terça-feira, 10 de julho de 2012

O paraíso serve


        Assim, sobre a terra verde, sob o céu de um azul, começou buscando nomes de plantas e frutinhas do mato, encontrando frutinhas do mato, subindo em árvores, reparando em passarinhos, saboreando frutas: as amarelas, principalmente.

        Amizades simples e desinteressadas onde por aí ouvia tocar os arapaçus-verdes, chororós, bicos-miúdos, surucuás-grandes-de-barriga-amarela, sabiás-pretos, araçaris-arrepiados, anacãs, chupins, mongos, araras-de-barriga-amarela.

        A ideia sua toda hora era como ter todas as coisas de que gostava, frutas do mato, subir em árvores, escalar morros, nadar na sanga, abraçar coqueiros, escolher pedrinhas no barranco, correr atrás de borboletas besouros beija-flores.

        As árvores pareciam seriemas, os quero-queros pareciam cupinzeiros, as borboletas sorriam, tatajuba-do-brejo não queria falar o seu segredo de um verde.

        Ficava horas, por exemplo, comendo azedinhas amarelas, araçás-vermelhos, sete-capotes verdes, amoras-do-mato pretas, araticuns-folhas-de-salgueiro amarelos, butiás amarelos e agridoces.

        Corria para casa junto com o fim da tarde, bastos cabelos, os passarinhos se recolhendo no interior das sambaíbas, as curicacas gritando do poleiro no pinheiral.

        Adorava perguntas e respostas, que cor você prefere o amarelo que bicho você nunca viu o escorpião que árvore você namora a sapucaia-branca.

        A avó recomendava para usar o boné de pala sob esse sol de rachar de tão quente (aquele mesmo astro-rei amarelo como os passarinhos que andavam com ela pelo potreiro capão capoeira os canários-da-terra, os bem-te-vis-de-três-riscas, os pintassilgos).

        Andorinhas em ziguezagues, curvas, nuvens também, riacho em ziguezagues, sorte em ziguezagues, porco-espinho em ziguezagues, abóbora-do-mato em ziguezagues.

Assobiava a imitação das marrequinhas-cã-cãs, tico-tico de chapéu, coleirinha de gravata, era janeiro e fazia compulsório calor.

        Encontrava uma pena de tem-tem-pium e virava índia jaicó, catauixi, xavante, coroado, arara-caro, charrua, pato.

        As outras meninas e os meninos pertenciam a um outro mundo, a um outro mundo distante muitas vezes, a um outro mundo até que não dizia nada, a um outro mundo não particular e exclusivo e deslumbrante.

        Não sabia, não se sabe, nem se procurou saber, não queria nem saber, e em que tempo que foi.

        Uma alegria de cambaxirra, uns cabelos de ouriço-preto, um olhar de bicho-preguiça, uns beijos de peixinho de açude lambari cascudo charutinho bagre traíra jundiá.

        Cada estrela com seu domínio.

        Frutas do mato também, pitangas, goiabas-do-mato, as amarelas guavirovas, e passarinhos, tchintchorrintchos, azulões, tesoureiras, saripocas-culiques, pica-paus-verde-barrado, prebixins, saíras-militares, capitães-do-mato, ximango-do-campo (época de frutas mesma época de passarinhos).

        Todos os dias eram iguais e brancos e verticais e espertos e interessantes.

        Gostava da chuva, pura chuva, mas não dos dias de inverno dentro de casa.

        Acordava de manhã com o sol e os passarinhos rindo no arvoredo dos quintais próprios e vizinhos, sassafrás-amarelo, braço-de-preguiça, caparrosa, bucho-de-boi, pitumba, cerejeira-do-rio-grande, curuiri, cipó-timbó, cardo-ananá, jauarataceua.

        O dia começava amarelo perfeito prestativo zumbidor nordeste esvoaçante vaporoso.

        Olhando as plantas, uma confusão de verdes, borboletas incidentais e flutuantes, supi-de-cabeça-cinza piando, repiando, trinando, outras cores, perfumes marcantes, nuvem com cara de avião, etc, besouros calmos, sombras, sorriso de cigarras, formigas perambulando.

        Esperar o tanto de tempo o que fazer o que dizer.

        Como os ziguezagues das painas ao vento, como os ziguezagues das almas-de-gato, são em todas as direções, é que acontece uma rede ou a trama ou com sorte ou em labirinto.

        Uma certa vez resolveu que tinha de olhar e sonhar, e toda dentro de si.

        Estavam as corticeiras-do-campo muito aceleradas, a urumbeba talvez muito acentuada, estavam as patas-de-vaca provocando desespero nas alfazemas-bravas.

        E subiu na primeira assa-peixe do quintal.

        E perguntou dúvidas a respeito ao tangurupará à assa-peixe à vizinha candeia-de-caju ao vizinho alecrim-do-campo, foi perguntando a tudo, tudo queria saber, sempre já.

        Pois começava ali o desejo de ficar retirada isolada quieta muda silenciosa separada pra sempre.

        Sujeito com que se dava já de pouca data, o tempo.

        Se entregou ao horizonte imortal confuso profundo, e viajar para construir mundo, que praticamente nunca vira somente esperava.

        Então, do alto, também o sol e as árvores e os passarinhos e as nuvens e os rastos de aviões.

        O que sabem e como sabem também as borboletas, os colibris, as aramás, e quase ao alcance da mão.

        Ficou ali admirando e passando o dia e esperando a tarde e o que mais.

        Olhou o sol que achou extravagante olhou o araciuirá que achou extravagante, e ela soube rir e riu.

        Mas muito de uma beleza deslumbrante, deslumbrante.

        Para cair o sol na localidade de Arambaré, de onde vinha o vento sabia de Glorinha, no rumo do voo da araçuaiava tinha Tanhaçu, nem tão nem quão era Iguatu.

        De volta em casa, comeu pouco e se recolheu particular arrepiada a um canto discreto anônimo ateu.

        Já estava relembrando mastigando de boca aberta os horizontes pressentidos do alto dos galhos da assa-peixe.

        Parecia pensava fantasiava com muita ideia de futuro.

        As cores que a atingiram no alto da árvore nunca a atingiram com tanta intimidade verdade velocidade verde capacidade futuro.

        Trilhos de trem por Barra Longa barco do rio Sacraiú sonho água limpa lisa o vento nos cabelos ouriçados e vermelhos cara sardenta.

        Os mistérios pareciam fáceis ora difíceis ora fáceis e tendo que procurá-los.

        Precisava correr o mundo para entender o mundo, coisas novas, coisas assim mesmo.

        E começava a sentir uma ânsia de percorrer estradas cidades baía da Guanabara praia de Arembepe ruas de São Joaquim de Bicas praça Marruá em Jaupaci.

        Por que desgostava do quintal de casa descartava das capoeiras ao redor de casa do ambiente perto de casa e arredores e de um dia pro outro?

        Uma coisa nova qualquer acordava dentro dela e que lhe dizia para seguir e obedecer e se oferecer.

        Seria tempo de abandonar as aventuras atrás de jabuticabas açudes bem-te-vis-pintados.

        O mundo agora mais falante estava além da assa-peixe sua conhecida sua manhã.

        Épocas de sol épocas de frutas amarelas épocas de passarinhos amarelos épocas de banhos no açude, e também guardadas para sempre e muito mais.



       

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Danações Históricas



           Isto tudo é uma looonga história. Voo tupiniquim.

      Tudo começou há muito e muito tempo. Época de trevas. O diabo andava à solta no mundo. Mesmo a própria igreja não saía à noite, medo de bruxas e beldades. E o que passo agora a narrar, portanto, são histórias de mortos e feitiços. Conto!

      Escrevo este causo para ser lido e ser lido na sua cama e sua madrugada e sua sozinho e sua quarto e sua noite e sua lua e sua cheia ou e sua tempestade. Não quero ouvir você dizer que minto, pois sou eu mesmo uma prova concreta, viva destes fatos. Basta reparar meu olhar, meu olhar.

      Tudo começou num tempo lá atrás, distante, com data certa, com nota. Um tempo descoberto. Tempo de terra em transe, ou mal transada, terra quadrada. 

       Era uma vez (a primeira vez), num belo dia parado de abril, que do mar abriram (as catadupas da esperança!) os portugueses. (Ou seria melhor com os holandeses, ou com os franceses). Chegaram para salvar esta terra esquecida, abençoada e bonita por natureza, mais que beleza, mais que certeza.

Eram gentes da Europa, gentes de nobres linhagens, finas castas, mancebos, boas-vidas (cá pra nós: piratas, bandoleiros, assassinos e loucos de toda espécie), brancos e com boa vontade de aqui enriquecerem sem despender esforço algum. Do dia pra noite uma cruz a Jesus e a guarda em nome do rei. Logo logo foram apontando as serras peladas. A terra prometia, era o que se escrevia. Que o povo que aqui vivia era pacífico: carecia de governo, carecia de religião. Eram habitantes satisfeitos, aceitavam presentes singelos: espelhos partidos, retalhos de pano amarelo, um tiro de espanto...Terra bela e rica; tudo que nela se plantar, se colhe com abundância. Os rios são muitos, se escrevia, de águas boas e cristalinas. Haveria por certo muito ouro e pedras preciosas para El-Rei.

       Não trouxeram consigo, estes tais portugueses (porque não foi com os japoneses?), nenhuma de suas mulheres. Para seus prazeres quantos tinham aqui belas índias, belas jovens negras. Tudo muito bem: índio era índio, negro era negro, e branco (dizia Nosso Senhor) era cristão. Sem sujar as mãos, cansar o nobre esqueleto, suar as brancas partes (que trabalhar é vergonhoso, somente dado a animais), almejavam prosperar em mágicos curtos tempos. Compraram o mato a preço vil. Levaram papagaios e tucanos-de-bico-verde e antas e sucuris e casal de índios de boa índole como amostras grátis. Criaram o melhor e maior e mais bem pago sistema de rapinagem que o mundo já conhecera (baseado na lei do mando). Assim, o tráfico-tráfego correu...

       E nunca se cresceu tanto em tão pouco tempo. Cinquenta anos em cinco. E a vida dos fidalgos continuava e dava gosto e dava divisas, frutos, sombra e água fresca, bancos, casas de massagem, casarões, bois, aguardentes, terras, canais de rádio e televisão, parabéns, ótimo. Tudo ia muito bem, tudo ia como Deus queria.

       O próprio rei português Júlio César (viva César!), dentre todos o maior português, suspirou um dia e, depois de ter devorado dezenas de coxinhas de galinhas (galegas e bem tostadinhas), coçado o apêndice ósseo, falou assim, dois pontos: abrem aspas, "Eu, Dom João (o povo deu: viva Gajão!), Rei Nobre e Muito Rico de Portugal e de Todos os Portugueses, Daqui e de Além-Mar... (assoaram-se as trombetas) Proclamo: A Partir Desta Data (que data, hem?!), Fica Decretado que Lá (aqui) Se Plantem Melancias e Bananas... Epa!, Já Se Tem Bananas?... (Yes, temos bananas). Isto Porque Quero Que Todos Saibam Que Lá (aqui) Dá-Se Muita Melancia e Banana; A Partir Desta Data (que horas são?), Todos Que Lá (aqui) Nascerem, Serão Batizados Com Nome Maria Para a Fêmea e José Para o Macho; A Partir Desta Data (que saco, não?!), Fica Estipulado a Marca do Pênalti Dentro da Grande Área, Sem Barreira... e Tenho... Ooooorque!! (arroto) Dito", fecham aspas.

       E o mundo não era mais então não seria mais o mesmo. As canções, as poesias, as novelas, os amores, enfim, nada mais seria como antes. Dormir é preciso, beber cerveja é preciso, criança no colégio não é preciso.

       Os fidalgos, tanto os de lá como os de cá (cuide o sotaque), exultaram muito com as novas medidas anunciadas pelo rei Dom João, coração de balão de festa de São João. Fizeram a maior das arrombas, pararam a cidade, chope, passeata, carreata, carnaval para toda vida. Os de cá se reuniram no bar do José Manuel (nome português) e beberam e bateram pandeiro e cantaram até cair. Nunca se viu e se ouviu e se cantou carnaval assim.

       Soda-se daí, lá por volta de tantas e tontas, que todos eles inventaram de esticar o sábado com um grande despacho (calafrio) de esquina. Um despacho? Sim, um despacho. E mas por que um despacho? Para amarrar as terras do Brasil, é claro! Portanto, saíram do bar do José Manuel (português politicamente correto) e cada qual se encarregou de juntar um ingrediente suspeito e satânico para, depois dos trecos e trens todos reunidos, dar e fazer o louco despacho planejado. Cada qual pro seu lado e por sua inteira conta e risco e as mãos à obra.

       Retornaram, dois minutos depois, assim: um primeiro (descendo a rampa do planalto em desordem técnica) com Getúlio Vargas; outro com rede de televisão rádio jornal; mega-sena e outras loterias; tudo a um e noventa e nove; o petróleo é nosso; capitanias hereditárias e sesmarias; Tiradentes com a corda no pescoço; FMI do fundo monetário internacional; proclamação da república; dragão da inflação; construção de Brasília; seleção brasileira; o primeiro (sem dúvida o primeiro) de abril; guerra com o Paraguai; marcha pela pátria pela religião pela família; renúncia de Jânio; café com leite e pão de queijo; casa-grande e senzala; jesuítas e reduções; milagre brasileiro; ciclo da borracha; e muitos, muitos outros mesmo, ingredientes urgentes de um país... mal pago. E morcegos (será o voo do morcego), pés de cabra, economistas, dentes de sobra, pelos de aranha, folhinhas de arruda, ala governista, comissão parlamentar de inquérito, estes também não podem faltar.

       E tudo posto dentro de um total caldeirão bruxólico. Sobre o fogo do trópico de capricórnio, Ceci e Peri no igarapé, Iracema dos lábios de mel, Capitu dos olhos quebrados. Cada um (mais importante e fundamental), dos participantes do ritual, teria que se assentar sobre o ninho de formigas lava-pés. Foi importado o ninho de formigas (o importado é fundamentalmente mais importante). Todos de acordo, então.

       Após isto, o orador (um tal de harpia de minissaia), em nome da galera toda, falou: "Para um lado, desse nosso e brilhante ("nosso" pronunciado com a maior sem cerimônia, batendo no peito, olhos nublados) Brasil, ficarão as terras férteis, as terras da situação, do dono, dos brancos, dos cristãos, dos barões, do caciques, dos caudilhos: terras do sossego do gado da cana do café; do outro lado (e cuspiu) ficarão as terras secas e áridas, nordestinadas, paradas, faveladas, empedradas, sem eira nem beira ou tribeira: terras a pão e circo de muito voto."

       E assim foi feito. Dito e vem sendo. Estava dividido a rês do aboio, Brasil dos seus brasis: o dos grandes para o funcionalismo público, o Itamarati, o mundo ocidental; o dos deserdados para o trabalho de sol a sol, o vazio, o salário mínimo, o futebol, o horário político gratuito, a esperança que nunca se alcança. Um bom negócio, negócio (da China) do Brasil.

Bons frutos e bons filhos e bons netos nasceriam (para uns raros e escolhidos) desta partilha desta sorte desta divisa em diante. Seriam os futuros potentados com todos os matizes e quilates. Estudar na Suíça, casar nas Bermudas, aposentar em Paris. O Brasil? Este só para torcer com a camisa da seleção.

       E a aventura perdura, continua, continuará, é eterna, sempre assim. Encruzilhado destino, amarrado e assentado sobre grandes formigueiros (ou o Brasil acaba com as saúvas ou as saúvas acabam com o Brasil). Dois brasis: um esperto e outro sem-teto. Uma dura caminhada sem fim, sem nada, nada. Ame-o ou deixe-o. Pra frente Brasil. Salve a seleção. De que lado você está? Tornar a pátria livre ou correr para New York City. Inter ou Grêmio? (Que horas são?)

       Dentro deste quadro e descendo veloz por esta looonga corredeira louca, sempre surgiu e surgirá sempre, ontem e hoje e amanhã, na tela embaçada da memória curta, um cavaleiro (um que se destaca dentre muitos que se apresentam) branco, cristão, louco, de chapéu na mão e cavalo branco, beijando a bandeira desfraldada e todos os chinelos desta nação.

E o branco virá com mãos oferecidas, braços dispostos prometendo acabar com o grande despacho feito alhures. Mas, coitado (depois de eleito), não se sabe o que lhes bate no trinco, não sei o que os acompanha ou acontece. E bem que o branco homem todo de branco tenta que tenta mudar a coisa. Tenta mas não consegue. E nunca dá certo. Será perseguição dos infernos? Assim, tudo acaba em mais uma lograda, outra ilusão roubada, conto que não dá em nada, nada.

Então, ele próprio todo branco homem branco, em meio ao desespero, perde a noção do ridículo e se assenta também sobre o formigueiro. O filme se repete com começo meio fim e recomeço. Portanto, outras tentativas virão, outras tentativas prometerão, outras iludirão, outras não faltarão.

       Ordem e progresso. O Brasil é um gigante adormecido. Este país é o país do futuro. Deus é brasileiro. Terra sem vulcões, terremotos, tsunamis, terrorismos. País tolerante, sem preconceitos de credo e cor. O clima é variado e bom o ano todo. As mulheres são as mais lindas. A Amazônia é nossa. Café do Brasil. O governo do povo para o povo com o povo. Todos tentam, só o Brasil é penta. Enfim: verde-amarelismo, nacionalismo, varguismo, coronelismo, tenentismo, militarismo, messianismo, patriotismo, bandeirantismo. E tudo palavras da ordem, ditos principescos, catecismos, anúncios de obras do governo outras palavras e canções e máximas. Estamos ainda esperando por Dom Sebastião ou São Jorge, o santo guerreiro, provável exterminador de nosso passado-presente dragão da corrupção. Que armação! Que desarrumação! Contra tamanho despacho (e minha garganta seca) só mesmo chamando o garção: Ei, garção!... por favor... mais uma cerveja estupidamente gelada e a conta pro Tadeu.

       Sete dias, sete dias tem o sol e sete dias tem a lua, sete são as verrugas do nariz do pajé, se errei nas contas vai tudo bem, acertarei nas intenções.

       Espíritos encaramujados do fundo do mar, acordem, subam, venham, apareçam, emirjam, venham todos à tona, venham soprar as forças novas, removedoras, sobre o altar da terra.

       Soprem bem forte, soprem lá pra nuvem mais forte e presente e limpa e alta e gelada. Pois com toda esta intempérie imensa, farei um grande remoinho, juntarei o raio o trovão o vento a chuva. Juntarei tudo numa caixinha, embalarei com papel colorido, um laço de fita vermelha. Pedirei para as asas da sorte que levem o presente às grutas caras e profundas do endereço geopolítico-norte.

       Com esse furacão afiado tempestivo revolucionário, rasgo o tísico corpo da rainha naja da Inglaterra, corto a rede da trama panamericana do americano do norte, calo o fado português com certeza, arranco os adesivos fidedignos e originais dos espanhóis, esfolo as cores vivas francesas, apago os dizeres consonantais dos alemães, enxugo as pegadas maquiavélicas italianas, descalço os tamancos holandeses, e muito, muito mais, todos que houver, etc...       

       Assim, os tais morcegos gigantes e espetaculares, donos do norte, perdidos nos labirintos frios e escuros e úmidos e solitários, abrirão o pacote e comerão gulosos no almoço no jantar misturado ao caviar, acharão fino pasto. Tendo esse manjar no bucho, esses morcegos fantásticos rebolarão o samba do crioulo doido. Perderão peso, ganharão vergonha no dentes, darão o ouro ao povo, deixarão de rapinar do terceiro mundo.

       E daí, sempre serão novos entes e novos mitos e novos homens que modificarão o mundo. E a verdade sairá na primeira página em todo o planeta. A certeza não será mais uma ilusão ou uma promessa de campanha. Até mesmo Deus despertará (estranhando o pouco barulho) na sua cama de nuvem ensolarada, lençol azul bordado de estrelas de todos os tamanhos, bocejará e verá, estupefato, a terra redonda e bem cuidada e pela primeira vez. Então, animado como um guri depois do banho (como um Peri), descerá do alto todo bonachão no dorso do arco-íris, pousará em qualquer lugar que quiser, gravará tudo com sua super hiper mega ultra filmadora da zona franca de Manaus.

       Assim então consequentemente portanto, e de um total acordo com essa nova fase ou ordem mundial, o Brasil se despertará de vez, se desencantará do feitiço vadio e tornará a ser encantado.



          

   

sábado, 24 de dezembro de 2011

Contos de Santa Luzia (5)

           Sol indivíduo incrivelmente verão e empoeirado. Labirinto de nuvens baixas vermelhas tecidas de terra vermelha. Encontro congresso assembleia reunião de compridas nuvens de poeira. Um vento incidental movimentando nuvens de poeira de lá pra cá, de alto a baixo. Poeira que surgia de alguns lugares, que se apresentava ali, que se arrastava para todos os outros lugares. Chão calcinado e pedregoso. Tudo incendiado cinzento incendiando queimado torrando. Poeira demais.  
O carreteiro parou tudo:
            - Ôoooa!...
            - Uuuuh!... Uuuuh!...
            - Auaaau!...
Olhou, se virou, se revirou, calculou, coçando o peito varonil e volumoso e peludo. Tudo falido, tudo abandonado, tudo seco, tudo acabado, tudo vermelho de terra vermelha. Ninguém por perto dando sinal de sorte. A estrada poeirenta e pedregosa e abandonada. Sol homem por trás além sobre as nuvens vermelhas. Um lugar sem fim sem começo nem fim. Em o meio no fim de o mundo. Total meio de um mundo extinto, desidratado, distante, balançante, gingante, periclitante.
            O carreteiro, a carreta de duas rodas raiadas e coberta de lona marrom, dois bois de novecentos e cinquenta quilos e tanto, um cusquinho preto com manchas brancas na cauda e nas mãos e nos pés.
Chegavam ali muito sucumbidos pelo calor, aturdidos pelo mormaço, sacudidos pelos dias de distância, os dias de verão. A carreta gemendo, rangendo, rinchando, raspando. Os possantes incapazes com o próprio peso, o tamanho do reboque, o valor dos trastes. O cusquinho não erguia mais a cabeça, língua pendente, focinho requeimado, olhos semicerrados, acompanhava a sombra da carroça pelo chão de cinzas. Haviam andado muito aqueles dias e eram de outro mundo, outro tempo, outra sorte.
Durante o caminho a bifurcação. Um chão de terra vermelha e pedras soltas seguia para a direita, para onde; a outra estradinha de terra e pedras soltas seguia para a esquerda, e com tabuleta indicando o distrito de Santa Luzia.
O da carreta pensou, repensou, coçando o peito, arranhando o peito de bronze, alisando o peito de cobre, afagando com a mão direita o peito montanhoso. De repente já resolveu tirar um cigarro de palha do bolsinho flutuante lado esquerdo da camisa aberta. Bombachas de pano riscado, chinelas de couro fechadas na frente. Chapéu largo de palha quebrado na testa preso pelo barbicacho, óculos de grau de lentes amarelas, a barba hirsuta, camisa de gola manga curta marronzinha com riscas amarelas e dois três botões abertos no peito bombado.
A comichão no cérebro buscava uma resolução. A mão esquerda já alcançava a garrafa de cachaça. E bebeu o último gole. Daí mesmo, sentado na tábua de ex-imbuia feita banco da carroça, jogou o vasilhame contra uma pedra da beira do caminho, tlafe!... mil cacos e caquinhos, o cão se assustou:
- Auaaau!...
O se decidiu pelo rumo da vila de Santa Luzia. A curiosidade abria pedaços soltos no seu pensamento cansado, travado, derretido. E cutucou os bois com a ponta da longa vara tirada de uma ex-ibirarema:
- Uuuupa!...
- Mmmma!... Mmmma!...
O condutor tinha já seus 160 anos na cacunda. Esquecera de desaparecer. Um peito largo e avantajado, mais avantajado e largo devido à camisa aberta descobrindo o peito espaçoso. A sorte o olvidara completamente. Só se morre uma vez.
Entrou na aldeia lentamente no passo lento dos bois assoleados e lentos e pachorrentos, chiado monótono das rodas desengraxadas, umas incertas horas, lugar quieto e poeirento e moribundo. Sol senhor confirmando o estio sem tréguas.
A aldeia de Santa Luzia sob o calor insuportável, insuperável. Sempre verão, sempre o verão. Ex-árvores paineiras ali na pracinha espetando o amarelo do céu com seus braços queimados. Nenhum pouco de movimento, nenhuma intenção de movimento, poeira no ar, tudo parado, nada acontecendo.
Estacaram ali no meio da pracinha sem sombra e chão esturricado, terra assada na brasa:
- Ôoooa!...
- Uuuuh!... Uuuuh!...
- Auaaau!...
O olhou a sua volta, procurou, reolhou. Uma vilinha de nada, minúscula e chapada pelo astro de fogo. Uma única rua no meio e vinte casebres de pau-a-pique dos lados cobertos de sapê. Pedras soltas ao acaso. Boca de forno. Aqui e ali cercas de pedras empilhadas em taipa, cercas de caniços fincados um lado a lado o outro, capoeiral queimado pelo verão sem fim, chão de cinzas e pedras amarelas, tucurus arruinados...  
O carreteiro aliviou os pesados. Soltou a canga para um lado. Parou olhando ao redor. Coçou o peito de cerdosos pelos. Depois, apontou o nariz para a padaria. Sempre seguido pelo estropiado cusquinho. Chegaram ali na ex-vitrine da ex-padaria. Tudo fechado, tudo tapado, tudo entregue, tudo acabado, tudo zerado. Olhou em volta.
Voltaram para junto da carroça na pracinha pelada. O cachorrinho de cauda entre as pernas trôpegas tossindo alérgico ao pó. O bípede se sentou na borda da carreta e puxou um cigarro de palha de milho. Bebeu o último gole de pinga e jogou fora a garrafa vazia, se espatifou, tlafe!... contra uma pedra, o cão se assustou:
- Auaaau!...
O chegante ainda tirou mais um crioulo do bolsinho flutuante esquerdo da camisa e fumou. Deitou no chão mesmo, sob a carroça, e dormiu a sesta. Acordou uma e meia hora depois, esticou os braços e pernas estalando as juntas e os ossos, se contorceu, cheirou o ar entupido de poeira. Coçou o peito de longos e enrolados pelos. Socou a caixa do peito. Olhou em volta, reolhou, recapitulou. A vila ali toda extinta e mal paga. A capela da santa Luzia, e descascada, e rachada, e destelhada, e pelando ao som do astro-rei. O cusco de boca aberta e língua caída e olhos fechados e filosofia apagada.
            Pois o viajante reparou, lá mais adiante próximo a uma cerca de taquara seca mal e mal em pé, uns aldeõezinhos descalços e magros e ossudos e arteiros brincando de bandido. Um dos malvadinhos foi escolhido e preso. O tipinho queria fugir, mas o resto do bando não o largava. O preso lutava e gania e tentava morder e tentava chutar. Puxavam-no pelas orelhas, pelas pernas, pelo cabelo, pelo burrinho. Estavam com propósito de fazer uma cirurgia plástica no sorteado.
Então, o estrangeiro embicou para o lado da ferraria. Não convidou o cãozinho, e o guaipeca acordou na hora e se convidou e foi sem cerimônia, e seguiu acostumado o rasto do patrão. Ex-ferraria fechada lacrada, nem ferreiro nem ex-ferreiro. O precisava arrumar alguma coisa da carreta. Desapontado, e voltaram à pracinha desfigurada. Pedras soltas atiradas por ali. Sol gente importante sempre muito quente.
No trajeto entre a ex-ferraria e a pracinha, conheceu a viúva. Coçou o peito total, alisou os pelos avermelhados, os fios de arame farpado do peitoral. A solteira bem mais alta que o carreteiro uns dois palmos e tanto. Cocó no alto da cabeça e calçando tamancos de ex-caroba-branca, o cumprimentou:
- Boas tardes.
- Tardes.
O carreteiro seguiu para o seu acampamento. O cusco, depois de lamber os tamancos da viúva, seguiu atrás no rasto do chefe. A mulher ainda esperou no mesmo lugar mais um instantinho. Ficou olhando fixamente os dois personagens.
Dona daqueles olhos insones passou a língua seca pelos lábios queimados, balançou a cabeça, sacudiu o corpo todo, fez muxoxo e, enfim, meia volta voltou para casa. A viúva passava noites e noites sem pregar os olhos. Talvez mesmo por serem noites muito quentes, os dias muito mormacentos, as noites de poeira e lua e estrelas frias, os dias de céu amarelo, sol índio velho macanudo muito quente e quentíssimo.
Alguns anos sem uma gota sequer de da chuva. A vila já vaporada coberta de poeira vermelha e pedras soltas ao léu. Tudo seco para sempre, sempre. Sol pessoa física entornava diariamente, atrás sempre das nuvens pesadas de terra vermelha, o seu próprio caldo de vulcão.
            A turma de pivetes arteiros às voltas com o ladrãozinho indigitado. Já tinham sacaneado o preso umas tantas horas e tanto. Não bastara. Puxavam o pivete ladrão por uma coleira. Puxavam-no pelo burrinho. Puxavam-no pelas orelhas. O preso não resistia mais, não latia, não miava, não zumbia, não vaiava. O pivetinho, ladrão de fantasia e descoberto por sorte, só obedecia, obedecia. Passeava obrigado com os torturadores por aí, para cima e para baixo, de cá pra lá e de lá pra acolá. Curumins todos deslumbrados, atrevidos, olhos lunáticos, arranhados nas pernas nos braços, cabeças encaroçadas, cabelos sem cor ou da cor da terra vermelha, todos sem camisa, bermuda ou calção vermelho de terra vermelha, sempre dos pés a cabeça vermelhos de poeira vermelha.
A carreta deixada sozinha, apoiada no chão pela haste, derretia com paisagem na brasa. Sol senhor branco. Debaixo do toldo, aberto na frente e atrás, poucas mercadorias para vender ou trocar. A canga deixada no chão. A parelha de mansos e pesados e franqueiros ali deitada respirando com lentidão o ar quente. Os gigantes chacoalhavam as guampudas cabeçorras, preguiçosos e sonolentos. O cusco deitado, língua pendida do lado da boca, tirando ossos especiais de dentro do sonho, esgravatando o chão na ilusão de encontrar alguma coisa para manducar, raízes, insetos, cheirando e mordendo pedras amarelas. O homem sentado no chão com as pernas encolhidas, os joelhos junto ao peito de ferro rebrilhante, os braços abraçando as canelas, o cigarro no canto da boca.
Então, horas depois, o carreteiro se ergueu. O cusco o imitou muito cansado tonto. O homem coçou o peito de pelos aéreos, bateu o tambor peludo do peito, socou o peito com as duas mãos fechadas. Apontou para o armazém, ex-armazém, armazém despovoado abandonado. O cusco o seguiu, o seguia sempre, e sem ser convidado. Sol primo por parte pedalando entre nuvens de poeira. O carreteiro encontrou, encontraram o ex-armazém fechado e abandonado e falido e arruinado. Deram meia volta e foram ao açougue. Encontraram, encontraram o ex-açougue e tudo fechado e pregado e lacrado e caindo aos pedaços.
Poucos metros da carreta, o carreteiro armou uns paus de lenha, preparou um fogo para assar o frio da noite. Já a tarde entrava na boca do lusco-fusco, noite engolia a tarde indefesa, as nuvens pesadas de pó topavam com as primeiras estrelas. O cusco o rodeou esperançoso, lambendo-lhe os calcanhares rachados, perseguindo e cheirando seu rasto na poeira vermelha. Os bois bateram as guampas, sonolentos, hipnotizados pelo calor. O céu escurecia de um jeito confuso. Pedras soltas mil deixadas assim assim por ali. Céu fechado de poeira. Coçou o largo peito povoado de pelos grossos, peito descomunal. As ex-árvores queimadas da pracinha, estorricadas pelo calor, pareciam espetos pretos em direção do cosmo, do infinito.
Não se ouvia um pio, um zumbido, um ronco, uma pancada, o som qualquer de uma presença aérea ou terrestre ou subterrâneo. E pintaram por si uma, duas... todas as estrelas e a lua. Confusas, atrás das nuvens de poeira. Os bois engoliam em seco. A lua, as estrelas, os planetas, as nebulosas, as volutas, as espirais. Olhando bem até disco voador tossiu, pintou, sacudiu, riscou, pirilampou.
O cusquinho lambia uma pedra doce. O capoeirão incendiado pelos meses e meses de verão direto, minado de tucurus podres - lá por trás dos casinholos que se esfarelavam caindo de um lado ou de outro -, o capoeirão escondia fantasmas noturnos, fantasmas às vezes com sombra outras sem sombra, fantasmas que não respondiam nem perguntavam...
Nessa oportunidade reapareceu a viúva. O carreteiro coçou o peito enciclopédico, ilha inteira de rocha vulcânica, quina de navio. Ela vinha de braços cruzados, coque no alto da cabeça, estalando nos calcanhares umas chinelinhas de borracha de dedo, olhando, calmamente reparando. Alta como uma mulher muito alta. Seca e elegante como uma estaca seca retirada de uma ex-escova-de-macaco. O cusco a olhou com apetite com esperança com ilusão de apetite. Os bois ficaram num silêncio cansado e sem mugido e dorminhoco. A mulher parou ali em pé, braços cruzados no peito, olhos insones, lenço de seda floreado no pescoço fino comprido, vestido floreado comprido até o meio das canelas, e como uma visita tímida:
- Boas noites.
- Noites.
A solteira perguntou, queria saber, inquiriu, indagou. E ela cheirou e vasculhou as mercadorias na carreta. Depois, ela se virou para o cusco e o chamou de Totó. O cusco gostou, riu para ela e balançou a cauda, balançou a cauda. Aí, a viúva foi até os bois, não tão perto, e quis saber o nome dos bois, seus nomes, raça, pesos, medidas, procedência e costumes. O carreteiro ali acrocado perto da carreta a bunda mais baixa que os joelhos. A mulher era lenta, calma, era seca em praticamente quase tudo, e também em compensação não tinha bigode.
O carreteiro reparou os olhos mal dormidos da viúva. Coçou o peito de escova de aço, fios de escova de aço. Ele nunca esperava nada de nada de ninguém de nada. Mas a viúva o convidou para chegar em casa. O carreteiro não se encorajou, não se mexeu, não se convenceu, não se animou, não foi. A dupla de bois nem ali, jogada no chão de terra escaldada. O cãozinho procurava lamber os pés da mulher. Ela ainda caiu com os olhos ardentes ardidos sobre a cheirosa montanha peluda do visitante. Queria bem enfrentar aquele paredão escarpado, colar o ouvido na parede, ouvir o tum! tum!... do outro lado. Bater como um inseto na vitrine. A viúva se despediu, braços cruzados sobre o peito, passos por dentro da noite, passos se transferindo, entrando na escuridão, deixando um rastro de teque! teque!... na poeira.
A noite avançou. As estrelas quietas, pálidas, embaçadas, distantes, políticas, irreais, perenes, trêmulas, esquisitas, aéreas, incríveis, encobertas. A lua mudando de lugar, um caco branco de louça, um pedaço de prato, uma colher de sopa de prata. O cusco dormitava sobre as mãos cruzadas, com frio, sonhando deveres de casa. Os plenicórneos quietos, bocarras abertas, sufocados de ar quente. O carreteiro secou a garrafa de branca e a jogou, tlafe!... nas pedras, o cusco deu um pulo nervoso, elétrico:
- Auaaau!...
Aí mesmo, ali e aqui, cá e acolá, a noite parecia um breu puro, sem lados, sem chão, com teto de olhinhos acesos, com cheiro de poeira, despovoada de som, sabor indiscutível de poeira no ar. Os bois não resolviam mais nada. Um mutante correu por ali pelas quebradas, se pressentiu a corrida pela capoeira queimada, escalando montes de pedras, atravessando cercas de taquaras-pocas, imitando perfeitamente rastos de mula-sem-cabeça saci lobisomem...
Pela manhã, o carreteiro encangou os gigantes preguiçosos mal dormidos:
- Muuuu!... Muuuu!...
O carreteiro coçou o largo peito taurino de fios maduros e crespos. Paredão do peito enfeitado de pelos misturados de cores, uns mais longos, etc. Socou o muro rochoso do peito. Subiu na carreta e tocou:
- Uuuupa!...
- Uuuuh!... Uuuuh!...
- Auaaau!...
Sol sujeito raiado de vermelho. A poeira voava em nuvens, procissão de nuvens, assim isso isso o porquê do rei-sol branco com raios vermelhos.
O homem tocou para a ex-ferraria. Pedras soltas perdidas esquecidas por ali. Precisava tratar de uma roda. Queria estar preparado para desistir da vila e atravessar o longo longo terral vermelho e escaldante. Seria uma longuíssima jornada e tanto.
Um repente, o carreteiro estava cercado por todos da vila aldeãos e aldeãs e aldeõezinhos. Que todos saíram de onde. O carreteiro coçou o peito peludo de macaco grande. O cusco se atiçou, se enervou, rosnou, grrrrrr!... Os aldeãos cercaram o carreteiro e os bois e o mascote com olhos carregados de rasgar, amassar, retalhar, partir, bifar, picar, destroncar, quebrar, fatiar, serrar, cortar, embutir.
Os aldeãos lançaram a rede para cima do carreteiro, assim como as aranhas enredam uma mosca para a refeição. O cusco achou ruim, péssimo, horrível, xingou e acoou:
- Auaaau!...
O carreteiro não conseguiu sair da renda, da trama, da rede, da teia, da malha fina. Não conseguiu alcançar e coçar o seu grande e peludo peito bronzeado. Preso pelas orelhas, o cusco tentava morder a canela mais próxima, chupar a barra da calça mais próxima, lamber as correias da sandália franciscana mais próxima. Os bois fecharam os olhos cansados esgotados pesados bovinos. Bois anestesiados pelo calor.  
E os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos seguraram o carreteiro aí no meio do círculo, da ciranda, cirandar. Um aldeão se destacou com um tacape. Depois, ergueu a madeira de extinta totajuba bem acima da cabeça. E largou o malho na testa do carreteiro. Foram tantos golpes, várias vezes, várias vezes, tantos golpes pesados. O cusco xingava com uivos latidos acoos rosnados. Até que a cabeça do carreteiro finalmente entrou para os ombros. O cusco não se conformou, não se conformava, não podia se conformar, esperneava, tremia, batia o queixo, rilhava os dentes, ganiu:
- Grrrrrr!...
O relógio poeirento parado das horas lentas. Sol irmão grande fogueira amarela por trás das nuvens vermelhas de poeira. Vila despachada para o meio do deserto de terra vermelha. Pedras soltas sem conta por tudo pedregulho. Rua única e poeirenta. O lugar tudo rebocado de poeira vermelha.
E da sua costumeira cadeira de balanço, na varanda coberta de ramos secos de palmeira catolé, a viúva olhava meio cochilando o dia inútil e poeirento da aldeia. Tomou aquele susto ao ver um carreteiro entrando pela única rua de terra e pedrinhas soltas. Vinha o desconhecido lá na sua carreta puxada por dois bois cansados, esgotados, cabisbaixos. Por baixo da carreta se esgueirava um guaipeca tonto e torto e esgoelado. Vinham do lado da manhã muito quente e astro amarelo, amarelo. Sol pessoa rebrilhante demais. E a mulher tomou esse susto e se pôs de pé como um espeto a jato. Pensou sozinha e para dentro de si, engolindo em seco: “Não é possível, mas poderá vir a ser, se já não está sendo.”
Desceu a escadinha torta da varanda, escadinha de três tabuinhas de ex-arco-de-pipa, escadinha poeirenta, e foi até o portão, portãozinho feito de ripas de ex-manacá-açu, portão escangalhado e coberto de poeira vermelha. Ela ficou ali, no meio do verão sem fim e da poeira da rua única, um tempo, mais um tempo e tanto. Pedras soltas incomparáveis número tamanhos pelo chão. Sempre de olho firme sobre o carreteiro, seus bois tontos e seu vira-lata zonzo. Ela mesma de braços cruzados amparando os peitos. Só mais tarde entrou para a casa, para a casa, arrastando os tamancos de ex-peroba-tabuada.
A solteira pensou muito. Inquieta toda vida. Enquanto pensava também se olhou no espelho pendurado na parede do quarto. A mão procurava a babaquinha. Queria muito tomar um banho, se perfumar de rosas ou outras flores, soprar da cara as olheiras insones, se livrar da poeira vermelha, etc. Pegou da escova e se penteou diante do espelho oval. E voltou a se pentear demoradamente em frente do espelho oval da penteadeira. Depois, armou um pericote no alto da nuca. E voltou à varanda, se sentou na cadeira de balanço, se balançou, geeeelim! geeeelim!... cadeira feita de ex-coração-de-boi. Não tirava os olhos e ver o estrangeiro, seus bois, seu cusquinho lá na pracinha acampados. A mulher desejava o carreteiro a apertasse de qualquer jeito, com as mãos, com o peito de couraça, com as mãos cheias de dedos, com o peito em escudo.
Quando o carreteiro se dirigiu à ferraria abandonada, a viúva tomou a decisão de interceptá-lo. Aguardou o momento certo. Aí, pegou e foi mesmo. A garganta secava e foi secando, secou, seca. Ficou nervosa e quis tossir. A garganta queimando. Gosto de poeira, cheiro de poeira. Ela cruzou com o carreteiro bem no meio da rua única e poeirenta:
- Boas tardes.
- Tardes.
- E o moço é ambulante viajante mascate regateiro?
- Compro, troco, vendo. 
A viúva viu o homem coçar o peito peludo de fios encaracolados em molinhas. O cusquinho se enamorou dos tamancos da madame e se enrodilhou ali no chão junto dos pés da mulher. Esta olhava o homem de peito de pedra pedreira peito peludo. Ela olhou o peito do homem e não pôde desenvolver um pensar muito além. Ficou vendida pelo colosso encouraçado. Não pensou muito bem. Fixou somente o peito de sino de bronze. Não conseguiu pensar duas vezes. Não contou até três. E falou qualquer coisa para dizer, dizendo:
- Que negócio que é?
- Livros e gibis e revistas usados ou seminovos, álbuns antigos de figurinhas de times de futebol, antigos álbuns de famílias, bulas de remédios, tevês portáteis, cds antigos, dvds usados, bolachões de vinil, fitas cassete, caixinhas de música com berliques e berloques, tudo usado ou de segunda mão.
- Ãhn!... O moço não tem um romance de 870 páginas ou mais?
- Se tenho.
- Gosto de livros grossos, volumosos, lentos, psicológicos, longos, circulares, pesados, densos, profundos.
A mulher secou o carreteiro com o olhar analítico de um técnico de academia de ginástica aeróbica. O carreteiro fez um sinal com a mão na aba do chapéu e seguiu em direção ao seu acampamento, escoltado pelo cão de estimação, pedras de feitios e soltas e lascadas por aí no chão esturricado, cãozinho mirrado e nervoso e desconfiado.
Então, dali para frente, a viúva suspirou, cruzou os braços no peito e voltou para casa. Poeira poeira cobrindo tudo. Voltou no seu estilo de passos medidos e uniformes e cansados. O pensamento querendo inventar ou achar uma saída para as horas longas, intermináveis, incontáveis, fundas, secas, poeirentas. Pensou na babaquinha já há muito sem um trato um troço um tapa um teto.  
Na varanda descascada da antiga cor azul, a viúva procurou a cadeira, a cadeira. E se sentou na cadeira de balanço, se balançou, geeeelim! geeeelim!... Embalava-se numa ideia de evasão. Os olhos não viam nada, embora voltados para o acampamento do viajante. Esses devaneios cansados lhe davam ainda cansaço maior, alergia nas pernas e nos braços, tremedeira, irritação, inquietação, coceira. Queria o tempo perdido de volta, muitos tempos. Os dentes apertavam e rilhavam, a língua seca e a garganta quente, a boca com gosto de terra. As ordens mais ou menos elétricas dos nervos chegavam às mãos e precisavam ser atritadas, esfregadas, coçadas, descarregadas na babaquinha. Uma ânsia que lhe dava dor na barriga vazia. E a curiosidade abrindo pedaços em branco no seu pensamento, pensamento. E a ideia ia e voltava, cada vez mais se escurecendo, empastelando, enovelando.
Anoitecera. Fora mais nada que as nuvens de poeira engrossando a escuridão. Talvez ainda um e outro ente fantasma pela capoeira seca, fantasmando, escalando o pedregulho, invadindo tucurus desabitados...
Então, a viúva achou melhor ir até o carreteiro. Ainda amarrou um lenço floreado de pescoço. O homem tinha feito um fogo para afastar a friagem da noite. A mulher foi indo e se chegou e se aproximou, já estava lá. Braços cruzados junto aos peitos:
- Boas noites.
- Noites.
- Lugar para um acampamento.
- Hum...  
A viúva foi até a carreta olhar para as mercadorias. O cusquinho veio cheirar seus pés e tamancos, lamber os calcanhares empoeirados. Ela revirou para descobrir um livro grosso, pesado, massudo, pacote, tijolão.
- O moço já leu todos estes livros? Já ouviu todos estes cds? E assistiu todos estes dvds? E colecionou todos estes álbuns com suas figurinhas de futebol?
Assim, a madame se agachou junto ao cãozinho. Chegou perto do cão e só esperou que este lhe abanasse a cauda para acariciá-lo, alisá-lo, adulá-lo. O cachorrinho se jogou no chão com desmaio, balançou a cauda, falou, soprou, quatro pernas para o ar, pediu, pediu. E a mulher o escovou na testa, entre as orelhas. E o sacudiu pelo focinho. E olhou o cusquinho nos olhos. Deu-lhe um abraço. O cãozinho lhe lambeu as mãos, o pescoço, as orelhas, o rosto, o cabelo, o nariz, a boca, etc. Ela lhe deu um beijo na boca. Se beijaram na boca com lambidas. Ele retribuiu com lambida. A mulher entendeu assim:
- Cãozinho manero. Por que não vem comigo pra casa? Por que não vem me fazer companhia?
De surpresa, a viúva se lembrou dos bois. Estes estavam ali quietos, deitados, cansados, dormitando, atrás da sombra da noite. Bois enormes na sombra da noite, fracos de cansaço e preguiça e sono, olhar apagado, cansados de tudo, orelhas caídas, entorpecidos, desativados, desleixados. A viúva queria saber o nome dos elefantes, dos hipopótamos, dos rinocerontes, dos dinossauros:
- Que nomes?
- E é o Bordado e é o Vermelho.
- Hum!... Bordado... Vermelho...
A viúva chegou mais perto dos gigantes. Os bois direcionaram as grandes orelhas. As aspas bonitas e quase altas. E a viúva queria tocá-los nos pelos, talvez sentir-lhes o calor, o cheiro, fazer um agrado nas ancas, tocar nas guampas, tocar nas aspas, tocar nos cornos, tocar nos chifres, tocar nos galhos, tocar nas antenas:
- São sociáveis, esses pés-duros?
- Olha...
A viúva acariciou o Bordado e olhou o Vermelho. Já alisou o Vermelho e admirou o Bordado.
E esse era o ponto, até que enfim, que ela mesma resolveu falar o que viera falar, buscar, negociar, contratar, pedir, trocar, oferecer, permutar. O cãozinho se arrastava no rasto da mulher, sempre nos garrões da solteira, lambendo a borda dos pés secos da viúva. Era mesmo difícil para ela ter essa coragem toda, mas teve, tinha de ter, e falou para os bois - que o carreteiro estava perto ouvindo:
- Tenho uma babaquinha bem sozinha lá de casa. Vem dá uma chinelada na babaquinha lá de casa.
A viúva desabafou assim, mas assim de cabeça baixa, braço esticado sobre o Bordado, olhar solto sobre o Vermelho, acrocada ali mesmo e de saia balão cobrindo as pernas. E se o carreteiro gostasse de flores, a saia era florida. As flores se foram se extinguiram há muito no lugar, então, restou o vestido dela florido, e que o homem podia reparar.
Falada a provocação, ela ergueu os olhos para os quatro do carreteiro. Esperando confirmação. Admirou o homem coçar de pelos fortes o peito de casco de tartaruga. Esperou que o homem e ele demorava numa resposta, num quase longo coçar o baú do peito, o guarda-roupa do peito, a cama quadrada do peito. Aí, ela ainda olhou de soslaio para o meio das colunas arcadas do carreteiro a ver se enfim o burro dele dava um relincho, um sinal, um solavanco, um pinote, uma estocada, um sinal, uma cambalhota. O burro lá dele não deu por nada. De qualquer jeito a viúva tinha que acreditar até o último minuto da prorrogação.
A escuridão se atolou no meio profundo da noite mundial. Uma nuvem inteira de pó vermelho tomava pela vilinha. A nuvem interminável e seus grãos doces de terra amarela. A resposta que a viúva aguardava não veio e cansou e chateou e já demorava demais. E a resposta dele não apareceu. Então, depois de longos tempos, a viúva procurou aperfeiçoar a mesma ideia:
- Levamos um dvd. Levamos um cd de música lenta. Levamos um álbum com fotos antigas de família.
Assim sendo, ou não, a viúva olhou o céu fechado em amarronzado. Olhou tentando ver as estrelas querendo contá-las querendo saber o nome de todas querendo nem olhar para nenhuma. Queria ouvir um som lunar. E procurou adivinhar os planetas e o nome dos planetas e a cor dos planetas e o lugar distante dos planetas e as luas dos planetas. Seriam planetas ou estrelas. Estariam acima ou abaixo. Seriam nuvens de poeira ou pedras preciosas.
O escuro, então, se confundiu se misturou num abraço com a escuridão. A noite se povoou de sacis nos redemoinhos, lobisomens na capoeira seca, mulas-sem-cabeça entre os tucurus abandonados...
Pois aí, dessa vez, a viúva para o carreteiro:
- Meus parabéns.
- Quer levar o livro grosso e pesado e emparedado de letrinhas miúdas?
E sem mais o quê, a viúva foi se retirando. Entrou no escurão, livrão sob a axila, sem olhar para trás, sem olhar para a ponta empoeirada dos tamancos de ex-guaçatumba, gosto de poeira na língua, sem olhar para trás, engolindo em seco, dentes tritando grãos de terra, peque! peque!... o tamanco nos calcanhares, o cachorrinho atrás até ali, lambendo o rasto, cheirando e lambendo as pegadas.
Em casa, diante do espelho oval, os olhos vazios e sombreados, o pensamento desanimado, o pensamento fracassado, o pensamento frustrado, o pensamento desiludido, os gestos lentos, a babaquinha na mão, na mão. O olhar esquecido. As sombras na parede de um tal azul descascado. Os cabelos soltos até pouco abaixo dos ombros. Testa franzida e dor nas costas, nas juntas. Falta de ar puro. Garganta seca. Dois braços, duas medidas, duas pernas, dois dedos, duas entradas, duas saídas.
Depois, depois das horas longas, se conformou para o quê. Olhou da janela lá para a pracinha. A sombra do carreteiro na pouca luz da fogueira. A noite quieta sem um som de qualquer. Mas a babaquinha insone era o pior o mais ruim. Surrando a babaquinha. Os mesmos móveis de antigamente, a parede de um azul depois do azul. As paredes que não falam, as paredes de pau-a-pique, as paredes frouxas, as paredes esburacadas. Uma noite entupida de calor e poeira.  
Passou as horas, a noite toda, uma noite esperneada, três séculos de noites sem pregar os olhos. Levou um tempo desse jeito. Aniquilada e grudada na ideia do carreteiro. Gorila de peito peludão pesando 90kg, 100kg, 120kg, 200kg, quantos e tantos quilos.
No dia seguinte acordou olhando pela janela. Olhos quebradiços. Olhar pisado. Olhando sem paisagem. Olhos empedrados, ardidos, secos, míopes, vidrados. O carreteiro sumira, esvaziara, não estavam mais lá acampados na praça.
Um pouco depois para o sul ouviu os latidos do cãozinho, os xingamentos do totozinho, os desaforos do vira-latinha, os acoos do cusquinho, os ganidos do cachorrinho:
- Auaaau!... Grrrrrr!... Tsouuu!...
A solteira se encaminhou, então, para a única rua e rua poeirenta e rua pedregosa. Sol pessoa esbranquiçada batendo forte, torrando, esturricando. Pedras soltas sem conta de tamanhos pelo chão cinzento.
Ela reparou os aldeões dando um trato no carreteiro. Afundavam-lhe a cabeça com um tacape feito de galho da ex-piá-banheira. A viúva chegou bem perto. Ouviu estalos de ossos. A cabeça do carreteiro enfiada entre os ombros, como se fosse uma tartaruga recolhida. O cãozinho vociferando, arranhando, mordendo, bufando, uivando muito pior que inconformado:
- Aiuuuu!... Aiuuuu!...
Naquele dia os vilões ainda precisaram do dia todo para carnear o carreteiro, os bois, o cusco. Não viram nem o tempo cinza-claro passar. O dia sempre um forno e as horas quentes. Sol indivíduo amarelo guardado de nuvens de poeira vermelha.  
            Os moradores da vila Santa Luzia ficaram estavam carnavalescos. Cegos de apetite, surdos de apetite, mudos de apetite, tontos de apetite, delirantes de apetite, contentes de apetite. E tocaram flautas, gaitas, pratos, reco-recos, panelas, triângulos, frigideiras, trombetas, apitos, trombones, violas, saxofones. Trocavam risadas, safanões, risos, beliscões, tafonés, gargalhadas, sardelinhas, empurrões, socos, gargalhadas, tapas, chutes, piparotes, cascudos.

Adanhamica

            Era uma vez...
            E “era uma vez...” é uma excelente pergunta.
Sempre andando o caminho, atualizando o placar, testando o vigor, melhor compondo a minha forma, temperando a filosofia, desligando a ansiedade, abastecendo a coragem. Que me lembro, é isso.           
            Peguei meu boné, sempre de boné e tudo bem. Quando é calor, bermuda e manga curta; quando é frio, calça de abrigo e blusa de abrigo; quando é chuva, guarda-chuva. O calçado um par de tênis amaciado como se deve usar.
            Nasci totalmente dentro do São Cristóvão. E faço as caminhadas. Estou fazendo ultimamente. O seguinte roteiro. Vou pela avenida Placidina de Araújo, vou pela rua Flores da Cunha com ipês-amarelos; e volto pela avenida Borges de Medeiros de jacarandás-cabiúnas. Essas plantas, na temporada de novembro e dezembro, vivem cheias de flores e atapetam o chão. São as ruas mais incríveis e que vão fora a fora da cidade, praticamente.
E não caminho todos os dias, mas muitos dias no mês e durante todo o ano.            
Naquele dia campeão, pretendia cumprir esse mesmo tema: ir até o centro descendo a Placidina e a Flores e voltar subindo pela Borges, bastantes árvores, etc, casas, lojas, ruas.
            Eu aprecio muito isso e raramente vou à noite. Posso ir na boca da noite, de tardezinho, o sol fraquinho, o sol descendo, o sol no horizonte, o sol com pôr do sol. Prefiro ir sempre pela manhã, quase cedinho.
Aquele dia estava se indo já ali pelas umas dezenove horas. Tudo bem. Pássaros flechando pra cá e pra lá a todo instante, joão-de-barro, coleirinha, cricrió, pomba-de-espelho, arapaçu-de-bico-preto, tico-tico, cochi-de-garganta-branca, pintassilgo. Um gavião-carijó levitando no espaço em branco, brincando na corrente de ar quente.
Energias magnéticas, elétricas, caloríficas, luminosas, ondulatórias, radiantes, hidráulicas, cinéticas, nucleares.
            Não vou caminhar necessariamente para pensar, mas o pensamento vem e às vezes me governa.
            O sol nasce, pelo menos uma vez por dia, quase sempre do mesmo lado no mesmo ponto. Acontece com o sol com a lua. O sol vem e vai, mas não muda, não se muda, mudo.
            Todo mundo sabe disso, mas às vezes se esquece.  
Quando vou pensando, penso em qualquer coisa que me vem à cabeça. Quando não penso em qualquer coisa, penso em pensar qualquer coisa ou me esqueço até de pensar. Ou penso sem saber sem querer muito levemente suavemente placidamente. Pitangueiras cheias de folhas e adornos de pingentes pitanga. Vez ou outra procuro pensar um pensamento invisível e não acho o pensar e não encontro o que pensar e o pensamento me dribla sem eu saber.
O dia marcado, eu descia a Placidina por trás do colégio Onze de Agosto, tarde macia, e um cachorrinho malhado começou a me seguir. O sol em idade de decrescimento. Quando olhei para trás o cãozinho descalço fingiu e não me olhou. Mais um pouco ele passou por mim cheirando o chão de paralelepípedos. Passou por mim, não me olhou, fingiu não me perceber, etc. Seguiu na frente, na minha frente, em frente, a cauda alçada em arco. Parava a cada latão de lixo e ficava farejando, procurando para um lado e outro da rua.   
Eu gosto de pensar enquanto caminho. É bom pensar coisas amenas leves conformes. E sempre se arranja algo para pensar até mesmo sem querer sem precisar sem concluir. A diferença entre uma lesma e um caracol. Prefiro as coisas surrealistas pra pensar. E tem gente que até gosta de caminhar ouvindo música, por quê?, porque não precisa pensar e tem gosto pra tudo.
            O que eu mais gosto, nessas horas de caminhadas, é pensar uma ideia completamente complacente. Complacentemente, que eu digo, é uma ideia fora do meu dia a dia. Por exemplo. Como seria bom e confortável e prático e saudável se eu acertasse na loteria. E faço já uns planos de milionário ricaço. Se eu fosse milionário, voaria sem demora no meu jatinho até São Paulo no estádio Morumbi pra ver o meu time campeão. E pilotaria o meu jatinho particular, junto com mais os amigos e as amigas, e iria dar um bico até o Japão ver meu time ser bicampeão.  
            Vou caminhar sempre que posso. Ultimamente é isso que vem acontecendo. Vou me distraindo, olhando as coisas, e eu olho os prédios de sete andares, os carros de lanterna acesa, um ou outro buzinando e dando adeus, bicicletas, gurias interessantes com muito cabelo até os ombros e franja caída nos olhos, vitrines com livros da moda, cachorrinhos acompanhando senhoras em passeio pela calçada, penca de pessoas paradas frente às vitrines, uma guria de cabelo curto azul, outros entrando para tomar sorvete, estudantes com mochila nas costas e celular no pé do ouvido.
            Saí para a caminhada que gosto que sempre faço sempre que posso. De manga curta e bermuda. A tarde rebentando e se fazendo noite daquele jeito, naquele dia, estava tépida. Tépida? Tépida. A boca da noite campeã estava quente agradável tranquila, muito tépida. Aqui e ali vaga-lumes taxiando entre as moitas de vassoura, são joão, cinzeiro, guamirim-felpudo, carijó, jaguaramuru, maria-pereira.
            Ainda na descida rumo ao centro, Flores da Cunha e tal - os ipês-amarelos nessa hora bem tão amarelos, ou amarelos adivinhados -, não contive minha gulodice e parei e subi no pé da cerejeira-do-mato, ali na beira da calçada, ali sob o foco de luz do poste e para apanhar um punhado de cerejas pretas de tão maduras.
É meio atitude de guri fazer uma coisa dessas, mas como ninguém estava vendo, tudo bem. Não olhei pro lado pra ver e ter certeza se alguém me cuidava. Porém, um passarinho que já estava recolhido ali entre os galhos ficou assustado, confuso, irritado e reclamou. (Um passarinho ou uma coruja ou um morcego, sei lá - não deu pra ver direito, não vi muito bem na hora do tal lusco-fusco -, mas só podia ser). Como piou na língua dele e eu não entendi, deixei ele piar sozinho, guinchar à vontade, bater as asas irritado, rir solito no mais, e continuei minha caminhada.
E fui descendo a rua comendo as frutinhas que muito me vinham na lembrança da infância pelos matos e capoeiras do bairro São Cristóvão e do bairro Retiro. Achei mesmo que o pássaro se riu, gargalhou, achei.
O sol é mecânico. O sol na verdade não para de andar de um lado a outro dentro de casa - deste para aquele outro lado do mundo.  
            Passei em frente à parada de ônibus dos alunos do Aparecida, umas 7h e 32min, dia decrescendo, hora campeã, fui caminhando sossegado, não sou de correr nem fazer o trote, fui caminhando pela calçada, olhando o chão para não escorregar e nem tropeçar e nem atropelar e nem ser atropelado e nem pisar em procedimento de cachorro, passei ali pela parada de ônibus quando uns brincalhões começaram a gasguitar qualquer coisa tipo, assim:
            - Mosquito, mosquito!...
            Nem te ligo!, não é comigo, pensei na hora. E não pensei duas vezes em mim, não pensei em nada, olhei pros postes iluminados que atraíam mariposas engraçadas. Apesar de ter achado exagero, eu nem me voltei para olhar a galerinha vaiar. Por que não vão então pra casa jogar vídeo gueime, hein?! Pensei e não falei, e achei mesmo que era um pensamento desarrazoado e que a vaia não era cabida e nem dirigida a mim.
Continuei caminhando, tranquilo, na minha, subindo o morro, já do outro lado da cidade e passando pela igreja Matriz.  
            Olhei para o alto da igreja. Pois uma curicaca vinha descendo até que pousou com calma no telhado do templo. A ave gigante escolhera descansar ali e ninguém tinha nada com isso. Aterrissou mesmo naquele enfeite em pontas apontando para o céu lá no alto escurecendo e àquela hora. Pousou e ficou olhando. Os braços e mãos nas costas. Como uma bonita e esquisita clave de sol. Um bando de andorinhas, pilotando jatos supersônicos, declarou a guerra.
E continuei andando porque era bom caminhar e a noite estava boa e crescendo campeã. Se encontrasse os meus amigos João e Cade e Rogério poderíamos jogar conversa fora até secar uns chopes com tais porções de batatas-fritas.
Uma copaié subiu sobe desde muito entre a aba da casa verde de olhos azuis e o muro de branco na rua do Basalto. É uma árvore boa de se ver. Ramos para o alto, procurando o espaço, folhas aéreas. Na aparência, ótima de saúde. Autoestima astral astronáutica.  
E fui sempre no meu passo, fazendo a minha caminhada e tal. Os pés avançando pelas lajes da calçada, contando as pedras, um saquinho de plástico “por favor me joga na lixeira”. Um pouco com tensão na batata-doce da perna direita, mas isso me era normal.
            Pela frente do boteco Pirajá, passando na calçada, olhando para dentro só para ver, ouvi o pessoal ali conversando, vi uns tomando traguinho, outros fumando porta pra fora, a tevê ligada na novela, ouvi conversas sobre futebol, sobre o governo pra ruim mais pra péssimo. Fui observando da calçada, passando no meu passo de jabuti sossegado, fui vendo e ouvindo pouca coisa.
            Já sei, ainda tive tempo de pensar andando comigo: esses tipos chegam em casa, esses aloprados, conversam dois minutos com a esposa e os filhos, e a mulher já descobre que assistiram o capítulo da novela, e ela pergunta:
            - Mas onde você estava que assistiu novela?
            - No Pirajá, vendo os melhores lances dos jogos da rodada.
            E antes que me esqueça, foi de dentro do Pirajá que um tipo que ainda não identifiquei até hoje - e se era meu conhecido ou meu meio-conhecido ou meu desconhecido, sei lá! -, gritou pra fora, talvez na minha direção:
            - Mosquito, mosquito!...
            Fiquei intrigado e olhei em volta, olhei para trás... Que será, meu?! Será que é comigo ou estou com mania de perseguição?, pensei. Deixei pra lá, dispensei, desencanei. Podia ser o apelido de alguém. Eu nunca tive apelido de Mosquito.
            No céu uma lua seca, redonda, novidade, plenilúnica, notívaga e platinada. Pulou de repente que até me fascinou. Umas estrelas por trás do mundo, vamos dizer assim. Não tive tempo de contá-las. Não quis arriscar o passo. Alguns carros estacionados em diagonal junto ao meio-fio, as placas de alguns países próximos do planeta Terra, Dois Irmãos, Cotiporã, Vista Alegre do Prata, Erebango, Vila Flores, Barras-PI, Fagundes Varela, Protásio Alves, André da Rocha, São Jorge. O vento soprando calminho nas folhas dos sapuvuçus, e nas palmas da pindobeira.
Uma casa baixa com uma vaca de fibra de vidro parada na varanda. E eu olhar para as árvores me faz bem. Não, não ia chover, talvez amanhã, pensei, só lá por próximo sábado, catapultei. Sempre chove no sábado que é pra alegrar a chuva do fim de semana. Contando cada quadra uma lua exótica e outra quadra. E aquele fim de semana seria...
Levemente pensei telefonar pra Alice e sugerir jantar fora na pizzaria ali em Veranópolis, por exemplo, ou mais pra lá em Caxias do Sul, ou ainda mais longe em Nova Petrópolis, fazia três dias quê.
            Passei em frente de uma loja amarela com a tabuleta explicando no alto da entrada: a Hixcariana, loja cantinho dos bichos de estimação e pets e mascotes. E um cãozinho colorado latiu por dentro do cercadinho de ripinhas pintadas de azul e branco. Me cheirou, me visualizou, me uivou, me olhou com desprezo surpreendente, ergueu o focinho me cheirando e me latiu na língua fácil dele que eu já traduzi na hora, assim:
            - Mosquito, mosquito!...
            Não acreditei, claro. Desde quando cachorro late coisas traduzíveis, legendáveis, dubláveis?! Isso não existe, meu!, pensei.
Continuei subindo o morro pela calçada de cá da Placidina de Araújo. Acontece com a lua com o sol. Os guabijus campeões estavam largando frutinhas pelo chão que era uma barbaridade. Tentei alcançar umas quantas e estavam muito altas e era perigoso escorregar, mas... mas peraí, meu! Me caiu a ficha. Que história foi essa de cachorro latir em português?! Não, não era uma boa hora para ficar imaginando coisas do desenho animado. Não era momento para ter esse tipo de absurdo no meio dos pensamentos. Eu estava surtando, estava sonhando extraordinários, levando o mundo na brincadeira, caminhando com ideias na altura das nuvens, só podia ser. Quase voltei falar com o guaipeca, mas resisti, desconversei, disfarcei e aí pensei... sei lá!
            Na esquina da Júlio de Castilhos com a Presidente Vargas, passando esbaforido pela frente da barbearia Anaiá, o próprio barbeiro seu Aracati me olhava da soleira da porta e me acenava com a mão dele. E ele repetiu um refrão com a voz arrastada igual a dele mesmo, um bordão que vinha me acompanhando e me seguindo pela caminhada não sei desde onde e por quê, alguma coisa que eu ouvia e não assinava, esse estribilho mesmo:
            - Mosquito, mosquito!...
            Mas será que é o pé da cobra, meu! Isso é comigo ou estou piorando?! Onde se viu tamanha viajeira, meu! Eu pensava essas e outras e me questionava. Mas também pensei que a rua é pública e democrática e campeã e qualquer um pode gritar o que quiser.
E quase voltei pedir maiores explicações ao seu Aracati. Olhei para trás e ele havia sumido. Olhei para os lados, olhei as solas dos tênis, olhei para trás outra vez... continuei a caminhada. Hum!... será que era a dengue? Que será esta história de mosquitos, pernilongos, borrachudos, hein?! Não pode ser comigo, pensei, nunca tive esse apelido, repensei!
            Olhei a lua lunática. Agradecer àquela noite como aquela noite. Sem aquela noite a lua não seria necessária, não seria possível, não seria impossível.
            O mundo dá voltas e voltas. O tempo não passa. O rio corre para a foz. Depois, pensando bem, o rio tropeça em algumas cascatas, o vento faz o tempo revoltar arrepiar, o mundo não sai sequer das idas e vindas de um globo giratório.  
            Parei no alto do morro de lá. Ali num degrau da escadinha da Gruta, no Horto. Respirei uns cinco minutos, dez minutos, talvez vinte, respirei, bebi água da garrafinha, olhando a noite com ruídos de noite, carros rodando, tevês nos telejornais, olhando a cidade campeã um pouco do alto. Era legal e eu apreciei e aprendi e me diverti.
            O vento soprava nos caaxiras, marmeladas, sapopemas, angicos, cragoatãs-brancos, paineiras. Noite astronômica. Era outra coisa, outra coisa!    
Tinha até um pinheiro araucária campeão falando com a lua bola de prata. O pinheiro abrira os braços. A lua tirava fotos com o celular. Depois conversaram mais um pouco. O pinheiro não ia embora.
Será que em Aquidabã essa hora da noite, será que lá está chovendo?, pensei. A hora era a mesma, talvez um pouco mais cedo. Aquidabã devia ser legal, Aquidabã supercampeã, continuei pensando. Aquidabã tem um nome bonito. Deve ter uma pracinha chamada praça da Bandeira ou praça Tiradentes ou praça Landell de Moura.
E o ar que se respira e a água que se bebe. Passaram duas potrancas no trote. Uma delas tinha rabo de cavalo, a outra uma faixa de pano branco segurando as crinas. Trotavam num galopar esquipado como duas bonitas azulega e baia.
A praia de Arambaré. Que será que é. Nunca fui, um dia irei. Tem que estar ventando por lá, pensei. Fazendo ondas no mar. Lugar de sorte. Arambaré foi achado.   
E bebi mais um gole de água e me ergui e vim embora. Tudo estava bem. Queria pensar algumas coisas. Fui pensando o que pensar. Se a ideia não pintasse, paciência. O que fazer nas férias de janeiro: pescar na beira do rio Sabia, acampar na beira do rio da Prata, nadar nos remansos do rio Itacaiúnas, remar canoa nas corredeiras do rio Cacondé junto das terras dos oro-uins. Já eram uns três para quatro quilômetros de caminhada, lua matemática, meia-volta volver. E tudo bem.
            Entrei pela rua Pinheiro Machado e mais adiante pegaria a rua Visconde de Mauá até topar com a avenida Borges. A lua flutuava, chutada pra fora no espaço. Pela altura passei ali em frente do ginásio do União e um camarada de outros futebóis me jogou essa, me cumprimentando, me saudando, me alugando:
            - Mosquito, mosquito!...
            Dessa vez eu estranhei e estranhei o meu amigo. Quando se viu, meu! Parece noite de mosquito e mosquitos! Mas pera aí!... E comecei a reparar que não eram só mariposas pelo espaço. Havia mais que isso. Talvez alguns besouros, zumbidos e outros insetos campeões. É, podia ser!
            Pensei telefonar pra Alice e convidar até uma pizzaria em Nova Bassano, por exemplo, ou mais longe até Vila Maria, quem sabe lá por Santo Antônio do Planalto, três dias quê, é muito.
            A lua parada no meio da estratosfera. A lua com a cara e cheia de pontos alternados alternativos. A lua nasce de uma árvore, de uma cidade, de um sétimo andar, de um açude, e depende.
            No fundo da panela, no centro da cidade, e subindo para São Cristóvão, antes Sagrada Família, a loja Manaí: calças, camisas, etc, calçados, e com moças ajeitadas em uniforme verde segurando a porta de vidro. Algumas pessoas sentadas na varanda tomando chimarrão. Subir todos os santos ajudam. E eu estava ali pra isso.
            Dali mesmo olhando o alto, se via o céu lá pro fundo contado de estrelas Marias. O Cruzeiro do Sul voando na constelação. Céu campeão cumprindo ordens.  
            Por perto da casa do tio e tia e primas - que eu não ia entrar pra tomar um mate e bater um papo, deixaria pra uma outra vez, quem sabe -, por ali nessa altura, uns carinhas que desciam na contramão, e eram uns quatro, um deles me olhou riu e disse, uma velha canção da moda, só podia ser:
            - Mosquito, mosquito!...
            Passei por eles, eles quatro passaram por mim, eu parei, foram indo, esperei tomarem uma distância, e xinguei cobras e lagartos com arame farpado. Em voz baixa, claro. Chegando a uma única conclusão possível:
            - Me deram apelido de Mosquito e eu nem imagino. É, é isso mesmo. Ou sei lá, meu!
            Me sentia já com certo cansaço e meio requentado pelo corpo inteiro. A caminhada fora de uns três quatro mais a volta de uns três quatro quilômetros. O normal o de sempre, mas cansa, cansou. Tudo bem, era isso mesmo. Obrigado.
            Olhei a padaria Itaguari. A padaria com vitrines rebrilhando, e motivos natalinos, heras imitando plástico, pinheirinho imitando plástico, nuvens imitando algodão, bonequinhos imitando família de Belém do Pará. E pensei entrar por que não entrar. Um pão de queijo, um pastel de queijo, uma fatia de bolo de chocolate, uma fatia de torta de chocolate, um suco de açaí, um suco de caju. Parei no vidro como um inseto. Fiquei trocando sabores entre um bolo de laranja e um bolo de pequi. Pensei, calculei oito ao quadrado, muito, assaz, bastante, foram três voltas ao mundo pensando. Me sugeri entrar e comer uma massa-folhada. E decidi mesmo passar vontade e seguir adiante embora. Oxalá! Parabéns! Queria comer qualquer coisa doce porque estava em fase de crescimento. Paciência.
            O cãozinho cheirando pela beira da rua. Meio de lado no trote das quatro pernas. Me apareceu ali na entrada dos postos de gasolina. Olhou para o latão frente do hotel e continuou pela rua, pelo meio-fio. Era o mesmo vira-latinha de manchas pretas e brancas, cauda aérea em arco, língua pendente, orelhas grandes, língua de fora, etc.  
            Passei por baixo dos araçás da calçada perto de casa, na calçada de casa, abri o portãozinho e tal. E cheguei em casa, e fui subindo a escadaria, abri a porta, o quarto, o cômodo, a peça, e fui direto tomar meu banho, e me olhei no espelho de passagem... mas... peraí, meu!...
            - Mosquito, mosquito!...
Foi o que gritei comigo mesmo ali no meio do espelho que me devolvia:
 - Mosquito, mosquito!...
E mais mosquitos. O boné... Não, não era possível, meu! Não tinha acontecido comigo! Meu boné estava sujo de procedimento de passarinho, cara! E um enxame de mosquitos rodeava, acompanhava, talvez de onde, seguia desde sempre, a caminhada toda... uma sujeirinha branca rodeada de mosquitos.
Pensei, repensei onde poderia ter sido o incidente... Só pode ter acontecido na hora que fui roubar cerejas da cerejeira-do-mato, pensei. E o passarinho ou coruja ou morcego, dono do pedaço, acabou se vingando e me sujando, só pode, pensei. Aquela risada ainda ressoava nos meus ouvidos. E o aladinho tinha feito procedimento no meu boné, etc. E a sujeirinha atraíra os insetos e os danadinhos ficaram me acompanhando o itinerário todo da caminhada. E o pessoal da rua tentando me alertar:
- Mosquito, mosquito!...
            Que pena! Que sorte! Que mico! Que nada! Que mala!