sexta-feira, 6 de setembro de 2013

No Devido Tempo


 

 
        O bairro já estava acordado, menos eu.

       Pelo sim pelo não mais ou menos e não mais que isso mesmo, abri os olhos de uma vez e já bem provocado pelas muitas bombas a propósito do dia comemorativo. Mas ainda relutei me perdi fingi me virando e me revirando na cama. Segurei a cabeça com ambas as mãos e preguiça e bocejos e ponderações. Já não tinha mais sonhos quando alvitrei:

       - Quem sabe o dia não me espera para um dia sem igual!

       Cada manhã é um novo mundo e outra pessoa que aparece no meu lugar no mesmo lugar.

       Forte pensei decidi falei comigo:

       - Vou pular da cama e como.

       Olhei pela janela, o sol dardejante, os caminhões em fila indiana prontos para a bênção do santo, as pancadas manchando os ouvidos e o anil do céu. Em vinte minutos pensei nos meus pés nas minhas mãos nas partes todas componentes, etc.

       Fui para fora porque o rebuliço festivo me chamava me convocava me arrastava me dizia me queria, o esquisito berro dos caminhões, a estralada dos rojões, o juncar de gente domingueira na capelinha do aniversariante em o vinte e cinco de julho, o tempo bom sem muito frio, os pichororés, os curutiés, os canários-do-chão, as patativas, os azulões, as nhandaias, os joões-xiquexiques, as cancãs, rimavam:

       - Já não é sem tempo!!!

       O sol brilhava e inundava tudo. O rio se exercitava para o futuro, a árvore, o pássaro, o sol, o rio e tudo mais. O sol brilhava sobre tudo mais.

       Por que apelar em Deus se tudo isso já existe.

       Eu queria ser um elefante para aparecer e andar no meio do povo.

       O vento moderado sacudia os galhos e folhas fazendo ouvir o retinir das folhas das carandaís, o piar das cuaxingubas, o rir das quataquiçauas, o falar das juapocas, o burburinhar das guapebas-vermelhas, o murmurar das pitombeiras, o bulhar dos gervões-cheirosos, o pregar das tipis-açus.

       Tudo isso eu via, tudo eu ouvia. Deus brincava de diversidade de universidade e estava feliz com o gênero humano e outros. Eu vinha depois de Deus, muito depois e bípede pedestre, mas e disposto a tudo.

       A festa do santo era o acontecimento do mundo. A festa acontecia no mundo todo.

       Tatalar de asas, sabiá-ferreiro, saíra-de-papo-preto, tuim, azulinho-do-sul, safira-de-garganta-azul, cordão-de-frade, bacuri, farinha-seca. O dia estava muito engraçado, faz favor!

       Era coisa mais natural do mundo, o céu de uma só cor azul e ausência total de peixes.

       Logo me enturmei, até porque o bairro São Cristóvão em peso estava ali e se mexendo e se encontrando e se achando. O alto-falante cantava tão alterado que era impossível não irritar as lavadeiras-de-cabeça-branca. As meninas vendiam santinhos para colar no para-brisa ou fitinhas com alfinete para prender no peito da camisa.

       O dia liso alto espelhante de muita luz distribuída entre as cores normais.

       E o que é que me faltava.

       São Cristóvão passou no meio do buzinaço, com foguetório retumbante, gigante com menininho Jesus nos ombros, todo decorado de flores e frutas da época, bandeirinhas e fitas de papéis coloridos, ramos e folhas de mucaiás. Foi aplaudido e vivado pela rua pelas ruas que partiu do capitel e até o salão de festas do outro lado do rio Retiro. O povo acreditava que o mito do santo ajudava os viajantes devotos.

       Debaixo das árvores nas sombras aveludadas das cupuaçuranas, o churrasco do meio-dia, o pão caseiro, a salada de batata, a melancia fatiada, as compotas, a família em volta da toalha xadrez estendida, os bordados das conversas as parábolas dos gestos os compassos dos risos as exclamações dos gargarejos os incontidos dos regozijos, os bichos do mato na espreita de marimbondos-tatus, macaúbas, mucuras, mapatis, curicas, cássias-das-antilhas, angicos-vermelhos, catirumbavas, avencas-de-folha-miúda.

       E no dia todo festivo, ainda falei com as primas todas que não me escondiam nada. Andavam pela festa sempre juntas as três em trio abraçadas e risonhas e debochadas. Emparelhadas não queriam saber de empatar comigo. Separadas eram impossíveis um amor atrás do outro.

       A Maria Helena de olhos azuis como o céu na manhã de aniversário do santo. A Alice brincando com a trancinha de cabelo última moda delicada caindo no rosto que ela achou fazer para aquele dia e todos elogiaram. A Ana Paula com seu jeito conformado com seu jeito reparado com seu jeito parecido. Talvez fossem melhor assim!

       O céu branco, duas nuvens, vento muito calmo e passando, cinco seis dez doze curicacas grasnando pelo alto dos tantos pinheiros-do-paraná, pessoas rindo sem assunto nas sombras dos biribás, músicas estridentes vertiginosas, menino andando com refrigerante, raças de automóveis pegando fogo sob o sol, menina andando com sorvete duas bolas coloridas, e era bom sem fazer nada. Borboletas diversas dispersas tolerantes se engraçando com as cores vivas dos vestidos floridos.

       Eu vi Deus e vi Raquel.

       Gostei que Raquel prendesse mais fitinhas de brinde no meu peito de camisa. Virara destaque entre os guris ter duas três ou quatro das fitinhas de cores.

       Olhei nos seus olhos e a guria gentil me sorriu. Ficamos amigos. Foi para lá e já voltou. Sentamos lado a lado, nos emparelhamos nas brincadeiras, nos tocamos com os cotovelos das asas. Fui e fiz  uma volta para retornar. Não me cansava de olhar para ela. Sem obrigação de nada.

       Raquel tinha todos os olhos meus.

       Uma aquela enorme vontade de olhá-la, a cara de menina petulante com cabelos de sempre nos olhos, incomparável bonita de qualquer jeito, os enfeites combinando, o perfume de flor de cipozinho-do-campo, etc.

       Olhava para as pessoas e as pessoas gostavam dela.

       E o andar o passo bonito sem exagero cheia de si elegante.

       O nome das estrelas todas, dos pássaros, dos peixes, das plantas todas.

       Ela falava de uma coisa e eu sempre achava as mil e uma maravilhas:

       "Era uma vez uma formiguinha das perninhas agitadas chegando a um ponto da rua Apicum, em Cururupu. Ela viu uma pessoa senhora com sacola vermelha no ombro e perguntou:

       - A senhora me responde?

       - O que eu puder.

       - Onde fica a padaria mais açucarada?

       Lá para lá foi a formiga-caiapó caprichosa intrépida sistemática de tenaz vibrante e antenas eletrizadas."

       Raquel que me contava um caso e eu aumentava para mais de mil pontos:

       "Era uma vez que eu estava de visita na casa do meu tio minha tia minhas primas, etc., em Erechim. Naquele dia pousava ali num terreno baldio um circo com lona listrada de azul e de amarelo. Fui até lá porque queria ver de perto.

       O cachorro Sarandi - satisfeito mascote das primas -, me perguntou, orelhas altas, cauda vibrante e língua de fora:

       - Pra onde tu vai, prima. Posso.

       Eu deixei bem claro pra ele que não era pessoal, pelo contrário, era animal:

       - Não posso te levar porque vai dar bagunça e o circo pega fogo.

       Fui desacompanhada, boné virado o contrário e em dois passos atravessei a rua Flores da Cunha. Tinha sol e um bando de corrupiões no café da manhã entre as tenras e vergadas hastes do capim-cheiroso.

       O circo era argentino e tinha nome italiano. Andei no meio do acampamento, olhando os trabalhos, espiando os bichos sensacionais e exóticos, as girafas, os leões, as zebras, as renas, os pôneis, as avestruzes, os babuínos... e parei diante de um urso-de-óculos enjaulado. Ele fazia assim... se mexendo de um lado pra outro... como papagaio no poleiro como coruja no galho como pêndulo de relógio de pêndulo. Fiquei intrigada e olhando aquele modo. Ele até parecia não me ver nem estar aí nem nada. Tive de perguntar e indaguei:

       - Por que você não para de balançar pros lados. Tá maluco.

       O urso-de-óculos agora me sintonizou de repente me reparou me focou me fitou de súbito e, mesmo continuando a se gangorrar, respondeu:

       - Yo no hablo brasileño.

       Encontrei por um acaso meu tio espionando o preparo a armação das tendas do picadeiro das arquibancadas de madeira o estender da lona gigante, etc. Confessei que vira um urso-de-óculos e todo desequilibrado lá dentro de uma jaula:

       - É que prometeram a ela um namorado e até hoje, paciência.

       De noite no meu quarto eu fiquei pensando na sorte de pertencer a um circo itinerante e viajar o mundo, os palhaços, os anões, os trapezistas, os tigres de bengala, o distante namorado da ursa-de-óculos, etc. Sonhei que os bichos derrubaram a cerca e invadiram o centro da cidade e chegaram camelo dromedário lhama vicunha guanaco alpaca até a praça da Bandeira pra tomar água no chafariz dos atônitos peixes vermelhos e amarelos."

       Um dia nos encontramos de novo comigo com ela nós eu e  Raquel.

       Um sonho que se repetiu.

       Era um sonho que se realizava.

       Esse puro acontecimento no acaso de nossos humildes dias, que Deus quis assim.

       Depois de dez anos longe um do outro.

       Eu ouvi o silêncio e vi Raquel.

       Num supermercado da cidade de Araripe - por que uma cidade cearense tão inusitada e que coincidência. Os olhos dela sorrindo. Muitos anos depois... aqueles dez anos todos em pós...

       Ela me falou, simpática acolhedora e com voz repassada de emoção:

       - Ah!... Eu que já pensava ter me esquecido de você.

       Eu falei:

       - Quando se quer muito, não se consegue nada. Isso é muito bem feito.

       Ela me contou que cada cidade tinha um rio e uma tribo indígena preparada para contar façanhas pitorescas:

       - Tipo assim, Pirapemas e rio Itanhaém e tribo dos pocheti.

       Eu retruquei:

       - O mundo começa na terra.

       Ela continuou, a voz plana:

       - Se acostumar com um lugar, porque cada lugar tem seus demais a mais.

       Eu perguntei curioso:

       - Dê outro exemplo de viagem ao sem fim.

       Ela exemplificou:

       - Andei pela rua Igaci a praça General Osório a cidade de Serra Branca.

       Eu incentivei:

       - Já se falava em fim de mundo.

       Ela prosseguiu:

       - Você duvida de alguma coisa.

       Eu inventei na hora:

       - Gostaria de visitar o parque Serrinha do Alambari.

       O tempo ou o rio foi passando. O santo gigante cruzando o rio, também os devotos de pés descalços. Os relógios buscando sem parar os tique-taques. Vestido de pelego, cajado na mão esquerda para sondar cauteloso as pedras do rio, o menino no ombro direito cada passo mais pesado, a auréola na cabeça. As pessoas ali brincando de festa de santo padroeiro.

       De tarde mudou o tempo. Mudou o vento. Muda o vento e muda tudo.

       Os pássaros sabem olhar o tempo e pararam de cantar. Os foguetes explodindo intermitentemente. Os meninos correndo entre os autos. Tudo em volta lembrava aos garotos as coisas divertidas as brincadeiras e as correrias.

       Quem sabia olhar o tempo.

       Sinais de chuva. O mundo estava para acabar. O vento soprando o tope das almecegueiras.

       Era ver e sentir e esperar que ia chover.

       Raquel me ouvia me lia me enfeitiçava com seu monte de cabelos, os gritos e berros da tômbola em sorteios de prendas na outra ponta da dimensão surrealista, o rabo de cavalo atirado para as costas ou caído para a frente no ombro direito esquerdo, as unhas pintadas de desenho, e eu falei:

       - Uma vez comecei a gostar de chuva e ainda gosto de ver chover.

       Ela me passou:

       - Não é só você que gosta de chuva e sempre gostou, pois todo mundo gosta de ver a água cachoeirar do céu.

       Botei a mão no seu rosto para sentir a febre se estava febril, e seus olhos saltaram como de boneca com olhos de botão pularam de verdade arredondaram dois lagos claros de luas perplexas.

       Ela me disse:

       - Você prefere ver o mar todos os dias.

       Eu tinha o que dizer:

       - Prefiro ver o mar as árvores o trem a montanha, no mínimo.

       A calma parecia ter parado o tempo e ia chover, choveu.

       Depois de parar a festa de parar a chuva, a lua apareceu no céu na terra e, acompanhada de estrelas e meteoros e discos voadores, se refletiu como fogo faíscas nas poças de água.

       Eu pensei alguma coisa assim rapidamente enquanto nos falávamos, o supermercado me confundia um pouco, mas não disse o que pensava, disse o que revelei.

       - Quando foi que segurei a sua mão. Acho que todas as vezes. Sempre nos encontramos de vez em quando naquela manhã de festa. Quando te revejo agora pela primeira vez.

       Ela me confessou:

       - Tudo que acontece comigo é sempre engraçado.

       Eu repassei:

       - E hoje não termina nunca.

       As duas pessoas que um dia se cruzam novamente em uma data qualquer num lugar e escrito com pena de ouro e ponta de diamante nos alfarrábios das estrelas. Naquele momento Raquel estava vestida assim.

       Ela me contou:

       - Passeei por onde fui. O que vi e tomei nota. Tinha o mar e o litoral, o rio e os barcos, os animais e as árvores da floresta, arauá e gavião e nambiquara-do-sul e oro-uim contando lendas de árvores se mexendo, ponte sobre o rio do Sono, a praça  Sarnambi nos dias de semana, baía de São Marcos, serra dos Carajás, figuras rupestres em Itajobi, o parque Marinha do Brasil nos feriados de manhã de sol. Assim, um labirinto.   

       A luz dos olhos dela estavam iguais na minha memória. Os olhos negros brilhantes e assaltados. A festa o supermercado estavam muito mais interessantes e nem existiam. E o olhar e o sorriso sempre o primeiro do dia. Olhos úmidos e cintilantes que não se fixavam em nada e procuravam curiosos por tudo. Os olhos se perdiam dos olhos do sorriso dos cabelos das palavras, etc.

       Eu sabia o que queria, não sabia o que fazer.

       Então, era como aquele vinte e cinco de julho, eu ainda com vontade de sacudi-la como se sacode uma árvore frutífera, continuei:

       - A sexta-feira é meu dia de sorte.

       Ela falou:

       - Eu gostaria de participar de tudo. Que acha.

       Eu respondi:

       - Não posso ver tudo.

       Ela completou:

       - Nem posso mais mudar.

       Aceitar apenas os fatos narrados.

       Aqueles olhos começaram no infinito e vinham pelo universo. Estrelas cadentes, espaçonaves brilhantes. Aqueles olhos iniciaram em mim e iam pelo universo.

       Os olhos deslizando pelos quatro escaninhos do tempo.

       Era o olhar, mais uma vez eram os olhos. Mas com o sorriso dava para ver tudo muito mais claro e amplo.

       Eu argumentei:

       - Acho que a gente muda para a mesma coisa.

       Ela falou:

       - E todo o resto e tudo o mais.

       Eu fui em frente:

       - Por que você pinta ao redor dos olhos ressaltando a profundidade do olhar.

       Ela aumentou minha saudade dos lugares por onde passou:

       - Eu estava em União, viajei para Acarape, parei seis meses em Viana às margens do rio Anil. Acordei num quarto de hotel em Barbacena relembrando o sonho. O sonho se passava em outro lugar em Rio Claro, Avaré, Cachoeira Paulista ou ilha da Trindade. E voltei a dormir.

       Rimos pelo mesmo motivo. Nos olhamos de cima abaixo ao mesmo tempo.

       Eu provoquei:

       - O rio Jurema inaugurou a tribo dos anapuru.

       Ela tergiversou:

       - Em Mangaratiba muitos baús de piratas no fundo do mar Atlântico.

       Eu voltei:

       - Eu queria plantar árvores no quintal, imburi, mangabeira, limão-do-mato, folha-santa, embaúba.

       Ela corrigiu:

       - Como criança que quer só comer chocolate sorvete pipoca quindim.

       Os olhos os olhos cheios de sonhos, então, o pensamento o pensamento não se definia por essa ou aquela entre mil coisas.

       Pegou minha mão e disse:

       - Sinta minha emo.

       Ficamos nos olhando em que festa de aniversário de santo em que supermercado de cidade escolhida. Era impossível.

       O vento nervoso remexia as sipaúbas da cidade. Começara a chover.

       De novo como a primeira vez.

       Não pensei nada ou ainda milhões de coisas.

       E fiquei assim, empurrado para um planeta de que tipo e longe entre o céu e a terra.

              

domingo, 28 de julho de 2013

Siriú


 

 

      

       Que cunhantã de olhos verdes é jurupari disfarçado, encrenca na certa, perigo à vista, pororoca. Parece que tem olhos de vidro, de cobra, de sondaia, falsos, enigmáticos, mágicos de magia maracá. Olhos moles e espichados e sonolentos e doentios, cansados de olhar o mundo de cima.

        Deve ser de nascença nervos febre fervura.

       Siriú era essa guria de olhos esmeralda. Uma bala perdida. Ela mesma só veio a se descobrir quando até  bichos de estimação se fascinavam. E daí - que sufoco, meu! -, como controlar a própria emoção, o sucesso entre os homens e mesmo, surpresa!, entre as mulheres. Não era uma menina qualquer. Era uma briga de foice no escuro. Rastro de onça-pintada. Uma beleza inevitável. Tinha olhos verdes de fazer doer.

       Tinha, como não haveria de ter, uma pintinha estandarte uma belezinha do lado no rosto direito e que fazia tudo bonita o dia o sol a chuva o rio o pássaro a rua a árvore a canção de rádio. Nariz logo simpático preclaro. Sorria com ar descansado.

       E para ajudar ainda já se via surgindo rápido um corpo bem formado, delgado, jeitoso, bamboleante, açucarado. Os lábios bons carnudos repentinos relapsos. Beleza delicada. Aerodinâmica. Que quando passou dos 30 quilos todo mundo já queria provar provar. Já pensou?!

       Sempre a deixavam sorrir.

       Para ela, e como poucas, amores e emoções e aventuras de romance nunca irão faltar. Nunca irão saciar esgotar. Preciosa dos dentes aperolados, passarinho, sorriso sempre normal. Poderá escolher até com quem não casar. E ninguém que ande do seu lado, uma amiga, terá a mesma chance. Todos os olhares para ela. Todos os pensamentos e ilusões.

       Assim era, mais assim estava para nascer.

       Jogaram bebeu recebeu beijos de todas as procedências de todos os lados de todas as irmandades. Pronto, a gargalhada dela de todos os dentes atirada para trás. O gorjear bonito de se ver. Olhava o necessário. Verde vivo serelepe e feliz.

       Colhia as histórias de tempo futuro.

       Medrada de curiosidades.

       Nada era o bastante suficiente, fazia uma parte do mundo, cheia de si.    

       Siriú aprendeu isso com a própria carne. O seu feitiço se virou contra a mesma e cedo. Ditou moda na rua, só pode ser ela. No colégio, também. Namoro em carro esporte, carisma de artista, até o salário dela fazia jus aos seus olhos novos em folha. O futuro também.

       Fruta de imaginação.

       Nem esperou para ver o que ia acontecer.

       Não tinha dúvidas do seu amplo manifesto.

       Enlouquecera a todos, o irmão, o tio, a prima, desvairou tudo por onde passou no colégio, no cinema, no CTG, enfim, onde fosse. Apressou suas histórias nessa parte, se adiantou às outras meninas e virou logo uns cabelos loiros da hora.

       Não queria passar em as brancas nuvens.

       Nunca quis ser arquiteta. Estudou arquitetura, um tempo. Um tempo para estudar odonto. Procurou filosofia. Estudou psicologia, um tempo.

       Colocar uma pedra e riscar o nome ali na pedra.

       Era de se esperar, parecia, era dela mesma esperar, que a arte da sorte tivesse alguma ideia melhor nela a Siriú.

       Comprou polainas várias cores e feitios no inverno, luvas sem dedos, gorros tricolores, cachecóis. Os piercings em cada sobrancelha. Uma tatuagem grande de beija-flor subindo em asas abertas irisadas a partir da virilha.

       Tudo se atropelava na vida de Siriú, principalmente o que devia fazer com calma, demorado sem sustos palmo a palmo.

       Respeitava os mais novos;

       Um pouco menos os da sua idade;

       Nunca os mais bem aposentados.

       Teve um dia em março, Siriú encontrou um rio. O rio Gorutuba. Sentou no lajedo à beira do rio. Não entendia se descia ou se subia. Em que altura do rio podia entrar. Lógico! Foi descendo o rio. Encontrou outro rio: rio Arari. Emendou e continuou acompanhando. O rio entrou por outro rio. O rio Paraitinga. Em frente descendo encorpado era tudo gravidade forçada.

       O modo da planta dizer que era planta, o modo do pixoxó dizer que era pássaro, o modo do tiú lagartear, o modo da enxurrada aparecer aquela lagoa.

       O sol era bom, as árvores era bom, a manhã era bom, o rio era bom. Era uma batinguacá que tinha ali. Temporada e época no tempo certo dos japacanins-do-brejo.

       Voltava as ideias para onde preferia.

       Nas tardes de domingo, iam visitar as cidades: Arapuá, São Gonçalo do Abaeté, Três Marias, Porteirinha, Serra Branca, Coxixola, Carmo do Paranaíba, Presidente Olegário, Itumbiara. Quando estava Siriú em andanças por mundos.

       Nuvens pendentes e de bordas polidas com opala.

       O mundo em universo.

       Em Iraí de Minas também é sempre assim. Em Água Doce do Norte todo mundo é formado em qualquer coisa ou está estudando para isso. Quem conhece Nova Esperança do Piriá se considera com sorte. O que há de notável em Santa Bárbara do Tugúrio.

       O azul do arco-íris na chuva, o verde do tiê-sangue, o amarelo do pé de juá, o azul do oceano azul, o verde do periquito-verde, o amarelo do pé de ipê-amarelo.

       Há tempo para tudo.

       Siriú estava contente aquela manhã e por dois motivos:

       Vinte e seis anos já haviam decorridos e o vigésimo sétimo estava por esse fio de horizonte postado de azul.

       Siriú suportou a cor do cabelo quanto pôde.

       A conduta desprendida.

       Bons modos.

       E sobrava para si mesma até a menor das dúvidas.

       Tanto lugar que é para longe a gente ir.

       Naquele dia foi que desceu até a beira do rio Cotinguiba.

       Se mirou como uma irerê.

       Olhou em volta olhou por dentro de si e não soube o que falar...

       Quantos zinzinares de abelhas guarupu, mandaçaia-do-chão. Os socó-boi-baio, arapaçu, tovaca, sanhaço-de-coqueiro, papagaio-de-coleira, siriri, tangará, passarinho-de-verão. Uma família do luís-cacheiro. O mico-estrela comendo araçá. Filhotes de churi churizinhos. As lava-pés abrindo trilha na areia fina das pedras roladas.

       Se ajoelhou e bebeu em concha, pirapitinga veio ver, mandi, anujá, cambeva, piapara, joana-guenza, candiru-açu, acará, saicanga, caboje fazer cócegas nas solas dos pés. Jandaias carregadas de jambeiro-do-mato. Alaridos alegria esbanjada verde sonora ruidosa. O curiango-tesoura, primo não totalmente distante de Siriú, comportamento de atônito atenção de olhos pressurosos desde um topo de murundu. A cabatatu em itinerário desfile aéreo. Borboleta verde sem peso.

       Siriú chorou um só dos seus olhos cristalinos puros, comovida tonalidade, as esmeraldas nuas pingadas de água doce no rio.

       E contou como eram as árvores, cachimbo-de-jabuti, cravorana, copaíba, babosa-branca, juruvoca, malícia, alfavaca-de-cobra, fedegoso-do-pará, ingazeira. Eram árvores. Nunca havia visto à vista árvores tão centenárias e pacatas e ordeiras. Troca de energias. Os grasgrasnados dos papagaios-do-peito-roxo, dos pica-paus-de-cabeça-amarela, das maitacas-azuis, das saracuras-do-brejo, das porutis. A mata ciliar, as plantas volúveis e perenes.

       Tudo ficou de novo com o rodar do tempo das horas.

       Deixou o barco jusante com o rio.

       Manchas brancas no azul, parecidas com naus antigas, boiavam resvalavam flanavam perambulavam pedalavam incorporadas ao vento nordeste. O voo do toca-viola para os lados de um sarobal fechado. Estava árvore de assa-peixe, estava piopio de soldadinho.

       A Siriú concentrada mais linda que de quando da primeira vez. 

       Fazia tanto tempo já.

       E ela mesma sempre a mesma.

       Toda toda estremecida de tons verdes.

       Uma luz rolando no céu parecia com o disco voador dos marcianos.

       Era com a primeira delicadeza que reparava para contar as árvores, mangarito, jacarandá-antã, mata-barata, timbé, pixuna, guaxima, sarã, paina-do-campo. As sagradas guajaraís-da-várzea. Era setembro e as juritis por perto carregadas de sapucaia-branca.

       Se agradou da visão e esbarrou o fim do mundo em redor mais longe com um batólito de serra do Jatobá.

       Olhou pensou sentiu tentou adivinhar sonhou.

       Horizontes eram mais dentro por dentro um do outro do que a vista podia falar.

       Como não era a pessoa mais velha do mundo, morreu.

       Sempre que buscou encontrou o que nem perdera, o que lhe pertenceu por dádiva de estrela na testa.

       Morreu antes do previsto ou antes de saber morrer, mas depois de tudo fazer todas as coisas que devia.

       É isso aí, como se sabe que é.

       O jeito de ser do mundo.

       Esse tempo resolvido.

       O que foi e era o imposto.

       Só mesmo Siriú sabia onde é que estava e veio parar.

       Achou o que tinha achado o que tinha de achar.

       A sensação de chegar, por acaso, onde sempre procurou estar.

       Mas isso ainda não era mais que nada. E parecia que não era até ali.

       Rituais oferendas fogueiras guinchos de gavião-carrapateiro fetiches com jeito perfeito de pajelanças fulniô.

       Aves zinzinavam desde o banhado, do banhado vinham os zinzinares das aves marrecas-caboclas, marrecas-cricris, marrecas-caneleiras.

       O sol caía em tarde e muito bastante longe. Uma ou duas nuvens de ouro e de prata, etc.

       As certas árvores com ventos nos cabelos, arranha-gato, guarumbé, bejuco, pitaica, capixim, taiuiá-grande, pindobeira, manjerona-do-campo.

       A lua apareceu como um espelho do rio.

       Viu bem Siriú o rio e mergulhou, saiu na outra ponta, o cabelo molhado de negro, iara procurando a noite de lua para se personalizar.

       Siriú sentou no barranco sobre as tapiocangas e o capim-gordo, acauã de tocaia em poleiro de quixabeira, vento aromando o ar com flores de pacovas, estrelas medindo a altura do céu, águas espumosas e marulhentas, coaxar em ecos de lata dos sapos-ferreiros -, e por ali ela esperou o acontecer das coisas novas.

       Os olhos dela resplendentes, olhos limpos, cabelos compridos caprichosamente entrançados, olhos negros como a asa da iraúna.

       O tempo todo que se quiser.

       Era bonita lisa cabelos negros.

      

domingo, 23 de junho de 2013

Quem Bom!


 

 

            

       Vinha tão perto, a tarde estava linda, era de admirar.

       Durante a tarde pela manhã em casa no apê do quinto andar do edifício Timburé, mentalizou mentalizou projetou a noite que desejava que procurava que queria que teria que precisava. Uma noite de sexta-feira produtiva e boa e calma. Santa paciência, sempre sempre, pelo amor de Deus! Sem chuvas sem ventos fortes sem atropelos sem embaraços sem galimatias. E acendeu uma vela azul de laço azul para a Nossa Senhora da Aparecida, odor de santidade, e outra vermelha de laço vermelho para o São Cristóvão.

       Ora essa! Aos 14 de junho de dois mil e treze... Saiu a tarde inefável e entrou a noite.

       Embarcou purificada na estação Itaquatiara do metrô às 20 horas. Ela foi, à hora aprazada, ao encontro do promissor acaso imprevisto futuro, batom sabor bombom. Por um triz ia perdendo o trem. Noite metropolitana, luzes pela cidade, ruídos do trânsito incessante, gente voltando na maioria. Procurava por um programa leve que possibilitasse ir às compras na segunda-feira e ao shopping no domingo.

       Preferência por preferência tinha em princípio suas preferências por homens de barba rala, homem  de bigode era ridículo, homens de cabelo natural, homens dos trinta para baixo, homens grandes esses que é bom. Imaginava sonhava aquela e várias outras coisas.

       Chegou ao centro às 20:30 e foi para a rua Itajubá. Escolhida a rua pela calçada larga arborizada da esquerda as árvores alternativas, cambará-do-campo juazeiro jacarandá-pitanga pindaúba. Caminhava devagar. Adianta muito sorrir e fica bonito bonita. Com aquele jeito tanto de quem está sozinha procurando companhia diversão entretenimento lazer distração. Nem séria, nem espetacular. Pensamentos contra ideias. Jeito distraído, abordável, suave, limpa, cunhantã, arzinho sério, jeito perfeito de passatempo, perscrutadora, cinturinha estreita, um sorriso muito lindo. Esclarecimentos completos. Vestida com tênis e meiões de listras verdes e amarelas, um número ímpar, cabelo bem caído sobre os olhos, saia curta lilás plissada com babados incríveis, miniblusa tomara-que-caia com enseadas e lajes e cascatas do rio Paraibuna e uma pochete à tira colo. Uma beleza concentrada, um número, pura verdade, ótima ideia, criativa, beleza matriculada, criatura privilegiada, bonita maravilhosa que nem se fala!, esguia como palmeira guacuri, sadia, inesquecível, madeixas douradas. Pelo formato, pelo tipo, pelo jeito, pelo andar, pelo sabor e parando à frente de cada vitrine, fumando, displicente, simples, solene, formalizada: uma putinha fresca.

       Parou um carro no meio da rua bonito de vidro fumê placa de lugarejo distante, ora se viu!, de Itamonte o vidro elétrico desceu e uma das duas mulheres a convidou:

       - Quer um programa, linda taguari?

       Aceitou o amável convite. Ela embarcou calculando o preço o babado a noite de romance o baile as horas de folguedo as libações. Cobraria alto, em dobro, mais que com homens e seria até melhor.

       Tem bom!

       Pegou um táxi na madrugada de volta para casa. O dinheiro dinheiro na pochete. Daria para fazer e ainda sobraria. Como foi e como não foi. Não é todo dia que as coisas vão tanto bem.

       Tomou um banho de água quente doce e se perfumou com aroma de andirapuampé. O sol espiando ainda calculando o mundo novo. Agora sentia o corpo pisado, esfregado, lambido, estapeado, as mordidas deixaram marcas. Teve um rápido e terno olhar para com a santa e o santo seus associados e prediletos. Se cobriu até os olhos com o lençol branquinho. Apareceu na cabeça o fantasma a voz do professor de História. Ele era engraçado e ele ficava jovial e ele narrava desfilando na frente do quadro olhando para além da janela envidraçada, às vezes.

       Estava com sono e se virou na cama tentando se abandonar, deixar coisas para pensar amanhã, ou nunca. Um último olhar, de esguelha, para aquele professor de barba rala e grisalha que tinha assunto de sobra. Havia tanta coisa a fazer! As dores nas partes mais sensitivas davam um gemido gostoso totoso, hum!... As duas coroas pegaram pesado, foi. O professor de História falando falando gesticulando andando pela sala de aula colocando assim algo como e aleatoriamente sobre se referindo ao farol do Cabo Branco ou Ponta do Seixas, na João Pessoa... Teve que acompanhá-las na cocaína. Beijos na boca. Faz parte.

 

      

domingo, 2 de junho de 2013

O Jongo


 

 

      
       Uma vez... e me lembro como se fosse hoje.

       Piraba foi com as amigas os amigos na festa à beira-rio a praia branca lá junto da clareira na vizinhança da Garganta do Embaú.

       Ainda era dia quando nadavam rio abaixo. Uns acompanhavam no fundo outros nem tanto mais na superfície pelas margens. Águas limpas ainda no verão dias longos árvores frutíferas floridas verdes cambiantes com aromas de jurema-branca, içá, coirana-de-são-paulo, aturiá, jacarandatã, caruru-amargo, jaborandi-do-mato, vinhático-testa-de-boi.

       O sol caía atrás do pico da Pedra Menina cheio em ondas vermelhas como gigantescas asas abertas de araras-vermelhas-grandes. O boto-cinzento seguia mais à frente guiando mergulhando parando para olhar atrás parando para sorrir parando para rir clicri! clicri!... mergulhando emergindo imergindo frequentemente nadando estabanando à frente indicando o caminho sem correnteza águas claras pelo paraná mais lógico.

       Mas as amigas todas só pensavam no baile, suspiravam antecipado, se abraçavam confidentes, desabafavam os sonhos, ruidosas, relembravam os desejos, retocavam a maquilagem, jolizes, se arrumavam, já que nenhuma ou poucas poucas tinham a tal daquela experiência.

       - Piaba, e esse óculos?!

       - É meu.

       Mas os amigos iam competindo velocidade voos ou saltos e aterrissagens espetaculares fazendo travessuras e gritando bravatas inventando coreografias disputando tolas bobagens trocando caretas temerários irrequietos a valer até com ousadias perigosas orgulhosas malabaristas acrobatas.

       - Eu tenho amigas amigos em todo o mundo!

       - Inclusive da Mongólia? 

       A noite desceu das regiões estratosféricas com uma ninhada de estrelas. O cardume chegou à praça de esportes Duque de Caxias envolta na bagunça da música e tumulto de espécies e de raças, linguagens, bebidas, doces, frutas, espigas de milho verde, pamonhas, onomatopeias, garapas, desfiles na moda, bandeirinhas de papel leve coloridas presas em barbantes puxados de árvore para árvore balançando ao vento que vinha ora da banda da serra da Mantiqueira ora da banda do rio Pitinga.

       As amigas se acomodaram todas pelos cantos nas laterais olhando com olhos acesos esbugalhados redondos saltados noturnos aguados os acontecimentos os fenômenos. Ensaiaram os movimentos da música em pequenas e tímidas rabanadas as guelras bem abertas para respirar melhor fora da água a franja nos olhos. Riram da cócega da novidade da iniciação da exposição e de mais todas as sensações.

       Breve e preocupante, um tiroteio uns tiros de metralhadora no alto do morro do convento de São Bento fez todo mundo se abaixar se jogar no chão se abraçar consigo mesmo pedir aos santos pedir aos berros fechar os olhos fazer promessa. A música desafinou, o pipoco durou cinco minutos, uma indecisão mundial, todos voltaram contrafeitos para o ar livre da festa.

       O Peixe-Lenha veio e pediu a mão de Piraba. Era um moço de chapéu de couro, cordões de linho coloridos no pulso, bonito de barbilhões enormes pontudos esticados até a nadadeira caudal, mais alto, nadadeiras bandeiras ao vento, cheirando à fumaça de cigarro, sapatos de escamas rebrilhantes e escorregadias, copo de bebida verde na mão.

       Esse moço de tal espécie não parou de falar coisas à toa no ouvido da Piraba. Ela gostou de ouvir, adorou se sentir prestigiada conferida, mas não compreendia nada, toda tonta, confusa com as luzes giroscópicas, o riso de tantos, o entra e sai de casais grupos bandos conjuntos, empurra-empurra, o gritinho das mais eufóricas, brincadeiras, tatibitates, etc, azaração, pegação, falação. Experimentou uma bebida vermelha. Era tudo como sonhara e mais.

       Quando se viu sozinha com o rapaz no escuro longe do som da festa na sombra atrás de umas pedras seu corpo tomou de tremer como vara verde ao vento no vento. Sentiu que ele a procurava muito por todas as partes e seu hálito de cerveja era sem graça. Queria de volta seu livre arbítrio. E até amoleceu as nadadeiras as barbatanas a cauda e caiu nos seus braços como uma invertebrada.

       Piraba não sabia como e nem tinha fantasias enrolada num certo transe entorpecente devaneante soporífero irreversível irresponsável transcendente.

       Depois não viu mais o rapaz e nem a lua no céu nem uma estrela pra semente nem um cometa a tiracolo. A mata virou um breu de não se enxergar um palmo esbarrar em tudo. Tentou procurar a clareira a praça da festança, vencer a grama molhada o capim escorregadio as plantas espinhentas o pedregulho pontiagudo, procurou ouvir aquela música, precisava chegar ao rio. Escutou pios assobios estalidos reparou olhos de todos os lados uns mais perto. Alguém a seguiu, muitos a seguiram pé ante pé ou em voos ocultos altos baixos e cegos. Num cemitério mongoió um jacareúna desenterrando a noiva com uma pá enferrujada de cabo curto. Miado de gato-do-mato em olhos de brasa brabos. Árvores se fizeram de estátuas de fantasmas abriram as bocarras as gargantas mostraram as garras secas e mexeram os braços mirados em adeuses. Nervosa sem fala suou muito resmungou para si mesma calafrios boca aberta tiques nervosos pensamento absorvente. Os sapos e gias e bacuraus pediram para esperar, roucos, cavernosos, sérios, cantaram de sentinelas nos ocos nos tocos debaixo de folhas gigantescas nos tucurus nos igarapés e nos igapós. Aglomerações agrupamentos enxames de tatuquiras vieram cheirar seu cabelo iam e voltavam procuraram entrar pelos ouvidos olhos nariz. O chão fofo confundiu com casca de cobra grande. Vezes uma topada no galho baixo uma tropeçada na pedra solta barro até os joelhos. Despertaram distantes no fim do mundo uns riscos de fogo chicotes queimados umas bombas tum! tum!... anunciando temporal. Uma igara passeou suavemente levemente flutuante levada pela pequena incerteza da corrente águas turvas carregada abarrotada de esqueletos brancos sorridentes e espectantes apontando falanges proximais falanginhas mediais falangetas distais indigitando o longo caminho do acaso. A quadragésima vez que passou pela mesma caaxió. Colecionou folhas pedrinhas sementes araticuns-do-mato que ia catando e protegendo e guardando para debaixo do braço.

       Algumas horas outros dias são realmente muito tempo. O tempo desperdiçado ou adquirido. O rio descendente do tempo.

       O tempo do rio. A memória do tempo. O rio sempre rolando. O tempo descendo com o rio.

       Então, a Piraba entrou num novelo remoinho sumidouro rebojo torvelinho sorvedouro, o percurso foi exaustivo exaustivo, numa boca tragada sugada engolida e caiu empanada no abismo da panela.

       E isso é tudo (a história que contei) e não esclarece muito nem nada.

 

          

domingo, 14 de abril de 2013

Paisagem Possível


             

       As árvores as aves festejavam o ar livre e leve e limpo e quente da manhã ensolarada. Quando o sol desperdiçou estilhaços de metal e de vidro nas águas buliçosas do rio. Barrancos que naufragaram com o peso da terra encharcada. Os papagaios-da-serra carregando macacaúba. A serra do Espinhaço em azul de longe.

       As poucas nuvens brancas procuravam sombra entre as cerejas-de-purga, douradinhas, ervas-de-lagarto, ceribas, ibapois. O vento amainara.

       Mairata nascera já com a intenção na ideia fixa de que um belo dia iria namorar com a jovem índia majubim. E não tirou mais isso da cabeça, até morrer.

       - Vou andar de carro vermelho, vou negociar um iate, vou de jatinho até Apucarana, vou remar de ubá com a cunhantã nhandeva.

       Uma parte do mundo é noite, a outra é dia. O rio das Velhas brilha no entardecer. Sempre foi e assim será.

       - O rio de minha aldeia é novo em folha. Gosto de montanhas no horizonte azuis. Subo na canela-sassafrás desde que era ainda curumim curumim.

       A lua passou por debaixo da ponte. O piracanjuba parou atento olhando de boca aberta. Fez a volta pela rua. O curiango assobiou do alto da maparajuba. Bateu à janela de quem abriu a porta.

       Anoitece em Vitória e em Rio Branco ainda é de tarde. Faz calor em Pauini e frio em Candiota. Se tem lua em Flexeiras não tem lua em Mongaguá. E chove em Monte Alegre e não chove há dez anos nos pastos em São Luís de Quitunde. O guri que quer ser jogador de futebol nasceu em Rio Acima e deixou Itamarandiba para depois.

       Os dias de verão são ótimos como o sol;

       Uma menina de bicicleta no parque;

       Na tardezinha durante a chuva;

       Criançada gosta de bicicleta na chuva.

       Na rua, por exemplo, Mairata viu que existem várias violências desnecessárias. O pai brigou com a mãe que gritou com o filho que latiu pro cachorro. A polícia que entrou no bairro procurou maconha, trocou tiros, prendeu, cobrou e rendeu. Os políticos que representam, que roubam, que choram diante das câmaras de tevê, que distribuem sinecuras e secretarias e que pedem votos. Os famosos que não querem andar na rua com pavor de abraços e beijos e pedidos de autógrafos, e etc.

       - Vou abraçar e beijar com a cunhantã maxacali, aruanã! aruanã! - berrava Mairata.

       O vento descabela com as árvores, penteia e despenteia com as folhas, desgrenha com as plantas.

       A cidade de Sabará é uma das mais lindas do país, sem dúvida. Banhada pelo rio Ribeirão Sabará. A serra da Piedade fica por ali assim ao redor ao vivo mais perto do céu mais perto que nunca. Terra de pedras preciosas esmeraldas diamantes turmalinas cunhantãs bororo.

       De perto um ponto qualquer da avenida Princesa Isabel, Peruíbe...

       - Pera aí! Pera aí!...

       ...um quiosque onde se vende entre outras coisas boas e comuns a garapa e o pastel feitos na hora.

       Ele contou tudo para os amigos, se abriu para com os pais os anciões as anciãs o cacique e o pajé. Se confessou muito apaixonado, que era outro homem, arranjara trabalho, voltaria a estudar, não se marginalizou na cidade dos brancos e dos pretos, continuaria visitando os parentes, largara a bebida e a maconha, não morava mais num tijupá do beco do Bororé.

       - Vou sonhar, apaixonadamente sim irmãos e irmãs, com a cunhantã mariaté!

       A chuva caía com gosto de água da chuva. Sobre os ombros e os omoplatas de Mairata. Chuva continuada. Sobre os cabelos negros e finos e macios e lisos de Mairata. A chuva copiosa escachoante estrondeante. Depois, Mairata estendeu as palmas das mãos para cima e a água molhou as palmas as conchas das mãos. Assim, Mairata conferiu que a chuva estava parando.

       O céu de Campanha é mais baixo. O céu de Guapó é mais alto. Logo as montanhas da serra do Itatins são mais estão nos lugares certos bem elevados. O céu de São João del-Rei é mais baixo e módico. E céu por céu o céu de Natividade é mais céu azul.

       Contaram que o Peabiru passava ali e repartia o rio Taquari em duas partes iguais. Que o caminho dos índios era aqui ao redor da lagoa Vapabuçu. Os pousos longos eram por aí na altura da serra de Itacambira. Contam que este parque do Sumidouro era principal abrigo dos índios miranha no inverno.

       A chuva parou na praça General Osório. E as árvores centenárias estavam molhadas e pingando, tremendo de frio mais o vento gelado. Uma rua chamada Capotiraguá sumia por aí subindo o morro do Pirixi. Uma avenida chamada Cutucurim andava de lá pra cá. Os automóveis amarelos e os pretos e os verdes e os busões de verde-claro também rodavam molhados no asfalto lavado banhado quase alagado.

       - Vou comer barreado em Almirante Tamandaré, vaca atolada em Beagá, boi ralado em Cana Brava do Norte, espeto corrido em Santarém, boi na brasa em Pedra Dourada - Comentou Mairata como ele costumava falar na maneira habitual de dizer as coisas.

       Saiu na noite infantil, Mairata andou como doido pela cidade grande, bebeu no bar da esquina com amigos e com desconhecidos, foram para um inferninho obscuro de luz estroboscópica, beberam todas no bico, assustaram, azararam, fumaram a dar com pau, vomitaram, criaram caso, roubaram um carro na praça do Coreto, atropelaram um ciclista, correram da brigada, pularam o muro dos cacos de vidro e cada um por si, etc.

       - Saibam só de uma coisa: Que eu vou dormir com a cunhantã caripuna!

       As andorinhas gostam de telhas abas telhados. A cor é o som de si para si. O som grita uma cor comum. O som do grilo-preto tem uma cor metálica. O peixe decola em cores aladas. A borboleta flutua em sons decorados.

       - Estava ali, a árvore me olhando, eu fingindo não vê-la, sempre de cabeça baixa pensativo, as folhas bebendo meu cocar de penas de araras-azuis-grandes e gaviões-carijós e uirapurus-laranjas e charãs e meus cabelos até os ombros.

       Chegou numa praça chamada Cinco Pontas. Depois um panorama de plantas que se agitavam diversificadas meio agrupadas preservadas em verdes, cipó-de-cobra, guaré, mairá, assa-peixe, raiz-amargosa, erva-preá, indaiá-rasteira. A cidade de Riachinho é mais velha que a cidade de Porto da Folha. Bichos soltos e pássaros piando em cada canto no seu galho, curupuruí, tuim-de-asa-azul, tufinho-verde, pica-pau-fura-laranja, pomba-trocal, marianinha, arapaçu, anu-coroca. Pegou a avenida Pititinga para o município de Ponto Belo.

       - Pensei o que pensar e acho que adormeci: Sonhei com o time campeão, pois ouvi gritos uivos vivas jogos pirotécnicos intermitentes, despertei, senti falta da cunhantã iurimagua de olhos mansos de olhos contentes perpendicular paralela de olhos ponderados.

       A menina trocou as asas e fantasiou da janela azul da casa verde;

       O guri passou por dentro da árvore, quicou a lua no campinho, trotou descalço na chuva, cabeceou uma nuvem e correu para o balanço;

       A ave veio encontrar a menina da bicicleta no alto da cuaxinguba;

       A primeira estrela da tarde inaugurou o rio os peixes as estrelas a lua;

       As meninas vinham de volta e curtiam jogar as pernas e rindo ainda das ondas da praia.

       O fundador de Pirenópolis foi um mascate sírio ou libanês. Foi um fora da lei muito procurado por todo o centro-oeste e parque Serra Negra. Um bandeirante paulista de família de fazendeiros com fazendas de gado e de café uma em Marabá Paulista e outra em Barra do Chapéu. Foi um mateiro atrás de ervas e plantas venenosas que curam todo tipo de doença. Um caçador de antas e pacas e cutias vendedor de peles com loja na avenida Nossa Senhora de Copacabana no centro de Macaé. O nome dele era Cutiaia e o sobrenome De Barbatimão. Às margens do rio Corumbá que passa ainda hoje ali mesmo e por volta de 1786 ou 1796 utilizando os rios como estradas e a sorte como abrigo e o destino como rio. De pronto abraçou um pé de guaporé onde hoje é o centro da cidade e se localiza a praça dos Remédios.

       A lua pulou no ar espacial, saiu voluntariamente para o espaço sideral. Bonita como uma festa para os olhos. Chupando cajus cajus e jogando as castanhas fora.

       - E fui para lá na manhã do dia na praça Brasil, Belém. Escalei a fortaleza de São José de Macapá. Cheguei antes das 10h na praia da Barra de Guaratiba.

       O rio molha o olhar da cidade. Do rio vem o peixe dourado tucunaré lambari bagre curupeté. Os turistas vem e vão passando em barco que passa. A mãe-d'água aparece para chamar a lua e se pentear. Nada se faz na cidade que o rio não saiba e sem o rio saber nadar.

       - Cunhantã cabixiana veio de Várzea da Palma para me conferir. Seria um descalabro encobrir o candelabro.

       O gênio Mairata pesquisou belos lugares para sua maravilhosa esperada futura lua de mel, Aparecida do Taboado continuava linda durante o dia, Foz do Iguaçu sétima maravilha da natureza, Pantanal Mato-Grossense inundado até dezembro, Bilac, porto de Jaraguá, praia de Pajuçara, Mirante do Paranapanema, Olho d'Água das Flores, etc.

       O fio de água importante. Despencando do último andar da montanha. Pega nos nervos. Se desenhando entre pedrouços. Cada vez com mais pernas e voos.

       - Alô! Alô!, telefono... Vou beijar com a cunhantã arapaço.

       Primeiro: Não tinha mundo e isso não importa. No começo não foi uma árvore não era uma arapati. No início era uma baita pedra. Surgiu o rio Buranhém. Aí, apareceu a jamacaru. Uma arapapá passou passo a passo no atolado. Saltitante cuxiú-preto balançou no cipó-cravo. Seriemas apareceram, duas delas, em toda parte, catando do capim-gordo no campo, parando para olhar ao derredor e no meio da manhã de cerração. Pegadas de ratos-de-espinho vieram beber água. Segundo: Tinha um casal de índios cuxitineri. Uma índia sem enfeites foi se banhar no olho d'água. A onça-pintada, em a figura abstrata de pontos pretos e amarelos, sacudiu a cauda nas folhas soltas do caminho, deixou as patas na piçarra, tamborilou a cauda no tronco caído oco de nhambuí. Todo mundo gosta de pedras. Escutou se o suia chamava a namorada. O casal de índios trouxe as arapus a mandioca o milho a abóbora e coisas de comer o pote o jirau o tipiti e coisas de utilidades domésticas a rede a esteira e coisas de dormir o jamaxim o arco o carcás e coisas de carregar.

       - Fui vendedor de pamonha pela larga e extensa avenida Maipuré, Piranguçu. Um ano no exército servindo em Serra do Navio. Atendente de loja de roupas prontas em Vila Propício: "Ei, gente boa! Quer dar uma olhada no produto! Coisa fina importante, etc, entre, entre e esteja à vontade!". Trabalhei no governo de Caxambu do Sul no período de 2004 até 2008. Professor voluntário de português em Serra na aldeia dos aruá. Depois fui arigó na fábrica de cerveja em Itararé. Taxista por cinco anos em Cruzeiro do Iguaçu. 

       Aportando ali e acolá foi conhecer a aldeia da Juçara, da Yara, da Iracema, da Junara. Almoçou com Maitê, Jandira, Maiara - esta de barriguinha trincada, miçangas no tornozelo, desenhos no rosto, pena de japué na orelha, cabelos bem pretos, esguia, cabelos que brilhavam ao sol, pernas longas, cabelos com franja para os olhos negros -, e uma hora depois já estava em trânsito para Lagoa de Pedras. Certa altura conheceu a Januária e depois de meia hora desceu já noturno o rio Paraguaçu num catamarã.

       - Vou pernoitar na aldeia da cunhantã Tainá uitoto. Escuto a cor bisotada dos peixes no rio Brumado, serra do Pireneus.

       Enquanto flui o rio, espectro solar exposto, gorjeio de dançador-laranja, e a tarde que se apaga.

       - Jaciara dos marabitana, aos poucos. Ela veio de onde, se me lembro. Passou em partes em partes. Cabelos soltos e lisos e pretos e longos. Umbigo plexo solar de fora. Os cajuzinhos verdes firmes de futuro. Sorriso solto de borboleta de um dia. Sorriso de cascata na itaipava. Sorriso de corruíra na janela me acordando. E desapareceu, ela num movimento de remoinho.

       O rio de águas cheio, buliçosas, abundantes, ondulantes, falantes, rebrilhantes, verdejantes curupiás camarás congonhas-mansas canelas-de-ema carurus-de-espiga embiris capins-canudinhos.

       - Sonhei com a Maíra pataxó. Eu a vi nua na beira do rio. Estávamos enrolados em erva-santa, ela sorrindo, e nos educando. Me instruiu para lhe beijar o seio. E nua como folha de barba-de-paca na chuva. E nua como flor de braúna na manhã de verão. Toda pura rindo só os olhos verdes. Fui esquentando o peito, o rosto, as orelhas, e depois. Era ela com certeza eu tenho.     

       As índias falavam ou cantavam. As índias se movimentavam constantemente. As índias espremiam massa de mandioca. As índias carregavam bebês na sacola. As índias trilhavam na capoeira até os pés de babaçu.

       Chapéus verão espaçonaves;

       Naves sol chapéus;

       Calor marte chapéus;

       Discos quarenta chapéus.

       Se conhecesse nesse verão a cidade de Tombos e as cascatas do rio Carangola. No outro próximo verão poderia conhecer a caverna da Pedra Pintada na serra da Paituna.

       A lua subiu o morro atrás da escola para colher  cerejas-do-rio-grande. A lua pedalou até  o morro além da escola para pegar guabirobas. A lua escalou a escada do morro rente da escola para apanhar jabuticabas.

       Sem perda de tempo, dando tempo ao tempo, tudo no tempo certo, sem perder tempo.

       O rio bebendo como sempre, e vai indo. Indiferente aos tempos que correm. Mergulhou várias vezes em dias diferentes. O banho fez efeito em cronologias. Depois, sempre esperou que algo a mais acontecesse. O sol caminhando entre nuvens aparecendo, desaparecendo, reaparecendo. Mairata virou em joão-teneném e pulou para o alto da mirindiba mais próxima.

       Chegou um dia Mairata cansou de esperar e separou a índia suiá mais nova que encontrou. Correram para as terras banhadas pelo rio Jacuípe. Subiram na imbuia riram de cansar a barriga e se beijaram durante a imbuia toda e bem até tarde.

       - Vou descansar na rede carijó com a cunhantã mais linda que há do tempo existir.