domingo, 23 de junho de 2013

Quem Bom!


 

 

            

       Vinha tão perto, a tarde estava linda, era de admirar.

       Durante a tarde pela manhã em casa no apê do quinto andar do edifício Timburé, mentalizou mentalizou projetou a noite que desejava que procurava que queria que teria que precisava. Uma noite de sexta-feira produtiva e boa e calma. Santa paciência, sempre sempre, pelo amor de Deus! Sem chuvas sem ventos fortes sem atropelos sem embaraços sem galimatias. E acendeu uma vela azul de laço azul para a Nossa Senhora da Aparecida, odor de santidade, e outra vermelha de laço vermelho para o São Cristóvão.

       Ora essa! Aos 14 de junho de dois mil e treze... Saiu a tarde inefável e entrou a noite.

       Embarcou purificada na estação Itaquatiara do metrô às 20 horas. Ela foi, à hora aprazada, ao encontro do promissor acaso imprevisto futuro, batom sabor bombom. Por um triz ia perdendo o trem. Noite metropolitana, luzes pela cidade, ruídos do trânsito incessante, gente voltando na maioria. Procurava por um programa leve que possibilitasse ir às compras na segunda-feira e ao shopping no domingo.

       Preferência por preferência tinha em princípio suas preferências por homens de barba rala, homem  de bigode era ridículo, homens de cabelo natural, homens dos trinta para baixo, homens grandes esses que é bom. Imaginava sonhava aquela e várias outras coisas.

       Chegou ao centro às 20:30 e foi para a rua Itajubá. Escolhida a rua pela calçada larga arborizada da esquerda as árvores alternativas, cambará-do-campo juazeiro jacarandá-pitanga pindaúba. Caminhava devagar. Adianta muito sorrir e fica bonito bonita. Com aquele jeito tanto de quem está sozinha procurando companhia diversão entretenimento lazer distração. Nem séria, nem espetacular. Pensamentos contra ideias. Jeito distraído, abordável, suave, limpa, cunhantã, arzinho sério, jeito perfeito de passatempo, perscrutadora, cinturinha estreita, um sorriso muito lindo. Esclarecimentos completos. Vestida com tênis e meiões de listras verdes e amarelas, um número ímpar, cabelo bem caído sobre os olhos, saia curta lilás plissada com babados incríveis, miniblusa tomara-que-caia com enseadas e lajes e cascatas do rio Paraibuna e uma pochete à tira colo. Uma beleza concentrada, um número, pura verdade, ótima ideia, criativa, beleza matriculada, criatura privilegiada, bonita maravilhosa que nem se fala!, esguia como palmeira guacuri, sadia, inesquecível, madeixas douradas. Pelo formato, pelo tipo, pelo jeito, pelo andar, pelo sabor e parando à frente de cada vitrine, fumando, displicente, simples, solene, formalizada: uma putinha fresca.

       Parou um carro no meio da rua bonito de vidro fumê placa de lugarejo distante, ora se viu!, de Itamonte o vidro elétrico desceu e uma das duas mulheres a convidou:

       - Quer um programa, linda taguari?

       Aceitou o amável convite. Ela embarcou calculando o preço o babado a noite de romance o baile as horas de folguedo as libações. Cobraria alto, em dobro, mais que com homens e seria até melhor.

       Tem bom!

       Pegou um táxi na madrugada de volta para casa. O dinheiro dinheiro na pochete. Daria para fazer e ainda sobraria. Como foi e como não foi. Não é todo dia que as coisas vão tanto bem.

       Tomou um banho de água quente doce e se perfumou com aroma de andirapuampé. O sol espiando ainda calculando o mundo novo. Agora sentia o corpo pisado, esfregado, lambido, estapeado, as mordidas deixaram marcas. Teve um rápido e terno olhar para com a santa e o santo seus associados e prediletos. Se cobriu até os olhos com o lençol branquinho. Apareceu na cabeça o fantasma a voz do professor de História. Ele era engraçado e ele ficava jovial e ele narrava desfilando na frente do quadro olhando para além da janela envidraçada, às vezes.

       Estava com sono e se virou na cama tentando se abandonar, deixar coisas para pensar amanhã, ou nunca. Um último olhar, de esguelha, para aquele professor de barba rala e grisalha que tinha assunto de sobra. Havia tanta coisa a fazer! As dores nas partes mais sensitivas davam um gemido gostoso totoso, hum!... As duas coroas pegaram pesado, foi. O professor de História falando falando gesticulando andando pela sala de aula colocando assim algo como e aleatoriamente sobre se referindo ao farol do Cabo Branco ou Ponta do Seixas, na João Pessoa... Teve que acompanhá-las na cocaína. Beijos na boca. Faz parte.

 

      

domingo, 2 de junho de 2013

O Jongo


 

 

      
       Uma vez... e me lembro como se fosse hoje.

       Piraba foi com as amigas os amigos na festa à beira-rio a praia branca lá junto da clareira na vizinhança da Garganta do Embaú.

       Ainda era dia quando nadavam rio abaixo. Uns acompanhavam no fundo outros nem tanto mais na superfície pelas margens. Águas limpas ainda no verão dias longos árvores frutíferas floridas verdes cambiantes com aromas de jurema-branca, içá, coirana-de-são-paulo, aturiá, jacarandatã, caruru-amargo, jaborandi-do-mato, vinhático-testa-de-boi.

       O sol caía atrás do pico da Pedra Menina cheio em ondas vermelhas como gigantescas asas abertas de araras-vermelhas-grandes. O boto-cinzento seguia mais à frente guiando mergulhando parando para olhar atrás parando para sorrir parando para rir clicri! clicri!... mergulhando emergindo imergindo frequentemente nadando estabanando à frente indicando o caminho sem correnteza águas claras pelo paraná mais lógico.

       Mas as amigas todas só pensavam no baile, suspiravam antecipado, se abraçavam confidentes, desabafavam os sonhos, ruidosas, relembravam os desejos, retocavam a maquilagem, jolizes, se arrumavam, já que nenhuma ou poucas poucas tinham a tal daquela experiência.

       - Piaba, e esse óculos?!

       - É meu.

       Mas os amigos iam competindo velocidade voos ou saltos e aterrissagens espetaculares fazendo travessuras e gritando bravatas inventando coreografias disputando tolas bobagens trocando caretas temerários irrequietos a valer até com ousadias perigosas orgulhosas malabaristas acrobatas.

       - Eu tenho amigas amigos em todo o mundo!

       - Inclusive da Mongólia? 

       A noite desceu das regiões estratosféricas com uma ninhada de estrelas. O cardume chegou à praça de esportes Duque de Caxias envolta na bagunça da música e tumulto de espécies e de raças, linguagens, bebidas, doces, frutas, espigas de milho verde, pamonhas, onomatopeias, garapas, desfiles na moda, bandeirinhas de papel leve coloridas presas em barbantes puxados de árvore para árvore balançando ao vento que vinha ora da banda da serra da Mantiqueira ora da banda do rio Pitinga.

       As amigas se acomodaram todas pelos cantos nas laterais olhando com olhos acesos esbugalhados redondos saltados noturnos aguados os acontecimentos os fenômenos. Ensaiaram os movimentos da música em pequenas e tímidas rabanadas as guelras bem abertas para respirar melhor fora da água a franja nos olhos. Riram da cócega da novidade da iniciação da exposição e de mais todas as sensações.

       Breve e preocupante, um tiroteio uns tiros de metralhadora no alto do morro do convento de São Bento fez todo mundo se abaixar se jogar no chão se abraçar consigo mesmo pedir aos santos pedir aos berros fechar os olhos fazer promessa. A música desafinou, o pipoco durou cinco minutos, uma indecisão mundial, todos voltaram contrafeitos para o ar livre da festa.

       O Peixe-Lenha veio e pediu a mão de Piraba. Era um moço de chapéu de couro, cordões de linho coloridos no pulso, bonito de barbilhões enormes pontudos esticados até a nadadeira caudal, mais alto, nadadeiras bandeiras ao vento, cheirando à fumaça de cigarro, sapatos de escamas rebrilhantes e escorregadias, copo de bebida verde na mão.

       Esse moço de tal espécie não parou de falar coisas à toa no ouvido da Piraba. Ela gostou de ouvir, adorou se sentir prestigiada conferida, mas não compreendia nada, toda tonta, confusa com as luzes giroscópicas, o riso de tantos, o entra e sai de casais grupos bandos conjuntos, empurra-empurra, o gritinho das mais eufóricas, brincadeiras, tatibitates, etc, azaração, pegação, falação. Experimentou uma bebida vermelha. Era tudo como sonhara e mais.

       Quando se viu sozinha com o rapaz no escuro longe do som da festa na sombra atrás de umas pedras seu corpo tomou de tremer como vara verde ao vento no vento. Sentiu que ele a procurava muito por todas as partes e seu hálito de cerveja era sem graça. Queria de volta seu livre arbítrio. E até amoleceu as nadadeiras as barbatanas a cauda e caiu nos seus braços como uma invertebrada.

       Piraba não sabia como e nem tinha fantasias enrolada num certo transe entorpecente devaneante soporífero irreversível irresponsável transcendente.

       Depois não viu mais o rapaz e nem a lua no céu nem uma estrela pra semente nem um cometa a tiracolo. A mata virou um breu de não se enxergar um palmo esbarrar em tudo. Tentou procurar a clareira a praça da festança, vencer a grama molhada o capim escorregadio as plantas espinhentas o pedregulho pontiagudo, procurou ouvir aquela música, precisava chegar ao rio. Escutou pios assobios estalidos reparou olhos de todos os lados uns mais perto. Alguém a seguiu, muitos a seguiram pé ante pé ou em voos ocultos altos baixos e cegos. Num cemitério mongoió um jacareúna desenterrando a noiva com uma pá enferrujada de cabo curto. Miado de gato-do-mato em olhos de brasa brabos. Árvores se fizeram de estátuas de fantasmas abriram as bocarras as gargantas mostraram as garras secas e mexeram os braços mirados em adeuses. Nervosa sem fala suou muito resmungou para si mesma calafrios boca aberta tiques nervosos pensamento absorvente. Os sapos e gias e bacuraus pediram para esperar, roucos, cavernosos, sérios, cantaram de sentinelas nos ocos nos tocos debaixo de folhas gigantescas nos tucurus nos igarapés e nos igapós. Aglomerações agrupamentos enxames de tatuquiras vieram cheirar seu cabelo iam e voltavam procuraram entrar pelos ouvidos olhos nariz. O chão fofo confundiu com casca de cobra grande. Vezes uma topada no galho baixo uma tropeçada na pedra solta barro até os joelhos. Despertaram distantes no fim do mundo uns riscos de fogo chicotes queimados umas bombas tum! tum!... anunciando temporal. Uma igara passeou suavemente levemente flutuante levada pela pequena incerteza da corrente águas turvas carregada abarrotada de esqueletos brancos sorridentes e espectantes apontando falanges proximais falanginhas mediais falangetas distais indigitando o longo caminho do acaso. A quadragésima vez que passou pela mesma caaxió. Colecionou folhas pedrinhas sementes araticuns-do-mato que ia catando e protegendo e guardando para debaixo do braço.

       Algumas horas outros dias são realmente muito tempo. O tempo desperdiçado ou adquirido. O rio descendente do tempo.

       O tempo do rio. A memória do tempo. O rio sempre rolando. O tempo descendo com o rio.

       Então, a Piraba entrou num novelo remoinho sumidouro rebojo torvelinho sorvedouro, o percurso foi exaustivo exaustivo, numa boca tragada sugada engolida e caiu empanada no abismo da panela.

       E isso é tudo (a história que contei) e não esclarece muito nem nada.

 

          

domingo, 14 de abril de 2013

Paisagem Possível


             

       As árvores as aves festejavam o ar livre e leve e limpo e quente da manhã ensolarada. Quando o sol desperdiçou estilhaços de metal e de vidro nas águas buliçosas do rio. Barrancos que naufragaram com o peso da terra encharcada. Os papagaios-da-serra carregando macacaúba. A serra do Espinhaço em azul de longe.

       As poucas nuvens brancas procuravam sombra entre as cerejas-de-purga, douradinhas, ervas-de-lagarto, ceribas, ibapois. O vento amainara.

       Mairata nascera já com a intenção na ideia fixa de que um belo dia iria namorar com a jovem índia majubim. E não tirou mais isso da cabeça, até morrer.

       - Vou andar de carro vermelho, vou negociar um iate, vou de jatinho até Apucarana, vou remar de ubá com a cunhantã nhandeva.

       Uma parte do mundo é noite, a outra é dia. O rio das Velhas brilha no entardecer. Sempre foi e assim será.

       - O rio de minha aldeia é novo em folha. Gosto de montanhas no horizonte azuis. Subo na canela-sassafrás desde que era ainda curumim curumim.

       A lua passou por debaixo da ponte. O piracanjuba parou atento olhando de boca aberta. Fez a volta pela rua. O curiango assobiou do alto da maparajuba. Bateu à janela de quem abriu a porta.

       Anoitece em Vitória e em Rio Branco ainda é de tarde. Faz calor em Pauini e frio em Candiota. Se tem lua em Flexeiras não tem lua em Mongaguá. E chove em Monte Alegre e não chove há dez anos nos pastos em São Luís de Quitunde. O guri que quer ser jogador de futebol nasceu em Rio Acima e deixou Itamarandiba para depois.

       Os dias de verão são ótimos como o sol;

       Uma menina de bicicleta no parque;

       Na tardezinha durante a chuva;

       Criançada gosta de bicicleta na chuva.

       Na rua, por exemplo, Mairata viu que existem várias violências desnecessárias. O pai brigou com a mãe que gritou com o filho que latiu pro cachorro. A polícia que entrou no bairro procurou maconha, trocou tiros, prendeu, cobrou e rendeu. Os políticos que representam, que roubam, que choram diante das câmaras de tevê, que distribuem sinecuras e secretarias e que pedem votos. Os famosos que não querem andar na rua com pavor de abraços e beijos e pedidos de autógrafos, e etc.

       - Vou abraçar e beijar com a cunhantã maxacali, aruanã! aruanã! - berrava Mairata.

       O vento descabela com as árvores, penteia e despenteia com as folhas, desgrenha com as plantas.

       A cidade de Sabará é uma das mais lindas do país, sem dúvida. Banhada pelo rio Ribeirão Sabará. A serra da Piedade fica por ali assim ao redor ao vivo mais perto do céu mais perto que nunca. Terra de pedras preciosas esmeraldas diamantes turmalinas cunhantãs bororo.

       De perto um ponto qualquer da avenida Princesa Isabel, Peruíbe...

       - Pera aí! Pera aí!...

       ...um quiosque onde se vende entre outras coisas boas e comuns a garapa e o pastel feitos na hora.

       Ele contou tudo para os amigos, se abriu para com os pais os anciões as anciãs o cacique e o pajé. Se confessou muito apaixonado, que era outro homem, arranjara trabalho, voltaria a estudar, não se marginalizou na cidade dos brancos e dos pretos, continuaria visitando os parentes, largara a bebida e a maconha, não morava mais num tijupá do beco do Bororé.

       - Vou sonhar, apaixonadamente sim irmãos e irmãs, com a cunhantã mariaté!

       A chuva caía com gosto de água da chuva. Sobre os ombros e os omoplatas de Mairata. Chuva continuada. Sobre os cabelos negros e finos e macios e lisos de Mairata. A chuva copiosa escachoante estrondeante. Depois, Mairata estendeu as palmas das mãos para cima e a água molhou as palmas as conchas das mãos. Assim, Mairata conferiu que a chuva estava parando.

       O céu de Campanha é mais baixo. O céu de Guapó é mais alto. Logo as montanhas da serra do Itatins são mais estão nos lugares certos bem elevados. O céu de São João del-Rei é mais baixo e módico. E céu por céu o céu de Natividade é mais céu azul.

       Contaram que o Peabiru passava ali e repartia o rio Taquari em duas partes iguais. Que o caminho dos índios era aqui ao redor da lagoa Vapabuçu. Os pousos longos eram por aí na altura da serra de Itacambira. Contam que este parque do Sumidouro era principal abrigo dos índios miranha no inverno.

       A chuva parou na praça General Osório. E as árvores centenárias estavam molhadas e pingando, tremendo de frio mais o vento gelado. Uma rua chamada Capotiraguá sumia por aí subindo o morro do Pirixi. Uma avenida chamada Cutucurim andava de lá pra cá. Os automóveis amarelos e os pretos e os verdes e os busões de verde-claro também rodavam molhados no asfalto lavado banhado quase alagado.

       - Vou comer barreado em Almirante Tamandaré, vaca atolada em Beagá, boi ralado em Cana Brava do Norte, espeto corrido em Santarém, boi na brasa em Pedra Dourada - Comentou Mairata como ele costumava falar na maneira habitual de dizer as coisas.

       Saiu na noite infantil, Mairata andou como doido pela cidade grande, bebeu no bar da esquina com amigos e com desconhecidos, foram para um inferninho obscuro de luz estroboscópica, beberam todas no bico, assustaram, azararam, fumaram a dar com pau, vomitaram, criaram caso, roubaram um carro na praça do Coreto, atropelaram um ciclista, correram da brigada, pularam o muro dos cacos de vidro e cada um por si, etc.

       - Saibam só de uma coisa: Que eu vou dormir com a cunhantã caripuna!

       As andorinhas gostam de telhas abas telhados. A cor é o som de si para si. O som grita uma cor comum. O som do grilo-preto tem uma cor metálica. O peixe decola em cores aladas. A borboleta flutua em sons decorados.

       - Estava ali, a árvore me olhando, eu fingindo não vê-la, sempre de cabeça baixa pensativo, as folhas bebendo meu cocar de penas de araras-azuis-grandes e gaviões-carijós e uirapurus-laranjas e charãs e meus cabelos até os ombros.

       Chegou numa praça chamada Cinco Pontas. Depois um panorama de plantas que se agitavam diversificadas meio agrupadas preservadas em verdes, cipó-de-cobra, guaré, mairá, assa-peixe, raiz-amargosa, erva-preá, indaiá-rasteira. A cidade de Riachinho é mais velha que a cidade de Porto da Folha. Bichos soltos e pássaros piando em cada canto no seu galho, curupuruí, tuim-de-asa-azul, tufinho-verde, pica-pau-fura-laranja, pomba-trocal, marianinha, arapaçu, anu-coroca. Pegou a avenida Pititinga para o município de Ponto Belo.

       - Pensei o que pensar e acho que adormeci: Sonhei com o time campeão, pois ouvi gritos uivos vivas jogos pirotécnicos intermitentes, despertei, senti falta da cunhantã iurimagua de olhos mansos de olhos contentes perpendicular paralela de olhos ponderados.

       A menina trocou as asas e fantasiou da janela azul da casa verde;

       O guri passou por dentro da árvore, quicou a lua no campinho, trotou descalço na chuva, cabeceou uma nuvem e correu para o balanço;

       A ave veio encontrar a menina da bicicleta no alto da cuaxinguba;

       A primeira estrela da tarde inaugurou o rio os peixes as estrelas a lua;

       As meninas vinham de volta e curtiam jogar as pernas e rindo ainda das ondas da praia.

       O fundador de Pirenópolis foi um mascate sírio ou libanês. Foi um fora da lei muito procurado por todo o centro-oeste e parque Serra Negra. Um bandeirante paulista de família de fazendeiros com fazendas de gado e de café uma em Marabá Paulista e outra em Barra do Chapéu. Foi um mateiro atrás de ervas e plantas venenosas que curam todo tipo de doença. Um caçador de antas e pacas e cutias vendedor de peles com loja na avenida Nossa Senhora de Copacabana no centro de Macaé. O nome dele era Cutiaia e o sobrenome De Barbatimão. Às margens do rio Corumbá que passa ainda hoje ali mesmo e por volta de 1786 ou 1796 utilizando os rios como estradas e a sorte como abrigo e o destino como rio. De pronto abraçou um pé de guaporé onde hoje é o centro da cidade e se localiza a praça dos Remédios.

       A lua pulou no ar espacial, saiu voluntariamente para o espaço sideral. Bonita como uma festa para os olhos. Chupando cajus cajus e jogando as castanhas fora.

       - E fui para lá na manhã do dia na praça Brasil, Belém. Escalei a fortaleza de São José de Macapá. Cheguei antes das 10h na praia da Barra de Guaratiba.

       O rio molha o olhar da cidade. Do rio vem o peixe dourado tucunaré lambari bagre curupeté. Os turistas vem e vão passando em barco que passa. A mãe-d'água aparece para chamar a lua e se pentear. Nada se faz na cidade que o rio não saiba e sem o rio saber nadar.

       - Cunhantã cabixiana veio de Várzea da Palma para me conferir. Seria um descalabro encobrir o candelabro.

       O gênio Mairata pesquisou belos lugares para sua maravilhosa esperada futura lua de mel, Aparecida do Taboado continuava linda durante o dia, Foz do Iguaçu sétima maravilha da natureza, Pantanal Mato-Grossense inundado até dezembro, Bilac, porto de Jaraguá, praia de Pajuçara, Mirante do Paranapanema, Olho d'Água das Flores, etc.

       O fio de água importante. Despencando do último andar da montanha. Pega nos nervos. Se desenhando entre pedrouços. Cada vez com mais pernas e voos.

       - Alô! Alô!, telefono... Vou beijar com a cunhantã arapaço.

       Primeiro: Não tinha mundo e isso não importa. No começo não foi uma árvore não era uma arapati. No início era uma baita pedra. Surgiu o rio Buranhém. Aí, apareceu a jamacaru. Uma arapapá passou passo a passo no atolado. Saltitante cuxiú-preto balançou no cipó-cravo. Seriemas apareceram, duas delas, em toda parte, catando do capim-gordo no campo, parando para olhar ao derredor e no meio da manhã de cerração. Pegadas de ratos-de-espinho vieram beber água. Segundo: Tinha um casal de índios cuxitineri. Uma índia sem enfeites foi se banhar no olho d'água. A onça-pintada, em a figura abstrata de pontos pretos e amarelos, sacudiu a cauda nas folhas soltas do caminho, deixou as patas na piçarra, tamborilou a cauda no tronco caído oco de nhambuí. Todo mundo gosta de pedras. Escutou se o suia chamava a namorada. O casal de índios trouxe as arapus a mandioca o milho a abóbora e coisas de comer o pote o jirau o tipiti e coisas de utilidades domésticas a rede a esteira e coisas de dormir o jamaxim o arco o carcás e coisas de carregar.

       - Fui vendedor de pamonha pela larga e extensa avenida Maipuré, Piranguçu. Um ano no exército servindo em Serra do Navio. Atendente de loja de roupas prontas em Vila Propício: "Ei, gente boa! Quer dar uma olhada no produto! Coisa fina importante, etc, entre, entre e esteja à vontade!". Trabalhei no governo de Caxambu do Sul no período de 2004 até 2008. Professor voluntário de português em Serra na aldeia dos aruá. Depois fui arigó na fábrica de cerveja em Itararé. Taxista por cinco anos em Cruzeiro do Iguaçu. 

       Aportando ali e acolá foi conhecer a aldeia da Juçara, da Yara, da Iracema, da Junara. Almoçou com Maitê, Jandira, Maiara - esta de barriguinha trincada, miçangas no tornozelo, desenhos no rosto, pena de japué na orelha, cabelos bem pretos, esguia, cabelos que brilhavam ao sol, pernas longas, cabelos com franja para os olhos negros -, e uma hora depois já estava em trânsito para Lagoa de Pedras. Certa altura conheceu a Januária e depois de meia hora desceu já noturno o rio Paraguaçu num catamarã.

       - Vou pernoitar na aldeia da cunhantã Tainá uitoto. Escuto a cor bisotada dos peixes no rio Brumado, serra do Pireneus.

       Enquanto flui o rio, espectro solar exposto, gorjeio de dançador-laranja, e a tarde que se apaga.

       - Jaciara dos marabitana, aos poucos. Ela veio de onde, se me lembro. Passou em partes em partes. Cabelos soltos e lisos e pretos e longos. Umbigo plexo solar de fora. Os cajuzinhos verdes firmes de futuro. Sorriso solto de borboleta de um dia. Sorriso de cascata na itaipava. Sorriso de corruíra na janela me acordando. E desapareceu, ela num movimento de remoinho.

       O rio de águas cheio, buliçosas, abundantes, ondulantes, falantes, rebrilhantes, verdejantes curupiás camarás congonhas-mansas canelas-de-ema carurus-de-espiga embiris capins-canudinhos.

       - Sonhei com a Maíra pataxó. Eu a vi nua na beira do rio. Estávamos enrolados em erva-santa, ela sorrindo, e nos educando. Me instruiu para lhe beijar o seio. E nua como folha de barba-de-paca na chuva. E nua como flor de braúna na manhã de verão. Toda pura rindo só os olhos verdes. Fui esquentando o peito, o rosto, as orelhas, e depois. Era ela com certeza eu tenho.     

       As índias falavam ou cantavam. As índias se movimentavam constantemente. As índias espremiam massa de mandioca. As índias carregavam bebês na sacola. As índias trilhavam na capoeira até os pés de babaçu.

       Chapéus verão espaçonaves;

       Naves sol chapéus;

       Calor marte chapéus;

       Discos quarenta chapéus.

       Se conhecesse nesse verão a cidade de Tombos e as cascatas do rio Carangola. No outro próximo verão poderia conhecer a caverna da Pedra Pintada na serra da Paituna.

       A lua subiu o morro atrás da escola para colher  cerejas-do-rio-grande. A lua pedalou até  o morro além da escola para pegar guabirobas. A lua escalou a escada do morro rente da escola para apanhar jabuticabas.

       Sem perda de tempo, dando tempo ao tempo, tudo no tempo certo, sem perder tempo.

       O rio bebendo como sempre, e vai indo. Indiferente aos tempos que correm. Mergulhou várias vezes em dias diferentes. O banho fez efeito em cronologias. Depois, sempre esperou que algo a mais acontecesse. O sol caminhando entre nuvens aparecendo, desaparecendo, reaparecendo. Mairata virou em joão-teneném e pulou para o alto da mirindiba mais próxima.

       Chegou um dia Mairata cansou de esperar e separou a índia suiá mais nova que encontrou. Correram para as terras banhadas pelo rio Jacuípe. Subiram na imbuia riram de cansar a barriga e se beijaram durante a imbuia toda e bem até tarde.

       - Vou descansar na rede carijó com a cunhantã mais linda que há do tempo existir.

 

      

domingo, 24 de março de 2013

Contos de Santa Luzia, (7)


                          

       Seus lábios finos esfarelados um dia seriam quentes ardentes molhados sensuais:

       - Idade um dois três quatro...

       Vivi era uma menina filha única órfã de pai e de mãe. E ocupava aquela altura já os seus doze anos. Bermuda brocada, colar de contas, pendentes de aro. Não passaria dos doze. Menina escassa, seca por fora, coberta de pó vermelho, vazia por dentro.

       Geralmente bordando no quarto sentada perto da janela aberta cortina descerrada. Bordando lenços lençóis ou olhando a pracinha deserta com a rua solitária e poeirenta.

       Calor sufocante, terra aquecida, chão esturricado, solo estéril. O cheiro de tudo respirava o pó vermelho na abandonada vila Santa Luzia.

       Não tinha revistinha não tinha rádio e não sabia cantar trautear. Cabelos vermelhos cortados curtos, sardentinha, lábios rachados, seios incipientes, pestanas compridas, despreparada, maquiagem vermelha. Nem alta nem baixa para a idade. Sorriso amarelo e de vez em quando.

       Manhã a Vivi atravessou a rua Única; o céu completamente pegado de nuvens vermelhas, revoltas; a luz fosca, a luz tonta sem brilho opaca embaçada do sol; um saci rodou no meio da poeira solta.

       A menina descalça, a rua descalça. A guria foi quase sem pensar, jogando uma perna na frente da outra - como as menininhas fazem quando estão de coração oco. Cruzou a rua poeirenta e pedregosa, única rua da vila, poeira batendo na cara, poeira fina com gosto de incêndio. Chegou à pracinha seca queimada esquecida e parou, de repente.

       Uma quietude esquisita. Nuvens de poeira navegantes encobrindo tudo. Parecia a parada a estação do fim dos tempos. Não existiam passarinhos para ouvir e para ver e para contar, corruíras, pintassilgos, irapurás, tudo desaparecido. Era mesmo o fim do mundo. Não se via verde algum, carandá, maniçoba, pataquera, capitiú, bacuri. Vento e calor em companhia da poeira.

       Vivi ficou ali tanto tempo curtindo o mormaço. Calada e tão mudinha e acocorada como coisa da paisagem seca, como pedregulho confundido na paisagem árida, como toco cariado de angico.

       Cavava um buraquinho com o dedo. Cavava um buraquinho com pedaço de palito. Trocava umas pedrinhas de lugar. Curtida de mormaço. Com a ponta do dedão do pé riscava figuras vazias no chão fofo poeirento.

       A garotinha se ergueu de mansinho e retornou para casa. Foi pegar a velha bicicleta, magrela cheia de enfeites mirabolantes indiscretos, tiras de pano e de plástico em cores variadas, buzina de plástico em forma de corneta sanfonada, catavento de plástico com as pazinhas amarelas, antenas vibrantes de plástico azul com bola na ponta, etc. Andou pedalando pela rua de terra batida. Queria dar banho, mas não tinha água, mas não tinha açude, mas não tinha rio, mas não tinha chuva. Não chovia há dez doze anos. Apreciava muito pedalar morro abaixo e sem freios. Descia o morrinho e lá embaixo dava cavalinho de pau espirando a poeira. E assim por diante.

       Não chovia há dezenas de anos. As árvores paradas da pracinha, plantas esqueléticas, estátuas, empedradas, galhos como espetos pretos apontando o céu avermelhado. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas não comiam e não bebiam. O tempo que não acabava mais. O ar esfarinhado pesado denso sufocante.

       E seus braços abraços afetos aconchegos carinhos diariamente:

       - Idade cinco seis sete...

       Debruçada no parapeito da janela, de cotovelos na janela, fazendo todo o tempo do mundo. O sol por trás por dentro das nuvens pesadas de pó. Cadê horizontes morros montanhas serras. A pracinha doida para se esconder do calor, e não podia. A capela em favor e louvor e glória à santa Luzia. O mundo tantos e tantos meses sem uma gota de chuva, árido, abrasador, sufocante.

       Gostava de subir nas ex-árvores para olhar longe que longe. As árvores secas duras retorcidas e os passarinhos as lendas não sobreviventes, iraúnas-grandes, coleirinhas-do-brejo, tesoureiras, marias-é-dia, tizius, grimpeiros, pituãs.

       A mocinha era uma vidinha mansa e quieta e desbotada e solta. Foi só ela só que reparou no remoinho que vinha só pela única rua da aldeia. Começara um remoinho no meio da rua Única. Era vermelhinho, baixinho, risonhinho, ah ah ih ih ih!... O remoinho vinha rasteiro e de cabeça baixa, farejando, parando e olhando para trás, olhando em volta, quicando, revoando, se arrastando, rodando, caminhando, interpretando, nariz de vermelho pó, não poupando nem as pedras anônimas.

       O diachinho chegou e reparou no quintalzinho da casa de Vivi. Abriu o portãozinho num empurrão, não deu bola, pulou, foi até bem perto de uma ex-pata-de-vaca. Não se incomodou mais e deitou, sossegou. Aí mesmo o remoinho deitou com o queixo sobre as mãos, a cauda sossegada, os olhos fechados ou quase fechados, as orelhas abanando tentando espantar o calor. Talvez sonhando um sonho limpo e comprido.

       Olhos cheios de serragem, a garotinha Vivi estava pendurada na janela. Meio-dia ou doze horas. Não pensava quase nada. Então, Vivi ficou olhando, olhando assim, olhando o quê. Calor forte e poeira vermelha subindo com o vento sul.

       Foi ver o quintal de perto. Andava quase sempre apartada, solita no más, sem ninguém para conversar. Saltou no quintal todo seco e deserto, andou na poeira, se esgueirou por aí, se enroscou num toco de jacarandatã. A menina atirou uma pedrinha para o ar. Ver se a pedrinha voltava parar na sua mão.

       Então, a menina pegou e atravessou o dia cheio de cinza a rua vermelha para chegar à capela a poeira no rosto. Decidiu já estava correndo quase lá. As árvores da praça todas amortecidas, mordidas, arruinadas, loucas de calor. A menina gostava de correr mais que as próprias pernas. Não usava nada na boca para se proteger do pó vermelho. A cabeça vermelha de cabelos muito vermelhos como o fogo que queimava a terra, como as nuvens de pó, como a terra toda estorricada.

       Por tudo ali, nem as formigas sobreviveram.

       A menina se olhou do queixo para baixo. Estava de vestidinho até os joelhos, chinelas de dedo de borracha. O pó da rua já lhe tomando das canelas para baixo. Um mormaço de consumir as pedras. Capela coberta de telhas-vãs enferrujadas.

       Vivi, no tempo, já estava na casinha dos doze. Não passaria dos doze uma dúzia. Já sabia a diferença entre o sonhar e o esperar.

       Tarde quente, abafada, vento norte. As árvores da praça nem podiam se mover nem falar nem respirar. O menino Piracaia lhe prometera, coçando as pernas, torcendo os bracinhos,  rilhando os dentes:

- Vou chegar lá na sua casa hoje, talvez amanhã ou mais tarde, e te pedir em namoro. Tá entendido? Captou?

       Vivi, toda tremendo em calafrios, toda desequilibrada na postura, talvez com susto e mau humor e timidez:

- Vai, Piracaia! Quero só ver se você vai!

Agora, nessa hora, Vivi estava preocupada. Esperava com o coração disparado o coração na mão. Olhava ali da janela; não saía dali da janela. O coração disparado atiçado chutado. Gostava de olhar o tempo passar em vão. O coração aflito cheio de espinhos. O coração tum! tum!.. na mão. Queria que o Piracaia aparecesse e não queria que o Piracaia aparecesse.

       De repente, então, pelas três, Vivi viu o guri passando na bicicleta de espelhinho no guidão. Piracaia e a bicicleta e a sombra poeirenta dos dois. Vivi se escondeu nas dobras da cortina que ela mesma bordara. O coração batia como uma pedra na lata e repetitivo e acelerado e ensurdecedor.

       Mais tarde, três e meia, ele Piracaia menino voltou. Inventou de arrumar a bicicleta logo ali em frente. A sombra se sentara bem do lado direito. A cunhã, coração disparado, atrás da cortina, espiando detrás da cortina bordada que ela mesma havia bordado. O menino olhando para o casebre, calculando o portão. De certo não se sabe, mas podia mesmo estar calculando e se perguntando se teria ou não coragem. Arrumou a bicicleta, a sombra suja de vermelho nos calcanhares, e foram. Foram lentamente, ele e a bíci e a sombra grossa, a sombra acompanhando no mesmo passo, olhando para trás, cabelos amarrotados, cuidando para os lados, demoradamente. O menino mais preocupado que a bicicleta e a sombra.

       Lá vinham eles outra vez, Piracaia e a bíci e a sombra. Passaram para lá, para o leste, olhando a choça a palhoça. Vivi os espreitava atrás da empoeirada cortina bordada de ramos verdes e flores amarelas.

       Na volta o menino veio bem embalado, a bíci sem freios, a sombra de língua de fora, nuvem de pó esperta seguindo o rasto. Vivi de coração agitado assustado perseguido ameaçado. E quando Piracaia olhou a janela, parece que tirando a mão direita do guidão para fazer um gesto de beijo atirado, a bicicleta se desgovernou e pegou também uma pedrinha solta derrapou. Então, foi um só tombo e tanto, tuque!... e tudo pelo ar, a poeira subindo de repelão pegajosa descabelada eriçada. A sombra desajeitada desenxabida se derretendo no pó vermelho.

De pronto rapidamente o menino tentou se erguer para dizer que não doera mas, ai!..., percebeu que quebrara o braço. Deixou a pose de lado, não se importou com o vexame na frente da namorada ou ex-futura, e gritou berrou uivou como gritou, aaaaai!...

Vivi filmava tudo da janela o coração afligido e explodido e detonado, atrás da cortina que ela mesma bordara com fios dourados. E olhava sem poder fazer nadinha.

O menino foi embora, todo curvado e horrorizado e melado de lágrimas e de suor. A sombra mancando, curvada, lenta, machucada, pesada, seguiu o menino Piracaia. A bicicleta deitada deixada na poeira voltou a sonhar.

       Não chovia há meses e meses. Os aldeões e as aldeãs não jogavam baralho e não jogavam nada, não plantavam e não colhiam, ficavam dormindo como se todo dia fosse domingo, esperando mais nada mais tarde. O fogo do sol queimara tudo, calcinara tudo e um pouco mais do mundo todo.

       Seus olhos bem abertos semicerrados fechados para longe para perto para dentro de si:

       - Idade oito nove...

       A Vivi reparou da janela. Viu os dois garotos jogando com uma bola cega de borracha. Um passatempo esportivo pedestre. A bola escapulia para a rua; eles iam atrás. Chão de terra esturricada áspera grosseira. Poeira solta no ar suspensa flutuante. E chutavam a pelota cega um contra o outro; um na perseguição do outro; um empurrando o outro; um driblando o outro; um canelando o outro; ambos atiçados xingando e chutando e erguendo poeira.

       Por ela, Vivi, ela estaria lá com os dois perseguindo a bola com aquela bola cega no meio da rua poeirenta. Jogaria de goleira, rasparia os joelhos, ralaria os cotovelos, esfolaria as mãos. Depois, mais tarde, e quem sabe, poderiam jogar de caçador. O jogo que Vivi mais gostava era brincadeira de caçador. Mas o destino dela não deixava que ela jogasse tanto quanto queria de caçador. Gostava de ser caçada no jogo do caçador. Era uma brincadeira que dava gosto gritar de prazer e rir muito alto e sentir cócegas de tanto se divertir.

       A menina sardenta encardida de poeira vermelha cabelos ao vento do nordeste olhos curtidos de sono bermuda drapejada. Seus olhos não eram verdes, mas poderiam ser verdes, eram verdes. Calor sufocante, terra queimada, poeira batendo.

       Não se descobriu ainda, não se sabe ainda por que as meninas leves gostam tanto tanto de olhar da janela. Vivi era assim mesmo. Ela gostava de espreitar da janela do quarto. E olhava principalmente a rua desolada, abandonada, deserta, única. O horizonte consumido apagado.

       A Vivi entrou na capela. Levou um choque, perturbando o olhar na penumbra. Mais um pouco e seus olhos se acostumaram. Gostava de visitar a santa Luzia. De se sentar e olhar com calma a santa Luzia. Havia anjos bordados. Anjinhos pintados na parede, ou em quadrinhos nas paredes, uns em estátua do lado da santa. A guria parava, como parou, olhos bem arregalados sujos de poeira, olhava com calma, como olhou. Gostava de pensar que um dia voltaria na forma de anjo. Gostava de pensar que voltaria como anjo sobrevoando um lago um mato verde uma chuva entre os besouros colibris isabelinhas mariagombes as lendas flores de angélica-de-rama, etc.

       Vivi sempre admirou, como admirava, os anjinhos e suas praças e suas fontes e arredores. Todos de boa saúde, passando bem, loirinhos, translúcidos, cabelos loirinhos cacheados, sempre rindo. Todos rindo no banho do chafariz. A multidão deles rindo dava a sensação de ouvi-los em gargalhadas como joões-de-barro, ah ah eh eh eh!... Eram felizes em céu de esmeralda, sangas, morros, campos aveludados de capim-grama, dormideiras, azedinhas-grandes, zunidos de tujubas, assobios de saurás-fogos. Eram anjinhos que gostavam de brincar de caçador de nadar no espelho de água de descer das nuvens brancas deslisando pelo arco-da-chuva e assim por diante.

       Reparava bem muito bem nos anjinhos e suas asas e seus olhos azuis e sua cor de papel novo. Eles a achavam engraçada, riam para fora, e riam para ela. Ela ria para fora e para eles. O fantástico mesmo era que tinham asas nas costas e nos pés. Todos vinham do céu já com a bundinha enrolada num lençol sempre azul. Não eram pessoas, não eram meninos vendendo papelotes ou trouxinhas, não eram meninos se embebedando, não eram meninos cheirando cola, não eram meninos de atiradeira no pescoço, não eram deste mundo. Eram como nuvens brancas entre raios de ouro luz colorida.

       Pegou fogo o capoeirão seco. Combustão espontânea, talvez. Aumentando muito o sufoco. O mundo se encheu de fuligem, faíscas, fumaça escura, intoxicação, uma panela de pressão, um forno. Não se via um palmo. Respiração com tosse tosse, lágrimas, irritação. Os aldeães e as aldeãs e os aldeãezinhos sentiram mesmo o que era o beco sem saída. O sol já passava por trás das nuvens de pó vermelho e da fumaceira. Como restos sobras pelo ar de um vulcão em constante roncar.

       Elazinha foi até a praça dar uma volta um rolê. E abraçou os troncos carbonizados de umas ex-árvores que já foram lendas, paineiras, caroás, coxas-de-frango, olhos-do-diabo, etc. Saiu se despedindo de cada uma e de uma por uma. Diante do desengonçado portãozinho de ripinhas já em casa parou para ver se vinha alguém. Ficou olhando para tudo que era lado. Não acontecia nada. Veio sempre uma sombra de nuvens de pó.

       Por tudo aí, nem as baratas sobreviveram nem existiam mais. 

       Quase sempre, principalmente pelas manhãs revoltadas de nuvens de poeira, Vivi abria a janela e olhava a aldeia toda falida, se debruçava no parapeito da janela, olhava a rua Única toda pedregosa. Aí pensava, quase que poderia pensar: por que não. Dito e perfeito. Vivi saía pedalando a magricela pela rua. Quase sempre era isso. Apreciava de sair andando levantando poeira cavacos. Não se importava com mais nada, ou se interessava com qualquer coisinha. A boca cheia de terra, o nariz vermelho, a pele muito queimada e requeimada de sol.

       Se sentou na escadinha que dava para o quintal abandonado. As mãos no queixo, os cotovelos nos joelhos, a ponta dos cabelos empoeirados atrás das orelhas. Nem ela sabia o que esperar da sorte ali, assim. Que nada que dúvida. Vivi era uma menina calma, mansa, quieta, mirrada, silenciosa, de doze anos. Ergueu a barra do vestidinho florido que ela mesma bordou, apartou a calcinha com estampas de bichinhos que bordara, e conferiu a babaquinha. Nem bem sabia o nome. Achou tudo assim como sempre fora. Era isso aí. Tinha que ser. Não havia outro jeito. Fazer o quê.

       Talvez quando crescesse, pensava, como pensou, talvez um dia, crescida, já moça, chegasse a ser santa rodeada de anjinhos como santa Luzia. E todos os anjos estariam rindo um riso feliz. Gostava de pensar e saber que os anjos existem. Que os lugares com anjos existem, rios, enseadas, restingas, iraís, alamedas, hortas, trombas de água, bem-te-vis-do-gado, guaripés, flores-de-babado, paxiubamirins, etc.

       Abriu a janela para acompanhar a lua empanada de poeira. Uma vida inteira que não chovia. A lua esparramando entupindo de prata o ar de poeira vermelha. Acompanhou a lua que fugia na escada rolante. A lua era um caco, um prato, um disco. Tudo meio nublado da poeira que subia do chão tocada pelo vento sudoeste.

       Suas mãos reencontraram macias a brincadeira das partes por tudo por partes o calor o fogo as labaredas:

       - Idade dez onze doze.

       Era um verão centenário sem folga de muita fadiga. Um calorão de rachar as pedras. Os aldeões e as aldeãs dormiam de dia e descansavam à noite. Não chovia no lugar desde há bem pelo menos uns mil quinhentos toco ouricuri.

       Vivi ergueu os braços, estalou, bocejou, arreganhou a boca como não sei, os dentes trincando grãos de terra. Estava acordando distraída esticando o lençol, que ela mesma bordara. Sete horas, um domingo. Fazer como.

       O céu vermelho, não tinha um verde, não havia um inseto voando, nada de pássaro cantando, nada na manhã de barulhar de passaredo, nada que despertasse o dia para o domingo de manhã. E nem as formigas, pois aí não havia nem formigas nem cupins nem micuins. Só o vento leste poeirento se mexia ou tocava a massa vermelha sem rumo certo.

       Haveria sempre alguma coisa nas nuvens vermelhas. O céu nascia do deserto. A cor do céu a mesma da terra, etc.

       A menina apareceu com mania de plantar bananeira. Então, toda vez em casa, ali no pátio seco, virava rolava estrelinha, dava gambotas, rodopiava, imitava lebre saracura jaguatirica sauimpiranga. Gostava de acrobacias equilibrismos malabarismos. Se tivesse uma cartola preta alta de mágico saberia fazer mágicas e apresentar ao público as novidades do mundo oculto.

       Bordara no short uma borboleta impossível de achar por aí. A borboleta azul-ferrete virou bater de asas e voou. A borboleta pirou. A borboleta pintou. A borboleta virou passarinho e escapou. O passarinho pirou. O passarinho amanheceu. O passarinho viajão viajou toda vida para longe procurando água e um ramo verde para descansar.

       Toda menina de doze para na frente do espelho. E não cansa de se olhar no espelho do quarto, espelho de corpo inteiro, espelho de todos os ângulos. Os cabelos da cor do fogo da terra do ar da falta de ar.

       Uma manhã foi de bicicleta até a pracinha e os meninos a cercaram. Um menino pegou a bicicleta e pedalou. Os outros piás, enquanto esperavam vez, a seguraram pelos braços puxaram o cabelo beijaram o rosto sujo de pó.

       E ela viu o mundo todo alaranjado. E viu o mundo todo amarelado. Também um mundo quadrado. E viu o mundo todo recortado picado mordiscado perfurado.

       Um olhar de quem já viu tudo na sorte e não vira nada. Olhos fitos apagados duros hipnotizados amargos. Olhos escorregados de lágrimas na poeira.

       Vivi não sabia não compreendia não sabia explicar.       

       Junto da tarde de céu avermelhado, ela foi até o capoeirão ressequido. Chegou ali e ficou de bobeira. Ela e a  bicicleta sem guarda-lamas sem bagageiro. Foi pedalando para ali, contornou uns pedregulhos com feitio de bicho conhecido. Foi para lá, contornou uns troncos secos há muito secos tocos de pindobeira, de muriri, de mirindiba, etc.

       Foi pedalando e deixando atrás o rasto e a poeira levantada. Parou para ver o rasto e a poeira baixando. Voltou no próprio rasto ou inaugurou outro rasto.

       E pedalou de volta seguindo o rasto da bicicleta. Continuou pedalando pelo capoeirão queimado quando derrapou caiu urucubaca bateu a cabeça na pedra, tuque!...

       A coisa que percebeu foi um silêncio. A dor que ensurdeceu e cegou e rachou a cabeça.

       Caíram com tudo Vivi e bicicleta no meio do pó vermelho e a menina bateu a cabeça na pedra de ponta, tuque!...

       Uma parede alta, um muro alto e grosso e comprido.

       Aparentava uns oito nove anos, meiguice, afeto, carinho, ternura, bracinhos sem muque.

       A última coisa que sentiu foi se ver carregada por uma sombra gigante.

       Faça alguma coisa, menina.

       A menina Vivi não fazia nada não fez mais nada.

       A boca apertou em muxoxo os dedos das mãos em garras os braços em abraços os cabelos apertaram em traça, com fita de pano azul dando o nó na ponta. Mas não mais não conseguiu nem se mexer.

       Surgiu um saci a jato, um redemoinho trouxe poeira ciscos e entupiu os olhos.

       Começou a brincar de caçador com ninguém. Já saiu brincando de caçador com um invisível.

       Jogava de caçador com a cor lilás verde violeta. Jogava de caçador com os anjos azuizinhos no campinho junto do lago, lambaris, tucunarés, tracajás, iaras, pois estava chovendo, sobrevoo de beija-flor-de-garganta-azul, risos de bem-te-vi-de-três-riscas, etc.

   

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

SAO PAOLO




       Até então, uma mágica um milagre comum: o dia surgiu para sempre de dentro da escuridão eterna. Foi uma manhã flutuante como outra qualquer.

       Sabiás-do-campo se divertiram a valer brincando de pega. As andorinhas experimentaram com sucesso a asa-delta. Borboletas engraçadas originais campearam campeãníssimas entre as sapotaias as tiriricas os alecrins-de-são-josé as pindobas-do-sul as canjeranas-do-brejo.

Sol completo, aquele amarelo ouro clássico, muito longe, longe uma barbaridade, mais longe, longe uma vez, longe e talvez, sempre distante e inalcançável, longe outra vez; todas as exigências controladas, todas as existências dominadas, todas as aparências mistificadas.

Hoje em dia Nova Prata, amanhã Caxias do Sul, depois Sao Paolo: pensei. 

Peguei o ônibus 4h até Estrela do Sul mais 8h até Santo André. Eu não sei viajar de ônibus, eu não sei andar de ônibus.

Peguei o barco às 20h em Roncador 7h até Caldazinha. Eu não sei viajar de barco, eu não sei andar de barco.

       Peguei o trem das 5h em Canoas 12h até Marechal Floriano. Eu não sei viajar de trem, eu não sei andar de trem.

       Já em São Leopoldo (terra do romancista Mário Quintana) comecei a cochilar, cansar as pernas e a bater a cabeça na vidraça. Lá fora do ônibus uma paisagem acostumada no verão muito quente, aqui que a gente já sabe. No inverno por causa do frio e no verão por causa do calor.

       Pela altura de Bom Princípio (terra da cupiúba), depois de bater a cabeça mais uma vez na vidraça e acordar mal e mal todo chateado, abri os meus grandes olhos e, do meu lado no corredor, vi uma bonita loirosa. Nem quis acreditar, mas acredite. Não duvido que deve ter embarcado essa horinha mesmo em Carlos Barbosa (terra do pinhão), pensei.

       E pela altura entre aquela Patu (terra da pitanga) e a outra Cotiporã (terra das águas borbulhantes ou ferventes), eu me resolvi a puxar conversa com a loirosa, com a loiraça, com a morena-loira. Ela muito teutônica, bela, suave, felina e dourada. Vou puxar papo, pensei.

E comecei a conversa falando da minha anterior recente viagem a Caxambu (terra do mato pequeno bonito), e muito antigamente dos índios cocuiregatejê, pra lá da serra da Mantiqueira, pra lá da serra da Cantareira, etc. E fui rolando um lero sobre a serra da Ibiapaba, a cidade de Piracuruca (terra das inajás), etc. Toquei uma gaita sobre a interessante cidade mineira de Pindamonhangaba (terra lá onde é o lugar que o rio Paraíba do Sul faz fazer aquela curva formosa), etc. Descarrilei sobre o rio Maracá, o rio Mutuacá (onde os curumins e as cunhãs tuiúcas brincam na frente de casa com os pirajaguaras), etc. Falei outras viagens, contei mais coisas, conversamos sobre o próximo feriadão de carnaval, etc. E depois de tudo mais de sorrir um pouco mais de gracejos um pouco mais de charmes um pouco mais ela me disse, perguntando, afirmou:

       - Você é judeu, descendente, certo?!

       Tive vontade de olhá-la nos olhos e a olhei nos olhos - sem sacrifício nenhum da minha parte, Senhor! - e nossos olhos se cruzaram e que olhos lindos tinha aquela loirosa, loirosa-morenona. Que felicidade ser bizoiado por loirosa tão espetacular, tão fantástica, tão bem feita, tão bem caprichada, tão bem desejada, tão bem aclimatada, tão original. Uns olhos cristais muito raros, entende?! Coisa preciosa, coisa fina, coisa ideal, coisa celeste, coisa ilegal... os olhos dela. E que olhos garços, verdes, iguais do mar perto dos corais, meu!

       - Quê?! - foi só o quanto consegui dizer, depois do encantamento todo, etc.

       - Você não é alemão como alega. Você é judeu. Tem tudo a vê.

       Tive vontade de pegar nos cabelos longos loiros morenos de pontas cacheadas. E estiquei o braço, fui com a mão, estendi os dedos e não peguei nos cabelos lindos dela por pouco, desisti na hora h, desisti no fim do desejo, parei no último milímetro porque seria muita ousadia, porque seria muita tara da minha parte e me contive no último milímetro de tempo e de encompridamento do braço.

       - Como você tem certeza disso e por que você duvida? - perguntei.

       - É simples. É simplório. É só olhar. Já viu o seu nariz? Já quilometrou o seu quebra-vento?

       Tive outra vontade e de pegá-la pelo nariz. Um nariz de esfinge? Um nariz de loirosa, loira-morena. Um nariz de cavalo. Cavalo não, potranca. Tive vontade de pegá-la pelo nariz.

Aí, eu olhei abaixo do nariz lá dela e vi os lábios maravilhosos, os beiços apetitosos, as comissuras, os lábios carnudos desejados, os lábios de beijos, os lábios de peixe de aquário pedindo farelo. Eram outras coisas mais lindas, desenhadas, meu! Lábios falando nariz, o meu nariz, lábios escandindo a palavra (meu) na-riz.

       - Você, então, entende de narizes por judeus, é?

       - Todo mundo sabe que é assim desde o começo ao fim da Bíblia Sagrada somando o Velho e o Novo Testamentos.

       Tive vontade de entrar naquela boca tão com gosto de inteligência, independência, impertinência, hálito de menta, hálito de casca de bergamota madura, hálito de chiclete verde sabor cupuaçu. Uma boca linda com tantos dentes brancos e bem acomodados e bem certinhos. Uma boca bonita vinda de um lugar tão loirosa, tão morenosa. Foi raro, é raro, sempre será raro e muito caríssimo. Uma boca de perfumes caprichosos e caprichados, palavras muito bem mastigadas e perfumadas e acaloradas.

       - Não esperava que você apreciasse assim tão bem ou melhor o meu nariz.

       - E quem falou que eu gostei? Detestei, isso sim.

       Essa eu perdi e tóim!

       - O que você vai fazer em São Paulo e que não é da minha conta?

       Não sei o que respondi. Ela insistiu e voltou com outras perguntas e que foram sendo sempre a mesma pergunta, praticamente:

       - Já esteve lá outras vezes? Já viajou de avião? Já ouviu falar no parque do Ibirapuera? Aeroporto de Cumbica fica em São Paulo?

       Olhei pela vidraça do ônibus e o tempo corria muito devagar e respeitoso e olímpico e inaudito. Dei pouca importância a mais uma pergunta e traguei o ar para aliviar a pressão. Era pela altura da ponte do rio das Antas e meus ouvidos estavam surdos fechados mudos cegos secos bocejantes. Quando me voltei, ela já estava polindo as unhas verdes uma com outra cor roxa:

- Quando era garoto já subia nesses arcos e ficava lá em cima olhando e rindo dos meus amigos abobados, é.

- E não tinha medo.

       - Naquela idade eu não tinha medo de altura. Agora já tenho.

       Eu a fixei, ela já me olhava. Ela infelizmente tinha os olhos azuis ou esverdeados. Se tivesse olhos de outra cor pretos por exemplo eu não estaria nem aí e a esqueceria. Felizmente ela tinha esses olhos ali.

       - Eu sempre gostei de geografia e História do Brasil - eu disse.

       - ...

       - Geografia porque eram os lugares com nomes próprios topônimos tupis-guaranis; História porque eram os acontecimentos os eventos os fatos as personalidades nos lugares certos e reconhecidos.

       Em Caxias do Sul o tempo estava bom e peguei o voo para Sao Paolo. As nuvens, embora, não atrapalhariam o trânsito.

       E então aguardar um algo novo, como é? O bom mesmo é pensar noutra coisa para enganar a ansiedade. Mas como? Bem, era muito cedo para  me embaraçar nisso.

       Na sala de embarque, a dona dos cabelos curtos acaju telefonava e não podia controlar o riso, um casal de africanos falava o tempo todo e em francês, um rapaz ficava entre o tablete e o livro de 400 ou 500 páginas, o sujeito robusto se mostrava desengonçado torto com telefone no ombro e livro de 450 páginas entre as mãos.

       - Bom dia a todos. Aqui é o comandante... Em uma hora e sete minutos estaremos em São Paulo, aeroporto de Congonhas. Para sua segurança permaneça sentado e com o cinto afivelado durante todo o processo de decolagem. Uma boa viagem a todos nós.

       Foi tranquilo como andar de elevador. Um pouco mais rápido um pouco mais alto entre nuvens e azuis, nuvens mais altas e azul mais alto, nuvens mais por baixo e azul mais por baixo, nuvens no caminho e azul no meio no começo do caminho. Uma hora e sete minutos com o vazio de flutuar, flanar, esta a novidade. Para subir um empurrão, para descer um empurrão.

       - Em caso de despressurização... as saídas de emergência estão localizadas... primeiro crianças idosos mulheres...

       Na cabeceira da pista o avião acelerou ao máximo. As turbinas fizeram tremer o avião e ouvir barulho de trovão. A corrida na pista pareceu ridícula. A trovoada. O puxão para o alto... E as casas e construções com telhados as ruas com as árvores em fila indiana a montanha a serra Gaúcha. Quando tudo parecia legal foi aí que o avião fez uma curva... e eu fiquei pendendo para o outro lado.

       Sentado na janela boreste eu observava sempre o chão, ou melhor, o fundo do poço espelhado, ou melhor, o azul com montes aqui e ali de nuvens brancas.

       A tia da poltrona vizinha, indolentemente, acomodou a mão no meu braço:

       - Vou visitar o túmulo daquela atriz... que morreu mês passado de... Era meu ídolo. Lembro daquele filme... que ela quase ganhou o prêmio... Eu sempre fui sua fã e não perdia novela que atuasse.

       Já sabia que tenho um vazio na alma, ou uma saudade da época de anjo, ou um medo de olhar pra baixo.

       O avião, sem bater as asas, riscava o céu que era alto que estava uma beleza que parecia um ar azul puro.

       Bem de cima, talvez sobrevoando já os Estados de Agronômica, Xanxerê, Pedras Grandes, Lages, eu olhei e pensei: não precisava estar aqui e estou. Se o céu tinha nuvens então a natureza necessitava de nuvens. O nosso voo, aquele avião, nós todos ali em pleno céu, nós todos estávamos adejando fora de moda.

       Subimos para tão alto e perto dos céus que quase todos fizeram o sinal da cruz e beijaram as pontas de dedos da mão direita e espalmaram as mãos em cruz sobre o peito. Os que não fizeram de teimosos já poderiam ter feito antes escondido. Uma voz lembrou de Nossa Senhora Aparecida. O que não atrapalha ajuda!

       As nuvens de cima, o tabuleiro de xadrez lá embaixo, o horizonte redondo, o sol por toda parte e sem sombra.

       Eu olhei a asa e me perguntei, vendo-a balançar daquele jeitinho tipo folha verde: será que é tão seguro assim viajar de avião nesta data e tão alto?

       A tia voltou, pausadamente, com bafo ou hálito de guaraná em lata:

       - Quando tenho oportunidade de ir a São Paulo vou sempre rezar no túmulo daquele ator... que morreu de... Era um ótimo ator e usava sempre um lenço no pescoço, tinha um bordão assim... que usava em qualquer entrevista. Trabalhou em tudo que é emissora de tevê, mas principalmente na...

       Sobrevoamos o litoral não sei em que banda, São Francisco do Sul, Guaratuba, Formosa do Oeste. A orla bordada de casas. Muitas montanhas cobertas de matos, todas montanhas verdes de matos. Uma colcha de retalhos em tons de verde em tons de terra.

       - Dentro de vinte e três minutos estaremos pousando em São Paulo, Congonhas, e faz tempo bom, temperatura em torno de trinta e um graus, em nome da tripulação e da companhia agradecemos a preferência, um bom dia, obrigado.

       O avião reduziu a velocidade se preparando para o pouso. O espaço aéreo da grande Sao Paolo.

       A tia do lado chegou mais perto, mornamente, e ainda confessou muito urgente de última hora:

       - Tem o cemitério do Araçá onde mora eternamente aquela talentosa atriz-mirim... que morreu de... e eu sempre enfeito o seu túmulo de flores vermelhas e amarelas. Artista de renome. Ela fez aquele filme... e era filha na vida real daquele ator... e daquela atriz..., lembrou?

       Sao Paolo começa fora de Sao Paolo, Diadema, Guaianazes, Vila Jacuí, Jardim Aricanduva e não tem mais para onde se voltar. 

       - Atenção passageiros e tripulação para o procedimento de pouso. Apertem os cintos.

       O que fazer em Sao Paolo? E Sao Paolo é no mesmo país.

       A primeira sensação foi de que Sao Paolo tem ruas para se chegar ao fim dos tempos e ao começo também. E uma por uma e uma por cima da outra uma do lado da outra uma ou duas saindo de uma outra. Onde tem uma rua com esse nome e aquele apelido. Sao Paolo é feita de mais ruas. As ruas mais atrativas. Não cabem todas as ruas em Sao Paolo. Não tem mais espaço para ruas e fazem ruas por baixo da terra. De todo lado vem uma rua e onde se parar tem uma esquina. A mesma rua vai e volta para ocupar espaço. As ruas mais importantes.

       Não posso voltar pra casa sem passar na Avenida Paulista. Não posso pensar em mar sem os coqueiros na praia.

       Uma praça da Bandeira onde uma bandeira brasileira empurrava o vento paulistano.

       O serviço de inteligência da Scotland Yard, junto com a PF e com a ajuda da Interpol, fizeram uma longa investigação da explosão. Os detetives isolaram o local do atentado e não adiantaram qualquer informação. Uma mulher em pé do outro lado da rua e no meio dos outros curiosos - aquela mesma de sombrinha raiada bicolor verde e branca camiseta laranjada sem mangas estourando a boca do balão vestido amarelo curto vaporoso -, assistiu a tudo tranquilamente mascando chiclete lilás com gosto de abiu.

       Próxima... estação... Liberdade, saída pelo lado esquerdo do trem. Parque Villa-Lobos. Avenida Ceci. Bairro Horto do Ipê.

       O primeiro dia alameda Barão de Campinas muito sol pernada e não choveu nem no entardecer. Igrejas abarrotadas de altares e nichos com estátuas de santos santas e pilares e imagens e capelinhas e pedintes, etc.

       E fui visitar o meu parente na avenida Rio Branco perto do Copan. Cheguei contente fui recebido alegremente era aguardado e o primo vivia casado e não tinham filhos. Primeiro fui olhar o prédio em curvas de aspecto aerado e fiquei admirando o famoso edifício imaginado pelo grande arquiteto Antônio Alcântara Machado. O casal tinha um casal de cachorrinhos pequenos e irrequietos que andavam por tudo dentro de casa e mimados como crianças de colo. Da calçada mesmo fiquei olhando pra cima lá para os trinta quarenta andares e era mesmo o prédio que se conhece da tevê. Até pedi que me falassem a raça dos bichinhos me falaram me explicaram mas esqueci e não lembro mais uma pena balançavam a cauda sorrisos nos dentes pontudos o tempo todo acho que só pensavam em comida e lamber o suor da gente.

       A mulher dele tinha olhos grandes e negros. Ainda bem. Não gosto de dar em cima de mulher casada mulher de amigo mulher de parente nem se fala e mulher de olhos negros eu esqueço fácil. Ainda bem.

       As ruas de Sao Paolo não têm fim e as ruas vão até o fim dos tempos e dos espaços porque cheias de compromissos urgentes. Onde o Brasil encontra o mundo. Então é verdade.

       E pelas cinco e tanto da tarde fechou o tempo choveu firme e o vento fez as folhas voarem para todos os lados, Anhanguera, praça Princesa Isabel subindo pois apressado a Duque de Caxias.

       Quando eu não pensava em ir para Sao Paolo eu pensava em ir para Curitiba, só depois de pensar mais um pouco eu pesei entre Sao Paolo e Curitiba e me decidi por Sao Paolo.

       No outro dia eles me chamaram:

       - Vem a-qui!

       Daí fui não me arrependi e me apresentaram:

       - Olha só esta. É a minha cunhada que mora em Bauru e não é sanduíche. Aliás, tem namorado mas a partir de hoje e até o dia da volta ela não se complica e é desimpedida e é informada e está na condicional (risos aplausos apupos vivas abraços fricções nas costas beijinhos nos cantos da boca).

       A cunha tinha olhos grandes e negros. Ainda bem também obrigado. Daí trocamos nomes próprios livros preferidos gosta de música? gosta de belas artes? acredita que tem time para ganhar campeonato antes do ano 23 mil? conhece Nova Prata de ponta a ponta? ah! já esteve em Casa Branca e Indaiatuba, fazendo? Ela se chamava e eu disse na lata e na cara dura que o meu nome é mais bonito e concordou.

       Estilhaços de sol caíram e assaram e irritaram e queimaram a minha pele e foi sexta-feira no zênite rua da Consolação, largo do Arouche, Tatuapé e quase que perco a porta da frente na entrada para o Museu Anchieta.

       A interessante construção nos remete ao século XVI. As janelas são arqueológicas. O teto apainelado. Projetada pelo arquiteto português Francisco Marins. A característica primordial foi inspirada nas curvas da natureza. O pórtico monumental e bem artístico está voltado para a rua hoje com o nome de avenida Dr. Vital Brasil. O prédio todo foi restaurado oito vezes, a última delas ficou pronta em 2006 ao custo de dois milhões e quatrocentos mil reais. Destaque para uma passagem no subsolo que já foi secreta e que teima em sair lá na altura da rua 25 de Março ou parque D. Pedro II.

       Eu peguei na mão da cunhada e ela, cabelos longos lisos negros como uma iara do rio Javaés, nem olhou pra mim quando se ouviu falar:

       - O quê?!

       Passei o natal em Sao Paolo, mas eu nem acreditava. Eu si me diverti muito passeando pela avenida Afonso D'Escragnolle Taunay e bares e restaurantes e praças povoadas de imponentes ingazeiros e dos incidentais tangarás, tuiutis, arapongas, porutis e acrobáticos bizogues.

       Para falar a verdade foi a Interpol, com o auxílio da PF mais a Scotland Yard, que conseguiram descobrir uma pista da quadrilha que roubou do Masp o Di Cavalcanti o Cândido Portinari o Anita Malfatti o Pedro Américo o Tarsila do Amaral. Duas mulheres, segundo uma testemunha ocular que não quis se identificar, deixaram saindo do local voando num táxi bem logo depois do fato ocorrido e foram no sentido da avenida dos Bandeirantes e de Barueri.

       Fomos num shopping ali pela rua 11 de Junho, Tietê, vizinho à praça do Pôr do Sol com a herma de Tiradentes. Um dos mais mais maiores e excelentes de Sao Paolo onde tudo brilha e espelha e cheira bem e encarece e não deixam você entrar de chinelo de dedo. Uma bola de sorvete, R$8,70; um pão de queijo, R$7,50; um refrigerante com canudinho, R$11,80; entrada para o filme, R$54,00; um pacote de pipocas dos grandes, R$9,90; dois pacotes de pipocas dos grandes, R$19,80. Peguei no antebraço ou no braço, onde o braço dela começa ou termina, e ela reagiu como uma moça do interior paulista reagiria nessa mesma circunstância, etc:

       - Você espera!

E ela me beijou a lente da direita dos óculos. Meu! esse olho com nuvem de batom café ficou emocionado e meio nublado mal assistindo ao filme durante toda a sessão, uma vez. E a cunha um dia com pulseira azul outro dia com vermelha outro dia com verde do relógio de grande mostrador comprado na rua chique Marquês de Itu, Largo de São Bento, Jabaquara.

       Já me gastavam as cooostaaas de tanto andar e lugar para visitar. As ruas de Sao Paolo são dos pobres de todos os tons tonalidades e etnias mas os ricos não e em parte alguma talvez voando nos helicópteros.

       Eu não poderia deixar de ir ao zoológico e era muito longe e não fui, ficou pra próxima.

       Pois a cunha andou pelas pedras dos corredores do shopping Moema muito engraçada:

       - Só pode pisar no cinza!

       Meia dúzia de minutos depois:

       - Só pode pisar no preto!

       Eu estive bem ela pareceu ótima e feliz. Eu estive melhor e foi assim mesmo que eu encontrei. No shopping quando uma guria usa bermuda cheia de bolsos e tem o hábito de usar os bolsos para por as mãos nos bolsos.

       - Você teve bicicleta na infância?

       Próxima... estação... Pinheiros, saída pelo lado direito do trem... transferência para linha 2 verde da CPTM.

       Daqui vinte anos ninguém segura uma segunda-feira quando você duvida da resposta não pergunte ônibus elétrico rua General Rondon atrás da Catedral Metropolitana da Sé só para ver como era até a rua Guararapes.

       Eu e cunha entramos num restaurante chinês da avenida Brigadeiro Luís Antônio, perto da pirâmide ou obelisco do Piques, Brasilândia. Comemos carne de peixe cru com temperos condimentos extratos de que o quê.

       - Me soube muito bem - concluiu ela a cunha.

       Segundo a PF mesmo, e depois a Interpol e a Scotland Yard juntas, a gangue era composta de uma dezena de falsários todos vindos do estrangeiro. Três mulheres brasileiras davam suporte ao bando. Uma delas era negra de cabelo amarelado a outra branca de cabelo em corda e a terceira mulata de cabelos esticados na chapinha.

       Nesse mesmo lugar, Sao Paolo, há 500 anos, os guainás foram os habitantes e únicos donos das terras. Assim tão bem associados com os periquitos-verdes, os jacurarus, os corujões-orelhudos, os porcos-do-mato, os curicas, as patis, as macambiras-de-pedra, as chás-de-frade, as mamoneiras-miúdas, os tatuquiras, os apaiaris, os ubaris, os guaribas.

       Próxima... estação... Anhangabaú... saída pelo lado esquerdo do trem... transferência para linha 9 esmeralda do metrô.   

       Fomos então nós quatro 21h ao restaurante na rua dos Timbiras, Vila Formosa, a poucas quadras da famosa referência conhecida e falada e propalada do monumento às Bandeiras. Para comer um prato exótico demais: uma carne de cavalo. É uma!

       Aconteceu tudo engraçado e deu arrepios e ataques de risos. Todos nós estivemos nervosos e falamos muito e rimos muito por puro preconceito. Nas paredes do restaurante vários quadros emoldurando fotografias de cavalos de todo tipo e raça e competência e pelo.

       Até que enfim o chefe de cozinha nos trouxe o prato e olhamos com certo respeito e certa solenidade e certa distância. O cozinheiro deu uma pequena palestra sobre o tabu em geral e em questão. O primo foi o primeiro, a sóbria mulher dele a segunda, a cunha a terceira, eu que estive de gaúcho o tempo todo fiquei de esperar e esperei e fui tomando golinhos de cerveja; experimentamos.       

       O chef voltou com as mãos às costas e as perguntas, perguntou:

       - E aí? Então? Que acharam da carne de cavalo manga-larga marchador?

       Nos entreolhamos, a insigne esposa do primo passou o guardanapo na boca e disse:

       - Achei um pouco dura, mas boa como de vaca.

       O primo logo em seguida:

       - Pensei que ia ser assim... diferente, mas não senti nada de exótico ou de diferente.

       Eu fiquei pensando e aguardando a minha vez, a minha vez. A cunhada arriscou:

       - O molho é muito melhor que a carne, pra falar a verdade.

       E todos me olharam e respondi incontinente:

       - Não como mais carne na minha vida.

       Corrigi a tempo:

       - Não como mais carne de bicho morto, é claro.

       E todos caímos na gargalhada, o parente arrotou, e brindamos com mais cerveja bem gelada. Olhei os olhos da cunha e eram negros grandes brilhantes voltados pra mim, ainda bem.

       Próxima... estação... Tamanduateí, saída pelo lado direito do trem... opção corredor de ônibus da EMTU. Rua Iperoig com livrarias sebos cafés ponto de leitura planetário pinacoteca do Estado ponte Estaiada museu da Casa Brasileira.

       Fomos subimos ao quadragésimo primeiro andar do famoso edifício Itália. A cunha foi até a amurada do terraço, cicerone, e olhou a paisagem a cidade lá embaixo. Alguns prédios com inscrições rupestres a spray. Esperei, depois fui e me aproximei e a agarrei pelas costas, muito meigos ternos pombas-rolas. Nós dois olhando Sao Paolo assim de tão alto foi perigoso estranho gigantesco selvagem amplo neolítico extraterrestre. 

       Peguei no queixo da cunha e a olhei com acinte com impaciência e vadio. Vociferei com ódio angústia desânimo e sofreguidão:

       - Então?!

       Ela respondeu com dentes cerrados e olhando nos meus olhos cor de folha no pé:

       - Não passa de hoje esta noite que amanhã eu vou de retorno a Bauru.

       Depois ela me disse, completando, completamente:

       - Levei até hoje vinte e oito anos. Descubro que a partir daqui só quero uma coisa: dinheiro. Ou trabalhar, né!

       Ainda ela, filosofia, braços cruzados, a tarde, o hálito um pouco gelado, olhos encobertos pela lente de contato:

       - O melhor porvir está por vir por acontecer.

       Em cinco minutos ou uma cerveja para dois na mesinha redonda do restaurante quase aéreo, ela confessou a vida resumida resolvida melhor esportiva inteira, assim:

       - Um ano atrás, já nessa época entre os dias de dezembro, quebrei o braço direito, as cicatrizes e etc., em três lugares, acidente de moto, eu e meu namorado o Ricardo, eu que pilotava, a gente fugia da chuva, eu já sei bem andar de moto, ele é entregador de pizza lá em Bauru.

       Entregador de pizza em Bauru onde se inventou o Bauru, rimos assim mais perto um do outro e ela podendo tudo campeã gigante não bebia quase nada, continuou:

       - Depois um dia eu resolvi pintar de azul as pontas dos cabelos, entende? O pessoal começou a me chamar de arara-azul-grande e eu desconsertei.

       Rimos mais um pouco, ah ah ah!... e ela pegou minha mão para acariciar e olhou e beijou de leve e prosseguiu a narrativa sem esperar intervenção:

       - Aproveitando que tenho um emprego de atendente em consultório de oculista e já entrei para uma faculdade de oftalmologia. Não sei bem se é isso que eu quero. Mas a minha chefe ganha bem e é lésbica e tem um carrão e eu gosto de dinheiro como todo mundo e ela vai passar um mês inteirinho de férias lá em Manacapuru. O Ricardo me pega de moto sempre que não chove. Cara! fazia tempo muito tempo que eu procurava até que encontrei até encontrar o Ricardo.

       A cerveja estava no ponto e eu determinado e sufocado e idiota. Pois ela pareceu ter muito que desabafar e continuou automaticamente e sem pressa de chegar a lugar algum. Eu tinha de acreditar que aquele encontro era comigo e o presente seria como um presságio de boas festas e feliz ano novo. Ela expandiu com letra cursiva: 

       - Em julho passei uma semana junto da minha avó lá em Vista Alegre do Alto. Era a terceira briga no ano entre eu e Ricardo. Mas, felizmente, a gente sempre volta. O Ricardo é muito bom, muito bom. Ainda quero aprender a tocar violão ou oboé ou teclado. Preciso conhecer Ouro Preto Diamantina Sabará, e ainda nessa encarnação. Tenho um vizinho que toca trombone todas as tardes ali pelas 18h e 30min e eu acho massa. Ricardo é cara pra casar, entende?

       Procurei distraí-la com outras conversas outras coisas menos importantes menos embaraçosas mais ou menos bobas outras aventuras sair por aí com outra linguagem relaxar, perguntei:

       - Qual foi o primeiro lugar que você fez?

       Ela veio com seu olhar doce e melífluo, a boca doce e melíflua, mais junto, o lábio espumoso e a língua lupulina.

       - O lado b.

       Não era bem essa a resposta, mas enfim. Não era exatamente esta a resposta que eu esperava, porém não tenho absolutamente nada com isso. Caí com outra pergunta:

       - E depois, nós dois, etc?

       - Você eu não sei e nem quero saber. Eu vou pegar um navio ou um avião e ir ao redor do mundo beijar e beijar e beijar árvores, ok!

       Achamos engraçado e original. Ela tinha outra resposta lisa escorregadia para a mesma dúvida:

       - Vou por aí, vou puxar puxar a linha do horizonte e pegar o sol com las manos.

       Foi bom foi simples foi leve foi assim. Toquei no ombro dela. Ela não disse mais nada. Fingiu nem aí, altiva. Apenas sorriu suavemente. Ela não era minha, um broche segurava a aba da camisa, mas também não era de ninguém, olhou o copo meio vazio, nos olhamos, broche com cara daquela artista..., nos lambemos, ainda bem.

       Às vezes se sonha e falamos sonhando sonhos sonhados, às vezes se acorda e falamos bem maduros e bem plantados na realidade. Vai vê uma terceira vez, não é nada!

       O aeroporto de Congonhas é limpo e ajeitado. Fui ver se meu livro estava na estante da livraria do aeroporto, não estava. Na livraria da avenida 9 de Julho, já não estava. Em uma ou outra livraria em torno da praça Ramos de Azevedo, não estava. Na rua da Quitanda, esteve. Na Avenida Paulista, estava. Na esquina da rua Taquara Branca com a avenida Santos Dumont, já estivera.

       Segui até o Mercado Municipal para comer um punhado de pequis fabricados em Buriti dos Montes. Entrei na igreja da Ordem Terceira do Carmo para olhar o céu côncavo pintado de anjos e Deus. A estátua do beijo no largo de São Francisco. O viaduto do Chá tinha árvores de plástico reciclado. Garoou forte no viaduto Santa Ifigênia. Faltaram o autódromo de Interlagos, a estátua de Borba Gato, o instituto Butantã, o palácio dos Bandeirantes, o Centro Cultural São Paulo.

       - Por favor, coloque na cestinha tudo que o moço tiver de metal relógio corrente pulseiras cinto piercings celular moedas tudo, obrigada. Passe pelo detector de metais, obrigada.

       O voo atrasou, o voo pegou engarrafamento, o voo alçou voo e eu não queria ler nada. Teve o casal que cuidou dos gêmeos de cinco anos. Que bonito a família lendo a garotinha com gibi o pai e a mãe com o mesmo título embora cada um com seu exemplar de 480 páginas. Uma beldade de calção estampadinho pernalta que abraçava um livro de 700 ou 800 páginas e fechou os dois olhos (azuis ou verdes atrás de óculos número 0,05°, ainda bem felizmente) na página cinco, beldade performática prosperada apresentando um andaime de um metro e oitenta e seis no ambiente cabelos loiros puros até o meio das espáduas, foi diferente cuidar dessa uma beldade sempre assim possível no nosso caminho na nossa paisagem pela nossa proximidade, falei dos olhos da beldade azuis ou verdes como azul o céu naquele instante do voo de retorno.

       O avião subiu para o oeste e virou para o norte, achei. Quando ele fez essa curva foi estranho porque o bicho ficou à deriva e a sensação foi de queda para o lado.

       Olhando por cima Bela Vista, Vila Leopoldina, Jurubatuba, Raposo Tavares, São Caetano do Sul, Sao Paolo.

       A minha vizinha de poltrona, bem resolvida muito procedimento muito bem contente muito intuitiva, amistosamente:

       - São meus sobrinhos.

       Mostrou imagens no celular de dois garotos e uma garota em idades escolares, confiadamente:

       - Moram em Gramado. Vou visitá-los, né!

       Estiquei o pescoço para a janelinha redonda trinta centímetros quadrados e viajamos muito entre nuvens a sei não quanta velocidade e tanta altura. O  fundo de telhados e geometrias ficou azul com nuvens brancas esgarçadas.

       O mar azul e o céu sem ondas. Violentando rasgando acometendo zumbindo o ar azul. Podia fechar os olhos me dominar e tentar um cochilo? Eu me prometera fechar os olhos.

       A vizinha voltou, miudamente, puxando a manga curta da minha camisa toda vermelha comprada na 24 de Maio ali perto do parque da Luz:

       - Por acaso você moço já sabe já descobriu qual a palavra mais humilde de toda a Sagrada Escritura?

       Olhei para ela com minha cara de sempre de dúvida de ignorância de testemunha de humildade de santidade de natural cara pálida:

       - Apocalipse! - ela mesma respondeu e delatou.

       Balancei a cabeça meio pra lá meio pra cá, pra direita pra esquerda, meu coração de dois quilos e oitocentos gramas bem no meio do mundo, e referi:

       - Veja você, dona, que coincidência ou não. Ontem à noite, ali pela meia-noite, por ali, fui obrigado a assistir um documentário, umas duas horas e meia sem intervalos, e o filme falava e mostrava tudo sobre três acontecidos desastres aéreos. Não sobrava nada.

       Outros saíram das poltronas e foram só passear até o banheiro. Alguns se lembraram da bolsa no bagageiro. O avião varou nuvens totais todas iguais. Nada para fazer com as mãos e se pelo menos tivesse comprado uma revista um livro de 700 páginas. Como foi Sao Paolo?

       Já numa altura por volta dos países de Vacaria, São Marcos, Flores da Cunha, Antônio Prado:

       - Atenção passageiros e tripulação. Vamos passar por uma área de breve turbulência. Permaneçam sentados. O cardápio será servido dentro de instantes.

       Não importa se de avião ou de navio, uma hora vão pedir para olhar tua bagagem e verificar se trás alguma coisa que possa ser ameça para alguém ou algo, etc.

       O avião oscilou brevemente. Foi, embora, mais fácil mais certa mais prática a volta.

       Fiquei sorrindo à toa com a lembrança da cunha nos seus seios brancos como as nuvens pequenas gelatinosos bonitos pontudos na blusinha de verão azul-clara repensei naqueles seios apalpados e módicos e uniformes e ariscos senti ainda o suor o sabor do seio mais trabalhado mais procurado e doce e palatável, etc.

       - Atenção para o procedimento de pouso. Em Caxias do Sul céu encoberto temperatura em torno de 14-Bis. Obrigado a todos. Tenham sempre um ótimo dia.

       A aeronave foi guiada ao ponto certo. A viagem se realizou.

       Contudo me distraí bastante, com tudo.

       - Então? Foi tudo bem? Gostou? Comprou?

       - Foi tudo como se eu pudesse fazer. Ainda não me caiu a ficha da melhor coisa que vi lá em Sao Paolo.

       E a coisa mais inusitada que passei em Sao Paolo foi dentro do banheiro do aeroporto - o passarinho seguro concentrado no que estava fazendo -, a voz suave empostada humana de mulher nova, anunciou:

       - Atenção passageiros do voo para...

       Que inesperado, meu!