sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

QUEM É O NOME DELA


      


       O amor que tenho por essa guria não é amor propriamente dito propriedade minha. É um sonho de consumo de beleza de modelo de exibição de palmeira juçara de high tech de horizonte. De longa data.

Nasci aqui e sou do mundo.

       Somos amigos os dois das plantas, quer um ex?, cajueira-bravo, taioba, sapucaia-branca, piuveira, cumaru-amarelo, faveleira, biribá... 

       Foguetes sem parar e a virada para o 2011.

E mesmo porque duvido de tudo o que me diz, principalmente desses seus olhos de Capitu. Será que não leu Capitu. Não leu, mas sabe mas entende mas presta muita atenção.

Não sou, não adianta que não sou a ilha da Gipoia!

O sol toca o ponto da manhã com estratégia carícia delícia. O vento sai pulando de arco em arco. O vento pergunta às folhas. E um rio milagreiro de nome Verde em Mato Grosso cachoeiras horizontais cai na minha balança.

Já tinha acontecido assim mesmo em lá as tantas outras vezes.

O astro na sua sina atômica tem a vida ganha. O rio tem a vida ganha. As estévias a vida ganha. Os capitães-de-saíra a vida ganha. Conto as horas conto os dias conto as árvores da avenida Casemiro de Abreu. O quiriquiri não sabe se está certo. A paciência e eu busco principalmente a paciência. Lua cômoda e acolá em cima, aquela lua branca do prato ro-lan-do em câmara lenta.

Pago um táxi para me levar até a esquina vender milho verde. Quem não gosta? Cinco reais. A rua completamente comprida e muitas das vezes sem necessidade. Milho para agradar a noite toda.

E seus cabelos que meses atrás tinham mechas esbranquiçadas e lhe acrescentavam quatro ou no mínimo três anos?! E dias após as mesmas crinas que ficaram vermelhas como fogo?! Agora são melenas negras como a asa da graúna.

Depois de passarmos a limpo, descemos e fomos ao quintal cheio de árvores. Japus-verdes faziam ensaios trapezistas em a tamboril. Uma pixoré ouvia o outro. O vim-vim fazia jus fazia por merecer. As setes-sangrias os ipês-da-várzea ajudam na cura do estômago, se for o caso. Os aipês super protegem a garganta. As pitangas-brancas combatem a febre. As capororocas previnem inchaço dos pés. As orelhas-de-burro úteis para uma boa sombra. Uma figueira-branca perto da casa excelente para guardar dos grandes ventos noroestes.  

       Já nem sei se lhe deixo uma das minhas fotos ou se fico devendo prometendo e negando adiando fingindo esquecer.

       É árvore ver o tempo, é rio ver o tempo, é tejo-do-campo ver o tempo. É olhar uma uvaia e ver o tempo.

       O que se faz para amanhã? O que faz o povo da aldeia aisuari?

       Comentada no mundo inteiro, consumida pelas tribos na região da Amazônia Legal, comemorada nacionalmente como do norte, a castanha-do-pará atingiu a curva do universo. Eficaz para o corpo e a inteligência. E faz bem a todos que é boa toda hora.

       Que o rio cresceu até as nuvens plácidas. E povoa as margens de Santo Amaro da Imperatriz, Águas Mornas, Brotas, Riachinho, Imbé.

       Hoje dia 8 de maio de 2016 cinco meses antes da minha viagem de férias para tal Junco do Seridó e São José de Espinharas.

       Essa fruta é tentação, tentação. Outro dia, por exemplo, peguei o colarzinho que trazia, tipo esses que os índios ticuna usam, e ela me pareceu preocupada e expectativa com a opinião que eu iria manifestar.

Isso tudo, contudo, não parece provável.

       São só detalhes que tudo bem que se repare, mas que não contam em nada, nada.  Atitudes como de crianças no recreio. Sem preocupação com o sentido que os olhares tomam que os gestos carregam que as palavras incitam que os outros maliciam.

       Ao nascer o sol em o dia 17 mês novembro ano de 2002 peguei e fui a pé mesmo até o centro da cidade reparando as ruas as árvores em linha de fila coisa natural coisa normal coisa minha. Todos na rua olharam para mim assim as pessoas os bichos as árvores as cadeiras os automóveis os acampitás. O céu azul as árvores verdes, pequiá-do-mato, estriveira, peribi, canela-pinho, sapupema, granixinga e o vento que sempre vem de longe. Bando de peririguás, juruebas, também os jaós, fogos-apagous. Ficaram as casas, ficou a rua, ficaram as árvores com flores comestíveis. As lojas seus atendentes tranquilos seus fregueses ausentes indiferentes escassos. Os prédios de vidro sob o sol quente, mandaçaias-do-chão, tinguis-da-praia, nhumbus. A partir da praça Aimoré, a paca atravessou o canteiro central entrou pela sapieira no terreno baldio virou cutia virou preá virou cadeira virou taquaruçu virou pacova-sororoca etc vira virou por aí afora ou coisas aparecidas.

       Não sou, não adianta que não sou o caiouá!

       É fácil saber o que ela está pensando neste minuto. Que horas são? Está por lá na sua casa na praia da Joaquina pensando em mim como eu penso nela daqui de Pirapora.

       É a minha natural veleidade. É mania a veleidade. É a veleidade.

No shopping no ginásio na missa de domingo tentamos super disfarçar. Dia 20, 7 horas da tarde e o ano de 2004. Sempre quando nos vemos preferimos aquela troca de gestos e palavras amistosas, um beijo no rosto e tchau, um beijo só no lado do rosto e tchau mesmo.

Minha irmã do meio me recomendou uma certa viúva recém-recém moradora no bairro São Peregrino e eu fiquei para olhar para ver de pesar de ponderar e cotejar e comparar.

A rua ou avenida das árvores enormes em arco em túnel, jatobá, vassourão-de-cavalo, cumbaru, monjolo, embiruçu, formigueira, fruta-de-pomba...

Isso tudo, porém, parece provável.

       Não se sabe aonde essa história vai parar. Parará um dia no rio da Farinha, no rio Pardo, no rio Itanhaém. Alguém vai embora, ou arruma outra, enfim. Até se pode sonhar que dará certo, que lenda de índios sapará ainda conquistará a moda, que o cine Turumã ainda funcione nas tardes de domingo, que sobrevivem ainda os passeios de mãos dadas pela praça da Bandeira, que os pôr do sóis ainda podem ser festejados e revistos aos sorvetes aos algodões-doces aos mates. Que perda de tempo!

       Não sou, não adianta que não sou o camboatá-branco!

       Nesse momento não ouso pensar em mim. Não me preocupo. Vou pela rua avenida Flores da Cunha sentido do Horto Florestal. Olhando os pés das árvores uma do lado da outra árvores altas amarelas verdes roxas, goiaba-verde, guamirim, cerejeira-do-mato, cássia-branca, batinga, guaretá, angico-vermelho. Pitoresco. Quando é época de frutos carregadas de frutas. Os maracanãs sabem que estão certos. É, sim, por que não?!, 2008 foi um ano e tanto.

       De novo céu sem nuvens sem pássaros sem pandorgas sem sapos-martelos onde uma nave extraterrestre interestelar se desloca numa disposição de imaginária resplandecência.

       Ninguém precisa me dizer que é rio pois é rio.

       Passou o dia, foram dois três dias, passaram meses, passou o ano, o lento rio do tempo ao vento, e já eram começos do 8 de janeiro de 2014.

Perdi o meu tempo perdi tempo e fiquei livre aéreo leve e leviano. Não sobra mais tempo para mais nada. Só as coisas mudas do passar do tempo. Penso cismo e não abro a boca. Só os climas, sem os lugares sem os nomes no transcorrer do tempo. O relógio faz-que-fez os ponteiros e vai contando as montanhas de minutos as horas. É possível mesmo que não seja provável!

Vou comprar uma cidade que acha? da cidade de Mormaço, quero adquirir Ibiaí, vou ver se posso com o preço de Patos, me interesso muito por Piquerobi, faço negócio compro vendo troco São Mateus do Sul, tenho preferências por Lajeado Grande, vou ganhar muito dinheiro com Itobi, Juquitiba, Natividade da Serra, Guaxupé, levo fé nos planos para Ribeirão Preto.

       Correram os dias após dias, se passaram os meses, super águas da chuva, e quantos anos, quinze dezesseis, depois já em maio de 1996 quando a população já ficava sabendo da inauguração da ponte. Dois invernos após, aconteceu o fato insólito: a ponte amanheceu pintada de azul. Mais ou menos quatro anos de águas sob a ponte, uma Copa do Mundo, uma grande crise no ministério dos transportes, uma seca na região nordeste do país, uma olimpíada de vinte medalhas, e a ponte com sua pintura definitiva em verde-amarelo. Agora recentemente, uns dois meses para trás, ocorreu o fato esquisito sobrenatural e clandestino da ponte ter aumentado em mais doze arcos. Onde está D para tudo isso?!

       Se chover paga um pinto, se levar guarda-chuva paga um mico!

       Quero dizer que já passei pela mesma rua muitas vezes, de casa para tal ponto de tais pontos para casa, indo e vindo, muitas vezes essa mesma rua passei repassei e passarei e que ainda nem sei.

       E depois, por analogia, veio o vento o rio a chuva o sol as árvores da praça nessa ordem de piaçaba, milho-cozido, espinheiro, sete-capotes, umbu...

       Na verdade na verdade o que o h. mais aprecia e gosta e preza e leva em conta, antes de dinheiro mulher futebol (não exatamente nessa ordem e progresso), é de um bom e salgado churrasco.

       Que um pequeno motor suficiente bastou o pequeno motor que acionou todo o carretel. Pois no princípio era água era fogo era combustível.  

Estava de tarde. Quando a tarde passava da 5h e 30min. Uma beleza ágil onisciente onipresente. A garça-branca desceu do céu rajado. À beira do rio, e que ali desliza numa mansidão de vida ganha. A garça-branca atravessou o banhado, voo baixo, em curva para cá, e a restinga atravessada na sua garganta. Pousou num tronco caído de amarelinho. A ave ali mesmo se acomodou, se acomodou, encolheu uma perna, fechou os olhos, dormiu. Outras aves apareceram que elas vêm ali para pernoitar, costumam abrir muito bem as asas, não batem as asas, abrem bem as asas como paraquedistas pousando, pousam no chão alagado com leveza e calma e já saem caminhando, pararam também olhando tudo em volta, guanaco, coió, mutum, chocão-carijó, boiadeiro, rexenxão, um carpinteiro com palito seco no bico. Poucas nuvens passaram sem a lua. O bacurau estagiando. O sol o sol despontou. A garça-branca já não estava mais. Do lugar do tronco inclinado caído brotaram capim-rabo-de-gato, açoita-cavalo, juciri, arapapá, beija-flor-de-papo-branco, inxu, formiga-correição, jaritataca, marigui, tracajá, saíram andando nadando voando entoando uma vez por ano todos os anos.

       O sol, que todos conhecemos, sabe demais.

       Muito o céu é bonito, muito os véus de cachoeiras entre pedras e verde são bonitos, muito as árvores são perobas-tabuadas, cuitelos, mulungus, ajurus, salgueiros-do-mato, piriris, pinheiros-das-missões...

       Não sou, não adianta que não sou o gavião-de-penacho.

       E o sol lá em cima, e sem nos dizer nada, sem se ver por achado. No outro dia a mesma coisa. Ao meio-dia o sol irá beber junto ao rio debaixo da taxizeiro na sombra. De tardezinha tomará mate com as gralhas-picaças. De noite assistirá televisão no vigésimo oitavo se possível ou no quinquagésimo sétimo andar apartamento da irmã manduri. O céu galáctico. No lar doce lar da irmã apreciará tevê no sofá verde da sala predileta comerá bolo de chocolate com cerveja artesanal de Blumenau. Acordando na madrugada bem cedo tomará mate com os neineis. Descerá até a rua comprar pães cacetinhos para o café da manhã. Em seguida embarcará numa caravela cheia de velas ao vento demanda do oceano mais precisamente o arquipélago de São Pedro e São Paulo.

       E isso tem que acontecer com qualquer um. É assim e tudo isso e exatamente o que acontece comigo nesse momento aqueles momentos todos os momentos.

       Olha!, como eu gostaria de trabalhar aqui. Um garção neste restaurante frente da praça Panará. Servir os pratos pedidos. Oferecer as bebidas. Recolher as mesas. Cumprimentar pessoas que chegam saem salamaleques mesuras ademanes. Saber o nome das comidas das bebidas dos pontos turísticos dos famosos frequentadores. Em pé num canto esperando um gesto mãos às costas solícito e atento a tudo que se passa. Que bom! Sim ou não? E terei aqui outros garçãos e garçonetes outros fregueses. Certa hora cansado pés doloridos tarde da noite irei para casa no bairro São Cristóvão, dormir até meio-dia ou mais, retornarei mareado pálido no começo da noite seguinte. E seria a mesma coisa. Eu só pensaria nisso.

       Não vou me perder. Faz parte a fantasia. Não vou correr atrás de coisas que não posso ter, que não me pertencem, que me fazem mais tolo do que sou. A ilusão da ilusão da ilusão da revolução. Não me vejo não vão me ver no encalço dessa linda e bela Marília de Dirceu.

       - Isto é o que sempre digo e lhe digo.

 

 

      

 

domingo, 2 de novembro de 2014

De Tempo E De Espaço


      

 

 

       

       Um domingo dia claro, espacial, a guria sonhava comigo, enlevada, e a morte na surpresa. O dia bifocal o sonho desnorteado a partida quilômetro de arrancada.

       Só havia mesmo o necessário para chegar na hora.

E eu não soube mais, não soube nunca e de nada que ela me amava muito. Foi tão surreal, tão impatriótico, tão desnecessário, Deus servido!

As horas saem do tempo para andar com a corrente do rio, etc.

Nasci aos 13 anos quando ela me deu um beijo sem eu pedir. Eu segurara seu cabelo mas não pedira beijos. Ela disse “não gosto que puxem meu cabelo!” e me deu o beijo. Despertei. Tudo novo de árvore nova cheirando a verde em folha. Nascia para os 13 anos de idade e lia tudo que me caía nas mãos e nunca fui muito criativo. Ela era loira como já estavam lindas as minhas primas.

Quem me contou me contou e nem soube me contar. Foi assim muito à queima-roupa, entre outros assuntos, na calçada da rua Catimbó, dia de comemoração cívica, buçuís carregados de coquinhos amarelos. O que distingue os humanos das pessoas dos bichos das coisas é a ausência ou a presença de cauda. Todos os dias a gurizada todos os dias jogava pelada todos os dias no campinho todos os dias da pracinha todos os dias depois da aula.

O amanhecer se dirigiu ao rio Pontenji às árvores à montanha ao oceano, etc. Há pessoas que desaparecem desaparecem... Os pássaros se demoraram contando, tuí-tuí, beneditos, maguari, furriel-vermelho, carancho, jacupemba, cambaxirra-grande, tinguaçu, barulhento. Eram as 11h e 35min. Uma superbrancura sobrenatural de ofuscar a paz.

Primeiro dia de aula eu a vi ela me olhava apresentação de professores indicação das salas de aulas me perguntou “você é irmão de fulano?” Respondi que não nem nunca. E ela me explicou “seus olhos são iguais iguaiszinhos verde-claros e um ponto a seu favor”.

Mil e tantos multidão povo de pensamentos quentes frios indo e vindo sossegados ariscos voando caminhando nadando revoltando uns mais elásticos. Mil e invisíveis tantos e muitos e uma estrela.

Me pareceu ouvir gritos de gaivotas alcatrazes atobás-pardos, às dezenas centenas milhares, isso embora, a 350km da costa e a 800m de altitude na serra Gaúcha.

O tempo me começou a correr. Como a morte é legal é supetão é barranco é xerém é mata-burro é quixó, é mil-homens. Galáxias enormes em espirais para se ver e se ouvir, uma vez.

Certa tarde de jogo eu estava no Beira-Rio e pensei nela, não sei por quê?, devo ter visto alguém próximo em tudo, os olhos, os cabelos anelados arrumados tipo arapuã, o sorriso, os trejeitos, os tênis floridos, a camiseta com o 10 às costas, calça saruel. Olhos bonitos fundos na cor sem fim, olhos que esqueciam a dona, olhos dela mesma ver e a gente mergulhar. Agradáveis de olhar e se ver.

A água toma conta dos peixes, o ar toma das aves, o vento toma das folhas. Rufares de tambores, nitridos de antas, ululares de bugios, ornejares de ônibus automóveis motos, estridulares de avoantes.

       A guria era calma, quieta, contemplativa, corpo acentuado e de formas surpreendentemente filarmônicas esportivas equilibradas ondeadas. Estudava a faculdade de turismo em Chapadão do Sul, cumpria suas obrigações caseiras e cotidianas, obedecia a mãe o pai os irmãos, brincava com o Caju cachorro linguiça de estimação, dormia na hora que lhe recomendaram, cavalo às terças e sextas pela manhã, etc, nem nada a tirava do juízo. Agora, o que foi, seus sonhos eram o seu tudo. Tanto que até quem mais a conhecia duvidava.

       Um dia como nunca outro dia nem tempo em mês de outubro nem espaço na lancheria, ela apareceu e “querido!”. Uma vez que outra, seus cabelos caracóis longos encobriam o rosto uma mecha desequilibrava pela frente dos olhos. Doce semblante.

       Um sanhaçu-verde cantava quarta-feira complicado uma casa verde com seis portas azuis e dezoito janelas, isso mesmo, verão ou setembro particularmente, no céu um drone intrigante, nos espantamos duas vezes mais, para onde correm as águas do rio Piabanha, gentes dos cauaíbe imitando pio de aves zumbidos de insetos rumores de bichos murmúrios de índios.

Tudo tão longe e distante, tão parado e deserto, tão alheio e aéreo, tão leve e passageiro. Concentrada no sorvete de pitangas perfume de rosas cabelo em xaxim no alto da cabeça com cravo de osso.

       Depois da visita à igreja folheada a ouro, andamos em volta da praça com estátua de D. Pedro II, as árvores centenárias frondosas, jequitibá, calafate, capeba-do-norte, oeirana, copaié, dormideira-grande, guajuvira-branca e como fazer progressiva no cabelo para uso irrestrito em dia chuvoso.

       Os carros pararam na esquina diante da sinaleira no código de barras os carros e motos pararam eram das cores motores ligados me olhavam me viam e ficaram me cuidando provisoriamente particularmente.

       Um nome de vento sem pé nem cabeça vindo da lua nova, uma claridade pintada de azul soprando do mar, peixes entre os arrecifes, cangulo, xaréu, saberê, canguá, bodião-papagaio; noite correndo por dentro ora por fora.

       Morreu e superou. Acordou suspirou retornou a si aquela que é e abriu os olhos e deixou o navio para trás. Subiu foi flutuou leve parecida folgada que respirava que olhava tudo parentes amigos convidados o mundo que era o mesmo. Tudo igual só ela somente do jeito de vapor. O mundo foi saindo. O céu sempre o céu, algumas nuvens ou almas, o vento sempre o vento, alguns aviões ou árvores. Olhando o céu do ponto de vista mais perto. As estrelas maiores. O azul mais verde. De repente se deu de abrir uma das janelas azuis e “oi, querido!”, tudo tão mais perto, mais plus.

       O sol apareceu nas 10h, os carros passavam sem cerimônia, o rio Tijuco passava, passando por quantos o vento, por cima o azul com pingos de nuvens bem brancas, as plantas cheirando folhas verdes, ajará, mata-pasto, carnaúba, nhambuí, ervas-de-lagarto, tingui-da-praia, viraru, peroba-iquira, ela me olhou com adocicação, me passou a mão e “querido!” disse juntinho de cabeça no ombro.

       Perto do natal de 2004, fomos ver “A Volta do Chupa-Cabra” no melhor e único cinema de Nova Prata, ela me confessou bem no ouvido esquerdo “ah, eu que tenho querido!”.

       Por exemplo, nesse dia de sua morte, sonhava comigo e eu mal não tinha ideia. Ela via um mundo dela cheio das coisas que se procura, e que juntos passáramos a procurar na maior alegria, coisas simples como ir ao parque Marinha do Brasil, a uma festa só para ouvir música ao vivo e comer doces de coco, exercícios de aritmética, caminhar de mãos dadas se equilibrando no cordão do meio-fio, conversar coisas banais de casos sem importância da tevê, de futuros passeios em Paraopeba, trocando, isso sim sem falta sem faltas, a cada 10 metros dez metros, um beijo na boca com confeitos com estalado.

       Quando me perdi quando me perdi, o seu sonho me encontrou. Viagem e viagens. Viajávamos de trem bala pelo centro-oeste goiano recordando as paradas, Toledo, Ponte Alta do Norte, Jacareí, Paraibuna, Bambuí, Luz, Onça de Pitangui, Rio Tinto, Macau...

       A noite se afastou. Ainda bem, o dia apareceu. Ainda melhor. E se a culpa for minha.

       Os peixes voavam sem aterrissar, as aves nadavam de braçada no mar azul, o calango procurava o tronco caído escorado, as abelhas e as formigas buscavam explorar o terreiro o pátio a calçada da rua Xarias. As sombras faziam a tarde parecer quase sol. Passou um cão risonho, em si mesmo, farejando tudo por nada. A copaíba-vermelha achou que estava viajando com o vento... mas logo logo esqueceu. Um cauteloso sagui-branco... típico artista de televisão... como um atacante artilheiro de time de futebol... e pronto para cobrar o pênalti... deu o pulo do gato e sumiu na platibanda.

       O sol, olhos distantes longe, parou na árvore e deitou. Deus, disse também: “Aí não é lugar!” Tudo artisticamente preparado para início começo de alguma coisa e cheiro de tinta verde. O sol procurou cores entre as pedras nos morros nos rios por trás das cachoeiras na fronde das árvores no forte dos Reis Magos. Conversas com as ruas da cidade com as pontes as praças o museu de História Natural. 

       Sua aventura no mundo pode-se dizer que não houve pois não pesou sua existência em nada. E o que sonhou somente sonhou e mais ninguém. Coisa muito sutil, vapor mesmo, coisa que não interferia, nem fiquei sabendo, eu que era personagem eu que era personagem. Morreu quieta para não acordar os sonhos do sonho.

       A lua, pesada, subia por trás das grandes árvores e era tudo. A lua a lua três quatro cinco luas. E estrelas aos milhares para milhões e milhões de distância. Vento com volume adequado conversava com as bicuíbas. Lua parabólica inacreditável onça-pintada chocalhar de ondas calçada da avenida Atlântica.

       Um dia numa manhã de muita chuva, nos vimos na rua Caeté, ela me chamou me chamou, eu a cumprimentei com a mão, veio correndo para me pegar me pegar, embarquei num táxi urgente que tinha um negócio compromisso para o bairro Retiro e longe e estava horas atrasado. Talvez tenha sido a última vez que a vi com merecida, se bem ou não me lembro.

       Lá longe onde um rio foge entre as montanhas. Foge para onde mesmo se espera. Os índios caiapó-metuctire falam com as árvores. Patativa-boiadeiro oitizeiro probabilidade. Um rio de verdade.

       Foi sim que me lembro aquele dia aquelas horas oito horas e escuridão nove horas escuro dez e meia escuro meio-dia escuro treze horas escuro. Todo mundo pensando no fim dos tempos. Tudo enevoado sombrio misterioso oculto maroto velhaco. Nós da multidão enchemos as ruas as praças sob os postes de luz buscando as explicações prevendo o fim do mundo um cometa na iminência de bater na Terra a bomba H levantando poeira, etc. Dia-noite comprido frio parecia que era para chover chuva ácida. Estudantes fazendo arruaças incendiando carros quebrando vitrinas explodindo caixas eletrônicos escalando o gradil da prefeitura.Todos nós vestidos para o inverno roupas pesadas quentes escuras encapuzados mangas e calças compridas. A lua multiplicada calma no meio da cerração entre as nuvens atrás dos galhos secos antenas de rádio. As aves do dia piavam esperando sem entender. Os insetos da noite incertos zumbindo nos ouvidos. Aviões decolando com luzes amarelas vermelhas grandes pequenos piscando luzes coloridas. Reportagens extraordinárias na tevê. Escuro demais forçávamos a vista. Àquela hora ainda escuro todos se perguntavam “por quê?” Todo o mundo procurando cientistas para entender o fenômeno. As culpas recaíam sobre a fumaça das fábricas as queimadas na lavoura o efeito estufa a exploração do pré-sal, etc. Corremos todos para a praia. Paramos diante do mar. Na areia mal e mal na penumbra vimos a mulher deitada. Ela acordou, se arrepiou, olhou para trás sentou na areia. Tirou tirou os óculos escuros... E o milagre! Apareceu o sol e foi às quinze e trinta e dois na tarde clara. E que namorada! Uns raios de sol azul vararam as poucas nuvens e se cravaram no solo, nas pedras, nos prédios, nos vidros fumê, que milagre!, o dia acendeu clareou expandiu pintou de cores. A mulher tirou os óculos escuros, e que guria, meu! e o sol deu o ar das graças e o sol apareceu.

       Quem sabe fora um dia que eu telefonara e ela me assegurara que voltaria do além-mar na forma de uma formiga içá ou de uma bizogue ou de um pássaro papa-arroz-de-barriga-branca ou de um riacho afluente do rio Juruá ou caxingui ou de uma árvore copiúva, etc. Me assegurara me prometera combináramos e ríramos muito.

       Vento, muito vento. Sol, muito sol. Nuvens, muitas nuvens de chuva. Zumbidos, muitos barulhos. Principalmente à noite.

       E eu que sei pouco dos sonhos que ela me tinha, que me levavam, que me embelezavam, nem faço o obséquio de chorar. Fico, assim como estou agora, todo esquisito e sem mudar meu domingo. Não sou de me obstinar. Fico olhando terminar o dia normalmente. Não sou de bater no peito. É como se eu não a tivesse conhecido, como se não a tivesse adorado, como se não a tivesse merecido. Não sou de me ofender.

       E é como se a esperasse sempre toda vida de outras idas e vindas, oquei!?

 

domingo, 14 de setembro de 2014

Quando Mais Não Seja


      

 
 

      

       No universo espiral flexível simpático... num horto qualquer e distante e sossegado do cosmos... etc., por onde anda e observa... etc., mais por força do hábito inventa dorme... etc., sem tempo sem pressa sem espaço... as palavras as sílabas as letras os números em as correntes de... etc., completo associado sagueiro-da-terra rio Alpercatas ilha das Flores formiga-cortadeira piraba cotia biguá onça-pintada... etc., misturado de todo em as brancas nuvens, o Senhor.

       Ainda não entendo nem acredito nem necessito e não imagino por que essas coisas aparecem na minha rua na minha retina em a minha aula no meu círculo de giz a minha frente na minha lata.

       E olha como se vê no céu em que uma estrela vale tanto quanto mil.

Há metamorfoses que antes de ser já pagam caro muitos e muitos dos pais dos avós dos bisavós, etc. Então, temos coisas carregadas que herdamos dessa gente dessa natureza dessa caravela dessa romaria. Porque uns têm que aprender a ser felizes, e outros a ser desfrutáveis.

       Esses dias eu vi um tatuapara cuandu mocó sagui-de-duas-cores. Ele tinha os dentes tão grandes e salientes que não podia parar de sorrir, sorria sem querer, sorria mastigado. E olhava sorrindo muito desenxabido os outros guris nos brinquedos brincando.

       O verde do mato, o verde dos tipis-bravos, o verde bonito e caprichado. Aves nadavam bem perto da água anambé-azul coscoroba tuim gaturamo-verde tetéu ajurucatinga anhuma itapema vira-folhas. O ouvido do rio com suas canções de água pedras árvores passarinhos e borboletas e besouros e zabelinhas. Outras árvores outras caras e outras figuras canela-de-ema coronha olho-de-cabra saguaraji erva-lanceta gameleira-de-cansaço avenca-da-terra. O dia que adora chuva. Manhã onde mora o sol ovo indez. Céu que não acaba. Lugar da chuva.

Assim vendo eu fiquei na minha, não sabia se eu era um dos que brincavam alvoroçados e sem noção ou se era aquele etê o da arquibancada plateia.

       É o que um menino sozinho pode querer e fazer? Se fosse em adulto teria as lembranças, poderia dizer das suas saudades, chamar amigos, mostrar as mãos, falar das cidades por onde andou, da aventura que explorou o Itaimbezinho, da quadra onde jogou, das árvores que escalou, do rio que nadou, da praia que conheceu fulana.

       Os coqueiros-carandaís da praça são três e lado a lado. E o bom tempo do verão que começa.

Mais e o menino que nunca teve uma bicicleta? Vai feliz de quê? Que lembrança? E dorme sem nenhum sonho de ir e vir.

Ficaria uma hipotética para outra vez. O espaço das árvores ibapoi, cigana, majuba, ajuru, vinhático-testa-de-boi, caixeta, bilreiro, tipuana. Haja vista o caso do caajuçara.

       Veio um piano do mundo mágico que entrou na sua história de coisa de nada de ninguém. Poderia ter sido uma bola, um carrinho, um avião, uma prancha, um livro de lendas dos índios coropó, até mil games, mas foi um piano. Aprendeu tudo de ouvido no prazo de três quatro meses.

Tocou tudo que os gênios compuseram e que os pedestres não sabem nem começar. Os acordes os sons e as harmonias.

Vontade de aquário é chuva. Os peixes aparecem cores circulam rendem alucinam cores por dentro da água límpida as folhas amarelas e as pedras polidas.

E as viagens consagradas para os lugares que só os talentosos têm direito de frequentar. Era um outro mundo. Mesmo de repente cheio de luzes tapete vermelho galerias e aplausos.

O céu azul e até mais. A baía de São José. O rio Araguari. A serra das Araras. Uma semana um mês muitas estações na aldeia dos gerém. Céu de beleza diáfana inefável. Os fins de semana em Itupeva.

Na praça Gonçalves Dias os arrulhos as conversas intermitentes, os três irmãos coqueiros.

Pois o rapazinho, camuflado ao piano, sorria com todos os seus enormes dentes, de olhos fechados, na sua cadeira elétrica, óculos grandes, pianíssimo, sorriso de cavalo, dentes de teclado, cabelos assombrados, braços mãos dedos driblando notas, dentes presas de sabre, engraçado, dentes de marfim.

E só necessitava do ar para ouvir.

       Dia de mil sóis e sinais de música. Dia de mil cantos e gorjeios e trissados e assovios. Dia de mil asas irisadas. Dia de mil folhas de árvores. Dia de tesouro escondido entre mil e uma ilhas Ubatuba de areias brancas. Dia de vento cantar nas folhas da cuipuna e uma duas trezentas mil. Dia de mil peixes comendo frutas amarelas com as pedras e a corrente.

       O recendente caldo de cana com abacaxi, o tempo para onde corre com os anos tão depressa, uma árvore desse porte castanheira-do-pará tem tudo em suas mãos, o rio que imita o vento.  

Os dedos e os ouvidos cheios de caminhos, inaugurando o tempo novo, ondas tímbricas temperando o ar, sons de cores.

      

sábado, 16 de agosto de 2014

Você A Conhece?


      

 

          

 

       O rio despreocupado

       O rio cauteloso passou

       E a paisagem caudalosa.  

       O poeta o semideus o avatar dos homens e dos bichos apareceu pouco tempo antes do século XX.

Isso me causa surpresa porque faz tempo paca, e naquela altura do mundo ainda era tarde tarde o Império do Brasil.

       Sempre lembrou o lugar

       A roupa florida

       O cheiro dos seus pulsos

       O riso de corruíra

       O sol a lua no espaço

       O brilho dos olhos

       Os outros mil beijos

       E sempre e muito pouco tempo.

Mas dali ele só nasceu, só trouxe a data, mal soube qualquer coisa. E veio a falecer, embora, com a plena ditadura militar, os anos 70 sem graça com taça com nuvens baixas e pesadas de chuva.

A todo momento

Em toda parte,

Faz tudo que for possível o homem

O impossível o tempo.

Todas as providências são tomadas

Para que as coisas corram assim.

Não, nem claro que gostasse de militares, de caciques, de coronéis, de fidalgos, de potentados, de fazendeiros, mas puro acaso, jogo de sortes do azar. Porque uma vez, como grande poeta que sempre foi,

Céu com azul surrealista

As árvores paradas

As copas paradas

As folhas verdes esperando o vento.

O sol no chão da chuva

No chão do vento

No chão do tempo.

- e se eu fosse Deus -, teria feito melhor morrer, e encerrar a carreira ou antes ou depois dessa página obscura obtusa pontiaguda da República do Brasil.

       No entanto, entre esse todo tempo do nascimento até a morte, muita coisa sucedeu na sua vida, muita água rolou por debaixo das pontes. E praticamente 98% cantou contou, seja em verso ou em prosa.

Uma nuvem estupenda e silenciosa remava para o norte para o sul

       E fazia horas e havia estrada

       Lá por cima ainda um avião naquela direção

Um vento qualquer contava as folhas da paineira uma por uma.

       A voz da corruíra lembrava ela

       Com a manhã febril

       Quase não comia e pouco dormia.

       Um rio ali perto sem cessar.

       Ela tão exuberante

Bebia água mineral sem gás a todo momento.

       Tudo tinha um certo razoável tempo e espaço.

       Que horas eram? Que asas?

E se Deus não quisesse não haveria lua não haveria urutaí tambiú ajapá guarapiapunha-do-banhado estrada de ferro mar praia de Ipanema

Tudo moderno era aquilo maravilhoso e sempre excitante

Se tivesse mais algumas praias tudo seria até bem melhor a engraçado.

       O que não publicou e nem confessou abertamente, o seu melhor amor na adolescência, é uma menina bonita esperta ruiva alegre avenca-da-terra saltitante cabelinhos perdidos nas ventas aveia-do-campo toda verdinha talhe de indaiá palmeira olhos de passarinho pichororé e por ela se deixa levar eternamente, e brincou versos e prosas a vida toda

       Os poetas fantasiam versos para o que vêem

       sonham para o que pensam.

- vindo a perdê-los num naufrágio do 23 dia do março mês do 36 ano na costa de Pernambuco, Jequié, Ariranha do Ivaí, Jaguaquara, Itiruçu, Arujá, Papagaios, São Miguel dos Campos, Pitangui -,

O sol reboou montanha acima

E seus raios vieram pela praia até as altas magníficas paineiras

Andorinhas costuravam ziguezagueavam violões entre os ramos e as abas das casas

A tesoureira piou com importância desde o galho seco do guaré

O casal de joões-de-barro... gargalhadas

Uma tucano-de-bico-verde comendo a castanha do coquinho do butiá-da-serra

Um eufônico gurandi-azul

O bem-te-vi-do-campo com taquicardia.

quando foi que ela virou de costas os brincos brincaram e se foi para Manaus, aldeia da tribo guaianá, praça Castro Alves, forte de São Marcelo, pedra sentada do Rei Sabá,

Um beicinho querido

E escondeu o rosto delicado,

A luz impressionante complicada se instalava devagar.

foi embora da sua idade, da sua casualidade, da sua vida toda e da cidade natural e nunca mais voltou nem mandou notícias. Não, não voltou mais e nunca mais se ouviu falar dela.

Cabelos surpresos

Rosto formidável

Sorrisos de férias de trem

Lábios acintosos

Os pulsos perfumados.

Olhos delirantes ou suspeitos

Seios suspensos

Cotovelos na janela

Negligentemente com a língua molhada.

A lua na sua rua

A lua nos seus lábios

A lua nos seus quinze dezesseis dezessete

A lua passou em o antebraço.

Tocou no seu rosto

Seus lábios

Seu ombro

Não sabia como abraçá-la

O que dizer

Os olhos saciados

O sonho de beijá-la.

Sumiu como se fosse reaparecer no fim da história, mas na verdade não voltou mais, enganando o final feliz ou não completando o círculo do eterno retorno.

Se lembrou bem de um começo de tarde

Em primeiros de janeiro.

Os pobres bichos não pertencem

A lugar algum nenhum!

Completamente estranho, pois, interrompeu uma história boa e linear, pois, que poderia ter sido, pois, e não nem nunca será.

Passou dezoito (18) anos

Um verdadeiro milagre

Comendo doce de abóbora.

       Com o passar do tempão, essa história mal resolvida, só lhe traria narrativas e poemas de saudades saudades.

       Ela foi para lá de queira Deus

       Foi para a montanha

       Foi para o vale

       Foi se misturar aos índios apinajé

       Foi para o alto rio Solimões   

       Foi para até se confundir.

       Quando se soube, por volta de 1999, que os governos eleitos resolveram fazer uma rua com seu nome - foi uma época um tempo decisivo - com guararibas com ajuruatubiras com maracanãs-do-buriti com cães e guias com carros de passeio com prédios de apartamentos com lojas de comércio em varas, côvados, arráteis, onças e oitavas.

       O sol novo em folha

       Nadava corria flanava voejava

       Com espontaneidade,

       Nuvens incidentais

       Olhavam o relógio de pulso

       E isso com despreocupadamente.

Pois viu em todas as outras gurias pois aquela sua adolescente muito adourada.  Pois amando várias como se aquela fosse pois a última a primeira a eterna a deusa.

               

domingo, 13 de julho de 2014

Que Diferença!


      

      
       A história esta começou nos altos céus para lá das arcadas estratosféricas e nuvens finais e mais finas e caravélicas.

Assim, deus Caciporé praticava suas eternas conquistas amorosas sempre disfarçados de arnica-do-campo pixuna nuvem ou deus em vias de fato com as beldades das praias das piscinas das matas das rochas das montanhas das palmeiras das águas correntes cascatas sangas restingas e lagoas.

Mas sua esposa Cotijuba deusa não gostava sobrecarregada cheia de pressentimentos disfarçadas de camoatim peixe arapoca ou escrava Isaura se irritava e perdia o bom humor todos os dias a sua beleza. E a deusa contra o deus não podiam fazer muita coisa.

Até que um seu Mosqueiro filho dolicocéfalo soube desses e outros casos disfarçados de camará pássaro tracajá ou índio tingui-botó e resolveu cobrar as magoas da matriz.

       Esse filho foi tentar afastar as tais e quais marrecas-piadeiras do seu todo-poderoso pai jacaretinga. E elas belezas lucrativas úteis esbeltas avassaladoras selecionadas fascinantes as mais comestíveis carinhosas e carinhosamente abraços macios psicodélicas muito falantes muito risonhas muito gulosas jovens de boa estatura linha de bonitos dentes aperolados olhos ternos pescoços finos tiara na cabeça cabelos longos e volumosos encobrindo os ombros tudo original sempre como que sorrindo sorriam por dentro e por fora.

E até Mosqueiro conseguia, feito à imagem e semelhança, quando por sinal foi descoberto. O filho sabia que deus estava bem informado que deus era avenida rua beco praça e assim agia cósmico senhor dos mil olhos senhor do céu senhor do raio.

O que deus Caciporé, de dedo em riste, não gostou nada dessa interferência do filho e brigou. Pegou-o por uma perna e o jogou altos céus rolando objeto voador não identificado abaixo ao som da gravidade bólido de fogo e rasto.

O rapaz ainda surpreso caiu veio voando e se estatelou sobre a terra, quebrando a costela, o queixo, o nariz, o pé, os bofes, a orelha, as asas, o olho, o cotovelo. Como que morreu e começou tudo de novo. E saiu quicando de onde estava para lugar algum.

E ao céu nunca mais não voltou distante da pátria e não nem lhe foi mais permitido.

É o que aconteceu. Depois explico. Por paradoxal que seja.

Árvores, muitas árvores, casas, muitas casas, ruas, muitas ruas cruzando com ruas e logradouros. A lua bola azul e sem saber de nada no sentido do bairro São Cristóvão pela avenida Presidente Vargas calçamento de paralelepípedos.

       Cego de um olho, cabeça trincada, crinas desfeitas desgrenhadas, sem palavras, sem estrela, fitinha amarrada no pulso comemorativa ao dia da festa do Círio de N. S. de Nazaré, este filho Mosqueiro de deus já está um tímido e um bom gravador um bom entalhador.

       A estas horas dez e meia... fala sério! Deixa pra lá!... No fim tudo dá certo! Até logo!

       Lá vem a aurora. Tem uma fortuna aí, diamantes ametistas esmeraldas turmalinas safiras topázios e águas-marinhas.

       A nova fase nova escola com ideias e pensamentos modernos e excitantes paisagem inédita alma reformada alma compatível.     

Anda pelas ruas como se sorteasse uma fantasia, pensando e indo bem fundo, a ansiedade, olhando o que sente e cheirando o que encontra. Seu pensamento vai longe. A novidade todos os dias quase uma boa nova em cada diário: - Que será agora?!

       Os caminhos que o levam para Osório, Itaberá, Marapanim, Itaí, São João de Pirabas, Giruá, Paragominas, praia da Cajutuba. Isso mesmo. Nem quente nem frio. Os amigos os conhecidos os indiferentes. A Estrada Real é seu jornal. A sua missão o seu rumo o seu destino.

       E depois de uns olhares distantes, mais um minuto de silêncio. Quer saber de tudo ao mesmo tempo.

       As mulheres da cidade e alguns homens lavam roupas e panelas na bica junto ao monumento do Laçador. O sol controla essa parte e muito bem.

       Chega pessoalmente num lugar famoso que viu na tevê ou usou na internet, avisos convites chamadas notícias, conhece visita aprova, a estação ecológica do Taim, a serra do Acaraí, o rio Maguari, o parque das montanhas do Tumucumaque, a base naval de Val-de-Cães, o arquipélago do Bailique, a baía de Guanabara uma porta de entrada e outra porta de saída o mês de janeiro Jano deus das de duas faces.

       Reside entre os humanos tornado sujeito indecifrável impenetrável arredio para com todos para com tudo e muito mais. Muitos lhe têm medo, outros dizem que se tornou um grosseiro profeta. E segue a sorte obscura como lhe foi dado o destino por deus fora de deus.

       Nenhum sentido não adianta que não tem e não há. Onde está seu comportamento sua vontade de achar? Senta em xis. De que com que para que como quê? A hora do a deus.

       Perseguido por vozes do além do aquém de onde vier e seja lá o que for. Bebeu água do rio Arapepó. Se deita emborcado na grama abraçando a terra toda num grande forte abraço.

       A rua predileta as árvores frondosas que mais fazem as belas flores os bons aromas, casca-preta, periquiteira-da-mata, mucunã, burra-leiteira, guibá, malícia-de-mulher, turubi, piquiá-amarelo, uirari.

Passa em frente de loja vê três mulheres em conversas de compras, passa por casa azul onde late um guaipequinha, passa na praça com monumento ao Santos Dumont, passa por uma porta de mola vai até a sala se assenta num banco corrido e abre a revista incidental na página da baía de São Marcos.

       Seus melhores dias, seus olhares, se é que podem assim ser, são os dias de céu nublado onde não precisa virar a cabeça ou ver sua sombra projetada no chão.

       O deus Caciporé olha e vê todos os caminhos e todos os passos e os viajantes. E o senhor tem o seu santo nome de deus em vão.

       E Mosqueiro parte vai para São Borja, Aurora do Tocantins, Boa Hora, Brasileira, Moju, Malhada dos Bois, Combinado, Ciríaco, Curaçá. E ainda sobram lugares e espaços e muitos milhares de reais. Discursos conferências teses pareceres estudos ensaios e artigos. Convites menções títulos medalhas prêmios e diplomas. Vivas gritos gargalhadas aplausos foguetes e músicas.

       O todo do tempo sugando mastigando engolindo xingando exigindo, etc., descontrolado esquivo enlevado calado misterioso - se é que o tudo existe no espaço!

       Tanto e tais caminhos e tanto andar. Os encontros os abraços os cafezinhos. Sabe de Terra Alta cidade, sabe de Abaetetuba deve saber também de Barra do Ouro e Carutapera e Viseu e Água Santa e Juazeiro é certo que a cidade de Matriz de Camaragibe sabe dele.

       Bem no começo do dia, aí pelas onze, sai de onde está um prédio na zona nova da cidade edifício craqueado em rumo para onde e não gosta de comer beterraba alface tomate chuchu beber caipirinha e caminha pela hora sempre a mesma. Tudo funciona vagarosamente e normalmente e impreterivelmente.

       Uma nuvem vem vai perdida pelo alto do oceano...

       Faz de conta que é bicho preá, que é abelha irapuã, que é pato-mergulhão, que é curu-curu, que é papagaio-do-mangue, que é onça-d’água, que é peixe carataí, que é apuizeiro.

       Pessoas de todas as latitudes e longitudes se dão as mãos em roda ciranda cirandinha burburinhos mexericos rizinhos agradinhos ao pé do monumento da estátua de Cruz e Sousa.

       Viajar é sonho para qualquer um pessoa bicho ou coisa. E se quer, então, vai! Aulas de geografia, história. Coração dominado. Um lugar que se sabe para onde vai. Visite a ilha do Curuá, a baía do Guajará na época, a aldeia dos matsé, o rio Araguari debaixo do céu azul total!

       Muitas maneiras, um sonho diferente, ruas e cidades imaginárias, um outro mundo, e uma cascata branca cai das pedras altas da montanha, agora também uma grande curiosidade, o sonho a razão desistem mas assim confirmam o destino o rio, e pálpebras secas pálpebras cansadas pálpebras pesadas.

       Responde às perguntas da esposa com evasivas, com reticências, com bocejos, com demoras, com enjoos, com tevê ligada no jogo de futebol, apressado, não usa óculos, seu olho de fogo devaneia em redor, a fantasia volta no tempo, passeiam de mãos dadas pela rua Voluntários da Pátria distraindo o cão de estimação tomando guaraná no bar da praça Castro Alves cigarras estridentes serrando maçarandubas no mormaço da estação. A viagem marcada para Marituba nas férias. O filho mais velho que não fala mas escuta tudo vê no escuro e ri o tempo todo. Na parede da sala preferida uma mensagem que pode ser lida e decifrada: “É unir o útil ao agradável.” Duas casas na praia, uma à beira-mar praia do Iró outra à beira-rio praia do rio Gurupi.

       Lembrança constante do céu aquelas cenas das irmãs dos irmãos da mãe dos parentes, nas noites longas sem sono, mas não quer saber se estão estreladas.

       Se Mosqueiro fica nas dúvidas. Saudade. Não saudades nem dades nem des. Cu-rio-si-da-de.

       Nasce como nasceu a estrela de sábado à tarde, dizem ser o planeta Vênus, as nuvens tocando leve brisa de folhas de murumuru, praça com estátua de princesa Isabel lendo uma carta, sapos-da-areia coaxando, meninos e meninas imitando craques de futebol, cão passeando farejando arrastando seu dono pela coleira.

       O mais virá a seu tempo.

Mosqueiro tem e carrega uma dita de muitos anos passageiros e inúteis ou raros. Não perdoa e nem é perdoado.