provocar por um espaço mínimo e passageiro. Se cuidando de não piscar primeiro. E logo lutaram com força e furor de bichos brincando. Quase perdendo ou ganhando. Um puxando o pé da outra. Se morderam muito principalmente no pescoço na carótida. Uma se jogando para cima do outro. Às centenas de fagulhas faíscas milhares de centelhas lampejos dos olhos chispantes.
            A cunhantã se ergueu, sacudiu os cabelos longos e apetitosos e escorregadios, vibrou a cauda, correu pela passagem de areia e pedras e macegas como ninguém e se atirou de encontro ao tronco do jequitibá-vermelho. Parecia a repetição de outros carnavais de outros sonhos de outros teatros ao ar livre.
            O filho de Pocema pensou que essas partidas intempestivas e duvidosas e inquietantes e incríveis... mas essas misteriosas situações nem podiam continuar e continuavam... mas contava com a sorte que o envolvia e desenvolvia e devolvia e revolvia...
            Se passaram alguns minutos, chilreios de saíra-sapucaia sofisticando o ambiente, e o pajé Paracambi falou, debilitado e partido, armas a tiracolo, agastado, formigamento nas pernas, caíram essas palavras do cérebro, os braços cruzados abraçado a si mesmo ensimesmado:

            - Oê! Poucos minutos uma hora depois se separam mais uma vez e novamente!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Isto assim aqui está o começo do mundo

           
           
            Também que deuses que deusas olharão a terra se aqui no chão nem andar andam as mulheres? As mulheres têm algo alguma substância dentro de si nem sei em que órgão que as faz despertar propícias para o dançar. As gurias são a coisa mais passarinhas do mundo.
            Os rios são diferentes das carnaúbas. Os macacos-de-bando são diferentes das montanhas. As mulheres são diversas das juruvas das ilhas dos andirás-açus das florestas dos tambiús das praias dos bichos-preguiças dos carros de passeio.
Quem falou primeiro? Quem deu o primeiro passo? Foi a mulher ou a lagoa do Vapabuçu?
O tempo passa muito devagar: a mãe do ouro saiu da tarde tardezinha perto do córrego do mato de catanduvas chamando prometendo ouro e esmeraldas e riquezas sem termo.
            Até mesmo os divinos as divinas olham para as mulheres caprichadas. E porque são belas sorridentes desenhadas jovens viram parte dos mitos. Simplesmente isto.
            As raras elegantes sofisticadas conversadoras altas por acaso ou porque querem. Parabéns!, nem devem chorar já que possuem o mundo a seus pés. Vestidas de qualquer jeito, nuas, palmeiras piaçabas perfumadas ou suadas são imortais, aladas e atletas. As gurias são a coisa mais elogiáveis do mundo.
            E Camuá é uma esta linda andando simples displicente e frequentemente a rua Vidal de Negreiros passo sistemático depois da aula e a avenida Presidente Lucena raios diagonais do sol. Atravessa a praça Cauaíbe movimentada, olhando o chão apenas se cuidando dos cocôs de cachorro, sem ligar a mais nada, e entra em casa. Vai para o quarto ficar sozinha. Sente o coração nem sabe de quê. Uma sensação maravilhosa enigmática, e lhe falta alguma coisa? Aparentemente um altar com taça e suco gelado de abacaxi. Um espelho do tamanho de corpo inteiro. Bebe o copo cheio e desaparece das vistas.
            - Eu, indeciso, somente a conhecia de vista e olhe lá.
            Desde criança já pensava em ser jogadora de vôlei na posição de atacante saída de rede. Remendada de fitas fisicoterápicas no ombro nas pernas, e mergulhando na quadra num movimento de hiperextensão. As gurias são a coisa mais estéticas do mundo.
            O labirinto do sentimento nem é esta falta de conhecer o mundo, Estância Velha, Orizânia, Anhembi, Carinhanha, rua Itambé em Santo André... Nem curiosidade de uma profissão para preencher o tempo. Então, que viagens teriam? Não se sabe, ainda. Coça um bichinho um espinho ali irrequieto. Quanto mais pensa mais sonha e mais lhe penetra. Nem será a descoberta de uma ilha da Trambioca uma lagoa da Fortaleza uma praia da Daniela uma tribo tuiúca um morro Itacolomi uma rua Ibitiguaia em Juiz de Fora uma gruta da Torrinha? Afinal, que rio Jauru em que barco a fará navegar voar correr sem perceber sem querer?
            Um vento chato ameaça chuva para mais tarde. As gurias são a coisa mais elétricas do mundo. O tempo está bom e cairá uma chuva em breve tromba de água muita com ventos fortes quem sabe granizos. Elementos gigantescos em reboliço com chicotadas de fogo e barulho roncos de tremer os alicerces. Pingos grossos acertam o telhado o toró despenca a enxurrada limpa as valas alaga a rua.
            - Era bem isto o que eu estava pensando.
Com a mão livre baixa a lâmina de plástico flexível da persiana e olha a rua Curiboca. E admira a rua. O que está conjeturando? E memoriza a rua.
Quem plantou a folha-de-santana? Quem semeou a de Cáceres? Foi a mulher ou foi o parque ecológico do Guarapiranga?
            E se recorda que esta sensação nem nasceu agora recém, mas já há alguns dias. E apareceu também do nada ou do pensamento com a justa fantasia. Talvez coisa de gente mesmo. Ansiedade que nem precisa nem requer explicação. E asas de araponga-do-horto. E cores de borboleta-oitenta-e-oito. E frutas do araçá-de-coroa. E sons de membixuê. E banhos na cascata D’água Grande. E passeios por dentro de Goiana.
            O tempo passa muito depressa: e o rio Ipiranga e o rio Tamanduateí e o rio Anhangabaú deságuam no Tietê que correm.
            Está cochilando. Com vontade de escalar guaraçaí e tomar um banho no rio Aporé, ou melhor, com alegria de rolar na areia fina.
            A lua se esconde atrás da montanha do meio. A mão imobiliza a rua. A iara vê a tua lagoa. Ainda paisagem de vales e águas roncando como por entre as pedras as lajes a cachoeira das Andorinhas. As gurias são a coisa mais livres do mundo.
E se despe, afunda na cama Camuá quente macia, toca os travesseiros como se fossem maritacas casas aviões peixes Guarapari arbustos, os olhos já mareados, e só procura nem sentir as estrelas os anéis de Saturno.
Como isto se realiza. Parece e só parece que o mundo tem se transformado.
Dorme 22h e 10min profundamente. As aves gorjeiam a matinada e com satisfações ao sol esfuziante. Abre a porta 05h e 15min em dia que acontece ali e pronto. E caferana farfalhuda. E quaresmeira pintada. Olha o céu de poucas nuvens com cara de bichos onde acabam de chegar.

             

domingo, 26 de novembro de 2017

A Tais Propostas



            - Iandê vai pro Centro?
Existem coisas esquecidas que ficarão perdidas até o jamais. A minha prima Caratinga, por exemplo. Ela e epifania são a mesma pessoa. Tinha sei que tem, olhos de árvore olhos de nuvem olhos de dia chuvoso olhos de paruru olhos de manjuba olhos de coisa com coisa qualquer coisa... Todavia, com ela nem tive a essência de nada e desde o começo. E o guabijueiro de guabijus madurando bem alto e as corruíras-de-casa cantando estridentes na manhã de sol forte e o casal de sofrês procurando ninho e os sanhaços-cinzentos comendo frutas furtadas na vizinhança e as andorinhas a revoar sobre nossas cabeças.
- Como vai e como vem Desterro de Entre Rios?
- Assim como em construção, diariamente.
            Conseguimos chegar com tempo de pegar salvar olhar o sol pular e saltar a janela do dia - pular e saltar seriam a mesma coisa.
            - Iandê sabe o que está acontecendo?
            Consubstanciação. Os patriotas do fim da rua Padre Chagas organizaram um time de futebol e ficou E. C. Aratama (terra dos papagaios).
            Nem quero dar respostas a mim mesmo.
Sem embargo, a praça Bertioga (recanto dos macacos), pequena triangular, de plantas aromáticas, catuaba, bucha-dos-paulistas, cabaceira... amparada pelas ruas principais do comércio e bancos e apartamentos. A casa de festas que me lembra carnaval e um teatro que promovemos a partir do colégio NSAparecida e não compareceu público algum, talvez por causa do frio e da chuva, a cara de bobo dos atores vindos diretamente especialmente de Astolfo Dutra, e o desgosto das nossas gurias.
Mas isso foi depois.
Num movimento tão brusco quanto espontâneo - Caratinga e epifania são a mesma coisa -, pois ela infletiu:
- Dia pacífico e fácil.
- Qual a diferença?
- Estou decidida.
- A quê, anacê?
- Vou fazer amaná (chuva).
- Convicta!
- Se eu lhe disser que amaná não tarda nem estarei exagerando...
- Anacê se parece com capeba-do-campo.
Da escola 11 de Agosto onde comecei a sair da toca, gavião-telha, anta, mocó... E a Caratinga menina mais linda daquele mundo que não tinha namorado e nem queria saber de nenhum de nós. Entendê-la não foi tarefa sabatina fácil ou difícil. Da biblioteca pública municipal de Piraúba, servidão Cereja no bairro Pantanal, que pesquisávamos sobre coisas absurdas como o rio Amazonas - Santa Maria de la Mar Dulce, a floresta da Tijuca, os índios assurini, muitos bichos vivos ou pré-históricos, ossadas de dinos em Candelária, sítio arqueológico Santa Elina em Jangada, caminhão basculante, a caravela no mar alto - boreste e estibordo ou bombordo, as aves da estação ecológica do Taim, a praia de Boa Viagem, a praia de Amaralina, a praia de Ondina.
Aonde você vai?, eu sempre me perguntava.
Me conservava humilde boa gente, às vezes me recondicionava humilde quieto silencioso pensativo, sempre colocado no meu quadradinho riscado a giz, e caminhava daqui pra lá de lá pra cá discreto magricelo baixinho tapado, carregando com as duas mãos a minha moldura humilde - um jabuti de quadro de parede.
- Iandê sabe o que está progredindo?
O dia voltava abria as asas estava reiniciando voava para o oeste. Passamos uns minutos e nada mudou. Viaduto Dom Pedro I no sentido sul, e bairro Cascadura. Faltam de 5 a 10 anos para o sol esfriar.
Assim é que sentamos ao ar livre sob o ingazeiro na sombra e olhar as árvores passar com árvores verdes vermelhas destemperadas falantes. As árvores diferentes dos bichos, saracura-do-banhado, sapo-veneno-de-fecha... Estes nem falar que ficam na água do rio que atravessam. Rua General Flores da Cunha em Cachoeirinha nos dois sentidos. E a guria e epifania são a mesma moeda de circulação. Para que logo as árvores se inventaram a árvore? Cruzamento da rua da República com a General Lima e Silva em Cidade Baixa. Por um segundo por uma Caratinga, em setembro quinta-feira 19h e 09min, os planetas em perfeito sentido equilíbrio.
- Iandê sabe o que está pensando?
Propugnar. Os patriotas do ECAratama se mudaram para a beira da rua Visconde de Guarapuava e ali fizeram o campinho com plateia no barranco gramado sob alguns jerivás.
- Como vai e como vem Eldorado do Sul?
- Assim como em construir, ininterruptamente.
Bando de pássaros canários-do-brejo procuraram a folhuda axuá para pernoitar. Houve um breve momento de silêncio, após o qual... Pronto, o assobio rasgado de uma ave fez a noite despencar. E urutau ficou escondido no galho seco. Ela e epifania são o mesmo fetiche. Caiu um silêncio no mundo... Parecia um lugar comum e porém não era, era enorme.
Mas embalde e debalde, olhei mais para mim mesmo e nem me vi nem me reconheci. E daí? e pra quê?, minhas perguntas desarmantes.
Mas isso foi antes.
Conspícuo. Os dignos patriotas do Esporte Clube Aratama se reúnem sábado de noite na bodega Marruá do bodegueiro Riba Garajau bebendo pajuari comendo petisco de picanha picada na chapa quando decidem onde jogar domingo de manhã, e faça sol e faça verão.
- Iancê sabe o que está bebendo?
Curioso e interessado, revejo muitas praias ensolaradas e ao fundo em primeiro sonho uma deusa de ouro e olhos verdes com um gato amarelo felpudo debaixo do braço. Num piscar de olhos o delta do rio Jacuí a cascata a usina a ponte as árvores ciliares. Caratinga não almoça para manter sempre o mesmo peso baixo, remoque, um olhar pesado metálico plano azulejo impenetrável, e vai porque quer conhecer o Pão de Açúcar, a rua São Clemente em Botafogo.
Endógeno. O Aratama sai no carnaval em bloco dos macacos bugios para garantir a origem a tradição e a folia. Caratinga já foi escolhida a madrinha coroada de faixa no peito e estandarte na frente da galera puxando a euforia.
Seria isso a Caratinga? A Caratinga seria a verdade? Sei lá, né, meu! Enfim, bar-ban-te.
O rio da Prata rolou, em alguns meses, andou muito. Ela... nem imagino outra epifania.
- Como vai e como vem Caicó?
- Assim como construindo, sistematicamente.
Pois é que nem parei mais. Já faz tanto daquele tempo! Ela e epifania são o mesmo universo paralelo. A prima das pernas bonitas douradas rua da Arrozeira das brincadeiras de caçador cruzada sapata balanço dependurado no galho do capitari. Minha alma de que alguma coisa possibilidade aconteça sim ou não.
            Quem diria que o sol esquentava três bilhões antes.
           


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Era Pouco Preciso



            Um lugar qualquer... é um pedaço do infinito. E pode ser!
Minha infância espalhada distribuída misteriosa alada em alguns anos de pura periferia de cidadezinha isolada do interior gaúcho. Os meus movimentos necessários. E cidade sem ferrovia.
O começo do horizonte escrito desenhado contornado uma linha limite orla a lápis. Procurar longe o céu a terra rente no viso das montanhas. Vontade de ir e sorriso de viajar. O espaço o mundo é tão grande que ninguém sabe onde está, que eu nem sei onde estou.
As aves sempre em forma e trocando cores luzes vozes voos e conforme, aves de arribação, gaturamo, colhereiro, cauã, maria-é-dia, corrupião... A hora já era por si e muito interessante. A praça do Expedicionário (do Soldado), comumentemente.
            Meio-dia e meia do dia seguinte. Por uma fração insegura tímida casual de segundo os meus olhos com os olhos dela se cruzaram. Raramente. Em contrapartida... terminal do Paradão praça do Imigrante calçadão Osvaldo Cruz nessa ordem até a rua Júlio de Castilhos.
            - Eta! A manhã tão-só atmosfera em tom azul azulejado.
            - Parece que as asas têm passarinho.
            - E foi subindo a avenida Feitoria até a praça da Abolição.
            - Dir-se-ia que...
            A poeira foge para as estrelas e os signos brilham nas constelações.
            Eram noites, e eu escutava o silêncio da rua Capitão Lima. De dia, a rua tranquila e aconchegante. De noite, alguma coisa estava acontecendo.
Parecia um conto de ficção que eu ouvia entre a realidade e o sono. Quem contava era uma índia miçangas no pescoço velha Aracê da tribo dos nambiquara.
Por conseguinte... buraco no mar recifes pernambuco rio Capibaribe rio Beberibe rio Pina rio Jordão.
            Conversando com uma e com outro, nadir ao zênite:
            - Eu embora ainda a vejo pulando rindo engraçada beijando festando...
            - O que teria sido feito dela?
            - Desde então e cada vez mais...
            - Estou confuso, quero ser jogador de futebol.
            - Estudávamos em o colégio Marista Rosário junto da praça Dom Sebastião.
            - Podemos dizer por um lado... e por outro lado...
Coisas principalmente que não preciso esquecer, nem sei por que lembro tanto. Acho também que não esqueci de nada. E recordar é lento len-to e de-va-gar quase parando. Lembro tudo que me aconteceu naqueles tempos teatro de Santa Isabel e tintim por tintim.
Engraçado porque ela nem queria que puxassem seu cabelo, às vezes trança. Muitos os cabelos longos pretos alçados cheirosos olentes olorosos odorantes aromáticos que cheiravam. Tocava as crinas cheirava degustava jogava.
Eram noites, e eu escutava o silêncio da lua. Alguma coisa nem estava acontecendo. Os meus movimentos aleatórios. A cidade sem pontes sem um grande rio encachoeirado hidroelétrico navegável piscoso.
            Me recordo de um pé de salgueiro-do-mato debruçado sobre o poço do tanque, um cercado onde estendiam roupas ao sol, quaradouro, cheiro de sabão, a água sempre escorrendo. Libélulas que nós chamávamos helicópteros. Girinos mocozeados nas babas de rãs e sapos. Às noites, o coaxar dos anfíbios anuros.
            Trocando ideias com um e com outra:
            - O fluxo e o refluxo do mar ondas vagas e espumas.
            - As estrelas são muitas nem sei quantas.
            - Para dizer a verdade, eram mentiras...
            - Estou confusa, quero ser atriz.
            - Era muito difícil. É uma estratégia de xadrez. Sempre foram.
            Por ali se abria todo o nosso mundo, grande e mágico e peregrino. A ave jandaia pois a ave precisava pousar a cada 100 ou 500 quilômetros. Encontrou a palavra zootecnista; procurou na memória, não tinha; voltou pra casa, investigou em tudo que foi lugar.
Então vamos assim: metade em agosto, outra metade em novembro. A rua Barão de Antonina, comumentemente.
Parecia um conto de ficção que eu pensava entre a tua e a sua. Quem falava era meu avô seu Muritiba sempre voando nas tardes com sua cadeira de balanço.
A fumaça sobe para as estrelas e os signos fazem as constelações.
Na primavera cheia esse tempo de passarinhos gorjeavam ligeiros, bandos, revoadas, juritis-vermelhas, arapongas, batuíras-bicudas, maçaricos-do-campo... Curtíamos o dia todo, principalmente pelas manhãs. Tínhamos intimidade com cada árvore, cada pedregulho, ribanceira, morro, capoeirão, potreiro, sanga, tipisca, campinho de futebol. Subíamos árvores, jequitibás, pitangas-traíras, açoita-cavalos, murtinhas, coiranas-brancas... para descansar entre os galhos, para comer azedinhas, sete-capotes, jabuticabas, gabirobas... mesma época dos abacaxis, butiás, melancias que surripiávamos aos vizinhos incautos.
Convém repetir mais uma vez... Quem vem com a matinada, ali? Quem desce a avenida Manuel Pirajá da Silva, aí? O som morno sonolento dos pássaros na devesa do sítio Cauaíbe e o céu por transparente. E tinha de ser ela pedalando na bicicleta.
Conversando com aquele e com aquela, adornados ambos de canitar:
- Até porque... perto da estação rodoviária de Canoas a praça do Avião.
- Coisa ou profissão que tinha certeza nunca seria era atriz ou cantora.
- A esta hora todos já devem ter descoberto mais ou menos o nome dela.
- O solstício de verão em que... bem, deixe pra lá.
- A família passou um mês em indagações em suposições em discussões.
- Passaram pela venda do seu Tabapuã e o Tabapuã tomava chimarrão preenchia as cruzadas do jornal sentado ao balcão.
- Sem suspeitar que suas sugestões ideias reservas e atitudes lhe poderiam trazer mais aborrecimentos do que já tinha.
Imperávamos sobre aqueles lugares, vasta área de matos, capões, hortas, roças, baldios de capim-flecha. Colhendo pinhão no inverno, juntando as grimpas secas e sapecando ali na hora.
Rio não havia, mas fazíamos uns pequenos açudes para nadar. Aeroporto não havia, mas esperávamos surpresos os teco-tecos pousar no aeródromo. Asfalto não havia, mas o governo de quatro em quatro prometia. Trem nem havia, mas passava uma ou outra carreta de dez ou doze eixos. Semáforo nem havia, mas a recomendação olhar para os dois lados.
E tinha árvore sol chuva mãe-da-lua e então existiam plantas planetas aves rios cidades... As araucárias foram carregadas mais longe e quem sabe além... As pedras basalto foram levadas além e mais longe...
Às noites, o cri-cri dos grilos-dos-canteiros. Aparecia um conto de ficção entre a estrela Dalva e o boitatá. Quem adorava narrar era minha avó dona Tinga entre o saborear de um mate mais outro.
Eram noites, e eu escutava o voar da suindara. Alguma coisa podia estar acontecendo. Os meus movimentos instintivos. A cidade nem sequer um ponto turístico de respeito de cartaz de monta de legenda.
Mormente àquela hora... na metade em diante de abril de 1500.
No começo da noite ficávamos brigando com os mosquitos para pegar algumas traíras no alagado. A lua platinada uma ilha fantasmagórica.
Uma árvore embaíba voa uma avenida Pedro Ivo da Silveira passa um dia pousa uma lua voa uma guria passa e minha mente minha palma.
A paina alcança até as estrelas e os signos alucinam as constelações. Às noites, os vaga-lumes de pisca-pisca elétrico. A praça da FAB, comumentemente.
Trocando causos em miúdos com os vizinhos e com os parentes:
- Lugar comum lugar de praça da Emancipação de puçanga de jângal de irara, etc.
- Já nem se bicavam fazia oito anos.
- Não me parece de todo fora de propósito...
- Mais próxima dos 30 que dos 20, ela se sentia disposta a fazer mais mesmo tudo outra vez.
- Não posso não devo nem quero ser jogador de futsal.
As borboletas de uma cor mais leves voos que o ar alecrim-do-campo golfão-branco jurema-da-pedra baunilha granadilha som invisível desgarradas.
Colhíamos pedrinhas para coleção, jogávamos caçador no recreio, rastreávamos em vão as lebres nos aterros, ficávamos horas esperando o próximo meteoro riscar um pedido no céu. A praça Conde de Porto Alegre, comumentemente.
No centro um balão de abelhas cercado por dois olhos dois ouvidos uma boca.
Catar ossos de animais nos potreiros, garrafas vazias nos porões das casas, latas de alumínio e ferro velho na sarjeta, etc., para vender, ganhar um troco e comprar bolinhas de gude. O arco-íris monocromático, porém do azul cor do mar profundo ao azul da joia rara turquesa.
D como foi dito e feito acima.