sexta-feira, 30 de junho de 2017

Contos de Santa Luzia (13)




            Quipá fugia sem parar. Caminhara trezentos dias evitando estradas estadas rastos pessoas e cachorros. Há muitos dias desde agosto que estava enfrentando o capoeirão seco, espinhoso, pedregoso. Muitos sóis pelo deserto vermelho. O calor terrível insuportável. Dor nos pés nas pernas e no resto da alma. O ar irrespirável de terra vermelha. Nada de sombra. Nada de nada. Tudo um clima de boca de forno fornalha. Terra esturricada. Pedras cansadas. E noites frias e abandonadas e sem fim.
            E carregava cinco mortes nas costas. Nenhuma delas na consciência. As primeiras duas por vingança vingança. Mais outras duas por encomenda, por dinheiro, por tarefa, por vontade de ganhar um faz-me rir. A última foi para mandar embora o tédio e ver o tombo.
Fugira da cadeia com outros tantos. A rebelião pôs fogo à cidade. E fugia pelas veredas, atalhos, picadas, capoeirões, beiras de rios secos, terras cinzentas, terras castigadas, pedreiras cavadas.
            Do alto do morro viu a aldeia de Santa Luzia. Anoitecia. Se encolheu na aba de uma rocha gigante e tentou se acalmar. Não queria descer durante a escuridão. Não conhecia o lugar e receava alguma surpresa detestável. Poucos casebres. Tudo um silêncio. Não queria acordar os aldeões, mas acordou a mula sem cabeça o anhangá-pitã.
            Pela manhã subiu no grande rochedo para olhar mais longe. A bola escaldante do sol rolava para o oco toda encoberta daquela poeira vermelha. Observou a aldeia de Santa Luzia. Uma aldeia pequenina as casas precárias de pau-a-pique e cobertas de sapê. Procurou alguma coisa para espantar a fome a sede.
            - Vou me apresentar - decidiu o estrangeiro, falando para si mesmo.
            Quipá Cataguá entrou pela única rua da aldeola chão batido britado. Parou na pracinha onde a gurizada improvisara um campinho com goleiras de tijolos. Jogavam calçando as mãos com chinelas de tiras de borracha. Descalços os dedos nodosos encardidos chutavam uma enferrujada lata vazia de compota de caju. A molecada o convidou; faltava um goleiro:
            - Ei, vem de goleiro, seu viajante?!
            - Pô, vem!
            - Vem aí, vai!
            - Ataca o que dá, meu!
            - Mmmmm - foi só o que Cataguá conseguiu gemer no momento.
            Quipá, olhar insone aturdido, entrou no gol sem muita vontade meio relaxado chateado. Não era goleiro, nem nunca fora, nem queria ser. Mas como precisava se enturmar... pensou um pouco... aceitou. Foi entrou no gol pelo time dos sem-camisas. Dois tijolos faziam as vezes de traves, e o travessão a altura dos braços erguidos ou do pulo do goleiro. O campinho era um terrão desnivelado sem linhas laterais ou áreas.
E o desconhecido voava com estilo e elasticidade sempre catando a lata. Na pior das hipóteses espalmava para escanteio. De repente se viu rilhando os dentes relinchando se exibindo. O time dos sem-camisas virou o jogo. O goleiro improvisado não deixava passar nem suspiro. E miau! miau!... de gato.
O time dos camisas-rasgadas tinha um centroavante driblador e artilheiro e craque pra cachorro pra burro. Esse cobra não conseguia mais vencer a eficiência do goleiro-forasteiro. E daí que o culepe se irritava que só vendo: falava palavrões, babava, enviesava uns olhares de louco a cada lance frustrado, exigia pênaltis, teimava por cobranças de faltas, canelava, discutia, apitava, xingava, destratava, ameaçava, brigava, não parava de esbravejar; merecia uns tocos e uns puxões de orelha.
            Uma vez o tal centroavante-artilheiro-craque dos camisas-rasgadas pegou a bola no meio campo. O dito cujo mesmo. Veio driblando todo mundo. Chegou perto da área e chutou firme no canto... Que nada! Nada da bola da lata passar. O goleiro-forasteiro voou lá e a catou com as duas mãos. Então, todos viram, o viajante era uma parede, uma muralha, um santo, uma jaguatirica; fazia a diferença:
            O calor latejava na cabeça, as luzes doídas piscavam, os ruídos insistiam xaropes incomodativos, etc...
            - Onde estou? Qual que é? Muito longe? Agora mais perto? Sem que ou por quê? Miragem? Ah, chega de perguntas! - resmungou consigo mesmo o Quipá.
Uma cerca bem torta malfeita de secas taquaras-pocas. Uma linha de passe... uma linha de zagueiros... ouviu alguém gritar: “passa a bola!” Fazia luz, fazia sombra. Muito calor pelo corpo, muita luz dentro dos olhos, não conseguia ver nada. Não, um chiado, um zumbido dentro da ideia, um miado no labirinto do ouvido... um zunido de serra-fita serrando vidro dentro da cabeça...
            Então, Quipá Cataguá despertou gemendo, “ahn! ahn!...” Estava atrás do gol. Largado ali, estirado no chão, tonto. Uma terrível dor na cabeça. Coberto de poeira vermelha. Passou a mão na testa e se apavorou: um corte profundo, e estava lavado de sangue. A luz imprecisa do sol nos olhos. Não entendeu nada. Estava vazando da cabeça e não tinha ideia do acontecido.
            Quipá mal conseguia abrir os olhos, tanta a dor na cabeça. No seu lugar, na goleira, fazendo as vezes de goleiro, a piazada havia posto uma pequena escada de abrir. Que se passara com ele? Que acontecera pra ele estar ali atirado e de cabeça rachada?
            E queria ver aquela ferida. Queria cuidar da ferida e curar a dor. Se ergueu, a cabeça latejando, zonzo, muita dor. Se sentia mal pra cachorro pra burro, completamente aturdido, febril, destruído, até com ânsias de vômito. Tentou chamar por socorro. Gritou por socorro:
            - Ei! Socoooorro!!
Que nada. Não veio ninguém. Esperou um pouco e não chegou ninguém. Dor na cabeça. Tudo em volta meio que rodando ondeando. Memória desparafusada, ideias quebradas, quase pensamento vazio.
            Depois de uma hora ali jogado, perdido, gemendo, ele se ergueu para tentar uma ajuda. A piazada já digladiava de outra coisa em outro lugar. Cambaleando foi até a capela e se sentou na escadinha de pedra basalto. Não conseguia pensar. Acontecia alguma coisa que não tinha consciência. A cabeça rachada, vazando sangue, muita dor na cabeça. Aconteciam coisas ao redor que não entendia, não podia perceber.
- Que é isso? Sofri um acidente, tive um desmaio, será? Sofri um atentado? - não tinha ideia de nada.
            Talvez lá para o outro dia...
Os claros de um sol empanado despontaram atrás dos morros de capoeira ressequida mortiça, o oco tomado de nuvens gigantes de poeira vermelha, um vento dos infernos sempre incendiando a região, ermo sem remédio.
E Quipá desacordou num casebre destelhado, e olha lá! Passara a noite enrolado numa esteira no chão. Dormira com pesadelos e a constante e terrível sensação de perda de poda de sacrifício.
            Se sentiu muito estranho ao acordar. Bota estranho nisso! Se sentiu esquisito. Levou a mão ao patuá seguro ao pescoço por um cordão de embira. Nem havia mais amuleto algum. Olhou para o lado, estava sozinho. Procurou se consultar... E lhe faltava um braço, o esquerdo. Foi um choque:
- Estou doente da cabeça? Talvez tenha sofrido sério acidente. Pode ser um defeito do pesadelo.
Quipá se cortou? Cataguá cortou a si mesmo? Quipá cortou o Cataguá? Mas como se não acordara na hora horrível da operação? E como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            O desenxabido olhou o ombro esquerdo. Onde havia um forte e utilíssimo braço agora somente o ombro vazio. Doía um tanto, vá lá! A amputação fora recente, e muito precisa, quieta. Então, perdera o braço do dia pra noite e um pouco menos de alma.
            Pois ele botou a mão que lhe restava na testa. O caroço da pancada, recebida no campinho no jogo com a molecada, ainda estava alto, duro, doído. E doía todo o crânio, e o lugar da amputação junto e ao mesmo tempo incluído.
            Cataguá, Quipá saiu para fora do casebre. A aldeia de Santa Luzia estava quieta e sempre deserta. Rebrilhava muito escondido o fogo do sol. Os gabiotos eram de pedras e paus e costaneiras apodrecidos. Uns vinte ou vinte e cinco entre aldeões e aldeãs que teimavam ali. Todos alquebrados, desgrenhados, desleixados, desfigurados, amarrotados. E eles ficavam observando o viajante pelos buracos das paredes.
O ar poluído de poeira vermelha. As árvores ex-urucubas ex-parinaris ex-ananis da pracinha. Uns pivetes se açoitavam e se perseguiam e se combatiam ali. O preso recebia dez varadas nas costas ou nas pernas ou na bunda. O moleque que apanhava chorava por uns minutos até cansar ou passar a ira. Depois, voltava a participar dos pegas. Os agressores zombavam cuspiam na mão para preparar o tapão davam as voadoras os rabos-de-arraia as tesouras; treinavam vale-tudo. E sempre corriam atrás de alguém em nova perseguição. Cada um por si. E logo uma outra vítima. Recomeçavam açoites gritos xingos... e assim por diante.
            Não chovia na região talvez há dois três quatro anos. Tudo coberto de fuligem. Nuvens de pó vadiando pelo oco. A vila coberta pela poeira vermelha. O saci irrequieto no redemoinho da rua Única.
            Quipá, constrangido pelo roubo do braço, caminhou até a calçada da capela. Sentou numa laje. Não se acostumava com a falta do braço esquerdo. Não parava de pensar nisso. E repensou: “Decerto que já houve gentes e bichos que nasceram sem os dois braços, sem o braço com a respectiva mão. Um verme não tinha braços, um caracol não tinha braços, uma lesma não tinha braços, uma minhoca não tinha braços e mãos e pernas.”
            Depois, sem dúvida o mesmo Quipá, sentiu mais fome e sentiu ainda sede. Não se acostumava com a falta de certeza e de equilíbrio que o ex-braço causava. De volta à praça das ex-macambiras ex-facheiros-pretos ex-capororocas-verdadeiras, se sentou recostado a um tronco de paineira queimada do calor.
            A fornalha assava o mundo sem nenhuma pressa sem dó e por fora por dentro. Um dos moleques desmoronou. As costas marcadas por dezenas de cortes vergões tatuagens desenhados pelas varadas. E a palhaçada sempre a mesma e continuava. Todos descalços, todos sujos, todos desocupados, tontos de fome.
            Cataguá espiou em volta tudo tomado pelo mormaço pela luz intensa pelo cheiro de terra requeimada. Fora os moleques, não se via mais nada se mexendo. Dentro da aldeia os adultos não existiam. Raramente se via um aldeão ou uma aldeã caminhando com enxada às costas catando pedras para o almoço. Encontrar dois aldeões num dia era indício de muito azar.
- Onde esses tipos bisonhos se entocam? - pensou, falando alto. Talvez adoentados, talvez dormindo de dia e caçando à noite.
            A noite chegou sem surpresas, ignorante, sem nada para dizer, sem nada de novidade. Uns gemidos e uivos aqui e ali, de lá pra cá. Um número impreciso de relinchos. Um lobisomem, uma martinta-pereira, um jurupari. O estrangeiro se perguntou logo:
            - Será que chego a dezembro?
            Acordou na manhã de quinta-feira junto com o primeiro bafo de calor. Esperou e olhou em volta a ruína do casebre. Um silêncio no grotão. Quando, enfim, se decidiu levantar do colchão de espuma de borracha... faltou a perna direita, careceu da perna direita, necessitou da perna direita... etc.
            - Minha perna direita! E cadê?!
            Quipá Cataguá achou um absurdo aquilo. E falou alto novamente, e com razão:
- Mas não posso dormir que me roubam as partes?! E agora a perna direita, tão útil e necessária!
            Quipá ficou assim, olhando olhando o lugar vazio do seu corpo onde havia uma perna direita. Tinha que acreditar no absurdo no irracional no surreal. Ficou muito irritado. Operação muito entendida, silenciosa, indolor, incolor. Se sentia mais leve era verdade, mas isso longe de o satisfazer. E também com uma sensação que era só saudade, dor além da saudade. Fora roubo ou fora acidente? Alma trouxa e mais leve.
            Cataguá se cortou? Quipá cortou a si mesmo? Cataguá cortou o Quipá? Mas como se não sentira tanta dor assim? Como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            Se ergueu com custo com custo. Faltou equilíbrio prática e calma. Como não sabia quicar na perna presente, caminhar como um saci, pegou um galho seco de buranhém e foi se apoiando. Saiu para o dia de mormaço e vento carregado de poeira. Pensou rápido, pensou, viu o dia, olhou em volta, e só resmungou:
- Que dia para perder umas partes!
            Então, olhou o dia entupido de terra: era praticamente o mesmo dia de ontem ou de amanhã. O arraial o mesmo. Talvez as mesmas nuvens de pó no oco acinzentado. E os poucos moleques, descalços e arteiros, brigando de arrastar outro pixotinho de cá pra lá e de lá pra acolá, e gritaiada, berredo, choraria, disputa de pedradas.
            Quipá foi indo atravessando a rua Única, tropeçou e caiu de bico. Falou alto:
            - Ai meu queixo!
            Não podia ter prática mesmo. Daí se dirigiu à capela. Entrou na capela às oito e meia e se sentou num banco de visgueiro em frente da santa Luzia. A santa Luzia... olhava para o atento teto da capela. A santa Luzia... levava os próprios olhos num cálice de ouro falso. A santa Luzia... uma guria vestida de guria. A santa Luzia... um vestido longo sem decote cobrindo até os pés. A santa Luzia... olhos azuis na tacinha como era normalmente o azul do oco antes do fim do mundo.
            Cansado, dor nas costas, o estrangeiro resolveu sair picando para fora. O calor era tudo, por ali. A luz muito forte. Muita poeira. A capoeira ia longe capoeira pedras arames retorcidos engrenagens perdidas. Os piás corriam atrás uns dos outros, se atirando pedras, bodocadas, pauladas. Era só o que queriam fazer e desfazer. Os maiores os enturmados, agarravam alguém e viviam dando cascudos pontapés rasteiras sardelinhas, torturando o prisioneiro.
            Cataguá olhou para o meio das nuvens avermelhadas. Olhou com um olho meio se fechando e o outro fechado. O sol era forte por trás das nuvens de terra. As nuvens vermelhas contaminavam os últimos penitentes do deserto.
            Quando Quipá olhou para trás... viu um moleque que o seguia seguia. Vinha traiçoeiramente em silêncio, cara de doente, um porrete na mão uma das pontas arrastando na poeira. Farejava seu rasto. Quipá estacou e o esperou e o encarou. O pivete também parou. Ficaram os dois parados, meditando, se olhando, se medindo. O pequeno bandido foi do humilde ao indiferente, passando pelo nervoso.
O cramulhãozinho desistiu, tossiu, virou as costas e se foi. O pixote baixou os olhos, olhou por pura necessidade, foi indo, olhando para trás e trotando, voltou a cabeça para olhar, arrastando o porrete no chão, foi andando meio de lado, o porrete riscando a poeira. Parecia um cachorro louco. Caminhava torto, olhando para os lados e para trás. Olhava sempre, precisava olhar outra vez.
            Quipá sentiu um amargo no fundo. Estava sempre com sede e fome.
- Uma perna e um braço a menos para dar de comer - remoeu.
Foi até a ex-padaria no delírio de escolher umas fatias de torta de chocolate. E parou no meio do caminho. Vento abrasado, calor debaixo de calor.
            Os moleques acocorados ao redor da fogueira provavam entre si quem era mais valente esticando a mão para as chamas. Todos encardidos de poeira vermelha. Uns gritavam e amaldiçoavam, outros choravam, outros ainda urravam tipo bicho.
            Quipá se sentou junto ao ex-ingazeiro, mesmo tronco encarvoado de ontem, um espeto apontando o oco nublado de vermelho e que não tinha sombra e que preferia virar pedra. Pois logo logo os moleques se espalharam, uma gritaria, e começaram uma guerra de pedradas, todos armados de funda.
            Anoitecia. Nem lua nem estrelas. O boitatá revoava baixo sobre o capoeirão. O lobisomem pulava fora das estacas de espantalho para virar assombração. O curupira enganava com os pés virados.
            - Assim eu não chego a dezembro - pensou alto o Cataguá.
            Demorou, mas ele acordou naquela manhã fedorenta e de muita luz insatisfeita. Era mais um dia no deserto vermelho. E sentiu certa dificuldade de se mexer e logo descobriu o porquê. Seu braço direito também havia sumido... Uma má notícia. O que era péssimo para os negócios, para os projetos, para o porvir, horrível para uma prática natural.
            - Que que é isso, meu! - gritou esse lamento solitário e abichornante.
            Quipá fez todo um exercício de contorcionismo para se erguer da esteira.
- É, estou sendo roubado na calada das noites. É para a leveza da alma - falou para quem quisesse ouvir, e bramiu.  
E só lhe restava uma perna na sua relação com o resto dos tempos. Tinha que se virar e se contorcer como um verme rebolante.
            Quipá se cortou? Cataguá cortou a si mesmo? Quipá cortou o Cataguá? E por que não acordava na madrugada se esvaindo e com dores? Como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            O desimportante viajante queria a luz do dia com ou sem nuvens vermelhas. Fora do barraco mais calor e sufoco. Não podia sequer se coçar. Uma dor no lugar da amputação; sensação de perda; vontade de se coçar; vexame perante os habitantes - que, aliás, quase não se viam pelo dia a dia da aldeia destroçada.
            Então, ele foi quicando preocupado com seu horizonte cinzento. Quicou até o tronco da sua árvore predileta ex-sapotaia. Antes de chegar chutou sem querer uma pedra solta do caminho. E caiu no chão poeirento com estas palavras:
            - Ai meu queixo!
            Conseguiu se sentar junto da caputuna queimada. Um grande e muito machucado esforço concentrado. O calor matava a pau. As nuvens vermelhas passeavam, faziam suas trapaças pelo oco. Os moleques corriam para cima e para baixo da rua poeirenta, atrás de uma lata vazia, chutando a droga junto com as pedras e paus, gritando palavrões, se empurrando. E o calor o fogo o incêndio.
Quipá então respirava oprimido. Um moleque veio farejar olhar e de pertinho. Quipá não reconheceu o pivete. Aí o culepe chegou mais e farejou o pé sobrado. Depois tentou roubar a única sandália de borracha. Foi um custo se dobrar e se desdobrar e enxotá-lo. Depois o doidinho foi embora olhando para os lados, para trás, torto, e lá adiante se sentou ainda na poeira, se coçando atrás da orelha direita, sempre espionando. Quipá cuidava com o rabo do olho. Mais tarde o pivete foi e sumiu.
            Cataguá sentiu um espinheiro de fome na barriga. Se ergueu com esforço, quicou até a ex-padaria. Tentou bater a porta lacrada. Voltou. Não tinha vontade de chorar. Era um desinfeliz, mas não tinha vontade de se lamuriar. Não podia tocar o mundo com as mãos, isso principalmente. O azar parecia uma prova com camisa de força. Estava todo podado.
            - Quero enterrar minha perna - falou pra ninguém.
            Após o que, Cataguá quicou foi picando para os lados da capela. Todo o dia, um dia todo, pela frente. Um dia era pouco, ou era muito. Viu os piás brigando de repartir o adversário ao meio, um de cada lado, cada um com um braço, cabo de guerra. A vítima teria de ter muita coragem, pois a brincadeira só seria interessante, engraçada, quando os ossos estalavam, as juntas estalavam. A vítima, para ser engraçada aos outros, teria que chorar, espernear, gritar e pedir por socorro, mil vezes por sos. E continuar xingando e pedindo clemência.
            Nas lajes da capela, Quipá deu de cara com um molequinho mal-encarado e mal-intencionado. O culepe olhou Cataguá com olhos famintos e maus e fixos e vermelhos de poeira. Quipá quicou rapidinho para o interior da capela. Detrás da porta ficou espiando, até que o pestinha desistiu e se mandou embora.
            Quipá fingiu que tinha algo a fazer rua abaixo. Foi até lá. Aí lembrou que poderia fingir a mesma coisa rua acima. Quicou até lá. Assim passou um tempo. Cansado de quicar para cá e para lá, voltou e se jogou numa laje da calçada da capela.
            Depois, o estrangeiro cochilou, quase dormiu. Uma pivetinha chegou e se sentou a sua frente. O viajante se incomodou. Saltitou como o saci até uma pedrinha solta por aí e fez de tudo para chutá-la na direção da guriazinha. Parecia joguinho de sapata, mas não era. E era difícil. Era questão muito séria, de segurança.
            E a guriazinha vinha, chegava mais perto, depois corria, voltava sempre curiosa, mostrava a língua seca. Assustada e curiosa. De repente, correu buscar umas pedras. O visitante ficou pensando. Aí a molequinha começou a fazer uma casinha de pedras rua de pedras bichos de pedra. E se distraía sozinha vez ou outra olhava o forasteiro e construía a casinha.
            Os pixotes, lá no meio do terrão da pracinha, esticaram tanto o menorzinho da turma, tentaram tanto reparti-lo ao meio, que parecia que o desinfeliz já estava devidamente esbagaçado: assim como um espantalho, assim como um asterisco, como um crucificado. Os braços da vítima já eram maiores, sem dúvida. Alguns ossos e juntas já estavam comprometidos. Andando parecia um ex-macaco-prego.
            Quipá tinha a perna cansada, o pé cansado de ficar quicando por aí sobre um chão quente e rachado. Olhou o caco da própria sombra... Era uma figura de peça de quebra-cabeça. Com certeza menos alma para dar conta no juízo final. Um boneco em desconstrução? Um retalho, um caco, uma lasca.
            Assim ele viu nos olhos da pivete: a guria quase mais não tinha receio. Logo de supetão de repente teria coragem de atacar.  Bastaria um mais ousado para que os outros também viessem com tudo. Aí então não sobraria nada pra ser enterrado.
            Assim assim os bandidinhos maiorzinhos largaram a primeira vítima e agarraram a seguinte. A primeira vítima não tinha mais forças nos braços sendo que as mãos chegavam já aos tornozelos. Era um boneco desengonçado, um piá de borracha, um ex-macaco-barrigudo destroncado.
            Quipá decidiu quicar até ali, até lá... Olhou para trás - e para isso dar certo fez uma manobra arriscadíssima, quase perdendo o equilíbrio - e constatou, já metade incomodado, outra metade já acostumado, até envergonhado, que um moleque o seguia e o espreitava tipo cachorro louco.
            Cataguá tinha muita saudade de fazer muitas coisas com as mãos... Mas quede os braços e as mãos? Cataguá fora um homem prático, antes de perder os braços e as mãos, perder a perna. Agora então pateticamente não podia mais se coçar.
            Anoitecia sem ruído algum na vila Santa Luzia. A luz empanada do sol decaiu e a sombra escorregou seu peso pelas montanhas não tão altas abaixo e veio se esgueirando tomando conta. E só faltava o quê? E lobisomem uivar nos tucurus vazios. E martinta-pereira piar no meio do capoeirão.
            - Acho que não vou chegar a dezembro, é - Cataguá sentenciou.
            Amanheceu. Quipá abriu os olhos cheios entupidos de poeira. Fez uma ginástica para ter certeza de estar no limbo. Era o que nem esperava: estava um toco. Só lhe restava o busto: a última perna já se fora. Todo desmembrado. E fazer o quê?
- Até este ponto posso repensar as coisas, e depois? - falou incomodadíssimo.
            Cataguá se cortou? Quipá cortou a si mesmo? Cataguá cortou o Quipá? E toda noite não via o ladrão, por quê? Como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            Dessa desfiguração, o estrangeiro via o mundo por baixo e rasteiro, a poucos centímetros do chão, rastejando como fizeram as serpentes os caramujos as minhocas as lesmas. Teria que rastejar como uma sombra.
- Quero enterrar minhas partes - agora se preocupou.
Pronto, Quipá Cataguá tinha muita dó de si mesmo. E nem ia a lugar algum todo constrangido de ideias horríveis horripilantes horrorosas destopadas.
            - Ai meu queixo!
            Como um caracol, e sem a casa nas costas, Quipá foi se esgueirando para fora da oca. Demorou muito para rolar dois metros, e não tinha nem a prática. Ralou o peito, a barriga e o queixo. Resolveu não ir à pracinha. Do outro lado da rua era muito distante. Rolou porta afora da palhoça e ficou por aí. Rolou como um pneu furado. Rolou como um pau de massa. Erguia a cabeça de vez em quando, e espiava o entorno. Como já faziam as sucuriús as cotiaras as jararacas-da-seca. Depois logo cansou de se ralar e se jogou para trás, deitou de costas, olhou as nuvens de pó, fechou também os olhos.
- Se um caracol, ou uma lesma, podia e não se importava e não se lastimava, eu também posso e eu também não vou arrancar meus cabelos.
            Ficou ali deitado. Respirando demorado no calor como faziam os peixes fora da água. Cansado de olhar o oco nublado de vermelho. Quando cansava de um lado se virava, se revirava. Cansado de olhar o chão poeirento se virava, se revirava. Era muito incômodo mesmo, tudo disforme, tudo difícil. Era quase quase uma pedra, um toco, um pedaço de pau largado no chão.
            O oco dançava conforme os ventos, terroso e mormacento. Era um silêncio. Quase um grande engano universal. Ali onde estava atirado, o visitante ouvia muito pouco do quase nada da aldeia. E não via nada também. O mundo rasteiro era sem sorte. O horizonte a dois passos ou dois metros ou dez minutos. Nariz cheio de pó. E muitos calos no queixo.
            Depois chegou um pivete que parou na sua frente. Carregava um pedaço de pau na mão direita. O visitante mostrou a língua seca... Talvez isso tenha sido um erro. Tanto que isso não abalou o moral do trombadinha.
E o culepe até se sentiu mais confiado, chegou a cuspir de lado, coçou o meio da perna. Então, o guri sentou no chão para olhar o freguês demoradamente fixamente sono-lenta-mente. E o estrangeiro cuidou e curtiu umas dúvidas.
Uma vez ou outra o moleque bocejava. Parecia ter muita preguiça. Aí o pivete se deitou como um cachorro, a cabeça sobre as mãos, as pernas balançando. Depois o piá fingiu olhar para o outro lado. E logo quase dormia ali na espera na espia. Pouco mais reabriu os olhinhos quase fechados. E o culepe não tinha pressa.
            Quipá Cataguá, estirado aí como um pedaço de galho seco de batinga, uma pedra solta, um bagaço de coisa. Não tinha sono, queria dormir. Uma falta do que fazer. Uma alma pequena. E já-já chegaria a noite.
            - Não, não vou chegar a dezembro - concluiu.
              


domingo, 25 de junho de 2017

Um Valor Aproximado



            Tem o poema na praça do Pantheon. E o poema sobe os degraus para ver mais longe melhor e ser visto. E olha o futuro o horizonte o sol a sacada do apartamento no guarda-corpo a cunhantã Juçara Camacã debruçada.
            O poema estende o braço e encanta com seu forte apelo pictórico:
            - Tem guria que nasce com o vento nos cabelos. As ramagens da imbirapatanga batidas de vento. As penas da siricoia arrepiadas do vento. As águas do Siriji encrespadas de vento.
Eu já quis ser tudo nesta oculta estada passageira. Quis ser piloto de caça em voos rasantes barulhentos a jato no parque de Itacolomi e Bom Jesus da Lapa e Canguçu e Angicos, cantor de baladas e forrós e baiões e modões e vanerões, representante viajante em todos os quadrantes cardeais deste e outros rincões. E acima de tudo um gavião-tesoura encontrado em todo Brasil pra olhar a serra do Baitaca no último andar do mais alto dos umbuzeiros e mergulhar. Hoje em dia eu era pra ser poeta. Mas desde anteontem fui percebendo que poeta vive mareado, e bem magoado, e não papa-capim ninguém. Quero cometer meus pecados antes de sair desta para uma bem melhor.
E o poema, cabelo cortado pra frente, diz que só existe a lua as estrelas os beija-flores-de-costas-violeta a guria que passa e passa. A guria que passa e... nem te olho! A guria que passa e olha e sorri e fala com voz arrastada quase com sotaque.
Atenção senhores e senhoras passageiros! para os procedimentos de pouso autorizado dentro de alguns instantes. Dia ensolarado temperatura elevada agradecemos a preferência e tenham todos um dia agradável até logo.
Sou eu mesmo que invento que gosto muito de estudar em Joanópolis e pesquisar os rios os montes as cavernas a Garganta do Embaú. Assim, sempre viajo de barco acompanhando o rio aportando nas cidades na metrópole na megalópole. Me formarei graduarei em 20 de maio 12 horas 2021 o ano.
            O poema está sempre bonzinho e pode melhorar. O rio continua desconversando com as pedras. Na delícia na delícia igarité desce levemente a correnteza. Rio Mundaú buscando o mar do seu jeito. Na beira de Pindaré-Mirim e desde logo a praia do Rosa. O sol conversa com as cores. Avenida Antônio Dias acompanhada de calçadão e árvores em fila indiana e erva-cidreira-do-mato e pindobeira e sapucaia-branca e canudo-de-pito... Automóveis pelas ruas alucinados. O Mucura faz seus exercícios nas barras paralelas. A moça Itaverava acompanha sua mascote a gatinha Puçá para um passeio desintoxicante e relaxante. Na areia fofa o Sururu corre de pés no chão. Seu Ipojuca a cara o focinho tudo idêntico e comparável ao seu 5º avô o marquês do Recife. As irmãs Pirapora lagarteiam na areia escaldante. O Carimã vigia segura guarda a portaria do grandioso hotel Itacaré. A dona Coivara bandana no cabelo vende tucanaçu e nambu e jacu e bico-grosso e araquã num quiosque de artesanato bem concorrido.
            O poema nem só de palavras como os pássaros voa como a tarde voa como o rio voa perto da menina voa. O poema ergue os braços para atingir o azul agitar os ventos atiçar o fonema:
            - Nesse dia de sol eu estava descansando os pés na água a correnteza do rio Gualaxo do Norte tributário do rio Doce as pedras bonitas e familiares as árvores de novembro a março.
            E como poderia virar em poeta ou filósofo se não nasci à beira de uma estrada de ferro? Principalmente não nasci na rua Direita/Conde de Bobadela a mais bonita a rua em que nasceu Marília, Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Não nasci em Camaragibe em São José do Ribamar em Paulo Afonso em Russas em Arenópolis. Nem aprendi a nadar no rio Nilana. Não fico olhando a noite longe as estrelas nem sei o nome delas e suas famílias e parentes. Nem nasci para fazer rapel no abismo Anhumas em Bonito. Não creio em meninas de voz aveludada que se disfarçam de iaras de etês de martintas-pereiras. Nem curto museus nem cavernas nem sítios das preguiças-terrícolas. As minhas saudades são serenas e nem matam nem sufocam. E acho o fim do mundo data arredondada a maior bobagem que já proclamaram.
Que o poema abraça o mundo todo todos já sabem. E surpresa o rio Sirinhaém corre até a árvore ingá-doce milagre a fruta corre até a guria descoberta o vento corre até as nuvens. E o poema nem sai do lugar. E o poema precisamente ser garimpado.   
            O poema olha a palma da mão e destrata:
            - Ando estrada alagada caminho alagado água cachoeira barragem hidroelétrica de rio solto o Una.
            Já quis ser de tudo em pouco tempo ainda com esta honesta passagem. Eu quis ser jogador de futebol e jogar na Seleção e no Inter, navegar de gaiola os rios caudalosos da Amazônia, morar em Belém pelo menos dois ou três anos depois São Luís e Mulungu do Morro e Tocos do Moji e Silveiras e parque indígena do Xingu e ilha Urucuri. Hoje em dia eu era pra ser filósofo. Mas para ver filosofias tinha que pensar grego latim sânscrito mandarim. Queria ser pensador só para morar num mosteiro antigo sem passar fome ou frio no alto de um rochedo isolado isso mesmo o parque arqueológico Morro da Queimada.
            O poema lá vem vindo as nuvens calmas e algumas os pássaros e aves e as graúnas as asas-brancas as arapongas os chincoãs-pequenos as acauãs. O poema gosta muito da cidade natal Córrego do Bom Jesus e prefere andar a pé e contar as ladeiras e tocar as tipuanas as maniçobas-do-remanso as mungubeiras.
            Pra confessar nem me iludo com essas milhares milhagens que dizem fatais de olhos verdes ou no mínimo azuis. Elas podem iludir a tantos, a mim jamais. Não as encaro, não as olho nos olhos. Nunca as amaria eternamente. Elas passam como eu passo. A história conta e se modifica, um conto aumenta um porto.
            O poema concorda e diz:
            - Aproveite quando o tempo e desça quanto o rio.
            E Itabirito, conhecida no tempo antigo como Itabira do Campo, foi elevada até a categoria de cidade em IX, VI, MCMXXXV. Tem atualmente 33 mil habitantes e banhada pelo rio Persinunga e o pastel de angu é patrimônio cultural com direito a uma festa na praça dos Inconfidentes. O visitante nem pode deixar de pedir que lhe mostrem os antigos santos-de-roca e também especialmente o Santo Antônio taumaturgo feito em pedra tapanhoacanga todos quantos na capela do Padre Faria. Distante 45 quilômetros de Rio Acima (o sítio do encanto) e 70 quilômetros de Nova Lima (onde a manhã é sempre mais leve) e 114 quilômetros de São Lourenço da Mata (início do poeta Carlos Pena Filho).
            O poema percebe tudo que se move. Os peixes brilham nadando no ar do ribeiro Tripuí, as ilhas são sempre feitas de sol, as torres da catedral Sé de Olinda voam com asas nos calcanhares, a praia branca do rio das Velhas, visita em cores panorâmica do caminho indígena do Itupava. O poema quer morar um dia uma vez uma dádiva em São José do Egito.
Veja a previsão completa e a aventura que se pode alcançar e assim deixe seu trabalho mais suave mais parecido mais Congonhas mais Palmares mais Cocal de Telha mais rio Formoso mais praia do Paiva mais rua Bispo Coutinho.
            Tem o poema na praça Caquende. E repara olhando os balanços as gangorras os escorregadores as casinhas de criança passeia pelaí anota coisas no caderninho o andorinhão-de-coleira-falha se banhando na terra do grotão os cães mascotes babando e as pessoas circulando como se nada nada estivesse acontecendo. O poema nem descansa um só minuto e faz surpresa espacial para a namorada no aniversário.
            Concorda comigo o dito poema. O rio sempre lava a roupa na cachoeira clara, as árvores verdes das moças de lábios de frutas, o peixe perto do sol brilhante, o sabiá-da-mata reparte os ventos nas asas.
            O poema enfrenta o dia a dia paralelepipóide labiríntico. Doces de abóbora pra quem gosta de açaí, sopro quente de vento nordeste caindo a tarde, avião arrastando sombra no chão, árvores descabeladas o caju-do-campo o espinho-de-santo-antônio o merecém a fava-de-bolota, famílias linguísticas indígenas os caribe os aruaque os macrotupi os macrojê, a rua longa Jaguaraba com outras transversais, a mina de carros e pedestres e ruídos e sinais, a mulher que veio da cidade Chã Grande distante vender os grampos de pressão alfinete.
Celebra o poema milagres à primeira vista luz da manhã o arvoredo gorjeando sem parar ouro branco ouro preto ouro podre ouro fino sobrevoando rio Jaguaribe e lagoa Ibiraquera voos de chegar e de sair aeroporto internacional (Recife) Guararapes/Gilberto Freyre voos abertos para pouso e decolagem. Coisas que os olhos teimam em olhar e descobrir novidades riquezas milagres e capuxus e jaraquis e tesourões e cuícas-lanosas e jacurus. O distrito de São Luiz Gonzaga ou seja São Lourenço das Missões nasceu de São Lourenço Mártir.
            E o poema pode tudo e ele mesmo já se contradiz:
- Olhem! Que o céu tem praias de areias azuis.
Satisfeitíssimo o poema acompanha a guria que passa mais seu bicho de estimação. E ela mesma nem economiza olhos para seu cachorrinho sem guia. A guria tongalante para. O cachorrinho culepe para. A guria prossegue e o cãozinho continua e nem dão bola pra ninguém.
Quando o poema olha mais um pouco e seca. A guria anda e o cãozinho acompanha. A guria entra na loja Bodoquena o cãozinho aguarda fora e observa. A guria chega de volta com sanduíche Bauru. E sai andando, e vai saltitando atrás. O cachorrinho late e pula espetacularmente. A guria reparte o Bauru.  
            Nunca por mais que tento e tento não consigo, e levar uma sorte de contemplativo. E isso é essencial para um poeta ou filósofo. E os sonhadores se contentam com pouco, um mato de oitizeiros e mutambas e bicuíbas-brancas e chapéus-de-sol, uma canoa abandonada na paisagem surreal, uma ecologia de água cristalina de rio Jauaperi, descansar do sol forte na capela de São Gonçalo do Amarante, etc., coisas simples que explicam, segundo eles, o mistério de D e arredores. Quando acreditam. Quando querem acreditar. E acho a origem anfíbia a maior bobagem que já atocharam.
            O poema fala de pedras com as árvores com as juremas-da-pedra com a ilha do Maroto com as abelhamirins:
            - Estou passando e olho o mato o caminho a trilha no meio do mato agora mesmo vejo o barranco desbarrancar e a árvore antiga atingida pitanga-traíra cair de madura.
            O poema nunca desaparece. O calor das árvores com amarelos azuis verdes brancos. E aparecem coisas as árvores as aves o rio as plantações de milho as uruçus os japins os ferreiros os galos-de-campina-do-oeste, e os caramurus os chimangos os jurujubas.
            Escuta o poema com viola pífaro rabeca berimbau zabumba sanfona pandeiro ganzá. Com orquestra no teatro de cortina e acústica e pintura de cenário. Com palavras gestos e artimanhas. Poema com unhas e dentes e presas. Poema aberto estendido espalmado cruz oriental os braços os pés a inscrição (inri) abraços aconchegantes tranquilos certos para a lua a rua a menina lilás.
            Tem o poema na praça do Arsenal da Marinha e o Paço do Frevo. A chuva nasce no mar, o vento nasce no mar, o barco a vela nasce no mar, a praia da Ponta da Areia nasce no mar. O poema bate rebate os pés do martelo-agalopado do coco do quadrão do mourão. O poema e as namoradas por onde passou rapidamente e serra do Brigadeiro e morro do Anhangava e Aliança e Paranaiguara e São José do Inhacorá e puramente simplesmente esquecidas.
            O poema nem é mágico nem tolo nem bêbado nem mentiroso. O poema nem é tudo e nem coisa nenhuma. E o procura palavras novas nos rios nos vales nas cidades nas árvores nos pássaros que passam passarinhos pitiguaris e japuaçus e tico-ticos-do-biri e guriatãs.
            E no térreo das contas ser poeta ou filósofo é o fim da picada não é ser gente nem ser alguém nem ser ninguém. O nem é conhecido. O poeta é uma estátua. E olha a montanha o longe a serra de Jabitacá. Não deixa seguidores de suicídio e termina onde começou. O poeta já passou a ponte do Calixto? E confessa a ideia macaca a maior bobagem já desinformada.
            Cedo cedo o poema macrobiótico já se encontra caminhante na rua Augusto dos Anjos pela cidade Morro Grande e seu labirinto. E conta árvores e ouve pássaros e encontra cachorros passeando com seus donos e bom-dia! pela parte da manhã. Todas as ruas dignas de atenção.  
            O poema para tudo que veio fazer e diz que diz:
            - Quem quiser participar da procissão da campanha da marcha pela paz pode levar seu próprio lanche. Numa poética desde os antigos. Num cenário digno de pintura.
           

            

domingo, 18 de junho de 2017

Japacanim Como Graceja

         



         Os raios do sol da lua dos pássaros pousam nos cabelos das trigurias. Daí a pouco elas despertam. E abrem a janela do pátio do juazeiro da cajazeira da lavadeira-de-cabeça-branca da alma-do-outro-mundo da amendoeirana do alferes da turueí da serra do papagaio do ouriço-caixeiro... Uma duas três e cunhantã de valor e menina estudiosa e garota ajuizada. Incêndios músicas verdes de olhos que se acendem a partir do querer.
         - Tipo a primeira vez que vi um trem tipo andei de trem tipo vi o mar tipo uma praia São Marcos tipo um navio - conversa a natural do campo de Diauarum em o São Félix do Xingu.
Boralá, eu aqui mesmo sentado olhando bombeando a rua acomodado no bar Urupema diante da avenida Afonso Pena e em plena Belô porque é essa a lida que pedi e esperei e de me beliscar...
         Pois a folhagem é verde, a chuva chove, a paisagem é cachoeira Gorgulho do Santo Antônio.
         A décima terceira hora de junho do sol e pronto na rua do Sol lá em Olinda.
         Na montanha Boa Vista o planalto da Borborema em Brejo da Madre de Deus.
Quem são esses ali o Moxotó o Pajeú e o Jaguari?
- Melhorei de qualidade quando visitei 3 cidades: Rubineia, Caçu e Tamandaré. Aqui! - me diz a pintassilgo.
         As 3 beldades que mais idolatro são praticamente iguais quase que a mesma pessoa parecidas em tudo. O porte é o mesmo, elegantes, finas de corpo, alma de uma manhã de sol, humor de passarinho no pasto, riacho limpo saindo de entre os dentes. Suaves que posso beijar, e colocar na cama na sede na fome. Os cabelos têm uma ruiva espetadinhos com franja rebelde caída sobre os olhos, a outra cabelo negro liso lustrosos até a cintura, a de cabelo curto castanhos e com ondas sendo a terceira.
         - Quem de nós vai ser árvore arataciú ou planta erva-botão? - deixa a olhos originais de tribo aruá.
         O dia chuvoso, chove a semana toda, mas na quinta-feira vai parar. Alguns já pensam que nunca irá parar. Outros sabem que parará logo em breve.
         Noite fria então de noite vamos comer sopa na casa de alguém.
         O pico do Itaguaré cruz missioneira o pico da Pedra da Mina cruz de Santiago o pico do Sol cruz de tau.
         São as 3 manias estrelas do céu do mar de Campo Maior? Caso são essas que vejo no céu no mar em Irecê. E as beijo nas noites e manhãs e tardes límpidas. Uma ao lado da outra comportadas conformadas contadas. Quanto se conhecem, e são amisíssimas. Daqui de baixo, do beco, as desejo juntas e resplandecentes. Tão próximas e diamantes e irmãs... Já sonho tudo que posso. Todo dia de noite dou meu treino por elas.
         - Quanto tempo você acha quais são as melhores invenção dos homens? - uma delas a da esquerda me ilumina.
         Sempre assim umas gatas felinas minas assim, pã! pã! pã!... (estou descendo os degraus) e desde uns anos atrás, tudo em cima e agora aqui pelos 20 ou 21, né, meu?!
         É a primeira vez que confesso chegar até a lua a rua tua.
         - Tipo quem fala de sol lá fora tipo dentro de casa? - conta a olhos originais de tribo jamamadi.
         Inocente ou culpado? Mentiroso ou sincero?
Assim quando por fim de repente em menos tempo do que seria de reparar, a lua retorna detrás da pindobeira. E sobe a lua puxando atriz muitas estrelas e morcegos e grilos e vaga-lumes e o regougar das corujas-pretas.
         - A primeira vez que viajei um dia inteiro para três dias de férias. Aqui! - fala a original de São Martinho capital dos grandes lagos e da pesca do tucunaré-paca.  
         Nem sei por quê, meus deuses! perco esses meus tesouros. Tão puros tão repletos tão ricos tão completos tão estelares tão brinquedos, e tão meus. São de diferentes tempos e lugares e conversas. Em qualquer noite lugar que eu vá, incrível não! as vejo de mãos dadas lado a lado em fila amiguíssimas. Qualidade poucas e raras vezes igualada alcançada reverenciada.
         Então não quer?! As jangadas e velas vermelhas amarelas verdes essas cores com nomes próprios e Picuí e Ipuiuna e Tatuí.
- Passei a me conhecer melhor após visitar 3 templos consagrados: igreja São Pedro Apóstolo em Olinda, sítio arqueológico Ouro Verde no Paraná e gruta da Torrinha na Bahia - me coloca a camaxirra.        
         Que o pampa habita gliptodonte, toxodonte, mastodonte. O rio Sete de Setembro passa na serra do Cachimbo e perto de Crisólita. Mais mais que o diadema da aurora. O maior município do mundo fica em Altamira no Amapá. Em Jaboatão dos Guararapes a praia de Candeias com extensão de 3.5km trechos quebrados e trechos ondulados de frente para a ilha do Amor as dunas com áreas de esportes avenida Conselheiro Aguiar ciclovia passarela dos desfiles do maracatu o calçadão com quiosques bares restaurantes boates.
         - Tipo Santo Ângelo tipo Anjo Custódio das Missões tipo Sant’Angel da Guarda tipo beirou os 8 mil habitantes no seu apogeu tipo bem antes da guerra guaranítica por volta de 1756 tipo ao lado do arroio Itaquarinchim - brilha a do meio.
         O sol sempre capaz, e até de deuses nas maiores façanhas, que é useiro e vezeiro.
         E quando se perde se aprende e se cresce quando se ganha.
         Qual a melhor invenção? E aí você pode dividir a humanidade em antes e depois:
         Não modifico. Não as esqueço. São meus primores para sempre, e perdidos. Quer que eu fale os seus nomes verdadeiros? São as 3 estrelas consteladas.
         - Esta freijó árvore estava assim ainda ontem. Aqui! - acende a da direita.
         As árvores dançam com o vento, já o sol no seu reino, o rio Cantu no escaninho da estrada com Tocantínea, a ave que procura a cor da lua, as tartarugas em local no Tabuleiro do Embaubal, a pedra pensativa isolada lograda na serra da Mantiqueira...
         - Tipo mudei da imbiriba pra água tipo quando encontrei 3 rios incomparáveis: tipo rio Pirapama tipo rio Claro tipo rio Curuá - confidencia a pixoxó.
         Agora, daqui pra não sei até quando, onde estarei e como, não quero conhecer outras melenas do céu do oceano de Arantina. Três já são mais ou menos que suficientes ótimas excelentes. E como elas e seres raros, não existe outra. Que apenas me orientem, sigo meu curso de rio anônimo, lento, de dia de noite, sei que me olham, que vivem por mim no céu na praia em a Lagoa Nova. No céu no mar em Queluz os seus lugares delas, e não o meu.
         E Guaraqueçaba lugar de dormir dos guarás. Mundo a ver com a palavra: marinando: temperando, amaciando, cevando. Temos muitas plantas de mãos abertas espalmadas, cruz de São Damião, cruz grega, cruz egípcia. Rua historiador Pereira da Costa em Cabo de Santo Agostinho.
         - A primeira vez que subi numa árvore a mamoneira-miúda - quem fala a nativa de Santa Fé do Sul capital das flores e da coroa-de-frade.
         Avoado, eu sei, nem sabe o que está perto ou longe, eu sei, também a fantasia e o sonho, eu sei.
         E cada lado do corpo o seu braço.
         - Capital do maturi e da begônia-sangue que cidade estou reprogramando? Aqui! - comunica a olhos originais da tribo caeté. 
         Uma Pessoa qualquer pode levar um Pensamento, de resto compreensível, a uma involuntária Notícia enquanto escuta uma Distração.
         Então, eu só espero mais cinco minutos.
Depois, gentilmente, corto a cabeça.
        


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Contos de Santa Luzia (23)


                                               


            Uns vinte vinte e três vinte e seis camaradas barbudos, sem mulher alguma à vista, pararam um dia ali na beira do valão. E olharam olharam lá embaixo a voçoroca do rio extinto. Uns bombearam mais que os outros. Uns sacanearam e outros nem bola. Uns puxaram e acenderam cigarro.
            Depois, dia seguinte, num outro dia, quarta-feira à tarde, os mesmos cabras já foram erguendo cinco ou seis gabiotos de costaneiras e de taquaras cobertos de folhas secas de palmeiras uruás. Ouviram rádio a pilha, falaram alto, relincharam, pregaram caibros e sarrafos e mata-juntas.
            Na outra semana, começo de outubro, assim como assim, começaram a esticar a ponte sobre o grotão. Bateram estacas, plantaram paus e pedras, contaram bravatas, fizeram argamassa, empurraram carrinho de mão com pneu de câmera.
            Um desses homens da ponte tinha uma cadelinha chamada Cuíra. E Cuíra era uma ruiva, era uma esquiva, uma assustadiça, uma magricela e árida cachorrinha vira-lata.
            Os cupinchas lidaram com caminhões e retroescavadeiras e tombeiras e tratores de esteira lagarta que, grandões fortões, fizeram um barulhão soprando fumaça azul no ar poeirento. Os guaxos falaram de mulheres solteiras, falaram de futebol, rincharam muito e cuspiram pro lado. Imprecaram contra o calor impossível, discutiram o por acaso dum piquete, jogaram baralho e morderam palitos de fósforo.
            A obra talvez fosse durar de seis a doze meses, com direito a mais cinco caso os pagamentos atrasassem. Um calor enorme sempre presente. Nem chovia há decênios. O mormaço sufocante de todos os dias. O oco sempre enfarruscado por nuvens de carvão, luz débil e amarga. Poeira do deserto.
            Um dia Cuíra foi até a capoeira e se viu rodeada de cães famigerados. Ficou alerta e quis se adiantar se escafeder se mandar. Os guaipecas foram atrás. Cuíra rosnou e não adiantou nada. Cuíra, então, correu para o deserto de terra vermelha.
            O faro da cadela falhou um tanto por causa do vento contra e a poeira calcinada. Mas suas oiças responderam atiçadas e como nunca.
Então, pouco mais tarde, foi que ela ouviu, parou e ficou ligada. Eram os cães no seu rastro e conversando e proseando e desabafando. Uns cinco ou seis cães caçadores perdigueiros. E eles diziam um pro outro, ela ouvindo, meio longe dela, ela ouviu:
            - Vamo pegá-la...
            - Vamo fazê o seguinte, tu-tu-tu!...
            - Vamo tomá-la...
            - Vamo estrachinhá-la (sic)...
            - Vamo derrubá-la...
            - Vamo comê-la...
            - Vamo dividi-la...
            E logo eles a alcançaram a dominaram a grampearam com unhas e dentes. Ela rosnou muito, mas não adiantou nada. Ela cuinchou barbaridade, porém nem resolveu nada. Cada cachorro daqueles chegou por cima ou por baixo e, tu-tu-tu!... Ela tartamudeou bastante, entretanto não comprometeu nada. E foi o que restou e o que sobrou.
            E a cadela ficou dias e dias, embora, rodeada de cães arpoadores de língua de fora baba grossa e olhar fingido. Então foi um incerto dia, os cachorros ficaram dormindo até mais tarde na areia aquecida, ela se ergueu e se mandou. Fincou no rumo do vermelho terrão. Assim mesmo, automaticamente mais perdida que cega em tiroteio. Nem se dando conta de nada, e foi andando andando...
            A desavisada cadela Cuíra desertou, porém assim, focinhando o ar poeirento o ambiente infernal. Era mesmo uma cadela sem eira nem beira nem coleira. Achou falta de barulhos. Pulou à vontade, tentou andar nas patas traseiras, deu voltas, deu cambalhotas e rolou no chão.
E Cuíra teve coragem de se mandar sozinha pelo deserto de terra incendiada. Ondas de poeira avermelhada. O oco sempre encoberto e assombrado. E foi o que fez e nem poderia dizer o que mais seria justo lhe acontecer.
            Ainda em uma ocasião, Cuíra ouviu os cães latindo nas suas pegadas. Os guaipecas flibusteiros sempre determinados e incansáveis. Ela continuou sem parada sem arrego pelo deserto impossível. E ganiu uma vez que outra para si mesma:
            - Nem espero nada de ninguém. Jamais nunca nem.
            Umas três semanas e mais a tarde daquele dia, que dia? muito quente. Toda mole, desencontrada, desconfiada, estracinhada. Onde estava? No meio do nada vermelho e cavando. Parou e procurou um caminho. Sobrou ali perdida e mais outro tanto. E se sabe lá o que mais!
O astro espiando envolto em nuvens de cinzas. Nada sobreviveu. O vento empurrando areia pra frente pra trás e em volta. Nem chovia havia dezenas de milênios.
Ela abriu as orelhas, empinou o focinho, provou a poeira, ficou preocupada. O seu corpo lhe participou algumas reações estranhas, umas ânsias, umas pontadas, uns calafrios, uns formigamentos, uns enjoos intermitentes. Sacis interromperam seus estudos para sair na sua perseguição.
E Cuíra tentou buscar a cola, a ponta da cauda para sugar, mas o rabo estava muito longe. Não ficou nada para fazer ou desfazer. Se sentiu fora do tempo, longe no espaço e disse, bufando para si mesma:
            - Agora sim estou terminada... e mais ou menos... muito mal das pernas.  
            A voz de Cuíra arranhou diferente da noite fria para o dia requentado caloroso. Uma rouquidão de causar desconforto constrangimento preocupação. Se sentiu distante dividida recortada em partes muitas partes como em quebra-cabeça. Interessada e desinteressada, interessante e desinteressante. Foi gatinhando se arrastando se acovardando para a touceira seca mais ali.
            Ela mesma já nem mais se entendendo naquela passagem naquele transe. O calor exagerado exasperante de derreter o lombo e os cornos. E longos dias insalubres irrespiráveis. Não chovia desde sempre. Apenas o vento com carregadas de areia. Tucurus vazios saltando entre arbustos mortos com pedras atoladas na areia. País das pedras pedregulho cascalho.
            Cuíra olhou o alto e vislumbrou, distante empanada pelas nuvens de poeira, uma estrela decadente. Era imposição? A noite chegando mais. Viu outras luzinhas piscando. Esperou mais. Era delírio? Um vento provocante atiçando ondas de areia marrom.
            Noite mal-assombrada, a cadela restou encolhida enrodilhada em si mesma. E muito febril, tiritando de frio, se sentindo bastante estranha, dor de cabeça, cansada, mal podendo abrir os olhos doloridos. Ela mesma sem saber o que esperar. A noite penetrou friinha mesmo muito fria. Não comera os meses todos e não tinha fome. Não bebera os meses todos e tinha muita sede. O seu corpo estranho estranhíssimo. A garganta cheia de poeira. Algo diferente e inédito já ia lhe acontecer por dentro, por acaso, bem lá por dentro, querendo ou não saltar pra fora. Coisa de meia hora. Por isso se deitou ali, se preparou para o acontecimento, para o que desse e viesse, fosse o que fosse. Deitou na poeira e pernas sobre pernas. Esperando precariamente acontecer o que teria de suceder. Um tempo mais que se foi, e nem pensou em latir.
            E se encontrou naquele lugar isolado no capoeirão, no seco da poeira vermelha, do lado do pedregulho. E ali enovelada recolhida em si mesma em si mesma. O corpo tremendo. E daria cria. Os filhotes já chutaram assim assim dentro da sua barriga. Foram muitos latidos e todos ao mesmo tempo. Alguns transtornos de praxe. E a vira-lata deu prole.
            Os filhotinhos foram aparecendo lançados para o chão de terra solta. A cadela procurou recolhê-los, recuperá-los, limpá-los, alisá-los, conhecê-los, admirá-los com seus olhos vesgos e vagos. Muitas coisas na cabeça: exausta, zonza, aérea, boca seca, curiosa, assombrada.
            Os cusquinhos já imediatamente se arrastaram até os seios da mãe, todos cegos, tontos, idiotas. Ela lambeu as crias e sem interesse para mais nada. Pois nem sentia fome, e muito ardia de sede. A noite terminando de rolar seu pião sem lua sem estrelas no oco assombrado pelo vento terroso. Por detrás de dunas e morrinhos, o forno já vinha cedo relampear o seu fogo inclemente, vá lá!
            Um e outro filhotes morderam esganados os mamilos da mãe. Os droguinhas ganiram, brigaram entre si em cabeçadas, roncos, arranhões, como se já no ninho formassem as características de bandidos. Deram coices, chocalharam, miaram, choraram, mordiscaram.
A cadela Cuíra nem conseguiu as forças para educá-los. O mundo rodou suas horas e dias. Mais ou menos os perdidos e com a família no meio do nada. O tempo e o deserto questionaram com a paciência, vá lá!
            As criaturas acordaram umas coisinhas muito sem noção. Bolinhas cheias de raiva. Os tipinhos se apegaram ao mundo sem as unhas e sem os dentes. Por quê? Focinhos sujos de pó vermelho e já resolvidos a enfrentar os desafios. Discutiram por tudo e por nada. Urgentes. Olhos olhares de famintos esfaimados ferozes. Impositivos. Programados para roer o osso, esconder o osso, brigar por um osso.
            Filhotes com pelos diferentes, como se tivessem a artimanha de muitos pais. Foram muito mal-educados, uta! Barulhentos e provocadores e impertinentes e neurastênicos. Andaram pela macega seca aos tombos, aos berros, aos xingos, aos trancos e barrancos. Titubearam por aí, farejando ou brigando pela pedrinha encontrada, já se pegando, um agredindo o outro, um roubando do irmão. O tempo ausente e os dias superquentes.
            Os jovenzinhos impertinentes, sem nome, macios, desamparados de pai, já deram os primeiros passos de olhos abertos. Aventuraram, querendo ver além do ninho que a mãe improvisara na poeira do capoeirão. Nem chovia há seis anos.
            E lá foi o primeiro miudinho. Um pretinho com manchas vermelhas aqui e ali. Sumiu no meio das macegas esturricadas, ex-línguas-de-vaca, ex-guanxumas, ex-falsos-paratudos... Se perdeu na poeira. Mussitou, miou, mas já era tarde. Foi andando sem rumo, tropeçando, dando voltas. O caminho sofria um aclivezinho. Foi em frente e subindo. O calor sufocante, as pedras quentes, a terra solta e acabada. Sentiu na alma umas comichões de andar, andar... Um vento levantando a mesma poeira vermelha. Se viu sozinho e desimportante, miou, acoou, gemeu... Conferiu o entorno. Não soube o que querer, não soube o que procurar, não soube o que pensar. Seguiu um rumo atraído belo brilho das pedras. Chegou no alto do morrinho. Descobriu moedas de ouro ali pelo chão. E o droguinha foi e garfou uma das moedas de ouro com cara de Imperador do Brasil. Assim resolveu brincar, mastigar, sempre a cauda balançando, tentando instintivamente engolir o dinheiro de ouro achado.
            Foi aí que um pivete da vila Santa Luzia conheceu o cachorrinho extraviado. E o pixote berrou para seus parceiros de artimanhas:
            - Ei, chiruzada medonha e danada! Um Bauru vem vindo na minha e até sacudindo as orelhas!
            Cuíra, a boca cheia entupida de poeira, tossiu tossiu... Uma dor de cabeça, uma fraqueza nas pernas, e tudo mais. E tremeu geral e total. Penava com fortes dores nas partes e esperava por um calmante. Sem acreditar que pudesse se erguer, continuou lambendo as patas as pedras as folhas secas ao alcance.
            O segundo filhotinho se arriscou e foi foi, rumou para o sul. Passou as macegas secas, a ex-tucumãi-da-terra-firme, caminhou pelo capoeirão esterilizado, foi deixando marcas na poeira. Começou a descer o morrinho, descer. Viu umas luzinhas pequeninas brilhar no chão e achou interessante. Alguns raios uv queimavam o lombinho. No traçado ainda um tronco podre barrou o caminho. Demorou tentando escalá-lo. Demorou tentando roê-lo. Depois, sem entender de que jeito, deu a volta e prosseguiu. Negociou umas moedas de ouro com o monte de terra seca, mexeu, lambeu, remexeu, mordeu, enterrou o que já estava quase enterrado. Continuou procurando e cheirando os gravetos do caminho, tão fascinado. De súbito olhou o panorama muito baixo, latiu, ciciou, miou, sentiu uma saudade... e continuou. Mas não encontrou a mãe em nada. Achou umas sombras se mexendo ali na frente e pensou que eram irmãos, miou, chirriou...
Por desconsideração do acaso, por acaso, foi visto pelo luziense piá arteiro:
            - Olá, tiriricas! Um Bauru vem de encontro ao degas e farejando em tudo, hein?!
            A cadela Cuíra tentou olhar o oco avermelhado. Os olhos logo logo cansaram. As partes do corpo que nem mais respondiam desinteressadas. Também!, nem há dois séculos sem chuva. 
            O terceiro pouca-sombra seguiu farejando o segundo. Viu algo de um reflexo no alto da duna e pensou que era tudo que queria. Descobriu outros brilhos e mais pedras, coisas diferentes, atrativas, chamativas, quentes, presentes. E foi subindo a encosta do morrinho. Nem ligava para mais nada. Foi indo e aprendendo a cheirar tudo. E ele se sentiu outro, se sentiu excitado, se sentiu maior, se sentiu super. Sentiu coisas difíceis de explicar. Enxergou o brilho no oco, achou importante e miou, rosnou... Depois chegou num determinado lugar e foi cheirando moedas de ouro, das grandes, das pesadas, das desenhadas, das cunhadas pelo Império do Brasil. Achou tudo possível. Decidiu enterrá-las como tesouro seu. Então, com as patas fraquinhas, fez buraco e com o focinho empurrou a terra seca de volta. Aí mesmo cansou de trabalhar e se sentou. Teve tempo e sossego para olhar o ali por perto. Descansado, resolveu o quê? E começou a lutar contra uma pedrinha rolante. A pedra não se cansava rolava fugia, o que lhe dava ganas. Espiou a pedrinha e a pedrinha se fingindo de morta. Se encararam se prepararam para um duelo, como as últimas coisas importantes do planeta. Depois, voltaram a rolar e a se agarrar.
            Um pixotinho do arraial Santa Luzia estava ali desocupado vadiando procurando restos de nada e o caçou. Foram os gritos repercutidos em eco:
            - U-huu!... seus merdinhas secas. É Bauru! Bauru!...
            Cuíra soçobrou assim muito fraquinha e desanimada. Faminta sedenta de dias, já sonhara com isso delirara com aquilo. O calor muito forte no mundo todo. Meses sem chuva. Não chovia há dezenas de anos luz. As ideias de Cuíra só fizeram, então, se estreitar mais e mais dentro do círculo de fogo da dor de cabeça.
            O quarto e último rebento também quis deixar a família e foi andando e deixou mesmo tudo para trás. O tipinho acinzentado, pequeno, tímido, sumiu entre a macega falecida, a barba-de-bode seca, se desorientando na capoeira esturricada. Foi indo como por instinto, curioso, imantado pelas pedras brilhantes. Andou no rumo do leste. Latiu e resmoneou, parou e viu paisagens rasteiras e secas, olhou coisas e coisas soltas pela caatinga. Discutiu pormenores com um pedaço de pau. Depois, balançou o corpo como para tirar a canseira e seguiu o chamado das pedras brilhantes. Chegou e não chegou. Farejou. Farejou por ali tudo, miou, ronronou... Nem entendia dizer o que farejava. Descobriu uma ou duas moedas de ouro. Enterrou algumas moedas de ouro com cara de Imperador Dom Pedro II. Parou e nem atinou mais o que fazer. Esperou alguma coisa, piou, bufou... As pernas mais curtas que o caminho que o caminhar.
E foi que um piazinho o descobriu no meio da capoeira caída entre as pedras derretidas diante dos tucurupucas depredados:
            - Oi, seus culepes! Achei achei um Bauru todo todo passeador!
            E Cuíra, cachorrinha muito séria, tonta de sono e fadiga, procurou a rua Única da vila de Santa Luzia. Trançou perninhas pela rua poeirenta e britada até que os moleques a encontraram. Os pixotes foram de encontro à forasteira e ela se viu cercada. Deitou no chão, rabo entre as pernas, e rosnou resmungou tossiu, trocou orelhas... E ela se recolheu como um extinto tatuzinho-de-jardim. A vira-latinha nem tentou mais fugir. Nem pensamento algum. Não procurou se envolver em brigas e correrias e fuzarcas.
O mundo bafando como uma fornalha atiçada. O arraial de Santa Luzia reunido, os aldeões as aldeãs os aldeõezinhos as aldeãzinhas todos juntos, e olhando a marmitinha. Uma aldeia sem começo sem meio e sem fim.
E o primeiro dia, e o dia a dia, e o outro dia, e o último dia.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

Contos de Santa Luzia (11)



                                                           


            A aldeia de Santa Luzia levou uma pedrada e tanto. A pedrada quase a acertou em cheio, foi por pouco, caiu ali no capoeirão, na beiradinha do povoadinho, incendiando a capoeira. Todo o seco capoeiral pegou fogo. E parecia tudo surreal, ramos secos de capoeira crepitando pedras estalando e uma fornalha queimando.
E a pedra veio do espaço atravessando mistérios inéditos e profundos. Cruzou veloz o universo embolada em fogo e caiu ali, se fazendo de morta e pegando fogo esfumaçando chiando na fervura se cozinhando por fora e por dentro. Os aldeões e as aldeãs cuidaram uma distância olhos esbugalhados pelos arrepiados.
- Era só o que faltava, tá!
- Daqui a pouco já vem uma explosão, quer ver?!
            Imediatamente chegaram à vilinha cinco forasteiros atraídos pelo fogaréu do fenômeno promessa de ouro cheiro de carniça. Cinco maus elementos todos ávidos por aventuras, encrencas, resultados práticos e recompensadores. Eram cinco dentes-secos, uta! se eram, cinco cascas-grossas, cinco matadores impiedosos, os tais e quais: o Mata-Piolho, o Mata-Bolo, o Mata-Pai, o Mata-Vizinho e o Mata-Curumim.
Com idades que variavam entre vinte e vinte e nove. Com crimes hediondos nas costas que variavam de quinze a trinta e dois óbitos. Penas entre cento e dez a mil trezentos e quarenta anos. Doutores formados, e fugidos, nos melhores presídios universitários federais. Donos todos, então, de currículo inquestionável, respeitável, longo e pesado. Cada um precisaria de carrinho de mão para mover sua obra calhamaçosa.
            Os cinco cramulhões chegaram juntos, montados em motos poeirentas, barulhentas, cento e vinte e cinco cilindradas. Armados até os dentes de armas brancas e de fogo trançados de cartucheiras, fuzil a tiracolo adaga na cinta. Desembarcaram, apearam, desmontaram, bolearam a perna já ali no centro do estrago. Rodearam a gosma viscosa e fumegante. Olharam em volta pelo capoeirão. Em o geral não sabiam o que fazer ou desfazer. O lugar era todo desassistido. Lugar de nada. Desertão de terra vermelha e capoeira seca. Nem chovia há cinco anos.
Um dos se acocorou e fumou seu cigarro de maconha; outro mijou ali mesmo enquanto olhava o céu sujo de poeira; dois deles se sentaram de braços cruzados, cada um no selim da sua motoca, olhando para o fogo ardido da coisa espacial; e o último parou em pé como um boneco inflável de posto de gasolina um x de pernas abertas e braços ao alto.
            - Terá ouro, prata ou bronze?
            - Dizem que pode haver ouro, e até diamante.
            - Mas está em magma ardido.
            - Temos tempo...
            - Se chovesse pelo menos...
            - Que cheiro gozado tem essa joça.
            Havia dois anos que não chovia. Mormaço impossível de abril ou maio. Não chovia mesmo há séculos e séculos. O capoeirão requeimado e coberto de pó vermelho. Pelo chão rasteiro guanxumas esturricadas, barbas-de-bode queimadas, chapéus-de-sol-de-sapo petrificados, macegas incineradas. Plantação de pedras, pedregulho e tucurus desabitados. Um calorão que não dava para suportar.
            Os motoqueiros da fuzarca em suas máquinas endiabradas foram até a aldeia. Subiram e desceram a única rua. Fizeram barulho e levantaram poeira e brita. Os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos escondidos e irritados com os escapamentos abertos o vaivém das medonhas. Aí, os invasores pararam na frente do ex-açougue. Pixotes de pés descalços, magros, pilungos, comendo ranho, brincavam de se arrastar ali pela poeira na área da pracinha. A gangue de mão cheia entrou no ex-açougue fazer o quê? Mata-Vizinho perguntou ao ex-açougueiro:
            - Então, onde temos aí uma pousada?
            - Pousada? Não, não existem pousadas, nem casas de pensão, nem quartos para alugar, nem ranchos para pernoitar, nem tavernas para beber, nem boates para dançar, nem armazéns para comprar mantimentos, nem etc.
            Os cavaleiros montaram nas endiabradas e saíram acelerando nervosos, levantando poeira e espirrando pedrinhas na derrapada. Andaram pela rua como idiotas completos e tontos e encourados. Foram sossegar, em o após, na calçada de laje da capela. Mata-Bolo tinha a sua ideia pontiaguda:
            - Então. Então, nóis aluga uma choça.
            - Até que a goma esfrie.
            - Eu tô é a fim de atirar em gente correndo.
            - Por enquanto é sufi uma palhoça pra passar a noite. Ou as noites.
            - É pra já.
            - Só se for pra ontem.
            - Alvejei aquela lá, ó!...
            - É a menos ruim das piores, é.
            Montaram nos cavalos de aço e rumaram para a oca indigitada. Expulsaram do gabioto os seus fracassados habitantes. Com exceção da mulher que iria fazer a faxina e de graça. E os malucos se instalaram com folga. As paredes da palhoça eram de barro trazido de longe, o chão de terra batida e o telhado de folhas secas de palmeira buriti. E cada um dos cinco ventoinhas já adivinhou o próprio canto para se acomodar. Mata-Pai, chamou chamou:
            - Ei! Vamo jogá bisca ou menos copa?
            Mata-Bolo, Mata-Vizinho, Mata-Curumim e Mata-Pai se sentaram em volta da mesa para o jogo de cartas. Mata-Piolho ficou de fora, talvez peruando, pra cá e pra lá espreitando o jogo dos outros. E, diante da janela aberta, olhando lá pra fora para o capoeirão para o tumulto do oco cinzento, uma hora, avisou avisou:
            - Olha! Aquela coisa ainda tá ardendo. Uma fumacinha subindo insistente, lenta e negligente.
            A noite na aldeia, a noite de sombras, a noite de saci rodando no redemoinho de pó vermelho. Talvez uma mula sem cabeça. Quem sabe uma martinta-pereira.
            Os cinco lunáticos acordaram aí entre 10h e 11h. Todos com dor de cabeça, desertos de ideias, doidos pra vadiar. A aldeã serviu o almoço: um preparado de pedras roladas, pedrinhas lisas do fundo do riachinho seco, uns pedaços de latas velhas temperadas de ferrugem.
            - Que tem aí na panela, dona Embaiá? - foi a pergunta genérica.
            Depois, os cinco seguiram nas motos para o capoeirão. Foram rever e cuidar do bolo espacial. A poeira levantava na estradinha e era caótico. Chegaram perto da coisa caída do espaço e reclamaram:
            - Porra! Que cheiro de não sei o quê!
            - Parece que esta coisa tá pela hora da morte!
            - Fede como mandato de político federal!
            A coisa ainda não esfriara. Saía uma fumaça provocante, metálica, pós-carnavalesca. Por fora se formava uma crosta rachada crocante, mas por dentro ainda latejava.
            - Parece uma bosta esfumando.
            - Cheiro é mesmo de algo passando mal.
            - Uta! Um vômito de cachorro cachaceiro.     
            Se sentaram aí em volta, despreocupados e autossuficientes. Mata-Bolo cuspiu mesmo sobre a coisa medonha e espacial; Mata-Curumim olhou a motoca, tateou-a, alisou-a, preocupado com seu desempenho na poeira; Mata-Pai decidiu treinar tiro nas latinhas incidentais por aí na capoeira; e Mata-Vizinho foi exercitar abdominais apoiando uma mão subindo e descendo em pleno sertão inóspito.
            Mata-Piolho lembrou e continuou pensando... Em todo lugar que ia, lhe acudia aquela lembrança ou pesadelo. Contava essas visões, às vezes contava, para os camaradas e sócios e parceiros de cadeia: “Tudo foi que aconteceu naquele um baile, muitos anos... em que cidade? As minas eram três e estavam lá dando mole, mostrando a língua, fazendo sinal, rebolando. Dava impressão que queriam todos os barbicachos do baile. Uma delas era muito interessante e inquieta e vermelha nas bochechas e mecha de cabelo caindo nos olhos oblíquos. Me fixei nesta. Rodeei rodeei o trio de gatas por um tempinho um tempinho. Rodeei a pista de dança. E tomando cervejas, umas duas cervejas de latinha, indo e vindo pelo salão. Tomei no mínimo umas cinco cervejas da mesma marca. É agora que a onça vai cutucar com vara curta!, pensei naquela altura. E fui mesmo com sede ao pote de vereda e cheio de decisão para intimar a guria, a tal guria. Tinha me resolvido, e para não perder coragem, me resolvi e nem pensei mais nada, fui, cheguei e convidei:
- Vamo dançá, índia jucá?
            “E a moça me olhou de través, de lado, de cima pra baixo e de baixo pra cima. Ela fez um muxoxo. Ela se finge, essa fingida - foi o que pensei rápido. E eu insisti, olhando firme, uma cara azeda que eu tinha de porco bêbado babão:
- Vamo dançá, índia camaiurá?
“E ela me disse, me olhando na cara:
- Agora não, índio crenacarore.
- E a magrinha pode me dizer o porquê e o motivo?
- Posso. É porque estou esperando um cara mais ajeitado mais maneiro.
            “Aí, eu peguei a bichinha pelo antebraço esquerdo, apertei e puxei a guria para o centro do salão onde a gente se misturou com outros pares dançarinos. Eu segurei a mina pela cintura; ela pousou as mãos nos meus ombros. No começo, pouco nos olhamos. Ela tinha um bafo de pastilhas sabor menta. Giramos uma. Dançamos duas músicas. Ela de cara virada para o outro lado. Eu já pretendia dançar a noite toda; ela dançaria só uma, talvez, ou no máximo duas músicas. Ela balbuciou:
- Então, eu agradeço... tá bom...
            “Aí, eu mesmo, futuro Mata-Piolho, decidi e resolvi que queria muito mais, até porque, e falei:
- Ah, quê! É cedo.
            “Ela soprou para o ar. E nessa hora já se chamava a Iraquara. Hum!... uns cabelos longos até o meio das costas e até mais. Um olhar de aço inoxidável. Um corpo serpentino de moça solteira e desimpedida. Um cheiro de terra molhada. Tinha todos os dentes quando queria bocejar; uma boca que repuxava para um lado, discretamente, manhosamente. Dois brincos, um em cada ponta de orelha. Eu tava mesmo me beliscando e me achando.
            “Rodamos até as duas da matina. Já a prensara quantas vezes na parede? Eu lambi ela no pescoço nos olhos no pé do pescoço na ponta do queixo na ponta do nariz. O meu burro xucro já pinoteava na cueca e queria mais e latejava e os bagos até doíam uma barbaridade.
“Não sei que horas da madruga saímos do salão e fomos continuar os amassos apalpações e grunhidos no estacionamento. Ali do lado do bailão, no lusco-fusco da hora. Trocamos algumas ideias entre arretos agarrões empurrões, principalmente muitos chupões e mordidas e nhe-nhe-nhés. Eu já arrepiado que nem um galo de briga e eram 6h e 6min:
- Amanhã eu vou te buscar...
- Não, não precisa...
- Mas eu te quero muito, índia tupiná!
- Deixe acontecer por acaso, índio crenacore!
            A vila perdida no mundo esquecida do mundo, coberta de poeira vermelha tocada do vento revoltoso. Um dia alucinado, um dia cheio de terra vermelha, um dia igual ao outro, outro dia perdido e tonto de calor. Nem chovia há dois anos e meio.
            O cometa é um objeto estelar. Sua visibilidade aumenta na razão correta da proximidade do sol. Do núcleo do cometa, parte a imensa cauda ou cabeleira que às vezes alcança centenas de milhares de quilômetros.
            Cometa é um astro que gira em torno do sol. Seu giro é periódico, cíclico.
            Os cometas são formados por compostos moleculares - água, gás amoníaco, cianogênio, monóxido de carbono, dióxido de carbono e nitrogênio. Quantidades proporções volumes nem são revelados.
            Há as caudas ou cabeleiras retilíneas; as caudas ou cabeleiras pouco curvas; e as caudas ou cabeleiras muito curvas.
            A cada passagem o cometa perde uma intensidade devido ao gás ejetado.
            Cometa: grande corpo celeste viajando pelo espaço.
            Asteróide: pequeno corpo celeste viajando pelo espaço.
            Meteoróide: pedaço de cometa ou asteróide solto no espaço.
            Meteoro: pedaço de corpo celeste invadindo a atmosfera terrestre - chuva, raio, neve, estrela cadente.
            Meteorito: pedaço de corpo celeste caído na superfície terrestre. Exemplo é o do Bendegó.
            Conhecido como estrela cadente, o fenômeno foi desde é sendo será ainda ao longo dos tempos objeto do temor supersticioso dos homens.
            O meteoro é atraído pela gravidade da Terra, penetra na atmosfera terrestre, e aí se fragmenta por causa da resistência que encontra. Em função do atrito, a queda de um meteoro é sempre acompanhada de luminosidade e de um assobio forte ou um estrondo prolongado.
            Caída a tarde ali no arraial de Santa Luzia, os cinco dedos voltavam para a palhoça. O impiedoso bafo de estufa, então, dava lugar ao resfriado, às sombras tumultuadas e a um ou outro guinchar de lobisomem.
 Atônitos desnutridos encardidos, rodeando a mesa tipo bicho, espreitavam a d. Embaiá servir o jantar.
            - Que é desta pedreira, dona Embaiá?
            - É guisado de pedras e capim-cheiroso seco. Pedras aqui da redondeza e ex-plantinhas espinhentas e secas catadas em meio da capoeira incendiada: macega seca, barba-de-bode seco, maracujazeiro seco...
            Depois do jantar, Mata-Piolho, Mata-Curumim, Mata-Vizinho e Mata-Pai jogaram bisca ou escova. Mata-Bolo ficou cuidando o jogo, olhando os jogadores jogar, espiando as cartas por cima dos ombros. Não podendo dar palpites nem apontar o dedo dava relinchos ao fim de cada mão ou partida ou jogada.
            A noite era tenebrosa, foi tenebrosa, continuaria sendo tenebrosa, muito misteriosa, cheia das obscuridades. O lobisomem saiu para caçar aldeãs solteiras e frustradas. O caapora passeou montado num espírito de porca-do-mato. Os diversos e diferentes sacis rodaram redemoinhos pela rua Única. E as coisas enigmáticas aconteciam sem deixar de acontecer.
            No outro dia, os cinco farroupilhas acordaram entre 13h e 14h. As caraminholas de cada qual envolvidas em nuvens de sons e de imagens, zunidos, zumbidos e delírios, isso devido o excesso de sono.
            No almoço a dona Embaiá serviu sopa de pedras com fios secos de capitiçoba. Fritou também uns dois ou três cabos de guarda-chuva e umas imprestáveis escovas de dente.
            Mais tarde, os cinco jagunços foram ver o meteorito. Sempre de moto. Levantaram a poeira vermelha com ousadia e até com orgulho. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas nem apareciam, se escondiam, mordidos de raiva. Os pivetes arteiros atiraram pedras com os bodoque atiradeira funda e estilingue. O quinteto de bandidos assim assim ali perto da torta espacial:
            - Olha, tá ficando cascão.
            - Mas ainda sofre por dentro.
            - Vai para dias ainda.
            - Eu acho que é de repartir enquanto tá mole.
            - Não, tá muito quente. Nada aguenta cortar isso daí.
            - Vamo esperá ficá seco e frio e duro.
            Mata-Vizinho tentou empurrar a coisa medonha com o pé, só pra calcular o tamanho do bicho; Mata-Bolo olhou a força do verão sobre tudo que inexistia ou mal acontecia ali no lugar; Mata-Curumim tossiu com as mãos no bolso no bolso; Mata-Pai cortava as unhas dos pés com a adaga; Mata-Piolho teve que dizer até porque não adiantava esconder e se omitir:
            - Repare que o troço fede pra mais de metro, meu!
            - É. É duro, mas é queijo.
            - Já disse e repito: é coisa feita de político federal.
            Mata-Bolo foi chutar pedras soltas lá entre os pés de capoeira seca, meio xucro, demente, lembrando de uma história da sua curta trajetória juvenil mal contada e mal destinada e inditosa.
E Mata-Bolo foi lembrando tudo isso. Era uma vez um piá que ainda não se chamava Mata-Bolo. Ele subia em árvores altas para se esconder ou para olhar longe ou ainda para aparecer e se exibir. Ele até subia em pinheiros-do-paraná. Subia nos arcos da ponte sobre o rio das Antas. Aprendeu a nadar, apesar de sempre ter tido pesadelos com água. Todo mundo gozava dele. Era o palhaço da família, da rua, do bairro, da escola e do mundo inteiro.
            Foi também um culepe que gostava de ir atrás da prima. A prima Guamixira. A prima predileta. A prima de olhos negros, veias azuis, língua borboleta, lábios verdes, dentes brancos. A prima com a qual fazia artes e arruaças. Andavam sempre juntos, brigando e se puxando o saco.
            Os dois peraltas se escondiam e se agarravam no escuro. Os dois tantãs se perdiam e se arranhavam atrás das coisas. Um na garupa do outro. Trocavam de roupa trocavam de nome e de gênero. Mas isso passou até muito rápido no tempo. Passou mesmo a época e parece que não aconteceu lá grandes coisas concretas.
            A vila de Santa Luzia estava em silêncio e mergulhada em poeira vermelha. Tudo em volta uma quietude um abandono. O deserto onde só o vento cheio de poeira funcionava. E uns sacis de vez em quando com remoinhos em espiral.
            Os cinco degas retornaram para a aldeia. Rente à noite. Alguns guris jogaram paus e pedras quando os foragidos passaram fazendo barulho. Depois de atirar as pedras, a curuminzada correu se esconder para não levar balas. Pois Mata-Curumim parou e detonou tiros de trabuco. Parece mesmo que pegou um moleque com bala perdida. E podia, pois não! o resto do caldo até entornar.
            Depois de uma sopinha de tabuinhas podres com raminhos secos de cravina-do-campo, foram para o jogo da bisca. O Mata-Pai sobrou dessa vez. Ele andou pelas costas dos jogadores olhando as cartas dos jogadores e roendo as unhas na expectativa das apostas e jogadas. Ficava de plantão atrás dos jogadores. Uma mão segurando o cotovelo e a seguinte o queixo.
            A noite ficou mesmo sem estrela sem lua. Toda cheia de ondas de poeira. Um casal de lobisomens uivava na região. Jurupari solto e invisível arrastando correntes urrando como extinta jaguatirica no cio.
            Já o outro dia cinzento e pegajoso, entre 12h e 13h, as ideias turvas, hálito de cabo de vassoura assado. Isso para todos os quintos. Isso para cada cada um mesmo. No almoço a mulher lhes apresentou sopa de pedras lascadas com gravetinhos secos de cambuci.
            Pegaram suas enferrujadas empoeiradas tremendas motocas e rumaram para o posto do meteorito. A fumacinha estava lá subindo preguiçosamente, tá então, mas diminuída comparando com outros dias. Dava o que pensar. Dos cinco facínoras o Mata-Piolho, pregou:
            - Esta polenta cósmica não esfria nunca, tchê?!
            - Espeta ela com uma vara de ex-embaúba-da-pedra.
            - Você não manda em mim, meu!
            - Tá pedra por fora e fogo por dentro.
            - Será que nóis consegue uns quilos de ouro? Duvideodó!
            - Não afirmo e nem desespero.
            Mata-Pai se afastou uns vinte metros, coçando a perna; Mata-Vizinho viu o relógio, exatamente 14h e 30min; Mata-Curumim pensou se deitar por ali mesmo, caso tivesse sombra, e nem tinha sombra alguma; Mata-Bolo percebeu que não havia nada se mexendo em lugar algum naquela capoeira seca; Mata-Piolho abriu os braços para o alto e bufou um bocejo.
            Mata-Pai se sentou numa pedra quente, afastado dos outros quatro, longe do bolo estelar. Levava já um olhar pensativo, distante no passado, não se sabe com ou sem remorsos.
            Mata-Pai não era Mata-Pai, ainda. Trabalhava na fábrica de carrocerias em Nova Prata, eternamente sujo de graxa e profundamente interessado numa galega chamada Jeriba. Todo mundo, aliás, estava a fim daqueles peitos e lábios e dentes grandes. Jeriba era uma moçona, um distúrbio dos sentidos, uma mega-sena, uma taça de campeonato, um sapato salto agulha, um traseiro de dar insônia, um samba de pagode, um cabelo grosso e largo e alto, um olho cheio de sombra.
            Um dia, na mesma fábrica, no horário do meio-dia, o ainda não Mata-Pai falou uma anedotinha no ouvido de Jeriba. Ele falou:
- Deixa eu fazer cócegas de língua nas tuas orelhinhas?
E ela abriu os olhos neutros. E até se interessou mais que o previsto. Mata-Pai, ainda não-Mata-Pai, voltou pra casa e se olhou no espelho, admitiu perguntando:
- Será que foram os meus olhos pretos de jabuticaba noturna?
Todo o mundo, fala sério!, acha que tem olhar de cobra-coral. Pelo nem ou pelo não, futuro Mata-Pai encheu a caveira de cerveja. Foi na geladeira e encheu o casco de ceva até terminar o futebol na tevê.
            Semana posterior, na mesma fábrica de carrocerias, correu atrás do seu pesadelo - qual seria? Ficar, segurar, agarrar e derrubar de comprido a pretendida Jeriba. E na primeira chance daquela segunda vez pegou na mão. Ela o olhou e lhe mostrou os dois dentes de tapiti; também lembrando decerto das cócegas nas orelhas. Resultado total: ainda não-Mata-Pai acompanhou Jeriba até em casa. A rua dela era no fim do mundo, sem nome, sem calçamento, sem ônibus, poeirenta, cães latindo e cheia de traficantes atravancando os becos assobiando pelos escuros e no alto das mangabeiras.
            Namoraram dois meses? Lá se foram dois meses. Falaram com os pais dela, principalmente. Foram alugar duas peças com banheiro no bairro Iurimagua perto da fábrica, decididos que estavam a morar juntos e abraçados. E os meses... hem?! Transavam de assustar a vizinhança. Batiam nas fracas paredes, subiam por elas e ainda grunhiam como antas como jacarés como sucuris. Brigavam somente de vez enquanto e quase todos os dias, sempre na mesma hora pouco antes de ir pra cama. E voltavam a se jurar fidelidade na manhã de ressaca.
            Ali na vila de Santa Luzia, que horas seriam?, o empanado astro rolou para trás daquele morro, definitivamente. Os motoqueiros foram para o casinholo. Tinham caldo de pedra para o jantar. E ainda beliscaram uns gravetos de ripas de antigos cercados de ex-taquaras-pocas.
            - Onde achou tudo isso tudo, dona Embaiá?
            Mata-Vizinho ficou fora da bisca ou da menos copas. Se sentou na janela da salinha e cuidou olhar lá fora o oco esfumaçado. Queria ver se tinha de descobrir por acaso uma estrela decadente. Fumava um bagulho e soprava para as nuvens de areia. A escuridão tinha seu lobisomem escondido ali por perto. Talvez curupira atravessando o rasto da martinta-pereira.  
            No dia imediato, entre 11h e 30min e 12h e 40min, os cinco desgraçados já almoçavam. Dona Embaiá preparara assim: pedaços de arame farpado, compotas de pneu de bicicleta, cacos de garrafa de diversas cores, lascas de casas de caramujo colhidas no capoeirão queimado.
            Daí, os mãos-leves foram para o serviço. Chegando lá tentaram, na força bruta dos dez braços peludos, mexer, sacudir que seja, e até erguer, levantar o meteorito. Este, que era muito pesado e muito fundo no chão seco, não se deixou abalar. Um dos cinco, o cara de fuinha Mata-Piolho, brabejou:
            - Sabe, eu detesto essa fumacinha! E parece que nunca nunca deixará de queimar e de feder ali por dentro!
            - Mas é preciso persistir na desesperança, cambada!
            - Se nóis botasse umas dinamite?
            - Não, espalhará muito material por aí. É arriscado. De repente seria burrice. De repente seria explodir com os ovos de ouro.
            - Vamos telefonar e convidar um trator retroescavadeira?
            - Peraí, né! Enquanto não esfriar o troço... que que adianta.
            - É, temos que saber tudo certinho o que o medonho contém no bucho.
            Mata-Bolo, mãos nos bolsos, pensava umas coisas sempre sem importância para o mundo, coisas dele mesmo; Mata-Vizinho queria beber a gasolina da moto e sentar na sombra ou deitar numa rede de carijó; Mata-Curumim pensava sair ileso daquela enrascada e se aposentar e morar definitivamente em Brasília; Mata-Pai reparava o estado das botas cambaias e o dedão de fora com unha encravada; Mata-Piolho olhava para as nuvens vermelhas lentas pesadas de poeira. E até nem chovia desde muitos esquecidos anos.
            Mata-Vizinho, esgar amarelo de canto de boca, pensava uma coisa deixada bem lá para trás na lembrança e muito pouco provável de ser novamente alcançada. Era uma passagem que não esquecia. Aproveitável no oco das noites ou das horas do dia como aquela. Enquanto pensava, decidiu também desenferrujar as pernas e caminhar pelo capoeirão. Recordava como tinha sido o tal encontro com a Guatiedéo. Ela, entre um gole e outro de cerveja, perguntara intimara:
- Ei! Você me quer? Fala logo, hum!
            Mata-Vizinho, na época não-Mata-Vizinho, ficou sem palavras e nem queria testemunhar. Nem tinha encabulado, mas também ficou sem saber o que responder. E pensou mesmo: por que toda pergunta tem que ter sua precisa resposta? Assim, pediu licença e foi ao banheiro. Depois voltou e esqueceu o assunto; Guatiedéo, idem.
            Pois Mata-Vizinho olhava a namorada muito friamente. Tinha os seus planos sem enganos. Podia acontecer como previa? Com Guatiedéo não tinha essa de falta do que falar, não. Assunto era com ela. Discutiam de futebol até música instrumental, passando por novelas de tevê, políticos corruptos e a vida alheia. E o principal: Guatiedéo não se importava de ficar domingo de tarde em casa assistindo jogo de futebol. O que pegava mesmo, no caso de Guatiedéo, eram os seus seios incipientes. E para adiantar onisciência, Guatiedéo tinha um mistério um segredo que Mata-Vizinho (futuro) não descobrira até então, e que se viesse a descobrir se encheria de horror de horror.
            Mais um dia comum na vilinha coberta de cinzas. E logo na janta, para a turma de zagueiros brucutus, a dona Embaiá preparou um filé de sola de pneu de jamanta, uma salada de guanxuma esturricada, umas folhinhas secas de jatobá, umas fibras incineradas de embira-de-porco, um ensopado de seixos rolados.  
            - Que pneu foi esse, dona Embaiá?
            - Ora, pneu de patrola! Que o nome científico é motoniveladora.
            Mata-Curumim não jogou bisca naquela noite, nem jogou tressetes. Decidiu conversar com seus pensamentos que saíam e vinham que iam e voltavam. Umas dúvidas interiores que cavavam fundo arranhavam.
            A noite iniciou com um saci escapulindo do redemoinho de poeira vermelha e que assobiou assustando querendo assustar. Um acoo de lobisomem ecoou na escuridão indevassável.
            No dia amanhecido acordaram entre 11h e 30min e 14h. Almoçaram o outro tanto que sobrara da gororoba de pneu de carreta mais folhas secas de ex-paineiras.
            Os todos v seguiram para o trabalho difícil de cuidar, vigiar, guardar... o esfriamento do meteorito. Cada qual na sua moto preferida, maltratada, mal-encarada, enferrujada, endiabrada, envenenada. Não estavam nem preocupados, nem nervosos, nem desiludidos, nem com dificuldades de fumo, nem com abstinência de assassinar. Estavam confiantes no ouro, ou na prata, ou ainda no cobre que o artefato sideral lhes proporcionaria. Então, aceleraram muito as máquinas para assustar os aldeões as aldeãs os aldeõezinhos e sacizinhos encontrados no caminho. Chegando até o posto fixo do meteorito trocaram estas suplentes ideias maníacas:
            - Acho que tô ficando surdo.
            - Hum?... Como? Quem, porém?
            - O meteorito tá calmo, não?! Nem fumaceia mais, o medonho. Nem cheira mais, o droga. Nem caga mais, o político estadual.
            - Vocês não estão ouvindo um zumbido? Parece um trem lenga-lenga!... lenga-lenga!... E vem nessa direção...
            - Não entendi! Fala alto!!
            - O oco vermelho muito baixo...
            - Não tô nem podendo te ouvir.
            - Desenrolem a língua, macacada!
            Mata-Bolo, a língua inchada, chutou uma pedrinha com o bico da chinela de borracha; Mata-Vizinho percebeu que as nuvens vermelhas arrastavam os morros vermelhos e as pedras vermelhas; Mata-Curumim achou que um meteorito era muito pouco para cinco dedos maus e ruins e péssimos; Mata-Pai sentiu um vazio de fome e uma ardência de sede; Mata-Piolho penteou o cabelo com os dedos da mão esquerda, sem querer, pensando coisa sem cabimento, bobo, zonzo.
            Mata-Curumim abriu as pernas como um touro guaxo, cruzou os braços e ficou querendo pensar uma lembrança que sempre lhe ocorria lembrar quando podia. Era já uma coisa usada e abusada das suas ideias. Uma coisa já pronta e acabada, com começo meio e fim. E uma recordação muito insistente.
            Então, Mata-Curumim lembrou aquela noite com a Cendira. Foram para o quartinho da zona. Ele já suficientemente pronto, o burrichó todo perfilado em posição de sentido, de cabeça polida alta e olímpica.
            Logo logo os dois no interior do reservado. Uma cama de casal sofrível. Fecharam porta do quarto e porta do banheiro. Cendira queria a luz apagada. Ele queria a luz acesa. Ficou a luz acesa mesmo. Ela reinou até a página doze. Ela levou um tapa no ouvido de cá, levou outro no ouvido de lá. Aí mostrou a língua com a cor de bala de hortelã. De repente ele, Mata-Curumim (futuro), foi e tirou a roupa toda. Estava pronto que nem o burro diante da mula. Ela com os cabelos desgrenhados cheirou tudo e viu tudo. A luz acesa era para isso mesmo. Ele falou calmo o suficiente como um bandido gosta de parecer:
            - Tá esperando o quê?
            Cendira procurou um refúgio para tirar a roupa. Ela só entendia de cabra-da-peste ou pai-d’egua ou gaudério ou manezinho. Não, o banheiro já estava de porta fechada. Então, Mata-Curumim (futuro) decidiu agilizar o troço. Com nervoso e pressa foi ajudando a sacar as peças e apetrechos e aparelhos e arreios. Ela também viu que tinha de rezar e ajoelhou. Ele falou e disse já muito zangão:
- Dá um chego aqui, mina!
Talvez ele achasse que ela não soubesse, talvez. Esticaram-se na cama. Ele, para começar, já escolheu dos o menor buraco. Que por acaso nem era para ela o ponto a posição mais recomendável. Mas foi assim como o tal e qual livre arbítrio entre os dois para quatro paredes.
            O (futuro) Mata-Curumim fechou os olhos, sentiu os amendoins apertando contra o ninho da caranguejeira. E ela sentiu lá dentro uma coceira que pedia socorro e mais e mais e por fervor. Aquilo podia ser sem sombra de dúvidas uma bobagem só para animais sem razão. E era mesmo, pois não! A cama ia junto. Mas eles não sabiam que a cama batia na parede. Ele olhava para ela, ela olhava para ele: queriam se matar ali sem dó nem piedade. E poderiam ficar por horas e horas sem saber se as horas passavam. Era um tremendo exercício suado, urrado, assobiado e sem esforço algum. Sentiam muito, não gastavam nada, gritavam por gritar, não sentiam calo nenhum. Ele pirou com cara de ódio e procurou mordê-la na boca. E a onça-pintada câmara lenta... escancarou a bocanha de dentes salivados.
            A vila de Santa Luzia era o fim do caminho. Não chovia havia mil e setecentos anos. Os lobisomens se criavam pelo capoeirão esturricado. As pedras emagreciam a olhos vistos. O vento levantava nuvens de poeira vermelha. O vento virava a curva e retornava com mais uma caçamba de areia nos olhos.
            Os cinco estavam em volta do meteorito prontos para voltar para a palhoça. Nada se mexia ali na roda. Um silêncio de deserto mesmo. Os quintos famigerados olhavam a coisa espacial. Insistiam olhar o objeto caído que veio do oco. Os v estavam agora caladões, e sem saber por quê. Os cinco, e cada qual, estavam com um zunido no labirinto do ouvido.
            Pois então, os cinco tolos não sabiam de onde vieram para parar naquele lugar seco e caloroso e fodido até demais. Os cinco traficantes eram somente cinco. Os cinco tropeçaram nos próprios pés. Os cinco tombaram de boca, totalmente de boca aberta, no pó vermelho do capoeirão. No mesmo segundo, juntos, como ensaiados. Os cinco porcarias já eram, e pronto, tum!... no chão de poeira vermelha.
            Meia hora depois, os cinco aloprados viraram churrasquinhos e espetinhos e sopinhas e caldinhos nos paladares apetites gulosos dos aldeões e das aldeãs. E tudo ali continuaria e prosseguiria em cheio às cinzentas nuvens de cinzas. E tudo persistiria do mesmo jeito e estilo sem chover sem chover desde milênios.