quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Contos de Santa Luzia (2)

                                              

               
        
         O sol uma fogueira um incêndio derretendo as coisas todas as coisas. Os meses seguiam os meses. As pedras de coração duro. As ex-árvores quietas e cansadas e queimadas. O sol esquecido por trás das pesadas nuvens de terra. Ondas de vento rolando a poeira vermelha do deserto.
         Tudo devastado pelo calor. Alguns anos que nem nem chovia. Lugar interrompido desprovido afanado terminado.
         A trôpega família Araés chegou à aldeia de Santa Luzia, de poucas casinhas cobertas de sapé, de poucos tugúrios estragados, lá pelas onze e pouco. Dias mormacentos irrespiráveis enrolados em cinzas. E eles chegaram de pé no chão; pé ante pé; pés requeimados, escalavrados, crestados. Estacionaram na pracinha, do lado das ex-paineiras consumidas pela soalheira.
Os quatro cinco Araés davam a impressão que haviam andado caminhado todo um planeta. Era bem possível que tinham dado a volta ao mundo. E cruzado um imenso aterro vermelho inóspito. E a aldeia de Santa Luzia de única rua poeirenta com poucas casinhas de pau-a-pique cobertas de palha maquiladas de vermelho.
Avanhandava, a mãe, observou:
- Oxalá, hein! Uma capela em honra e graça e glória à santa Luzia!
Se acomodaram à margem das paineiras moribundas, calorosas, calorentas, derretidas, petrificadas. Essas ex-árvores e seus esqueletos pretos e pontudos indigitando o espaço contaminado. Também, por que tanto calor? Nem chovia há meses. Nenhum morador da aldeia se atrevia a andar à vista. O dinhanhinho galopava os redemoinhos. Um sol encoberto pela poeira constante enfadonha.
         Anhembi Araés, o pai, facão três listas na mão, se encaminhou para a capoeira esturricada. A mãe se dirigiu para um dos casinholos ali perto, carregando o bebê nas cadeiras. Cajuru, o menino, foi até a palhoça vazia onde antigamente funcionava um açougue. Camapuã, a menina, seguiu para a choça onde uma vez funcionava uma padaria.
         O pai pensou ter visto um rasto antigo de cutia, noite e dia. A mãe tentou farejar um resto de merenda, e o bebê apenas apontou, aqui e ali, uma coisa e outra coisa com a mãozinha encardida solta no ar. Cajuru sonhou ter visto uns pacotes de leite na prateleira abandonada. A menina jurou ter vislumbrado uns pacotinhos de biscoitos de chocolate na vitrina empoeirada do balcão abandonado.
         O céu estava imensamente contagiado da terra vermelha. O vento pouco soprava, ou nada soprava, soprava um bafo quente dos caldeirões dos fornos. As ex-árvores da praça extenuadas de fadiga e calor. As pedras já cavoucaram as próprias sepulturas. A aldeia em ruínas no meio do nada. As coisas cobertas de poeira vermelha. O lugar todo isolado banido do mundo.  
         Os poucos moradores escondidos e encolhidos e encarquilhados e envelhecidos dentro dos casebres. Nem vinham espiar para fora por nada. Nem se expunham fugindo das intermitentes tempestades de terra vermelha.
         Nem chovia mesmo há vários meses. Terra esturricada, trincada, rachada, torrada, sob o efeito de altas temperaturas. O pó vermelho contaminava o ar, tapava os olhos, entrava pelas vias respiratórias, parava na garganta, travava a voz. Nenhum ser se arrastava mal e mal além dos poucos moradores esquivos morinhas. Uma cerca de varas tortas demarcava separava um que outro casebre da rua Única.
         Os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos se escondiam do mundo no fundo do deserto inóspito. Uns assobios uivos do vento fazendo a terra para lá para cá.
         Anhembi, o pai, nunca mais viu a cutia que passara uma vez ali entre as manjeronas-do-campo destroçadas pelo calor. Avanhandava, a mãe, nem conseguira trazer as tais sobras de comida, e o bebê nem falou mais nada e nem apontou mais nada com a mão vazia no ar. O menino nem conseguiu sequer um pacote de leite. Camapuã, a menina, voltou sem nem sequer o cheiro das bolachinhas sortidas.
         A família Araés na pracinha, concentrada amarrada do lado da grande ex-paineira. Todos sentados na terra vermelha, abraçados aos joelhos, os queixos nos joelhos, sempre desassossegados, olhos provocados de poeira, inevitavelmente desanimados. Sopros de poeira quente, céu todo entupido turvo. E sacis reinando tricas fuxicos tretas remoques pegas nos redemoinhos da rua Única.
O vento baforando, rangendo, redemoinhando, brigando com o pó vermelho. As pedras dormindo o sono lá delas de pedras requentadas. No meio da capoeira, um cadáver de curupira em atitude de espantalho degringolado. Escapava do chão um fumo escuro tóxico que subia preencher as nuvens densas e incertas.
         As paineiras nasceram no Brasil já diziam as lendas antigas, as agendas passadas, as crônicas antanhas, os mitos ancestrais dos macurape dos tucuju dos cariai dos tenharim dos iuberi dos zoé. Muitos nomes possuíam aqui e ali pelo país afora, paineira-embiruçu, paineira-do-mato, paineira-do-brejo. Fora fora frequentemente plantada, por seu perfil exibido e destacado e faustoso, tanto em áreas de floresta como em áreas de campo.
As várias espécies podiam causar problemas aos pulmões fracos irritadiços. Bastantes agressivas, causavam frustração aos arquitetos quando plantadas em lugares apertados urbanos, no meio de casas e prédios e praças e avenidas. Flores quase entrando pelo vermelho ou rosa ou branco.
         Madeira clara e leve, de uns 260kg/m³, era usada em canoas, aeromodelos, tamancos, gamelas, rolos de massa, pás de mexer cozidos, colheres de pau, cabos de foice, pés de mesas e cadeiras. Da sua casca e folhas se faziam uns chás ou pastas usados na prevenção de hérnias e ínguas, e isso desde os tempos do paraíso nos trópicos. Os índios paiaiá tinham a árvore como sagrada. Os índios piratapuia a tinham como mágica. Os índios carútana a tinham como afrodisíaca. Os índios majubim a tinham como feiticeira. Os índios jeripancó a tinham como facilitadora.
         Dispersadas pelo vento, as sementes da paineira-do-campo brotavam e apareciam muito bem, sendo já espécie por demais agressiva.
         Fora fora árvore caducifólia de grande porte grande presença alta eloquência.
         O gênero ocorria com mais sorte nas regiões sudeste e sul do imenso multifacetado país. Tinha folhas alternadas digitadas. Crescia sim rapidamente. E em 10 anos já fazia sua sombra se esparramar, mérito dos muitos e extensos galhos. O tronco se revestia de espinhos curtos e espessos. Os frutos se pareciam a pepinos, e continham muitas sementes entre os filamentos sedosos que formavam a paina. Essa paina muito utilizada para abastecer travesseiros, almofadas, bichinhos de enfeite ou de agrado e bonecas de pano. A planta também tinha servido ainda para matéria-prima na fabricação do papel, muito útil já a partir e pelos inícios do século XVI.
         Paineirinha ou barriguda ou mamica-de-cadela, e outros nomes, fora uma árvore que eventualmente atingia 30m, própria da família bombacácea. Exportada para os países frios ou temperados na fabricação de encostos de cadeiras, tampos de mesas, cabeceiras de camas, gavetas de cômodas e balcões, portas de armários e molduras de quadros.
         Entre março e abril, as paineiras perdiam quase que obrigatoriamente todas as folhas, substituindo-as pelas flores, que lhes davam lhes davam extraordinária beleza e magnificência. No princípio da primavera setembro sempre voltavam a chamar atenção quando seus frutos se quebravam e liberavam os flocos brancos da paina que, bastantes brancos e leves e soltos e tontos, se desfiavam e voavam e eram levados sob as pretensões do vento.
         Nem assim mesmo. A família Araés, requeimada de sol, curtida ao sol, parara ali na pracinha feita de sol e poeira e paineiras extintas. Desorientados desassossegados nem tinham noção e por quê. Aportaram ali e nem sabiam o que dizer. Dominava o silêncio ou um cuidado por tudo por nada. Aldeia parada e mínima e esdrúxula.
         O lugar nem via chuva há dois ou três séculos. Os dias eram aqueles sempre iguais de destroços e mormaço e entorpecimento. Assim, as horas nem contavam mais nada. As pedras se derretiam, a terra se desagregava. As ex-árvores viravam pó na paisagem isolada.
         Pela rua Única, casinholos tortos e escorados e desgastados. Nenhum morador no buraco da loca. Vinte e uma casinhas de pau-a-pique.
         O pai Anhembi Araés, bufou:
- Oxalá, hein! Os casebres...
O menino Araés mirou a ex-paineira-branca e a escalou. O pai sacou um canivete do bolso. E distraído a apontar um pedacinho de madeira encontrado ali. A mãe foi ver a capela da santa Luzia por dentro, segurando o bebê acavalado nas ancas. A mãe fingiu lavar o rosto e os olhos na pia seca em frente da santa Luzia, e fingiu lavar a cara e os olhos do bebê. A menina desenhou uma sapata no chão, foi pegar uma pedra chata, jogaria na casinha da frente, pularia numa perna só, e com cuidado para nem se queimar.
         Muitos meses sem cair chuva ali no lugar. Tudo sucumbira. Assim, de repente e no mais, caiu um raio sobre o capoeirão seco, sequíssimo. Somente isso? O céu estava meio perdido no revoluteio no rebuliço da poeira vermelha. O vento vinha tocando ondas de fuligem. E o estrondo da descarga elétrica ainda repercutiu, zuniu, latejou, pulsou, ecoou pelo fundo vazio do coco de cada membro da família Araés.
Assim mesmo foi que começou o incêndio no seco capoeiral atrás da ex-ferraria. Surgiram, então por assombro, os aldeães e as aldeãs. Eles vieram correndo das choças tortas e esburacadas. Chegaram com tacapes, picaretas, pedaços de borracha pregados em cabos de pau, pedaços de lona, enxadas, foices, machados, facões, martelos, vassouras, baldes de lata, espingardas. E todos se esforçaram. Nem faltou ninguém da vila. Também mantinham um desassossego preocupado aborrecido. Se empurraram, se pisaram, se acotovelaram, se atropelaram, se xingaram na busca afobada por terra seca e jogar no fogo.
O padre, sujeito arqueado, dobrado, bastante magro, mofino, em sandálias franciscanas de pescador, bermudão, camisa de manga curta, arrostava, gritava alto as ordens que era para todo o mundo ouvir e obedecer:
- Ao combate! Ao combate do fogo!
O fogo estalava de fome e sede e horror. O fogo fazia crepitar a ex-capoeira. O fogo estralejava com os gravetinhos secos. Os cabelos do fogo obedecendo ao vento quente e terroso. Fagulhas subiam bem alto. Já quinze horas, nem eram mais. O fogo rechinava na palha.
O fantasminha de uma perna só surgiu do nada, pulou no centro da rua Única, inventou bobagem, gargalhou, hi hi hi!... dentro de um remoinho de pedrinhas soltas e poeira vermelha. Depois rodou ainda mais e para cima e para baixo na rua. E já foi embora rasteiro instantâneo soltando risinhos debochados, hi hi hi!... e outros ruídos excêntricos.
         A família Araés se chegou mais perto para ver o sinistro. Depois, resolveu se integrar ao esforço coletivo de apagar o fogo. A fumaça atacava o os pulmões os olhos, e os sujeitos ficavam tontos e lagrimosos e enjoados. Pedras saltavam dinamitadas para os lados. Chiavam as secas barbas-de-bode, as macegas torradas, as extintas guanxumas, as assadas ipecacuanhas, os poejos fritos, as esgotadas favas-de-santo-inácio-falsas, os acabados vindecaás, as plantas anônimas estorricadas e típicas de capoeira.
         Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas cavaram uma valeta em volta do ex-capoeirão. Suados e pretos de fumaça, cuidaram para que o fogo perdesse força, perdesse espaço, nem tivesse mais o que consumir. O ambiente ardia nos olhos, nuvem de fumaça encobria o sol e fechava o tempo.
         Os Araés retornaram para perto das ex-paineiras-rosas. O dia parou aí, sucumbiu, nem era de noite, se derreou. As horas nem interpretavam tinham extrema dificuldade de alternar o dia. Caiu uma noite áspera e fosca e predatória. De onde, de onde?! O céu, constantemente tomado de fumaça, tomado de poeira vermelha, escurecia antes da hora. Noite acachapante descera e pronto, de tampão. Tudo seco e enfumaçado e horrível. As ex-árvores-de-lã fincavam pontas torturadas para o céu escuro. Os ex-manipuçás indagavam do espaço aéreo com suas secas e queimadas estacas. As ex-maubás-amarelas destacavam suas hastes nocivas corroídas decompostas. A aldeia se encolhia mais ainda. Tudo um cheiro insistente de carvão requeimado.
         Duas horas após, sete ou oito aldeões e aldeãs se achegaram para perto da família. Traziam um caldeirão de sopa, sopão, um fervido de pedras soltas, pedrouço, pedras pouco mais grandes, pedras pouco mais pequenas, brita. A família Araés se entreolhou com certo paradoxo.
         O padre, calçando as desgastadas remendadas sandálias franciscanas de pescador, acabou recomendando, pregando, acrescentando, falando em nome dos aldeões e das aldeãs e dos aldeõezinhos:
         - Os famintos famélicos da fome... Os sedentos sequiosos da sede...
A família Araés e o bródio de pedras entraram num acordo conformado e íntimo e prático. A noite pela noite assombrada de ondas intempestivas de terra seca. O preparado pelo bucho adentro. A noite em volta do fogo-de-chão. O ar acostumado pegado do cheiro de fumaça e poeira vermelha. Silêncio na noite e no lugar todo. Noite de lobisomem. Estrelas ausentes. Caldeirão ao fogo sopa quente de pedras requentadas. Lua meia-lua será que ia meio alta entre nuvens pesadas de terra. As horas iam e voltavam, as horas nem saíam do chão mesmo lugar.
Dez horas a menina Camapuã Araés olhou a noite, nem viu umas estrelas mais altas que outras, nem umas mais longas que outras, nem umas mais para lá que todas. Vontade de se mexer caminhar. Para onde?!... Se ergueu e foi andando, talvez passeando, fazia um calor impaciente, saiu do clarão da fogueira, foi tateando, entrou na escuridão. Ouviram ainda seus passos se ausentando e diminuindo, estalando quebrando com as folhas secas, e nem jamais voltou mais.
Talvez um pio de martinta-pereira. A mãe esperou meia-hora, e depois disse:
- Oxalá, Cajuru! Vai buscar sua irmã.
O menino sentiu passar pela pele um arrepio cabelos em pé pela espinha dorsal uma raiva insustentável. Nem vontade de caminhar. Para onde?!... Se ergueu meio ensonado, pesado, alarmado, indeciso, modesto, olhou a noite sem quase reconhecê-la, viu aquelas fumaças lá no alto ondeando cá para baixo, olhou a mãe cuidando do bebê, saiu andando, foi pego pela noite, saiu do clarão das labaredas, sumiu bateu a cara na escuridão mais pesada, escuridão aleatória, seus passos reticentes... e nem nunca mais voltou.
         Nenhum grilo existia ali para cricrilar, nenhum sapo-ferreiro morava ali para urrar, nenhum vaga-lume para lanternar, nenhum sariguê para grunhir, já nem ninguém dos mutuns-do-sudeste para bisar. Uns juruparis, esses sim, talvez, passaram soprando dentro do vento empoeirado. A mãe aguardou meia-hora mais, depois falou:
- Oxalá, pai! Já percebeu que os dois nem voltaram?
Anhembi Araés, o pai, estava para cochilar, abriu um olho sem vontade de caminhar. Para onde?!... O pai abriu os dois olhos, se ergueu, ouviu o sopro do vento enfumaçado, admirou a noite de nuvens pesadas de terra vermelha, e sem pensar o porquê que a lua e estrelas já nem nunca estavam, andou, olhou para os lados, saiu do clarão da fogueira, entrou resvalou na noite pegajosa, ficou por lá, foi andando mais, mãos às costas, foi com os próprios passos e sumiu na escuridão para nunca mais voltar.
Nenhum morcego ou murucututu trilava revoava ali ou acolá. A mãe se segurou por trinta minutos, mais ou menos. Após o quê, se ergueu querendo entender aquela noite pesada pesada. E disse para o filhote:
- Oxalá, bebê! Nem estranhe mas que a mãe já volta.
Avanhandava, a mãe, aconchegou o bebê quase junto à fogueira, entre uns pelegos gastos rasgados. Reparou se o bebê parecia estar sossegado. Vontade de caminhar ela nem tinha. Para onde?!... Aí olhou a noite a cercá-la, se decidiu ir por ali, noite acachapante, foi andando sem certeza, saiu do clarão da fogueira, foi passeando sem rumo, tropeçando nos calhaus, reparou que a fogueira fazia uma ilha de pouca luz na vastidão do escurão. E andou, contou os passos, nem iria longe, ouviu os próprios passos na única rua poeirenta, andou para o nada da escuridão, foi para o desconhecido, caçada pela noite, se repartiu em mil assombros, tragada pela poeira grudenta e nem nunca mais voltou mesmo.
Quando o quarto membro da família desapareceu, se desorientou, e todos já perdidos por dentro da escuridão, desarticulados, foi que se apresentaram os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos ali por perto do clarão da fogueira. Era um número deles. Talvez todos os habitantes da vilinha. Chegaram quietos e lentos e trêmulos e quase sorrateiros. Chegaram diante da fogueira, esfregaram as mãos, repararam na trouxa junto a uns pelegos carcomidos. Cercaram o bebê. Uma aldeã se encolheu para cima do neném e o juntou. Coxim, o nome do bebê, ainda dormia. Então, lentos lentos como vieram, os vilões e as vilãs e as vilãzinhas foram saindo para suas casinhas de sapé.
O dia vinha se esgueirando da madrugada aterrada, todo envolto em fumaça de fuligem, todo pesado e sujo de terra. Tudo quietude conformada um silêncio de coisas já queimadas espantadas e espalhadas no ar poluído. O dia prometia ser mais um outro dia sufocante sufocado abrasador. As ex-árvores-de-paina espetando o céu vermelho com pontas pretas. As ex-baleeiras-brancas apontando os ossos pretos para o alto. Os ex-putumujus atacando com lanças aguçadas as nuvens grossas pesadas de terra. Os ex-iriribás espetando os ares enfumaçados com suas garras pretas nocivas. As ex-iperanas desafiando atacando os tempos e contratempos de sombras cerradas. As pedras estudando jogos mutretas artimanhas de xadrez. A vilinha de choças esparsas arruinadas empalhadas lado a lado na única rua.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Era Era Diferente



         Quando a gente tinha coragem de pular fogueira e caminhar descalço sobre as brasas. Estourar bombinhas no bolso. Tomar quentão muito cheiroso que a vizinha fazia a troco de nada bastava fornecer os ingredientes, comer pinhão e amendoim e puxa-puxa e pipoca com caramelo.
         Pensar pensava que o mundo todo era assim.
         Jarina ria. Riso reluzente. O rosto afogueado vermelhão pegando fogo. Onde a lua terminava onde a lua começava.
         A noite era pouca e procurávamos apontando o dedo a melhor constelação o Cruzeiro do Sul as Três Marias. Estrelas como os olhares que faiscavam aos poucos para os lados. O céu no escuro como um poço fundo ou um capoeirão lotados de vaga-lumes. Os animais gigantes dinossáuricos andando dentro da noite no forro do teto. O voo determinado bufando ruflar das asas a coruja-do-mato a mãe-da-lua.
         Outra hora se passava. Tinha mês tinha dia e hora. Olhávamos o calendário as horas e ouvíamos o zunir cadenciado dos tique-taques.
         Ana Paula ria. Tiara segurando os cabelos quase curtos tiara. Espichava o olhar circular por tudo, parecia satisfeita, de repente distante, ria e falava voz estrídula sem se mexer.
         Seja lá de onde partiam, demoravam mais de quatro séculos para chegar até ali. Viajavam de lá até ali, assim. As estrelas eram ou são animais fortes altas mais de dois metros gigantes caudalosas bem criadas e instruídas. Entre elas mesmas até sobreviviam mesmo alguns planetas. Ainda estão por ali e aqui para quem quiser ver. O caminho aberto e na hora que apertar a vontade... zabumba!, aparecer.
         - E dá gosto acordar estrela com tantas miríades ao redor.
         A rua Itália poeirenta com árvores em fila emparelhadas manacá-cheiroso, oaimirijuru, guatambu-vermelho, mata-cacau, jutaí-mirim, pau-d’arco dos dois lados nas janelas as cortinas puxadas pelo vento agitavam mostravam a língua para os quintais de jabuticabeiras bergamoteiras imbuzeiros bananeiras-do-mato jubatãs, casinhas de cachorro.
Foguetório de atemorizar cães e outros bichos. As pessoas se assustavam e aplaudiam. Acender soltar peidinho chinês perto dos mais velhos. As chamas brilhavam vermelhas faceiras coruscantes. E sob um céu todo gelado de estrelas que nós pensávamos só esticar o braço para tocar o infinito e... mungangas, as gurias.
A ansiedade em atravessar a rua e subir ao potreirinho. Uns barbantes esticados bandeirinhas de outras cores. A dona do campinho vó Ajará ficava na janela, olhando enrolada numa bata num xale um cachecol, depois vinha mais perto quando restavam as brasas as risadas e dava vivas e distribuía doces de banana. A professora Tê de matemática veio como disse que viria e com o marido e a filha real Maria Clara se despediram antes das vinte e meia o carro estacionado em frente da casa da Jô.
Tudo seriam miragens? Chegando chega chegava. As coisas saltando dos lugares das nossas fantasias vivas. O cãozinho Guiné sapeca da Marília girava em torno da fogueira acelerado assustado dos estouros dos gritos dos tiros de taquara procurava a própria cauda escondia no mato pulava nos braços da dona acoava muito agitado cascavilhava rodava como pião pedia socorro de língua de fora.
Marcela ria. Seios perfumados. Se mostrava radiante. E eu ficava olhando seus lábios doido para experimentá-los. Cascata de cabelos caracóis nas costas até a cintura.
         Fogueiras de São João São Paulo São Pedro Santo Antônio a lenha buscávamos no mato pra cima do aeródromo, quebra-foice, quina-do-campo, vassoura, mata-olho, caruru-de-espiga, mulungu, juazeiro ou pegávamos o que encontrávamos por aí. Era tudo coletivo e mal organizado. No fim dava certo porque era assim mesmo, de qualquer jeito já servia. Uma pilha quadrada tipo pagode ou uma pirâmide.
         Sempre esperei conhecer Valinhos, Rio Claro, São Bento do Una, Angra dos Reis, ilha do Ouriço, maitacas-verdes nadando no azul incomparável, etc. As estremas dos lotes com cercas vivas muros pegados de trepadeiras tiriricas solidônias cunabis papa-terras ervas-de-santa-luzia cerquinhas de ripa em ponta de lança pintadas de branco.
         Junara ria. Uma touca tentação de roubar pompom. Os brincantes riam e provocavam o riso. E todos riam também. Outros gritavam estridentemente estrepitosamente como os índios na tribo em círculo de mãos dadas os barauana os cariri os majubim os matanaui.
         Aos poucos a lenha queimava baixava devagarzinho no começo as labaredas os altos estouros de taquara os uivos dos presentes a luz tremente em faíscas lampejos de luzes.  
         Botávamos a bombinha sob uma latinha de conserva e corríamos. As meninas tapavam os ouvidos fechavam os olhos a boca aberta. O estouro, tum!... e lá ia então voava zumbindo a latinha desafiando a gravidade.
         Era bem diferente aquela noite ali. Depois vinham pedaços de bolo de chocolate que eu gostava muito num prato coberto de toalinha bordada milho verde pamonha beiju e eram gerais os, nhume! nhume!... Enfim, uma história possível.
         Agora, guri de coragem era aquele que riscava bombinha e a punha no bolso. Doía como arrancar dente no seco, a perna paralisava, tremia o corpo todo, saía um cheiro doce de pólvora, a calça ficava aberta na altura da coxa, mas esse sofrimento logo passava porque as meninas respeitavam seus heróis. Umas vinham tocar o rasgo com seus dedos de pluma. A dor passava na hora. Nos olhavam com surpresa, a mão na boca, com espanto, com consideração, sopravam tão de mancinho, ninguém ria.
         As plantas favorecendo mais as sombras o capãozinho. Os ramos se envolviam se trançavam vergavam. O verde confuso, o alaranjado das chamas espelhadas, pacaris, marajaús, sumarés-do-campo, quebra-pedras, candeias-de-caju, movimento das folhas orvalhadas.
         Uma noite juntei seis bombinhas na mão. Como um troféu uma espada desafiando o inimigo independência ou morte um feixe de palitos de fósforo. Os camaradas me auxiliaram. Que explodiram de uma vez só, tuuum!!... abrindo os dedos em calos quentes pretejando a palma da mão.
         O casamento caipira as quadrilhas a música de fitacassete qualquer ritmo com dente faltando chapéu de palha desfiado emboladas catupés toadas desafios declamações declarações o coco dançado rodado e cantado em coro. Se davam as mãos as mãos nos ombros como trenzinho e tentavam a aventura de passar no meio do brasedo do brasil com gritinhos histéricos cômicos de falsete.
         Jurema ria. Nunca a vira tão contente. As pessoas gostavam sempre dos seus cabelos de fogo e as sardas no rosto, que da juventude pra frente se perderiam desapareceriam.
         - Quantos anos?
         - Treze. Quer dizer, quinze.
         Os ferimentos foram profundos. Tanto que nem pude ir à escola dia seguinte. Deitei no chão, o braço embaixo do corpo, a mão quente dormente doente, o cérebro faiscando e via o rasto de estrelas adormecer. Procurei dentro de mim no chão na noite fria fumaça entre os dedos por respostas a possíveis perguntas.  
Me levaram carregado abraçado até em casa. Principalmente algumas meninas, uma carregava o meu boné do Inter, os dedos em gretas ressequidas, deitei no sofá da sala, um jogador lecionado, me consolaram me deram dicas de pomadas e manteigas e outros santos óleos e ervas milagrosas.
Keila ria. O riso jorrava alegria. E aquele lindo sorriso. Ela soprava o cabelo caindo sempre em franja diante dos olhos espertos matreiros esverdeados de jaguatirica.
Brrru!... que calor, e sentia que meus dedos iam e nem voltavam, sentia que meus dedos eram e nem estavam, sentia que meus dedos abriam e nem fechavam. E eu ficava restava ardendo de sede a cabeça estalando.
Nádia ria. Lábios pintados de café. Colar de miçangas. Unhas de cada cor. Sem eu falar ela se apresentou pegou meus dedos de garra bafejou doce doce tatuagem árabe no pulso e com outra mão terna penteou meus cabelos com os dedos leves. Ela concordava agastada:
- É mesmo.
Eu só ouvia o que elas diziam, que nem iria de jeito maneira perder os dedos a mão os dias de aulas. Nem entendiam por que eu fizera aquela prova tão arriscada e corajosa e ousada e suicida. Mas aplaudiam assim mesmo.
Da janela aberta via o clarão da fogueira e gente tentando aos gritos e risos e ajuda de vamos juntos pular na lua com os dois pés e pela primeira vez. As coisas foram se ampliando como em círculos crescentes a fogueira no meio do campinho as goleiras de cada lado o casal de espanta-boiada o matinho capão de árvores associadas abraçadas, canela-branca-do-brejo, embiú-amarelo, jequirioba, alastrado, baraúna, o escuro encobrindo guardando toda a noite.
Majuba ria. Uma covinha no centro do queixo. Ela pegou meus dedos e me beijou lentamente a palma da mão carbonizada. Agora eu via. O cabelo de pontas em tamanhos diferentes moldurava seu rosto cheio cobrindo as orelhas. Naquela hora concordava com tudo risos e emboanças e conversas fiadas. Eu era um fenômeno.
Bem e bem à espera do que viesse e acontecesse. De onde vai a lua para onde vem a lua. A fogueira pegava sol. O silêncio subia para o fundo do universo.

         

domingo, 5 de junho de 2016

Contos De Santa Luzia (19)


                                               


         Um arauto, um xereta, com matraca e voz grossa, expandiu gritou berrou na pracinha da vilinha de Santa Luzia, e depois no meio da rua Única, e na ponta de lá da rua e na ponta de cá da mesmíssima rua:
         - Roubaram os olhos da nossa santa Luzia!... Roubaram os olhos da nossa santa Luzia!...
         Os vilões e as vilãs e os vilõezinhos ficaram por hora e por conta. E ainda mais, ninguém tinha pistas do furtador ou furtadora. Não queriam e nem queriam acreditar. Podia ter sido qualquer um. Qualquer coisa. Até mesmo um lobisomem faminto. Quem sabia? Hein? Hein? Mesmo até um saci-pererê, uma martinta-pereira! E agora? E alguém da aldeia da vila do distrito podia dizer o quê:
         - Nem vi, mas já sei!
         - Até mesmo que eu estava adivinhando!
         - Tem cada uma que parecem duas!
         Nesse instante, e isso que estava tanto sol por trás das nuvens de poeira, a luz total do mundo começou a enfraquecer diminuir claudicar. Um sol surpreso e chocado se recolhia se furtava. Depois de saber o sucedido com os olhos da santa Luzia, o sol caía caía caiu no horizonte enfumaçado. Tudo como sempre, nuvens de pó dominando o ar, camadas de poeira sobre os tetos de sapê das casinhas de pau-a-pique, um vento chato erguendo a poeira vermelha, o cisco jogado por ali. O saci se divertindo no redemoinho. Nem chovia há meses.
         No dia seguinte e imediato, horas esperadas do amanhecer, uma escura e longa e inútil surpresa: o sol nem apareceu para aclarar e tornar a torrar o já incinerado mundo da pequena aldeia de Santa Luzia. O sol nem veio aquele dia, e o dia nem amanheceu e nem amanheceria. O primeiro dia dos longos dias das noites eternas. Os aldeões e as aldeãs olharam, na penumbra, seus relógios cebola, olharam ao redor de si mesmos, comentaram entre eles todos, conversaram todas as surpresas possíveis. Ficaram pensando no caso por algum tempo. Tinham tempo.
         - Só se for um erro solar!
         - Um problema de fuso!
         - Qual o motivo, então?! Haveria o que do por quê?!
         - Ou um erro da Terra!...
         - É uma raridade ou um fenômeno?!
         - Algum motivo de vingança?!
         - Pode ser um... o imponderável!
         - Uma lombalgia com motivo nos quartos e ou nas cadeiras!
         Aí, então, pensando, os aldeões e as aldeãs encontraram a conclusão mais próxima da certeza lá deles: o sol se recusava a sair sem os olhos santos da santa Luzia. Escuro, era isso! Ruim com o calor terrível do sol? Muito exato, todos sabiam ser certo. Mas, além de muito ruim, muito pior sem ele e sem sua luminosidade. Uma claridade embaçada um dia nublado de poeira sempre será menos ruim que uma noite trevosa e sem fim. Claro, era isso!
         Assim, por que não?, e provavelmente porque queria, o sol preferia os olhos da santa Luzia de volta na bandejinha da balancinha. Era greve solar.
         - O que fazer?
         - O que vamos fazer?
         - Se o sol quer os olhos da santa Luzia...
         - ...melhor nem contrariá-lo...
         - ...e achá-los, uma vez...
         - ... ou substituí-los por um par parecido...
         - ... ou o quê?
         O aldeão N resolveu fazer uma promoção familiar. Divulgou isso:
- Aquele que doar seus próprios olhos à causa de santa Luzia, terá como prêmio e recompensa a mão da minha linda e pura e jovem filha Veralice.
N continuou expondo suas ideias, suas propostas, sua prole:
         - Assim, primeiro, temos que esperar que cheguem e apareçam pretendentes, e que estejam dispostos a casar com minha filha Veralice. Segundo, que nem se importem nem um pouquinho de olhá-la bem olhado e depois perder os olhos para o bem da santa Luzia. Terceiro, que esse plano de fato restabeleça a figura da santa Luzia com seu prato de olhos e que o sol se convença da oferta para restabelecer sua obrigação diária de iluminar o mundo e esse pedaço de chão que já está há muito esquecido das águas pluviais e fluviais e mananciais.
         Todos e todas da vila aceitaram, concordaram e se alegraram com a proposta corajosa do seu N. Aldeão N falou muito, e falou bem o suficiente. Todos e todas aceitaram e pronto. Era uma boa ideia. Era uma oferta tentadora. Era uma iniciativa brilhante. Era o que restava fazer. Agora, então, aguardar os candidatos e ou as candidatas. Todos ali na aldeia conheciam por méritos a filha do aldeão N. Todos, porém, queriam conhecê-la ainda melhor e em detalhes especiais ou até bem específicos.
         Pois bem. A filha do aldeão N se chamava Veralice. E era tudo de bem. Era mesmo tudo de boa. Era doce e apreciada como qualquer bom bocado da sua jovem idade dos dezoito anos completados recém recém. Era um prato para se comer a qualquer hora, etc.
Veralice era loura como os raios do sol num dia ideal de veraneio em São Vicente. Tinha o olho úmido e azul como o mar - que ninguém ali conhecia -, ou como o céu depois da chuva - chuva que ninguém ali jamais vira cair um dia um pingo ao longo dos anos. Uns lábios carnosos e torneados para fora da boca como polpas de cajus amarelos servidos em festa de fim de ano na praia. Os seios rurais que mais ou menos cabiam nas mãos de um homem seleto e de sorte e sedento; e com biquinho cada qual apontando para cima, igual duas pontas de metralhadoras portáteis e giratórias. A barriguinha reta com tanquinho e curva para dentro, como de vespa amarela de listas pretas. E com um umbiguinho - um centro do mundo uma mandala - largo e profundo que a sombra fazia cheio cheio de mistérios e enigmas e suores e pelinhos douradinhos. Os braços bem torneados e como dois cipós perfumados de essências boas de flores amarelas e de flores agrestes em extinção. As pernas esguias como só ousam ser as caudas dos peixes rápidos e lisos. A babaquinha de pelinhos agregados e com um valor de ouro, mira e prata nos mercados das Arábias da China do Ver-o-Peso. O traseiro de passarinha serelepe e importante tipo uma tié-fogo. Seca de corpo e bem tostada de sol com leve leve cobertura de pó vermelho para fazer jus ao ambiente desértico do distrito.
E muito mais e uns quebrados e tantas outras arredondadas qualidades. E muito mais a ser tateado e descoberto com atenção e paciência e carinhos em noites e dias. E tudo isso ainda poderia melhorar com o tempo e com a prática e com a imaginação e com a criatividade e com as horas de folga.
         Além de tudo mais, Veralice tinha um riso agradável como sopro de asa de borboleta de um dia. Uma paciência de árvore alta, secular, rainha da mata, ninho de harpias. Um cheiro de chá de camomila, folha de pitanga, bergamota. Um sabor e saúde de água de coco. Um andar molemolente criativo e imprevisível como as folhas nos galhos durante a passagem do vento da serra durante o outono gaúcho. Ou seja, Veralice era pura imaginação alta deserção.
         O rapaz que a quisesse desposá-la e beijá-la, então, poderia mesmo perder os olhos por essa cabritinha divina e rara e, mmmm!... melíflua. Era um alto tesouro por um prejuízo qualquer. Um prêmio inestimável por um pequeno sacrifício. E o suposto rapaz, pretendente, a olharia, e a olharia muito admirado, pensaria dez vezes, se quisesse ou não, e depois, sem dúvidas e muito consciente, ou estonteado, e apostando todas as fichas na memória e no tato, entregaria agradecido agradecido os olhos. Os olhos pelo tesouro. Esta a lógica do contrato. Custo: os olhos da cara. E todos leram o contrato e ficaram muito cientes. E mais animados animados se cumprimentaram com apertos de mãos, abraços, beijos, tapinhas nas costas, estalos de língua, sorrisos maliciosos.
         Nem se passaram quantos dias. O breu perdurava. Não chovia há milênios. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas, apavorados com a escuridão completa, noites frias, acenderam fogueiras na pracinha.
Nuvens de poeira abafavam o mundo. As pedras sem coração morriam de tédio. Os pivetes da aldeia brigavam de brincar em volta das fogueiras. E os pivetes treinavam combates e artes marciais no chão da pracinha. Nada crescia naquele deserto sem fim. Não chegava o dia, e a noite era eterna. Todos fechados encerrados tapados emparedados na escuridão medonha.
         Eduardo chegou à aldeia de Santa Luzia com os olhos cansados da viagem de três meses pela noite sem fim. Ali na aldeia ficou sabendo da teima do sol. Astro nervoso que deixara o lugar parecendo uma noite sem pé nem cabeça, de pernas para o ar, pintada a carvão. Mas Duda nem estava interessado na fotossíntese do lugar. Ed só estava de passagem rápida e noturna.
         Pois assim, os vilões e as vilãs o cercaram ansiosos. E já já lhe falaram da proposta dos olhos. Ele, o Eduardo, riu com eco. Ele, Edu, riu com a garganta seca e os olhos cheios de pó. Então, N e Veralice surgiram das sombras da noite inefável compacta.
         N indicou Veralice:
         - Esta minha filha está em oferta por um par de bons olhos beneficentes. É pagar ou largar. Explico.
         Um Ed muito atento ouviu as combinações argumentativas do seu N em função de uns olhos roubados e outros que viriam emprestados e coisa e tal. Ed ficou especulando de soslaio para uma Veralice, o produto a recompensa da troca e coisa e tal.
Pensou o Edo: “Se à luz das fogueiras ela é assim tão bonita e prática e completa e plácida, se no escuro ela é assim tão boa, linda, acostumada e bem disposta!...”
         Veralice, com dois passos à frente, lhe perguntou provocativamente, manhosamente, sensualmente:
         - Você tem olhos castanhos? Assim, mesmo assim?
         - Juro!
         E nos seus olhos castanhos, lá dele Eduardo, boiaram relações de mundos impossíveis incriados inéditos pré-colombianos. No meio dos seus olhos castanhos nadaram ilusões e fantasias e carnavais e terras amazônicas.
         Foram, Eduardo e Veralice, como duas corujinhas-buraqueiras de mãos dadas, até a capela. A santa Luzia estava lá como sempre. Nem olharam a santa nos olhos. Os namorados conversaram sobre coisas ali mesmo ao pé do ouvido da santa Luzia. Voltaram abraçados. O Eduardo parecia tranquilo, sem demonstrar receio ou nenhuma forma de pressão. Veralice também nem queria dar a última palavra ou colocar palavras na boca do possível candidato.
         Voltaram abraçados sob os olhares da aldeia. Os aldeões e as aldeãs cuidavam dos dois com preocupação, ansiedade, nervosismo, silêncio, coceira na palma das mãos. As noites eram eternas e cada vez mais frias. Se acostumavam com a escuridão mal e mal e nem queriam virar zumbis. Um calafrio. Um perigo só não, uma ameaça, um grito no escuro. Uma mudança nos planos do mundo, isso sim. 
         Eduardo se preparou para deixar os olhos nas mãos da santa Luzia:
- Pena que nem vou ver nunca mais a penúria seca e poeirenta dessa vila. Nem vou mais poder ver os lugares que nem conheço e que nunca vi ou nunca conhecerei. Mas vou passar bem e muito bem com a Veralice do meu lado. Compensação vou tatear tateando o seu físico de modelo de passarela.
E o rapaz beijou o escapulário suspenso do pescoço por um barbante, beijou uma, duas e até cinco vezes o santinho do escapulário.
Pai N disse:
- Você é alinhado de juízo, rapaz!
         Aí sim, levaram Dudu até uma dependência do ex-açougue, onde o ex-açougueiro iria lhe extirpar os olhos castanhos. Anestesiaram-no erguendo um porrete bem acima da testa. E se ouviu, poque!... E só faltava lhe tirarem, então, os olhos castanhos. Tiraram mesmo, um por um, com cuidados nervosos para não estrangulá-los ou enxovalhá-los ou amarrotá-los.
         Os olhos de Eduardo foram levados em procissão até a capela e colocados no prato entregues à santa Luzia. Foram colocados com cuidado no pratinho de prata que pendia da mão da santa. Era só esperar... Era dar um prazo... Era só dar um tempo de umas horas para o sol reaparecer. E esperaram por vinte e quatro horas e por dentro de cada tique-taque.
Vinha, outro sim, uma onda de pó da ponta norte da rua. Seria uma mula-sem-cabeça? Um saci brincante e saltitante? Um lobisomem desgrenhado? Um bando de juruparis?
         Depois, viram que as vinte e quatro horas já tinham passado há muitas horas. Viram que nem eram aqueles olhos que a santa Luzia queria; nem eram aqueles olhos que fariam com que o sol se levantasse para o trabalho; nem eram aqueles olhos castanhos que acabariam com a noite cada dia mais fria; e nem seriam aqueles olhos os olhos verdadeiros os milagreiros e milagrosos.
         Veralice, nos momentos de passeio, brincava no vento, com o vento ou para o vento cheio de poeira... E fazia isso com a maior liberdade. Forçava o olhar no escuro e sentia o vento. O vento lhe fazia cócegas nas esquinas do corpo. Se essas cócegas e arrepios eram bons? “Ah, são muito bons!”, ela pensava. E o vento ainda lhe empurrava o vestido, desenhava sua forma. O vento empurrava as folhas secas ao redor dos seus pés descalços. O vento empurrava as cortinas da janela onde Veralice costumava espreitar a noite fechada de poeira ou a noite sem estrelas sem lua prateada a noite sem fim. O vento empurrava as asas dos devaneios. Até mesmo o vento levantava a poeira vermelha para dentro da casa onde Veralice espanava os móveis e sacudia os tapetes à luz mortiça dos archotes. O vento penteava as suas crinas longas e empastadas de pó. E o vento vinha acompanhado de pó vermelho lá da ponta da rua. O vento, mesmo vento, que apagava as fogueiras da praça, que soprava as chamas das fogueiras da praça, que confundia as pegadas de saci.
         - Eu posso, oh!... engolir meus olhos usando os meus próprios dedos.
         Num passeio ou outro, Eduardo a acompanhava, desanimado, cego, anêmico, fraco, preguiçoso, arrependido, mal pago. Ele até já se acostumava um pouco com a cegueira. Mas fumava cada vez mais e mais depressa. E Veralice se acostumando com o cheiro de fumaça de cigarro. De qualquer modo, os dois com saudades da luz. Veralice com mais certezas. Eduardo com menos certezas.
         E o dia de sol que nem vinha mais. E a noite eterna que nem saía mais. E as ondas de poeira vermelha acostumando os vilões e as vilãs. Um frio que torturava entrando até os ossos.
         Vitor entrou na abandonada padaria do distrito de Santa Luzia às 23h, ou melhor, às 11h. Nem sabia por que raios viera parar ali naquela aldeia, mas achava desconfiado que já podia se considerar em plena era do apocalipse fim dos tempos terra de ninguém pra lá de onde Judas perdeu as meias. Chegou e perguntou à moça Veralice que morava ali:
         - Olha. Sou de outra parte, de fora, forasteiro, entende?! Então, onde o dia deste lugar? Por que o sol teima em nem comparecer?
         - Roubaram e sumiram com os olhos importantes da santa Luzia. É por isso. Esse é o começo do sem pé nem cabeça. Uma vingança do sol?, minha pergunta.
         - Hum!... Sim, já sei, um mistério.
         - Um ladrão? Uma ladra? Talvez dois ou uma matilha, ninguém sabe ninguém viu ou nem querem contar. Ora, quem roubou nem foi visto. E o enigma está solto no escuro.
         - Nem me diga, meu!
         Então, aí e naquela hora, Vitor ficou sabendo que o sol tinha aquela teima e aquele motivo de crise. E que, na hora certa, nem aparecia a lua e nem as estrelas e nem mesmo os planetas. Então era pouco. Com sol a aldeia vivia frigindo, sem sol vivia sonâmbula e frígida. Entre frigir e congelar nem preferiam ver para crer, nem pagar para ver, nem pegar ou largar.  
         O pai da Veralice, farejando um forasteiro de primeira, foi atrás para lhe fazer a proposta. Aldeão N foi logo falando com Vitor sobre o assunto da proposta:
         - Você me parece um sujeito de alinhado juízo, sabe?
         - Oh!...
         - Precisamos contentar o sol com a doação dos olhos à santa Luzia. Novos olhos, entende?! Outros olhos e novos olhos, percebe?!
         Vitor pensou, olhar perdido na noite sem um fim, o dedo no queixo. Depois de um tempo, depois de tirar o boné, depois, disse:
         - Ah é, é?!
         O pai de Veralice:
         - Eu te ofereço a minha filha Veralice como recompensa pela doação dos seus olhos. É o que você mais queria em termos de moça apetitosa. Você quer? É pagar ou largar. Nada de nhe-nhe-nhém!
         Vitor reviu, à luz de archotes, tochas, fogueiras, uma Veralice verdadeira que era filha do aldeão N. Ela parecia um desenho em preto e branco do tempo antigo, do tempo do Cruzeiro, assim, ali, sob o foco das luzes fracas. Mas bastou. E que sensação. Vitor ficou bolando coisas assim de boca aberta, os olhos piscos, o queixo caído, a baba escorregada. Pensou: “Ora, meu! Pensando por esse lado, pensando bem...” Seu corpo teve reações instantâneas, bombásticas, incontroláveis, quentes e inseguras. Teve que esperar descer das nuvens. Nuvens de chuva que o lugar nem via há séculos. E ele pensou mais e só para si: “Eu beijando esse corpo noites e noites e em todos os lugares e partes, hein?!” E pensou outra coisa mais importante: “Nossa! Óbvio que nem precisarei de olhos... Meus dedos serão suficientes para que eu seja feliz bem feliz felicíssimo. Sim, devo aproveitar.” E a baba, escorregando fazendo um fio no queixo poeirento, provocou um risinho de vexame na assistência nos circunstantes na alcateia.
         Veralice se aproximou muito mais e falou num tom parecido com aqueles gorjeios de pintassilgos - e que há tempos nem se via mais ali -, e bem junto da boca do rapaz:
         - Você tem olhos verdes? Eu diria até em compotas?
         - Juro!
         E nos seus olhos verdes, lá dele Vitor, boiaram relações de mundos impossíveis e estonteantes e inebriantes. Nadaram ilhas que nunca viu, mas que já sonhara e fantasiara e desejara e folheara com legenda em algum lugar.
         Foram de mãos dadas e olhos abertos na luz dos archotes até a capela ver a santa Luzia. Nem olharam a santa nos olhos. Conversaram com a santa Luzia como se fossem três amigos chegados. A santa Luzia parecia calma e esperançosa. E voltaram abraçados pelo mesmo caminho. Vitor tinha uma única coisa a dizer ou a perguntar:
         - Será que vou engordar ou emagrecer com... depois da perda... dos meus olhos verdes?
         - E você se sente inseguro? - indagou Veralice.
         Pois é. Todos acham que possuem olhos lindos lindos. E Veralice olhou-o nos olhos verdes, Vitor olhou-a nos olhos azuis, e de cima a baixo... Trocaram carícias, beijinhos, beijos e salivas quentes, beijos e salivas íntimas e oportunas e preliminares. Que que Veralice poderia lhe dizer acima de tudo, afinal?
         - Você sabe, bem, o que é sedenho?
         - Não. E você, querida?
         - É crina de cavalo.
         Vitor, depois, foi levado ao ex-açougue para a operação mais desligada de sua precipitada aventura, e que era a extração dos seus belos olhos cor de mar - mar que os vilões e as vilãs ainda nunca viram. Vitor beijou lá seu patuá, seu talismã, seu muiraquitã, seu breve. Deram-lhe a tradicional cacetada na cachola para que desmaiasse. Aí, foram e lhe sacaram os olhos verdes com muito cuidado para nem esmagá-los ou arranhá-los ou riscá-los. Valiam sim duas pedras muito preciosas como se fossem esmeraldas encontradas em certo lugar bom agradável natural sonoro Itanhaém.
         Assim, os olhos verdes do Vitor foram levados, com cuidado e ansiedade, até o pratinho de prata da santa Luzia. Ela os pesou repesou sopesou, quem sabe. Ficaram lá, enfim, aqueles olhos verdes do Vitor pegando o tempo e a poeira da noite sem ter um fim.
         A aldeia esperou e esperou insone vinte e quatro horas marcadinhas. Um sopro de vento frio e, na rua Única, pequenas nuvens de pó vermelho. Sonolência preguiça lerdeza moleza. Lobisomem uivando? Martinta-pereira voando baixo? Mula-sem-cabeça de olhos acesos piscando do fundo do carvão?
         Depois desse tempo de horas de espera ainda não aconteceu nada. Se nem acontecera nada esse tempo todo era que os olhos do Vitor nem serviram para o efeito desejado. Tanto a santa Luzia não gostara, então, como o sol nem se contentara, uma vez. Assim, os olhos de Vitor foram extirpados em vão e inutilmente. Mas será o pé da cobra?!
         Veralice Veralice passeava ao ar livre, pela rua poeirenta e cascalhada, no capoeirão esturricado, na praça sedenta, dentro da noite... Subia o morro e sentava na pedra mais alta. Queria o vento, ir ao sabor do vento, dentro do vento, se vestir de vento vermelho. O vento na saia desenhando suas formas, pernas, ventre, sua babaquinha pré-festival. O vento entortando os ramos secos dos arbustos. O vento falando e mudando a temperatura da noite eterna. O vento rolando sem a lua e polindo as nem estrelas por cima da cabeça de todos. O vento acariciando suas orelhas. O vento carregado de poeira vermelha, todo confiante e confiado, dizendo isso e aquilo. O vento arrepiando suas costas, sua espinha de vértebras contadas de a a z. O vento forçando entrada. E o vento, cheio de mistérios e uivos, furando seus ouvidos de labirinto.
         - Eu posso, oh!... traduzir meus olhos apontando os meus próprios dedos.
         De repente, em um passeio ou outro, Eduardo e Vitor acompanhavam Veralice. Os dois cegos falavam pouco, diziam menos ainda. Ambos apoiados nos seus braços, um de cá e outro de lá: dominados, calmos, cegos, cabisbaixos, preocupados, frustrados, boca aberta com língua de fora como teiús em extinção procurando comida no escuro. Os dois fumando mais que o normal. Importa que todos se perdiam na falta de sol, luz, claridade, calor.
         A noite que nem ia embora era a noite mais longa e difícil e fria que o mundo por ali já vira. Noite que insistia no não acabar nunca nunca eterna e gelada. As martintas-pereiras estranharam no começo, depois concordaram e piaram e cresceram e prosperaram. Já voavam raivosas, cheias de si, insones. E o dia nem vinha e nem despontava o sol. Nem mesmo o sol entupido de nuvens de poeira vermelha. O fim dos tempos? Bem feito!  
         Elaine surgiu na aldeia vindo do nada da noite, nascida da noite profunda, aparecida das tumbas do mar da noite. Buscando o que ia encontrando e nem perdera. Nem mochila nas costas, nem calças de florzinhas bordadas, nem casaquinho curto, nem blusinha de babados, nem bandana verde-amarela, nem pingentes ou braceletes, nem bolsa a tiracolo. Elaine, coração sempre do lado direito, estranhou o lugar de noite sem fim. Procurou o que fazer e nem achou nada que prestava. Nem queria procurar no escuro. Foi chegou na pracinha, sentou perto de uma fogueira, sobre uma pedra convenientemente distantinha do fogo, os cotovelos nos joelhos juntinhos e as mãos segurando o mesmo queixo delicado sujo de poeira. Os cabelos soprados de vento visível, vento frio, vento sem rumo, vento noturno, vento entupido de pó vermelho.
         O aldeão N foi falar com Elaine. O aldeão N se queixou da noite sem pé nem cabeça e tal. O aldeão N disse que a poeira vermelha com vento de vaivém era bem a característica do lugar. N disse que a única coisa que mudava por ali era o lado do vento. N falou que a falta dos olhos úteis da santa Luzia faziam uma falta medonha. Falou da proposta, explicou tudo e propôs e lhe disse mais:
         - Você, você que me parece decente e de alinhado juízo.
         A moça olhou o chão, riscou a poeira com um graveto seco, ficou de pensar o que pensar. O vilão prosseguiu no aliciamento:
         - Você nem vai querer se tornar nossa heroína?
         Depois disso, Elaine foi apresentada à Veralice. Elaine olhou a Veralice de cima para baixo, de leste para oeste, parte por parte, centímetro por centímetro e assobiou, fiiiiiiiu!... Elaine olhou os dentes de Veralice; olhou a boca de pêssego amarelo maduro de Veralice - pêssego que os vilões e as vilãs nunca provaram. E mais, Elaine olhou a Veralice todinha por fora da roupinha, vestidinha como estava, calculando o recheio o conteúdo. E engoliu em seco. E pensou sozinha e sem mexer os lábios: “Eu queria te beijar todinha a partir de agora, e a partir do queixinho, e até o sempre, e até o dedo do pé. E eu gosto de morder devagarinho, guria estupenda, guria fora de série, guria de virar a cabeça.”
         Elaine contou nos dedos os anos e a idade e o tempo que teria para amar a tal de Veralice. Todo esse tempo sem os seus bons olhos? Será?
E Veralice ficou com uma dúvida ali na penumbra do pensamento e já indagou:
         - Você é de olhos negros? Insiste nisso e confia?
         - Juro!
         E nos seus olhos negros, lá dela Elaine, boiaram relações de mundos impossíveis maravilhosos hospitaleiros. Uns mistérios coloridos que só o coração dos apaixonados pode fabricar e acreditar. Viu mundos e fundos de paisagens de perder o fôlego. Viu pontes com cascatas em lençóis de noivas. Viu rios gargalhantes correndo para baixo em meio às pedras e paredões.
         Saíram as duas de mãos dadas para a capela. Foram ver a santa Luzia, conversar com a santa Luzia, conversar com a santa bem baixinho. E tocaram os pés e a barra do vestido longo da santa Luzia. Evitaram olhar a santa nos olhos. Voltaram de lá mais amigadas, animadas, abraçadas e praticamente cantando uma canção que muitos já ouviram mas poucos tinham topete para desafinar em público.
         A aldeia como um todo as vigiava. Os aldeões e as aldeãs esperaram muito. Os aldeões e as aldeãs esperavam agora de braços cruzados. Os aldeões e as aldeãs esperavam bebendo os olhos de Elaine. Os aldeões e as aldeãs esperavam de mãos às costas ou de mãos nos bolsos ou nas ancas. Estavam enjoados de noite sem fim; estavam entediados com o frio sem fim. Era péssimo para os negócios. Um humor fechado noturno escuro pegajoso.
         Elaine se preparou para perder os olhos de jabuticaba - frutinha essa que os vilões e as vilãs nunca tinham ouvido falar. Pediu para ficar a sós com Veralice só mais um instantinho. Era um último pedido para olhar Veralice por dentro das roupinhas empoeiradas. Era um último e pequeno pedido. Elaine declarou:
         - Quero ver... a tua babaquinha. É para o bem da memória. Ver para crer. Quero ver comparar e dar um apelido conforme.
         Veralice correu se descascar. E executou polichinelo. E denunciou a babaquinha, sardentinha como estava, em triângulo isósceles invertido, camuflada, florestada, cebolada, ineditadinha, perturbadinha, encrespadinha, sebosinha. Elaine chorou interessadíssima. E chorou pela última vez. E chorou, e esfregou os olhos pretos, vermelhos. Esfregou as mãos nos olhos e suspirou:
- Adorei. E digo mais, adorarei.
         Então, os aldeões com as aldeãs conduziram Elaine até o ex-açougue. Elaine apertou, acariciou e beijou o bentinho que pendia do pescocinho por um cordão amarelinho. Deram-lhe uma cacetada e tanto no cocuruto para que desmaiasse e nem se mexesse na hora h. Aí, Elaine perdeu os olhos da cara. Tiraram os olhos com delicadezas sem fim, para não amargá-los ou trincá-los ou estriá-los ou sujá-los.
         E os olhos negros de Elaine foram postos no pratinho de prata que a santa Luzia mantinha seguro e pendido da mão esquerda. E a santa Luzia os pensou muito bem pensados estudados calculados. E a santa os mediu de ponta a ponta.
         A aldeia de aldeões e de aldeãs cuidou de esperar por longas vinte e quatro horas. Ouvia-se o vento falando nos galhos secos das árvores secas da pracinha incinerada. Uma nuvem de pó vermelho, por lembrança, entrando por baixo da porta aqui e ali, pelas frestas das janelas assim e assado. Um vento poeirento e muito gelado.
         Depois desse prazo passar mui lentamente em noite sem estrelas e fria, foi que nem aconteceu o esperado nem nada. O nada da noite sem fim, isso sim. Os olhos de Elaine também nem serviram para outra coisa. E olha que eram grandes e negros! Tanto a santa Luzia como o sol nem deram a mínima bola, sem tugir e sem mugir.
         Veralice foi buscar inspiração no vento poeirento que passava e que vinha de longe e voando e cheio de asas vermelhas na noite empestada de pó. O vento era o que ela mais desejava nessas horas. O vento também a queria, nem como simples amiga. E ela deixava o vento frio querer à vontade. E o vento queria e ventava e a marcava em v. Veralice queria ver e sentir o vento soprando suas curvas e vales, coxilhas e canhadas, côncavos e convexos. Veralice queria sentir o vento feliz ou fazer que o vento se sentisse feliz. O vento tocando suas mãos, a palma das mãos, os dedos, contando de um a dez na ponta dos dedos, tocando piano ou violão, todas as falanges, falanges proximais, falanges mediais, falanges distais. O vento a fazia girar. O vento a tocava pelas costas. O vento acariciava a sua bunda, o que muito a surpreendia e a agradava. O vento a despenteava como o prazer. O vento entrava pela sua boca garganta seca. E Veralice queria e tinha o vento noturno e sólido e frio e arrepiante.
         - Eu posso, oh!... prosseguir meus olhos antenando os meus próprios dedos.
         Nem sempre, nem sempre mesmo, Eduardo, Vitor e Elaine seguiam Veralice nos seus passeios noturnos. Nem iam quando tão longe assim. Elaine tinha receio de chutar as pedras soltas do caminho ou cair de joelhos nos espinhos e gravetos com ponta. Eduardo tinha pavor de cair num buraco e quebrar o braço a perna o pescoço. Vitor tinha receio e até pesadelos com cercas de arame farpado e galhos secos riscando o rosto. Então, era isso e iam juntos, quando, quase batendo cabeça. Eduardo segurava um braço, Vitor o outro e Elaine a ponta dos cabelos de Veralice. Fumavam muito os três os tais cigarros aqueles crioulões feitos de palha seca.
         Veralice nem tinha culpa que seus pretendentes nem deram certo. Mas Veralice, mesmo que todos pensassem assim, se sentia em dívida com a santa Luzia. E decidiu. Na volta de um último passeio ao vento frio e poeirento, decidiu. Decidida, foi falar e falou para os aldeões e as aldeãs e principalmente ao aldeão N, seu papai:
         - P-papá!... Quero doar meus olhos para santa Luzia. Quem sabe?
         Todos olharam, à luz de tochas, archotes, fogueiras para aqueles os olhos azuis de Veralice. Todos descobriram uma coisa nem exatamente nova e debaixo do entupido nariz:
         - Seus olhos são azuis azuis, Veralice?! Ou me conte outra?
         - Juro!
         Veralice Veralice abriu os braços satisfeita, olhou a todos a sua volta e emendou:
         - G-gentes! Talvez para tocar a vaidade da santa Luzia, talvez para fazer o que desde o início tinha que ser feito; e daí tocar a generosidade do supersol.
         E nos seus olhos azuis azuis, lá dela Veralice, boiaram relações de mundos impossíveis e nem descobertos. Assim como achar escolher ir para um lugar e encontrar nesse lugarejo o que nem se procurava em lugar algum. Assim como fazer uma coisa que nunca nunca irá se arrepender.
         Seu pai N nem se conteve e a abraçou:
         - Você é alinhada de juízo, fia!
E Veralice de fato perdeu aqueles olhos. E a aldeia, só assim, ganhou o dia a dia de sol forte. Um sol forte que voltou como sempre, com tudo, forte, brasino, escaldante, vinte e quatro horas depois, doze horas de calor. Num mundo sem chuva. E bota calor, mormaço, claridade. Sol torrando, frigindo, fritando, assando. Sol impiedoso que tornava o mundo um forno. O sol que batia violento sobre o mundo ali do sem fim dos tempos.
- Eu posso, oh!... orientar meus olhos acertando os meus próprios dedos.
Nem se via seca alma na rua Única e poeirenta. Silêncio de saci rodando no redemoinho. Tudo sonolento ou com pavor do calor do sol. Árvores secas e sem esperança. Um mundo de pedras quentes. E muito banho de sol com bronze poeirento. E as ondas vermelhas indo e vindo, levantando, encobrindo, tapando o sol.
O sol voltou, e retornaria sempre cada vez cada doze quente como fornalha.



domingo, 24 de abril de 2016

Contos de Santa Luzia (10)


                                               


         Há que se esquecer da partitura da piscicaptura da conjuntura. E as gurias mais ainda nem sabiam de nada. Uns pontos a favor, portanto:
         - Você conhece Normandia e o lago Caracaranã?
         - E o antigo palácio Tiradentes, morro da Viúva, campo dos Afonsos, ilha das Cobras, hein?!
         - Pode me adicionar?
         - Se eu curti? Curti.
         - Nem curti, ainda.
         - Tem o ideal o preferencial e o possível. Nessa ordem.
         - Um fardinho de latinhas de cerveja, ah ah ah!...
         - Talvez galhos secos, roupas no varal... e o próprio vento, vuuu!...
         Naquele dia 14 de maio de 2014 lindonas gostosonas bonitonas arrumadonas confirmadonas instigadonas um início de manhã a história já parecia muito bem encaminhada e suspeita.        
Um grupo, as amigas da região do Seridó, RN, estavam sempre dispostas a fazer exercícios comumentemente verticais. Isso todos os sábados pela manhã sem nuvens sem chuva sem nevoeiro. Em algum ponto diverso do território nacional. De preferência longe.
Acordaram cedo antes dos raios do sol. A viagem alada. As horas voaram. Passaram nas alturas sobre os doze mil metros já para lá de Pacaraima, Itaqui, Itirapina, Corumbataí, Almirante Tamandaré do Sul e etc.
E eram sete as saltadoras potiguar, como os sete pecados capitais, as sete sombras do arco-íris, os sete dias da semana, os sete fôlegos do gato, as sete maravilhas do mundo contemporaníssimo: Pitumba, a materialista; Parari, a espiritualista; Juriti, a cooperativista; Carajá, a existencialista; Arirambinha, a feminista; Piava-Verdadeira, a corporativista; Baníua, a governista; e Tariana, ou Largata, a ecologista e determinista.
E todas tinham um cuidado ótimo com o próprio sorriso, sombra dos olhos, lábios pintados, unhas compridas para duas cores distintas, brincos, colar, pulseiras, tornozeleira, tatuagem de árabe ou chinês. Gurias de pernas saradas longas ginastas e olhares perdidos. Roupas paraquedistas e calcinhas moda tipo pixel. Todas levavam os pelos das pernas e axilas e etc bem depilados. E os cabelos podiam ficar soltos e assustados e desgrenhados e de qualquer jeito amarelos de sol.
         O avião voou cinco horas e tanto para o interior. Latitude sul longitude oeste altitude acima do mar dos cupuaçus das casas das nuvens. Então, receberam ordem do piloto para saltar. Onze horas de sábado, céu limpo, uma e outra nuvenzinha branca aqui e acolá. Pularam uma após a outra, iuuu!... A paisagem lá pelo chão parecia boa, olhando de tão alto. Já pularam todas. A liberdade de braços abertos queda a 250 km por hora gravidade puxando vento na cara liberdade liberdade. A terra desenhada em canteiros e trilhas. A geografia foi se aproximando. As cores foram se isolando se definindo. Os detalhes foram aparecendo se materializando aos milhares e milhões. Os retalhos geométricos de áreas quadrados círculos triângulos...
         Tariana, a bonita, teve um probleminha com a direção na corrente dos ventos e foi aterrissar sobre a copa de uma ex-perova-amarela. O paraquedas se enfiou e se misturou e se tramou com a galhada seca, se enroscou, ficou preso. Tariana, a dengosa, também conhecida como Largata, apelido de colégio, se soltou e caiu do alto de sete metros, trooopes!... e torceu o tornozelo do pé e. Quando sentiu o estalinho, pleque!... e a dor:
         - Doeu, tá bom!!!
         Até gritou e chorou solitária sentada numa pedra escaldante. No ex-mato sem cachorro, nem tinha com quem extravasar. Lugar seco, estorricado, incinerado pelo verão milenar. Solita no mais como gata em tapera. E queria muito muito que viessem buscá-la, socorrê-la, resgatá-la. E até queria um espelho para ver as melenas as madeixas as guedelhas. Beijou o escapulário. E tribeijou o breve. Olhou em volta:
         - Que que é isso, meu?! Que que estou fazendo aqui? Eu mereço!
         Aborrecida e com o desconforto, isso sim. Procurou manter a calma e esperar. Tinha que ter calma, dar um prazo, esperar, aguardar por um eventual socorro. Deus estava vendo, isso sim! Viriam buscá-la, isso sim! Nem fita elástica branca na cabeça para prender o cabelo. Nem conseguia esquecer a dor, nem conseguia ter calma suficiente para esquecer a dor e o mau jeito que dera no pé. E estava mesmo no meio do sequíssimo deserto. Ela mesma fez aquilo mesmo. Nem ouvia nenhum som, nenhum barulho, nada de ruído, tudo silêncio, bem silêncio. Vento baixo carregado de poeira vermelha, nuvens vermelhas.
         Se lembrou da época da escola garotinha de tenra idade. Estavam visitando o museu Júlio de Castilhos. Na entrada fila de dois, uma menina de mão com um menino, a professora perguntou:
         - O que a gente combinou?
         - Silêncio - todos responderam ao mesmo tempo.
         Passou uma hora. Cochilou. Sonhou com um bando de borboletas amarelas. Passou mais meia hora, talvez. Sonhou um bando maior ainda de borboletas brancas. Acabou se irritando. Se estressou mais mais do que já estava irritada.
         Acabou de acordar e resolveu se mexer. Procurou se arrastar até um ponto de referência, um lugar aberto onde pudesse pleitear socorro, ser vista, encontrar gente, acender um foguinho, desenhar um sos no chão, fazer um lanche, se esticar numa rede e esperar. Sentia mesmo uma dor no vazio no lado nas cadeiras.
         Então, andou como um saci. E sacudindo o cabelo criativo. Logo precisou de uma escora. Andando assim, saiu para o limpo, para um lado da mata seca, uma trilha que lhe pareceu melhor. Desceu um morrinho. Ali embaixo encontrou uma estradinha de areia e pedrinhas redondas, ou quase redondas. Era o leito seco e tortuoso de um ex-riachinho. Leito pedregoso do corguinho extinto. Para que lado, uma vez? Desceria o ex-rio, subiria o ex-rio? Resolveu acompanhar a descida do ex-riachinho. Parecia ser melhor acompanhar o santo ex-riachinho abaixo. Podia até encontrar um santo, um peregrino vestido de santo, um condomínio, e em volta do loteamento um bairro ou distrito habitado.
         Se sentou numa laje para o descanso. Olhou o pé machucado. Sentiu uma dor pulsando na ideia, sentiu raiva, sentiu vexame, sentiu vazio, sentiu fracasso. E ali mesmo ela ficou muito cansada e exausta.
         - Que dia tem aí, meu?!
         Largata, a ajuizada, olhou em volta e viu a vala, antigo leito do ex-rio. Um chão de areia e pedregulho os seixinhos rolados. Um caminho sinuoso entre peraus, pedras soltas e arbustos secos. Uma trilha difícil de caatinga.
A moça deixou a cabeça cair quase entre as pernas. Cochilou. Sonhou com um bando de pixixicas entrando numa pedra. Ficou reparando. E sonhou ter visto ainda um bando maior de formigas entrando para uma pedra. A pedra nem engordava, ela acordou.
         Então, Tariana, a saborosa, abriu os olhos cansados. E olhou o pé torcido, inchado. Lembrou do pé dolorido. Este parecia muito mal e se complicando cada vez mais. Um pé que estava querendo morrer ali mesmo. E água? A boca seca e a garganta seca pediam água. A moça queria mesmo uma solução. O sol era horrível sobre tudo, embora a fumaceira vermelha.
         A galinha de sol ia pondo os ovos das horas ao longo do ninho do dia. O sol as horas o dia são coisas diferentes. A galinha os ovos o ninho são coisas diferentes.
         Largata, a linda, olhou a sua volta... e olhou o que lhe restava da própria sorte... da própria sombra... e decidiu continuar descendo o leito do ex-riachinho. Apoiada na escora. Sem filtro solar. O pé inchado inchando.
         Sol muito quente na cabeça. Uma luz forte que se refletia nas pedras e que derretia as meninas dos olhos. O miolo do coco também derretia. Nenhuma ideia então vingava. O meio-dia zênite sol a pino. Céu indisposto lotado de poeira.  
         Tariana, a elegante, percebeu ou intuiu que estava sendo seguida. Seguida deserto afora? Parou, olhou em volta... Nem viu nada além do capoeirão seco e o entulho de pedras no leito do riozinho seco. Talvez nem chovesse por ali há meses. Achou mesmo que nem chovia por ali há anos-luz. Procurou ouvir... Um silêncio de fim de mundo... de fim dos tempos...
         - Quem quer que seja.    
Depois de mais umas duas horas, sempre sob o sol escaldante, com sede, ela descansou, tentou descansar, né!, sentando na sombra de uma embaubatinga petrificada. O pé parecia uma madura bola de futebol.
         Sentada ali na base da ex-árvore, por acaso e por favor, Largata, a angélica, viu quem a seguia: um cachorro: e dos grandes: cachorrão, canzarrão. E pensou rápido, pensou alto e rápido:
         - Nunca comi um cachorrinho apetitoso. E daí?!
         Largata, a judiciosa, se ergueu no mesmo instante, toda arrepiada. Ao ver o cão teve um pressentimento. O cão nem tinha cara de amigo. Mas nem tinha mesmo. E, então, mais que depressa, manquitolando, quicando como o saci-pererê, seguiu caminho. Decidiu caminhar como remédio.
         O sol temperamental castigava forte. O tempo inteiro. Era janeiro, era fevereiro, voltava dezembro, janeiro e fevereiro. Fazia mesmo calor. E era pleno verão. Era janeiro. Nem chovia fazia bem dois mil anos. A luz cintilando na poeira vermelha. Nada se mexia sob aquele calor.
         E Largata, a famosa, dava três ou quatro pulinhos e olhava para trás. E lá estava o cão e lá era o cão: língua caída para fora da boca, olhar básico de cão brabo, provavelmente babando pelo seu futuro almoço, olhar fixo, orelhas parabólicas, cauda meio que balançando, boca cheia de dentes caninos. Ela fazia um metro ou dois, o cão a imitava. Ela parava, o cão idem. Ela disfarçava e olhava para o lado, o cão disfarçava e olhava em volta.
         A moça pensou muita bobagem. Sempre o mais difícil. O cão parecia filósofo apóstolo curandeiro. Um olhar meloso de cão fugitivo, procurado pela justiça, fugido de manicômio, canil federal, sequestrador, estuprador, torturador, incendiador, senador, predador, britador.
         Tariana, a feliz, jogou uma pedra. O cão se esquivou, mas nem foi embora. E nem avançou. O cão a olhava sério, frio, obsessivo, matemático. Com certeza o cachorro só esperava que ela cochilasse ou se distraísse para comê-la viva. Por isso todo cuidado era pouco. Por isso nem podia parar. É, o cachorrão podia mesmo ser um cão assassino.
         - Que horas são, hein?! - ela perguntou alto.
Eram quinze horas e tanto, e muito quente. Nada mais se ouvia. Tudo um silêncio. O cão também, só aguardando o primeiro vacilo. Cães atacam pelas costas? Cães atacam bichos mancos ou feridos ou doentes? A moça tinha dúvidas. Cães comem aqueles seres humanos?
         Andou uns oito metros e sentou numa laje quentíssima. O cão parou ali. Fitaram-se. Silêncio contaminado de poeira. Era muito ruim. Ela se ergueu e continuou, bem estropiada, bem curvada, bem falida. O sol abrasador, abrasador, queimava a pele os olhos desprotegidos os cabelos sagazes.
         Que deserto era aquele? Onde viera parar? Por que nem aparecia santo algum? Teria que passar a noite ali, uma semana? Morreria devorada pelo canzarrão? Tinha dúvidas e pesadelos. E por que nem lembrou de trazer uma arma branca, uma cachaça, um telefone celular, um gps, uma palavras-cruzadas? Por que nem trouxe um sanduíche, um guaraná com pastéis, umas balas de goma.
- Hein? Sua burra! - gritou consigo mesma.
         Largata, a sensata, cabelo fabuloso e desgrenhado, jogou uma pedra. O cão olhou a pedra cantar no pedregulho e depois a encarou como sempre. Ela parou, o cão sentou e esperou. Ela agitou no ar a escora, o cão só olhou fixo por enquanto. O cão, língua tombada, nem salivando mais. Parecia mesmo estar esperando um excelente manjar. E por nada por nada os cães também sonham!
         A desfigurada resolveu descansar cinco minutos naquela sombrinha do rochedo. Ajeitou os cabelos sublimes em volta do pescoço. Sentou-se, deixou a escora perto da mão, qualquer coisa; também umas boas pedras à mão, para caso de precisão. Olhou o pé... que estava irreconhecível. Nem podia tocá-lo. Estava muito cansada. Dor de cabeça. O pé quase nem doía de tão inchado, inchando. Se fosse um filme nem seria um curta-metragem.
         Sem saber, sem querer, fechou os olhos. Se deixou. E, então, dormiu. Dormiu? Se abandonou. Dormiu. Viu em sonhos um bando de trinca-ferros, e depois, um bando maior ainda de passarinhos de peito amarelo. Dormiu. E sorriu. Sorria. E ria. Quase gargalhou.
         Então acordou, acordou rindo, sobressaltada, e viu, em cima do seu pé quebrado, o cão, o cão que vinha lhe perseguindo. Ele lambia a sola do seu pé inchado e provocava cócegas. Largata, a estudiosa, saltou para trás e o cão, tímido, cauda entre as pernas, também saltou para trás, correu, se precaveu, ficou afastado, andou uns cinco metros e sem falar nada.
         Tariana, a perfumosa, se ergueu muito preocupada. Dormira temerariamente. O cão parou a uma distância, balançando as orelhas desanimadamente. O cão direcionava para ela aquelas suas duas orelhas parabólicas, interessadas. Largata, a mimosa, e o cão separados por uma distância. Um com precavido do outro. Um com fome do outro? Um com nojo do outro? Os dois com muita sede e fome e cansaço.
- Será que o cão quer ser meu amigo? Pode ser, né? - falou para si mesma.
Desconfiada, ela o convidou a se aproximar. Batendo os dedos, pleque! pleque!... O cão, desconfiado, veio vindo devagar, farejando, cauda balançando, cabeça baixa, língua caída. Parecia rir. Chegou muito perto. A moça passou a mão entre as orelhas do bicho. Talvez fosse manso, talvez muito dependente dos tipos de humanos.
         Ficaram amigos ou sócios. Então, ela conseguiu um camarada e pronto. E o cão a seguiu muito de perto, cuidando do seu pé estropiado, olhando para ela ou por ela a cada dois metros. Desciam o leito seco do ex-riozinho. Largata, a risonha, tinha um guarda-costas. Coisa incrível naquele deserto ríspido e esquecido e etc.
         Três e quarenta da tarde. Os ventos quentes ralavam o todo em volta. O sol inclemente. Largata, a ditosa, nem aguentava mais. Queria parar e dormir por muito tempo. O cão era amigo, parecia com sede, com fome e assim por diante. A moça nada bebeu, nada comeu, nada podia fazer, nem falou nada. Volta e meia a mão passava pelos cabelos ressequidos e misteriosos.
         De repente, ouviram um rugido muito próximo, gruuu!... Tariana, a imaginosa, pensou alto, respondeu a uma pergunta interior, disse:
         - Quem quer que seja.
Largata, a espirituosa, se assustou, o cão se assustou e latiu com raiva e ousadia. Tariana, a brilhante, deixou cair a bengala, o cão evacuou ali mesmo e sem querer. Largata, a venturosa, teve uma certeza: era uma onça-pintada, brava e faminta e sedenta. Esta estava por aí, à espreita, se acercando.
- O que fazer agora? - se lastimou ela.
Mas nem queria pensar. Estava quente demais. Queria sumir, tomar um banho, beber água até cair, voltar para a estrada, dormir, fugir, sumir, acordar, se cobrir com o lençol até o queixo, pegar um táxi para Coqueiros do Sul.
         Largata, a respeitosa, tentou ir mais rápido. Difícil numa perna só. O cão estava preocupado, latia, acuava, grunhia, graaa!... olhava a sua volta. O cão estava com ódio. O cão estava preocupado com a própria sorte.
         Então, a onça-pintada, magra ossos contados, surgiu no alto de uma rocha. Uma fera perigosa e arisca. A fera abriu a bocarra para rugir ainda mais forte, tudo que podia, urrrrro!... Largata, a vaporosa, sentiu os cabelos arrepiados, espetados, duros, doendo no couro cabeludo. O cão engasgou de raiva e ódio e horror. A onça-pintada, enfraquecida pelo calor, acrocou e grunhiu, grrrrr!... Largata, a altíssima, atirou uma pedra e a onça-pintada se escondeu atrás das rochas, de repente.
         A moça e o cão andaram mais uns metros. O mundo tão pequeno e sem sentido e sem escapatória. A jaguaruçu, na espreita, rugiu lá atrás, ruuu!... A sorte era um baile. A sorte era um bilhete. A sorte era um jogo de xadrez. A sorte era um leito de rio. O cão latia sem parar, já rouco. A guria se apressou, quicando na perna cansada.
         De súbito a onça-pintada pulou sobre o cão e os dois travaram uma peleia de horror e poeira e garras e grunhidos, grrr!... Tariana, a apetitosa, tentou apartar, chegou a dizer o tal de “disso deixá vamo, gente!”. Os dois brigando muito entre rugidos, latidos, urros, ganidos, e poeira levantada, nuvem vermelha.
Nem demorou muito. E por que demoraria? E pedaços do cão voaram do meio da nuvem de pó. Largata, a melodiosa, já corria como podia, os cabelos habilidosos se sacudindo pelas costas, pendulando pelas costas, sujos de poeira, quase úmidos de suor.
         O cão só aguentara a onça-pintada por dois minutos. De repente, nem se ouviu mais o cachorro. De súbito nem se tinha mais guaipeca algum. Um rugido, gruuu!... e o silêncio... A acanguçu almoçava e jantava e lanchava e almoça e jantava e lanchava o ex-cão.
Largata, a veneranda, queria distância e sossego para reparar a perda. Corria e tentava correr mais e mais, sempre numa perna só. Largata, a deusa, precisava de uma cachaça, de um fuminho, de uma paisagem civilizada, de uma paisagem verde de pomar, de um lugar povoado e variado em comes e bebes, de um abrigo contra onças-pintadas, de uma piscina com água borbulhante cascata boias colchão inflável crianças gritando bem alto impertinentes.
         Dezesseis horas? Quase certo. E Largata, a flexível, nem suportava mais. Estava tonteando. Tonteou. E caiu ali mesmo na areia do leito do riozinho seco. Zonza. Maquiagem de terra seca vermelha. De boca aberta. E sapitucou. E desmaiou.
         No pesadelo, no delírio, a guria viu um bando de cães vindo na sua direção - queriam o quê, mesmo? -, e que corriam como malucos, todos velozes, eram cães onceiros, perdigueiros, paqueiros, anteiros; e viu ainda um bando maior de jaguaretés chegando na sua direção, olhos amarelos como o sol, olhos amarelos como fossem de mel, boca espumando de gula, língua pendida degustando o ar puro, lábios grossos, língua lambendo os pelos dos lábios grossos, língua lambendo, esleeeepes!... os compridos bigodes os fios do bigode.
         O desmaio da moça, já bem toda amarrotada, cabelos amistosos em descumprimento do dever, e isso durou dez doze minutos. Ela acordou rindo. E rindo, abriu os olhos. Diante de si a onça-pintada típica estampa dos livros do pantanal mato-grossense. E ali muito em cima, lambendo-lhe o pé inchado, lambendo-lhe o pé destroncado, a mesma onça-pintada que derrotara o cão. Largata, a colorida, gelou de pavor, tremeu de calor, saltou de banda. A onça-pintada recuou uns passos e fixou a moça, cauda entre as pernas.
Com metros separando, era uma onça-pintada, babando, muito pintada de pintas amarelas e pretas. Uma jaguarapinima com duas orelhas parabólicas, giratórias, gre-gre!... Uma onça-pintada de dar medo, de sair correndo, de se encantar, de aproveitar para fotos, de ousar uma carícia. Era o momento de ser amiga da onça ou sobremesa da pintada. E a onça-pintada era um bicho e tanto. E a felina tinha almoçado e jantado e lanchado há bem pouco tempo.
         Por um momento Largata, a calorosa, e onça-pintada se olharam nos olhos. Largata, a viçosa, tinha seus olhos muito abertos e verdezinhos; a fera tinha olhos de sol, ou de mel, ou de ouro, ou de vespa.
         Dezesseis e quarenta e seis da tarde. O sol ainda estava forte, alto, amarelo como gema de ovo, como moeda rara de ouro. A jaguar ali ali língua caída entre dois dentes grandes.
         Tariana, a doce, esperou a onça-pintada pular sobre o seu pequeno corpinho de mulher arteira e acabar com tudo. Fechou os belos olhos, até. Fechou os olhos e esperou um tempão. Pareceu um tempo largo. Passou instintivamente a mão pelos cabelos preciosos e longos. Nem foi mais que vinte e cinco segundos. A moça esperava um empurrão e nhaque!... Mas a onça-pintada se deitou, olhando com uma cara enigmática, um olhar neutro.
- Será o quê? - pensou alto a moça. Será que a onça me idolatra? Será que a onça quer o quê, esta hora, este calor, este sistema solar?
         A guria decidiu se erguer, pegar a escora - muito com cuidado para nem assustar a fera -, e seguir caminho. A onça-pintada também se resolveu a caminhar. Então, as duas desciam o leito de areia e pedregulho do ex-riachinho. A moça pensou para fora:
- Tenho uma amiga de garras afiadas, agora, meu!
         Largata, a frutuosa, olhava para trás, desnecessariamente. Pensou outra coisa:
- Como essa onça-pintada quer ser minha amiga, hein?!
Mas a canguçu parecia mesmo ser uma esperta estrategista, dali para a frente. A onça-pintada seguia Largata, a esperta, como uma sombra como uma sombra quente, como uma sombra pintada.
         A dona Largata, a lisa, ardia ao sol do dia aberto. Tonteava de cansaço e calor e fome e sede. Quase delirava. Começou a delirar. Pronto, viu um bando de libélulas verdes e leves, talvez azuis, subindo o morro da encosta leste; e viu ainda outro bando bem maior de libélulas elegantes seguindo pelo mesmo caminho aéreo. E pensou mais, ali no sonho mesmo: Essas libélulas tão bonitas... e meu cabelo desgarrado deve estar imundo e meu cabelo deve estar uma coisa e meu cabelo deve estar um fiasco. A moça continuou pensando ou sonhando: Não, meu cabelo está definitivamente desgovernado e precisando de um bom banho. E assim por diante a moça delirou e falou sozinha.
         Dia ensolarado, quentíssimo, horas e horas a fio, mundo perdido na poeira vermelha.
         - Vou pifar - disse para si mesma, e concordou.
         Largata, a bronzeada, olhou a onça-pintada, a onça-pintada olhou a moça. A jaguareté acompanhava como um gatinho, dócil, doméstica, calma, sistemática. Outro pensamento da mulher:
- Será que cuida da próxima refeição? E procurando me assar ao sol? Evitando jantar fora de antes da hora?
Desciam, por enquanto, por acaso, pelo leito seco do riachinho. De um lado e de outro paredões de rocha, peraus, pedras roladas na pré-história, árvores secas, paus queimados apontando o céu de fogo, pedras rebatendo a luz, pedreiras, terra rachada, plantação de pedra canga.
Umas mais cedo, outras mais tarde, e ao longe do dia, assim, contando, todas as horas foram sendo exoneradas.
         Dois minutos mais e anoitecia dentro do vale esturricado. Largata, a fogosa, parou e cochilou. Imediatamente, a moça viu um bando de coleirinhas voltando para casa; e após, viu mais um bando maior de coleirinhas-do-brejo procurando se esconder da noite. Sonhou que viu, bem mais tarde, uns bandos de morcegos saindo das cavernas; e uns bandos maiores ainda de morcegos voando para o encontro com a lua arredondada.
         A moça esfomeada esbaforida acordou com um arrepio pela sola do pé destroncado. Muita coceira na sola do pé e riu, ih ih ih!... Estava quase sem roupas para a noite fria e dormir ao relento. Olhou no escuro e viu a onça-pintada dar um passo atrás, cauda entre as pernas, uns olhos de vaga-lume.
         - Que frio, meu!
         E, ainda mais, Largata, a plácida, estava exausta, dolorida, tonta de horror, guedelhas revoltas e revoltadas, a noite querendo fechar, noite fria. Por enquanto continuou ali sentada abraçada aos joelhos. Nem queria imaginar a noite que teria pela frente, a resposta da escuridão.
A onça-pintada já nem parecia se sentir bem. A fera tinha um problema na consciência que mantinha só para si. O cão lhe caíra bem. E o que preocupava a consciência da felina? Nem gostava de estrelas frias? Tinha pavor de lua arredondada? Seus olhos de vaga-lume procuravam o quê, lá por dentro da escuridão envolta em poeira?
         No alto do céu o manto escuro ia sendo esticado, desdobrado, montado. Aqui e ali umas janelinhas de luz, uns respiros de luz, uns brilhos de diamante, uns olhos de guri arteiro por entre as nuvens de poeira vermelha. Por aqui o frio se alastrando. Largata, a nova, se entregou de novo ao sono cansado.
Tariana, a natural, sonhou que viu um bando de avoantes em nuvem dar um giro mais longe; e viu ainda um bando maior de avoantes em nuvem grande ir em direção leste. E um bando mais outro de avoantes se encontrar e fazer coreografia artística complicada complexa teatral.
         A canguçu estava inquieta e preocupada e agitada. Olhava em volta de si, farejava o ar da noite. Miava de vez em quando, roncava de súbito, gania para a escuridão, gruuu!... Seus olhos acesos na brasa procuravam entender o escuro. De supetão, se ergueu, rosnou, bufou, roooo!... flechou o olhar firme para o fundo da escuridão. Sabia já que ia perder o sono. Perdeu a paciência.
         - Quem quer que seja.
         Um momento mais e se precipitaram batidas de latas e latões. A onça-pintada esturrou, uuuuur!... e subiu na rocha mais próxima, se preparando para o combate. Largata, a suspirosa, despertou sobressaltada, ofegante afobada, pé muito bem inchado.
- São caçadores! Quem sabe já estou salva? - pensou alto. Quem sabe seja o meu resgate? Tomara que me encontrem mesmo, embora os cabelos despreparados.
         À medida que as batidas de lata se aproximavam - e vinham chegando furiosas numa velocidade -, mais braba a onça-pintada se mostrava. A felina corria para cá e para lá, rodando em torno de si, subindo e descendo as rochas mais altas, urrando com muito ódio no coração. A fera precisava fugir, mas nem se decidia. Largata, a ideal, arquejante arfante, se viu pensando, e falou isso:
- Mas por que a onça-pintada nem foge nem corre nem se esconde e se salva?
         Nem demorou nada para que os batedores de latas chegassem com tudo, e cheios também de ódio, armados até os dentes e atirando. Era um bando deles. Um bando deles com raiva e fome, ao mesmo tempo. Foi um entrevero na escuridão e já levantando poeira vermelha da grossa.
E a seguir, o bando de caçadores armados foi atirando, te-te-tê!... na onça-pintada e nem deram a mínima chance. A onça e moça estavam cercadas pelo bando de caçadores. Uma fuzilaria ainda sobre a peneira felina. Largata, a idolatrada, tapou os ouvidos e nem pensou mais nada. Era como se a turma do anhangá-pitã tivesse chegado e parado ali e descarregado as armas ali. Tudo mal iluminado pelas estrelas frias e distantes e apocalípticas.
         A jaguarapinima já estava perdida esburacada. A onça já nem deu mais conta de ficar em pé. A fera estrebuchou toda perfurada arruinada. A pintada apagou os olhos de vaga-lume e deitou a cola.
         A seguir, já arreganhando os dentes, se aproximaram os caçadores com suas armas e suas tochas e seus lampiões a carvão. Cobertos de pó vermelho. Caçadores magrelos de olhos imensos. Pareciam também feitos de poeira vermelha. Um deles mirou o bacamarte e apertou o gatilho. A onça-pintada recebeu a bala maior entre os olhos, e esvaziou murchou por comprido.
Largata, a elegante, se deitou na poeira e tentou se cobrir de pó vermelho. Os cabelos desalinhados, os cabelos naquele estado lastimável, os cabelos em petição de miséria. Os cabelos um horror dos filmes da década de 70. Nem eram cabelos apresentáveis. Os cabelos imprestáveis na cor vermelha.
         Então, os caçadores procuraram recolher tudo e cair fora. Dois ótimos caçadores botaram a onça-pintada num pau-de-arara. Outro caçador carregou a moça nas costas. O cabelão dela pendendo e balançando como roupa suja no varal. A moça carregada nas costas por aldeão-caçador como fêmea-trouxa dos tempos bíblicos.
         Andaram uma hora ou duas por capoeirões secos labirinto e sem fim. O céu parecia se abrir para uma lua qualquer entre nuvens baixas de poeira. Terra do país das pedras e arbustos ressequidos. Poeirama invadindo tudo. Descansaram nenhuma vez, portanto.
Chegaram à aldeia de Santa Luzia pelas vinte e três horas. Vila corroída pela poeira. Aldeões e aldeãs esquálidos, esquálidas, costas curvas e tortas, desfigurados, cobertos de poeira poeira.
E esse povinho poeirento se deu as mãos no meio da rua Única. Se juntaram ali no meio da rua, se deram as mãos, rodaram em roda rodando e rindo e gritando e rodando mais e mais rápido, até ficarem bem tontos e zonzos e histéricos. Sem demora se atiraram ao chão, muito eufóricos.
Dois minutos mais, Largata, a perfeita, estava no interior de uma casinha de pau-a-pique coberta de sapê, deitada numa esteira, sobre o chão de terra batida, cabelos desgrenhados, cabelos abandonados, roendo as unhas, presa, requentada, destilada, arranhada.
         Tariana, a interessante, olhou o aldeão-caçador que a guardava de perto. Ele a olhava fixamente já com tempo. Ela olhou em volta. Considerou que estava salva e presa. E fechou os olhos verdinhos, passou a mão automaticamente pelas melenas orgulhosas. Dormiu. Um sono difícil. Um sono com pé quebrado ou torcido ardendo.
         Dormiu se dormiu, pensou que dormia, sonhou ou delirou que famílias de surucuás caminhavam na mata virgem em procura. E mais surucuás em bando gigante sempre tocando o membi a intervalos regulares, feeeu, feeeu!... catavam frutinhas do chão caídas dos guabijus. 
         Posteriormente após no dia seguinte, Largata, a caprichosa, acordou motivada de risos irresistíveis. Abriu os olhos e se rindo, ih ih ih!... O aldeão, o mesmo aldeão-caçador que a guardava, lambia-lhe o pé inchado, fazia cócegas, limava com a língua grossa a sola do seu pé inchado. Ela, a moça, ria e olhava para os lados. Às vezes lagrimejando e rindo. O aldeão meio que se afastou um tanto, receoso, pego em flagra, rabo entre as pernas. Largata, a inofensiva, tinha vontade de fazer xixi, mas ria do mesmo jeito e sempre e muito.
         Largata, a talentosa, olhou em volta. Olhou o pé lambido. Criou coragem, pensou: Nossa! Os meus cabelos devem estar um fiasco, e eu me parecendo com uma espantalha, uma martinta-pereira, uma pixuna desfolhada. Preciso encontrar água, sabonete, champu, toalha felpuda, pente e espelho, tudo no mesmo lugar.
         Depois, vieram alguns outros aldeões e aldeãs bater à porta, mas o dono da oca nem abriu. Os de fora ameaçaram, mas o de dentro nem se intimidou. Aí, os de fora desistiram e foram embora, mas o de dentro nem se acalmou.
         Largata, a deslumbrante, ainda estava na esteira. Ouviu, ou sonhou ter ouvido, um pio de caburé-do-campo? Nem viu, pensou ter ouvido, um bando de andorinhas muito rápidas e uniformes cruzando o céu limpo; e nem viu, ou nem ouviu, um bando ainda maior de andorinhas passar pelo quadro da janela tendo ao fundo o céu azul de poucas nuvens brancas.
         A moça acordou como sempre, se estapeando, rindo da coceira, nem aguentando a comichão na sola do pé. O aldeão-caçador deu um pulo resguardado para trás, rabo entre as pernas, maquiado de pó vermelho, dedos nos lábios. E ficou ali, sentado no chão, olhar pedinte e impreciso.
         Largata, a pararé, olhou o pé e viu que estava ainda inchado, porém doendo mais ou menos. Se ergueu quicando e foi procurar o de-comer e o de-beber, que nem havia. O aldeão-caçador também andou pela salinha pobre e podre. O caçador estava preocupado com os outros lá fora. Constantemente ele vigiava espiando preocupado a rua Única. O fulano tinha duas pistolas e um fuzil AK-47 e um facão e uma granada de mão sempre atada à cintura.
         Perto das doze horas, os aldeões e as aldeãs voltaram para decidir a parada. Intimaram berraram que nem sairiam sem a prisioneira. Largata, a irisada, pensou para fora:
- Que querem comigo?
E pensou bem mais rápido:
- Nossa! E meu cabelo? Preciso de um banho, de uns grampos, de uma tiara, de uma grinalda de flores da oeirana. Com que cara vou aparecer para essa gente?!
E Largata, a justinha, perguntou ao aldeão-caçador ali presente:
         - Como vai ser?! Explique! Por que logo eu e logo hoje?
         Nesse instante, de repente subitamente, sabe-se lá como e por quê, um tremor de terra, misterioso suspeito, ali debaixo dos pés do povinho todo, um tremor surdo. A vila tremeu, se assustou, soltou poeira dos casebres todos, aldeões e aldeãs todos de olhos fixos e bem abertos. Um tremor com estrondo cavernoso que veio do fundo do mundo, de debaixo dos pés, do centro da terra.
         Um silêncio depois. Um saci veio num redemoinho. Dois sacis, cada qual no seu redemoinho de poeira brita e cisco.
         Mais meia-hora e, depois de trinta minutos, os aldeões e as aldeãs arrombaram a porta do casebre do tal aldeão-caçador. A porta tombou para dentro da salinha. A casinha quase caiu de podre. Imediatamente o aldeão-caçador reagiu com estocadas de facão e voadoras e pontapés e rabos-de-arraia e mordidas. Os aldeãos e as aldeãs invasores deram um passo atrás, e estratégicos, se esconderam se protegeram nas esquinas.
         Largata, a viajada, pegou um revólver e começou a atirar com fúria. Os cabelos lhe caíam para diante dos olhos. Quando tinha tempo passava os cabelos para trás das orelhas. Falou por falar que ninguém deu ouvidos ou deu bola:
- Logo logo vai faltar balas aqui, cara!
         Os aldeões e as aldeãs nem queriam incendiar a choça. Então, com muito cuidado, e paciência, foram cercando-a. Na altura das treze horas o palacete estava cercado. Assim, aconteceu muita bala de todo lado. De em torno e vindo assobiando, viii!... muita bala de todos os cantos e muito mais. No interior do casebre faltou bala. A palhoça toda perfurada direitinho.
         Tariana, a expansiva, viu, ou sonhou, um bando de sapos-aru chegando para comer as paredes frágeis da casinhola coberta de sapê; depois ainda viu e ouviu, e sonhou, um bando maior ainda de sapos-arus, urque! urque!... vindo bater a sua porta, a sua janela, a sua parede, e entrando sem cerimônia, saltando e parando e saltando, devorando tudo.
         E Largata, a pura, nem se lembrou de mais nada. Ouviu sonhou viajou de avião de trem de carro foi a pé estava longe indagando o caminho para Carazinho, serra do Roncador.
         Dois minutos mais e acabou as balas o chumbo dentro da casa sitiada. Dois minutos mais e os aldeões e as aldeãs em bando entraram de sola na casa lar doce lar.
         Aí, os aldeões e as aldeãs invasores esbofetearam o aldeão-caçador renitente. Depois, ainda os aldeões e as aldeãs arrastaram a moça para o matadouro. O aldeão-caçador, e muito teimoso, queria salvar a guria. Queria salvar de todo jeito, e queria porque queria. Para a maioria dos aldeões ou das aldeãs, a moça estava muito magra porém melhor que nada.
         Largata, a ensolarada, enquanto arrastada pelos cabelos, delirava com um bando de aldeões e de aldeãs e de aldeãzinhas muito quase satisfeitos acompanhando-a; e delirou com um bando maior cem vezes maior de aldeões e de aldeãs e de aldeõezinhos esfregando as mãos satisfeitos e quase saciados.
         No meio da capoeira, entre os tucurus abandonados, o espantalho nem atinava a nada disso. De braços abertos, pacífico, sacrificado, sem pressa, olhando o vazio como um espantalho deve ter. Calor queimando, chapéu na cabeça, esperando as gralhas-azuis chegar de onde. O sol vermelho no céu amarelo.