quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Rio Parecido



        É difícil realizar um sonho assim. Por que é um sonho, então?

        Pegaríamos um barco voar as corredeiras e cascatas e remansos e furos e paranás, e iríamos por esse rio caudaloso aos beijos ao vento.

        Navegávamos o rio Acre, país dos kaxinawás.

        Trocaríamos beijos na proa.

        Um barco a vela, como soltos ao vento seus cabelos bonitos. E seus cabelos lindos. E seu bonito nariz de asa-delta. De sua boca de pitanga amarela. Olhos grandes bonitos grátis. Rosto pele fruta caju. Flor de chuva-de-ouro na orelha.

        Velejávamos o rio Apurema, terra dos cariús.

        Sol azul vento calmo nordeste árvores verdes céu gorjeio de catatau assobio de araponga grito de papagaio-diadema flauta de chora-chuva-preto cicio de saí-beija-flor.

        O vento tocando as velas do barco como tocando seus cabelos bonitos como tocando um taca-vento. Só os pássaros sabendo de tudo. Seus cabelos lindos eriçados como um cata-vento ao vento.

        Asas transparentes de jataí, juruaçu trapejando, enseada caprichosa, zumbidos zunidos que estavam uma coisa demais, outras enseadas, toucás floridas, comandatubas floridas, begônias-de-folha-estreita floridas, mais enseadas, nhambuanhanga cantando. E a ordem em que estava o ambiente dizia isso mesmo.

        Visitávamos o rio Miriti, local dos marubos.

        Ariscas aves pescadoras cantando assobiando trinando berrando gritando alertando trincando marrecas-cricris biguás tachãs colhereiros guiratingas tuiuiús atacando o barco e nós dois.

        Trocaríamos beijos na popa.

        Árvores rumorejando coisas impossíveis. Casais de passarinhos brincando de pega-pega. Aroma cheio no ar de chuvas-de-ouro. Tudo completo.

        Singrávamos o rio Cabixi, pátria dos krahôs.

        O mundo - o mundo todo e todo o mundo e todo mundo - nem assim.

        O barco solto tonto passageiro sobre pororoca ao vento.

        Trocaríamos beijos encontrados e abraços e beijos e carícias e risos e resmungos e muxoxos e cócegas, consumidos os dois. Depois sim, mais beijos com carícias olhares quentes e beijos.

        Percorríamos o rio Paratari, território dos kaxararis.

        Pousaríamos numa ilha dos tantos arquipélagos do rio, o sol caindo partindo para trás na cascata dos teus lindos cabelos de ouro, olhos esmeralda certa, e seus cabelos bonitos.

        Dormíamos o sono cansado das investidas, abraçados, agarrados, boca com boca aos beijos, sorrisos ao leve vento, sobre nós as nuvens, sem uma nuvem, e depois as estrelas duplas ou múltiplas.

        Tocávamos o rio Aponiã, área dos machineris.

        O rio nadando o rio. O rio habitando o caminho do rio. O rio juntando o rio. E mais rio com rio. O rio fundando a cidade do rio. Meia dúzia de quatro ou cinco rios. Rio que transborda o rio. Rio que sobe cachoeira.

        Vestiria pouca roupa, seu pescocinho lindo e saudável, caprichosa, diferente, boca desenhada. Um sorriso que igual concordaria. Uns cabelos nos olhos e os cabelos lindos.

        Aportávamos numa coroa do rio Corumbiara, nação dos waiana apalaí.

        O rio andando e voltar, o rio descendo e acreditar. O rio de uma forma ou de outra. Os lambaris nem podiam fechar a boca.

        Bacuris, muricis, bacuparis e o besouro de capa de couro passeando tripetrepe na folha de verde. Sendo por si só o menor cor metálica. E um verde com pintas pretas e antenas agitadas e motorzinho azoinando.

        Me falaria doçura de mel doce nas suas palavras de açúcar cristalino.

        Movimentando trejeitos rápidos o beija-flor-rajado, descansando um instante o uirapuru-de-chapéu-azul, se voltando para todos os lados a juruva-verde, atendendo a todos os ruídos e a todas as sombras o uí-pi, estalando gorjeio o bagageiro, limpando o bico nos ramos a solta-asa-do-sul, ensaiando passos o tijerila, voando trilando o lenheiro.

        Deitávamos numa praia branca do rio Quatro Cachoeiras, Estado dos jaminawás.

        O sol esquentando o café da manhã com a primeira coivara do dia, as árvores arbustos cipós ervas trocando ideias, os pássaros pulando da cama. O dia amanhecendo mais cedo.

        Acordaria noiva quase nua, ou inteiramente nua, a penugem arrepiada, envolta em sonhos sonâmbulos e preguiça e ressaca. Os cabelos nas costas. Esticaria os braços, lindos cabelos soltos, bocejaria e me olharia sem que eu percebesse. Não iria me acordar.

        Daí, pela praia, pés leves e descalços, urucá no tornozelo, esperta e flexível, admiraria os tracajás, os quero-queros, os guarás, os cabeças-secas, as saracuras-lisas, as garças-reais, os pés de juquiris-mansos, aprovaria o sol, cabelos acostumados com o vento doce, aproveitaria as estrelas que ainda, ouviria os gorjeios e zumbidos, miraria o sol, cabelos pintados manhã, alma serena, respiraria árvores verdes amarelas vermelhas azuis, esperaria o calor, manhã transparente e tudo mais, aguardaria o dia.

        O vento tocando como sempre os seus cabelos amarelos, os seus cabelos bonitos, e então olharia para trás, me aguardaria - e sem que eu pressentisse, pois estou dormindo como ninguém -, e seus cabelos pegando fogo do dia amarelo, cabelos orquídea amarela.

        Continuaria andando na praia do rio, o sol no início, estrelas saindo em curva acentuada, desejaria o dia radiar dardejar brilhar e eu me levantar. Pés passeariam pegadas na areia branca e macia e morna e branca. Umas flores amarelas de azedinha-do-campo. Cabelos compridos bonitos camuflariam os seios simples.

        Se tocaria nos seios dourados e quase cairia arrepiada e na manhã de toda matinada. Um casaca-de-couro estalar gargalhar. Um bando de periquitos-testinhas conversar gargalhar. Um pé de caixeta fru-fruar gargalhar. Um curutié quicar gargalhar. Um pé de sucupira-branco tru-truar gargalhar. Uma patativa roncar gargalhar. Um enxame de guiruçus zoar gargalhar. Um calango-verde tilintar gargalhar.

        Se quedaria puxando puxar assim mesmo distraída as pontas dos próprios seus cabelos lindos e bonitos. Pés na água fria e borbulhante do rio rindo. Lajedo liso e as mais pedras polidas roladas.

        Sempre, e se tocaria os cabelos caracolados, a boca, os braços, os seios, a barriga, as coxas, o refolho. Barriga baixa reta, e côncava dos lados. E seus cabelos mais leves bonitos que o perfume cor de uma flor amarela de bromélia. A jaçanã berrar de lá, rir de si para si. O jacamaraçu chiar de lá, rir de si para si. O tururu assobiar de lá, rir de si para si. A catirumbava pipiar de lá, rir de si para si. O piui-preto alardear de lá, rir de si para si. O chibante fiu-fiuar de lá, rir de si para si.

        A noiva me aguardaria deitada na praia branca deserta anônima, se sentaria no lajedo, se acomodaria na esteira tupé, se penduraria no barranco afofado de capim-marmelada, mão seguraria o queixo bonito, cabelos para trás, olhos no nascente, em sombra de um tingui-capeta, seus cabelos espertos lindos, e de frente pro vento que sempre vem subindo o rio.

        Árvores vizinhas de árvores, jaribaras juntando plantas, caputunas-pretas, guaianãs, olhos-de-boi, cutiúbas, muirajubas, jenipapos ainda mais verdes que as mandapuçás, turubis, cumaís, leques de palmeiras buritis. Árvores visitando aves, cateretê escolheu tucanuçu, passuaré estreitou com saí-verde, indaiá-guaçu estimou com macuco, aricuriroba bicou com maitaca-curica, marajá-do-igapó cumprimentou com bem-te-vi-da-copa, jequitibá-rei atacou de riso com tocava-estriada.

        O sol subindo nas sete horas esquentando a cerração, afinando as nuvens altas, matraqueando os maracanãs, guinchando o gavião-peneira, batendo o pica-pau-barrado, assobiando o tipio, brincando a caçula, fingindo o surucuá-de-coleira, rindo a rolinha-caldo-de-feijão, palpitando o cardeal-amarelo, imitando o sabiá-barranco, deixando pintar tudo de azul-azul ou azul-verde ou azul-ouro do alto a baixo e de baixo a cima, pra cá e pra lá, por que eu já estou morto?

        A biju ainda aguardaria por mim, seguraria o joelho com as mãos, acariciaria óleo de babaçu no corpo todo, os cabelos penteados manhã, seios futuro, seus cabelos apetitosos cheirosos, e seus cabelos amarelos bonitos, os modos os gestos os jeitos os beicinhos estudados, seus cabelos em ondas de sol.

        Uma vez por minuto, pegaria seu punhado de cabelos lindos e os jogaria para trás. Olharia ao redor e espreitaria por mim. Cabelos de ouro, cabelos brasa acesa, cabelos de asa de beija-flor-brilho-de-fogo, e seus cabelos lindos pintados de sol, cabelos cor de bronze aceso.

        O vento sempre assim arrepiando a penugem, os seios, a pele do braço, o sumidouro do umbigo, e seus cabelos mexidos, os jundiás pedalando na margem, os sarapós em nado livre, as pirapetingas de queixo caído, os saguirus de boca aberta, as aruanãs aprendendo a engatinhar, os icangas brincando de corre-corre, os pirapeuaua comendo açaí no café da manhã, as mandiaçus contando pedras na beira, as arraias varrendo o chão atolado de folhas secas, o barco no remanso sonhando balançando dormindo à brisa.

        Eu voo solto alto uma alma em espaço contínuo, eu sei, eu fui, eu sinto. Eu sou.

 

domingo, 30 de setembro de 2012

Olhos Grandes e Negros


Olhos Grandes e Negros

                                      

        Abracadabra. Marcela me apareceu com 25 anos. Já cansada dos seus 25 para 26 anos? Cabelos negros e longos, olhos grandes e negros, bastas sobrancelhas negras. Arranhada de divisões. Com falta de beijos, daqueles beijos estonteantes beijos. Não mais o centro do universo. Sem utopias sem praia de Marudá sem ilha de Maiandeua sem frutinhas de abio-grande. Tatuagem de colibri atrás no pescoço. Ingênua até que ponto.

        - As gurias lá de casa encontraram na rua, dia desses, um gatinho tongalante e o adotaram. Um minifelino felpudo cinza-claro adorável miado predeterminado firmes olhos de vidro amarelo-claro. Possui um instinto aguçado para com o leite morno que lhe damos toda hora. Derruba coisas, faz cara de distância, brinca com bola de tênis, se estica bocejante deitado no sofá creme, sobe se acomoda no peitoril da janela e mia para o buraco fundo do sexto andar. Tem uma alma que vem dos tempos e das eras, gostos apetites refinados, gestos apropriados macios de felino, afiados interesses, olha e pensa. É amado, idolatrado, paparicado, disputado. Acariciado coçado alisado no dorso na cabeça entre as orelhas.

        Marcela gostava de ouvir música sertaneja universitária, ver filmes de época na tevê paga e comer chocolate. Isso principalmente. Seu coração era um rio lento limpo e quente o ano todo, Juruá, Japurá, Jaú, Jandiatuba. Ver o sol nascer subir por trás do jambuaçu. Adotara um tipo determinado e recorrente de calafrio, cravara-o na alma. Se vestia adequadamente e qualquer roupa lhe caía sempre bem. Nunca usara boné, mas conforme, ficava muito tipo uma guria engraçada de viseira virada. Pernas cruzadas cotovelo no joelho mão segurando o queixo flor branca de perpétua-branca na orelha. Iluminada luminosa crepitante luz. Madura frutinha de Cambuci. Tomando água mineral sem gás no copinho plástico pra lá pra cá. Cabelo chacoalhado displicente e resplandecente. Quadris sem curvas, praticamente.

        - O que prova que estou carente, indecisa, atabalhoada, perdida mesmo, não é?! Possuo a mentalidade de uma criança, doutor. Muito boba. Sonhadora e das mais pequenas e mais fáceis. Terrível! Prefiro não sair dirigir o carro que tentar pechar confundir o trânsito inteiro da rua, da cidade, do país. Sou não sou uma um pleonasmo.

        Por que o céu não tem limites?, é que comporta tranquilamente oito andares, oito camadas, oito níveis, oito poleiros, oito estágios dependendo de quem faz aqui e vai para lá de quem fez aqui e foi para lá; o subsolo tem um único departamento e todo muito quente e muito tórrido. Há chance de ir evoluindo graduando para cima e ou para baixo. Outros nem uma coisa nem outra coisa mas, pelo contrário, reencarnam e entram novamente em órbita terrestre na camisa de uma jaçanã ou um pacu ou uma erva-preá ou uma abelha-cachorro, etc. Cada um tem a sua sorte. Cinco anéis, fogo água terra ar e vazio. Acho que sim acho que sim.

        E Marcela gostava de ver a chuva, tanta cidade, mais praia, praia Vermelha lá na Urca, muita serra, serra do Ororubá. Seu espírito voava solitário e transparente por entre paisagens e sombras de verão. O sonho enchia o coração, embalado e empurrado pelas ondas sonoras das canções amantes. Pretendia visitar Bonito, conhecer e excursionar pela serra dos Caiapós, viver quinze dias com como os índios macu-iuhupde da beira do rio Grajaú, peças tapajônicas no museu João Fona, ilha de Cotunduba, igreja colonial de Tomar do Geru. Cabelo penteado como sempre em a franja. Linda bonita e por quê.

        - Não que eu desgoste as pessoas que estão em volta de mim. Não, nada disso. Mas, certos dias certas horas, elas se tornam difíceis de suportar. Eu mesma também sou difícil e até ruim e pior. Gente que enche os tubos, que pisa nos pés, que pede coisas, que desequilibra uma negativa, que ri alto sobre coisa nem tão graciosa... sei lá. As coisas fora da ordem do controle do gosto me deprimem. Não tenho sempre que precisar de alguém. Não tenho que sempre concordar com tudo com o outro. Não tenho que manter sempre a política da boa vizinhança.

        Ela tinha receio do que pensava ser o fim da idade do sonho, idade da oportunidade de realizar as bagunças ou se arrepender das coisas que não fez, idade de curtir as vantagens de não ter filho, idade de carregar uma mochila nas costas e sair por aí por si só tropeçando nas pedras soltas da Estrada Real. Se sentia uma figurante, uma inútil, uma desinformada, desfocada, uma sombra passageira, árvore do caminho plantada, desolada, jeniparana, mamorana-grande, cajuaçu, laranjeira-do-mato, fedegoso-do-mato, cabeluda, gervão-cheiroso, craveiro-do-maranhão. Tanta coisa rolando sobre o mundo e nada. Nada com ela. Como firmar, confirmar, afirmar os próprios pensamentos. Como ser grande com essa concorrência. Queria uma direção, um sentido, um rio bom por entre a mata ciliar, umas árvores altas com verde verdadeiro. Preencher os dias inteiros com aventuras, curiosidades, importâncias, viagens, Pedra do Ingá, Betânia, Parintins está ancorada na cabeça da cobra-grande. Igual a certas pessoas que ouviu falar e que gostam de viver e vivem e procuram e acham e que não enjoam.

        - Morava ainda no interior Ajuricaba com meus velhos, 15 ou 16 anos, e brincava de dar aulas pros pés de milho. O primo Andirá apareceu e pediu para participar. Depois de um momento ele se insurgiu e me olhou me olhou. Sei o que deu na ideia do bobalhão. Ele me agarrou firme pela cintura, me beijou várias vezes no rosto por todo o rosto no resto do corpo ao acaso por aí e me atiçou a liberdade. Me furou com o dedo e me jogou no chão. Esfolei o joelho o cotovelo e fui sentindo um forte calor nas orelhas e, se me lembro demais, uma grande vontade de fugir correndo, fugir desinfeliz, fugir de olhos fechados.

        Houve um silêncio no consultório. O quadro expressionista ficou mais nítido sério artístico aconchegante na parede. Lá embaixo a rua Duque de Caxias regurgitava esgoelava. O sol no seu pino muito chamejante vermelho amarelo. Cinco minutos depois ela voltou sem muitos gestos, cabelo compenetrado de preto descaído nas costas nas costas, uma pequena mecha espanando o olho esquerdo:

        - Suas mãos seus braços suas pernas me prendiam como num laço num alicate num cadeado. No outro instante estávamos quase nus sobre a terra vermelha, rolando engraçados perto dos tucuruvas, lutando, urrando. Ele mexia com meu fundo impensado de mim, erguia águas quentes, um cheiro de capim-dos-pampas pisado, fazendo força sobre minha barriga, prendendo o meu corpo com o joelho, etc., agarrado no meu cabelo, procurando a minha boca com a boca, chupando a minha jugular. Eu não podia respirar. Os meus braços e as minhas pernas se derretiam. Tudo muito novo que até meus dentes se apertaram. Me sentia caçada tipo bicho, perseguida, suava frio, predada, jaraqui, ajuruetê, jureba, piaçoca. Assim aprendia a não confundir meu coração com meu sexo, acho. E não confundir com meu sorriso. E não confundir uma coisa com outra coisa. Até chegar a não confundir com minha alma. Tanto gritava como mordia como arranhava como esperneava como me retorcia como chorava como me arrependia como corria. Uma preá que voa nada anda corre salta agita espreita rincha.

        Não topamos nossa utopia dos vinte anos na primeira esquina dos nossos vinte e poucos anos. Esse sonho sempre estará por realizar, sempre estará noutro lugar, nunca antes e sempre depois, brinca de esconde, empurra, pega, e faz tempo. Somos nós que embarcamos no sonho, e o rio que nos carregue. Passa o tempo do mesmo jeito. E se perde o que se tem, e não se alcança o que se busca. O rio Manacapuru desce descendo e as nuvens brancas simplesmente acompanham soltas ensinadas esfiapadas no ar. Tudo meio aleatório e meio por nada e meio por que e meio criativo e meio por fazer.

        - Todos os namorados que tive... (mas nem tantos assim), tiveram mãos fortes para lidar com meu corpo. Sempre foi assim e acho que assim será assim como já está. Mãos fortes amassando o meu pescoço, alisando as minhas costas, massageando os meus seios, chinelando as minhas nádegas, etc., dedos mexeriqueiros, rombudos, incorretos, arranhudos, etc., nariz burlando o meu umbigo, ponta da língua contando as minhas pintas, negociando as minhas tatuagens, etc. Escolhem a hora que bem entendem, as horas perdidas, as horas encontradas, as horas apertadas no banco de trás, as horas lá deles. O lugar picareta, os lugares vazios, os lugares escuros, os lugares bêbedos, os lugares escondidos, os lugares acidentados das escadarias frias. Não se comportam como eu mesma gostaria, como eu mesma projetei, como eu sempre sonho. Não suportam esperar e querem devorar partes, lábios, seios, coxas, orelhas, dedão do pé. O Tucuxi, meu primeiro (eu ainda vivia no interior), aparecia lá em casa justamente nas noites de quartas e sábados e nos domingos de tarde. Conversávamos sobre motores futebol luta livre e as tarefas do trampo lá dele. Ás vezes eu precisava estudar e o mandava pra casa dormir. Nas tardes de domingo íamos passear no centro, praça Jutaí, rua avenida Marechal Hermes da Fonseca por onde as árvores voavam caminhavam desfilavam em fila única comportada indiana, canarana, pequiá, ata, carapanaúba, louro-puxuri, andiroba, cambucá. Sempre uma sorveteria ou pastelaria ou doceria, dependendo da temperatura, e caminhávamos ou não pelas calçadas olhando as vitrinas. É claro que Tucuxi gostava de mim e daquilo que eu poderia lhe dar. Aconteceram várias vezes e naturalmente e não me culpo. Um dia, porém, pintaram duas três pequenas coisas adversas obtusas contrárias fora do esquema e encerramos a modinha. Me senti com consciência intranquila, embaralhada, não dormi à noite, me revirei muito na cama, liguei a tevê no canal do gado nelore gir pantaneiro guzerá crioulo lageano búfalo. No dia seguinte já dei graças a Deus e cumprimentei o sol lindo que surgia com o novo dia e os pássaros, bate-bico, beija-flor-d’água, saurá-fogo, bem-te-vi-preto, tuque, bico-assovelado, gralha-de-crista, japacanim. Sem crise e segue o barco e bola pra frente. Era época de vestibular, sempre gostei de plantas e língua estrangeira italiana, e vim morar definitivamente justamente aqui na com em a capital Florianópolis.  

        Sonhadora e o que o mundo fez dela. Molhava os lábios carnudos com a língua - uma delícia! Olhos grandes e negros. Não podia viver sem uns brinquinhos desequilibrando as orelhas, disputando com as pontas dos cabelos lisos. Até tão radiosos como sua pele nova. Buscando o chiclete de um lado e a bala de cupuaçu do outro lado. Ajeitando o cabelo com a mão.  Sorriso sempre na ponta dos lábios no vivo dos olhos grandes e negros na palma da mão. Olhar oblíquo e parecido e premiado. O tênis com figurinha de beija-flor desenhada estampada bordada bastante da cor vermelha. Cadeiras firmes. E com a ideia intermitente de se convencer a voltar para a faculdade de botânica botânica.

        - Sabe o que é?! Acho... Fico pensando... Sabe, sou o tipo que precisa ter um cara bem perto. Relação estável, talvez casamento, amor, segurança, definição, cabeça no lugar, futuro. Bem acompanhadinhos em casa própria, compartilhando, fazendo as coisas, quem sabe chegar a pensar em um filho, vendo tevê nos domingos de tarde, supermercado no sábado de manhã, tomar chimarrão no parque caminhando de chinelo de dedo domingo de manhã, comer pizza com os amigos no shopping domingo de noite depois do cinema. Penso que casar já seja assim um tanto quanto fora de moda e até meio primitivo e desnecessário e desestimulante e ambulante e deselegante.

        Meio que me acostumei com Marcela. Mais certo: meio que me convenci de adorar Marcela. Uma vez tudo era igual junto unido a mesma coisa. Depois houve as separações. A primeira separação foi entre homens e peixes, dourado, tucunaré, traíra, lambari, bagre, acari-amarelo. Mais tarde entre homens e aves, garça-branca, bico-de-lacre, jacutinga, xem-xem, manguari. Depois entre homens e plantas, banana-do-brejo, niopó, alfazema-brava, erva-santa, barriguda, cebola-do-mato, jacarandá-da-baía. Após ainda entre homens e bichos, capininga, macaco-prego-do-peito-amarelo, paca, quati, içá, içabitu.

        Ela pegava os cabelos e parava tudo, o tempo, o mundo, a sombra do dia, o chafariz da praça Tabatinga. Puxava os cabelos para o seio e ficava agradando as pontas. Empurrava os cabelos para as costas num jeito elegante de cabeça e pescoço. Cheirava mastigava a ponta dos cabelos. Jogava por cima do ombro. E a minha vontade era de beijar de beijar lá no fundo dos seus olhos grandes e negros.

        - É doloroso quando volto pra terrinha rever os meus velhos. Não adianta, é doloroso é doloroso. Eles pertencem a outro universo e eu não entendo. Não entendo e eles não me entendem. É friorento, é abichornante. Nunca fomos bons amigos. Mesmo adolescente nunca confiava meus segredos, minhas ilusões, minhas respostas, minhas perguntas. Eu mentia. E hoje já tá bem bastante mais pior. Me acostumei a viver distante no espaço no tempo e no pensamento. E isso é ou não é um fracasso. Somos praticamente estranhos desconhecidos estrangeiros importados. Não serve mais não agrada mais está fora de cogitação. A rua que eu morava já está toda desolada desolada. As pitangueiras as pitumbas as bacabas-grandes os caxins as pacovas-sororocas ainda estão plantadas acostumadas por lá. Quando levo o namorado, que é pra apresentá-lo, eles ficam com a pulga atrás da orelha. E quando não vou com ninguém, e com vontade de comer sapecada de pinhão feita na chapa do fogão a lenha, eles pensam que vivo na pior. Sabe... Eu queria ser uma pessoa calma e cruzar os braços e ficar quieta olhando do meu canto. Eu queria ser sempre jovial despachada, eu queria ser pacanaua camamu nuquini andira malali. Vejo pelo ar o sol solto apelidado cair onde certinho com as horas para fazer a tarde avermelhada alaranjada dourada andorinhada estrelada. Me parece que vem chuva e da boa. Já não somos mais uma família esperta conversada transada.

        Era um dia de chuva, chuva pra valer, chuva forte espontânea e da natural. Marcela parou de conversar, de contar as coisas, foi até a janela envidraçada e olhou lá fora lá pra baixo a cidade molhada, mais ao fundo o mar... Quanta nostalgia! Toda ausente, diluída, cansada, repartida, inquieta, insatisfeita, estreita, desterrada, sem quê, saudosa, acorrentada, peneirada, saudades de quem. O sonho por um fio por um fio. Riscava o dedo no vidro suado embaçado, toda bem quieta e ausente e lentamente e jabota. Tal hora e debaixo do aguaceiro, a cidade vivia no barulho fazia muito alarde sacolejava espocava buzinava martelava.

        - Não sei o que acontece. Sou bem esquisita, você sabe. Todas as suas pacientes são assim meio zonzas, tolas, nada trágicas, meio moribundas, meio sonâmbulas, meio desempregadas? Hoje eu sinto que é dia de ficar em casa, ver entrevistas de celebridades na tevê, dormir a tarde toda, procurar na internet uma cidade aparecida no século XVI, não tirar os pés do chinelo de pano. Gosto da chuva, do dia chuvoso, de todas as tardes sempre chovendo em Santo Antônio do Içá, Jaraguá, Ibituruna, Guapimirim, Limoeiro do Ajuru. Durmo sem parar. Gosto de ler umas poesias uma hora ou outra de vez em quando no meio da preguiça dos bocejos do copo de suco de abacaxi. Me desculpe se estou dizendo nada com mais nada, se não me expresso com respostas, etc. Esta minha história parece sem um bom ponto de apoio, sem moral, sem tragédia, sem morte, sem manguara, sem planta-baixa, sem lastro. Admiro bastante ver os pingos de chuva no vidro. As chuvas caindo sobre tudo e as coisas. Espero só ver você dizer sobre minhas manias de comportamento. Detesto ser sem graça, sou sem graça. É difícil ser outra coisa. Pessoa boba como eu não tem muito o que fazer, não tem muito o que existir, ou pouco acrescenta, ou nada contribui. Quando voltar para a terra outra vez, da próxima vez, outra chance, quero reencarnar num guanumbi.

        Estou doente e vivo num mar sem nuvens brancas sem ondas brancas sem praias brancas sem Marcela dos olhos grandes e negros. Eu bem sei que cada pessoa tem suas neuras. Cada pensamento que a cabeça inventa! Mordo o dedo e provoco o cérebro, ocupo dez por cento da capacidade, noventa e nove do que sei é minha fantasia. E esse nada é tudo é muito é pouco. Há momentos que preferimos um abraço que um milhão de reais. Todos nós temos parafuso de menos. E lamentamos com tanta muita autopiedade. Não se deve confiar nos livros, não confio mais em livros, palpites, receitas, mapas, hipóteses, teses, pajelanças. Muita vaidade muita vaidade.

        O sol aparece pequeno nessa mão. O tempo é isso: devagar e sempre. E pegar ou largar. E lá no fim das contas o profundo fundo do universo, o outro lado do vazio, cheio povoado de trilhões de pontos de estrelas-janelinhas em forma de estrela, um negócio da China que não acaba se pensa não se entende, quando pouco uns planetas, quando pouco umas estrelas, em janelinhas tipo de planeta e em janelinhas tipo de estrela.

        A realidade é sempre a do perder perder. Por que quase sempre essa sensação de que não estamos fazendo a coisa certa ou não estamos insistindo no lugar certo? Sonhar, continuamos tentando sonhar nossos dez por cento que nos cabem ou que cabem na nossa cabeça. Quero erguer uma palhoça na beira do rio Escondido com as folhas prensadas da tucumã uma rede de dormir com as folhas trançadas da guriri me vestir como os índios cupinharó com as folhas secas e bem amarradas da camuá. Quero andar farejar urinar quilômetros graxaim pelos meus quatro domínios da montanha da serra do Mar, fazer gestos micagens estardalhaços mico-leão-da-cara-dourada do alto da figueira-do-mato, amanhecer empoleirado pipiando inquieto tico-tico-do-mato do galho da copaíba-curiarana. 

        Marcela olhou o expressionista da parede ou não olhou coisa alguma. Bota olhar parado profundo, nisso! E, sem me procurar com os olhos grandes e negros, disse usando suavidade normal na voz:

        - O síndico lá do prédio que moramos, seu Caxiri, esperou esperou chover muito chover mais chover bem chover o dia todo a noite toda e a manhã. Aí, na tarde de pouco sol, ele pegou e plantou uma palmeira da espécie buri no meio do jardim da frente. Depois foi se sentar na espreguiçadeira da área chimarrão na mão e ficou olhando divagando meditando espionando a palmeira crescer embalada pelo vento. Então, seu Caxiri, plantou sua planta, hein?! É, plantei! É, agora posso morrer em paz e quando Deus quiser, geralmente!

        Quando eu era guri queria ser jogador de futebol. Imaginava os melhores lances da partida, comprava figurinhas, fazia álbum, disputava no abafa, trocava vinte e cinco difíceis por uma carimbada. Sabia fazer gols e correr para o alambrado vibrar com a torcida. Eu inventava os dribles, driblava a janelinha o elástico a meia-lua o lençol e marcava os gols de placa. Treinava a perna esquerda na parede da garagem. Bola correndo no gramado preparado do Beira-Rio, voleio, bate-pronto, letra, cavadinha, cabeceada, bicicleta. Era só driblar pedalar dar balãozinho estufar no peito rolar na coxa e marcar de pé trocado. Pênalti pênalti!! No natal pedia uma bola oficial, jogar bola e andar de bicicleta e nadar no rio Caripunas. E não me via fora desse sonho obsessivo nunca mais.

        - Claro que pensei em ser atriz, cantora, monja zen-budista, cunhantã ticuna... Quem não sonhou sonho bom assim? Fazendo parte de tudo que acontece por dentro e por fora do mundo. Essas pessoas levam uma vida de gente, correndo o mundo, entrando na essência das coisas e das outras pessoas. Habitam pensamentos e gostos e sonhos de outras pessoas mortais. Levam uma vida de sonho realizado. São abduzidas por etês, etc. Deus aponta o dedo e escolhe. Nunca sabia que beija-flor cantasse, estou ouvindo ele cantar, mas canta muito e se bobear chilreia o dia todo todos os dias e por quê.

        Vivo no meio dessa cidade da magia desde muito, quase sempre, quase nasci aqui. Aprecio o mar, a baía-sul, as praias do sul e do norte, as ilhas e seus fortes ou fortalezas, Campeche, Daniela, Lagoa da Conceição, lagoa do Peri, forte Santana, Anhatomirim, fortaleza de Santo Antônio de Ratones, ponte Hercílio Luz. O céu azul côncavo muito alto, aparentemente vazio. Sol brincando no céu com a lua, acabaram caindo na terra, lua brincando no céu com o sol, de repente caíram levantando poeira fina da areia branca do chão. Brincando de pega, esconde, empurra, corre, pula e até que caíram do alto ao solo. O sol caiu no meio da campinarana perto do rio Macacu. A lua mergulhou no meio do remanso na curva do rio Macacu. Iam e vinham besouros izabelinhas borboletas flores amarelas verdes vermelhas lilases borboletas doces besouros desengonçados flores brancas azuis. De tardezinha o sol se recolheu atrás da montanha Dedo de Deus. A lua ensopada emergiu batendo asas de iara se sentando no barranco para pentear os longos negros cabelos. E muito mesmo os olhos grandes e negros me fazem muita falta.

        Pronto. O que foi. Marcela não aparece mais por mim por aqui e faz uma cara, desistiu. Isso me entontece, me comove, me empobrece, me enfraquece, me faz perder o tempo. Não, não consigo viver sem os olhos grandes e negros sem pensar em Marcela. Suas entrevistas me faziam um bem completo. Avivavam meus sentimentos bons, remoçavam meu sangue, brindavam minha paz, renasciam meu bom humor, iluminavam meu futuro meu futuro. Um lugar calmo natureza ao redor cachoeira branca, céu azul firme imóvel independente, ilha de Tupinambarana, rio Novo, e Marcela enrolando a ponta dos cabelos no dedo. Existe lenitivo para esta minha certeza de perder perder.

        Deixou de vir às entrevistas. Foi embora o tempo de vê-la, existi-la, considerá-la, merecê-la. Ancas estreitas. Passou o tempo bom de ouvi-la. Um tempo uma época uma era muito cheia de alegria coragem sucesso futuro férias em Fortaleza, Maceió, João Pessoa, Olinda, Fonte Boa, Mirim Doce, Minduri, Tefé. Um dia, no meio de uma manhã de enorme céu azul íntimo, o carteiro me deixou o pequeno envelope. Era convite de casamento de Marcela com quem. Convite para o senhor e a senhora tal e quais.

        Óbvio, sou eu o impaciente. Preciso de Marcela todos os dias todas as horas todas as manhãs todas as semanas, tinha Marcela toda semana, não tenho mais, Marcela feita de sol chuva cabelos de cunhantã sapuiá-quiriri, olhos grandes e negros, não tenho mais. Fico imaginando coisa com coisa, fico pensando nela, ela mesma tinha lá suas frases que adotara, gestos só dela, um nome novo de namorado, as ruas que andava e da cidade que escolheu e que namorava, a chuva que gostava de ouvir e de se molhar, a praia de Laguna dos feriadões, tomar chimarrão na sacada olhando o desfile entardecer da rua Pedro Rabello, visitar um museu a cada fim de semana, etc. Fico sonhando por ela, ela sozinha ou acompanhada pelas avenidas pintadas de vitrinas, bazares, feiras livres, tomar sorvete de açaí caminhando na calçada na sombra dos louros-cravos, das seringueiras-itaúbas, das estrelas-do-norte, das angosturas, dos angicos-roxos, dos maracujás-pintados, etc. Me falou, e quando chorou muito com o braço apoiado no espelho no espelho embora já descobrindo descoberto o primeiro fio branco de cabelo. E mais outros versos de Mário Quintana pelas ruas que ainda não andou...

        “Nosso gatinho... Já lhe falei do nosso gato, né?! Bem, Maracajá é dos mais preguiçosos. Um autêntico bicho-preguiça. E ele imagina, procura, acha, brinca, esconde. Anda dois passos, encontra a gente e fala o miau. Se a gente olhar bem de pertinho, cresce, vira felino perigoso, grande bicho do mato caçador, onça-pintada, gato-do-mato, desses que vivem se esgueirando nos  documentários do Pantanal Mato-Grossense. Quando de repente, num súbito instante, vira sábio, fica esquisito, um olhar lá dele parado, perturbador, feiticeiro, distante, igual àquelas lendas do antigo Egito, etc. São adorados como deuses, ou temidos como pajés. Tanto místicos. Em noite de tempestade, e relâmpagos, ele anda pelo apartamento todo, bem perdido, inquieto, doido, miativo, atordoado, investigativo. Você já viu relâmpago cruzar o olho do gato numa noite tenebrosa? Me desculpe. Estou falando de coisas muito sem nada a ver.”

        Levamos a vida toda aprendendo a calçar os sapatos e pentear os cabelos. Mais para o final, não teremos firmeza nas mãos para calçar os sapatos e nem cabelos para pentear. Medicar é como brincar de gato e rato. Destino desencontrado tentando andar junto em parceria com ideias desconcertantes, etc. E vou mudar pra lá, vou morar mais pra lá do rio Paraíba do Sul, além do pico do Jaraguá, para o lado de Areia Branca. E ouvir a música do vento, que vem pelo meio do quadrante, afinando as folhas simplesmente das babosas-do-mato, dos abricós-de-macaco, das abioranas-gutas, dos cravos-do-mato, das baunilhas-falsas, dos espinheiros-bravos. Olhar a mata sempre se disfarçar em paisagem e tons de verde e mais os chamados de saracura-do-brejo, bom-é, anhuma, coruja-do-mato e os encantos das flores de arumãs. Ali mesmo onde o tempo não conta não atua não existe não incomoda não lembra não pensa não vaivém. Uma frugal refeição de taperebás por dia, logo no começo da manhã começo da manhã.

        “As gurias lá de casa tão achando que devo aproveitar o cavalo encilhado, o bonde passando na porta, a bola quicando na área, o navio apitando e casar casar. O Biribá está muito afim também. A sorte tem o tal de futuro... Não posso ficar solta e desajustada e pandorga no ar pra sempre eternamente. E se o destino é aquele mesmo que a gente mesma agarra! Você já me ensinou, já me deu este toque, lembra?”

        As emoções sobem e descem, valorizam e desvalorizam no grande mercado de sempre das novas ofertas da ilusão. Na verdade, e sabemos isso já no primeiro dos nossos dias, entramos nossa sorte nesse trem que nos levará irremediavelmente para o cais estacionado no mar. Devemos usar o destino a nosso favor.

        Uns olhos grandes e negros, tipo, um sorriso bom ótimo que rebrilhava por todo o rosto, tipo, uns olhos abertos de par em par, tipo, todo seu ser aconchegante debruçado pra fora ali dos olhos afora.

        Pretendo me divorciar da minha querida esposa. Conversarei seriamente com as crianças. Elas me perdoarão. E outros climas. Gosto da Bahia, adorei, já estive lá vários carnavais quentes praias inusitados recôncavos encantadas fazendas antigas de cacau recortados litorais, e outros episódios, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Belmonte, Itapebi, Mascote.

        Marcela realmente desistiu das entrevistas. Não veio mais não vem mais. Não precisa mais dos meus ouvidos ensinados, meu olhar calmo e atual e comportado, minha respiração normal, meu sorriso habitual, minha mão segura segurando sossegada o braço da cadeira giratória de alto espaldar, meu tom de voz profissional e equilibrado e contemporâneo, minha roupa branca com a gravata azul impecáveis. Nem veio se despedir nem vem se despedir, uma vez. Telefonou um dia rapidamente e comunicou que estava grávida de três meses, uma menina linda já se via... mandará fotos por e-mail... Talvez façam mesmo lua de mel em Foz do Iguaçu. “Cataratas do Iguaçu, poderia lugar melhor no mundo?”

        A estrada é como a história da gente. A sorte da gente é como o rio. Quem quer ter sorte história tem estrada tem rio. A sorte é a sorte de um rio qualquer, Paracatu, Pomba, Carangola. Um rio passa por uma cidade funda uma cidade como Itamonte, Arcos, Campos Verdes, Palminópolis, Bom Jardim da Serra. A sorte da gente passa por uma Marcela e pensa no futuro logo longo largo.

        Marcela nem veio mais se despedir me dar um abraço me olhar com olhos grandes e negros. Claro que irei ao casamento. Não iria no casamento da minha melhor ex-paciente, cumprimentá-la no seu dia bastante feliz, entregar presente das lojas Coari, elogiá-la no seu vestido bem luxuoso e mais longo, dançar uma marca?!

        Olhos grandes e negros maiores e mais bonitos cada dia que passava. Fechava os olhos para olhar mais perto mais distante para rever buscando algo ou não. Abria felina feminina os olhos grandes e negros para me engolir devorar deslumbrar. Talvez jogue o convite no lixo, aqui do alto da janela como papel picado. Não, melhor ficar calmo nessa hora.

        Decidi não me separar da minha querida esposa. Vou dar entrevista na tevê. Vou participar de painéis encontros reuniões seminários palestras teleconferências debates. Vou me atualizar me reciclar trocar experiências escrever um artigo novo na revista especializada. Vou que vou que a última palavra é minha razão que fica.

        Mas saio para umas férias na selva e sozinho, sem máquina fotográfica, sem celular, sem mapa, sem guia local, e volto se voltar quando quiser. Quero zingar à beira da lagoa do igarapé do paraná. Lá tem muito verde e chuvas torrenciais todos os dias. Sempre aprender a remar a ubá no Embirá, Tarauacá, Acuriá, Paratari. Ver se pego muita chuva todos os dias pela tarde e mosquitos à noite. Conviver trezentos dias com os índios e as índias carútana. Pescar pirarucus amanás bodós aiuara-aiuaras, ouvir o grito dos tucanos-de-peito-branco dos papagaios-do-peito-roxo. De tantos e muitos mosquitos atrapalhados, atrapalhados na hora de zumbir e de atacar. Os quadrantes que me esperam, e que me aguardem. 

        “Anteontem, lá em casa, a gente toda, nós todas gurias, ficamos de aniversário da Sheillinha. Daí, certa hora, depois de dois litros de caipirinha com limão descascado... A Juçara baixou o som, era já hora dos discursos, muitos risos, assobios de dois dedos, deboches, etc., a Juçara que falou: “O que você quer ganhar ainda mais de aniversário, Sheilla?” A nossa Sheillinha, cabelos vermelhos de longas tranças em dupla, sardas no rosto no pescoço nos braços nos lábios na língua, etc., disse do seu lado: “Eu quero meu namorado um ano-novo conforme e nascer e me criar em Paraty e lá pelo ano da graça de Nosso Senhor de MDCLXVIII.” Ouvimos trocamos olhares sabidos rimos à vontade gargalhamos aplaudimos e nos abraçamos com efusão. E a própria Sheilla se encarregou de nos perguntar uma por uma em ordem alfabética: “E você, Juçara? E você Renata? E você Eliza? E você Aninha? E você Marcela?” E nós todas rimos, cada uma riu do seu jeito particular, cada uma ficou pensando numa resposta engraçada e otimista, fomos respondendo conforme cada uma ia lembrando de algo bom e muito bom: “Eu quero uma antiga marchinha de carnaval passado. Eu quero um grande cartaz dos Lençóis Maranhenses na parede do meu quarto. Eu quero sorvete de três bolas açaí-pequi-pitanga. Eu quero porque vou casar com um índio aiuateri. Eu quero ser mais alta que meu namorado.” E foi assim porque assim tinha de ser, não é?! Logo depois a Juçara chorou, começou o chororô, ela tem sempre as ideias, ela puxa as coisas, a Sheilla chorou, foi o efeito da caipirinha com açúcar mascavo, umas se levantaram do chão, todas nós acabamos chorando abraçadas muito emocionadas muito agarradas de não sei quê que aconteceu ou não aconteceu, etc., entende?!”

        Os lugares que eu ainda vou passar antes de me passar de todo. Os lugares dos quatro cantos. Antes do meu rio vazar no mar, tá certo?! Os pontos extremos, rio Ailã em Roraima, no norte; Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul, no sul; Ponta do Seixas, na Paraíba, no leste; rio Moa, no Acre, no oeste. E muito obrigado. Nem por isso.

        Quinta-feira passada estive procurando um apartamento de solteiro e descasado e abandonado e apartado e desesperado. O céu estava encoberto e fazia muito frio, apesar de já estarmos em outubro de dois mil e doze. E andei procurando nos bairros no centro na cidade vizinha de São José. Depois me lembrei do aniversário da minha filha e de nós quatro correndo na areia branca da praia Brava. Minha filha tem oito anos e não estuda sem a minha companhia não faz os deveres da escola sem a minha opinião não dorme sem ouvir a minha voz. Meu filho torce pro meu time e diz que quer ser um craque de futebol e ser o goleador do time e chegar à seleção na copa do mundo. E o que vou fazer e o que faço? Mas o dia estava mesmo muito sufocante muito apertado muito baixo muito enroscado muito engarrafado. Um frio nos ossos na ideia na alma. Eu parei num bar e tomei caipirinhas, três e meia da tarde da tarde.

        O secreto enigma por vir do futuro. Colmeia enxame em franca plena atividade. São os tais e quais segredos mistérios do resto dos nossos dias. Procuro uma ideia não tenho acho não quero procuro outra melhor e fico procurando.

        Os homens, mas certos homens tucuju e paiaiá e xucuru, entram no rio para se banhar e viram boto-cinzento, peixe-boi, tracajá. Outros homens, nem todos os manao e ajuru e sateré-maué e cauixana, se jogam no rio e saem, quando saem da água, já virados em capivara, tatu, bugio, cateto, tamanduá-bandeira. Alguns homens escolhidos, embora nem todos os juma e passé e uainumá e jamamadi, quando nadam nos igarapés e sangas, podem sair da água como jaçanã, tuiuiu, tachã, ema, harpia, uirapuru.  

        Vou excursionar profundamente. Vou apontar o dedo no mapa e sair viajar viajando. E quando acordar, nem se conseguirei dormir, se acordar, não estarei mais nem aí pensando na minha sorte passada anterior. Libertar esquecer certos incertos olhos grandes e negros... e idiotas.

 

             

sábado, 1 de setembro de 2012

Lua de Mel em Protásio Alves



        Muito sol no domingo de manhã e de tarde em Protásio Alves. Por isso, noiva mais noivo resolveram se casar no sábado. Um sábado de muita chuva e foi uma chuva que era o começo do dilúvio.

        O que Deus manda não pode ser contrariado. E como suportar o que Deus manda.

        A noiva foi levada de carro vermelho até a porta da igreja Matriz, ali no centro de Protásio. Entraram pela rua Princesa Isabel, pegaram a rua Zumbi dos Palmares, a Deodoro da Fonseca, a avenida Floriano Peixoto, contornando a pracinha. Não havia ninguém nas ruas, nenhum transeunte, nem gato nem cachorro nem rato nem gado. Na pracinha, impassível sob a chuvarada, o busto em pedra basáltica de Júlio de Castilhos. Ali pelas 18h e 30min e as vacas de leite já estavam no abrigo das estrebarias. Chovia o que Deus queria.

        O carro parou em frente da igreja nova. Uma prima com guarda-chuva enorme protegeu a noiva do aguaceiro. A outra prima ajudou a segurar a cauda do vestido todo em amarelo. 

        A chuva de Protásio. A chuva tomando conta da cidade, o vento tomando conta de Protásio Alves. Protásio, terra de Mário Quintana, terra de Getúlio Vargas, terra de Sepé Tiaraju. Aglomerado de morros cobertos de mato. Em breve um aeródromo com pista de pouso asfaltada.

        A noiva estava linda e toda sorridente por dentro e por fora. Sorriso pleno olhos arregalados olhar de chuva. As tias e as primas jogaram pétalas de flores coloridas quando ela galgou a escadaria e varou a porta de entrada da igreja lotada. Só podia caber de ser sensacional.

        Tinha uma música ambiente, uma decoração, uns frufrus, uma criança chorando, uns risos, uns cochichos, uns aplausos, uns vivas muito respeitosos discretos pois estavam numa igreja.

        A Suindara viu o Tururi esperando por ela no altar. Era ele: ele era ele, e não outro. Ela se sentiu flutuando, como caminhando sobre um colchão fofo, nas nuvens brancas, na superfície de um lago calmo, mergulhada numa sanga com peixes pequenos, em transe emocional, frio na barriga. Os olhos bem abertos, toda sorriso, um só sorriso pleno e perfeito, olhar cintilante, embasbacada e rosto pintado.

        Olhos abertos e bem fixos no noivo, a noiva foi indo conduzida pelo pai. Todos olhando. Ela não reparava. Olhos postos no noivo e caminhando como um robô, como um zumbi, como um brinquedo de corda, como um bicho domesticado, como um presente empacotado.

        Era uma distância infinita, um tempo eterno, um tempo sem tempo, um tempo sublime. Uma estrela e um planeta. Uma lagoa e um rio. Uma montanha e um vento. Até ela pegar na mão dele.

        Nesse momento tudo foi outra coisa. O mundo parou de vez e mais nada. Tudo foi tão de repente. Mãos dadas, mãos crispadas, dedos enclavinhados. O universo respirou fundo.

        O padre teve que repetir o pedido. Aí, Suindara ouviu entendeu sempre sorrindo sempre de olhos bem abertos arregalados, e Suindara escutou não demorou mais nada e disse sim.

        Casados, Suindara de mãos dadas mais Tururi, desceram o altar rumo da porta, cruzaram a nave sorrindo ouvindo elogios, passaram pela porta até a escadaria externa, o sino tocando adoidado, desceram as escadas com cuidado rumo do carro, entraram no auto rumo da casa do primo, casa do primo para o churrasco no galpão.

        Mas antes se beijaram quando o padre disse “podem se beijar”, se beijaram na porta da igreja para as fotos e o filme e a chuva de arroz, se beijaram já dentro do carro de janela aberta, se beijaram por conta própria de janela fechada por causa da chuva, se beijaram quando chegaram no galpão da festa.

        Não houve foguetório por causa dos relâmpagos e dos trovões, mas houve gritos de ensurdecer, tiros para o ar, estouro de espumante, assobios de tios e de primos, gargalhadas de tias e de primas, vavavá, algazarra, barulho, batebulho. Suindara de olhar úmido como a noite.

        Suindara era de Protásio Alves por isso escolheram ali para o casamento passar a noite de núpcias a lua de mel. Era onde viviam todos os parentes dela, quase mais da metade da população. E Tururi era de Serranos, muito lá pra cima no mapa, uma cidade mineira. E tinham se conhecido num baile de carnaval em Barro Preto, bairro de Vila Flores. Embora os dois já residissem e trabalhassem em Nova Prata.

        Assim, no fandango do galpão, no arrasta-pé, após o jantar muito barulhento e gozado e cheio de jogos ridículos e parentes assanhados, foi que Suindara teve de dançar com todos os primos os tios e algumas tias algumas primas.

O primo Corumbá apareceu bêbado e desbragado e foi lhe dizendo, o bafo de cerveja e cigarro na orelha, disse:

        - Sabe, Susu?! Você tá linda como uma rosa amarela na manhã clara de primavera!

        Dançaram uma marca e ele ficou tonto e se sentou num banco perto da parede. Olhava por baixo como um cachorro que comeu graxa. Depois, dormiu ali mesmo agarrado e beijando lambendo babando o encosto do banco.

        O gaiteiro não tocava nada, desafinado, ansioso, mas ninguém prestava atenção. Crianças correndo pelo espaço apertado, meninos e meninas de todas as alturas, separando os casais expansivos, brincando de pega-pega, esconde-esconde. 

E o primo Guarumbé, olhos vermelhos, nariz pingando, cabelos desgrenhados, bigode molhado de espuma de cerveja, cigarro aceso entre os dedos, veio investir insistir até que foram dançar.

        - Sabe, Susu?! Aquela vez que fomos no capão comer butiá só eu e tu?!

        Dançaram uma marca e o primo Guarumbé ficou zonzo, já estava zonzo, ficou mais perdido ainda e se largou na primeira cadeira que cruzou o seu caminho trançado. Abraçou e lambeu o encosto da cadeira, resmungou, rezingou, murmurou, tartamudeou coisas incompreensíveis até cair e rolar no chão de terra batida.

        O gaiteiro (um tio da Suindara) tocava mal, tocava bruto, tocava somente as duas notas, parava negligente para beber cerveja, mas ninguém pensava substituí-lo. O ambiente pegajoso, o gritedo envolto em poeira e fumaça de cigarro, etc.

A prima Paraúna, mostrando a língua molhando os lábios carnudos e maduros fazendo beicinho aprontando o biquinho, dentro de uma nuvem de maresia de maconha, veio tirar Suindara para uma contradança.

        - Sabe, Susu?! Você é a prima mais linda e macia e doce e suave que eu mereço! Olha que conheço todas as nossas primas! Mas você é a minha mais principal e preferida.

        Suindara fez um muxoxo.

        O tio gaiteiro se esforçava suava para tocar a vigésima sétima versão da mesma canção. Um ritmo perdido, um arremedo de gauchesca com baião e caipira. Mas ninguém pensava em música eletrônica.

        Pouco mais, o tio Jacarandá chegou sorrateiro e agarrou Suindara por trás, beliscando-a no traseiro. E foi exigindo uma marca, pelo menos uma música, um abraço apertado, dois três beijinhos nas faces. No meio de todo mundo, palito de fósforo no canto da boca suja de torta de chocolate, um hálito de cigarro e vinho tinto de garrafão. E ainda foi despejando todo pretensioso, olhar de gavião-carijó, todo maneiroso, pernóstico, a seguinte preocupação lá dele:

        - Sabe, Susu?! Você precisa reparar mais nos teus seios. Quero dizer, você precisa fazer um seguro. Você deve proteger muito os teus seios lindos e empinados e tenros com um seguro de vida, hein?!

        O bafo encardido do tio Jacarandá queimava do cabelo até o pescoço passando pela orelha de Suindara. E ele queria porque queria colar o rosto. E queria porque queria mordiscar a ponta dos cabelos dela.

        Umas três e meia os recém-casados fugiram da festa e se mandaram para a casa do primo, logo ali em frente do galpão e no isolamento do sótão e no escondido do quarto preparado. Chovia como nunca e eles nem aí, rindo sem parar, mãos dadas, olhos nos olhos, afobados, desatinados, precipitados, descontrolados, se dando tombos e encontrões.

        Ainda bem que o rangido da cama se confundia com o barulho da chuva no telhado de zinco. Ainda bem que eles já estavam acostumados uma com o outro e nem precisaram muito de muita luz. Ainda bem que era no sótão e ninguém ficou atrás da porta ou da janela para ouvir algum ruído exagerado e agoniado e extremado e excedido. Mas estavam tão cansados que mal fizeram amor uma hora e vinte minutos e apagaram dormindo um sobre o outro, na verdade ela sobre ele, como dois cipós-violetas abraçados e emaranhados e confundidos e entrelaçados.

        Protásio Alves já fora encruzilhada de tropeiros, passagem de tropas de mulas. Não se pode esquecer das cores vivas de Protásio, do clima, das encostas, das plantações de milho. Épocas antigas, a região de Protásio fora pouso de tropeiros, parada obrigatória de tropeiros. Ali onde hoje é o armazém do seu Sairé. Um caminho ligara Caxias do Sul e Lagoa Vermelha, o outro entre Passo Fundo e Vacaria.

        Acordaram na manhã com o foguetório ensurdecedor prometido na véspera e que só agora os tios e os primos viram oportunidade. Um foguetório que não parou mais. Entre um estrondo e outro os risos do pessoal, os assobios, as gargalhadas, os ditos, as vaias, os espalhafatos. Só coisas assim.

        Suindara, dedos enfiados nos ouvidos, os olhos cansados, espiou pro lado. Tururi estava olhando pra ela, olhos pisados e mãos em concha abafando os ouvidos.

        - Que estardalhaço, nega!

        E ele correu para o chuveiro e ela correu atrás. E eles entraram debaixo do chuveiro e foi um banho que durou dois minutos porque voltaram a trote para a cama e molhados e atacados de uma ânsia. A cama batia na parede a cada arranco. E lá fora não existia mais foguetório nem ninguém nem pé de araçá carregado nem dia de sol puro nem mundo algum.

        E sem tirar sem largar sem sossegar sem sair foram até as duas e meia da tarde, quando morreram e adormeceram. Nem se lembraram do mundo, quanto mais de comer (comer coisas de mastigar, de se alimentar, de se sustentar e de se encher o pantufo). Era domingo e Deus estava de folga.

        O sol vem e vai, fazendo o tempo; faz tempo. Que o tempo se cumpra, dia hora minuto, como um mosaico, como um jogo de cartas, como no jogo do bicho. Não existe antes disso ou depois disso.

        Hoje, entrando por aí, chegando acolá, Protásio Alves tem 1982 (mil novecentos e oitenta e dois) habitantes. Tirando os parentes de Suindara ficam no resultado uns 241 (duzentos e quarenta e um) habitantes. E tem cascalho!

        E Protásio Alves fora médico e político numa reencarnação. Na outra estava nome de rua. Numa passada ainda foi nome de colégio. E nome de cidade. No futuro quem sabe nome de metrópole tipo São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Belém. Metrópole decantada.

        Vinte horas e pouquinho, o casal de pombas-rolas levantou para jantar. Suindara, pele limpa sem brincos sem pulseiras sem anéis cabelos soltos e bagunçados olhos oblíquos rosto iluminado. Estavam muito risonhos e agarrados e rindo por qualquer coisa, mãos dadas, espontâneos, expansivos.

        - Olha a sua barba crescida, nego.

        - Você sempre quis uma barba rala, nega.

        E riram de se torcer.

        - Você está adoçando o café com duas colherinhas.

        - Sempre foi assim, praticamente.

        E riram de chorar.

        - Experimente esse quindim, nego. Abra a boca.

        - Quer canoinha de melão na boca, nega?

        E riam de cair pra trás com cadeira e tudo.

        Por acaso ele se queixou de um aperto no braço. Só falou, mas achou que não era nada. Ela muito se interessou. Queria fazer massagem. Queria fazer chá de juciri-de-comer. E correram para o quarto fazer massagem e tomar chá de colherinha dado na boca. Um imitando o rasto da outra.

        E rolaram no chão até cinco da madruga, quando pegaram no sono debaixo da cama e ficaram por ali mesmo. Uma chupando o dedão do pé do outro. Tinha ventilador. Não tinha vencedor.

        A cidade de Protásio, terra de Clarice Lispector, país de Pinto Bandeira, respira ar puro 24h e aguarda por um discoporto. Gritedos de bandos de periquitos-verdes, cantos de azulão, guinchos de almas-de-gato, chamados de bugios logo pela madrugada, grilos, sapos, besouros mais pesados que o ar. Um conjunto de morros desperdiçados continuados. Passarinhos sem dono.

        Segunda-feira acordaram depois das onze e doze. Desceram para o jantar e acabaram tomando café. Suindara com olhar manhã. De mãos dadas agarrados sem se soltar como irmãos siameses. Comeram tipo bichos. Acomodados muito bem acomodados na mesma cadeira. Apetite ruidoso. Ela pensava em se servir de café, ele lhe alcançava o bule; ele pensava em passar o mel na bolachinha, ela lhe destampava o pote.

        Suindara estava toda esportiva festiva risonha alegre saltitante espontânea pronta para mais mil noites sem parar sem intervalo e pausa só para o pipi. Tururi reclamou da perna puxada, bocejou, e meio que se queixou assim:

        - Acho que você se deitou na minha perna, nega.

        - Desculpa, nego, mas não me lembro.

        Ela queria fazer um chá de juá-arrebenta-cavalo e fazer massagem e fazer cafuné. Além disso, sempre de mãos dadas e não tirando os olhos um do outro e bebendo muito suco de tomate.

        Lá fora? Bem, Protásio não tem terremotos, tsunamis, greves de servidores federais, inundações no verão, incêndios de grandes proporções, guerras, tráfico de drogas, neve, favelas, praias de areia branca, contrabando de armas. E Protásio é terra e país de Villa-Lobos, cidade natal de Teixeirinha. Aliás, dia de semana, Protásio Alves vive quase deserta, já que todos ou a maioria trabalham fora em Nova Prata ou em outras cidades por perto. O centro de Protásio abandonado, a rua do Poço um deserto, a rua das Araucárias um silêncio. A praça dedicada às abelhas-mosquitos que procuram o néctar nas flores novas dos maracujás-azuis. Protásio Alves, cidade acolhedora, melhor clima do mundo, capital do mandolate, e onde o craque multicampeão Dunga sempre vem passar as férias de fim de ano com a família.

O único comércio aberto é a bodega. O bar do seu Sairé, que é bodega e lancheria e restaurante e parada do ônibus (que chega e parte para Nova Prata uma vez por dia), e correios e clube de bocha e farmácia e açougue e pousada e ponto de encontro na noite protasioalvense.

        Mas lá fora era lá fora e os amantes pouco se lembravam ou se importavam. O casal queria mais era se olhar e se acariciar e se engalfinhar e se cutucar e se empurrar e se provocar e tomar fôlego e continuar e suspirar.

        Almoçaram e correram para o quarto. Ele se queixou de uma dor do lado. Ela prometeu massagem e chá de jurubeba-de-espinho. E sem se importarem que podia fazer mal de estômago cheio. Se grudaram se ligaram séria e ferrenhamente, fisiologicamente. E sem cessar até madrugada. Ganindo, resfolegando, exorbitando, soluçando, pedindo socorro, se espojando, etc. Não precisavam saber como era feito de molas a cama. Riam muito. Logo ele parou de rir e ela uivou. Logo ela silenciou de uivar e ele uivou. Quando foi, dormiram abraçados, um lambendo o joelho da outra.

        Na terça-feira acordaram cedo, ali pelas 10h e 25min. Bagunçando o dia pela noite a noite pelo dia, etc. Persianas fechadas um escurinho um ar eletrizado um cheiro de balaca. Suindara tentou adivinhar a espécie de passarinho que cantava, o curió, o bem-te-vi-do-gado, o tuí-tuí, o ferreirinho, o tico-tico? Tururi ouviu o João-de-barro, o coleirinha, o sabiá-laranjeira, a corruíra? Ficaram rindo mesmo na cama, de mãos dadas, sobre os lençóis amarrotados, respirando o ar quente um do outro, se lambendo o nariz, se beijando nos olhos, se enrolando o cabelo.

        - Que horas são, nega?

        Riram até cansar, riram muito.

        - Tem sol lá fora, nego?

        Riram até muito, cansar de rir e muito.

        - Lembra que você me prometeu ensinar a dirigir, nego.

        E riram como bandeiras ao vento.

        - Uma coisa, nego. Eu tinha um sonho frequente recorrente intermitente.

        - Que sonho, nega?

        - Eu sonhava sempre o mesmo sonho ridículo. Isso todas as noites, sem perder uma noite. Era sempre o mesmo sonho, sempre igual, sempre idêntico. Sonho repetido sem variação.

        - Um devaneio, nega?

        - Eu sonhava que saía da cama, caminhava até a cômoda, abria todas as gavetas procurando uma coisa. Não sabia o que estava procurando. Nunca encontrava o que procurava. Na outra noite a mesma coisa, o mesmo sonho, o mesmo devaneio, eu saía da cama, caminhava até a cômoda, abria todas as gavetas procurando uma coisa que não encontrava e não sabia o que era. Todas as noites assim. Durante semanas, meses. Aí, um dia o sonho não veio mais, desapareceu. Entendeu, nego?!

        Brincaram de fazer cócegas. Se perseguiram pelo quarto, se jogando travesseiros, se fazendo cócegas e, de repente, ele muito cosquento, soltou um pum... Aí mesmo pararam, ofegantes, se olhando em silêncio. O primeiro pum de casados. Mas descontraíram e voltaram a rir e gargalhar de tudo e muito e se perseguir e se correr atrás e fazer cócegas e largar pum, pum...

        Bem, Protásio Alves a vida inteira, cidade interessada nos jovens que partem para outras cidades da região, quantos anos e séculos, terra natal de Carlos Gomes, país de João Goulart, cidade natural de Cândido Rondon, candidata às olimpíadas de 2032, a existência inteira sempre Protásio Alves.

Levantaram mais tarde, lambuzados, esfarrapados, desmilinguidos, amarfanhados, e depois das 14h. Outro sim. Os travesseiros jogados pelos cantos, o crucifixo torto na parede, os chinelos de pano perdidos, cascas de laranjas, cascas de bergamotas, cascas de amendoins, sementes de jabuticaba.

        - Espera que procuro seus chinelos de pano, nego!

        Café da tarde comeram pão bolo suco de laranja muito suco de laranja biscoito misto-quente canoinha de melão melancia sorvete de açaí tapioca suco de laranja mais suco de laranja.

        Nesse ínterim. Os pontos turísticos de Protásio Alves. Um sítio arqueológico. Uma vez, diziam, existira por aí uma tribo de índios coroados. Eles habitavam esse lugar e se alimentavam de antas de preás de gambás de porcos-do-mato de capivaras de tatus de jacuapetis de seriemas de araticuns de pinhões. Na noite se abrigavam nas cavernas dos morros enrolados em peles de anta. Já vieram pesquisadores do país e do mundo conhecer e comprovar essa teoria. Descobriram buracos onde os coroados deixaram seus potes suas pontas de flechas seus mortos suas pedras lascadas seus restos de fogueiras.

        Curtiram andar de charrete pelo centro histórico. Subiram a pé e de mãos dadas até o morro da gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Para agradecer à santa e olhar o mar. O mar lá longe. Sentaram num banco de pedra basáltica. O mar perdido no horizonte, e azul como o céu como o próprio mar. Mar verde como a mata que cobre os morros tantos. Tururi se queixou uma vez que tinha o pé direito todo formiguento. Suindara queria parar tudo voltar correndo para fazer massagem e um chá de folha de laranjinha-do-mato.

        A vista normal e bonita do centro de Protásio. Olharam o que a vista alcançava. A cidade ali. Protásio Alves já teve estrada de ferro estação ferroviária. Hoje tudo abandonado ferro-velho e atração turística. Os barracões da estação viraram biblioteca museu teatro casa do idoso. Dizem os antigos moradores que o último lobo-guará do Estado do Rio Grande do Sul viveu seus ótimos dias aí pelos matos e morros e cavernas adjacentes.

        - Está vendo aqui, nego?! Aqui é a casa da minha tia, a amarela com janelas verdes. Aquela, de cor branca com janelas marrons, é da minha prima. Já aquela de dois pisos e cor laranja, chaminé fumegante, é a casa de outra prima minha. A de platibanda que fica do lado mora o meu tio.

        Protásio tem morros como nunca. Para plantar nas encostas dos morros os colonos usam a espingarda e colhem com o laço. E plantam muito milho. E tem muito marmanjo sobrando em Protásio Alves. São rapazes, curiosos, capazes, solteiros, loquazes, mas não querem estudar para padre.

        Uma tarde, sem telefone, sem internet, sem grenal, Tururi perguntou:

        - De quem esse teu cotovelo, nega?!

        - Te digo que é meu e teu, nego!

        - De quem são essas tuas sardas todas, nega?!

        - Daqui pra frente são minhas e todas tuas, nego!

        E assim tudo. E tudo ele beijou, e tudo ele lambeu, e tudo ele apontou com o dedo, e tudo ele mediu a palmo. Até chegar a alvorada. E depois disso, foi já a vez dela explorar o terreno, hectare por hectare. Um e uma volúpia sem restrições sem tabus.

        O dia branco de Protásio. A terra natural de Miguel Calmon du Pin e Almeida. Suindara de olhar verde como o verde do mato todo sempre por perto. As aroeiras os angicos as macambiras-de-pedra as manicatas as salsas-do-brejo, se sentem bem e conforme no clima serrano de Protásio Alves.

        Protásio Alves saiu por aí, andou aí, e hoje convive com 1998 (mil novecentos e noventa e oito) habitantes. Tirando os que trabalham em outras cidades e só vêm no fim de semana ou fim de mês ou fim de ano, restam moradores fixos uns 857 (oitocentos e cinquenta e sete) habitantes. E tem espinho!

        Suindara e Tururi, de asas dadas como duas araras enamoradas para sempre, desceram até o açude. Ficaram na margem olhando os peixes, os aguapés, as zabelinhas. Os peixes olharam para eles esperando qualquer coisa. Os jutaís-mirins olharam para eles e não disseram nada.

        Logo se sentaram na sombra de um jatobá frondoso. Os suiriris-do-campo gueteguetearam do alto das canjeranas gameleiras-brancas buçus cabos-de-machado vassourinhas pereiros-da-serra pitombeiras. As tesoureiras e outros pássaros também.

        O ambiente reverberava. Protásio dentro do céu branco. Suindara de olhar rebrilhante como a superfície das águas claras.

        Deus relaxa os pés no riacho raso. As pedras molhadas e os peixes escamosos se riem. O vento vem de longe ondular as verdes matas.

        E Suindara e Tururi se olharam e rolaram na grama. Muito lazer. Suando muito, ofegantes, narinas acesas e latejantes. Os galos-da-serra as tesoureiras os papa-sebos os chupins os pica-paus-dourados as mães-do-sol as borboletas os besouros as zabelinhas viram aquilo tudo sem reparar.

        Deus senta na sombra da outra margem. A grande árvore é costumeira.

        Os dois tico-ticos enamorados só foram cansar muito perto da noite, dentro do lusco-fusco, e ele se queixou de uma dor na coluna.

        - Quer que eu faça uma massagem, quer um chá de folha de mulungu, nego?! Vamos subir pro quarto que te faço uma massagem com estilo, um chá de colherinha servido na boca, prometo!

        E foram correndo porque a massagem e o chá eram urgentes urgentíssimos. Mãos dadas, e quem chegassem por último pagava o pato.

        Outro dia ali pelas oito e meia, muito cedo, foram com o primo Coroanha e a mulher do primo Coirama-Branca, plantar batatas-doces. Subiram mais pra cima no morro. O primo precisava aproveitar o clima, os dias bons após uma boa chuva, e o casal de pintassilgos até se ofereceu para ajudar.

        O sol veio de onde. O sol chegou em uma de suas viagens interplanetárias, do leste profundo, e o sol aterrissou buscando os crentes e os ateus, o sol veio passar ali pelo verão de Protásio. Protásio Alves terra natalícia de Carmem Miranda e de Portinari e de Duque de Caxias. Em breve uma rua com semáforo. Em breve um guarda de trânsito.

        Meio-dia e meia voltaram sujos de terra vermelha cansados famintos sedentos vermelhos carentes sorridentes saudosos mãos dadas. Uma não tirou os olhos do outro e chegaram em casa e correram para o sótão e tropeçaram na escada e se jogaram no ninho. Não voltaram mais para a roça na parte da tarde ou no dia seguinte.

        Suindara tinha uma tatuagem no tornozelo esquerdo, de quando ainda não conhecia Tururi, etc. Foi influência de uma amiga muito independente que morava junto num quarto alugado no bairro São Cristóvão, perto do trabalho delas ali no Distrito Industrial de Nova Prata.

        A tatuagem era um tori. Um símbolo xintô. Coisa muito linda e exótica e espiritual e japonesa. Ela se convenceu escolheu viu pensou uma vez o tori estiloso e se envolveu mesmo e tatuou.

        - Seu João! - João Porto, negão retinto, também conhecido como o Boca de Mel - Seu João, tatue o tori no meu... acho melhor no meu tornozelo direito, viu?!

        A lua de Protásio é diferente. Mais próxima, mais fácil, mais cheia de crateras, mais resplandecente, mais enorme, mais rodeada de estrelas e bombardeada de cometas, mais satélite. A lua e as estrelas cadentes. Estrelas estalando como grilos. As estrelas são países de poetas cantoras heróis ecologistas libertadores.

        E depois, ou antes de tudo, Protásio ainda não tem um porto marítimo. Mas tem morros verdes que lembram muito o mar por causa das ondas dos sobe-e-desce. Protásio tem açudes de pesque-e-pague e o rio da Prata, que a liga a Nova Prata.

        Dizem os cientistas e os pesquisadores e os entendidos e os espertos, que uma vez, muitos e muitos anos atrás, Protásio Alves era puro mar. Por isso tanto morro lembrando ondas verdes e revoltas em Protásio atual. Por isso já se encontrou por aí esqueleto de baleia jubarte, carcaça de tartaruga-marinha, rasto de polvo, pedras com fósseis de peixes os tipos mais diversos, etc.

        Os felizes felizardos de para sempre, desceram ao açude para ver peixes e passarinhos e árvores e pedras da beira da água. Mãos dadas como casal de canarinhos-da-terra. Se sentaram nas pedras lisas com os pés nas águas limpas. As goiabeiras-do-mato carregavam as flores e atraíam os tucanos-de-bico-verde. Deu pra ver.

        - Olha, nego! São tucanos!

        Como Suindara amava o xintoísmo - o caminho dos deuses -, depois de tatuar um tori, então, ela era amante amantíssima da natureza e acreditava que todas as coisas possuíam alma. Alma sem cor, translúcida, cristalina, transparente, etérea. Uma peroba-tabuada tinha alma compatível. Um louva-a-deus tinha alma compatível. Um tchintchorrintcho tinha alma compatível. E assim por diante.

        Ela pegou a mão de Tururi e se sentaram na beira do açude para olhar a natureza em volta. Tudo lazer para os olhos e os outros sentidos. Os cinco sentidos alertas ligados sedentos de se abastecerem das essências das coisas, dos verdes, dos pios, dos voos, dos zumbidos, dos espaços em branco, do chirorrio da água corrente.

        A represa com as baronesas as iapunaqueuaupês o araticum-de-espinho o saíra-beija-flor. Verdadeira adoração pelos morros pelos matos pelos riachos saindo de dentro dos matos. É do morro escondido de vegetação que descem os fios de água. Do meio do mato que vem o pio do inhambuxororó.

        Em pé, Suindara fez pedidos aos deuses. Sentada na grama, Suindara cultuou a natureza. Deuses disfarçados de plantas de bichos de insetos de açude de pedras de cascatas de morros.

        Mergulharam no açude se jogaram e jogaram as roupas de verão para o alto. Os quero-queros profundamente nervosos preocupados temperamentais. Tururi imergiu e Suindara deu um pulo e um grito histérico. Ela imergiu e ele deu um pulo e um brado maluco. Jogaram pedrinha no fundo e apostaram mergulho e foram buscar.

        Deus se transforma rapidamente em aguapé, em saracura, em lambari, em sapo-ferreiro, em borrachudo.

        Suindara nadou até a beira da água e se perdeu no capim alto, entre os picões. Tururi foi atrás rastejando, por entre os gravatás. Quando viu passou por cima dela e ela ficou engasgada, apoplética. Quando ela se virou do avesso ele ficou sufocado, apoplético. Se pintaram de barro.

        Já virados em puro barro, disfarçados e camuflados no barro preto, deslizaram como lesmas, como jacarés-de-papo-amarelo, barro até os olhos, até os cabelos, até os ossos, muito assustando os quero-queros, os ratões-de-banhado, as jaçanãs, etc., e se puxando pelo pé.

        Dentro da água, rolando no capim encharcado, pegando micuins, se ralando, o que buscavam era a glória, a glória.

        Depois caiu uma tromba de água uma chuva rápida e mesmo debaixo da chuva correram foram comer pitangas. Suindara de olhar de chuva.

        E a gente pensa que essas artes nunca acontecem com a gente!