sábado, 25 de fevereiro de 2017

Contos de Santa Luzia (4)




         Um ano mais, um ano menos. Um ano antes, um ano depois, mais ou menos. Quem olhava os lados da coisa via se repetir a poeira. As horas pra lá de quentes.
         O arraial o lugarejo a vila de Santa Luzia sufocava debaixo das nuvens pesadas e vermelhas. Entorpecida de calor. A rua Única governada pelos sacis arteiros. A pracinha das ex-paineiras ex-paratudos ex-mata-cachorros... reduto dos piás que jogavam bola com lata vazia. Tempo contrariado.
         A prole espreitava a chegada de Boca-de-Barro o progenitor. Umas 18h e o mormaço ainda matando a pau. Terríveis o calor e a poeira vermelha. O bando todo ficava ali por conta do casebre espreitando o retorno do pai. Olhavam o teto, olhavam as paredes, olhavam sem ver, falavam sozinhos, se abanavam do calor extremo, cochilavam... Outros iam até a abertura olhar a rua Única, vazia e irrespirável. Embora restassem mudos e pensativos jogados ali quietos e delirantes. Perdendo todo o tempo do mundo e do universo. Todos sempre aguardando a vinda do chefe.
         Um dia com calor insuportável. Meses de estiagem. Brasas na cabeça. A aldeia de Santa Luzia respirava poeira vermelha, ventos quentes, mormacentos, redemoinhos de sacis. A poeira chegava do deserto vermelho e já tomava conta das choças, entrava pelas aberturas, pelos buracos da parede de pau-a-pique. Chão seco estorricado escaldante. Árvores da pracinha como espetos de pontas pretas apontando o alto, ex-paineiras, ex-cajuaçus, ex-icacorés-catingas... Nenhum ser se mexia no ambiente. Dias secos e abafados. As pedras derretiam sob o calor intenso. Nuvens medonhas tapavam os raios do sol. De dentro do redemoinho se ouviam risos, gargalhadas, assobios, malandragens, ah eh eh eh!...
         Finalmente o pai chegou, sempre na hora, em cima da hora, seis e meia da tarde. Era o único que enfrentava a soalheira infernal e trazia poeira de fora. A mãe ficava em casa, afundada até o queixo, abraçada a si mesma, olhando eternamente o que-fazer ou o que-nem-fazer. O filho maior, 13 anos; o de 12 anos; o de 11 anos; a menina de 10 anos; o menino de 9 anos; e a caçula de 8 anos quentíssimos e secos. Todos cansados de nem fazer nada, todos cheios de aguardar a mala cair do alto que nem vinha nunca nunca. Flagelados sem o que consumir ou reivindicar.
         O patrão chegou e foi surpreendido com um acesso de tosse. E tossiu três vezes. E tossiu quatro vezes bufando poeira. Tossiu todas umas vinte vezes. E tossiu quantas vezes achou possível. Depois, os olhos secos e vermelhos, a cara vermelha de sol, a pele vermelha de poeira do deserto, contou e foi contando a prosa demorada e com pouquíssima variação:
- Olham vocês. Dentro de 15 ou 20 minutos vai passar aqui o seu Poti, um camarada pedreiro, mora na pedreira, trabalha comigo na pedreira, e vem trazer um filhotinho de guaipeca. Quem já viu cachorro? Quem nem precisa de cusquinho, em?!
         Aí, por toda família Boca-de-Barro transbordou uma agitação, um tremor, um arrepio, um frenesi, uma vertigem. Os olhos de todos esbugalharam, a cara de todos foi suou de escorrer, as pernas nem aguentaram. No geral ficaram naquela expectativa dos olhos secos e bem acesos. Menos o pai maldormido que já queria deitar. A mãe correu se esconder envergonhada. A molecada começou a fazer previsões e planos e cálculos e projetos. E já repartindo o cãozinho em mil pedaços partes e fatias. Os mais apressados até vomitaram ou desmaiaram.
         Se postaram nas aberturas da parede, na soleira da porta, no pátio cheio de calor e poeira, junto da cerquinha de ripinhas pintadas de um branco já descascado. Cuidadosamente espiaram como nunca espionaram. E curiosidade inédita calculada pegajosa.
         O vento rolava na poeira, o sol parado entre as cinzas, o tempo nem passava nem voltava nem dava as caras. Nem chovia há dezenas. Dias e noites eram pesadíssimas a fuligem a areia.
E lá no fundo da rua Única, ponta norte, vinha pintando quem? Primeiro uma nuvem de poeira muito baixinha. Depois uma sombra debruçada. Só mais depois um enguiço chamado seu Poti, pelo chapelão. Depois o seu Poti com um embrulho debaixo do braço. E mais logo o seu Poti com um pequeno au-au na axila. Um cão que, de tão pequeno, parecia nem estar ali. Que de tão miúdo nem precisava de nada. Que de tão simples nem dava para nada. A gurizada se mexeu, a jaguarada correu, xingou, voou, atropelou, tropeçou...
         Olhando o cãozinho dava até vontade de troçar, à primeira vista. Um filhotinho de vira-lata, mais ou menos marronzinho com umas manchas de vermelho, frágil, magro, tímido, inexperiente, medroso, olhos grandes negros doentes, boné de orelhas dormentes e rabicó entre as perninhas tortas. Um totozinho filho do nada do quase imperfeito descendente de ninguém.
O personagenzinho foi obrigado a rodar de mão em mão pela curuminzada. E numa rapidez e afobação e maus-modos que o deixaram tonto, estressado, enjoado, cansado, dolorido... Uma historinha sem nada de suspense e com pavor de altura e de gente e de bicho. Nem tinha tempo de cheirar e olhar o freguês. Cauda prevenida, língua balançando, olhos atônitos estúpidos. Sem nome. Única coisa por enquanto saía um latido misturado com miado, assim, eunhé! eunhé! eunhé!... O cãozinho mesmo nem sabia que estava no mundo ou que procuravam tratá-lo como sopinha.
         E na primeira hora a gurizada já procurou um nome. Ah, mas ia ser difícil! Um vexame para a piazada. E o tipinho do cão, que preferia explorar o território, nem conseguia parar no chão, nem conseguia dar dois passos, nem conseguia se livrar das mãos e do excessivo aperto dos pivetes. E o tipinho com já o hábito de farejar tudo e todos. E o cãozinho já preocupado com quê. E o vira-latinha ainda sem saber latir, eunhé! eunhé!...
         No grande debate de escolha do nome todos queriam declarar a particular falta de paciência. O pai foi para a pedreira. A mãe tinha o dia todo para nada e cruzar os braços. E a biguazada achou melhor fazer um sorteio ou uma assembleia com bingo. Cada qual escreveu uma sugestão de nome num papelzinho. E jogaram todos os palpites dentro de uma caixinha de sapatos. Se agitou sacudiu mexeu bastante. Já prontos todos para um vexame? Todos rapidamente fizeram figa e apertaram nos beiços os dedos cruzados. E ia ser retirado o nome premiado do cãozinho.... a-ten-ção mesmo:
         - Filé!!
O nome escolhido simples assim remetia ao sorteado que daí em diante seria o dono preferencial do cão. O mal dessas competições era que a maioria, ou todos menos um, acabava perdendo e ficando com nojo rancor despeito ódio. E eles acabaram perdendo e ficando com ciúmes e urrando como loucos. E eles, os perdedores, restaram sérios e nem ficaram para mais nada mesmo.
- Filé?
Pronto, o nome do novo membro da família Boca-de-Barro era o Filé. Quem vibrou muito foi o nº5. Então, assim, os fracassados e passados para trás torceram o nariz e rogaram pragas. Menos a caçula, que era muito sem-noção para entender questões de política e economia militares.
Mas era que a tarde estava muito quente e quieta e anônima. As pedras sem o que falar nem se mexiam. As ex-árvores da pracinha despidas carbonizadas mortas petrificadas esqueletos tocos sujos de ex-candeias-de-caju, ex-embaúbas-purumas, ex-perovas-amarelas, ex-timbós-açus, tocos de ex-marmelos-bravos... Saci no olho da rua poeirenta brigando de rodar em volta de si mesmo. Terra rachada muda abafada estraçalhada. Nem chovia há oito séculos e meio. O côncavo de nuvens vermelhas derretido como sucata no forno. E nenhuma de nada de natureza.
Portanto, o nº5 passou a fazer tudo pelo Filé. E a querer exclusividade. Fazia companhia acompanhamento e alisamento no dorso. Segurava puxava a cauda com calma e na sacanagem. Rolava com ele no quarto sobre o colchão de palha de milho, no assoalho da sala, no terrão do pátio. Achava um punhado de capim-açu ressequido para ele mastigar. Encontrava sempre uma pedra rolada para o bichinho lamber. Iam os dois atrás de rastos de lobisomem pela quiçaça requeimada. Pois o quinto na escadinha gurizinho impedido de crescer, amarelado, inchado, mazorro. Foi mesmo o n° 5 que preparou o lugar na despensa vazia onde Filé iria dormir e se possível roncar.
         O Filé odiava aquela luz toda do dia todos os dias. E o cãozinho maldizia aqueles redemoinhos sempre dando risadas, piando, fazendo sombras e ondas vermelhas. Corria atrás dos sacis, quando podia, quando tinha disposição. Farejava o pé-de-garrafa quando menos esperava. O cãozinho detestava aquilo de andar pelaí na vila. E evitava passear com o nº 5 no pátio, na rua Única. Ainda sem memória, o Filé já penava com os dias supercarregados de mormaço e de nunca nada para engolir. Filé e seu desdém desdenhoso de se desvencilhar. Que coisa!
Se mandaram os primeiros dias e num porre atrás do outro. Passou a semana, um sufoco. E a semana foi mesmo muito tempo. Filé comia terra, pastava palha seca, lambia pedras lisas, mascava pedaços de madeira, farejava rasto de mula sem cabeça, martinta-pereira, bolaro. Olhava em volta sem ver o mesmo horizonte tremendo evaporando no mormaço.
O cão já estava se adaptando àquele ambiente de família fingida, falida? Adquirindo uma boa autoconfiança? Já estava deitando onde queria e lhe dava na telha? Já acostumara com aquele ambiente de extremo mormaço? Também estava se inteirando dos seus limites territoriais? Confiava nas atitudes das criaturas que o adotaram, e o cercavam e o iludiam?
         Um mesmo vento enjoado teimoso soprava mais e mais hordas vermelhas, a lua e as estrelas pedalavam confusas congestionadas, o lobisomem uivava, iuuuvi!... Aquele calor de forno chegava ao fim do mundo. As ex-árvores da pracinha, ex-paineiras, ex-quebra-arados, ex-ingazeiros... apontavam dedos roídos para as nuvens de areia. O oco amassado encardido infiltrado. Nem chovia havia 13 anos.
O Filé tinha um ar desanimado, torto, misterioso, cheio de enigmas ou escamoteamentos. Podia sujar as quatro patinhas o pelo ralo as orelhas murchas no pó fedido do quintal. Outras coisas, e outras coisas próprias da natureza do cão ele já tinha. Já queria se adonar de tudo e se possível exigir coisas. Tinha mais ou menos noção já de que o pátio nem era o limite do mundo. Olhava a rua e queria ir para a rua e tinha pavor de gente. Sua principal visão, o olfato, lhe dizia que o mundo, o mundo poeirento, as pessoas famintas, até mesmo as árvores incineradas, iam muito além dos puxões de orelha e empurrões e pontapés e pedradas.
E no domingo de manhã ex-Filé desaparecia. No lugar onde dormia e passava as noites só restaram uns poucos esquecidos pelinhos. Nem sobrara nada do ex-cãozinho. Só aqueles ralos pelinhos abandonados deixados para trás.
         Os suspeitos eram os da casa mesmo. Oito ao todo os participantes diretos interessados, vamos e viemos dizer assim. Destes, quem? E por quê? Com que tamanha gana? Era dia de aniversário? Agora só faltava saber quem fora o lazarento, ou os lazarentos.
         O pai nem podia ser, tinha sono de pedra, chegava em casa sempre cansado da pedreira e tinha sonho de basalto. A mãe nem podia ser, detestava trabalho extra, nem água para fazer uma sopa ela podia conseguir. O nº1 também nem, já estava em idade de namorar e namorava escondido, nem ia pensar em cãozinho despreparado. O nº2 nem era, já estava na idade de sonhar com garotas e espiar pelas frestas, nem queria nem pensar em cachorrinhos feitos só de costelas. O nº3 nem podia ser, pois só pensava em bola e tinha uma bola número 5 do lado do travesseiro, e nem sabia nem acender um fogo no fogão. A nº4 nem era para ser, já que as meninas detestam estragar as unhas e têm medo do escuro, e nem sabem o que fazer para sossegar um cão surpreendido na calada da noite. O nº5 de jeito maneira, fora ele que batizara o cãozinho de Filé, nem podia ter ciúme ou ódio ou covardia, nem pensava em destruir o cãozinho para matar sua própria fome. E a nº6 claro que nem, era a caçula do time e totalmente inocente nestas paradas de políticas e economias militares, elazinha nem podia com o vira-latinha nem brincando.
         Assim, o negócio era decifrar o mistério que encobria o sumiço do ex-Filé. E descobrir quem fora o mascarado assassino criminoso. Só restava desmascarar quem fora o servo do anhangá-pitã. Nessa terra invertida esturricada quente como fornalha, etc.
         Poderia ser a nº6; sem querer, é claro. Seria o nº5, que como fora o padrinho já pretendia a exclusividade e a paranormalidade ou a mediunidade do ex-cãozinho ex-Filé. Talvez fosse mesmo a nº4, que pretendia ser veterinária e ousara espiar o ex-cão por dentro. Naturalmente era o nº3, já que tinha receio que o ex-vira-latinha mordesse sua bola de couro número 5. Com certeza poderia se pensar no nº2, pois queria impressionar as meninas ao espalhar no terreiro da pracinha que matara um ex-canzarrão. Agora sim o nº1, que voltava frequentemente tarde da noite e se assustava com o resmungo do ex-Filé. Só poderia ser a mãe, que andava profundamente estressada e com os nervos à flor da pele de tanta carência por atender e tanta boca para encher e nada de grude aparecer. Teria sido o pai que, por causa de uma banal desavença com o colega de trabalho, assim se vingava no ex-Filé.

         Então, por quê?, a vila de Santa Luzia ia adiando seus longos dias muito quentes e inóspitos.         

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Contos de Santa Luzia, (18)




         Se eu penso que gosto de pensar e sonhar essas coisas, penso que sim, então. A manhã surge pintando, sem pressa e sem dúvida, as cores naturais das coisas, os sons normais dos passarinhos e insetos e bichos pequenos e grandes e humanos e automotores. E tudo misturado, junto, no começo do sol. E é o que eu digo, justiça seja feita, e justo agora.
Eu sempre sinto essa vontade de relinchar, relinchar... E eu relincho bem alto, bato as mãos e os pés pelo piquete de chão de areia. Nem posso me conter. Quero muito ir para o dia a dia. Nem posso acreditar. Quero correr ou voar para me exibir diante das eventuais éguas e potrancas. Quero e prefiro muito já sair pelaí e trotear e relinchar e pastar pela campina verde, subir e descer coxilhas, canhadas, boqueirões, contornar sangas e restingas. Tudo tem lá seu limite e o meu é a fazenda Gurupema, que já nem é pequena, do tamanho de uns 34 campos de futebol ou muitas cidades somadas, Tucano, Cabrobó, Pio IX, Pombal, Vila Nova do Sul... Estou ouvindo nesse instante, com essas minhas orelhas grandes e pontudas e peludas, escuto atento, licença, são umas certas pessoas inteligentes falando alto, tudo por via da língua humana lá delas...
- Maria Cristina! Responda logo, menina sapeca! Onde anda você?!
...e a resposta da moçoila passarinha de arribação...
- Um momento...  
         O cangaceiro macanudo - descendente de família antiga profunda nascida junto à Lapa Vermelha onde 11 mil anos atrás também caminhara uma dona Luzia -, comandante do alazão Zoró, usava vestia habitualmente um chapéu pantaneiro de couro de suaçuapara enfeitado com pena grande de caracará e barbicacho preso no lábio inferior; um lenço vermelho de pescoço, símbolo e relíquia da revolução Federalista de 1893-95; o cinturão de couro de jaguatirica enfeitado de bordados com todo tipo de armas brancas e de fogo mais o fivelão pesado em forma de ferradura; as duas pistolas automáticas em coldres de couro de jacaré-de-papo-amarelo; a peixeira livre bem acomodada junto da virilha; no lado da coxa direita um facão de mateiro quatro listas em bainha larga de couro de lontra; trançadas no peito taurino, as patronas atochadas de bala; à bandoleira o jagunço o tapijara portava um fuzil WT-125 último tipo última moda última chamada e com mira telescópica; a tiracolo uma espada samurai de metro e vinte presa na correia de couro de cobra sucuri; uma adaga embainhada transversal às costas, à moda gaúcha, em couro de porco-do-mato; um canivete multiuso no bolso da bombacha; uma faca na bota de couro cru de iguana; a navalha das de barbeiro fundida e forjada nas oficinas de Bonfim levada escondida na cavinha do colete feito de papos de tucano-de-bico-preto; um punhal na manga da jaqueta de couro de anta; duas granadas, de uso exclusivo do exército, bem camufladas penduradas uma em cada axila; anéis de ouro com rubi incrustado adornando todos os dedos menos os polegares; um relógio digital no pulso esquerdo com pulseira de prata; pendendo do pescoço grosso de suçuarana, uma grande corrente com enorme crucifixo fazendo um conjunto em ouro maciço; um laço dezoito voltas de couro cru de capivara trançado importado de Casa Nova preso na anca da montaria. Sem esquecer os olhos frios o olhar sempre natural de jararaca em aspa-torta, dente-seco, pelo-duro, casca-grossa.
Quando férias de verão, férias de fim de ano e escolares, o capanga o curimbaba levava na garupa do alazão Zoró, junto pras aventuras e peripécias e bulhas, o filhinho único rebento menor de idade. Muito parecido com o pai que o próprio dna nem precisava ser consultado e quando olhava os dois nem tinha mais dúvida. Uma miniatura do genitor em tudo na cara e no focinho nas vestes nos apetrechos e nas armas umas por enquanto de brinquedo mais leves e outras já de verdade, etc. O menininho encapetado imitava o pai até nos gestos e cacoetes e relaxamentos e cuspidas. E só nem era tão grosso por falta de espaço. Mas se ia crescer e chegar lá?, era esperar pra ver pra confirmar pra ter certeza.
         A aldeia de Santa Luzia evaporava derretia se consumia ao sol impiedoso comburente causticante ardente. Uma poeira vermelha no ar encobrindo e colorindo maquiando todas as coisas. Nem chovia, já se via, há mais de trezentos anos. Casinhas de pau-a-pique cobertas de santa-fé. Ex-árvores já apodrecidas de muito, ingazeiro, quixabeira, cansanção, cunanã...  aí na pracinha sem as cores naturais esmaecidas espécies extintas carcomidas pela seca. A terra rachada e árida e imprestável e sáfara e caíba e tiguera. Saci rindo e debochando e tiritando no meio da rua no redemoinho, ah ah ah eh!... única rua e poeirenta e pedregosa.
         Os vilões, poucos e difíceis e alérgicos, tiveram uma surpresa, já naquela manhã 10h e 10min de uma torrada quinta-feira. Chegava à aldeia aquilo que se via, sem aviso, sem anúncio, sem remédio, sem o quê, um dos mais temidos assassinos cruéis desalmados gelados impiedosos de aluguel no país. Era ele mesmo, o malfalado, o malcriado... Zezinho Arcanjo Bontempo. Ele mesmo, em carne e vestes e armamentos e lenda e mito. Montado no seu cavalo alazão Zoró. Na garupa o filhote, de nome ainda nem famoso, mas com certeza que breve igualará o pai ou piorará a raça - aguardem os que puderem ter por acaso o futuro -, o Camaquã Jatobá Bontempo.
         E todos os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos e as aldeãzinhas se entreolharam e se falaram para saber e compartilhar para pensar e refletir:
- Olha, é o Zezinho Arcanjo Bontempo! Resolveu passar aqui pela nossa vilinha. Quem sabe em busca de quem ou de quê?
- Vem é ele o filhinho o alazão ou um trio parada dura.
         Zezinho Arcanjo Bontempo já estava no arraial, já estava ali, já chegara, já calcara a bota de esporas grandes raiadas cantantes, tre-lelengas!... na ruela empoeirada e pronto. Ele mesmo, seu filhinho, seu cavalo alazão pura raça. Era esse o desatino. Pois o ruim sempre dá um jeito de piorar ao cubo.
         Zezinho Arcanjo Bontempo parou na porta da ex-confeitaria. Pitando um palheiro dos crioulões mesmo, fumo de corda grossa fabricado em Tanquinho. O gurizinho perguntou ao pai:
         - Papai! Eu já posso começá a matar gente?
         - De repente, uma hora destas, né?!, guri pressuroso.
         E pai e filho e alazão queriam conhecer a aldeia por dentro, e de ponta a ponta. Passaram no ex-açougue na ex-farmácia na ex-ferraria na ex-birosca e tudo parado desocupado e na poeira. Foram até uma ponta e outra da rua Única. Tudo castigado pela ressolana. Na escadinha da capela em homenagem à santa Luzia, Zoró bateu uma foto do pai ao lado juntinhos do seu filho. Zezinho Arcanjo Bontempo entrou para ver a santa e trocar uma ideia. Camaquã Jatobá Bontempo foi no rastro, sempre nos calcanhares, ajeitando as calças que caíam, imitando o seu modelo em tudo que podia.
         Eu sempre recordo o que gosto de recordar, obrigado. O risco depende de cada um. E cada um tem o seu rio. Eu caminho dentro do corguinho e pasto o capim-membeca verde verde e úmido da beira da água limpa. Me dá água na boca antes mesmo de comer mastigar mastigar, quer saber! Passo horas pastando e brincando na piscina natural. Nem espero nada. E espero muito para o futuro. O campo habitável dos é muito grande do tamanho de 34 campos de futebol ou mais ou menos podendo abraçar cidades todas de uma vez tais como, Jacobina, Bom Conselho, Penedo, Monte Belo, Caldeirão Grande... E as horas passam? Olho lá o arvoredo cuidando do morro, japecangas, covas-de-onça, espinilhos, sempre-vivas-da-serra, tapiás, farinhas-secas... Sou o melhor ente cavalar desse potreiro mundo afora. Nem faz nada vim pra cá nasci num sítio Lapa do Santo, Matozinhos. Nenhuma pergunta fica no ar. Nem espero nada e as horas passam, vá lá! Hoje o dia que o sol anda num céu todo azul e noite patriótica. Pronto, escuto gente falando, ouço com essas minhas orelhas bicudas longas e fortes, um diálogo assim, nem tão perto de mim e humano...
- Maria Cristina! Você desistiu, hein?!, qual é. Onde anda você?!
...e a resposta da guria magrinha linhas retas cabelos ao sol...
- Um momento...
         O morro, que há séculos nem mais aparecia ou ameaçava a vila de Santa Luzia, explodiu inesperadamente no dia 20 de agosto daquele ano. E jogou no ar muita lama incendiada, muita fumaça preta e venenosa. E ainda a terra tremeu umas duas horas sem parar, depois parou, continuou a tremer mais tarde, parou, tremeu, e assim por diante até completar dois dias seguidos de abalos sísmicos terremotos tremores intermitentes. E, então, os tremores, a fumacinha escura, muita lama quente que o caso foi difícil. A coisa ficou horrível e pegou fogo. Todos os aldeões e as aldeãs correram olhar o ex-morro já todo em pedaços e escombros. E desceu rio abaixo uma interessante cascata crepitante de ouro em brasa. A lama desceu exorbitante e incendiando mesmo tudo que via pela frente. Sacis riam, sacis pinoteavam, opinavam e esfregavam as mãos, brincavam de se empurrar, ah ah ah eh!... Quem que podia prever uma catástrofe daquelas, assim? Quem podia deter aquilo? De noite era muito fantástico e luminoso o rio de magma. Rio fervendo borbulhando oferecendo espetáculo especial espetacular e ridículo.
         A explosão do cambiroto também trouxe à superfície um monstruoso monstro guerreiro de ouro derretido. Um guerreiro dos infernos e viciado em horrores e vinganças e perseguições. Todo feito de lama de ouro e gases venenosos. Vinha na forma humana mesmo mais apropriada, mas todo impressionantemente maior e mais equipado. Um bandoleiro banhado em ouro incandescente, praticamente um ouro líquido, um troglodita faminto de maldades, suando os gases mais tóxicos. E ele - seu nome ainda nem fora divulgado - desceu à aldeia de Santa Luzia para fazer fuzarca e provocar estragos e acertar umas contas, derrubar os moquiços, acabar com o resto que soçobrava e apodrecia. Noite e dia um horror impressionista.
         O monstro mal acostumado vestido de lama da mais valiosa e de gases venenosos dos mais radioativos entrou pela única rua, e sempre surgindo do lado do sol. Muito arrogantemente no seu estilo de mexer os braços e tamanho e peso de tremer a terra toda. Parecendo uma estrela cadente. Vinha furioso e queimando por onde passava. Parecia um meteorito distribuindo fogo aleatoriamente. Vinha suando calor, muito calor, pingando brasa, largando chispas e fleches. Um ente tocha, labareda, lava, fogueira, chama, fogaréu, fogoió. Vinha chegando furioso e iluminando a noite toda. Numa fúria crepitante e gratuita. Chegava descalço e deixando rastos de brasas em dia-noite de fogueira de São João. Legítimo boitatá, salamandra, pedra de fogo e que nem parava de queimar e cheirar a fedor de maconha.
         Zezinho Arcanjo Bontempo examinou o boitatá como quem chuleia e calcula um plano de... queima de arquivo. De repente, os dois se viram um em cada extremo da rua Única. Cada um entrou por uma porta espaçosa da via pública. A rua deserta empoeirada cascalhada... pequena demais para os dois... única rua e tal... sob uma lua atrapalhada com o pó vermelho... noite de estrelas adivinhadas com zodíacos mal e mal desenhados a milhões de quilômetros luz, e o jogo aberto para apostas...
Os aldeões e as aldeãs testemunhando escondidos atrás das remendadas cortinas. A coisa ia pegar fogo, e a coisa já pegava fogo na macega ressequida. Um saci passou correndo, quicando, rindo, ah ah ah eh!... e nem quis nem saber.
         O pequeno Camaquã Jatobá Bontempo piou, debaixo dos pés do pai:
         - Papai! Dexa comigo...
         - Nem, fio. É com o degas aqui assa história. Coisa de cachorro grande. E nem olhe diretamente nos olhos da fera. No mínimo use uns óculos escuros de soldador.
         O gurizinho obediente obedeceu o pai ele sempre obedecia, procurou no aió de caroá trançado uns óculos totalmente escuros ao estilo dos fundidores que trabalham com os maçaricos. Ajustou aquilo e cruzou os braços.
         E a coisa estava pela hora h e terminal. E Zezinho Arcanjo Bontempo correu ao ex-açougue buscar um pacote de gelo. Nem gelo nem balde de água nem remédios garrafadas drogas unguentos infusões encontrou. Nem chovia há milênios. Terra calcinada, mundo incinerado.
Vendo essa intenção do Zezinho, o escorpião de ouro nascido para destruir temeu pela própria incoerência e correu se esconder atrás de uma casa de pau-a-pique coberta com folhas de iaguás secas. E a casinha incendiou num pulo, fusss!... E o bicho fumegante foi e correu por trás de mais outra palhoça, que novamente essa mesma pegou fogo num susto, tusss!... E atrás de outra choça mais um tiro, vusss!... E foi impressionante porque onde o ente dos infernos se apoiava com a mão ou adernava com o pé, já pegava fogo e o casinholo detonava, uuuus!... incendiando em explosão fulminante. Assim, o tocha deixava um rastro de fogo por onde passava e encostava.
Que fazer em caso de incêndio? Os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos e as aldeãzinhas, diante da vila incendiada incendiando, já corriam para todos os lados e em pânico. Uns se escondiam atrás das pedras, outros e outras se entocavam em alguma lapa.
Este pega-pega pra capar, entre os dois maiores bandidos rivais do gênero no hemisfério sul, durou oito dias durou até aquela manhã. E passou a manhã. Por volta das 13h e 31min o ente de pele de fogo e de gases nocivos correu para o capoeirão, deixando um atalho de labaredas, um rastro de fogo, um trilho queimando, um caminho inusitado. E pior, o demonho de ouro nem se desgastava. Jogava faíscas e parecia cada vez mais macho mais gigolô.
         Do alto das secas paineiras, sapotas, icozeiros, canjeranas... esqueléticas petrificadas falidas desanimadas, toda a súcia dos sacis juntos unidos em grupo, riam riam os bastantes, ah ah ah eh!... Nem chovia há muitos e muitos anos. Todos os sacis vieram ver o espetáculo quente e de derreter até as pedras.
         Zezinho Arcanjo Bontempo cavalgou atrás do monstro de músculos de ouro cru e gás fedorento até até que Zoró aguentou. Na altura da chapada o alazão travou as mãos e os pés e desistiu. Na velocidade em que perseguiam o diabo de ouro, atropelaram um espantalho. O trapo sujo ficou todo esticado no chão entre o resto e a morte. O calunga sobrou todo fatiado e gemendo com medo de morrer. À noite esse espantalho só podia ressuscitar um lobisomem muito mal das pernas e braços e etc.
         Meia hora depois, Zezinho e Zoró resolveram desistir da caça ao cabeça-de-cuia. Voltaram, morro abaixo e na banguela. Zezinho Arcanjo Bontempo apeou e foi olhar o espantalho atropelado estraçalhado. Tentou recuperá-lo com uns tapas na cara, umas botinadas nas costelas, umas sacudidelas, uns cortes de facão, uns socos na boca do estômago vazio e esfarrapado. O boneco mal e mal xingava e bufava. Zezinho Arcanjo Bontempo pensou que o espantalho já ia morrer e nem tinha mais jeito. Assim, jogou o trapo rasgado no carrascal seco. Zezinho subiu no lombo do Zoró e, centauro, voltaram voltou à vilinha.
         Eu sou assim mesmo e o que digo, alazão de nome Zoró, sonhador que imagina e pensa. Olho também o chão de capim-gordo, de florinhas roxas caídas, potrinhas e potrancas vestidas de pétalas roxas, debaixo de árvores vestidas de flores as mais variadas... Sim, me deixe sonhar ou olhar com esses olhos. E lá... o lugar que estamos vendo agora, eu posso comer capim-de-cheiro, do muito verde, comer línguas-de-vaca no orvalho da manhã, comer flores do campo pelo campo afora, comer frutas verdes ou maduras, araçás, azedinhas, pitangas, pitombas, potrecas... e deitar de barriga cheia na sombra de uma perobeira. É um oásis, ou seja, água boa, pasto verde, flores do campo, árvores de todo tamanho, éguas jovens de todos os tons de verde, nada para fazer, passarinhos gorjeando tranquilos, cocorés, marrequinhas, potiris, abades, chororós, maguaris, corujas-do-mato... chuva de vez em quando, sol pintando tudo e um pouco mais. E um pouco mais. E, hoje sábado, que escuto e ouço uns bípedes vestidos à moda, e com essas minhas orelhas de parabólica, tripe-tripe! tripe-tripe!... e que sempre são ótimas oiças...
- Maria Cristina! Você me ouve me atende ou nem, garota alada?! Onde anda você?!
...e a resposta da índia cunhantã quipiú...
- Um momento...
         Zezinho Arcanjo Bontempo policiava a aldeia por conta. Mas outras coisas circulavam curiosas nas sombras diante do chão gretado raiado rachado aguardando chuva desde 10 mil a.c. A vila de Santa Luzia queimava na soalheira, tremendo ao sol, evaporando, como se fosse na boca de um forno e isso dia e noite. Nuvens de poeira vermelha misturadas com fumaça venenosa de dentro da cratera.
         Uma martinta-pereira saiu do encantamento aquela sexta-feira 13 de agosto e lua parecendo cheia por entre o céu noturno nublado de vermelho. Piou para a sombra da lua mensageira. E se ouviu se escutou os arrepios os assobios rasgados, biiiriiiuuu!... pela aldeia parcialmente destruída pelo fogo. Depois, também se ouviu seus voos atropelados no meio do capoeirão. De vez em quando quebrava um galho seco, pete!... ali pelo oco do mundo só para fazer susto. E seus voos ao redor das casinhas de sapê das aldeãs solteiras solitárias ateias carentes. Seus voos rasantes de asas de aço, ble-que! ble-que!... batendo no ar carregado de terra. E pela milésima vez, lhepe! lhepe!... muito sim senhora.
         Zezinho Arcanjo Bontempo tinha nojo de assombrações e fantasmas e abantesmas e visagens e aparições. O único ente atrevido que suportava era ele mesmo ao espelho na hora de aparar a barba hirsuta. E ficou pensando com cara braba de nenhum amigo. Então, se ergueu da rede decidido e foi buscá-la. Nem iria dormir com aquele barulho, dre-pe! dre-pe!... O filhote foi atrás como uma sombra mínima e fiel e canina. Queria ver de cima de cima para aprender de pronto como o pai lá dele fazia e desfazia as tais e quais proezas.
         No dia imediato, depois dessa façanha, pela manhã mesmo de uma luz avermelhada em terra seca, Zezinho Arcanjo Bontempo já sentia a perna. Foi ao correr atrás da martinta-pereira, no escuro, noite alta, precipitado, heróico, destemido que, inadvertidamente, pisara numa lata velha e enferrujada. A malvada lâmina cruzara a sola da bota e atingira a casca do pé. Sentia já as dores horríveis no local e formigamentos se espalhando por todo o corpo. Nem dormira sinceramente cinco minutos àquela noite.
E tudo ficava pior com as horas passando e passando mal e passando lentas. O ferimento enojava o fora da lei, o fora da ordem, o fora do juízo, o sem noção. O cara sentia um líquido ácido sugando perambulando peripatético por dentro de si e de sul a norte. O destemido herói e assassino suava frio e apertava teatral os dentes e fechava dramático os olhos tentando resistir resistir no limite das forças.
         Eu sonho um sonho como uma lembrança como um raio de sol agora, e mais leve que paina ou pluma ou fiapo de nuvem. As muriçocas piuns carapanãs nem me incomodam nem um pouco, nem me incomodam. As borboletas nem me atrapalham, e até que me deixam mais relaxado e me ajudam. Os besouros verdes, pretos, pintados e listados nem estorvam e podem voar à vontade e zunir o quanto for. O capim-gomoso alto e verde - e eu sei onde procurá-lo, eu sei onde piso -, é sem pestanejar sem escarcear o melhor do país melhor que o da região de Pé de Serra. Eu subo a coxilha, olho o horizonte para mais longe; e eu desço até a sanga, bebo e molho minhas mãos e meus pés... Um tamanho de potreirinho que daria fácil para fazer 34 estádios de futebol ou comportar vinte e oito lagoas Rodrigo de Freitas ou várias cidades geminadas as tais e quais por exemplo, Curaçá, Angicos, Umburanas, Coxixola, Volta Grande... Dia e noite eu quero isso assim tudo igual; dias e dias eu preciso isso assim tudo comum normal meu pago. De noite eu durmo e sonho como um bagual; de dia eu aproveito para andar e ando como agora e nem me canso pescoço erguido. A chuva cai aqui aos galões e corre aos gorgolejos. Às vezes paro e relaxo bem aqui debaixo da coirana-do-rio-grande-do-sul, pode ser da aroeira, a grápia, o guabiju, a inajarana, a carnaúba... E volta e meia sempre escuto com minhas antenas altas orelhas de onde de perto nem tão perto uma voz sempre humana de pessoas de fala de conversas de lá deles e alguém chamando...
- Maria Cristina! Responda de uma vez por todas que te quero ver, em?!, sua begônia-sempre-florida. Onde anda você?
...e uma resposta reticente de menina tongalante voz açúcar...
- Um momento...
         O puri, a ânsia incandescente de se comparar, Camaquã Jatobá Bontempo, copiava imitava o pai como um mau menino imita o pai-herói e os heróis e os guerreiros mais malvados da raça. Já curtia os oito anos a ferro e fogo. Camaquã Jatobá Bontempo dormia com o revólver - presente de aniversário -, e revólver de seis balas, assim do lado do rosto, a mão segurando a coronha, sonhos complicados e torturados e ariscos. Rodava a arma no dedo e atirava em latinhas, pedras e palanques de cerca. Já caçara matara muito passarinho e bichos maiores mas um dia queria precisava chegar a derrubar gente que ajoelha e chora e implora. Camaquã Jatobá Bontempo admirava o pai massagear a dor do fígado lá dele. E testemunhava o pai gemer e se acrocar no chão uivar de dor ou raiva. O menino grunhiu de si para si:
         - A coisa está ruim mesmo e se multiplicando exponencialmente.
         E o filho do guerreiro do facínora seguiu pela única rua da aldeoca. De manhã a rua tinha sol fechado em tempestade de terra, mas um calorão de matar. De tarde a rua tinha muito mais sol e calor entre as nuvens vermelhas. De noite a rua tinha tudo o que tinha de dia e mais a escuridão de nem se enxergar um palmo. De noite ainda a mula-sem-cabeça, o lobisomem e outros menos famosos entes transcendentais transnacionais transavam transversais pelaí à procura. Era o que ele Camaquã achava descontava, via e ouvia e inventava, desconfiava quase sempre.
         Zezinho Arcanjo Bontempo sentia o lado da barriga, o pé e a perna. Bichinhos furiosos, lá por dentro dele, comiam as suas carnes, suas entranhas, seus rins, seu fígado, sua alma suja. Uma ferida horrível crescia fedida e pegajosa do buraco que a lata iniciara. E já subira pela perna devagar e sempre até o fim do mundo. Até contaminar tudo e contaminou. Podia preferir uma amputação? Estava mesmo carunchado bichado com berne. E nem foi nem seria o caso que o tal e qual malvado precisava falar com o ex-açougueiro?!
O rude rudimentar Zezinho Arcanjo Bontempo foi para junto dos troncos das ex-árvores da praça e socou e bateu cabeça em ex-paineira, ex-arimaru, ex-mari... bastantes. E depois sentou nos degraus da capela. Mais tarde se encrespou com o filhote. Camaquã Jatobá Bontempo estava ficando chato, impertinente e vaidoso, teimoso e neurastênico para balear alguém:
         - Nem chegou a minha hora, papai?
         - Respire... fundo e aguarde...
         - Quando será? Quando vou acertar alguém, hein?!, papai.
         - Uta!... Olha meus tubos, guri!...
         O sol castigava o mundo inteiro com direito a muita poeira no ar. Casas de sapê decoradas com vermelho da terra local. Todos os sacis aproveitando o dia de ventania para farejar à vontade. Os sacis chegavam voando nos seus redemoinhos e riam e gargalhavam e chutavam pedras e faziam o que queriam um escarcéu. Um saci saltou do nada, saltou no meio do campinho de terra seca e vermelha, veio no estômago de uma nuvem de poeira em espiral, ah ah ah eh!... todos olharam para o fenômeno, o saci dançou, fez as artes, saiu e voltou, o saci sim estava só nervoso, estava nervosíssimo e ninguém sabia se o diachinho queria roubar quebrar contaminar destroçar ou apenas troçar.
         Na tarde, de supetão, Zezinho Arcanjo Bontempo olhou as próprias mãos e os próprios pés. Olhou o lado onde pelo diabo a quatro esperava a presença do seu fígado. Deu um berro de açoitar ouvidos de aço, mãaa-nhêee!...
Depois, mancando, aleijado, levou o filho Camaquã Jatobá Bontempo até o campinho de terra ali atrás da capela, do lado da praça onde sobravam uns paus podres de ex-mangabeiras. Os moleques da aldeia jogavam futebol com uma lata de molho de tomate em conserva vazia. Pai e filhote pararam à beira do campinho esburacado pedregoso e só olhando. Pai e filhote olhavam admirados os moleques na algazarra na farra na miséria na loucura de chutar chutar aquela porcaria. Zezinho Arcanjo Bontempo resolveu, e quando resolvia tava mais do que resolvido e certo e sabido e ninguém mais se metia:
         - Camaquã Jatobá Bontempo... fio do teu pai aqui presente!... Escolha quem você achar... que pode dar um bom bico na areia. Eu espero...
         Camaquã Jatobá Bontempo olhou, olhou... sapateou de curiosidade expectativa excitação pela hora da morte. Para resumir escolheu, apontou, e disse para o pai e ali de repente mesmo:
         - Oh!, papai. Aquele de camisa de futebol rasgada. Além de jogar muito mal com lata vazia, o talzinho deve ser muito apto no tchibum, uma vez.
         - Autorizado... fio.
         O pixote Camaquã Jatobá Bontempo mirou o moleque, lá no campinho todo distraído em correrias, mirou com olho infinito e petulância e calma e... teu! Foi somente um tombo circense e com eco ambulante decrescente. O moleque nem se surpreendeu, apenas caiu e ficou, perna ainda esticadinha procurando a lata-bola. Um tombo de boneco de pau seco, pareceu. Levantou uma poeirinha coisa mínima, o vento levou a poeira. O moleque assim mesmo na horizontal as solas dos pés coscorosas para o ar inóspito do dia. O que já estava mortinho da silva. Os ex-companheiros correram para trás das ex-árvores da pracinha das pedras do capoeirão se enfiando pelas locas e tocas.
         A primeira vez de um filho arteiro deixou marcas fundas na vaidade do pai malvado. Zezinho ficou, pi-pi-pi! pi-pi-pi!... emocionado, comovido, orgulhoso, muito orgulhoso, transbordando as emoções sentidas. Socou o próprio peito para nem chorar, para nem embargar a voz. O pai olhou o filhinho e disse, o peito de pomba, já acima dos dois metros e vinte, impávido colosso:
         - Choca... aqui fio! Nem foi... difícil, né, fio?
         - Quase que eu erro. Na hora h ele que se balançou pra lá e...
         - Vai lá... e veja o estrago. Põe o dedo no rombo... da bala. Isso dá... sorte.
         O talho provocado pela lâmina estragada, abriu uma cratera putrefata na sola do pé de Zezinho Arcanjo Bontempo. Ele mancava e perdia a linha de tanta raiva e ódio e preconceito. O pior de tudo era que um enxame de vermes canibais subia a perna e sem parar. Esses bichinhos entraram pela ferida e tomaram conta. E a perna inchava. E a coisa já era. Então, de noite, mão no lado da barriga, ele disse para o filhote, rilhando os dentes de puro furor:
         - Deito aqui na esteira... no chão, fio. Ocê quando quiser... pode deitar... na rede. Pai tá... fodido. Pai nem... quer cair da rede.
         Zezinho Arcanjo Bontempo nem dormiu àquela noite. E pra quê, e como? Sabia que algo ou alguém ou muitos esperavam ele dormir o menino dormir para lhe roubar a carne. Se fingiam de formigas-carregadeiras ou algo parecido. E Zezinho Arcanjo Bontempo delirou que estava sendo tomado por milhões de formigas-corredeiras. Esses insetos levavam embora a sua carne, e comiam sua carne, cresciam, engordavam, raspavam com uma faca, faziam picadinhos, guisado. Milhões de formigas internadas no seu corpo. Umas formigas enormes, cabeças vermelhas, tenazes de trator e antenas sacudidas, compridas, nojentas. Um batalhão de formigas capatazes e enormes e vermelhas e ferozes. E chegou por último uma formiga gigante que veio para comandar o seu arrasto até o formigueiro. Esta formidável formiga gigante o pegou pela mão...
         Zezinho Arcanjo Bontempo acordou tonto do pesadelo. Olhou sem demora a perna... e a perna era um toco, estava roída até o osso. Examinou o lado... deu um grito, mãaanhêee!... desesperou. Pegou o revólver e foi atirando atirando, atirando pelo ar, pelo chão, pelas paredes de barro, na direção da rua dos casebres... No delírio do ódio, foi vendo um rio de formigas vermelhas fugitivas carregando seus pertences pedacinho por pedacinho milhões de ladrõezinhos.
Camaquã Jatobá Bontempo, vendo o pai naquela apertura lastimável horrível, nem podia fazer nada senão sapatear fingindo esmagar aquele mar de insetos invisíveis. Também tinha sonhado um pesadelo com milhares de formigas-cortadeiras, uma mais forte que a outra. E atirou tacou fogo de trabuco em tudo mesmo que apontava o nariz.
         Surge uma estrela lá no céu, vim!... e mais outra, vim!... já são muitas, vim! vim! e vim!... e mais todas que se pode ver. Rola a bola prateada da lua cheia... Uma nuvem, a lua, as estrelas e os planetas os bichos de estimação do céu lá longe. Sopra o vento... O tempo nem passa porque nem deixo. Eu digo e imagino o amanhecer na fazendinha, bato as patas, sacudo a cabeça no ar e relincho, ri-ri-ri!... Eu cuido do sonho sonhando acordado. É longe o campo afora que habito, circulam por aí pelos pastos uns oito ou nove rios do tamanho do Vaza-Barris do Itapecuru do Farinha ou dimensões de 34 arenas de futebol ou territórios de oito cidades lado a lado, Caeté, Serra Branca, Jeremoabo, Quixeramobim, Poço Verde... Eu vou pela manhã aí, o dia claro, e que é para seguir até o rio, até a lagoa, beber água boa e pastar capim-de-colônia pasto orgânico e ótimo e tenro. E se amanhecesse chovendo também tudo bem e compro e vendo ou financio. Se encontro uma potranca, melhor impossível e muito bom, fico faceiro, subo nas mãos. Nessa nave de repouso que eles me acordam, ao pé de uma macaúba, voz dos humanos, e eu ouço com essas orelhas e esses ouvidos e esses olhos grandes de ver e que já vêm bons de gerações...
- Maria Cristina! Tu me atende me responde, hein?!, jurumbeba formosa. Onde anda você?
...e com a resposta da menina com roupas verdes da manhã...
 - Um momento...
         Zezinho Arcanjo Bontempo nem queria dormir com pavor de ser tomado pelo pesadelo das formigas predadoras. Ou que os bichos viessem lhe rapar a perna. E ele tinha toda a razão. Ele só nem podia aguentar sem dormir. E a dor do lado nem o deixava dormir sossegado. Mas cochilava sucumbia assim mesmo, mal e mal, todo assombrado e sobressaltado e assaltado e dolorido e trêmulo da cabeça aos pés.
         O Camaquã Jatobá Bontempo, ressabiado, sacudindo a cachola desanimado por causa da situação do pai, suspirou e disse para si mesmo e bem baixinho, sussurrando, confessando para si mesmo em segredo secreto:
         - Agora sim a coisa está ficando pra lá de péssimos.
         Eu sempre gostei gosto dos verões da estância e o lugar do meu chão de provas e aventuras. Tenho corpo de cavalo de competição e corro pra valer, relincho feito cavalo indomável, ri-ri-ri!... fico olhando feito jegue, suo pra burro e nunca fico empacado nem emburrado. No verão, um verão, me apresentaram a uma potranca de nome Asa-Branca. Eu que digo. Uma égua que gostava de voar e subir no vento nas correntes do ar livre e quente. E Asa nem me quis, nem me deu bola, se fazendo de potranca dos deuses astronautas. Voava sem olhar para trás ou para o meu lado ou para baixo no lugar da minha fazendola. A cola alçada, pedalando os cascos com gosto, batendo as asas com muita força e precisão, sumindo nas nuvens, deixando saudade ou malícia. Mas era só timidez. Era só vexame da própria beleza da própria cavalgada. Depois ela desceu ao campo e apostamos corridas até os jerivás. Nem me olhava nos olhos por desenxabida, por deixa pra lá. Mas em compensação ria muito, e tinha um riso bom no ouvido do freguês. Quando eu contava uma piada ou uma mentira, ela relinchava com todos os dentes de equina fogosa. Um dia, e que dia!, na subida de uma coxilha, com sombra de mulungus, nós dois juntos unidos pertinhos se empurrando, ouvimos as falas, assim com as orelhas limpas ligadas, nossas satisfeitas satisfatórias orelhonas, umas pessoas humanas gentes de andar de em pé e mãos nos bolsos...
- Maria Cristina! É pra hoje, guria metida de mundos e fundos! Onde anda você?
...e uma resposta com voz de moça esperta e nova e dengosa...
- Um momento...
         Zezinho Arcanjo Bontempo nem queria mais dormir, pois que as formigas-caiapós o alcançariam, já sabia. E uma formiga gigante e atiçada queria arrastá-lo para o ninho. Deixavam marcas e pegadas no chão de poeira. Já perdera a perna, ficara só o osso bem branquinho, como se a carne tivesse sido arregaçada. Mas, e quando chegar à hora tardia depois das 23h inevitável de descansar e dormir e se fechar em si, hein?!
         E, então, certo momento da noite, Zezinho Arcanjo Bontempo rolou da esteira. Camaquã Jatobá Bontempo acordou e se precipitou para ajudá-lo. O filho se esforçou para socorrer o pai e carregá-lo de retorno à palha trançada de carandaí. Ao mesmo tempo cuidou de espantar os intrusos as formigas-carregadeiras os bichos invisíveis as sombras canibais. Zezinho Arcanjo Bontempo tremeu horrores e depois desmaiou de dores comichões e temores. Camaquã Jatobá Bontempo ficou de atalaia atento vigiando ligado atento para quaisquer inimigos.
         Zezinho Arcanjo Bontempo sonhou uma batalha e tanto contra as formigas-corredeiras vermelhas e cabeçudas. Aliás, veio uma formiga gigante e o capturou e o arrastou semimorto pela metade rumo do formigueiro. Arrastou-o pelo braço direito sem muito esforço. Formigona de altas antenas passos fortes e fortes tenazes e pernas muitas e dentes sangrentos.
         Pela manhã outra manhã Zezinho Arcanjo Bontempo acordou e imediatamente apalpou olhou para seu corpo: estava comido de formigas mecânicas até o umbigo. Que situação! Perdera mais uma batalha noturna e agora nem havia mais jeito. Deu aquele grito horrível, mãaanhêee!... Do umbigo para baixo só ossos limpos, branquinhos, irretocáveis, tranquilos, dispensáveis.
Camaquã Jatobá Bontempo, que nem conseguira manter os olhos abertos, ficou se lamentando, se condenando, se cobrando, batendo na cabeça o tanto que dormira sem poder cuidar do pai. Ele pedia para sofrer no lugar do coroa. Pois Zezinho Arcanjo Bontempo deu mais um grito de horror, mãaanhêee!...
O menino ouviu de novo aquele grito tentou tapar os ouvidos depois correu sapatear e incendiar as formigas, os rastros, os cheiros dos rastros. O mar de formigas invisíveis ou outros bichinhos cabeçudos e carnívoros deixavam marcas na poeira. Era muito de perigo e de alucinação.
         E Zezinho Arcanjo Bontempo nem queria mais se arrastar por aí. Talvez nem conseguisse mais, pois que já era. Mas na verdade estava mesmo envergonhado, vexado, cabisbaixo diante do filho. Perdeu e perdia a olhos vistos. Nem sabia o que dizer e resmungou só para desabafar, tentar iludir, dar uma satisfação, uma resposta ao moleque:
         - Ah, e essas formigas invisíveis e famintas!... Levaram... meu fígado à traição... e meus rins... etecéteras. Se... você... puder, fio...
         E a seguinte e última investida das formigas implacáveis deixaram Zezinho Arcanjo Bontempo muito mal na foto no arquivo: as formigas ladronas o desossaram até as barbas, até a altura do queixo, do pescoço pra baixo. Aí, Zezinho Arcanjo Bontempo restou somente olhos se mexendo, nem teve mais ânimo para gritar, agarrar, espernear, ser ele mesmo. Restava por fim uma máscara do ex-herói e ex-assassino e ex-topetudo e ex-tudoderuim.
         Assim, vendo o pai acabado, no palito, como um pirulito, Camaquã Jatobá Bontempo nem quis mais pensar o horror e foi espairecer. Nem precisava ir a lugar algum, mas foi. Liberou o Zoró, pegou o restante da herança do pai e saiu da palhoça. Atravessou a rua Única e foi até o campinho onde os moleques da vila brincavam de jogar bola com uma lata de compota de pequi vazia. Camaquã Jatobá Bontempo, porque muito menorzinho e ruim de bola, entrou de árbitro, assobiando nos dois dedos. E na primeira falta que apitou veio a primeira reclamação ousada e suicida. Camaquã Jatobá Bontempo nem gostou da arrogância e da afronta de ser encarado no olho. E foi e bateu no ombro do pexote teimoso. E já o reclamante caía baleado, por que sim.
         O sol queimava impiedoso o mundo do deserto vermelho. O calor estava demais. Nuvens intermináveis e vermelhas de terra passeavam pelo alto. Ex-morro fumava. Saci nem queria saber de nada e nadava no pó vermelho da única rua. O mundo tinha parado de ser acontecer e há mais de mil anos.
         Nessa altura, Camaquã Jatobá Bontempo, desiludido com a brincadeira de matar moleques no campinho, a maioria fugiu se esconder atrás das ex-árvores da pracinha ou das pedras do capoeirão ou nos buracos do grotão, sem pensar quase nada, pendurou o esqueleto do pai na parede do barraco. Se examinou se olhou carregado de ferramentas perigosas, pulou sete oito vezes, riu um bocado, me-ririri!... e saiu em busca da aldeia de Santa Luzia selecionando problemas e acertando contas e tirando dúvidas. Pegou das armas e apetrechos e subiu e desceu e rodou e entrou e saiu pela aldeia só para se exibir e ouvir os próprios apetrechos guizalhar, galengalengar!...   
         Em uma semana aconteceram muitas aventuras e problemas mal resolvidos pelo tal e qual culepe Camaquã Jatobá Bontempo. Num fim de semana movimentado, o diabo vestido de lama de ouro puro, cheirando gás venenoso e mortífero, apareceu outra vez vindo do nada do barranco arruinado. Veio, caminhou incendiando a torto e a direito, viu o que queria ver, aconteceu pouco e mais uma vez foi expulso.
Por sua vez, o espantalho atropelado havia renascido dos retalhos e recortes. E voltou teimoso outras vezes para assombrar a aldeia. Depois levou tantos dos tiros do intrépido Camaquã Jatobá Bontempo que morreu e foi se atirar na capoeira caminhando aos tropeços e tropicões até virar uma doença parasita contagiosa. Assim, muitos sacis riram muito por farra e costume e sempre de dentro mesmo dos redemoinhos irrespiráveis, ah ah ah eh!...  
Por coincidência, quando da perseguição ao tal lobisomem, Camaquã Jatobá Bontempo pisou na ponta de um prego que furou a sola da bota e furou a sola do pé casquento. Aí, doeu e ele sentiu mesmo os arrepios os frios febris. E abriu uma ferida muito perigosa para entrada de terríveis bandidinhos microscópicos ou invisíveis ou inimagináveis os bichinhos famélicos canibais tropicais etc.
         O menininho Camaquã Jatobá Bontempo, de oito anos e alguns dias maldizentes, sentou no chão e resmungou, gritou, mãaanhêee!... xingou reparando a sola do pé furado:
         - Enfim, a coisa ficou desastrada desastre pra mim também, ora!
         Dia de sol gostava e eu gosto, horas cheias de luz, cheiro de luz, as cores distribuídas no pasto todo, os tons de verde, o meu capim-da-roça favorito e suculento. Eu conheço. Mas se é dia de chover, tudo bem, que chova o que quiser e agora mesmo. A chuva eu gosto e me é bem vinda. Eu gosto de chuva e respeito quem gosta e quem nem aprecia de montão de bátega. Aí, depois de uma chuvarada, uma carreira na chuva, o pasto fica lavado e mais verde e com arco-íris no fundo. Me faz bem lembrar da chuva e ver a chuva e correr na chuva em meio às poças de água. Até onde a vista alcança até onde tem horizonte num total de 34 mil campos de futebol ou algumas cidades costuradas, Petrolina, Ouricuri, Barroquinha, Monte Santo, Cumbe... ou o que mais proferir. E eu sempre digo: quando se morre, passa um filme. E o tempo nem interessa. O tempo que for é presente. E todos os fins de tarde me acostumei eu escuto, por todos os fins de tarde e algumas manhãs intermináveis, escuto ouço com orelhas orelhudas assaltadas, umas pessoas ou as mesmas pessoas, e que dizem os tais e quais diálogos familiares e comuns e honestos...
- Maria Cristina Caraíba! O que há contigo, espertinha do cabelo branco?! Onde anda você?
...com uma resposta lenta e em calma da garota giz...
- Em um momento...
        


             

domingo, 15 de janeiro de 2017

Contos de Santa Luzia (22)




         Eram duas as moças - em suas bícis irmãs gêmeas - e queimadas torradas do sol, maiores, vacinadas, donas do próprio nariz, livre arbítrio, a tal e qual escolha livre, seguras de si. Vinham pedalando ao léu e de déu em déu e de lés a lés ao natural. Vinham trocando pequenas ideias ao normal livremente. E lé com lé e cré com cré, pois que cada uma com o seu pé. As duas já cobertas do pó da estrada, devidamente maquiadas, suadas e cheirando a burros de carroça. Ambas cansadas, derretidas, desgrenhadas, e um tanto quanto enfadadas.
Naquele momento, ou agora mesmo, entravam pela rua Única da aldeia de Santa Luzia. Rua poeirenta, britada, única rua e descalça. Casebres feitos de barro trazido de longe e cobertas de santa-fé. Uma poalha sempre assim, sempre ali no ar, sempre bailando no ar tornando o ambiente difícil de respirar. As duas tiveram o acaso de nem furar pneu no caminho até ali, até ali, até que enfim.
         A que usava de batom rosinha tinha um cabelo ruivo e curto, nos casos borrado e empastado. Trazia a tiracolo uma bolsinha de couro bordada com fios de ouro. E alguém poderia dizer: prefiro as mocinhas assim: com sardas no nariz e tudo mais.
A outra, que agitava o rabo de cavalo como um pêndulo, era loira, ou no caso amarelada. Trazia um lenço floreado de pescoço, um embornal de couro, uma bermuda com muitos bolsos e alças. Alguém já poderia dizer dela: necessito de moça assim: afável espontânea e boca rasgada.
A moça da direita, de quem vem, se chamava Manduri - nome de apelido de infância. A moça da esquerda, de quem vem, se chamava Maria - nome mundial.
         As gurias largaram âncoras na escadinha da capela. Um silêncio alimentado de poeira e difíceis guinchos de entes sobrenaturais. Olharam a novidade que era a vila de Santa Luzia. Tudo nem era sorteio? Tudo nem era acaso? Tudo nem era um jogo? Se sentaram nos degraus e sentiram fome e sentiram sede e muito sufoco. Estavam cansadas, cobertas de poeira, olhos cansados de paisagens ordinárias e poeirentas, sem muita paciência para conversar e pensar o por vir.
Continuavam observando ao redor. E também uma olhou a outra. A outra estava olhando os tocos das ex-árvores altas da praça, e tentando adivinhar o nome ou a espécie. Para a tal que olhava, a outra falou, boca cheia de poeira, proseou:
         - Será tudo real, Maria? O que vejo é o mesmo que você vê? Nem será um sonho idiota? Nem será domingo de feriado e eu sem vontade de me levantar?
         - Nem, nem é miragem. Nem, nem chega a tanto.
         - En-tão...
         - Hum...
         Depois, foram empurrando as magrelas até a extinta desativada padaria. Lá na porta da ex-lojinha uma pergunta do dia a dia:
         - Pra onde que foi todo o mundo, meu?
         - Então, nem vê que é o dia sufocante?
         As moças se dirigiram para as sobras das ex-paineiras da pracinha. O calor estava terrível. O saci arrastava terra no redemoinho e ria perdido, ah eh eh eh!... O bafão estava insuportável. Temperatura de fornalha. Nem chovia há duzentos anos, talvez oitocentos e cinquenta. Pesadas e impertinentes nuvens de pó. Maria percebeu um pixote se aproximar aí, a Manduri acompanhou a cena.
         - Tá vendo...
         - ... o que tô vendo?
         A Manduri chamou o arteirinho:
         - Ei, meu! Vem cá, rapais!
         Primeiro o culepe parou para olhar, e olhou. Depois, conferiu em volta de si para ter certeza que podia estar ali. E se sentou à espera de outro convite, e olhando. A boca aberta, cabelo desgrenhado, cara suja, caroço no peito. Aí, desistiu, ou fingiu se distrair com outra coisa, e olhou de lado, coçou aqui e ali. A seguir ensaiou aquela despedida, se ergueu, olhou de viés, se virou de costas e fingiu ir embora.
Mas, de repente, parou, pensou melhor, se voltou, olhou, voltou e veio se aproximando. Como um cão magrelo faminto ressabiado pedinte. E veio chegando, tímido, pés descalços, cabisbaixo, olhando sem querer encarar, coçando o caroço no peito. Já chegou, o olhar humilde, coçando ali no meio das pernas, chegou bem perto. Olhou a altura das duas moças. Parecia estar quase com vontade de chorar. O moleque foi falando:
         - Deixa eu andar de bíci?
         As gurias tiveram ideias politicamente políticas:
         - Vamos aceitá-lo? Vamos dividi-lo? Vamos nomeá-lo?
         - Vamos ao menos adotá-lo e registrá-lo como filho?
         - Acho melhor dar-lhe logo um nome próprio forte com o qual se sentirá forte rápido e alto.
         - Que seja um nome de índio, então.
         - Será que gostou mesmo da gente? Às vezes eles querem só andar de bicicleta.
         - Pode ser que sim ou que nem.
         As prendas procuraram um hotel, uma pousada, uma pensão, uma garagem, um barracão, um acampamento, um telheiro, uma gruta... e nada. Talvez... nem, deixa pra lá.
Percorreram todas as casinhas de pau-a-pique cobertas de sapê, mas sem encontrar. E nem viram ninguém para perguntar. Assim, resolveram ficar na pracinha. Armaram uma barraca debaixo de um alto esqueleto de quixabeira.
         Veio a noite. Também o vento vermelho, pilotado de saci, ah eh eh eh!... e correndo pela rua. O dia fora terrivelmente quente, sufocante, abafado como a boca de um forno, como a cratera de um vulcão. E a escuridão caiu como uma lona.
E a noite prometia ser também terrivelmente pegajosa e de grossas ondas. Noite de milhões de estrelas perdidas nas nuvens de poeira e a lua. Noite de martinta-pereira uivando fino na capoeira seca. Nem chovia há vinte anos. Um lobisomem acoava lá do meio das touceiras torradas de barba-de-bode, por trás dos tucurus vazios abandonados.
         As moças capotaram e foi cedo. Entraram na barraca e se aninharam. Estavam muito doloridas e sem tomar banho as pernas pesando como chumbo, etc. E fazia um calor sufocante. Assim, dividiram apenas um beijo na boca. E procuraram esquecer, dormir. As moças estavam ardidas e desoladas e mal pagas. Fora uma jornada sem importância sem nem por quê.
         Um vento carregado de terra seca parecia amontoar o cisco para um canto da praça. Entes extraordinários que grunhiam andavam olhavam com quinze olhos sem ser vistos. Depois, o mesmo vento discordava e empurrava a coisa para outro canto. Assim, o vento empoeirado foi tocando para os quatro cantos. Uma mula-sem-cabeça trotou rua abaixo ou rua acima, potocó! potocó!... O saci espiralou num pé e ali por trás da derreada cerca de taquaras rachadas.
         Maria acordou no fundo da noite alta. O ar estava sufocante e entupido e abundante de poeira vermelha. O mundo cheio de silêncio suspeitoso. Saiu para fazer uns poucos passos. Os ventos haviam desaparecido mas a poeira nem. A noite, por dentro, estava realmente pesada de terra, embaraçada e muito quente. Maria cruzou os braços olhando o quê? Mas mais e pensando sem nada para concluir. Caminhou ao redor da barraca para mexer as pernas. Os secos espetos de jurujuba apontando inutilmente agressivamente o firmamento terroso. E ela pensou: “Isso nem será já algo esquisitamente como uma equação, que equação?”
         Maria parou olhando o encoberto fantasma da lua. Apenas uma guampa de touro xucro escondida confusa entre as ondas de poeira. Ouviu uns passos e ficou em alerta. Da escuridão apareceu uma jovem típica aldeã trajando vestido longo. As duas se encararam. A típica aldeã estava com uma guirlanda de flores artificiais na cabeça. A típica vilã mantinha o cabelo até a cintura. Muito peculiar a típica aldeã parecia gostar de miçangas, piercings, tatuagens, trancinhas nos cabelos, fitinhas coloridas nos pulsos. Uma frase tatuada no peito mostrava escrita em se saindo como colar: “Voar como se por que nem tenho asas?!” Esta típica aldeã convidou:
         - Que vocês duas estão esperando aí? Por que nem vêm pro baile?
         Manduri e Maria acompanharam a jovem típica vilã até o outro lado da capela da homenagem à santa Luzia. E entraram num fervo agitadíssimo. Tochas, archotes, e fogueiras iluminavam um círculo de folia. Toda a aldeia comparecia, sem dúvida. E nada nada para beber, para comer. Música ao vivo com o conjunto dos próprios moradores. Pixotes brincando de se agarrar, correr atrás, chutar canelas, cuspir, xingar, atropelar, esbordoar. A típica aldeã tirou Maria para dançar o tal e qual vanerão:
         - Vamos nessa?!
         - Demorô!
         O padre, com seu chapéu de palha desfiado na aba, ria alto, ah eh eh eh!... e olhava tudo e todos por ali, cuidava das coisas, braços cruzados, circulando sempre, interessado, arrastando na poeira as chinelas de couro fechadas. E no mais, uns dançavam, outros ficavam olhando de braços cruzados e rindo alto. A gurizada se arrastava pela poeira, e gritava e chorava e se queimava nas brasas das fogueiras.
         A Manduri foi intimada por um aldeão de bigodes em ponta. A Manduri se deixou carregar. Ela ia falar, ia explicar, nem teve tempo. Foi que lhe veio de rir muito quando deu para pensar que jamais beijara alguém com aquele bigode farto e agressivo e cerdoso. Nubladas ondas de pó e pesadas e densas perfazendo o lugar e de grau a grau. E se imaginou debaixo daquele bigode hirsuto. Já se sentindo curiosa. Com vontade de falar algumas coisas e rir. Calculando peso, medidas e intensidades. “Mas, por que nem?”, isso ela só pensou.
         A ideia comum e associada das duas garotas estrangeiras era se divertir e ir embora da vila pela manhã vindoura. Se divertir sem neura, e ir embora na manhã seguinte. Se divertir era sempre o normal e ocasional, ir embora adeus era tranquilo e certo. Se divertir hoje e amanhã ir embora pegar a estrada de tchau.
         Depois, Maria e a típica aldeã pararam de dançar. Acho que exaustas. Maria parou para respirar melhor, e porque achou que pintava um clima entre elas. Sentada numa banqueta ela olhou toda a festa e sentiu que tinha ocasião. Tanto ela como a Manduri. A noite nublada com pontos raros de estrela e lua. Umas nuvens cinzentas viajando pelo alto até o infinito. As duas visitantes se sentaram lado a lado e pareciam nem mais aguentar um minuto o ar pesado intragável do lugar.
E as gurias, então, tiveram a quase normal certeza de que a noite seria imperdível. Riscos uivos sombras que se moviam se ouviam já nem se viam nem se ouviam e sem se lembrar onde. Se entreolharam e se abraçaram já se sentindo em grande intransferível histeria.
         Maria foi convidada para uma música lenta. O aldeão era alto, magro, ossudo, galhudo e nariz de rapina. Maria colocou o ouvido naquele peito ossudo peludo e pensou dormir. Já a Manduri foi tirada pela típica aldeã. A Manduri gostou muito porque a jovem e típica vilã parecia muito entregue e interessada. Beijo na boca era esperado, talvez para breve, talvez só mais tarde no flagrante, quiçá roubado. E Manduri abriu os olhos, assim uns olhos meio molengas, e procurou ver mais longe.
         O sacerdote rodava e rondava a área iluminada pelas fogueiras. O padre usava um chapéu pantaneiro rasgado e manchado na frente. Mãos grandes às costas esperando uma hora incerta. Enquanto isso, os pivetes corriam para ali e para lá brincando de se atirar brasas acesas nas pernas. E brincavam de futebol com lata de leite em pó vazia.
         Os aldeões e as aldeãs os iguais de seus iguais nem deixavam as visitas descansar para além de dois minutos. Lá ia a Manduri rodando pelo chão, levantando poeira vermelha, atrás de um forró e agarrada a um baixote de grande barriga por cima da cinta. Lá vinha, na contramão, a Maria girando na nuvem de pó agarrada a uma robusta de cabelos em trunfa. E as duas estrangeiras aceitavam esse assédio. E trocavam entre si um piscar de olhos divertido. Se sentiam excitadas. E ainda que tinham um testado preparo físico e muita paciência e curiosidade.
         Quando muito, então, começou a ficar tarde dar as dores nas pernas nos braços e muito sono. A Manduri falou para um aldeão que a arrastava no pique largado do samba de gafieira:
         - Houve muito desmatamento por aqui, na região na zona, certo?!
         O som parou para dar lugar às lorotas, anedotas, lendas, vanglorias e gargalhadas, ah eh eh eh!... Muito dito de gauchada, causos de mentirosos. Matavam extirpavam comiam. E todos pareciam estar muito ligados, uma vez. E as duas visitas já nem tinham por que ter dúvidas: eram moças de muito prestígio na aldeia.
Manduri pegou o patuá com cara de sapo verde do seio e deu-lhe um beijo profundo estalado. Maria agarrou sua cruz de prata do seio e a beijou carinhosamente repetidamente. A noite, lá no alto, pintada de nuvens vermelhas, ondas enroladas, e sem o que fazer. E a lua ouriçada envolta em saco de estopa ou aniagem. E um e outro bramido na distância. E alguns arrastar de pedras, poeira nos olhos, risos de, ah eh eh eh!... Quem sabe até uma martinta-pereira espoleta reinando por aí, hein?!
         O pastor fez um sinal, que nem era o santo pelo sinal, e dois aldeões trogloditas pegaram a Manduri, e mais outros dois aldeões gorilas pegaram a Maria. E as levantaram meio metro do chão, com surpresa e tudo. Tiraram todas as peças de roupas das moças convidadas. Agitadas as duas muito bastantes as pernas e os braços e os dedos de garras em unhas. E as ataram nas mãos e nos pés. Depois as penduraram de cabeça para baixo num galho isolado de petrificada araputanga da pracinha.
         As sorteadas ficaram ali, vendo o mundo, pendulando, olhando os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos, a vila toda rindo, ah eh eh eh!... gritando, brincando de ciranda, tudo tudo de cabeça para baixo. E elas tiveram quase certeza: como duas podem ser quarenta e poucos: como quarenta e poucos podem conter duas. Abater estripar manducar. E os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas somente aguardavam as fogueiras baixar e tudo virar um brasedo de assar.
         O vento muito calmo levantava uma pouca poeira de nada. Uma mula-sem-cabeça relinchou no capoeirão entre os secos tipis-bravos. Saci, ah eh eh eh!... reivindicou em torvelinho seu setor no meio da rua Única. As gurias nem tinham mais nada para falar mais nada para aprender nem nada para rir nem para pensar.
         Certo aldeão chegou com uma casca-de-vaca na mão. Levantou a casca-de-vaca no ar embalsamado e foi largando com vontade. Então, as duas gurias, cabeças para baixo e olhos fuzilantes, receberam o que mereciam, receberam chá de casca-de-vaca. As marcas assinaladas, táaa! táaa!... penetravam também o instinto dos circunstantes como carne macia amaciada.
         As moças estrangeiras perderam logo logo a expectativa esportiva, depois os sentidos, corpo e parte material, e nem demoraram mais nada para morrer.
         Um lobisomem - àquela hora ainda disfarçado de espantalho com chapéu de cartola -, muito tonto e esfomeado faminto, ali no meio do capoeiral, redepentemente, urinou longemente num forte incontido jato de esguicho.
  


domingo, 11 de dezembro de 2016

Contos de Santa Luzia (3)

                                              


         ...naquele lugar em separado extraordinário desgarrado extraviado...
         Outra outra como outras tardes vermelhas e abafadas e cozidas. Sol fechado e as horas de calor terrível, no duro. O mundo de pedregulho e terra em suspensão.
E tudo uma grande pasmaceira em a vila Santa Luzia. Meses sem chuva. Sol mais vermelho que a terra vermelha. Dias e dias em que os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas por demais cansados e desinteressados e desanimados. Aldeãs e aldeões já muito agastados desconsolados desidratados. Aldeões e aldeãs e aldeõezinhos insatisfeitos e preguiçosos e falando sozinhos.
O mundo ali todo exposto ao deserto indecente indigente inclemente. Estava bem ruim, péssimo, mas muito pior. O alto enfarruscado de vermelho. As ex-árvores paineiras aricurirobas já pra lá de tontas, raquíticas, subnutridas, esqueléticas, secas e cheias de apelidos depreciativos. Gravetos e folhas secas espalhados pelo chão da pracinha. Pedras assadas, requentadas, tirando faíscas do sol. O pernetinha no meio da rua Única, no meio do pó do redemoinho, no meio do ar terroso irrespirável. E este cagadinho se ria, ih ih ih!... este merdinha seca se ria, ih ih ih!... este fedelho se ria, ih ih ih!...
         A pracinha esburacada, de árvores petrificadas e espetadas em lanças pretas contra o céu ex-paineiras ex-aimontabus, era o lugar escolhido e predileto de reunião dos arteiros dos traquinas. Isso durante o dia encardido ou à boca da noite poeirenta.
E nessa aldeia ou capela de Santa Luzia, aspecto de vila ou arraial, tapera, tempo perdido do perdido e meio, espaço desértico, se encontrava e se entocava um piá mirrado e sequinho e miúdo e precavido, chamado Zé, o Zezinho, de outros apelidos, Micuim ou Mico.
Chegou uma certa hora da tarde 03:15 que dona Maitá a mãe do Z nem teve saída senão gritar para a vila inteira ouvir:
- Zeziii-nho!... Vá até a casa da D. Mucura e peça pra emprestar um aquele velho e esfiapado chapéu de palha de abas largas!
Zezinho acordou assustado que nem viu. Zezio, muito prontamente, muito importante, muito lambuzado de poeira vermelha, já saiu do seu esconderijo debaixo do casebre. E eclodiu enrolado nesse algo parecido com panos de faxina camisetinha e calção sujos rasgados.
A mãe dele ainda gritou mais:
- Volte rapidinho, pois preciso do cha-chapéu agora mesmo!
O Zeo, pés descalços, dedos dos pés abertos acostumados de andar sem calçados, joelhos roídos, pele grossa de encardidos, já saiu afobado deitando o cabelo engomado de poeira. Cuspia como costume de cuspir. Sempre olhando desconfiadíssimo mil vezes por segundo em todas as direções possíveis.
No caminho de ida, cruzou pela área da pracinha onde os outros moleques lidavam e gritavam e xingavam e brigavam à vontade. Nem podia se dar ao desplante de parar. Então, talvez por isso mesmo, os pivetes o provocaram:
- Mico! Aonde você vai?!
- Já volto! Vou ali e já volto!
De volta da carreira que fez até a casa da D. Mucura, o moleque ouviu novamente o convite dos pixotes:
- Mico! Vem atentar de chutar bunda! Vem! Falta um! Falta você!
Inho nem podia parar para atender. Era um menino prestativo, fiel, metódico, sistemático, tímido, chato, tonto, teimoso, embirrento, desconfiado. Mas preferia muito chutar bunda dos outros, como se fosse bola. Ficava só na fantasia e na ilusão de pensar. O mais difícil era o de arrumar um boboca qualquer. Chutar a traseira ou outra parte do freguês era muito excitante porque arriscado.
Meses e meses e continuava a crise da falta de chuvas. Faltava a chuva. Faltando chuva faltavam sapos, libélulas, grilos, besouros, moscas e faltavam escaravelhos. Nem havia nada em lugar algum. Faltavam gafanhotos, faltavam aranhas, caracóis, lagartos, cobras, lacraias, mosquitos, aimirins, faltavam escorpiões. Aconteciam sobras de incêndios no capoeirão, consequentemente faltavam todas as plantinhas e quaisquer plantinhas. Nada de verde nada que se movesse; tudo recamado da poeira sempre em movimentos pelo ar.
         Zé ou Bicho-Colorado era um guri de nada. Zio ou Micuim era um piá que pensava perguntas as absolutas as absurdas. Perguntas que pensava eram do tipo: As estrelas falam entre si? As pedras têm coração? As estrelas são de ouro ou de prata ou de diamante? As pedras dormem de dia ou de noite? Em que país moram as maiores e melhores estrelas? E Zezinho continuava ainda perguntando a si mesmo: Como foi isso? E depois, que aconteceu?
         Nem se sabe quando terminara, quando deixara de funcionar, mas de um tempo pro outro, antes do tempo, todos repararam que Zezinho nem conseguiu mais crescer e se desenvolver. Ele tinha treze, e seu corpinho resistia na altura e massa dos sete. Não, não era filho de anões. Nem neto bisneto trineto tetraneto de pigmeus. Nem parente de caxinguelês. E nem subiria mais que aquilo ali que já subira. Era bem pouco. E isso sempre fora o motivo dos traquinas colocarem o apelido de Mico. Por isso mesmo, nessa dura certeza, ele, Zezinho, tivera um forte e decisivo e urgente pensamento de morrer. Mil maneiras de morrer e sumir e desaparecer. Um seco seco pensamento de se ver do avesso de se ver pelas costas. Um pronto desgosto vazio de chegar e pedir socorro e xingar e gritar palavrões.
         Até que uma hora, naquele dia, uma sexta-feira de manhã quente como forno doentia como fornalha acesa, o padrasto foi e gritou para o pátio ou na direção do terreiro:
- Zeeé-zinho! Vai pro pai lá na ex-marcenaria do seu Guajá e traz de lá a velha e quebrada cadeira de balanço! É pra já!
         Z-Z acordou assustado e meio cego entupido de ciscos num olho. Zo, muito ajuizado e zeloso e engajado e cabisbaixo e resmunguento e craquento, já já saiu do seu esconderijo no buraco debaixo da tábua podre e se apresentou. Cabelos sujos desalinhados cabeça marcada de caroços e calombos e cicatrizes. O ambiente desde antes revolvido misturado remexido nos carvões e nas fuligens.
- Zezinho! Pede pro seu Guajá pendurar na confiança! Vai num pé!...
         O Zi ou Micuim-Amarelo, solas dos pés comidas pelo chão requentado, manquitolando, cigarro de palha de milho na boca torta, disparou para a ex-marcenaria. Juntando pedras que carregava nas mãos conforme preferia umas e não outras.
No caminho de ida, cuspindo quando tinha saliva, ele cruzou a pracinha onde os moleques cheiravam cola e brigavam e discutiam e se corriam atrás com pontapés e pedras e paus. Queria participar, queria ser mais um nas molecagens, mas estava com urgência, com tempo escasso, com tempo gasto, com tempo previsto, com tempo contado. Os bagunceiros queriam detê-lo, e berraram:
- Ei, Mico! Não vem se misturar com nóis?!
- Agora estou com pressa! De repente eu já fui!
Na volta da ex-marcenaria, o convite foi renovado, revoltado:
- Mico! Vem, vamos atacar de incendiar os bobos e os otários! É luta das grandes à beça!
- Infelizmente tô sem poder!
Nesse vaivém Zezinho tinha dúvidas se devia ou não se perder. Sentia muito não poder ficar com seus parceiros incendiários, arteiros, desaforentos, briguentos, espalha-brasas. Incendiar um garotinho bobo qualquer era muito esperto, era a moda e a onda do momento. Primeiro arrumavam um tanto de palha seca, depois atraíam um pivetinho doido e distraído, enchiam o pirralho de palha, igual um espantalho, tocavam fogo. Dali pra frente era se preparar para tirar sarro e muito vendo o pirralhinho riscar a pracinha como um cometa. Às vezes o molequinho mesmo fazia o acaso de correr para o capoeirão seco. A capoeira pegava fogo fogo. A aldeia corria apagar. Um inferno, todos na rua em pleno sol causticante, e um acontecimento.
         E o menino Zés ainda se duvidava: Por que o sol nem para? Por que a lua se quebra toda? Por que as estrelas piscam somente à noite? Por que nem chove quando já todo o mundo espera pela chuva? Por que o mundo teima teima com ondas de poeira vermelha? Por que o tempo de espera nem passa?
         Mico ou Timicuí preferia, sempre preferiu, um dia começou a preferir muito o de se entocar no buraco escuro debaixo do casebre. E já se acostumava, e já nem precisava de mais nada. Nem queria ver ninguém nem fazer outra coisa. Ficava no buraco escuro, entocado, sozinho, quieto, cochilando, como um rato comum como um gambá como um morcego. E se enfiava ali no buraco o dia todo, sempre e tal, como quem nem queria mais nada. Se enfiava no buraco e relaxava e dormia e sonhava qualquer coisa agitada nervosa repetitiva. Se recobria de terra quando sentia frio quando estava com febre.
Depois de parar de crescer, e perder as meninas da idade, Z ficara muito muito mais tímido e desconfiado e arredio e vingativo. Perdera a atitude. Perdera a vez. Perdera a hora. Perdera tudo. Caminhava sem vontade ou fingia que andava. E começou a fumar e fumava vinte cigarros de palha por dia, quarenta por dia, os beiços os pulmões ardentes queimados de tanto chupar fogo e engolir fumaça.
Na roda dos arteiros na pracinha, por exemplo, Mico nem ousava atentar as gurias, contar uma bobagem qualquer, se levantar se destacar durante as arruaças e palhaçadas e macacadas, gritar alto no meio do bando, correr mais que outro, sentar ao lado de uma guria, propor uma aventura, fazer um gol. No meio da galera nem se ouvia sua voz, nem se ouvia sua tosse, nem se ouvia seu pigarrear escarninho. Ficava num canto só observando, encurralado, prendendo a respiração, encolhido, retorcido, torcendo para nem ser visto, torcendo para nem ser ouvido, para nem ser acusado nem ser atucanado. Era um horror se os marmanjos olhassem para ele, um deus-nos-acuda se pedissem para que fizesse tal coisa, uma dor de barriga se apontassem o dedo sujo e acusador.
- Zeiii-nho! Vá pra mim até a capoeira e me traga de lá duas pedras para fazer sopa! Nem vá me fazer esperar!
Zoinho acordou assustado, as orelhas enferrujadas de terra seca. Então, Zezi ou Timicuim, muito rápido e atento e neurastênico, saiu da sua toca e se prontificou a atender o pedido e fazer o carreto. Ficava alojado no buraco um dois três dias, às vezes atacado por acessos de febre. Claro, seu Pacari era gente vizinho e coisa e tal. O seu Pacari ainda recomendou:
- Zezinho! Faz esse frete pra mim! Vá até ao ex-roçado atrás do morrinho de areia e me colha duas pedras que já deixei de propósito! São até muito levinhas! Na volta lhe devolvo as bolinhas de gude!
Zezé disparou para a ex-rocinha do seu Pacari. Se coçando pelo corpo todo arranhando as pernas se estapeando nos braços. Z-Nho era um menino atencioso e solícito e nervoso e esperto e desconfiado e embirrento. Gostava de cuspir quando tinha o quê. Na ida e na volta, cruzou com os meninos vira-latas se combatendo na pracinha sob as carcaças das ex-paineiras ex-guriris. Ainda na ida era feito o convite:
- Mico! Vem se fazer de carrinho de mão!  
- Nem posso! Tô trabalhando pro seu Pacari!
Na volta, vergado ao peso das pedras gêmeas, ouviu o pedido sendo reiterado e revisto e refeito. Até a Marilva, de repente, pintara por lá e ela mesma fez um convite renovado e provocativo:
- Mico! Ei, seu Miquinho! Nem vem não?!
- Não vou poder, Marilva! Tenho que entregar estas pedras, Marilva! Fica pra ontem ou depois de amanhã, Marilva!
Zeio defendia muito as estripulias de carrinho de mão e comer terra e soprar pó vermelho na cara dos pexotes. Era muito arriscado e pagava a pena. Se a Marilva participava então era de matar. E até queria muito ver se a Marilva tinha mesmo força para levá-lo como carrinho de mão. Até se podia dizer que Zezinho sentia coisas por Marilva. Era assim. E continuaria sendo assim.
Zé esperava tudo de Marilva. Assim como uma vez de Junara. Assim como uma vez de Curica. Assim como outrora de Umutina. Assim como de Suzana. Assim como de Juruvoca. Até ali ainda sentia formigamento, principalmente quando chegava perto de Ana Paula. Nem poucas outras vezes, Mico ainda nem conseguia dormir porque a Juriti queria escalar sua garganta e sair pela boca. Eram noites que o Zinho tossia muito. Zezi pensava que a caixa do peito dele mesmo já estava toda esburacada como um labirinto de pedras, como um abandonado cupinzeiro e ou desfigurado em crateras como a lua cheia. E Zé esperara por Tataíra, Mico quisera rolar mais a Inajá, Zezinho dormira fantasiando com Bocaiúva. Também daí pra frente outras pra mais.
         Mico pensava, se perguntava, depois se perguntou: Onde nasce a lua quebrada e cai a lua cheia? Quem puxa a lua de volta pra casa? Quem solta a lua para o céu noturno empoeirado? Que tipo de bicho vive na lua? Pra que que serve uma lua só? A lua quer ser um disco ou um prato? Quantos dinossauros por dia vão parar na lua?
Zeinho nem preferia ter de fazer necessidades em lugares determinados e próprios para esses fins. Ele tinha receio dos outros. Ele mesmo escolhia o lugar e muitas vezes ao acaso. Temia ser seguido e vigiado. Quando precisava fazer, e fazia talvez lá uma ou duas vezes por semana, ele se afastava de tudo e de todos da tropa e corria para o lado oposto. Por quê? Pois os moleques ficavam sempre olhando o burrinho de um e de outro para comparar. Aí, saíam contando, ridicularizando, azarando e falando alto, desmedindo, espalhando nos ouvidos até das meninas. Zezinho levava nisso a pior. E sentia muito ódio disso tudo. Se sentia mal, muito mal, orelhas quentes, dormência nos braços nas mãos, ânsia de vômito. Sempre guardava escondido dentro do calção ou na garra da mão alguma pedra de estoque de precaução por via das dúvidas.
- Zeeziiinhooo! Vá até dona Lili me buscar uma picareta! É pra ontem!
Micuim acordou assustado, as unhas compridas e sujas e azedas. Z tinha dever urgente de atender sua avó Clô. Então, muito ligado e condicionado e lépido e liso e rasteiro, saiu do esconderijo do fundo da toca meio escura e se apresentou. Era mesmo uma figura magérrima uma sombra avermelhada, apareceu.
- Zezinho! Diga à dona Lili que eu quero emprestado a picareta! Mas é pra agora mesmo, viu?!
Zinho-Zinho já voava a jato, e já cruzava a pracinha onde apareciam gritando e correndo e se perseguindo os piores e menores trocistas da vila. Zé ia cuspindo porque precisava de cuspir onde fosse quando fosse. A molecada gritou atrás:
- Mico! Vem escravizar meninas otárias!
- Agora não, gente! Tô indo numa missão importante! Missão mesmo pra lá de principal e capital!
Ao retornar, e com a picareta no ombro, torto carregado de peso de um lado, Zé ouviu a réplica do convite. Recusar era tão e mais difícil:
- Mico! Vem ou não vem?! Já aprisionamos a Léo, seu bocó! Vem de uma vez, seu jacu de taipa!
- Ah, gente! Dão licença! Digam que não! - respondeu Zezio.
Zinhozim preferia mesmo muito ficar e escravizar a otária da Léo. Era uma das versões mais fortes da vila quando o de escravizar alguém. Uma palhaçada muito praticada e típica do lugar. Os molecotes seguravam o pé da menina com uma corda e não deixavam ela fazer mais nada que pensasse fazer. Era com gurias era com guris, mas incrível mesmo com gurias. E quando ela nem queria fazer nada, os moleques a obrigavam a fazer alguma coisa qualquer. E assim esse puxa-puxa durava até enjoar. Até que a molecadinha se cansasse. Às vezes a menina torturada num dia era mantida presa e atada até o outro dia e também no terceiro dia. Às vezes a menina ou menino até nem tinha permissão de fazer xixi e se mijava todo na bermuda. Nada mais do que isso.
         E o piá Z ainda se questionava sobre tudo e nada: Onde fica o começo do mundo? Onde está o fim do mundo? Quem detonou o tempo? Quem fez o mundo e sumiu? Por que o planeta tem esse barulho ensurdecedor? Por que o mundo tem uma pedrona em cima? Aonde o mundo pensa chegar, uma vez?
         ... um como que pouco pras oito e também conhecido como dez pras oito ou sete e cinquenta...
Zé preferiria muito principalmente três coisas: Uma viagem até a lua cheia em noite sem nuvens de pó vermelho; uma fuga qualquer nos braços da Mari; uma força de erguer do chão dois meninos grandes, um para cada sovaco; um dia inteiro sozinhos no capoeirão atrás das pedras e com Mari.
- Zéee-nho! Vem aqui bem perto que quero lhe falar a sério! Quero um carreto seu! - chamou o tio Coripó.
O Zi acordou assustado, corpo todo marcado contundido de tanto se debater em delírios e pesadelos. E mais o quê, amarelo e esquelético e fino e rápido, boca seca, ainda zonzo dos sonhos delirantes, cabelo vermelho do pó da terra, pele e ossos, e leve e ligeiro como um risco. Então, saiu da sua toca fria, muito sim senhor, aos pulos, pronto a servir. Cuspindo com mania com hábito crônico. E já levando sempre na ideia que estava ali para atender e prestar serviço e atenção igual um cachorro.
- Zezinho! Faz de muito rapidíssimo e rasteiro! Faz um negócio pra mim! Vá até a tapera da estrebaria do seu Tarumaí e me traga de lá uma ferradura velha e carcomida! Volte logo logo! Que é pra dar sorte!
Com muita mania de alerta e prontidão, e nariz escorrendo empoeirado, lá foi o Zézio. Afinal, era o tio Coripó quem pedia. O dia estava tapado de poeira natural da região. E Zezi atravessou a pracinha com o objetivo claro e já planejado, e o alvo já na alça de mira da menina dos olhos, o rumo já definido. Os moleques, todos muito tolos, molengas, já levantando poeira em tumulto, permanentemente no bababi no rolo no conflito, vinham com pedidos, gritando, vociferando. E veio o pedido-convite dos descamisados:
- Mico! Vem aqui, seu culepe! Vem fazer estripulia!
- Nem nem posso neste exato momento! Tenho uma incumbência por fazer! Tenho uma obrigação a executar!
De repente Zezé, cara de maracujá seco e enferrujado, já voltava afobado, resfolegando, língua solta na boca torta. Os garotos, assim rolando na poeira, soltavam os zurros, os uivos, os pios, os bufos, os coaxos, os grasnados e os relinchos. E insistiam convidando:
- Mico! Não me diga que nem quer aprontar aqui com nóis?! Vem de uma vez!
- Meu tio me espera com impaciência! Ele está com vontade de pregar ferradura no alto da porta! Meu tio Coripó é muito imprevisível e irascível e supersticioso!
 Zi sentiu muito não poder parar ali horas e horas rolando na poeira vermelha rastejar no pó da terra. Os mais espertos e heróicos subiam nos galhos secos das ex-árvores paineiras ou saguarajis da pracinha e pulavam. Voavam de braços abertos e perninhas duras e... pooo-fe!... aterrissavam no solo vermelho e duro. Era coisa para moleque muito corajoso e destemido e suicida. O Guató era o que pulava de mais alto. E muitas vezes durante uma partida. Todos queriam ser como o moleque Guató. E todo o mundo piava assobiava e se coçava alérgico porque era muito impressionante esses eventos perigosos e violentos.
         Na caixinha confusa escura e desimportante dos seus treze anos, Zeinho se preparava para ser sempre o Mico. O engodo de todo o sempre dum Micuim. Dormia no buraco e sonhava como um gato, como um cachorro, como um jabuti, como um lagarto, como um urutau. Então, cobria a entrada da toca com retalho de laje, com pedaço de tábua, com pneu furado, com sobra de latão. Ficava ali esperando. Mas aquele tempo nem passava. Um tempo nem de espera mas de mor-do-mi-a.
         ...pois caso passassem ou ficassem para trás eram passados vinte anos ou o dobro sessenta e cinco anos em um total de dezoito anos...
         Um domingo desprevenido, o tempo apocalíptico, o sol de rachar por dentro das ondas de poeira vermelha, remoinhos de sacis, o vento uns cento e vinte por hora, abalou a vilinha desequilibrou mais ainda o povoadinho. Nem chovia há duzentos anos. Os casebres soltaram poeira do telhado de sapê. Sacis rindo, ih ih ih!... no dia mormacento. Não, o mundo nem passava ali. Nem na ida nem na volta e em estação nenhuma. Pois nessa hora seu Jacurutu, o ex-farmacêutico, gritou esquentado lá da janela destrambelhada:
         - Zéee-nhooo! Vai pra mim até o grotão buscar vê se acha um osso de ex-formiga tanajura para fazer refeição no almoço do meio-dia!   
Zezinho acordou assustado, a boca os dentes encardidos de terra. Seu Jacurutu era vizinho da direita. Zizizi escutou o pedido e já se arrancou. Zinho era ligeiro quando queria, era lento quando queria, era teimoso quando nem queria. Cochilou desmaiado ali no buraco por um tempo que nem se sabia. Sem demora e já saiu correndo no trote pronto para correr, tirando tatuzinho do nariz, cuspindo pro alto pro chão na palma das mãos, se mandando como um robozinho muito domesticado e mirrado e torto e encardido.