domingo, 24 de abril de 2016

Contos de Santa Luzia (10)


                                               


         Há que se esquecer da partitura da piscicaptura da conjuntura. E as gurias mais ainda nem sabiam de nada. Uns pontos a favor, portanto:
         - Você conhece Normandia e o lago Caracaranã?
         - E o antigo palácio Tiradentes, morro da Viúva, campo dos Afonsos, ilha das Cobras, hein?!
         - Pode me adicionar?
         - Se eu curti? Curti.
         - Nem curti, ainda.
         - Tem o ideal o preferencial e o possível. Nessa ordem.
         - Um fardinho de latinhas de cerveja, ah ah ah!...
         - Talvez galhos secos, roupas no varal... e o próprio vento, vuuu!...
         Naquele dia 14 de maio de 2014 lindonas gostosonas bonitonas arrumadonas confirmadonas instigadonas um início de manhã a história já parecia muito bem encaminhada e suspeita.        
Um grupo, as amigas da região do Seridó, RN, estavam sempre dispostas a fazer exercícios comumentemente verticais. Isso todos os sábados pela manhã sem nuvens sem chuva sem nevoeiro. Em algum ponto diverso do território nacional. De preferência longe.
Acordaram cedo antes dos raios do sol. A viagem alada. As horas voaram. Passaram nas alturas sobre os doze mil metros já para lá de Pacaraima, Itaqui, Itirapina, Corumbataí, Almirante Tamandaré do Sul e etc.
E eram sete as saltadoras potiguar, como os sete pecados capitais, as sete sombras do arco-íris, os sete dias da semana, os sete fôlegos do gato, as sete maravilhas do mundo contemporaníssimo: Pitumba, a materialista; Parari, a espiritualista; Juriti, a cooperativista; Carajá, a existencialista; Arirambinha, a feminista; Piava-Verdadeira, a corporativista; Baníua, a governista; e Tariana, ou Largata, a ecologista e determinista.
E todas tinham um cuidado ótimo com o próprio sorriso, sombra dos olhos, lábios pintados, unhas compridas para duas cores distintas, brincos, colar, pulseiras, tornozeleira, tatuagem de árabe ou chinês. Gurias de pernas saradas longas ginastas e olhares perdidos. Roupas paraquedistas e calcinhas moda tipo pixel. Todas levavam os pelos das pernas e axilas e etc bem depilados. E os cabelos podiam ficar soltos e assustados e desgrenhados e de qualquer jeito amarelos de sol.
         O avião voou cinco horas e tanto para o interior. Latitude sul longitude oeste altitude acima do mar dos cupuaçus das casas das nuvens. Então, receberam ordem do piloto para saltar. Onze horas de sábado, céu limpo, uma e outra nuvenzinha branca aqui e acolá. Pularam uma após a outra, iuuu!... A paisagem lá pelo chão parecia boa, olhando de tão alto. Já pularam todas. A liberdade de braços abertos queda a 250 km por hora gravidade puxando vento na cara liberdade liberdade. A terra desenhada em canteiros e trilhas. A geografia foi se aproximando. As cores foram se isolando se definindo. Os detalhes foram aparecendo se materializando aos milhares e milhões. Os retalhos geométricos de áreas quadrados círculos triângulos...
         Tariana, a bonita, teve um probleminha com a direção na corrente dos ventos e foi aterrissar sobre a copa de uma ex-perova-amarela. O paraquedas se enfiou e se misturou e se tramou com a galhada seca, se enroscou, ficou preso. Tariana, a dengosa, também conhecida como Largata, apelido de colégio, se soltou e caiu do alto de sete metros, trooopes!... e torceu o tornozelo do pé e. Quando sentiu o estalinho, pleque!... e a dor:
         - Doeu, tá bom!!!
         Até gritou e chorou solitária sentada numa pedra escaldante. No ex-mato sem cachorro, nem tinha com quem extravasar. Lugar seco, estorricado, incinerado pelo verão milenar. Solita no mais como gata em tapera. E queria muito muito que viessem buscá-la, socorrê-la, resgatá-la. E até queria um espelho para ver as melenas as madeixas as guedelhas. Beijou o escapulário. E tribeijou o breve. Olhou em volta:
         - Que que é isso, meu?! Que que estou fazendo aqui? Eu mereço!
         Aborrecida e com o desconforto, isso sim. Procurou manter a calma e esperar. Tinha que ter calma, dar um prazo, esperar, aguardar por um eventual socorro. Deus estava vendo, isso sim! Viriam buscá-la, isso sim! Nem fita elástica branca na cabeça para prender o cabelo. Nem conseguia esquecer a dor, nem conseguia ter calma suficiente para esquecer a dor e o mau jeito que dera no pé. E estava mesmo no meio do sequíssimo deserto. Ela mesma fez aquilo mesmo. Nem ouvia nenhum som, nenhum barulho, nada de ruído, tudo silêncio, bem silêncio. Vento baixo carregado de poeira vermelha, nuvens vermelhas.
         Se lembrou da época da escola garotinha de tenra idade. Estavam visitando o museu Júlio de Castilhos. Na entrada fila de dois, uma menina de mão com um menino, a professora perguntou:
         - O que a gente combinou?
         - Silêncio - todos responderam ao mesmo tempo.
         Passou uma hora. Cochilou. Sonhou com um bando de borboletas amarelas. Passou mais meia hora, talvez. Sonhou um bando maior ainda de borboletas brancas. Acabou se irritando. Se estressou mais mais do que já estava irritada.
         Acabou de acordar e resolveu se mexer. Procurou se arrastar até um ponto de referência, um lugar aberto onde pudesse pleitear socorro, ser vista, encontrar gente, acender um foguinho, desenhar um sos no chão, fazer um lanche, se esticar numa rede e esperar. Sentia mesmo uma dor no vazio no lado nas cadeiras.
         Então, andou como um saci. E sacudindo o cabelo criativo. Logo precisou de uma escora. Andando assim, saiu para o limpo, para um lado da mata seca, uma trilha que lhe pareceu melhor. Desceu um morrinho. Ali embaixo encontrou uma estradinha de areia e pedrinhas redondas, ou quase redondas. Era o leito seco e tortuoso de um ex-riachinho. Leito pedregoso do corguinho extinto. Para que lado, uma vez? Desceria o ex-rio, subiria o ex-rio? Resolveu acompanhar a descida do ex-riachinho. Parecia ser melhor acompanhar o santo ex-riachinho abaixo. Podia até encontrar um santo, um peregrino vestido de santo, um condomínio, e em volta do loteamento um bairro ou distrito habitado.
         Se sentou numa laje para o descanso. Olhou o pé machucado. Sentiu uma dor pulsando na ideia, sentiu raiva, sentiu vexame, sentiu vazio, sentiu fracasso. E ali mesmo ela ficou muito cansada e exausta.
         - Que dia tem aí, meu?!
         Largata, a ajuizada, olhou em volta e viu a vala, antigo leito do ex-rio. Um chão de areia e pedregulho os seixinhos rolados. Um caminho sinuoso entre peraus, pedras soltas e arbustos secos. Uma trilha difícil de caatinga.
A moça deixou a cabeça cair quase entre as pernas. Cochilou. Sonhou com um bando de pixixicas entrando numa pedra. Ficou reparando. E sonhou ter visto ainda um bando maior de formigas entrando para uma pedra. A pedra nem engordava, ela acordou.
         Então, Tariana, a saborosa, abriu os olhos cansados. E olhou o pé torcido, inchado. Lembrou do pé dolorido. Este parecia muito mal e se complicando cada vez mais. Um pé que estava querendo morrer ali mesmo. E água? A boca seca e a garganta seca pediam água. A moça queria mesmo uma solução. O sol era horrível sobre tudo, embora a fumaceira vermelha.
         A galinha de sol ia pondo os ovos das horas ao longo do ninho do dia. O sol as horas o dia são coisas diferentes. A galinha os ovos o ninho são coisas diferentes.
         Largata, a linda, olhou a sua volta... e olhou o que lhe restava da própria sorte... da própria sombra... e decidiu continuar descendo o leito do ex-riachinho. Apoiada na escora. Sem filtro solar. O pé inchado inchando.
         Sol muito quente na cabeça. Uma luz forte que se refletia nas pedras e que derretia as meninas dos olhos. O miolo do coco também derretia. Nenhuma ideia então vingava. O meio-dia zênite sol a pino. Céu indisposto lotado de poeira.  
         Tariana, a elegante, percebeu ou intuiu que estava sendo seguida. Seguida deserto afora? Parou, olhou em volta... Nem viu nada além do capoeirão seco e o entulho de pedras no leito do riozinho seco. Talvez nem chovesse por ali há meses. Achou mesmo que nem chovia por ali há anos-luz. Procurou ouvir... Um silêncio de fim de mundo... de fim dos tempos...
         - Quem quer que seja.    
Depois de mais umas duas horas, sempre sob o sol escaldante, com sede, ela descansou, tentou descansar, né!, sentando na sombra de uma embaubatinga petrificada. O pé parecia uma madura bola de futebol.
         Sentada ali na base da ex-árvore, por acaso e por favor, Largata, a angélica, viu quem a seguia: um cachorro: e dos grandes: cachorrão, canzarrão. E pensou rápido, pensou alto e rápido:
         - Nunca comi um cachorrinho apetitoso. E daí?!
         Largata, a judiciosa, se ergueu no mesmo instante, toda arrepiada. Ao ver o cão teve um pressentimento. O cão nem tinha cara de amigo. Mas nem tinha mesmo. E, então, mais que depressa, manquitolando, quicando como o saci-pererê, seguiu caminho. Decidiu caminhar como remédio.
         O sol temperamental castigava forte. O tempo inteiro. Era janeiro, era fevereiro, voltava dezembro, janeiro e fevereiro. Fazia mesmo calor. E era pleno verão. Era janeiro. Nem chovia fazia bem dois mil anos. A luz cintilando na poeira vermelha. Nada se mexia sob aquele calor.
         E Largata, a famosa, dava três ou quatro pulinhos e olhava para trás. E lá estava o cão e lá era o cão: língua caída para fora da boca, olhar básico de cão brabo, provavelmente babando pelo seu futuro almoço, olhar fixo, orelhas parabólicas, cauda meio que balançando, boca cheia de dentes caninos. Ela fazia um metro ou dois, o cão a imitava. Ela parava, o cão idem. Ela disfarçava e olhava para o lado, o cão disfarçava e olhava em volta.
         A moça pensou muita bobagem. Sempre o mais difícil. O cão parecia filósofo apóstolo curandeiro. Um olhar meloso de cão fugitivo, procurado pela justiça, fugido de manicômio, canil federal, sequestrador, estuprador, torturador, incendiador, senador, predador, britador.
         Tariana, a feliz, jogou uma pedra. O cão se esquivou, mas nem foi embora. E nem avançou. O cão a olhava sério, frio, obsessivo, matemático. Com certeza o cachorro só esperava que ela cochilasse ou se distraísse para comê-la viva. Por isso todo cuidado era pouco. Por isso nem podia parar. É, o cachorrão podia mesmo ser um cão assassino.
         - Que horas são, hein?! - ela perguntou alto.
Eram quinze horas e tanto, e muito quente. Nada mais se ouvia. Tudo um silêncio. O cão também, só aguardando o primeiro vacilo. Cães atacam pelas costas? Cães atacam bichos mancos ou feridos ou doentes? A moça tinha dúvidas. Cães comem aqueles seres humanos?
         Andou uns oito metros e sentou numa laje quentíssima. O cão parou ali. Fitaram-se. Silêncio contaminado de poeira. Era muito ruim. Ela se ergueu e continuou, bem estropiada, bem curvada, bem falida. O sol abrasador, abrasador, queimava a pele os olhos desprotegidos os cabelos sagazes.
         Que deserto era aquele? Onde viera parar? Por que nem aparecia santo algum? Teria que passar a noite ali, uma semana? Morreria devorada pelo canzarrão? Tinha dúvidas e pesadelos. E por que nem lembrou de trazer uma arma branca, uma cachaça, um telefone celular, um gps, uma palavras-cruzadas? Por que nem trouxe um sanduíche, um guaraná com pastéis, umas balas de goma.
- Hein? Sua burra! - gritou consigo mesma.
         Largata, a sensata, cabelo fabuloso e desgrenhado, jogou uma pedra. O cão olhou a pedra cantar no pedregulho e depois a encarou como sempre. Ela parou, o cão sentou e esperou. Ela agitou no ar a escora, o cão só olhou fixo por enquanto. O cão, língua tombada, nem salivando mais. Parecia mesmo estar esperando um excelente manjar. E por nada por nada os cães também sonham!
         A desfigurada resolveu descansar cinco minutos naquela sombrinha do rochedo. Ajeitou os cabelos sublimes em volta do pescoço. Sentou-se, deixou a escora perto da mão, qualquer coisa; também umas boas pedras à mão, para caso de precisão. Olhou o pé... que estava irreconhecível. Nem podia tocá-lo. Estava muito cansada. Dor de cabeça. O pé quase nem doía de tão inchado, inchando. Se fosse um filme nem seria um curta-metragem.
         Sem saber, sem querer, fechou os olhos. Se deixou. E, então, dormiu. Dormiu? Se abandonou. Dormiu. Viu em sonhos um bando de trinca-ferros, e depois, um bando maior ainda de passarinhos de peito amarelo. Dormiu. E sorriu. Sorria. E ria. Quase gargalhou.
         Então acordou, acordou rindo, sobressaltada, e viu, em cima do seu pé quebrado, o cão, o cão que vinha lhe perseguindo. Ele lambia a sola do seu pé inchado e provocava cócegas. Largata, a estudiosa, saltou para trás e o cão, tímido, cauda entre as pernas, também saltou para trás, correu, se precaveu, ficou afastado, andou uns cinco metros e sem falar nada.
         Tariana, a perfumosa, se ergueu muito preocupada. Dormira temerariamente. O cão parou a uma distância, balançando as orelhas desanimadamente. O cão direcionava para ela aquelas suas duas orelhas parabólicas, interessadas. Largata, a mimosa, e o cão separados por uma distância. Um com precavido do outro. Um com fome do outro? Um com nojo do outro? Os dois com muita sede e fome e cansaço.
- Será que o cão quer ser meu amigo? Pode ser, né? - falou para si mesma.
Desconfiada, ela o convidou a se aproximar. Batendo os dedos, pleque! pleque!... O cão, desconfiado, veio vindo devagar, farejando, cauda balançando, cabeça baixa, língua caída. Parecia rir. Chegou muito perto. A moça passou a mão entre as orelhas do bicho. Talvez fosse manso, talvez muito dependente dos tipos de humanos.
         Ficaram amigos ou sócios. Então, ela conseguiu um camarada e pronto. E o cão a seguiu muito de perto, cuidando do seu pé estropiado, olhando para ela ou por ela a cada dois metros. Desciam o leito seco do ex-riozinho. Largata, a risonha, tinha um guarda-costas. Coisa incrível naquele deserto ríspido e esquecido e etc.
         Três e quarenta da tarde. Os ventos quentes ralavam o todo em volta. O sol inclemente. Largata, a ditosa, nem aguentava mais. Queria parar e dormir por muito tempo. O cão era amigo, parecia com sede, com fome e assim por diante. A moça nada bebeu, nada comeu, nada podia fazer, nem falou nada. Volta e meia a mão passava pelos cabelos ressequidos e misteriosos.
         De repente, ouviram um rugido muito próximo, gruuu!... Tariana, a imaginosa, pensou alto, respondeu a uma pergunta interior, disse:
         - Quem quer que seja.
Largata, a espirituosa, se assustou, o cão se assustou e latiu com raiva e ousadia. Tariana, a brilhante, deixou cair a bengala, o cão evacuou ali mesmo e sem querer. Largata, a venturosa, teve uma certeza: era uma onça-pintada, brava e faminta e sedenta. Esta estava por aí, à espreita, se acercando.
- O que fazer agora? - se lastimou ela.
Mas nem queria pensar. Estava quente demais. Queria sumir, tomar um banho, beber água até cair, voltar para a estrada, dormir, fugir, sumir, acordar, se cobrir com o lençol até o queixo, pegar um táxi para Coqueiros do Sul.
         Largata, a respeitosa, tentou ir mais rápido. Difícil numa perna só. O cão estava preocupado, latia, acuava, grunhia, graaa!... olhava a sua volta. O cão estava com ódio. O cão estava preocupado com a própria sorte.
         Então, a onça-pintada, magra ossos contados, surgiu no alto de uma rocha. Uma fera perigosa e arisca. A fera abriu a bocarra para rugir ainda mais forte, tudo que podia, urrrrro!... Largata, a vaporosa, sentiu os cabelos arrepiados, espetados, duros, doendo no couro cabeludo. O cão engasgou de raiva e ódio e horror. A onça-pintada, enfraquecida pelo calor, acrocou e grunhiu, grrrrr!... Largata, a altíssima, atirou uma pedra e a onça-pintada se escondeu atrás das rochas, de repente.
         A moça e o cão andaram mais uns metros. O mundo tão pequeno e sem sentido e sem escapatória. A jaguaruçu, na espreita, rugiu lá atrás, ruuu!... A sorte era um baile. A sorte era um bilhete. A sorte era um jogo de xadrez. A sorte era um leito de rio. O cão latia sem parar, já rouco. A guria se apressou, quicando na perna cansada.
         De súbito a onça-pintada pulou sobre o cão e os dois travaram uma peleia de horror e poeira e garras e grunhidos, grrr!... Tariana, a apetitosa, tentou apartar, chegou a dizer o tal de “disso deixá vamo, gente!”. Os dois brigando muito entre rugidos, latidos, urros, ganidos, e poeira levantada, nuvem vermelha.
Nem demorou muito. E por que demoraria? E pedaços do cão voaram do meio da nuvem de pó. Largata, a melodiosa, já corria como podia, os cabelos habilidosos se sacudindo pelas costas, pendulando pelas costas, sujos de poeira, quase úmidos de suor.
         O cão só aguentara a onça-pintada por dois minutos. De repente, nem se ouviu mais o cachorro. De súbito nem se tinha mais guaipeca algum. Um rugido, gruuu!... e o silêncio... A acanguçu almoçava e jantava e lanchava e almoça e jantava e lanchava o ex-cão.
Largata, a veneranda, queria distância e sossego para reparar a perda. Corria e tentava correr mais e mais, sempre numa perna só. Largata, a deusa, precisava de uma cachaça, de um fuminho, de uma paisagem civilizada, de uma paisagem verde de pomar, de um lugar povoado e variado em comes e bebes, de um abrigo contra onças-pintadas, de uma piscina com água borbulhante cascata boias colchão inflável crianças gritando bem alto impertinentes.
         Dezesseis horas? Quase certo. E Largata, a flexível, nem suportava mais. Estava tonteando. Tonteou. E caiu ali mesmo na areia do leito do riozinho seco. Zonza. Maquiagem de terra seca vermelha. De boca aberta. E sapitucou. E desmaiou.
         No pesadelo, no delírio, a guria viu um bando de cães vindo na sua direção - queriam o quê, mesmo? -, e que corriam como malucos, todos velozes, eram cães onceiros, perdigueiros, paqueiros, anteiros; e viu ainda um bando maior de jaguaretés chegando na sua direção, olhos amarelos como o sol, olhos amarelos como fossem de mel, boca espumando de gula, língua pendida degustando o ar puro, lábios grossos, língua lambendo os pelos dos lábios grossos, língua lambendo, esleeeepes!... os compridos bigodes os fios do bigode.
         O desmaio da moça, já bem toda amarrotada, cabelos amistosos em descumprimento do dever, e isso durou dez doze minutos. Ela acordou rindo. E rindo, abriu os olhos. Diante de si a onça-pintada típica estampa dos livros do pantanal mato-grossense. E ali muito em cima, lambendo-lhe o pé inchado, lambendo-lhe o pé destroncado, a mesma onça-pintada que derrotara o cão. Largata, a colorida, gelou de pavor, tremeu de calor, saltou de banda. A onça-pintada recuou uns passos e fixou a moça, cauda entre as pernas.
Com metros separando, era uma onça-pintada, babando, muito pintada de pintas amarelas e pretas. Uma jaguarapinima com duas orelhas parabólicas, giratórias, gre-gre!... Uma onça-pintada de dar medo, de sair correndo, de se encantar, de aproveitar para fotos, de ousar uma carícia. Era o momento de ser amiga da onça ou sobremesa da pintada. E a onça-pintada era um bicho e tanto. E a felina tinha almoçado e jantado e lanchado há bem pouco tempo.
         Por um momento Largata, a calorosa, e onça-pintada se olharam nos olhos. Largata, a viçosa, tinha seus olhos muito abertos e verdezinhos; a fera tinha olhos de sol, ou de mel, ou de ouro, ou de vespa.
         Dezesseis e quarenta e seis da tarde. O sol ainda estava forte, alto, amarelo como gema de ovo, como moeda rara de ouro. A jaguar ali ali língua caída entre dois dentes grandes.
         Tariana, a doce, esperou a onça-pintada pular sobre o seu pequeno corpinho de mulher arteira e acabar com tudo. Fechou os belos olhos, até. Fechou os olhos e esperou um tempão. Pareceu um tempo largo. Passou instintivamente a mão pelos cabelos preciosos e longos. Nem foi mais que vinte e cinco segundos. A moça esperava um empurrão e nhaque!... Mas a onça-pintada se deitou, olhando com uma cara enigmática, um olhar neutro.
- Será o quê? - pensou alto a moça. Será que a onça me idolatra? Será que a onça quer o quê, esta hora, este calor, este sistema solar?
         A guria decidiu se erguer, pegar a escora - muito com cuidado para nem assustar a fera -, e seguir caminho. A onça-pintada também se resolveu a caminhar. Então, as duas desciam o leito de areia e pedregulho do ex-riachinho. A moça pensou para fora:
- Tenho uma amiga de garras afiadas, agora, meu!
         Largata, a frutuosa, olhava para trás, desnecessariamente. Pensou outra coisa:
- Como essa onça-pintada quer ser minha amiga, hein?!
Mas a canguçu parecia mesmo ser uma esperta estrategista, dali para a frente. A onça-pintada seguia Largata, a esperta, como uma sombra como uma sombra quente, como uma sombra pintada.
         A dona Largata, a lisa, ardia ao sol do dia aberto. Tonteava de cansaço e calor e fome e sede. Quase delirava. Começou a delirar. Pronto, viu um bando de libélulas verdes e leves, talvez azuis, subindo o morro da encosta leste; e viu ainda outro bando bem maior de libélulas elegantes seguindo pelo mesmo caminho aéreo. E pensou mais, ali no sonho mesmo: Essas libélulas tão bonitas... e meu cabelo desgarrado deve estar imundo e meu cabelo deve estar uma coisa e meu cabelo deve estar um fiasco. A moça continuou pensando ou sonhando: Não, meu cabelo está definitivamente desgovernado e precisando de um bom banho. E assim por diante a moça delirou e falou sozinha.
         Dia ensolarado, quentíssimo, horas e horas a fio, mundo perdido na poeira vermelha.
         - Vou pifar - disse para si mesma, e concordou.
         Largata, a bronzeada, olhou a onça-pintada, a onça-pintada olhou a moça. A jaguareté acompanhava como um gatinho, dócil, doméstica, calma, sistemática. Outro pensamento da mulher:
- Será que cuida da próxima refeição? E procurando me assar ao sol? Evitando jantar fora de antes da hora?
Desciam, por enquanto, por acaso, pelo leito seco do riachinho. De um lado e de outro paredões de rocha, peraus, pedras roladas na pré-história, árvores secas, paus queimados apontando o céu de fogo, pedras rebatendo a luz, pedreiras, terra rachada, plantação de pedra canga.
Umas mais cedo, outras mais tarde, e ao longe do dia, assim, contando, todas as horas foram sendo exoneradas.
         Dois minutos mais e anoitecia dentro do vale esturricado. Largata, a fogosa, parou e cochilou. Imediatamente, a moça viu um bando de coleirinhas voltando para casa; e após, viu mais um bando maior de coleirinhas-do-brejo procurando se esconder da noite. Sonhou que viu, bem mais tarde, uns bandos de morcegos saindo das cavernas; e uns bandos maiores ainda de morcegos voando para o encontro com a lua arredondada.
         A moça esfomeada esbaforida acordou com um arrepio pela sola do pé destroncado. Muita coceira na sola do pé e riu, ih ih ih!... Estava quase sem roupas para a noite fria e dormir ao relento. Olhou no escuro e viu a onça-pintada dar um passo atrás, cauda entre as pernas, uns olhos de vaga-lume.
         - Que frio, meu!
         E, ainda mais, Largata, a plácida, estava exausta, dolorida, tonta de horror, guedelhas revoltas e revoltadas, a noite querendo fechar, noite fria. Por enquanto continuou ali sentada abraçada aos joelhos. Nem queria imaginar a noite que teria pela frente, a resposta da escuridão.
A onça-pintada já nem parecia se sentir bem. A fera tinha um problema na consciência que mantinha só para si. O cão lhe caíra bem. E o que preocupava a consciência da felina? Nem gostava de estrelas frias? Tinha pavor de lua arredondada? Seus olhos de vaga-lume procuravam o quê, lá por dentro da escuridão envolta em poeira?
         No alto do céu o manto escuro ia sendo esticado, desdobrado, montado. Aqui e ali umas janelinhas de luz, uns respiros de luz, uns brilhos de diamante, uns olhos de guri arteiro por entre as nuvens de poeira vermelha. Por aqui o frio se alastrando. Largata, a nova, se entregou de novo ao sono cansado.
Tariana, a natural, sonhou que viu um bando de avoantes em nuvem dar um giro mais longe; e viu ainda um bando maior de avoantes em nuvem grande ir em direção leste. E um bando mais outro de avoantes se encontrar e fazer coreografia artística complicada complexa teatral.
         A canguçu estava inquieta e preocupada e agitada. Olhava em volta de si, farejava o ar da noite. Miava de vez em quando, roncava de súbito, gania para a escuridão, gruuu!... Seus olhos acesos na brasa procuravam entender o escuro. De supetão, se ergueu, rosnou, bufou, roooo!... flechou o olhar firme para o fundo da escuridão. Sabia já que ia perder o sono. Perdeu a paciência.
         - Quem quer que seja.
         Um momento mais e se precipitaram batidas de latas e latões. A onça-pintada esturrou, uuuuur!... e subiu na rocha mais próxima, se preparando para o combate. Largata, a suspirosa, despertou sobressaltada, ofegante afobada, pé muito bem inchado.
- São caçadores! Quem sabe já estou salva? - pensou alto. Quem sabe seja o meu resgate? Tomara que me encontrem mesmo, embora os cabelos despreparados.
         À medida que as batidas de lata se aproximavam - e vinham chegando furiosas numa velocidade -, mais braba a onça-pintada se mostrava. A felina corria para cá e para lá, rodando em torno de si, subindo e descendo as rochas mais altas, urrando com muito ódio no coração. A fera precisava fugir, mas nem se decidia. Largata, a ideal, arquejante arfante, se viu pensando, e falou isso:
- Mas por que a onça-pintada nem foge nem corre nem se esconde e se salva?
         Nem demorou nada para que os batedores de latas chegassem com tudo, e cheios também de ódio, armados até os dentes e atirando. Era um bando deles. Um bando deles com raiva e fome, ao mesmo tempo. Foi um entrevero na escuridão e já levantando poeira vermelha da grossa.
E a seguir, o bando de caçadores armados foi atirando, te-te-tê!... na onça-pintada e nem deram a mínima chance. A onça e moça estavam cercadas pelo bando de caçadores. Uma fuzilaria ainda sobre a peneira felina. Largata, a idolatrada, tapou os ouvidos e nem pensou mais nada. Era como se a turma do anhangá-pitã tivesse chegado e parado ali e descarregado as armas ali. Tudo mal iluminado pelas estrelas frias e distantes e apocalípticas.
         A jaguarapinima já estava perdida esburacada. A onça já nem deu mais conta de ficar em pé. A fera estrebuchou toda perfurada arruinada. A pintada apagou os olhos de vaga-lume e deitou a cola.
         A seguir, já arreganhando os dentes, se aproximaram os caçadores com suas armas e suas tochas e seus lampiões a carvão. Cobertos de pó vermelho. Caçadores magrelos de olhos imensos. Pareciam também feitos de poeira vermelha. Um deles mirou o bacamarte e apertou o gatilho. A onça-pintada recebeu a bala maior entre os olhos, e esvaziou murchou por comprido.
Largata, a elegante, se deitou na poeira e tentou se cobrir de pó vermelho. Os cabelos desalinhados, os cabelos naquele estado lastimável, os cabelos em petição de miséria. Os cabelos um horror dos filmes da década de 70. Nem eram cabelos apresentáveis. Os cabelos imprestáveis na cor vermelha.
         Então, os caçadores procuraram recolher tudo e cair fora. Dois ótimos caçadores botaram a onça-pintada num pau-de-arara. Outro caçador carregou a moça nas costas. O cabelão dela pendendo e balançando como roupa suja no varal. A moça carregada nas costas por aldeão-caçador como fêmea-trouxa dos tempos bíblicos.
         Andaram uma hora ou duas por capoeirões secos labirinto e sem fim. O céu parecia se abrir para uma lua qualquer entre nuvens baixas de poeira. Terra do país das pedras e arbustos ressequidos. Poeirama invadindo tudo. Descansaram nenhuma vez, portanto.
Chegaram à aldeia de Santa Luzia pelas vinte e três horas. Vila corroída pela poeira. Aldeões e aldeãs esquálidos, esquálidas, costas curvas e tortas, desfigurados, cobertos de poeira poeira.
E esse povinho poeirento se deu as mãos no meio da rua Única. Se juntaram ali no meio da rua, se deram as mãos, rodaram em roda rodando e rindo e gritando e rodando mais e mais rápido, até ficarem bem tontos e zonzos e histéricos. Sem demora se atiraram ao chão, muito eufóricos.
Dois minutos mais, Largata, a perfeita, estava no interior de uma casinha de pau-a-pique coberta de sapê, deitada numa esteira, sobre o chão de terra batida, cabelos desgrenhados, cabelos abandonados, roendo as unhas, presa, requentada, destilada, arranhada.
         Tariana, a interessante, olhou o aldeão-caçador que a guardava de perto. Ele a olhava fixamente já com tempo. Ela olhou em volta. Considerou que estava salva e presa. E fechou os olhos verdinhos, passou a mão automaticamente pelas melenas orgulhosas. Dormiu. Um sono difícil. Um sono com pé quebrado ou torcido ardendo.
         Dormiu se dormiu, pensou que dormia, sonhou ou delirou que famílias de surucuás caminhavam na mata virgem em procura. E mais surucuás em bando gigante sempre tocando o membi a intervalos regulares, feeeu, feeeu!... catavam frutinhas do chão caídas dos guabijus. 
         Posteriormente após no dia seguinte, Largata, a caprichosa, acordou motivada de risos irresistíveis. Abriu os olhos e se rindo, ih ih ih!... O aldeão, o mesmo aldeão-caçador que a guardava, lambia-lhe o pé inchado, fazia cócegas, limava com a língua grossa a sola do seu pé inchado. Ela, a moça, ria e olhava para os lados. Às vezes lagrimejando e rindo. O aldeão meio que se afastou um tanto, receoso, pego em flagra, rabo entre as pernas. Largata, a inofensiva, tinha vontade de fazer xixi, mas ria do mesmo jeito e sempre e muito.
         Largata, a talentosa, olhou em volta. Olhou o pé lambido. Criou coragem, pensou: Nossa! Os meus cabelos devem estar um fiasco, e eu me parecendo com uma espantalha, uma martinta-pereira, uma pixuna desfolhada. Preciso encontrar água, sabonete, champu, toalha felpuda, pente e espelho, tudo no mesmo lugar.
         Depois, vieram alguns outros aldeões e aldeãs bater à porta, mas o dono da oca nem abriu. Os de fora ameaçaram, mas o de dentro nem se intimidou. Aí, os de fora desistiram e foram embora, mas o de dentro nem se acalmou.
         Largata, a deslumbrante, ainda estava na esteira. Ouviu, ou sonhou ter ouvido, um pio de caburé-do-campo? Nem viu, pensou ter ouvido, um bando de andorinhas muito rápidas e uniformes cruzando o céu limpo; e nem viu, ou nem ouviu, um bando ainda maior de andorinhas passar pelo quadro da janela tendo ao fundo o céu azul de poucas nuvens brancas.
         A moça acordou como sempre, se estapeando, rindo da coceira, nem aguentando a comichão na sola do pé. O aldeão-caçador deu um pulo resguardado para trás, rabo entre as pernas, maquiado de pó vermelho, dedos nos lábios. E ficou ali, sentado no chão, olhar pedinte e impreciso.
         Largata, a pararé, olhou o pé e viu que estava ainda inchado, porém doendo mais ou menos. Se ergueu quicando e foi procurar o de-comer e o de-beber, que nem havia. O aldeão-caçador também andou pela salinha pobre e podre. O caçador estava preocupado com os outros lá fora. Constantemente ele vigiava espiando preocupado a rua Única. O fulano tinha duas pistolas e um fuzil AK-47 e um facão e uma granada de mão sempre atada à cintura.
         Perto das doze horas, os aldeões e as aldeãs voltaram para decidir a parada. Intimaram berraram que nem sairiam sem a prisioneira. Largata, a irisada, pensou para fora:
- Que querem comigo?
E pensou bem mais rápido:
- Nossa! E meu cabelo? Preciso de um banho, de uns grampos, de uma tiara, de uma grinalda de flores da oeirana. Com que cara vou aparecer para essa gente?!
E Largata, a justinha, perguntou ao aldeão-caçador ali presente:
         - Como vai ser?! Explique! Por que logo eu e logo hoje?
         Nesse instante, de repente subitamente, sabe-se lá como e por quê, um tremor de terra, misterioso suspeito, ali debaixo dos pés do povinho todo, um tremor surdo. A vila tremeu, se assustou, soltou poeira dos casebres todos, aldeões e aldeãs todos de olhos fixos e bem abertos. Um tremor com estrondo cavernoso que veio do fundo do mundo, de debaixo dos pés, do centro da terra.
         Um silêncio depois. Um saci veio num redemoinho. Dois sacis, cada qual no seu redemoinho de poeira brita e cisco.
         Mais meia-hora e, depois de trinta minutos, os aldeões e as aldeãs arrombaram a porta do casebre do tal aldeão-caçador. A porta tombou para dentro da salinha. A casinha quase caiu de podre. Imediatamente o aldeão-caçador reagiu com estocadas de facão e voadoras e pontapés e rabos-de-arraia e mordidas. Os aldeãos e as aldeãs invasores deram um passo atrás, e estratégicos, se esconderam se protegeram nas esquinas.
         Largata, a viajada, pegou um revólver e começou a atirar com fúria. Os cabelos lhe caíam para diante dos olhos. Quando tinha tempo passava os cabelos para trás das orelhas. Falou por falar que ninguém deu ouvidos ou deu bola:
- Logo logo vai faltar balas aqui, cara!
         Os aldeões e as aldeãs nem queriam incendiar a choça. Então, com muito cuidado, e paciência, foram cercando-a. Na altura das treze horas o palacete estava cercado. Assim, aconteceu muita bala de todo lado. De em torno e vindo assobiando, viii!... muita bala de todos os cantos e muito mais. No interior do casebre faltou bala. A palhoça toda perfurada direitinho.
         Tariana, a expansiva, viu, ou sonhou, um bando de sapos-aru chegando para comer as paredes frágeis da casinhola coberta de sapê; depois ainda viu e ouviu, e sonhou, um bando maior ainda de sapos-arus, urque! urque!... vindo bater a sua porta, a sua janela, a sua parede, e entrando sem cerimônia, saltando e parando e saltando, devorando tudo.
         E Largata, a pura, nem se lembrou de mais nada. Ouviu sonhou viajou de avião de trem de carro foi a pé estava longe indagando o caminho para Carazinho, serra do Roncador.
         Dois minutos mais e acabou as balas o chumbo dentro da casa sitiada. Dois minutos mais e os aldeões e as aldeãs em bando entraram de sola na casa lar doce lar.
         Aí, os aldeões e as aldeãs invasores esbofetearam o aldeão-caçador renitente. Depois, ainda os aldeões e as aldeãs arrastaram a moça para o matadouro. O aldeão-caçador, e muito teimoso, queria salvar a guria. Queria salvar de todo jeito, e queria porque queria. Para a maioria dos aldeões ou das aldeãs, a moça estava muito magra porém melhor que nada.
         Largata, a ensolarada, enquanto arrastada pelos cabelos, delirava com um bando de aldeões e de aldeãs e de aldeãzinhas muito quase satisfeitos acompanhando-a; e delirou com um bando maior cem vezes maior de aldeões e de aldeãs e de aldeõezinhos esfregando as mãos satisfeitos e quase saciados.
         No meio da capoeira, entre os tucurus abandonados, o espantalho nem atinava a nada disso. De braços abertos, pacífico, sacrificado, sem pressa, olhando o vazio como um espantalho deve ter. Calor queimando, chapéu na cabeça, esperando as gralhas-azuis chegar de onde. O sol vermelho no céu amarelo.
        


    

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Contos de Santa Luzia (1)

                                              


         Uma quinta-feira ou sexta-feira com cara de sábado à tarde, com silêncio de domingo pela manhã, com nada que fazer de feriado de Sete de Setembro; certo ou nem tão correto das horas do meio-dia ou pouco mais ou pouco menos, se tanto, o sol rachando caindo em chapa no ouro atômico, ressolana terrível.
         A Fera felina pulou agilmente da carroceria do caminhão-jaula placa de Santa Maria. E começou a andar e procurar pelo deserto de terra vermelha. Caprichosamente e perfeita pintada com pintas e pingos amarelas e pretos. Os grandes olhos bem acesos, pupilas verticais, olhos de dentro do sol, redondos, estalados, recortados, ligados, amarelos, solares. Maleável perfeitamente como uma felina original nacional profissional. E seguiu sempre preocupada na planície deserta e escaldante minada de tucurus.
Uma baita felina que podia muito bem ser uma leoa, uma tigresa, uma guepardo, uma leopardo, uma pantera, uma modelo de passarela. Nem podia ser a onça-pintada ou parda ou negra ou vermelha, a puma, a jaguar, a jaguaretê, a jaguatirica, a suçuarana, a gato-maracajá, a canguçu, a gato-do-mato-pequena.
         A Fera xucra foi vazando pela terra esturricada. Tocos podres ou requeimados de ex-árvores, passariúvas, tucunarés-mereçás, dois-por-dois, butuas-catinguentas. E olhando assustada, alerta, escaldada, cuidadosa, se movimentando macia, camuflada, trocando orelhas, treque-treque!... Nem reconheceu do lugar coisa alguma. O coração tocando fora do normal, em marcha acelerada, em tom de tambor, com gosto amargo na boca, pelo incendiado. O grande chapadão de terra vermelha vento vermelho nuvens vermelhas. Desconfiada, melindrada, nervosa, ressabiada. Nem era seu território e nunca seria.
Parava intermitentemente indecisa para escutar, cheirar, pensar, estudar, calcular, olhar para trás. Tentou tentou se orientar. Olhos ardidos, língua de fora, unhas quebradas, pés cortados no pedregulho e requeimados na terra quente. Sol muito forte e daí para mais.
Cravou as garras no chão de terra requeimada, cavou, cavou procurando. Olhou os lados, levantou a voz rouca e desafiadora, ruuuuu!... Queria descansar mas o sol forte do meio-dia.
Depois, quando, horas do meio-dia, encontrou subiu num guamirim-felpudo arrancado caído e olhou em torno o descampado desnaturado. E nem pôde dormir nem nada. Um longo bocejo, uma boca normal de fera, uma boca enorme de dentes grandes e pontiagudos, boca aberta com a língua de fora mal resfolegando o ar quente do mundo todo. Pontada do lado.
         Dia e horas e horas de silêncio. Sol desesperado. Sol desleal. O vento jogando punhados de poeira nos olhos. O vento carregando a terra seca sem parar sem parar. Calor e poeira sem necessidade.
         A vila de Santa Luzia sempre pobre, silenciosa, mínima, arruinada. E nuvens de pó vermelho, polvadeira, poeirada, poeirama. Poucas casinhas, vinte ou vinte e uma, todas cobertas de capim, ladeando a única rua, a rua Única. Casas de pau-a-pique praticamente quebradas pelo esforço do sol diário, pelo esforço da poeira constante, pelo esforço dos redemoinhos de saci. Uma pracinha com ex-arvorezinhas todas torradas e requeimadas de sol, tangaracás-açus, jacitarapuís, bacuparis-do-campo. Fantasmas de homens e mulheres esquálidos, desgrenhados, descadeirados. A vila os vilões apodreciam no vazio. E uma capela em honra à Santa Luzia.
         Nuvens nem muito altas nem muito rápidas tocadas por um bafo quente, sopro nem muito forte nem muito insistente mas seco e vermelho e constante. Sol confuso e ofendido. Um sol que ainda nem nunca havia saído de cena.
         Na sombra mormacenta do casebre torto, óculos escuros e palito no canto da boca, o ex-Tratorista agrícola nem olhava a rua Única. Mastigava o palito e nem pensava em mais nada. Dia de meio-dia coberto de poeira.
Uma pequena onda de terra vermelha se ergueu lá na ponta sul da rua Única. Ninguém viu. Todos podiam ver. Era sempre assim mesmo. Um deserto de sol muito chapado no fim de tudo. Sol espantoso que já torrara o mundo todo.
         A estiagem mais os incêndios fizeram do lugar um ambiente abafado e irrespirável e arruinado e infernal. O mundo coberto de cinzas e poeira vermelha.
Os poucos semoventes do arraial perdidos na fumaça, na poeira, na soalheira, no silêncio. Vilões e vilãs sonolentos, cansados, preguiçosos, esmolambados, desgrenhados, desalinhados, mudos. Os olhos ardidos, as gargantas ressequidas, os cabelos requeimados. Vila e vilões sem altura de pouca estatura. E tentavam dormir e nem se olhavam e nem se falavam.  
Vento em ondas quentes de terra vermelha, tudo sufocante: mundo sob as cinzas, mundo sob o pó vermelho, mundo sob o sol atônito. O mundo todo já derretido.
         Durante todo o sol e a claridade do solar e o sol que aniquila, a Fera já arrependida e já boquiaberta e já com dor de cabeça. Sentia o vazio e o frio do fogo pelo interior do bucho. A força do instinto a alertou para o perigo da gastura estomacal. A garganta apertando, quase sem voz, rouca, greeeee!... focinhando a terra esturricada. Procura que procura uma saída e um lugar novo em pleno meio-dia.
         E a Fera engolia os redemoinhos de poeira. Prestava atenção no vento quente e nem nada nas distâncias. O sol quente e tudo silencioso. Assim, foi andando delirando foi andando vendo fornalhas nas horas plenas do meio-dia. O solo baforando fumaça e calor e poeira e silêncio e nada.
Desceu até umas lajes escaldantes e entrou no leito de ex-rio que virara caminho de areia e de pedras soltas. Lambeu umas pedras lisas, cavou à vontade na areia, cavou, bufou e bufou, vu-vu-vu!... A Fera estava afobada, cansada, inchada de calor. Com uma dor de cabeça de rachar o crânio, e que só fazia aumentar. Urrou, urrrrro!... ao mundo todo, garganta seca e dor de estômago e pontadas do lado. Nem conseguiu esquecer o vazio na barriga. A língua de fora, os pés em chapa quente. A luz excessiva tirando faíscas das pedras e doendo nos olhos amarelos amarelos.
         Se encaminhou para qualquer lado. Na mente derretida a figura insistente de um abrigo qualquer. E tentou achar graça nas folhas secas do chão, nos gravetos requeimados, nas pedras soltas, na poeira das mãos. Ciscou aqui e ali, cavou e cavou, o coração fora de compasso. Ergueu as garras para o ar, arranhou a sombra das pedras, escarafunchou o chão encardido, bramiu, braaaaa!... Caiu estonteada cheia de cansaço e preguiça e formigamento pelo corpo.
         A Fera, criada guaxa, nem se perguntou mais nada. A Fera somente se cozinhava no caldeirão do meio-dia. A mente felina já vazia de imagens. A Fera tentou respirar o ar quente, quentíssimo. As meninas da felina nem se acostumavam com tanta luminosidade. A Fera fechou os olhos diante de tanta luz. O incêndio que borbulhava desde dentro dela mesma.
         O ex-Açougueiro de chapéu de palha macaúba trançada desfiado, camisa amarela de mangas curtas desabotoada na frente e bermudão azul desbotado sem bolso, deu meia volta na casa pequena e foi para a frente na porta da ex-loja. No alto do batente uma ferradura pregada. Abriu a porta da sala vazia, escancarou a janela do nascente, esfregou as mãos. Olhou a única rua da vila. Tudo silêncio e poeira e sol. Tudo muito calor. Sentou numa cadeira de balanço, ali no meio da porta. Olhou a rua Única e nem esperou nada. A praça deserta cheia de luz intensa. O sábado ou domingo por volta das doze horas nem tinha nada.
         Sentado na sombra vacilante da ex-farmácia, chapéu de palha buriti no joelho direito, o ex-Farmacêutico coçava a orelha esquerda com a ponta da unha do dedo mindinho esquerdo. Um céu meio confuso de poeira vermelha, um mundo que seguia em ondas de calor e poeira, vento quente, mormaço e terra andando. As ex-plantas da pracinha pareciam espetos de pontas pretas voltados para o céu, espetos tucuns, espetos gervões-do-alagadiço, espetos jerivás, espetos azedas-do-prejo.
         Encostada no batente da porta de casa que dava para a rua Única, a vilã descadeirada, uma ex-Lavadeira, cabelos em desalinho, olhava sem ver o horizonte escaldante. Chão e alto tomados de toda luz e poeira vermelha e redemoinhos de saci. Colunas e mais colunas de poeira, nuvens e nuvens flutuando fazendo o ar irrespirável, vermelho. O silêncio era tudo total. Sol insuportável do meio-dia e estalando.
         A Fera felina só fazia grunhir, graaaaa!... cansada de andar, e andar tanto, andar ao léu. Nem ouviu um som, nem conseguiu pesquisar um cheiro, nem seguiu um rasto. Aí, lembrou o vazio absurdo no estômago. Lambeu sem querer os beiços peludos e chamuscados, as solas dos pés requeimadas, e tentando a todo custo iludir a falta de ar. A dor de cabeça insuportável, latejante. Os olhos desolados e ardidos diante de tanta luz.
         A capela em homenagem à Santa Luzia ficava sempre atenta, sempre de porta aberta. Casinha de pau-a-pique coberta de palha santa-fé. Dentro, em altar, Santa Luzia segurava os olhos azuis numa balancinha com bandejinha empanados de pó.
Guria e moça e cunhantã, Luzia nunca esquecera de insistir: “Haveria de ser santa”. Era de família nobre e rica e poderosa e requintada e numerosa. A beleza da menina era beleza de uma lindeza mais que admirável, incomparável, longos cabelos brancos com pontas cacheadas, olhos grandes negros, dentes certinhos brancos, lábios carnosos rosados e tudo ajustado em os um metro e setenta e cinco. Uma beleza incontrolável, incontestável, eloquentíssima. Levava uma sina de criança esquiva e quieta e estudiosa.
Depois, Luzia tinha muitas árvores e flores no jardim enorme bem cuidado, árvores frondosas com milhões de folhas para contar e que tagarelavam com o vento, e flores magníficas como a brinco-de-princesa cor vermelha cor branca cor azul, e os dois-amores, e as rosas-do-campo, e os amores-do-campo, e as begônias-sempre-floridas. Muitos avinhados e pinéus e mães-da-taoca e tangarás e quenquéns e joões-arredios e saurás vinham cantar no seu quintal. Tinha de presente uma potra baia cebruna para voar e correr subir e descer as coxilhas e as canhadas e os boqueirões.
Com dezesseis anos, Luzia foi submetida à torturas, os seios foram decepados, acabou morrendo. O céu ficou escuro na hora e choveu três longos dias e noites sem parar sem parar. A enxurrada levou barrancos e casas e carroças para o fundo do rio Itoupava. Fora de dúvida que foi um desastre ecológico e tanto para a cidade de Jaquirana e arredores em Amapá.
Cedo, Luzia se revelou para a vocação monástica. Aceitou sem reservas as regras severas do confinamento. Passou sua vida no convento, marcada por acontecimentos milagrosos. Parentes e amigos que a visitavam no aniversário diziam ver uma aura de ouro em sua volta. Viveu para as meditações e orações e cuidados com os doentes terminais. Tinha enorme predileção para com as árvores as flores os pássaros falando com os bichos que encontrava por acaso pequenos médios e grandes. Passava horas e horas do dia ajoelhada contra a parede, rezando. Passava dias e noites em jejum caminhando entre as pedras e dunas e ou escrevendo na areia da praia da Enseada.
Luzia recusou casar com o Imperador e por isso foi encarcerada, chicoteada, estuprada, torturada na roda de quebrar ossos - a roda se despedaçou e os estilhaços de madeira atingiram alguns espectadores. Decapitada, de suas veias jorraram leite. Seu corpo teria sido levado por anjos, anjos todos com branco, anjos de grandes asas brancas de bordas douradas.
Quando ainda bem mocinha, no século IV, Luzia fugiu de casa e foi ordenada freira. O convento ficava no morro mais alto da cidade. A cidade de Serra Negra na serra da Mantiqueira foi invadida e saqueada durante perseguição aos cristãos. E todos procuraram se esconder, todos procuraram cavernas e lapas e minas, todos procuraram ocos de árvores e ninhos de araras-azuis-grandes. Cães farejadores farejaram Luzia, que foi presa e morta - degolada, corte de orelha a orelha.
Conta-se de Luzia, que ainda foi raptada durante uma invasão dos bárbaros e vendida como escrava. Levada arrastada presa acorrentada de lugar para lugar imigrou contrabandeada para até além do rio Mucuri na região da serra da Cantareira. Aí, por não querer renunciar a sua fé cristã, foi torturada, os pés arrancados e crucificada de cabeça para baixo.
Ela, a bendita Luzia, se dedicou aos pobres e enfermos e desenganados da justiça. Beijava e lambia as feridas dos doentes. Foi martirizada, por volta do século II, durante a perseguição aos cristãos na cidade de São Francisco de Paula. Teria tido os olhos arrancados por seus carrascos e executada por se recusar a violar o voto de virgindade. Depois seus olhos voltaram a suas órbitas, por milagre. É representada com os olhos sobre um pratinho limpo.
         Dias do mais quente dos verões e bem nas quentíssimas horas do meio-dia na vila de Santa Luzia. Uma calma que o lugar dava. Um sol que derretia as pedras. Troncos secos de ex-árvores espetavam o céu pardacento, jatobás-do-cerrado, samaumeiras-da-terra-firme, sumarés-do-campo. Calor que causava tremores calafrios. As ondas de poeira indo de um lado pro outro. Terra vermelha em brasa.
O ex-Açougueiro, sentado na cadeira de balanço, suor escorrendo no pescoço encardido, coçava as canelas, coçava os joelhos, já ia coçando os cotovelos. Os pés empoeirados e rachados com sandálias de franciscano pescador. Olhava tudo cansado e via as coisas abrir e fechar, e sair e voltar, e distanciar e aproximar. De repente, um redemoinho de saci no meio da rua Única. E sempre o si-lên-cio.
         Um homem de sessenta e dois anos, braços cruzados, a perna apoiada na grade torta da varanda, acompanhava com os olhos vazios a poeirama levantar do lugar deserto. Tudo precisava ser feito, nada se podia fazer. Nem chovia havia duzentos anos. Tempo fixado no sol do meio-dia. Uma mulher desgrenhada apareceu na janela da cozinha. Olhou o nada. Farejou o dia mormacento poluído de serragem. Depois, baixou a cabeça e desapareceu pelo interior do casebre.
         A aldeia evaporava sob sol vermelho e impiedoso. As coisas meio que crepitavam, estalando com o calor. Um vapor subia do chão criando miragens. Nem chovia há décadas. E as horas do dia nas doze sufocantes e paradas como amortecidas. As miragens e mágicas sofriam terrivelmente por falta de ar puro.
         Então, sentado na cadeira de ferro e lona junto do batente da porta, o ex-Açougueiro olhou sem enxergar a pracinha, o ex-gramado agora já derretido e as ex-árvores, já árvores carbonizadas, espetos de angico, espetos de pau-ferro, espetos de itapicuru, espetos de araticum-cortiça. E reparou o casal de vizinhos sentado na cozinha lá deles as cabeças de ambos pela janela aberta. Ele tossia e olhava o dia ensolarado, ela nem falava nem gesticulava espreitava o dia máximo de luz. O ex-Açougueiro ainda olhou o fundo da única rua da aldeia, olhou para a ponta do sul e para a ponta do norte. Do sul vinha outro pé de poeira de saci. Tudo isso acontecia, nada acontecendo. Tudo derretendo sob o astro de fogo. Sol abobado. Horas sem sombra. E o mundo nem pensava em mais nada.
         O Padre veio à janela da casinha paroquial. Se debruçou na janelinha e olhou o sol que fazia e desfazia. As figuras consumidas das ex-árvores da pracinha, espetos de jabuticabeiras, espetos de pinheiros-do-paraná, espetos de murtinhas. Ou ainda olhando para o céu sempre o mesmo e turvo e cheio de luz, mais das vezes misturado com nuvens de poeira vermelha. E o Padre só podia esperar o sorteio do par ou ímpar.
         Havia uns meses que nem chovia. Sol pesado e ameaçador. O ex-Açougueiro se abanava com o chapéu de palha bacaba-de-leque. Dois homens sentaram na sombra quente da capela. Os dois compadres ficaram quietos como o dia cansado. Dois sócios das horas lentas vestidos com roupas leves e curtas, roupas rasgadas e encardidas. Em volta, um silêncio de tudo e de nada.
         A aldeia mal passava as horas em silêncio e nuvens de pó. Os vilões e as vilãs e os vilõezinhos nem sabiam o que fazer. Passavam o dia cochilando pelos cantos sem poder realmente dormir e descansar.  
         Meninos descalços, sem camisa, então, iam brigar de camoa lá entre as árvores mortas e requeimadas da pracinha, espetos de cambuís, espetos de jabutapitás, espetos de imbaúbas. Todos os piás armados até os dentes com revólveres e fuzis e estilingues. Caíam para trás ao impacto da bala assassina. Espetacularmente se jogavam para trás ao impacto das balas da metralha. Jogavam de matar e assassinar e morrer e se maltratar. Às vezes se amontoavam para focinhar o chão de poeira com arte de se agarrar. Curuminzada de pé rachado, de lábio cortado, de cabelos duros, de lombo riscado de vara e pele pintada na poeira vermelha.
         A Fera se aproximava da aldeia de Santa Luzia. Cansada, louca, variando da cabeça, desequilibrada dos pés, arrastando a cauda. A imagem das casinhas dançava no olhar perdido. Tudo confuso, avermelhado, cheiro de poeira. E quieta como o silêncio, como uma gata, como uma sombra, como uma estrela distante, foi chegando, se arrastando. Nem curtia praticamente mais nada. O gosto de poeira vermelha no ar. Cheiro de queimado, cheiro de dia requeimado, cheiro de tudo passado pelo fogo. Delirava numa dor de cabeça. Viu, por miragens caleidoscópicas, uma placa de metal picada de pedradas e balas de revólver, e com a inscrição: vila Santa Luzia. E isto por muito a incendiou.
A felina foi avançando pela macega requeimada, por entre touceiras de barba-de-bode torrados, se agachando entre a guaxima incinerada, pisando as pedras lascadas e quentes, foi avançando e foi chegando. Nem prestou toda a atenção necessária e devida. Nem olhou realmente nada. A perturbação dos sentidos fazia errar o raciocino, e estragar as horas do meio-dia, as memórias, fazia se perder de tudo. Entrou pelo sul da rua Única. Rua cascalhada e poeirenta.
         O dia em pleno meio-dia de cansaço e forno e fogo e fogão. O céu esperava ainda em vermelho. O sol ainda pingando fogo. E os meninos brincando de pneu correndo pela pracinha. De repente, faziam de um coleguinha um cabo de guerra. O calor estava insuportável, estonteante.
O ex-Açougueiro esborrachado na cadeira de balanço. O casal nem olhava a rua Única, nada interessado, as cabeças no quadro da janela de guilhotina aberta. As pedrinhas da rua faiscavam, tiravam poeira dos olhos. O chão soltava a fumaceira constante. Um saci brincava de anarquia com outro saci e mais outro saci total cinco ou seis sacis.
         O céu sem sinal de qualquer coisa. Um avermelhado de terra e calor, de cristal no forno, de vidro fundido. A luz forte abatendo as coisas. Tudo seco e gretado e esturricado e requeimado e torrado. Dia na hora do meio-dia nem tinha nada. O silêncio desolador. Um mormaço e um cheiro de requentado.
         Depois, o ex-Açougueiro, sentado na soleira da porta da extinta loja, olhou o nada sem ver nada. Os olhos fundos, as órbitas cavadas e escuras, a pele vermelha de poeira. Olhando o nada sem pensar qualquer coisa. Pensamento seco. Tudo fervendo, reverberando. Tudo cheio de muita luz. Nenhum movimento. Ninguém atravessaria a rua sob o sol do meio-dia.
         E apareceu a Fera como uma miragem um vazio virtual. E o ex-Açougueiro apertou os olhos doídos. O casal se levantou da mesa e veio até a janela aberta. Os dois compadres se entreolharam se ergueram interessados ali na sombra quente da capela.
E a Fera foi chegando assim, se arrastando, nariz ardendo, olhos inundados de poeira, subindo pelo sul da rua Única. A língua já nem cabia mais na boca, a cauda entre as pernas vacilantes. E a Fera parecia rir, gargalhar. Comendo poeira. E realmente ria, ria para si, ria de si mesma. Ria para o ar quente, ria para o chão estorricado, e ria para a rua de sacis.
         E a Fera chegou ali, num bom ponto no meio da rua Única. A Fera felina nem tinha nada o que dizer. Nem pensou mais nada. E caiu, caiu principalmente no chão de poeira vermelha e entre as pedrinhas soltas, caiu já entregue a domicílio. Um pofe!... no chão de poeira vermelha. Levantando uma pequenina nuvem vermelha de poeira que irritou os sacis de plantão.
         Daí, de repente, rapidamente, todos os cinquenta ou quarenta e nove moradores da vila Santa Luzia apareceram, surgiram, levantaram do chão duro e seco e antigo. Como enxame de zumbis. Sem perda de tempo. Como cardume de peixes mortos. De certo que estavam cuidando da Fera por trás das venezianas e cortinas encardidas. E todos apareceram correndo. Todos ao mesmo tempo. Saindo de todos os lados como cachorros uivantes, iuuuuu!... e avançando. E avançaram para cima da ex-Fera sempre armados de picaretas enxadas facões foices martelos e pregos.
         Tanto silêncio depois e demais. Silêncio que era excessivo e insistente. Quietude de sombra chegando e mudez. Silêncio da surpresa. Nem havia nada demais em mais nada. Os vilões e as vilãs e as vilãzinhas olharam como às vezes olhavam aquelas ondas de poeira.
         Havia uma certeza na altura dos acontecimentos: ninguém levava a cabeça no lugar.
         Chegava um redemoinho da ponta sul e vinha um outro da ponta norte pela rua Única. Os dois ao mesmo tempo. Com certeza iam se encontrar e iam se chocar e iam se pechar no meio da ruazinha. E logo se encontraram e se chocaram bem no centro da ruela. Foi um encontro de nada. E foi muita confusão de nuvens de poeira se misturando. Muito pó vermelho e vermelhos sacis irritados.
         Se fosse só o vento sob o sol causticante no deserto de terra vermelha.



domingo, 24 de janeiro de 2016

Este Mundo Terrestre Dos Esportes Pedestres

       


       É tempo de Copa do Mundo no mundo gigantesco globalizado. Metade da população mundial sabe o que representa é isso. O B todo sabe o que é isso. Da outra metade cinquenta por cento fica sabendo por parentesco. Até as mulheres gostam de futebol com loucura e paixão. O universo da bola rolar. Total, dos sete bilhões de seres humanos, cinco e meio ficam ouvindo o que é gooooool!... Nas ruas de todo o B só se ouve é gooooool!...
       - Este ano o time meu nem contratou ninguém de peso, é. Em compensação só vendeu o goleiro, é.
       - Olha, chapa! O time meu nem contratou ninguém mesmo, e saíram uns oito ou nove emprestáveis. Sei lá, né, vai saber!
       - Precisamos de um centroavante e dois laterais, é. Centroavante bom tá difícil quase impossível, é. Quanto aos laterais, nem se fabricam mais, é.
       - Olha, meu! Nós vamos disputar a Libertadores e com a prata da casa vai ser osso. Mas quem sabe! O elenco é guerreiro e valente e raçudo, pescou?!
       - Fora as dívidas que o clube fez o ano todo que passou e nem conseguiu nada de nada!, é.
       - Olha, véio! E nós com o negócio do estádio que nem se resolveu e nem se resolve e nem se dissolve. Sai fora, mano!
       - Nós precisamos de dois laterais e o resto é bobagem, é.
       - Olha, cara! A gente só quer ver um título esse ano. Um título já está mais que bom e obrigado, tá certo?!
       Era quando uma vez no princípio inicial incipiente da humanidade na terra, paciência, que rolavam cabeças no capim-de-colônia ou capim-santo ou fedegoso-dos-jardins ou mata-pasto, a cabeça do inimigo. Hábito antigo adquirido legal festivo e que veio vindo de lá pra cá até hoje praticado geralmente nos finais das tardes de domingo. Sentando tocando o pé no mundo rodado rolante, por analogia. Suaves calmas comemorativas beiras de tarde, até mesmo quando chove.
       Quem nem sonha ser um jogador de futebol o tempo todo o tempo todo? Correndo para o ataque asas nos pés em agilidade incrível, atacar, driblar, ultrapassar, chutando com força ou por cobertura onde o goleiro jamais alcança... Bem aí bem aí, eu já tenho a comemoração ensaiada e particularmente engraçada diferente para a torcida para as câmaras com as mãos para o alto agradecido a D e fazendo mil e um pelos-sinais. E o outro dia os noticiosos, hein?! Que pergunta.
       Me perguntam por que eu vou jogar na China. Por que vais jogar em a China, se lá pagam bem, tudo bem, porém, o jogo nem é tão assim tecnicamente falando de bom rendimento de bom nível de bons jogadores de bons campeonatos? E nem temes perder a Seleção? E eu respondo: bem, é óbvio, o jogador no caso o meu julgamento e o meu ponto de vista eu escolhi junto com minha família, claro, e meus amigos meu empresário que cuida de tudo isso por mim a burocracia toda, então, cada jogador tem que tomar uma decisão e a mais acertada possível, pois, o jogador tem de pensar na sua família tem de pensar que a carreira é curta só dura dez anos tem de pensar em uma porção de coisas, no caso, o que é bom pra mim pro jogador e fazer a escolha ideal garantir o pé-de-meia para nem se arrepender depois.
       Tem um poeta que disse uma vez que o grito de goool!... assusta o cachorro e ele foge se esconder as mãos sobre as orelhas para debaixo da cama. E é verdade, nem só os cães, principalmente quando o goool!... é contra.
       A gente estava com o tornozelo inchado e a imprensa, vocês, tá certo, vocês da mídia falada e escrita e perguntada, me perguntavam, tá certo, lá na concentração da Seleção em Quadalajara no México, tá certo, me perguntavam, abre aspas, “Então, como está esse tornozelo, Aporé? Vais pro jogo? Vais conseguir jogar a semifinal contra a Argentina?” E a gente tinha respondido, tá certo, abre aspas, “O Aporé quer muito jogar, tá certo, e esperamos estar em forma e sem dores até terça pela manhã, tá certo. Terça-feira a gente vai se submeter ao apronto, tá certo, e saber se pode atuar cem por cento junto com os companheiros. Inclusive a própria dona Santa Mônica, tá certo, também telefonou lá do Brasil puxando minhas orelhas, abre aspas, “Meu filho Aracati, você se machucou, te machucaram? Que história é essa, me explique direitinho, Aracati, meu filho?” A gente tinha respondido pra dona Santa Mônica tinha passado pra vocês da imprensa digo e repito pra vocês da mídia agora, tá certo, abre aspas, “Calma, dona Santa Mônica, tá certo. A gente só teve um pequeno deslocamento do tornozelo, tá certo, nada que não pode ser curado dum dia pro outro, tá certo.” Era uma semifinal muito dura, tá certo, e a gente precisava jogar de qualquer jeito. Aporé nem podia caminhar, tá certo, mas tinha muita fé e força de vontade. O médico da Seleção, Dr. Santo Antônio da Patrulha, tá certo, ficou preocupado e recomendou gelo e repouso, tá certo, o massagista seu São José do Cerrito passou unguentos pastas e filtros, tá certo. A gente não era nunca foi nem sou supersticioso nem acredito em mandingas, tá certo, mas o Aporé sempre entrava em campo, tá certo, com o pé direito e o sinal da cruz riscando na frente da testa com todo o respeito. E só por acaso, tá certo, nem quero lembrar, tá certo, tinha sido o nosso pé esquerdo que sofrera o entorse.
       As torcidas são exigentes e fanáticas e uniformizadas e encarteiradas. Querem uma arena multiuso. Elas só pensam em vitórias. Em taças. E mais nada. Exigem taças e fazem seus ídolos prometer dar o máximo comer grama beijar o distintivo. E quando faz um gol bater na camisa do lado do escudo. A maioria dos boleiros a maioria ergue os dois dedos indicadores ao alto e faz sinal da cruz trocentas vezes beija as tatuagens o anel de noivado manda beijos lá pra cima no camarote um beijo pra mãe um pra mulher e dois para os filhos.
       Se existe um jogador ou uma função que faz falta na Seleção é o da camisa 10. Eu queria um camisa 10 do tempo antigo. Aquele cara que sabe dar um passe de 40 metros ou mais, e que bate falta com perfeição lá onde a coruja dorme, na gaveta, e que o adversário respeita e marca em cima, e que é a referência técnica da equipe, e do qual a torcida brasileira espera muito. Dou dois ex., o Caracol que jogou no Sport e no Bahia o Santa Rita de Cássia que atuou principalmente pela Ponte Preta e o Bom Jesus da Lapa que defendeu no ano passado as cores da Chapecoense. Pois hoje em dia, esse tal camisa dez natural, já quase nem existe mais e nem mais ao menos se fabrica. Esse é o craque que eu ainda quero ver na Seleção pelos gramados do mundo mostrando como é que o brasileiro trata a bola. Que dê o Cara, né, minha gente?!
       Eu nem penso duas vezes nem dá para pensar uma vez sequer. A bola cai nos meus pés vem como vem e as minhas decisões têm de ser muito rápidas instantâneas mágicas acrobáticas precisas. Nem dá para pensar em nada. Tudo é meio que instintivo. A bola vem e a jogada que faço sei que posso fazer, então, eu faço, mas faço sem sentir sem pensar de acordo com os obstáculos e pronto acontece como já aconteceu. Vou dar um ex. Eu estava jogando no Atlético quando, isso me vem na cabeça agora assim no mais, eu estava no Atlético ou no Goiás quando uma jogada que eu fiz resultou num gol incrível vou contar como ex. Foi o seguinte, eu jogava àquela altura pelo Atlético e nóis jogávamos contra o... o Paysandu e era série A e o ano era o de 2011 se nem me engano. Caso que a bola veio num passe fenomenal do Cotegipe, eta!, que o cara era bom de bola diferenciado no toque da bola, né, bem, aí ele me passou e eu dominei com o pé esquerdo e fui em frente, aí, vieram dois me marcar querendo me tirar a bola eu simplesmente dei uma cavadinha encobri os dois passei entre eles como um furacão e fiquei cara a cara com o goleiro deles o Casa Nova, então, aí né, meu, ginga pra cá ginga pra lá mais pedaladas e foi só escolher o canto e correr para a galera. Ganhamos o jogo de 5 x 3 o que nos deixou muito bem no campeonato aquele ano de... acho que foi 2013 se bem me recordo.
       Apesar do dinheiro que se perde, ou melhor, se deixa de ganhar, quer dizer, o jogador perde em publicidade, entrevistas, férias com os familiares, em prestar mais serviços ao clube que paga o salário, etc., jogar pela Seleção sempre foi minha motivação e minha meta principal. Representar o meu povo o meu país honrar a minha bandeira e dar de si tudo pelo bem da nossa pátria sempre foi meu sonho desde criança e disso eu nunca abri mão nem o pé. Me considero um soldado em nome dos brasileiros todos defendendo as nossas cores, obrigado. Nunca simulei contusão ou pedi dispensa da Seleção, ou seja, nem mesmo naqueles amistosos sem repercussão sem noção os tais caça-níqueis tipo jogar atravessar os oceanos um dia inteiro de voo o fuso para um jogo qualquer na Nova Zelândia ou Austrália ou Japão, etc.
       Quando eu era pequeno queria ser jogador de futebol e jogar uma Copa do Mundo pelo meu país. Ser o artilheiro do meu time, o gênio, o etê, o diferenciado, igual um craque espacial como esse aí que anda ganhando os troféus de melhor do mundo o Canto do Buriti ou esse outro o Cristalândia do Piauí e vestir a camisa mais famosa do mundo, a canarinho. Depois eu fui crescendo e quis muito ir aos eventos de Copa do Mundo aos estádios espalhados pelo globo conhecer por tabela outros países as diversas culturas e tirar muitas fotos. A última Copa do Mundo eu assisti a todos os jogos, pela tevê. A próxima na Rússia, com certeza, já vou ver somente os jogos da Seleção e olhe lá.
       Vou dizer em resposta a sua pergunta algo que já escrevi na minha biografia de jogador de futebol. Sempre me chamaram o número Um, desde o mirim na base do clube lá no Vitória e daí pra frente fui o número Um dos times por onde passei e também o número Um da própria Seleção. Sempre o número 01. Quando eu chegava num lugar era sempre o primeiro no restaurante era o primeiro a sentar e ser servido, daí que os garçons me chamavam de número Um Em Tudo. Recebia como um elogio e um incentivo e uma marca registrada. Os colegas de equipe meio que me deixavam de lado me isolavam ficavam distantes de mim e de pé atrás porque era o único convocado sistematicamente para a Seleção e sempre procurei fazer jus ao apelido de o número Um o primeiro lugar. Que posso fazer se até hoje dizem as boas e as más línguas que fui o melhor número um que viram atuar e vestir a número um da Seleção?!
       Eu mesma aprendi a gostar de futebol acompanhando o meu namorado, na época. Eu virei torcedora com ele do time dele a favor dele porque gostava dele, o meu namorado naquela fase. Eu nem sabia que este mundo da bola existia, uma vez. Eu assistia, então, a todos os jogos com grande entusiasmo e sempre eternamente uma fanática torcedora. Eu e o meu time ultimamente só temos nos frustrado, porque o time não ganha nada, me dá pena, aliás, isso é uma fase e vai passar e logo passará. Eu comecei, assim, desde os quinze anos, a amar o futebol e frequentar os estádios atrás do meu time e junto com meus melhores amigos e amigas. Eu aprendi a ver os jogos pela tevê as mesas redondas ler os jornais acompanhar os debates no rádio etc e sou sócia torcedora. Eu, de fato, de lá pra cá, me apaixonei pelo jogo pelo futebol pelo meu time embora tenha trocado de namorados outras tantas vezes que achei necessário. Eu faço qualquer coisa pelo meu time de coração, principalmente, choro brigo perco sono peço dispensa do trabalho compro camisa discuto com quem for e vou na chuva ou no sol de rachar. Eu não troco o meu time por nada nem dinheiro e nem ninguém mesmo pintado de ouro. Eu supero tudo que vier sou forte eterna com o meu escudo do lado do peito e nem me assombro com os percalços os imprevistos as interrupções as frustrações as contrariedades. Eu tenho a camisa do meu time como segunda pele e o estádio como segunda casa e os colegas torcedores como meus irmãos.
       A fase mais difícil da careira de um atleta, e nem quero me lembrar, foi quando me lecionei e fui fazer uma cirurgia de joelho muito complicada especializada lá em São Paulo. Rezei muito fui a diversas igrejas e templos de diferentes credos, etc. Nem gosto de me lembrar, mas eu pensei que nem ia mais voltar para os gramados. Me falaram que aquilo era praga de alguém olho gordo uma coisa de louco um feitiço uma caruara. Fui em casa de terreiro lá em Formosa do Rio Preto tive que me benzer bater cabeça pra santo deixar oferendas. Os amigos começaram rarear os parentes nem telefonar os companheiros de clube esquivar de mim. Só grilos cri-cri-cri!... na rua àquela hora. Foi horrível tomar tantos remédios pesados e ervas e quinados alcaçuz-da-terra canafístula catuaba quina-cruzeiro beldroega alecrim-do-mato alfavaca-de-cheiro foi pesadelo atrás de pesadelos e horas de cirurgia dias de terapia suplementos alimentares glicídios proteínas sais minerais vitaminas calorias e para piorar tava no fim do meu contrato um tormento e nem tinha certeza se o Inter queria renovar.
       Aquela bola que vem do alto e do outro lado do campo, um olho-de-boi, a parábola, um passe longo, eu domino com o pé, num rápido olhar vejo tudo que posso fazer, e posso muito, então, vou em frente e ninguém pode comigo, driblar, atacar, ultrapassar, avançando em velocidade vertical para dentro da área adversária, todos no estádio se levantam, ficam de pé, a mão em pala para acompanhar, pois, a história do futebol, né!, meus amigos, se fez e se faz com esses lances geniais inspirados de craque, modéstia de lado e à parte. 
Trinta e dois países disputarão negócios, dinheiro, prestígio, e uma taça para exibi-la no final de todo o suado esforço. Opa! Esforço? Será que é tanto sacrifício assim ficar jogando a bola de um lado para o outro? O difícil mesmo é jogar seguindo à risca todas as regras ditadas pelo futebol.
Eu respeito todas as torcidas, mas nem gosto de ouvir falar em torcida que invade CT para cobrar de jogador. Eu respeito todos os professores seja medalhão seja prima-dona seja tope seja o que for seja novato, respeito todos e exijo respeito, mas o cara me tirar da posição, que é de centro-atacante, o setor do jogo que aprendi desde pequeno a jogar, me tirar da posição natural?, aí não, né! Eu respeito todos os times seja de que série for série A série B até da série C ou D se for o caso, mas atrasar salário, nem pensar, nem falá.
Me acalmei um pouco e comecei a pensar na minha família na minha carreira na minha profissão a única coisa que sei fazer no mundo o meu ganha-pão quando conheci a Ana Paula. Foi num carnaval em Jeremoabo. Ela é de Parnaguá e eu de Coribe. Ela me ajudou a me centrar mais na minha carreira e eu comecei a me respeitar mais e daí em diante fiquei me concentrei totalmente em recuperar a titularidade no Grêmio e voltar à Seleção. Fazem uns dois anos e de lá pra cá tudo tem dado certo. Agradeço primeiro a D e depois a ela e à família dela a minha família e aos amigos. Sem a família a gente não somos nada. Formamos eu e ela uma família perfeita e agora estamos esperando o segundo herdeiro que é a Ana Carolina.
Vou cobrar essa falta que foi marcada aqui fora da área. Ou seja. Eles põem barreira de sete homens, mas pra quê?, para mim isso nem é nada. Ou seja. Já sei o que vai acontecer. Ou seja. Tenho várias opções e uma delas irá surpreender o goleiro Sapiranga. Ou seja. Minha caixa de novidades de surpresas é extensa e variada. Ou seja. O Sapiranga nem vai ver por onde a bola vai passar que cairá com certeza na gaveta na gaveta. Ou seja. Um chute em arco por cima da barreira direto no ângulo superior da meta, minha especialidade, que perfeição! Ou seja. Antes do fim do campeonato quero de volta a artilharia é um dever para merecer um bom contrato no exterior de preferência na Europa ou quem sabe em Portugal.
O futebol é um sonho completo de olhos abertos. Todo mundo pode jogar em qualquer posição. Dá para jogar em qualquer terreno ou piso, com qualquer clima. Me lembro que fomos treinar no campo do... Cruzeiro, no CT perto do rio Serrano. O sol muito forte, uma lua. O verão muito seco. Sem vento. Nem chovia há meses. O alambrado repleto de marias-chuteiras gritando réu-réu-réu!... como as marias-macambiras. A grama mal hidratada toda esturricada carrascal o chão irregular buraco de teiús toca de tatupoiú ninhos de formigas-mineiras e quero-queros muito brabos. Não era o ideal para prática do futebol e principalmente para treino da Seleção. Mas, enfim, os jornalistas estavam todos lá e me perguntaram isso e aquilo e acolá eu respondi: “O jogo é jogado e a pirauaca é fisgada”. Uma jornalista muito bonita sorridente óculos escuros segurando os cabelos lisos castanhos os olhos verdes me perguntou e eu tive que responder na hora, né?!: “É como fazer amor, entende?!, querida.”
Milhões de pessoas ficam assistindo jogadores representando o seu país e só torcem ou distorcem e pensam em ganhar. Mas os jogadores, no que pensam? Muitos chorarão e só um time vai dar risadas. A grande esmagadora maioria é de fracassados, esta a pura verdade verdadeira. O jogo é cruel. Por isso que é jogo. Coisas do futebol! E muito incrível: só um gol pode acordar o maior dorminhoco da paróquia; ninguém resiste a um gol. Os gols da rodada é o programa favorito a melhor atração da tevê mundial.
Quando eu encerrar a carreira pendurar as chuteiras eu quero ser um técnico de futebol, mas vou me preparar muito bem para isso. Quero ser lembrado pelas ótimas jogadas os gols maravilhosos, mas também fazer carreira vitoriosa na beira do gramado como técnico. Nem é assim da noite pro dia que quero virar técnico, né! Sei que é outro mundo, outra fase. Terei que começar de baixo, treinando time pequeno, etc. Com certeza nem serei um técnico reclamão, tipo aquele que sempre dá a culpa pro árbitro quando perde e passa a mão na cabeça dos atletas indisciplinados e os pernas-de-pau os cabeças-de-bagre os chinelinhos. Nem aquele outro que se irrita com perguntas dos repórteres levanta vai embora da coletiva, mas adora inventar frases de efeito e andar entre aspas nas manchetes esportivas. Tem também um outro que se acha e se vê como um profeta como um filósofo antigo com a mão no queixo e o dedo na frente da boca sempre pensativo só porque deu certo uma vez ou outra, como se tivesse a fórmula mágica e o mundo nas mãos. Nem quero virar figura fácil entendido em tudo infalível sinônimo de líder de competência de paizão escrever livros, etc., etc., com entrevistas na tevê no rádio nas revistas e jornais em programas e colunas e cadernos que não são especializados nem nunca trataram de futebol. Pretendo fazer uns estágios no CT do Santos, quem sabe do Botafogo, quem sabe ainda do Coritiba, estou pensando em ir também pro exterior ou Europa por seis meses a um ano.
Aparecem aqueles dias que nada dá certo e o time não rende não resolve não acontece. Todas as jogadas ensaiadas ou não são anuladas pelo adversário. Sabe aqueles dias que quem não faz leva? Então, eu saio do banco e resolvo tudo em questão de cinco minutos num piscar de olhos numa abracadabra com jogadas mirabolantes. Viro o jogo e dou entrevista até para a tevê árabe.
       A Copa é uma disputa que não envolve somente quem está jogando. Ela pega todo o mundo. Os craques, em entrevistas, só falam no esforço que estão fazendo para ganhar a Copa e levar o título para o seu país. E os envolvidos usam as bandeiras para atrair os fãs do próprio país e, por que não?, os patrocinadores individuais ou coletivos.
Mas o nosso país, por exemplo, o que nós menos precisamos é de títulos e taças, e sim mais do dinheiro que eles jogadores ganham. Tem craque de futebol que ganha dois milhões e meio de reais por mês e só pensa em festas e carrões e loiras e badalações. Uns nem reconhecem mais o lugar o bairro onde nasceram e foram criados e aprenderam os primeiros passos movimentos do futebol. Deviam fazer esforço, isso mesmo, mas para aprender português e falar decentemente na frente das câmaras.
       De regras de futebol nem entendo nada. E duvido também que haja algum jogador ou técnico de futebol que as conheça por completo. Deve ser por isso que existem os juízes ou árbitros e bandeirinhas. Para lembrá-los e em alguns momentos dar uma ajudinha.
       Os aficionados pintam a cara, o corpo, as ruas, vestem a camisa de cinco estrelas, se cobrem com a bandeira e enchem o coração pra ver a bola ir de um lado a outro; jogador fazer pedalada, elástico, impedimento, cuspir, reclamar com bandeirinha, com qualquer um, arrumar o topete no telão, xingar até a mãe do Badanho, mostrar a língua, exibir a marca da chuteira, etc.
       Dentro da tarde loura e sem ventos em a cidade de Glória na Bahia vou em seguida a meu Deus junto da praça da República ruas esbatidas de sol daqui do estádio arena Uraçu do Aimoré Esporte Clube minhas senhoras senhorinhas e senhores para a grande jornada esportiva da prestigiada prestimosa emissora esportiva futebolística cem cavalos de potência a rádio Guaíba de Tabuleiro do Norte e quem vos fala é Serra Negra mais os comentários precisos corretos de Rio Negro reportagens de campo com os ótimos repórteres Porto Nacional que cobre o lado da equipe do Aimoré e o Pirapora que nos dá notícias do visitante o Esporte Clube Campo Grande nos estúdios o apoio técnico sempre necessário e preciso do colega Amarante num patrocínio das blusas Cauaíbe banco Catágua refrigerantes Iurimagua cerveja glo-glo-glooo! Suyá água mineral Caxinauá bicicletas Taurepangue vinte e uma marchas ferramentas Caiabi sendo assim está bem para a grande rede de emissoras associadas lideradas pela nossa valorosa e grande rádio GTN o árbitro Santo Inácio já está no centro do gramado mais seus dois auxiliares bem a postos o Angelical e o Barra e todos nós e a população em geral estamos aguardando o minuto para começar o jogo o espetáculo o confronto que decidirá mais três pontos importantes no campeonato e nem é para menos oferecimento da revendedora de automóveis Coroado e atenção D mora no céu minhas senhoras senhorinhas e senhores oferecimento dos bonés Carijó foooi soprado o apito e inicia o jogo a bola com o lateral Mucugê e nem me arrependo este Mucugê rapidamente para Barra Mansa você está ficando parecido comigo Barra Mansa até Carinhanha e Carinhanha para Xique-Xique pra gente ir junto Xique-Xique olha os companheiros melhor posicionados recebe falta de Bom Conselho volante do Campo Grande um oferecimento das casas Sanamaicã Mucugê cobra a infração e lança para a direita onde está Corumbá fica para outra vez a bola está com Lagoa do Ouro descendo para o ataque faz uma volta sobre si mesmo atrasa para Barreiras o Aimoré atacando Barreiras engata uma quarta ou quinta e avança pela lateral é o que eu digo o Remanso pede bola lá do outro lado e essa não um peladão entrou em campo a tevê não mostra mas eu tenho a obrigação de narrar os acontecimentos o doido deve ter saído do meio dos torcedores do Aimoré os seguranças estão atrás de pegá-lo alguém que quer aparecer oferecimento dos relógios Charrua e Barreiras opta passar para Januária sou eu mesmo Serra Negra com o mesmo meu jeito de ser e Correntina para Rio Verde oferecimento dos eletrodomésticos Acroá Rio Verde domina com o pé esquerdo e de três dedos a sorte é o que se vê lança Sento Sé e este domina no peito com elegância e de cabeça serve a Riacho de Santana em frações de segundo Riacho de Santana não alcança titubeia mas quem recolhe a redonda para o Aimoré se eu pudesse parar o tempo é o Juazeiro que dribla o primeiro marcador tenta driblar o segundo que é o zagueiro Jequié este consegue lhe tirar a pelota e procura agora imediatamente abrir contra-ataque do Campo Grande e lança em profundidade para a direita em procura do centroavante Poções e então de uns tempos a outros tempos para cá Poções escora de cabeça fazendo as vezes de pivô tentando seu companheiro o Itabuna com a participação também do Cariri do Tocantins mas a jogada é desfeita pelo ala do Aimoré o Corumbá oferecimento de óculos Xacriabá o apito piuuu! da rádio GTN indica 25 minutos decorridos no primeiro tempo que passa para Morro Cabeça no Tempo que passa Aimoré no ataque para Rio Verde só podia ter sido mesmo que vai à linha de fundo cruza na área olha o goool! é go-go-go-goool! goooooooooool! do Aimoré e o gol sen-sa-cio-nal eu só acredito no que me contam foi de Santa Maria da Vitória incrível como surgiu de repente na grande área o artilheiro Santa Maria da Vitória oferecimento dos pneus Matanaui e soube aproveitar o perfeito ótimo cruzamento de Rio Verde oferecimento de lajotas Xucuru-Cariri nada menos que isso mesmo seus comentários o que você ressalta aos nossos ouvidos seu Rio Preto. Pois eu vi e conto o seguinte excelente jogada do camisa dois o lateral do Aimoré Rio Verde que driblou seu marcador o bom lateral Pilão Arcado do Campo Grande e cruzou na área adversária para o grande finalizador o craque do Aimoré e da Seleção o Santa Maria da Vitória finalizar de pé esquerdo que não é o seu pé de sorte jogada de linha de fundo magistralmente executada pelo Rio Verde que encobriu o volante Piaçabuçu e o zagueiro Andaraí defesa vacilante do Campo Grande oferecimento de roupas da grife Minuano e o Santa Maria da Vitória estufou as malhas da meta do também grande arqueiro defensor goleiro Tabuleiro e esse gol vai tranquilizar a torcida aimoresista e deixar a equipe se o placar continuar a ser favorável em primeiro lugar no campeonato nacional da série B oferecimento das camisas da marca Fulniô um golaço para delírio do torcedor do Aimoré. E o que você viu dali de junto do gramado seu Porto Nacional? Nem me diga olha só como são as coisas seu Serra Negra e seu Rio Preto e nobres ouvintes da rádio emissora GTN pois o Santa Maria da Vitória saiu comemorando aqui bem pertinho de nós os repórteres de trás da goleira do arqueiro Tabuleiro e foi direto à câmara da tevê oferecimento da mecânica Tapes e jurou amor ao Aimoré Esporte Clube às filhinhas à esposa e toda a família que está assistindo em casa além de beijar todas as tatuagens com o nome de todos eles e elas é isso aí! oferecimento da boate Botocudo e tenho dito.
       O futebol para nós não é só esporte e lazer, é identidade, vida e morte. 
E a bola rola, rola e rola como roda que rola diz o narrador, comenta o opiniático, fala o repórter perto do lance atrás da meta. Rola a bola rotunda rolante rodada, enfim, em busca daquele talvez mísero gol para fazer a torcida vibrar.