domingo, 28 de fevereiro de 2016

Contos de Santa Luzia (1)

                                              


         Uma quinta-feira ou sexta-feira com cara de sábado à tarde, com silêncio de domingo pela manhã, com nada que fazer de feriado de Sete de Setembro; certo ou nem tão correto das horas do meio-dia ou pouco mais ou pouco menos, se tanto, o sol rachando caindo em chapa no ouro atômico, ressolana terrível.
         A Fera felina pulou agilmente da carroceria do caminhão-jaula placa de Santa Maria. E começou a andar e procurar pelo deserto de terra vermelha. Caprichosamente e perfeita pintada com pintas e pingos amarelas e pretos. Os grandes olhos bem acesos, pupilas verticais, olhos de dentro do sol, redondos, estalados, recortados, ligados, amarelos, solares. Maleável perfeitamente como uma felina original nacional profissional. E seguiu sempre preocupada na planície deserta e escaldante minada de tucurus.
Uma baita felina que podia muito bem ser uma leoa, uma tigresa, uma guepardo, uma leopardo, uma pantera, uma modelo de passarela. Nem podia ser a onça-pintada ou parda ou negra ou vermelha, a puma, a jaguar, a jaguaretê, a jaguatirica, a suçuarana, a gato-maracajá, a canguçu, a gato-do-mato-pequena.
         A Fera xucra foi vazando pela terra esturricada. Tocos podres ou requeimados de ex-árvores, passariúvas, tucunarés-mereçás, dois-por-dois, butuas-catinguentas. E olhando assustada, alerta, escaldada, cuidadosa, se movimentando macia, camuflada, trocando orelhas, treque-treque!... Nem reconheceu do lugar coisa alguma. O coração tocando fora do normal, em marcha acelerada, em tom de tambor, com gosto amargo na boca, pelo incendiado. O grande chapadão de terra vermelha vento vermelho nuvens vermelhas. Desconfiada, melindrada, nervosa, ressabiada. Nem era seu território e nunca seria.
Parava intermitentemente indecisa para escutar, cheirar, pensar, estudar, calcular, olhar para trás. Tentou tentou se orientar. Olhos ardidos, língua de fora, unhas quebradas, pés cortados no pedregulho e requeimados na terra quente. Sol muito forte e daí para mais.
Cravou as garras no chão de terra requeimada, cavou, cavou procurando. Olhou os lados, levantou a voz rouca e desafiadora, ruuuuu!... Queria descansar mas o sol forte do meio-dia.
Depois, quando, horas do meio-dia, encontrou subiu num guamirim-felpudo arrancado caído e olhou em torno o descampado desnaturado. E nem pôde dormir nem nada. Um longo bocejo, uma boca normal de fera, uma boca enorme de dentes grandes e pontiagudos, boca aberta com a língua de fora mal resfolegando o ar quente do mundo todo. Pontada do lado.
         Dia e horas e horas de silêncio. Sol desesperado. Sol desleal. O vento jogando punhados de poeira nos olhos. O vento carregando a terra seca sem parar sem parar. Calor e poeira sem necessidade.
         A vila de Santa Luzia sempre pobre, silenciosa, mínima, arruinada. E nuvens de pó vermelho, polvadeira, poeirada, poeirama. Poucas casinhas, vinte ou vinte e uma, todas cobertas de capim, ladeando a única rua, a rua Única. Casas de pau-a-pique praticamente quebradas pelo esforço do sol diário, pelo esforço da poeira constante, pelo esforço dos redemoinhos de saci. Uma pracinha com ex-arvorezinhas todas torradas e requeimadas de sol, tangaracás-açus, jacitarapuís, bacuparis-do-campo. Fantasmas de homens e mulheres esquálidos, desgrenhados, descadeirados. A vila os vilões apodreciam no vazio. E uma capela em honra à Santa Luzia.
         Nuvens nem muito altas nem muito rápidas tocadas por um bafo quente, sopro nem muito forte nem muito insistente mas seco e vermelho e constante. Sol confuso e ofendido. Um sol que ainda nem nunca havia saído de cena.
         Na sombra mormacenta do casebre torto, óculos escuros e palito no canto da boca, o ex-Tratorista agrícola nem olhava a rua Única. Mastigava o palito e nem pensava em mais nada. Dia de meio-dia coberto de poeira.
Uma pequena onda de terra vermelha se ergueu lá na ponta sul da rua Única. Ninguém viu. Todos podiam ver. Era sempre assim mesmo. Um deserto de sol muito chapado no fim de tudo. Sol espantoso que já torrara o mundo todo.
         A estiagem mais os incêndios fizeram do lugar um ambiente abafado e irrespirável e arruinado e infernal. O mundo coberto de cinzas e poeira vermelha.
Os poucos semoventes do arraial perdidos na fumaça, na poeira, na soalheira, no silêncio. Vilões e vilãs sonolentos, cansados, preguiçosos, esmolambados, desgrenhados, desalinhados, mudos. Os olhos ardidos, as gargantas ressequidas, os cabelos requeimados. Vila e vilões sem altura de pouca estatura. E tentavam dormir e nem se olhavam e nem se falavam.  
Vento em ondas quentes de terra vermelha, tudo sufocante: mundo sob as cinzas, mundo sob o pó vermelho, mundo sob o sol atônito. O mundo todo já derretido.
         Durante todo o sol e a claridade do solar e o sol que aniquila, a Fera já arrependida e já boquiaberta e já com dor de cabeça. Sentia o vazio e o frio do fogo pelo interior do bucho. A força do instinto a alertou para o perigo da gastura estomacal. A garganta apertando, quase sem voz, rouca, greeeee!... focinhando a terra esturricada. Procura que procura uma saída e um lugar novo em pleno meio-dia.
         E a Fera engolia os redemoinhos de poeira. Prestava atenção no vento quente e nem nada nas distâncias. O sol quente e tudo silencioso. Assim, foi andando delirando foi andando vendo fornalhas nas horas plenas do meio-dia. O solo baforando fumaça e calor e poeira e silêncio e nada.
Desceu até umas lajes escaldantes e entrou no leito de ex-rio que virara caminho de areia e de pedras soltas. Lambeu umas pedras lisas, cavou à vontade na areia, cavou, bufou e bufou, vu-vu-vu!... A Fera estava afobada, cansada, inchada de calor. Com uma dor de cabeça de rachar o crânio, e que só fazia aumentar. Urrou, urrrrro!... ao mundo todo, garganta seca e dor de estômago e pontadas do lado. Nem conseguiu esquecer o vazio na barriga. A língua de fora, os pés em chapa quente. A luz excessiva tirando faíscas das pedras e doendo nos olhos amarelos amarelos.
         Se encaminhou para qualquer lado. Na mente derretida a figura insistente de um abrigo qualquer. E tentou achar graça nas folhas secas do chão, nos gravetos requeimados, nas pedras soltas, na poeira das mãos. Ciscou aqui e ali, cavou e cavou, o coração fora de compasso. Ergueu as garras para o ar, arranhou a sombra das pedras, escarafunchou o chão encardido, bramiu, braaaaa!... Caiu estonteada cheia de cansaço e preguiça e formigamento pelo corpo.
         A Fera, criada guaxa, nem se perguntou mais nada. A Fera somente se cozinhava no caldeirão do meio-dia. A mente felina já vazia de imagens. A Fera tentou respirar o ar quente, quentíssimo. As meninas da felina nem se acostumavam com tanta luminosidade. A Fera fechou os olhos diante de tanta luz. O incêndio que borbulhava desde dentro dela mesma.
         O ex-Açougueiro de chapéu de palha macaúba trançada desfiado, camisa amarela de mangas curtas desabotoada na frente e bermudão azul desbotado sem bolso, deu meia volta na casa pequena e foi para a frente na porta da ex-loja. No alto do batente uma ferradura pregada. Abriu a porta da sala vazia, escancarou a janela do nascente, esfregou as mãos. Olhou a única rua da vila. Tudo silêncio e poeira e sol. Tudo muito calor. Sentou numa cadeira de balanço, ali no meio da porta. Olhou a rua Única e nem esperou nada. A praça deserta cheia de luz intensa. O sábado ou domingo por volta das doze horas nem tinha nada.
         Sentado na sombra vacilante da ex-farmácia, chapéu de palha buriti no joelho direito, o ex-Farmacêutico coçava a orelha esquerda com a ponta da unha do dedo mindinho esquerdo. Um céu meio confuso de poeira vermelha, um mundo que seguia em ondas de calor e poeira, vento quente, mormaço e terra andando. As ex-plantas da pracinha pareciam espetos de pontas pretas voltados para o céu, espetos tucuns, espetos gervões-do-alagadiço, espetos jerivás, espetos azedas-do-prejo.
         Encostada no batente da porta de casa que dava para a rua Única, a vilã descadeirada, uma ex-Lavadeira, cabelos em desalinho, olhava sem ver o horizonte escaldante. Chão e alto tomados de toda luz e poeira vermelha e redemoinhos de saci. Colunas e mais colunas de poeira, nuvens e nuvens flutuando fazendo o ar irrespirável, vermelho. O silêncio era tudo total. Sol insuportável do meio-dia e estalando.
         A Fera felina só fazia grunhir, graaaaa!... cansada de andar, e andar tanto, andar ao léu. Nem ouviu um som, nem conseguiu pesquisar um cheiro, nem seguiu um rasto. Aí, lembrou o vazio absurdo no estômago. Lambeu sem querer os beiços peludos e chamuscados, as solas dos pés requeimadas, e tentando a todo custo iludir a falta de ar. A dor de cabeça insuportável, latejante. Os olhos desolados e ardidos diante de tanta luz.
         A capela em homenagem à Santa Luzia ficava sempre atenta, sempre de porta aberta. Casinha de pau-a-pique coberta de palha santa-fé. Dentro, em altar, Santa Luzia segurava os olhos azuis numa balancinha com bandejinha empanados de pó.
Guria e moça e cunhantã, Luzia nunca esquecera de insistir: “Haveria de ser santa”. Era de família nobre e rica e poderosa e requintada e numerosa. A beleza da menina era beleza de uma lindeza mais que admirável, incomparável, longos cabelos brancos com pontas cacheadas, olhos grandes negros, dentes certinhos brancos, lábios carnosos rosados e tudo ajustado em os um metro e setenta e cinco. Uma beleza incontrolável, incontestável, eloquentíssima. Levava uma sina de criança esquiva e quieta e estudiosa.
Depois, Luzia tinha muitas árvores e flores no jardim enorme bem cuidado, árvores frondosas com milhões de folhas para contar e que tagarelavam com o vento, e flores magníficas como a brinco-de-princesa cor vermelha cor branca cor azul, e os dois-amores, e as rosas-do-campo, e os amores-do-campo, e as begônias-sempre-floridas. Muitos avinhados e pinéus e mães-da-taoca e tangarás e quenquéns e joões-arredios e saurás vinham cantar no seu quintal. Tinha de presente uma potra baia cebruna para voar e correr subir e descer as coxilhas e as canhadas e os boqueirões.
Com dezesseis anos, Luzia foi submetida à torturas, os seios foram decepados, acabou morrendo. O céu ficou escuro na hora e choveu três longos dias e noites sem parar sem parar. A enxurrada levou barrancos e casas e carroças para o fundo do rio Itoupava. Fora de dúvida que foi um desastre ecológico e tanto para a cidade de Jaquirana e arredores em Amapá.
Cedo, Luzia se revelou para a vocação monástica. Aceitou sem reservas as regras severas do confinamento. Passou sua vida no convento, marcada por acontecimentos milagrosos. Parentes e amigos que a visitavam no aniversário diziam ver uma aura de ouro em sua volta. Viveu para as meditações e orações e cuidados com os doentes terminais. Tinha enorme predileção para com as árvores as flores os pássaros falando com os bichos que encontrava por acaso pequenos médios e grandes. Passava horas e horas do dia ajoelhada contra a parede, rezando. Passava dias e noites em jejum caminhando entre as pedras e dunas e ou escrevendo na areia da praia da Enseada.
Luzia recusou casar com o Imperador e por isso foi encarcerada, chicoteada, estuprada, torturada na roda de quebrar ossos - a roda se despedaçou e os estilhaços de madeira atingiram alguns espectadores. Decapitada, de suas veias jorraram leite. Seu corpo teria sido levado por anjos, anjos todos com branco, anjos de grandes asas brancas de bordas douradas.
Quando ainda bem mocinha, no século IV, Luzia fugiu de casa e foi ordenada freira. O convento ficava no morro mais alto da cidade. A cidade de Serra Negra na serra da Mantiqueira foi invadida e saqueada durante perseguição aos cristãos. E todos procuraram se esconder, todos procuraram cavernas e lapas e minas, todos procuraram ocos de árvores e ninhos de araras-azuis-grandes. Cães farejadores farejaram Luzia, que foi presa e morta - degolada, corte de orelha a orelha.
Conta-se de Luzia, que ainda foi raptada durante uma invasão dos bárbaros e vendida como escrava. Levada arrastada presa acorrentada de lugar para lugar imigrou contrabandeada para até além do rio Mucuri na região da serra da Cantareira. Aí, por não querer renunciar a sua fé cristã, foi torturada, os pés arrancados e crucificada de cabeça para baixo.
Ela, a bendita Luzia, se dedicou aos pobres e enfermos e desenganados da justiça. Beijava e lambia as feridas dos doentes. Foi martirizada, por volta do século II, durante a perseguição aos cristãos na cidade de São Francisco de Paula. Teria tido os olhos arrancados por seus carrascos e executada por se recusar a violar o voto de virgindade. Depois seus olhos voltaram a suas órbitas, por milagre. É representada com os olhos sobre um pratinho limpo.
         Dias do mais quente dos verões e bem nas quentíssimas horas do meio-dia na vila de Santa Luzia. Uma calma que o lugar dava. Um sol que derretia as pedras. Troncos secos de ex-árvores espetavam o céu pardacento, jatobás-do-cerrado, samaumeiras-da-terra-firme, sumarés-do-campo. Calor que causava tremores calafrios. As ondas de poeira indo de um lado pro outro. Terra vermelha em brasa.
O ex-Açougueiro, sentado na cadeira de balanço, suor escorrendo no pescoço encardido, coçava as canelas, coçava os joelhos, já ia coçando os cotovelos. Os pés empoeirados e rachados com sandálias de franciscano pescador. Olhava tudo cansado e via as coisas abrir e fechar, e sair e voltar, e distanciar e aproximar. De repente, um redemoinho de saci no meio da rua Única. E sempre o si-lên-cio.
         Um homem de sessenta e dois anos, braços cruzados, a perna apoiada na grade torta da varanda, acompanhava com os olhos vazios a poeirama levantar do lugar deserto. Tudo precisava ser feito, nada se podia fazer. Nem chovia havia duzentos anos. Tempo fixado no sol do meio-dia. Uma mulher desgrenhada apareceu na janela da cozinha. Olhou o nada. Farejou o dia mormacento poluído de serragem. Depois, baixou a cabeça e desapareceu pelo interior do casebre.
         A aldeia evaporava sob sol vermelho e impiedoso. As coisas meio que crepitavam, estalando com o calor. Um vapor subia do chão criando miragens. Nem chovia há décadas. E as horas do dia nas doze sufocantes e paradas como amortecidas. As miragens e mágicas sofriam terrivelmente por falta de ar puro.
         Então, sentado na cadeira de ferro e lona junto do batente da porta, o ex-Açougueiro olhou sem enxergar a pracinha, o ex-gramado agora já derretido e as ex-árvores, já árvores carbonizadas, espetos de angico, espetos de pau-ferro, espetos de itapicuru, espetos de araticum-cortiça. E reparou o casal de vizinhos sentado na cozinha lá deles as cabeças de ambos pela janela aberta. Ele tossia e olhava o dia ensolarado, ela nem falava nem gesticulava espreitava o dia máximo de luz. O ex-Açougueiro ainda olhou o fundo da única rua da aldeia, olhou para a ponta do sul e para a ponta do norte. Do sul vinha outro pé de poeira de saci. Tudo isso acontecia, nada acontecendo. Tudo derretendo sob o astro de fogo. Sol abobado. Horas sem sombra. E o mundo nem pensava em mais nada.
         O Padre veio à janela da casinha paroquial. Se debruçou na janelinha e olhou o sol que fazia e desfazia. As figuras consumidas das ex-árvores da pracinha, espetos de jabuticabeiras, espetos de pinheiros-do-paraná, espetos de murtinhas. Ou ainda olhando para o céu sempre o mesmo e turvo e cheio de luz, mais das vezes misturado com nuvens de poeira vermelha. E o Padre só podia esperar o sorteio do par ou ímpar.
         Havia uns meses que nem chovia. Sol pesado e ameaçador. O ex-Açougueiro se abanava com o chapéu de palha bacaba-de-leque. Dois homens sentaram na sombra quente da capela. Os dois compadres ficaram quietos como o dia cansado. Dois sócios das horas lentas vestidos com roupas leves e curtas, roupas rasgadas e encardidas. Em volta, um silêncio de tudo e de nada.
         A aldeia mal passava as horas em silêncio e nuvens de pó. Os vilões e as vilãs e os vilõezinhos nem sabiam o que fazer. Passavam o dia cochilando pelos cantos sem poder realmente dormir e descansar.  
         Meninos descalços, sem camisa, então, iam brigar de camoa lá entre as árvores mortas e requeimadas da pracinha, espetos de cambuís, espetos de jabutapitás, espetos de imbaúbas. Todos os piás armados até os dentes com revólveres e fuzis e estilingues. Caíam para trás ao impacto da bala assassina. Espetacularmente se jogavam para trás ao impacto das balas da metralha. Jogavam de matar e assassinar e morrer e se maltratar. Às vezes se amontoavam para focinhar o chão de poeira com arte de se agarrar. Curuminzada de pé rachado, de lábio cortado, de cabelos duros, de lombo riscado de vara e pele pintada na poeira vermelha.
         A Fera se aproximava da aldeia de Santa Luzia. Cansada, louca, variando da cabeça, desequilibrada dos pés, arrastando a cauda. A imagem das casinhas dançava no olhar perdido. Tudo confuso, avermelhado, cheiro de poeira. E quieta como o silêncio, como uma gata, como uma sombra, como uma estrela distante, foi chegando, se arrastando. Nem curtia praticamente mais nada. O gosto de poeira vermelha no ar. Cheiro de queimado, cheiro de dia requeimado, cheiro de tudo passado pelo fogo. Delirava numa dor de cabeça. Viu, por miragens caleidoscópicas, uma placa de metal picada de pedradas e balas de revólver, e com a inscrição: vila Santa Luzia. E isto por muito a incendiou.
A felina foi avançando pela macega requeimada, por entre touceiras de barba-de-bode torrados, se agachando entre a guaxima incinerada, pisando as pedras lascadas e quentes, foi avançando e foi chegando. Nem prestou toda a atenção necessária e devida. Nem olhou realmente nada. A perturbação dos sentidos fazia errar o raciocino, e estragar as horas do meio-dia, as memórias, fazia se perder de tudo. Entrou pelo sul da rua Única. Rua cascalhada e poeirenta.
         O dia em pleno meio-dia de cansaço e forno e fogo e fogão. O céu esperava ainda em vermelho. O sol ainda pingando fogo. E os meninos brincando de pneu correndo pela pracinha. De repente, faziam de um coleguinha um cabo de guerra. O calor estava insuportável, estonteante.
O ex-Açougueiro esborrachado na cadeira de balanço. O casal nem olhava a rua Única, nada interessado, as cabeças no quadro da janela de guilhotina aberta. As pedrinhas da rua faiscavam, tiravam poeira dos olhos. O chão soltava a fumaceira constante. Um saci brincava de anarquia com outro saci e mais outro saci total cinco ou seis sacis.
         O céu sem sinal de qualquer coisa. Um avermelhado de terra e calor, de cristal no forno, de vidro fundido. A luz forte abatendo as coisas. Tudo seco e gretado e esturricado e requeimado e torrado. Dia na hora do meio-dia nem tinha nada. O silêncio desolador. Um mormaço e um cheiro de requentado.
         Depois, o ex-Açougueiro, sentado na soleira da porta da extinta loja, olhou o nada sem ver nada. Os olhos fundos, as órbitas cavadas e escuras, a pele vermelha de poeira. Olhando o nada sem pensar qualquer coisa. Pensamento seco. Tudo fervendo, reverberando. Tudo cheio de muita luz. Nenhum movimento. Ninguém atravessaria a rua sob o sol do meio-dia.
         E apareceu a Fera como uma miragem um vazio virtual. E o ex-Açougueiro apertou os olhos doídos. O casal se levantou da mesa e veio até a janela aberta. Os dois compadres se entreolharam se ergueram interessados ali na sombra quente da capela.
E a Fera foi chegando assim, se arrastando, nariz ardendo, olhos inundados de poeira, subindo pelo sul da rua Única. A língua já nem cabia mais na boca, a cauda entre as pernas vacilantes. E a Fera parecia rir, gargalhar. Comendo poeira. E realmente ria, ria para si, ria de si mesma. Ria para o ar quente, ria para o chão estorricado, e ria para a rua de sacis.
         E a Fera chegou ali, num bom ponto no meio da rua Única. A Fera felina nem tinha nada o que dizer. Nem pensou mais nada. E caiu, caiu principalmente no chão de poeira vermelha e entre as pedrinhas soltas, caiu já entregue a domicílio. Um pofe!... no chão de poeira vermelha. Levantando uma pequenina nuvem vermelha de poeira que irritou os sacis de plantão.
         Daí, de repente, rapidamente, todos os cinquenta ou quarenta e nove moradores da vila Santa Luzia apareceram, surgiram, levantaram do chão duro e seco e antigo. Como enxame de zumbis. Sem perda de tempo. Como cardume de peixes mortos. De certo que estavam cuidando da Fera por trás das venezianas e cortinas encardidas. E todos apareceram correndo. Todos ao mesmo tempo. Saindo de todos os lados como cachorros uivantes, iuuuuu!... e avançando. E avançaram para cima da ex-Fera sempre armados de picaretas enxadas facões foices martelos e pregos.
         Tanto silêncio depois e demais. Silêncio que era excessivo e insistente. Quietude de sombra chegando e mudez. Silêncio da surpresa. Nem havia nada demais em mais nada. Os vilões e as vilãs e as vilãzinhas olharam como às vezes olhavam aquelas ondas de poeira.
         Havia uma certeza na altura dos acontecimentos: ninguém levava a cabeça no lugar.
         Chegava um redemoinho da ponta sul e vinha um outro da ponta norte pela rua Única. Os dois ao mesmo tempo. Com certeza iam se encontrar e iam se chocar e iam se pechar no meio da ruazinha. E logo se encontraram e se chocaram bem no centro da ruela. Foi um encontro de nada. E foi muita confusão de nuvens de poeira se misturando. Muito pó vermelho e vermelhos sacis irritados.
         Se fosse só o vento sob o sol causticante no deserto de terra vermelha.



domingo, 24 de janeiro de 2016

Este Mundo Terrestre Dos Esportes Pedestres

       


       É tempo de Copa do Mundo no mundo gigantesco globalizado. Metade da população mundial sabe o que representa é isso. O B todo sabe o que é isso. Da outra metade cinquenta por cento fica sabendo por parentesco. Até as mulheres gostam de futebol com loucura e paixão. O universo da bola rolar. Total, dos sete bilhões de seres humanos, cinco e meio ficam ouvindo o que é gooooool!... Nas ruas de todo o B só se ouve é gooooool!...
       - Este ano o time meu nem contratou ninguém de peso, é. Em compensação só vendeu o goleiro, é.
       - Olha, chapa! O time meu nem contratou ninguém mesmo, e saíram uns oito ou nove emprestáveis. Sei lá, né, vai saber!
       - Precisamos de um centroavante e dois laterais, é. Centroavante bom tá difícil quase impossível, é. Quanto aos laterais, nem se fabricam mais, é.
       - Olha, meu! Nós vamos disputar a Libertadores e com a prata da casa vai ser osso. Mas quem sabe! O elenco é guerreiro e valente e raçudo, pescou?!
       - Fora as dívidas que o clube fez o ano todo que passou e nem conseguiu nada de nada!, é.
       - Olha, véio! E nós com o negócio do estádio que nem se resolveu e nem se resolve e nem se dissolve. Sai fora, mano!
       - Nós precisamos de dois laterais e o resto é bobagem, é.
       - Olha, cara! A gente só quer ver um título esse ano. Um título já está mais que bom e obrigado, tá certo?!
       Era quando uma vez no princípio inicial incipiente da humanidade na terra, paciência, que rolavam cabeças no capim-de-colônia ou capim-santo ou fedegoso-dos-jardins ou mata-pasto, a cabeça do inimigo. Hábito antigo adquirido legal festivo e que veio vindo de lá pra cá até hoje praticado geralmente nos finais das tardes de domingo. Sentando tocando o pé no mundo rodado rolante, por analogia. Suaves calmas comemorativas beiras de tarde, até mesmo quando chove.
       Quem nem sonha ser um jogador de futebol o tempo todo o tempo todo? Correndo para o ataque asas nos pés em agilidade incrível, atacar, driblar, ultrapassar, chutando com força ou por cobertura onde o goleiro jamais alcança... Bem aí bem aí, eu já tenho a comemoração ensaiada e particularmente engraçada diferente para a torcida para as câmaras com as mãos para o alto agradecido a D e fazendo mil e um pelos-sinais. E o outro dia os noticiosos, hein?! Que pergunta.
       Me perguntam por que eu vou jogar na China. Por que vais jogar em a China, se lá pagam bem, tudo bem, porém, o jogo nem é tão assim tecnicamente falando de bom rendimento de bom nível de bons jogadores de bons campeonatos? E nem temes perder a Seleção? E eu respondo: bem, é óbvio, o jogador no caso o meu julgamento e o meu ponto de vista eu escolhi junto com minha família, claro, e meus amigos meu empresário que cuida de tudo isso por mim a burocracia toda, então, cada jogador tem que tomar uma decisão e a mais acertada possível, pois, o jogador tem de pensar na sua família tem de pensar que a carreira é curta só dura dez anos tem de pensar em uma porção de coisas, no caso, o que é bom pra mim pro jogador e fazer a escolha ideal garantir o pé-de-meia para nem se arrepender depois.
       Tem um poeta que disse uma vez que o grito de goool!... assusta o cachorro e ele foge se esconder as mãos sobre as orelhas para debaixo da cama. E é verdade, nem só os cães, principalmente quando o goool!... é contra.
       A gente estava com o tornozelo inchado e a imprensa, vocês, tá certo, vocês da mídia falada e escrita e perguntada, me perguntavam, tá certo, lá na concentração da Seleção em Quadalajara no México, tá certo, me perguntavam, abre aspas, “Então, como está esse tornozelo, Aporé? Vais pro jogo? Vais conseguir jogar a semifinal contra a Argentina?” E a gente tinha respondido, tá certo, abre aspas, “O Aporé quer muito jogar, tá certo, e esperamos estar em forma e sem dores até terça pela manhã, tá certo. Terça-feira a gente vai se submeter ao apronto, tá certo, e saber se pode atuar cem por cento junto com os companheiros. Inclusive a própria dona Santa Mônica, tá certo, também telefonou lá do Brasil puxando minhas orelhas, abre aspas, “Meu filho Aracati, você se machucou, te machucaram? Que história é essa, me explique direitinho, Aracati, meu filho?” A gente tinha respondido pra dona Santa Mônica tinha passado pra vocês da imprensa digo e repito pra vocês da mídia agora, tá certo, abre aspas, “Calma, dona Santa Mônica, tá certo. A gente só teve um pequeno deslocamento do tornozelo, tá certo, nada que não pode ser curado dum dia pro outro, tá certo.” Era uma semifinal muito dura, tá certo, e a gente precisava jogar de qualquer jeito. Aporé nem podia caminhar, tá certo, mas tinha muita fé e força de vontade. O médico da Seleção, Dr. Santo Antônio da Patrulha, tá certo, ficou preocupado e recomendou gelo e repouso, tá certo, o massagista seu São José do Cerrito passou unguentos pastas e filtros, tá certo. A gente não era nunca foi nem sou supersticioso nem acredito em mandingas, tá certo, mas o Aporé sempre entrava em campo, tá certo, com o pé direito e o sinal da cruz riscando na frente da testa com todo o respeito. E só por acaso, tá certo, nem quero lembrar, tá certo, tinha sido o nosso pé esquerdo que sofrera o entorse.
       As torcidas são exigentes e fanáticas e uniformizadas e encarteiradas. Querem uma arena multiuso. Elas só pensam em vitórias. Em taças. E mais nada. Exigem taças e fazem seus ídolos prometer dar o máximo comer grama beijar o distintivo. E quando faz um gol bater na camisa do lado do escudo. A maioria dos boleiros a maioria ergue os dois dedos indicadores ao alto e faz sinal da cruz trocentas vezes beija as tatuagens o anel de noivado manda beijos lá pra cima no camarote um beijo pra mãe um pra mulher e dois para os filhos.
       Se existe um jogador ou uma função que faz falta na Seleção é o da camisa 10. Eu queria um camisa 10 do tempo antigo. Aquele cara que sabe dar um passe de 40 metros ou mais, e que bate falta com perfeição lá onde a coruja dorme, na gaveta, e que o adversário respeita e marca em cima, e que é a referência técnica da equipe, e do qual a torcida brasileira espera muito. Dou dois ex., o Caracol que jogou no Sport e no Bahia o Santa Rita de Cássia que atuou principalmente pela Ponte Preta e o Bom Jesus da Lapa que defendeu no ano passado as cores da Chapecoense. Pois hoje em dia, esse tal camisa dez natural, já quase nem existe mais e nem mais ao menos se fabrica. Esse é o craque que eu ainda quero ver na Seleção pelos gramados do mundo mostrando como é que o brasileiro trata a bola. Que dê o Cara, né, minha gente?!
       Eu nem penso duas vezes nem dá para pensar uma vez sequer. A bola cai nos meus pés vem como vem e as minhas decisões têm de ser muito rápidas instantâneas mágicas acrobáticas precisas. Nem dá para pensar em nada. Tudo é meio que instintivo. A bola vem e a jogada que faço sei que posso fazer, então, eu faço, mas faço sem sentir sem pensar de acordo com os obstáculos e pronto acontece como já aconteceu. Vou dar um ex. Eu estava jogando no Atlético quando, isso me vem na cabeça agora assim no mais, eu estava no Atlético ou no Goiás quando uma jogada que eu fiz resultou num gol incrível vou contar como ex. Foi o seguinte, eu jogava àquela altura pelo Atlético e nóis jogávamos contra o... o Paysandu e era série A e o ano era o de 2011 se nem me engano. Caso que a bola veio num passe fenomenal do Cotegipe, eta!, que o cara era bom de bola diferenciado no toque da bola, né, bem, aí ele me passou e eu dominei com o pé esquerdo e fui em frente, aí, vieram dois me marcar querendo me tirar a bola eu simplesmente dei uma cavadinha encobri os dois passei entre eles como um furacão e fiquei cara a cara com o goleiro deles o Casa Nova, então, aí né, meu, ginga pra cá ginga pra lá mais pedaladas e foi só escolher o canto e correr para a galera. Ganhamos o jogo de 5 x 3 o que nos deixou muito bem no campeonato aquele ano de... acho que foi 2013 se bem me recordo.
       Apesar do dinheiro que se perde, ou melhor, se deixa de ganhar, quer dizer, o jogador perde em publicidade, entrevistas, férias com os familiares, em prestar mais serviços ao clube que paga o salário, etc., jogar pela Seleção sempre foi minha motivação e minha meta principal. Representar o meu povo o meu país honrar a minha bandeira e dar de si tudo pelo bem da nossa pátria sempre foi meu sonho desde criança e disso eu nunca abri mão nem o pé. Me considero um soldado em nome dos brasileiros todos defendendo as nossas cores, obrigado. Nunca simulei contusão ou pedi dispensa da Seleção, ou seja, nem mesmo naqueles amistosos sem repercussão sem noção os tais caça-níqueis tipo jogar atravessar os oceanos um dia inteiro de voo o fuso para um jogo qualquer na Nova Zelândia ou Austrália ou Japão, etc.
       Quando eu era pequeno queria ser jogador de futebol e jogar uma Copa do Mundo pelo meu país. Ser o artilheiro do meu time, o gênio, o etê, o diferenciado, igual um craque espacial como esse aí que anda ganhando os troféus de melhor do mundo o Canto do Buriti ou esse outro o Cristalândia do Piauí e vestir a camisa mais famosa do mundo, a canarinho. Depois eu fui crescendo e quis muito ir aos eventos de Copa do Mundo aos estádios espalhados pelo globo conhecer por tabela outros países as diversas culturas e tirar muitas fotos. A última Copa do Mundo eu assisti a todos os jogos, pela tevê. A próxima na Rússia, com certeza, já vou ver somente os jogos da Seleção e olhe lá.
       Vou dizer em resposta a sua pergunta algo que já escrevi na minha biografia de jogador de futebol. Sempre me chamaram o número Um, desde o mirim na base do clube lá no Vitória e daí pra frente fui o número Um dos times por onde passei e também o número Um da própria Seleção. Sempre o número 01. Quando eu chegava num lugar era sempre o primeiro no restaurante era o primeiro a sentar e ser servido, daí que os garçons me chamavam de número Um Em Tudo. Recebia como um elogio e um incentivo e uma marca registrada. Os colegas de equipe meio que me deixavam de lado me isolavam ficavam distantes de mim e de pé atrás porque era o único convocado sistematicamente para a Seleção e sempre procurei fazer jus ao apelido de o número Um o primeiro lugar. Que posso fazer se até hoje dizem as boas e as más línguas que fui o melhor número um que viram atuar e vestir a número um da Seleção?!
       Eu mesma aprendi a gostar de futebol acompanhando o meu namorado, na época. Eu virei torcedora com ele do time dele a favor dele porque gostava dele, o meu namorado naquela fase. Eu nem sabia que este mundo da bola existia, uma vez. Eu assistia, então, a todos os jogos com grande entusiasmo e sempre eternamente uma fanática torcedora. Eu e o meu time ultimamente só temos nos frustrado, porque o time não ganha nada, me dá pena, aliás, isso é uma fase e vai passar e logo passará. Eu comecei, assim, desde os quinze anos, a amar o futebol e frequentar os estádios atrás do meu time e junto com meus melhores amigos e amigas. Eu aprendi a ver os jogos pela tevê as mesas redondas ler os jornais acompanhar os debates no rádio etc e sou sócia torcedora. Eu, de fato, de lá pra cá, me apaixonei pelo jogo pelo futebol pelo meu time embora tenha trocado de namorados outras tantas vezes que achei necessário. Eu faço qualquer coisa pelo meu time de coração, principalmente, choro brigo perco sono peço dispensa do trabalho compro camisa discuto com quem for e vou na chuva ou no sol de rachar. Eu não troco o meu time por nada nem dinheiro e nem ninguém mesmo pintado de ouro. Eu supero tudo que vier sou forte eterna com o meu escudo do lado do peito e nem me assombro com os percalços os imprevistos as interrupções as frustrações as contrariedades. Eu tenho a camisa do meu time como segunda pele e o estádio como segunda casa e os colegas torcedores como meus irmãos.
       A fase mais difícil da careira de um atleta, e nem quero me lembrar, foi quando me lecionei e fui fazer uma cirurgia de joelho muito complicada especializada lá em São Paulo. Rezei muito fui a diversas igrejas e templos de diferentes credos, etc. Nem gosto de me lembrar, mas eu pensei que nem ia mais voltar para os gramados. Me falaram que aquilo era praga de alguém olho gordo uma coisa de louco um feitiço uma caruara. Fui em casa de terreiro lá em Formosa do Rio Preto tive que me benzer bater cabeça pra santo deixar oferendas. Os amigos começaram rarear os parentes nem telefonar os companheiros de clube esquivar de mim. Só grilos cri-cri-cri!... na rua àquela hora. Foi horrível tomar tantos remédios pesados e ervas e quinados alcaçuz-da-terra canafístula catuaba quina-cruzeiro beldroega alecrim-do-mato alfavaca-de-cheiro foi pesadelo atrás de pesadelos e horas de cirurgia dias de terapia suplementos alimentares glicídios proteínas sais minerais vitaminas calorias e para piorar tava no fim do meu contrato um tormento e nem tinha certeza se o Inter queria renovar.
       Aquela bola que vem do alto e do outro lado do campo, um olho-de-boi, a parábola, um passe longo, eu domino com o pé, num rápido olhar vejo tudo que posso fazer, e posso muito, então, vou em frente e ninguém pode comigo, driblar, atacar, ultrapassar, avançando em velocidade vertical para dentro da área adversária, todos no estádio se levantam, ficam de pé, a mão em pala para acompanhar, pois, a história do futebol, né!, meus amigos, se fez e se faz com esses lances geniais inspirados de craque, modéstia de lado e à parte. 
Trinta e dois países disputarão negócios, dinheiro, prestígio, e uma taça para exibi-la no final de todo o suado esforço. Opa! Esforço? Será que é tanto sacrifício assim ficar jogando a bola de um lado para o outro? O difícil mesmo é jogar seguindo à risca todas as regras ditadas pelo futebol.
Eu respeito todas as torcidas, mas nem gosto de ouvir falar em torcida que invade CT para cobrar de jogador. Eu respeito todos os professores seja medalhão seja prima-dona seja tope seja o que for seja novato, respeito todos e exijo respeito, mas o cara me tirar da posição, que é de centro-atacante, o setor do jogo que aprendi desde pequeno a jogar, me tirar da posição natural?, aí não, né! Eu respeito todos os times seja de que série for série A série B até da série C ou D se for o caso, mas atrasar salário, nem pensar, nem falá.
Me acalmei um pouco e comecei a pensar na minha família na minha carreira na minha profissão a única coisa que sei fazer no mundo o meu ganha-pão quando conheci a Ana Paula. Foi num carnaval em Jeremoabo. Ela é de Parnaguá e eu de Coribe. Ela me ajudou a me centrar mais na minha carreira e eu comecei a me respeitar mais e daí em diante fiquei me concentrei totalmente em recuperar a titularidade no Grêmio e voltar à Seleção. Fazem uns dois anos e de lá pra cá tudo tem dado certo. Agradeço primeiro a D e depois a ela e à família dela a minha família e aos amigos. Sem a família a gente não somos nada. Formamos eu e ela uma família perfeita e agora estamos esperando o segundo herdeiro que é a Ana Carolina.
Vou cobrar essa falta que foi marcada aqui fora da área. Ou seja. Eles põem barreira de sete homens, mas pra quê?, para mim isso nem é nada. Ou seja. Já sei o que vai acontecer. Ou seja. Tenho várias opções e uma delas irá surpreender o goleiro Sapiranga. Ou seja. Minha caixa de novidades de surpresas é extensa e variada. Ou seja. O Sapiranga nem vai ver por onde a bola vai passar que cairá com certeza na gaveta na gaveta. Ou seja. Um chute em arco por cima da barreira direto no ângulo superior da meta, minha especialidade, que perfeição! Ou seja. Antes do fim do campeonato quero de volta a artilharia é um dever para merecer um bom contrato no exterior de preferência na Europa ou quem sabe em Portugal.
O futebol é um sonho completo de olhos abertos. Todo mundo pode jogar em qualquer posição. Dá para jogar em qualquer terreno ou piso, com qualquer clima. Me lembro que fomos treinar no campo do... Cruzeiro, no CT perto do rio Serrano. O sol muito forte, uma lua. O verão muito seco. Sem vento. Nem chovia há meses. O alambrado repleto de marias-chuteiras gritando réu-réu-réu!... como as marias-macambiras. A grama mal hidratada toda esturricada carrascal o chão irregular buraco de teiús toca de tatupoiú ninhos de formigas-mineiras e quero-queros muito brabos. Não era o ideal para prática do futebol e principalmente para treino da Seleção. Mas, enfim, os jornalistas estavam todos lá e me perguntaram isso e aquilo e acolá eu respondi: “O jogo é jogado e a pirauaca é fisgada”. Uma jornalista muito bonita sorridente óculos escuros segurando os cabelos lisos castanhos os olhos verdes me perguntou e eu tive que responder na hora, né?!: “É como fazer amor, entende?!, querida.”
Milhões de pessoas ficam assistindo jogadores representando o seu país e só torcem ou distorcem e pensam em ganhar. Mas os jogadores, no que pensam? Muitos chorarão e só um time vai dar risadas. A grande esmagadora maioria é de fracassados, esta a pura verdade verdadeira. O jogo é cruel. Por isso que é jogo. Coisas do futebol! E muito incrível: só um gol pode acordar o maior dorminhoco da paróquia; ninguém resiste a um gol. Os gols da rodada é o programa favorito a melhor atração da tevê mundial.
Quando eu encerrar a carreira pendurar as chuteiras eu quero ser um técnico de futebol, mas vou me preparar muito bem para isso. Quero ser lembrado pelas ótimas jogadas os gols maravilhosos, mas também fazer carreira vitoriosa na beira do gramado como técnico. Nem é assim da noite pro dia que quero virar técnico, né! Sei que é outro mundo, outra fase. Terei que começar de baixo, treinando time pequeno, etc. Com certeza nem serei um técnico reclamão, tipo aquele que sempre dá a culpa pro árbitro quando perde e passa a mão na cabeça dos atletas indisciplinados e os pernas-de-pau os cabeças-de-bagre os chinelinhos. Nem aquele outro que se irrita com perguntas dos repórteres levanta vai embora da coletiva, mas adora inventar frases de efeito e andar entre aspas nas manchetes esportivas. Tem também um outro que se acha e se vê como um profeta como um filósofo antigo com a mão no queixo e o dedo na frente da boca sempre pensativo só porque deu certo uma vez ou outra, como se tivesse a fórmula mágica e o mundo nas mãos. Nem quero virar figura fácil entendido em tudo infalível sinônimo de líder de competência de paizão escrever livros, etc., etc., com entrevistas na tevê no rádio nas revistas e jornais em programas e colunas e cadernos que não são especializados nem nunca trataram de futebol. Pretendo fazer uns estágios no CT do Santos, quem sabe do Botafogo, quem sabe ainda do Coritiba, estou pensando em ir também pro exterior ou Europa por seis meses a um ano.
Aparecem aqueles dias que nada dá certo e o time não rende não resolve não acontece. Todas as jogadas ensaiadas ou não são anuladas pelo adversário. Sabe aqueles dias que quem não faz leva? Então, eu saio do banco e resolvo tudo em questão de cinco minutos num piscar de olhos numa abracadabra com jogadas mirabolantes. Viro o jogo e dou entrevista até para a tevê árabe.
       A Copa é uma disputa que não envolve somente quem está jogando. Ela pega todo o mundo. Os craques, em entrevistas, só falam no esforço que estão fazendo para ganhar a Copa e levar o título para o seu país. E os envolvidos usam as bandeiras para atrair os fãs do próprio país e, por que não?, os patrocinadores individuais ou coletivos.
Mas o nosso país, por exemplo, o que nós menos precisamos é de títulos e taças, e sim mais do dinheiro que eles jogadores ganham. Tem craque de futebol que ganha dois milhões e meio de reais por mês e só pensa em festas e carrões e loiras e badalações. Uns nem reconhecem mais o lugar o bairro onde nasceram e foram criados e aprenderam os primeiros passos movimentos do futebol. Deviam fazer esforço, isso mesmo, mas para aprender português e falar decentemente na frente das câmaras.
       De regras de futebol nem entendo nada. E duvido também que haja algum jogador ou técnico de futebol que as conheça por completo. Deve ser por isso que existem os juízes ou árbitros e bandeirinhas. Para lembrá-los e em alguns momentos dar uma ajudinha.
       Os aficionados pintam a cara, o corpo, as ruas, vestem a camisa de cinco estrelas, se cobrem com a bandeira e enchem o coração pra ver a bola ir de um lado a outro; jogador fazer pedalada, elástico, impedimento, cuspir, reclamar com bandeirinha, com qualquer um, arrumar o topete no telão, xingar até a mãe do Badanho, mostrar a língua, exibir a marca da chuteira, etc.
       Dentro da tarde loura e sem ventos em a cidade de Glória na Bahia vou em seguida a meu Deus junto da praça da República ruas esbatidas de sol daqui do estádio arena Uraçu do Aimoré Esporte Clube minhas senhoras senhorinhas e senhores para a grande jornada esportiva da prestigiada prestimosa emissora esportiva futebolística cem cavalos de potência a rádio Guaíba de Tabuleiro do Norte e quem vos fala é Serra Negra mais os comentários precisos corretos de Rio Negro reportagens de campo com os ótimos repórteres Porto Nacional que cobre o lado da equipe do Aimoré e o Pirapora que nos dá notícias do visitante o Esporte Clube Campo Grande nos estúdios o apoio técnico sempre necessário e preciso do colega Amarante num patrocínio das blusas Cauaíbe banco Catágua refrigerantes Iurimagua cerveja glo-glo-glooo! Suyá água mineral Caxinauá bicicletas Taurepangue vinte e uma marchas ferramentas Caiabi sendo assim está bem para a grande rede de emissoras associadas lideradas pela nossa valorosa e grande rádio GTN o árbitro Santo Inácio já está no centro do gramado mais seus dois auxiliares bem a postos o Angelical e o Barra e todos nós e a população em geral estamos aguardando o minuto para começar o jogo o espetáculo o confronto que decidirá mais três pontos importantes no campeonato e nem é para menos oferecimento da revendedora de automóveis Coroado e atenção D mora no céu minhas senhoras senhorinhas e senhores oferecimento dos bonés Carijó foooi soprado o apito e inicia o jogo a bola com o lateral Mucugê e nem me arrependo este Mucugê rapidamente para Barra Mansa você está ficando parecido comigo Barra Mansa até Carinhanha e Carinhanha para Xique-Xique pra gente ir junto Xique-Xique olha os companheiros melhor posicionados recebe falta de Bom Conselho volante do Campo Grande um oferecimento das casas Sanamaicã Mucugê cobra a infração e lança para a direita onde está Corumbá fica para outra vez a bola está com Lagoa do Ouro descendo para o ataque faz uma volta sobre si mesmo atrasa para Barreiras o Aimoré atacando Barreiras engata uma quarta ou quinta e avança pela lateral é o que eu digo o Remanso pede bola lá do outro lado e essa não um peladão entrou em campo a tevê não mostra mas eu tenho a obrigação de narrar os acontecimentos o doido deve ter saído do meio dos torcedores do Aimoré os seguranças estão atrás de pegá-lo alguém que quer aparecer oferecimento dos relógios Charrua e Barreiras opta passar para Januária sou eu mesmo Serra Negra com o mesmo meu jeito de ser e Correntina para Rio Verde oferecimento dos eletrodomésticos Acroá Rio Verde domina com o pé esquerdo e de três dedos a sorte é o que se vê lança Sento Sé e este domina no peito com elegância e de cabeça serve a Riacho de Santana em frações de segundo Riacho de Santana não alcança titubeia mas quem recolhe a redonda para o Aimoré se eu pudesse parar o tempo é o Juazeiro que dribla o primeiro marcador tenta driblar o segundo que é o zagueiro Jequié este consegue lhe tirar a pelota e procura agora imediatamente abrir contra-ataque do Campo Grande e lança em profundidade para a direita em procura do centroavante Poções e então de uns tempos a outros tempos para cá Poções escora de cabeça fazendo as vezes de pivô tentando seu companheiro o Itabuna com a participação também do Cariri do Tocantins mas a jogada é desfeita pelo ala do Aimoré o Corumbá oferecimento de óculos Xacriabá o apito piuuu! da rádio GTN indica 25 minutos decorridos no primeiro tempo que passa para Morro Cabeça no Tempo que passa Aimoré no ataque para Rio Verde só podia ter sido mesmo que vai à linha de fundo cruza na área olha o goool! é go-go-go-goool! goooooooooool! do Aimoré e o gol sen-sa-cio-nal eu só acredito no que me contam foi de Santa Maria da Vitória incrível como surgiu de repente na grande área o artilheiro Santa Maria da Vitória oferecimento dos pneus Matanaui e soube aproveitar o perfeito ótimo cruzamento de Rio Verde oferecimento de lajotas Xucuru-Cariri nada menos que isso mesmo seus comentários o que você ressalta aos nossos ouvidos seu Rio Preto. Pois eu vi e conto o seguinte excelente jogada do camisa dois o lateral do Aimoré Rio Verde que driblou seu marcador o bom lateral Pilão Arcado do Campo Grande e cruzou na área adversária para o grande finalizador o craque do Aimoré e da Seleção o Santa Maria da Vitória finalizar de pé esquerdo que não é o seu pé de sorte jogada de linha de fundo magistralmente executada pelo Rio Verde que encobriu o volante Piaçabuçu e o zagueiro Andaraí defesa vacilante do Campo Grande oferecimento de roupas da grife Minuano e o Santa Maria da Vitória estufou as malhas da meta do também grande arqueiro defensor goleiro Tabuleiro e esse gol vai tranquilizar a torcida aimoresista e deixar a equipe se o placar continuar a ser favorável em primeiro lugar no campeonato nacional da série B oferecimento das camisas da marca Fulniô um golaço para delírio do torcedor do Aimoré. E o que você viu dali de junto do gramado seu Porto Nacional? Nem me diga olha só como são as coisas seu Serra Negra e seu Rio Preto e nobres ouvintes da rádio emissora GTN pois o Santa Maria da Vitória saiu comemorando aqui bem pertinho de nós os repórteres de trás da goleira do arqueiro Tabuleiro e foi direto à câmara da tevê oferecimento da mecânica Tapes e jurou amor ao Aimoré Esporte Clube às filhinhas à esposa e toda a família que está assistindo em casa além de beijar todas as tatuagens com o nome de todos eles e elas é isso aí! oferecimento da boate Botocudo e tenho dito.
       O futebol para nós não é só esporte e lazer, é identidade, vida e morte. 
E a bola rola, rola e rola como roda que rola diz o narrador, comenta o opiniático, fala o repórter perto do lance atrás da meta. Rola a bola rotunda rolante rodada, enfim, em busca daquele talvez mísero gol para fazer a torcida vibrar.
      

       

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Contos de Santa Luzia (12)


                                               
        
         Apareceram Jegue carregado de Moça. A dupla em cheio em meio do território terrão bem pelas dez e doze. Eram dez e quinze. O sol as constantes correntes de poeira tudo era muito calor e confuso e sufocante. A caatinga em dia de sol chapado e poeira poeira nos olhos. Fazia um calor mormacento.
Pouquinho antes da aldeia, aconteceu isso: Jegue travou as quatro rodas as orelhonas cruzaram recruzaram e nem queria dar mais um passo e de jeito nenhum. O burrinho ficou estátua. Focinho filtrando a poeira reinante insuportável. Ouvidos à espreita.
Seu quadrúpede com Moça nas costas desenhados no chão em a sombra da manhã. A hora que ia passando tiquetaqueou Jegue e Moça indecisos. O vento que sempre dizia aaaaa e terra solta no ar quente queimada.
Jegue de olhos azuis e pelo cor cinza pela Moça de olhos acinzentados. Empacou e amarrou o burro. Dali ali além nem mais. E riscou a pata dianteira na terra seca requeimada chamejante. Ainda chiou zurrou ooooo até a Moça se flagrar que era o fim da linha da picada.
         Moça as pernas longas os pés em sandálias franciscanas de pescador quase arrastando o chão. E levava o cabelo cor de fogo todo torcido no alto da cabeça e preso por espetinho de osso marrom brilhante envernizado. Boleou a perna apeou do Jegue dorso em arco e esperar o quê.
E ela com a descolorida cara de maquiagem-poeira. Vê se achava uma saída miraginal. E nem soube mais o que fazer. E ele olhava à frente olhos fixos em alvo olhos lacrimejantes cheios de poeira. Jegue tinha nome de árvore. Moça já nem sabia o que dizer o que fazer quantas vezes passou as mãos nos cabelos engomados aterrados.
         Pois Moça pegou a bolsa de couro cru a tiracolo passo compassado para fugir de uma possível intermação e seguiu desacompanhada. Caminhou trocentos mil metros em duas horas e tanto. Sol entre nuvens pesadas de poeira vermelha. Mais meia hora. Passos deixando rastos. Mais outro tanto. E mostrava maneira jeito de balançar os braços em o caminhar. Fazia um calor de quarenta e sete graus.
E Moça entrou na aldeia Santa Luzia na manhã das 11 e 22 horas. A coisa evoluiu. E veio 13h e 30 min. Para falar ministério, ela procurava um ser das espécies dos fanerógamos - podia ser oposto ou nem -, do signo de capricórnio, para com esse juntar as manias e idiossincrasias e horas e dias e anos de por vir.
         Um tempo teimoso que caía sobre a pacata ou pataca aldeia de Santa Luzia. Nem chovia há meses. Plantas já haviam estorricado. Um silêncio de tudo abandonado sem insetos ou quaisquer outros bichos semoventes, etc. Um calor impossível. Diferentes crianças, pés descalços e cascosos, brigavam e fumavam cigarro de palha na calçada da capela. Calor de fornalha. Golpes de vento jogando terra seca na cara. Calor terrível de derreter o rasto da freguesa.
         Que a Moça se dirigiu ao ex-açougue para ter com onde quem conversar. Queria muito tomar um comprimido para dor de cabeça. Suando pegajosa perfume vencido cabelos empapados. Estava cansada demais, a boca cheia de terra. Sol inclemente das quatorze. O ex-Açougueiro lhe apareceu de supetão pela esquerda e:
         - Ei, Moça! A Moça chegou a pé, cansada e desabitada?
         - Olha, meu! Sei que é difícil, mas preferiria um chá de cidrilha.
         - Uma coisa eu garanto garanto. A vila nem come e nem bebe há doze anos dois meses e duas semanas e vinte e dois dias.
         Moça contou até cinco dedos. Fácil chegar num lugar estranho e já fazer de conta que tinha aprendido as quatro operações. Mulheres boas fazem sensação pelos quatro cantos e muito rapidamente. Moça nem era de marte nem de saturno nem de Divinópolis nem de Ibaté nem de Itaboraí nem de Corumbá nem de São Miguel do Araguaia.
         Moleques unidos na pracinha a fim de derrubar, do alto daquele galho seco de paineira derretida, derrotar mesmo um molequinho o mais jovem entre eles de uns onze anos com feições de trinta. O pequeno via aquelas pedras voando muito perto da cabeça uuuuu e nem bola. De repente, até pensava fossem comidas voando, mas... passavam tão rápidas uuuuu passavam tão nervosas sozinho passavam tão assoviantes uuuuu. E moleques ali do chão caprichavam cada vez mais com as estilingadas, bodocadas, fundadas. Que um pivete o acertou tooooo bem nos peitos. Foi uma comemoração geral, alarido, escarcéu, gritaria, barulheira. Molequinho empoleirado, ou avezinha torta, o atingido em cheio, caiu com tudo, se despencou, voou sem querer, sem as asas, caiu direto no chão tuuuuu já durinho, sem um pio, desfolhando as perninhas, erguendo poeira, esparramando as asinhas e os bracinhos e os cabelos engessados de terra. E gurizada aplaudiu o seco atirador, o certeiro atirador, bater de latas, gargalhadas, pontapés, petelecos nas orelhas, tapas fortes taaaaa nas costas.
         Assim, que horas eram?, Moça ficou conversando assuntos ali no ex-açougue com o ex-Açougueiro. Conversa que o ex-Açougueiro olhos amarelos puxava afiava o facão testava a serra de fita e vestiu o jaleco apropriado.
E Moça aceitou aquele papo baaaaa porque nem tinha nada de certo para aquela tarde naquele lugar fodido. Já passavam das quinze horas. Dezesseis horas e quinze minutos. A coisa evoluiu. Dezesseis e cinquenta e cinco. Quantos assuntos? Oito, nove, vinte, quinze recontos um atrás do outro. Cinco e mais seis da tarde. O saci rodava rodopiava no meio do pó vermelho da única rua, rua Única. Fazia um calor modorrento. Moça nem viu o ferruginozinho, viu foi só o redemoinho, ouviu o iiiii. Às cinco e meia da tarde. Moça fingiu nem ter sono, mas quase dormia, vacilava, pescava, batia cabeça, e delirou:
- Eu fui essa figura no quiosque comendo pastel de queijo com garapa em plena praça José de Alencar em o Rio. Eu fui ao Rio em junho uma vez na primeira e fui outras e pretendo mais algumas.
- Eu lá estive já um tempo, dois anos atrás, morei dois meses e duas semanas e dois dias na ilha de Marajó. Nadei de peixe gurijuba apapá aruanã curimatã andei de barco e fui muito ao redor das ilhas e mais ilhas e canais do tal arquipélago de Marajó. O boto-cinza o peixe-boi a pororoca o grande rio Amazonas Melgaço Soure Afuá o oceano Atlântico uau. Eu já tinha apreciado “Três Casas e Um Rio”.
Depois, Moça se arrastou como um lagarto bêbado até uma pequena janelinha lateral. Suor cintilante na testa. Nem tinha pressa em fazer as coisas. Subiu pela parede. Media a parede a palmos. Paciência ou complacência. No fundo do delírio procurou fazer um plano de fuga, e caiu. Tanto sono nem era para menos e:
         - Acho que... vou cair... desta pa-rede... opa...
         Os pés querendo andar as mãos agarradas na parede que caía com ela sobre ela. E se pegou pensando, perdeu o que pensava. A parede raaaaa caiu junto. Suando muito o peito sufocado. Imaginou coisas do passado distante e nem tão distante, delirou:
         - Eu compareci presente no carnaval de Olinda. Igual todo mundo, subi os morros de Olinda e olhei Olinda coqueiros-carandaí e o mar de Olinda. Coisa em si pra nós todos tão liiiiinda. E dançamos frevo na frente da igreja de N S das Neves. Também, o dia os turistas a vista estavam tão lindos!
         - Eu corri nós corremos era eu e ele, corremos até alcançar a marquise da loja de ferragens Timbé. Chovia como nunca como sempre como D mandava. Sem parar de rir sem galochas verdes guarda-chuva sem capa transparente impermeável. Plena tarde fim de tarde rua Voluntários da Pátria começo de verão fim de dezembro capital dos gaúchos.
         - Eu, de volta de Valença, eu que já conhecia a taba dos praquio, fui levada para dois dias em Vitória. E a primeira coisa que fiz em Vitória foi olhar o forte São João, de longe. De noite mandei e-mails. E a manhã seguinte, a praia do Canto que se destaca merece.
         O ministério da aldeia de Santa Luzia, disso aí sem chuva sem chover, tinha muitos tucurus de anos e anos abandonados. O saci, a bordo do seu redemoinho em espiral, levava embora os redemoinhos e escondia todos os rastos de todos. Tudo vermelho e o que não era cinzento, poeira e calor.
         Uma bola atômica abrasava a vila o fim do mundo o fim dos tempos tudo. Um sol medonho que só fazia esfarelar pulverizar a terra. Daí, uns bafos de poeira vermelha, venenosa, daninha, irrespirável.
         - Eu andando de bicicleta. Meu caminho preferido. A praça o horto o parque. Pedalando. Quando jaguapebas passeiam de coleirinha com as donas. E parei na sombra de uma gigantesca pracaxi. Postada ali olhando em volta um pé no chão outro no pedal as mãos no guidão. Era relaxante re-laxante.
         Pronto, agora assim, de Moça um peso quadrúpede nos ombros canga pesada. Pendeu a cabeça para frente e capotou. No meio da rua Única pequenos remoinhos parecidos com os malfeitos e feitiços e arruaças e artes iiiii do saci.
         Sete horas e tanto da tarde. Vinte horas em ponto. A coisa evoluiu. Vinte e pouco e vinte e tanto. Quase nove da noite. Uma palhoça de telhado de sapê pegou fogo ministeriosamente. Uns aldeões e umas aldeãs correram lá. Tentaram abafar as chamas atirando terra seca com as pás enxadas picaretas, as cumbucas as próprias mãos.
         Acordou acelerada ofegante e coberta de suor. A imaginação berrava caleidoscópio eeeee corres berrantes variadas. Sentia os pés frios enformigados. As mãos segurando a testa os cotovelos no balcão muita muita fadiga. Pensou pedir um pouco de beijos nos pés aos pés:
         - Alguém vem vindo...
         A moça se viu agarrada com unhas e dentes na cadeira. Nem conseguia traduzir o que o Açougueiro argumentava. Tentando engatinhar, encontrar defesa, fazendo suposição. Do ponto de vista da moça, ela já dormira e acordara dez vezes naquela última hora. Na verdade já estava anestesiada. Nem queria se entregar. Fazia um calor de matar. E o tempo, de repente, nem fez a menor sombra menor diferença menor mossa. Nem ela mais se preocupou com o peso dos minutos que não passavam. Olhos fora da cabeça. E outros fora do corpo e sobre o cepo do açougue.
         Os bichos noturnos os diabos sempre saem pela noite. Cada qual pega seu rumo como num trevo de quatro folhas. São todos por si e procurando, o lobisomem, brigam como cachorros, o caapora, se atiram pedras e paus e facas e tiros, a mula-sem-cabeça, disputam no coice no soco tudo que encontram, o anhangá-pitã, irônicos neurastênicos vaidosos e demônios infantis outros já adultos.
         Os olhos abertos bolinhas de gude parados no cepo. Era dia, era noite, era poeira, era delírio, era susto? Era ontem, era hoje, era amanhã, era de manhã, era de tarde? Nem curto, nem longo, nem largo, nem alto, nem nada. Os olhos o olhar fixos sem brilho sem luz querendo ver bem abertos sem ver fixos firmes longe. Tudo desaparecendo fugindo dos olhos. Meia volta e volver. Seis a sete passos? Emergência, alerta. Os de dentro sair, os de fora querendo entrar. Que horas? Noite adentro noite afora. Tudo parecia calmo e andar sempre devagar. Falta do que fazer? Queria descansar e dormir dormir.
         Lá outro lado da rua, a ex-casinhola de duas portas sem janela, o fogo comera tudo. O alto da noite pegava no breu como um trapo sujo encardido de poeira e cinzas. Subia uma lua confusa poluída contaminada. Nem havia razão nenhuma de nada.
O caapora passeava no capoeirão seco estalando gravetinhos secos chutando pedras pedrinhas assoviando viiiii como extraterrestre. Vento em ondas vermelhas pesadas aterradas. O caapora se espojava no pó vermelho atrás dos tucurupucas abandonados. Dava muita bola para a lua, as sombras de nuvens de poeira as estrelas os ventos com sabores de terra queimada os planetas, saturno.
         O Açougueiro puxou um pito do bolso do casaco pendurado no cabide. Sentou fumou, praticamente sem tirar os olhos dos olhos da moça. Agora era anúncio o preço os fregueses clientes espetinhos tira-gostos aperitivos. Por onde começar o produto final? Que janelinha aberta para a noite...
         - E aí, vai que vai?!
de lua arrastada em plena onda de poeira fumaça. Um silêncio sozinho mexido pelo vento aaaaa carregando a poeira vermelha as cinzas cinzas.
         Pegou Açougueiro passou passou algumas peças no moedor. Um cubinho na boca para aplacar o seco da boca. A moça com os embutidos. Onze horas da noite. Vinte e quatro horas. Uma hora. A coisa evoluiu. Uma hora e dois minutos e doze segundos. A moça ensacada engarrafada amarrada com barbante na ponta. Uma e tanto e passando...
O que o Açougueiro encontrou no bucho da moça?, vejamos ali, então: uma tampinha de garrafa de cerveja marca importada engarrafada em Vassouras; uma esferinha de aço de rolamento de roda de bicicleta dezoito marchas lembrança do triatlo de Ribeirão Bonito; uma chupeta de plástico de mamadeira tamanho de um dedo fura-bolo cor mais ou menos furta-cor; um resto de massa de tomate Siparuna enlatada em Macaíba, Sergipe; uma moeda de cinco centavos platinada começo de um milhão; um grampo de cabelo marca Iuberi; uma camisinha colorida de amarelo e verde com sabor levemente caju; um farrapinho de lã sem cor definida desses de limpar móveis e utensílios e óculos; um esgoto sobra baba de comprimido genérico para dor de cabeça.
         Quando muito, o lobisomem procurou entrar nas choças das aldeãs solteiras, viúvas, nervosas, insones e a fim. Nem importava a longevidade adiposidade escolaridade. E empurrou portas quase despregadas, forçou janelas podres, subiu telhado de palha seca procurando cair já dentro sobre a cama a esteira nos braços da anfitriã. O terrível mutante querendo entrar a qualquer custo pagando o preço que for. E rondou as casas pela noite toda, uivou, arranhou as paredes de barro seco, mordeu as paredes de urupema trançada. As aldeãs solteiras nem conseguiram mais dormir nem rezar. Lobisomem vezes ficou uivando ruuuuu aprendendo a assoviar em cima de tucuruvas abandonados.
         A mula-sem-cabeça veio pateando pela única rua da aldeia de Santa Luzia, rua Única. Soltando labaredas, expelindo fumaça, relinchando nem se sabe como ieeeee olhos lacrimejantes nem se sabe como. Parou e cravou os cascos no pó da rua quando viu a lua ultrapassar uma pequena nuvem de poeira. Aí, sim senhora, relinchou ieeeee.
         O Açougueiro raspava os ossos os artelhos da ex-moça. Duas horas. Duas e pouco. Mastigava uns petiscos aqui e ali, de guloso. Duas e tanto da madruga. A coisa evoluiu. Três da madrugada - para uns era tarde e para outros era cedo. O estava cansado, molhara a camisa, leve dor nas costas com a hérnia de disco. A pancada insistente latejante de um lado do crânio de um início de dor de cabeça crônica.
         O nos últimos derradeiros e petiscava beliscava assim e assim, de guloso. E faltavam rapar dois ou três dos ossos mais delicados e pequeninos e charmosos do pezinho da ex-moça. Ela sempre fora magrinha, modelo de magreza, uma elegância, caule de palmeira-iará, tinha balança de precisão em casa. A noite ia indo embora. Três e meia. Três e trinta e três tigrinhos tridimensionais trescalantes tigrando na trilha de trigo da tribo: bem rápido. A coisa evoluiu. Três e quarenta e quantos.
A mula-sem-cabeça, ou burra-de-padre, pateou no pátio da choça, catou a chave escondida no vaso de folhagem seca, olhou cuidou olhar para os lados, ieeeee rinchou, mugiu:
- Melhor deixar o assunto me descansar, uma vez.
O lobisomem uivou ruuuuu com o coração desabrigado, caminhando no ritmo do seu desagrado, a boca cheirando palha seca e terra queimada.
E anhangá-pitã, de repente, se derreteu com os primeiros respingos de sol e foi escorregar escorregou cheio de artimanhas teeeee fulminado para o fundo do poço seco.
O viiiii caapora, cocar caído na cabeça, quatro e um quarto, olhos cheios de poeira vermelha, andando de costas de volta para o ex-capoeirão, lá para trás das casas de cupins vazias, e voltar a ser índio ou bicho invisível.
         Um redemoinho no meio da rua poeirenta. Já era dia de dia outro dia quinze pras cinco. Antes um riso escarninho madrugador iiiii. E lá se ergueu um pó vermelho e umas folhas secas rolaram umas pedrinhas rolantes seeeee cantaram. E o saci aterrissou. O saci riu alto iiiii. Olhou em volta... A aldeia já o conhecia, a vila já lhe cheirava conforme, e já lhe pertencia. Farejou os rastos pelo pó vermelho da rua Única, esfregou as mãos, riu iiiii. Depois saiu andando num quique. Saiu quicando e rindo iiiii sempre.
         O sol esticou um ou dois raios flagrantes, entre nuvens baixas de grossa poeira vermelha, raios contados raios interrompidos raios raros raios sujos de poeira. O dia como que gaguejou e tossiu acordando, balbuciou de garganta seca, estremunhou ainda tonto de sono e preguiça e noite mal dormida. Os raios tímidos raiaram um a um e lenta e fracamente. Fazia um calor de amassar de arrasar. O lugar todo de Santa Luzia acabado e sem graça carcomido requeimado requentado.
         Falando em ministério, o sol levantou mesmo naquela horinha sem matinada. E já tinha suas flamas de fogo para sair pelo dia poeirento. Pois o sol era uma lenda. O sol ou o dia de cinzas. Começando pelo começo, o sol torrando a pequena vila perdida no meio do nada descampado. Outro dia de sol que já se transfigurava em forno fornalha. Nem chovia há meses. Ao meio-dia a bola de fogo já era uma bicicleta. Mas o sol era uma lua. Na tarde abafadíssima, o sol já estava desfilando e falando com a senhorita Maria Alice. Uma após hora era com a irmã da senhorita Patrícia, nativa de Ribeirão Pires. Na sequência imperou tostar bronzear com Isabel mais Leopoldina, as princesas do palácio São Cristóvão e Quinta da Boa Vista. Porém o sol era uma espaçonave. E no fim do dia de janeiro, avermelhado, o Quaraci passeou para a noite em prata com a Jaci. E no outro dia de pela manhã, nem muito cedo, cinco e vinte e cinco da manhã, sem arvoredos e passaredos, antes do solzão, passeou no terrão queimado do arraial com a filhinha Duda no colo. Era isso mesmo uma biografia uma ilha uma caminhonete verdezinha tração nas quatro patas um chafariz esgotado e um dia inteiro de sol imperial queimando carvão mineral.
         Sol quente naquele momento, tudo terminado, tudo embutido, cortado, retalhado, desossado, triturado, embutido, costurado, moído, que o Açougueiro se sentou e fechou os olhos vermelhos vermelhos. Cerrou os olhos por um momento sonhando com os olhos da Moça. As mãos bem trêmulas do esforço, da pressa, do cansaço.
O saci entrou pulando e rodando pelo meio da rua poeirenta dono do dia. Queria saltar virar cambota fazer círculos redemoinhos espiralados dono do mundo. Queria correr nos remoinhos de pé-de-vento até o fim da rua e voltar levantando poeira. E ria muito alto iiiii vaidade dos vaidosos erguendo poeira vermelha.
         Cinco e meia da manhãzinha ressequida cor de palha seca. O dia já saía apontando pedras e faíscas. O sol vinha para rachar mais uma volta no fim do mundo. O Açougueiro dormia sobre a esteira no chão da lojinha abarrotada de embutidos gulosos. Eram cinco e trinta e um. Eram cinco e quarenta. A coisa evoluiu. Eram quatro e cinquenta e seis.


domingo, 6 de dezembro de 2015

Sim, Os Capixaba Já Sabem E Voarão Praqui

         




        

         Olho olha só que lua cheia que noite clara parece dia cheia de luar. As crateras da lua as manchas. Será que a lua quer dizer? De mais a mais, a cidade perto prateada. Ganha tanto em claridade como em amplitude. Assim sendo, como papel branco com desenhos de lápis preto. Tudo esclarecido, o ipê-amarelo da praça da Bandeira enfeitado de natal e ano novo. Pedreira e lajes e painéis de basalto figuras trabalhar de pedra.  
         Presa no alto da polissêmica torre de tevê e existia uma moça linda cabeludona que só tinha de seu e do mundo o sonho o voo os seus sonhos. Sobrevivia sonhando, e vivia de sonhos, porque comia e bebia voos sonhos e fantasias. Cada dia tinha um sonho uma revoada e um sonho digno.
         Me deixa em paz me põe contente daqui da torre sino me sintoniza zen que poderia ver sim senhor a África, se eu quisesse.
         Hoje, nem nada nem meu aniversário nem carnaval nem feira agropecuária pelo afora meu país. Sem comunicações, sem ligações, a polícia nem vem aqui, nem os gatunos, nem os e-mails.
         Cada coisa em seu lugar conto ninguém acredita e de novo um outro dia.
Me deixaram um bolo de chocolate com cobertura de chocolate. Tenho o dia todo e os pássaros me socorrem, andorinhas, tico-ticos, corruíras, encontros, joões-de-barro, tesoureiras, grimpeiros, japacanins, sabiás-laranjeiras.
         Quanto mais cresço e permaneço e me convenço mais tenho medo de altura ventania chuva de granizo.
         Minha begônia-de-folha-estreita está plantada pega vento pega chuva pega sol num vaso bem na parede eu converso perto junto da janela leste.
         Vejo como é bom e necessário, um sono tranquilo que dorme a cidade dos neopratenses, e embala acaricia tudo. O sol cai do morro estalando ouro ouro e a um tempo as plantas, violeta-do-mato, lanceta, castanha-mineira, jacitarapuí, mutamba, canela-de-ema, os pássaros as pedras as palavras o rio brilham luz miraculosa na manhã lavada lavada. Os alunos do colégio Tiradentes as calçadas de árvores em fila indiana os alados plumosos, jaós-do-sul, violas, pipiras, soldados-pagos, tchintchorrintchos, fruxus, bem-te-vis-de-três-riscas, bando de caturritas, voam voam buscando adquirir comprar roubar os tons tonalidades as cores vivas os furta-cores.
         Aprendi uma porção de coisas de mais esse mês de maio demais.
Gastava um sonho a cada dia por dia ao longo das tantas horas. Passava a mão afofava os cabelos caracolados as penas do pescoço encrespadas bonitos fartos eletrizados. Porque os sonhos economizava-os reciclava-os pacientemente tinham que ser voar bem fantasiados e compridos e aproveitados e avoados.
Acho bom mesmo.
Às vezes me vem de dormir na rede então eu deito me entrego no embalo da rede e durmo, rooon-que!...
De manhã muito clara, e brasil, o sol volta de boa lembrança e o seu normal incendiado numa faixa branca, me diz:
- Me chama, quem me chama?!
Daqui olho o horizonte, mas antes a localidade a comunidade de Guabiju. Eu bem que poderia ter nascido lá me criado lá ou estudante quem sabe voltando pra lá em férias.
A chuva é uma coisa especial barbaridade. Entra pela minha janela.
Tive um irmão que derrubei lá pra baixo daqui de cima foi ontem queria comer minha comida e beber minha água não posso nem quero dividir o que é meu sou mais emplumada mais forte duas horas e vinte.
Neste fim de ano queria queria estar viajar voar entrar em outras paragens orbitar... Sarandi, Rolândia, Marialva, Campo Mourão, Pitanga, Bambuí, Vera Cruz, Maringá.
As coisas que me aparecem por aqui me aparecem me vêm pelo ar em formas de objetos voadores óvnis com ou sem vento com ou sem cheiro com ou sem aviso com ou sem calor.
Quando vem tempestade vem do sul preciso evitar deixar fechar as janelas a torre xique-xique balança e pode até quebrar, uma vez. O fim do mundo seria eu a última a saber.
Um dia vocês vão me ver voar daqui pra fora ali fora.
Sento no parapeito da janela as costas num lado do caixilho uma perna em cima a outra pendendo dentro para dar equilíbrio peso sustentação nada nas mãos o olhar abrangente capela São Caetano campal capela São Braz campáscuo Fazenda do Pratinha a pele do braço arrepiada as penas eriçadas pela brisa.
Era estava uma filhote de gavião-real, tinha bico de harpia, garras muito potentes de guiraçu, penas de acangoera e asas de uiruuetê. Seria porque seria uma grande predadora das mais enormes fortes velozes vorazes. Seu poder iria dominar exclusivos trinta quilômetros quadrados ao redor desde a polivalente torre antena de tevê. Seu potencial seria e poderia se alimentar de todo bicho abaixo dos três quilos e meio que pudesse roubar e carregar e matar e destrinçar e comer. A visão das mais penetrantes do mundo caçaria em pleno ar assistiria ao passeio por exemplo do ratão-do-banhado em meio ao piri ao aguapé-branco pra lá pra cá num alcance telescópico superior a dois mil metros.
Eu abranjo abarco abraço balanço as asas de balança para o largo espaço. Pergunto pra D:
- E esta agora?
Automaticamente, Ele nem como por que nem me responde. E eu penso bem de mim o pensamento salta me respondo:
- Resposta competente.  
         Pouco tinha aprendido da sorte ou quase nada ou quase o comum ou quase praticamente a mesma coisa. Quase nada sabia das manhas do normal no mundo. Mas seu instinto a levava a pôr as mãos nos cabelos, crinas exageradamente longas e sedosas, esfregar o rosto sem marcas sem rugas sem vincos, os olhos vidrados, o postural, os seios firmes e as pernas quentes atléticas compridas bem torneadas. Muitas atrações! Todos os dias na bicicleta ergométrica. Voar se aprende tentando voar como avião helicóptero pandorga parapente asa-delta.
         Nuvens pesadas misturadas a polifônica torre eletrizada em raios e trovões, tum! tum! tum!... muitas oito vezes mais alta que a chuva apontando acima fura-bolo mastro da gávea varando o remoinho das nuvens, quase levantamos voo neste furacão nesta tormenta neste temporal.
         Às vezes passo uns calafrios de sono, pesco, assinto, caio numa vertigem de sonolência perco os sentidos por um dois segundos, pesco, pesco, concordo, então eu medido faço ioga concentro para não cair da poligráfica torre de ferro em barras cilíndricas.
         A realidade acontece. Me vem me surge me aparece superveniente este sol de afobado novembro. Coisas sempre acontecem.
         Se dependurava temerariamente na ponta da janela por fora o vento na cara as nuvens nadando por baixo os urubus os bimotores os balões de ensaio os balões dirigíveis. Segura por um dedo presa por uma unha da garra, pingente placa descolada roupa no varal. Acenava abanava gesticulava com as asas lá pra baixo aos terráqueos pratenses.
         Luzes piscando vermelhas avisando lanternas a torre chocalho e rangenta, trrreeê! trrreeê!... e olho para os lados eu e a polimórfica torre na noite fechada na cerração densa.
         Tenho muitas paciências comigo mesma o meu pensamento longe voador na frente pôr vir os voos rasantes os cruzeiros turísticos os panoramas... São Joaquim da Barra, Cajamar, Uberlândia, Pirapora do Bom Jesus, Orlândia, Luz, Curitibanos, André da Rocha, Corumbá.
         Aqui em cima não proliferam insetos. Eu gosto. Formigas são mais frequentes. Até na lua há formigas! As mariposas prefiro por conta dos voos assimilo por causa das asas. Existem mais espécies de formigas numa árvore da Amazônia seringueira-vermelha que em todo continente europeu.
         Acho que vou pretendo acordar bem cedo amanhã cedo.
         Eu aproveito e concordo e afirmo que os índios poianaua nem derretam nem despedacem nem detonem a torre maracá.
         Me deixaram um pote cheio cheio de salada de frutas de cores. Vou de janela para janela só olhando o gosto que me dão. O cérebro que se liquefaz. E resumido o mundo todo tudo.
Debaixo deste céu que sim e muito longe, onde D também é muito grande, me deixo minha fome de asas e voos e rapinas.
         Esta policrônica torre de rádio e tevê apontando ponte o infinito é muito alta que parece uma sumaumeira-da-terra-firme, um jequitibá-branco, uma castanheira-do-pará, um pinheiro-do-paraná, um mogno-brasileiro.
Lá em baixo já disse já sou a cidade de Nova Prata o meu povo farejando sempre em volta da furna bairro Basalto do ninho bairro Sagrada Família da toca bairro Santa Cruz como fazem os tatus-bolas.
As nuvens invadem o meu cômodo a minha sala.
         Os meus longos cabelos que tenho os cabelos longos pisassem e o desgosto que puxassem eles aterrissassem lá no chão e esvoaçassem pela lateral da torre ganzá até o meio das costas penas de fazer cocar estendessem como vestido pela poliédrica torre abaixo.
         Sua boca em momentos salivava, engasgava suavemente a sua garganta, e algumas palavras uns nomes lhe saltavam saltavam. Mas sem preocupação e problema e ambiguidade. Falava com a parede e com a planta begônia e com os sonhos os personagens dos sonhos os alados dos voos, os tinguaçus, os tucanos-de-peito-branco, os tuins, os canários-da-terra, as pombas-rolas, os coró-corós, os pintassilvas. Seu vocabulário era de aprendiz de voar com asas e fantasias e saudades.
Mais lentamente tudo calmo o espaço oxigenado nenhum rádio sem vozes sem satélites nem gritos de carnaval, respiro fundo, quando voar quero pousar pautar ali em baixo pausar pisar descer naquela árvore dedaleira-preta.
         Quando tem chuva vento me sinto navegando no ar quando tem qualquer coisa a estrutura da torre campainha vacila e murmura, crrrrê! crrrrê!... e balança e brincos e pendentes e depende como agora.  
         Os fogos de artifícios procuram aqui o topo da antena e explodem na minha cabeça, tom! tom! tom!... E vai ser assim mesmo a noite toda por toda a madrugada. É fim de ano é campeão do campeonato é casamento na Matriz é eleição do prefeito é inauguração das novas luzes na praça da Bandeira é festa de São João Batista um dos padroeiros.
         O céu é todo azul todo meu o dia todo branco e lá embaixo corre como fio barbante jogado um rio de nome Retiro.
         É como eu digo.
         Então, voo irei subirei até o sol... e quando o sol me eclipsar... se preparem pois vou vir descer com tudo e bem representada em mim mesma veloz como veloz sem sombra as asas em forma de cruz como uma flecha.
         Daqui nem vejo mas prevejo, nem consigo visualizar mas a curiosidade me antecipa, mapeia, turistando por aí, os diferentes lugares e as saudades dos lugares que gostaria muito e quem sabe um dia, Estrela, Santa Maria, Guaporé, Erechim, Cotiporã, Áurea, Três Arroios, Anápolis, Casa Nova.
         O tempo me fala confessa o tempo e o vento se viraram contra o feiticeiro.
Quantos papagaios-verdadeiros eu calculo e de voz esganiçada sobrevoam neste exato.
         A torre cincerro e a moça tinham duas janelas, uma do nascente e outra do poente. Dois metros e dez de ponta a ponta das asas abertas asas abertas se preocupando em voar. Olhava para o mundo agnóstico, lá em baixo. Admirada com a chuva, alerta com o dia claro e azul e barulhento. E assim presenciava assistia acompanhava num amplo raio em volta. Passarinhos buscavam curiosos suas janelas pela manhã pela tardezinha, coleiro-do-brejo, birro, tucão, galo-de-campina, sebinho, sanã-ocelada, alcaide.
         Volto a falar com o Silêncio. Falo com D ou comigo. Eu falo e Ele não responde e Ele não diz nada.
Agora aqui assim o vento desperta por que meus cabelos minhas penas.
 Na esquina aí em triângulo das ruas Itália e Uruguai, meu avô foi bodegueiro, meu tio mercadinho meus primos com minhas primas mercado supermercado mercadão atacadão.
Cabelos abundantes sacudidos para o alto ou em xaxim. Um pacote de erva. O pacotão com embrulho de papel marrom amarrado com barbante. Sempre começaram a jogar atiravam na sala através da janela com certeza um mensageiro positivo estafeta. A moça ideias tropeçavam no põe dispõe predispõe. E ávida agarrava a encomenda o presente com as duas garras retráteis de rapina. Atarefada rápida excitada nervosa correria batia o bico adunco te-te-que!... o coração, dun-dun-dun!... Paredes tatuadas, decoradas, via se mexendo, caducando, alucinada, dopada, palmeira-piaçaba enrolada em sucuri de língua comprida, tuco-tuco farejando cauteloso o ar durante a trilha pedalando triciclo pela cana-brava, praça Sete de Setembro em Belzonte, saíra-de-chapéu-preto gorjeando riu-riu-riu-riii!... gesticulando erguendo os braços as asas olhos redondos, grupo da tribo cricati passeando no shopping comprando celular camisa da seleção calça legue boné do colorado, colibri-rubi enticando com flor amarela de veludinha, museu Nina Rodrigues abrindo as portas de par em par também domingos e feriados, macaco-prego-do-peito-amarelo sempre cricrocracrejando craaaá!... pelo alto galhos ramos folhas verdes da caixeta-amarela... Olhava os pés as unhas em curva as canelas emplumadas como se fossem restos distantes de outro ser ave mitológica. Ria um riso fácil mecânico. Largada na rede largada. Toda derramada em ma-ravilhas. Uma serenidade liberdade fraternidade honestidade. Uma preguiça esquecida. Nuvem azul de cheiro de capim seco. O corpo o seu corpo parecia outro corpo. Ria sorria sorriso de ícone guerreira índia. Voo alto no céu limpo área de pouso Campo Formoso rio atrás de morros Morro do Chapéu a gavioa Sento Sé gavionando.
Estava inchada de aérea quanta tolerância quando acordei. Vim para este posto da minha janela. Acordei levantei caminhei as garras afiadas até aqui na porta da janela, e olho a cidade lá embaixo o Centro um ônibus saindo da rodoviária suponho para a RS-324 rumo de Nova Bassano.
         Outro dia subiu até aqui em cima um macaco até aqui em riba e ele me viu e me disse e me chiou macaqueando careteando:
         - Eu sou uma vespa-de-rodeio!
         Pois respondi corrigindo vontade de tomar um suco de abacaxi bem gelado, disse:
         - Não, cara! Você é um macaco-de-bando. Conclusão.
         - Quê?! Nada a vê, meu!
         E a sorte era assim, os dias lentos, passados em meio aos sonhos das janelas dos voos que viriam caso viessem. Não tinha como exercitar outra coisa. Mergulhava para dentro de si piloto automático na invenção na criação particular e águas limpas. Voava para o próprio interior livre verde brilhante como o natural de um vale depois da chuva.
         A politeísta torre monumental oscila e eu já devia ter me acostumado.
         Tenho quase certeza convicção, que os caingangue nem queimar nem tocar fogo nem fazer fogueira incendiar derreter a torre sirene, então.
         Olho sempre para aquele lado de onde vem o sul. É de lá que vem o vento o mais frio vem a chuva plumagem impermeável as nuvens carregadas o vendaval. Daquela região, e sempre vem ser assim.
         Aqui em cima é legal e se vê bem como são toco com a ponta dos dedos das asas onde estão para onde vão estas tais nuvens esgarçadas.
         Ia buscar o sol ia buscar a lua ia buscar uma ou duas estrelas as cadentes as guias as vermelhas amarelas azuis brancas. Como D como deusa, projetava criava e assumia. Banzava mentia e caminhava de uma entre uma para uma janela e outra.
         O dia que vou voar vocês vão ver, uh-vuuu!...
         Até que nem sou contra a matemática os triângulos a aritmética a geometria a álgebra e relembro e recomendo “O Homem Que Calculava”.
         Pesquiso a tarde acalorada mormacenta sufocante bico aberto no espaço tudo se transparecendo tudo impalpável. Vejo de hora para outra as nuvens rolantes grossas uivantes tempestade tormenta nuvens estrondos parará-ti-bum!... chicotes queimados a construção sobrenadando mastro de barco sem as velas cata-vento barbatana de avião ou tubarão e à deriva acima das nuvens.
         Quanto quanto gosto de viajar, quilômetros, pulando de lugar para lugar, no voo, no velejar das asas, planando as correntes dos ventos quentes e se possível... Ipuã, Vila Flores, Passo Fundo, Portão, Rio Grande, Tapiraí, Bagé, Barretos.
         E D me manda o que tiver o que vem por aí o que achar melhor o que um dia passa a existir o que Ele quer, o sol a lua as estrelas os nomes a espaçonave que chega para me olha vai embora para o fim o início da galáxia espiralada.
         Não tem e eu nem tenho mesmo outro jeito.
         Acho engraçada esta politrófica torre de telefone. Muda o vento muda tudo. São as oito ou oitenta bandejas que conto bandejas orelhões escudos parabólicas.
         Daqui de cima as formigas andam atarefadas pegam as caixas de fósforos e vão trabalhar bairro Industrial e voltam do trampo. E eu sou uma gavião-de-penacho, piééé! piééé!...     
         Nem sei mais o que dizer o que ouvir o que fazer o que debater asas, o que foi que eu disse...
         Até que um dia morreu de morrer. Ainda jovem e emplumada e cheia de sonhos e pronta se aprontando para voar e viajar e gavionar. Seu corpo inteiro de comprido esticado se deitou de longo no piso frio da sala da torre de guizos e foi apodrecendo se decompondo. E se deteve séria o desvoo restado o corpo espalhado depenado mergulhado de longo espichado. Depois secou, foi crosta, rachou, crestou, empedrou, virou pó, foi levada pelo vento...
Chegaram e encontraram a notícia uns passarinhos uns tijuzinhos e logo começaram a pipiar a beliscar a saltitar a bicar a esgrafiar a riscar um casal até que enfim fez ninho e três ovinhos sardentos e família e parentes.
         A polifílica torre pintada de vermelho e branco ficou para titia para a igreja mais próxima para os alpinistas de fim de semana e tremendamente funcional multifuncional. Local ideal alto esotérico para ninho de formigas-de-novato e para enxame colmeia de jataís-pretas e para passagem secreta de mão-de-cabelo no seu aspecto fantástico e para as lélias orquídeas florir engraçar colorir sossegadas e para refúgio de morcegos que nas noites, tsê! tsê!... saem à procura à procura e acham e para gavião-puva nidificar ninho ninhal e para bandeira nacional distender auriverde pendão conforme o pé-de-vento com voz tatalante.