O pai
observava constantemente a filha crescer.
Via dia após dia que a filha
seria uma mulher exuberante exuberante.
Com muitos predicados lindos
que homens gostam, o cabelo longo e liso, o sorriso jovial e espontâneo, o
olhar horizontino, os seios arrebatados arredondados agressivos, as coxas
torneadas, os braços e as pernas com penugem discreta, etc, de ponta a ponta do
seu corpo tudo no lugar com perfeição exatidão correção relação arrumação. E mais
outra coisa: enquanto a filha se aprumava a mãe decaía.
O vento repassava como um quati
de cabeça baixa farejando arranhando o lugar. Por trilhos escondidos carreadores
esconderijos troncos caídos na capoeira. O rio subia a correnteza galgando
cascatas corredeiras contornando sumidouros vencendo represas. Por dentro da
mata ciliar de galeria. O céu se desenhava de verde pelas laterais o centro de
azul e norte e sul em alaranjado até o amarelo. Por bando festivo palrador
risonho de marianinhas-de-cabeça-preta.
Aquilo que é cidade, com seu
rio, com suas praças, com as avenidas, seu clima, o zoológico, o seu morro com
as antenas, cruzada por linha de trem desativada entre Pirajuí e Ubá cidades.
Falam como está distante o
verão. Falam como é longe Rio Casca. Falam como é fundo o brilho das estrelas.
Falam como são mil e tantos quilômetros que nos navegam pelo rio Tijipió. Falam
como são boas as festas da broa de milho em Franca. Falam da vista do mar a
partir da serra de Paranapiacaba.
Uma vez
mais o pai voltava bêbado. Mesmo que fosse a última. Mas naquela hora a filha estava
só e por acaso procurou se sentar no seu colo pedindo um abraço carente inocente.
O pai enfiou as mãos nas coxas da guria. De dentro dele saltou um desejo animal.
Atacou a própria filha puxou o cabelo mordeu o pescoço chupou a orelha beijou
na boca da menina que já não podia lutar contra aquele bafo de gambá aquele
focinho de tatupeba aquelas garras de carimbamba aquele abraço de
tamanduá-bandeira.
O céu o
mar o rio a montanha a cidade se fecharam. As coisas todas desse mundo se
fecharam. Os bichos se fecharam, a irara, a mamangaba, o pioró, a mandijuba, a
candimba, o pinhé. As árvores se fecharam, o angelim-doce, a
cabeça-de-preguiça, a catuaba, o sabugueiro, o cambará, a gameleira-branca, a
unha-de-gato, o inhame-cigarra, a canavieira.
Onde
existem coisas existe o tempo. As coisas são ilhas cercadas pelo por todos os
lados. Se parece com diamante com iraí com guaju-guaju com canana-capeta com
caruru-de-espiga com cabeça-de-fogo com sempre-viva-da-serra com rio Anil.
A mãe
quando soube mandou a filha para a tia que morava na Caxambu distante cuidar. A
filha acabou por engravidar. O constrangimento foi tamanho que a moça se viu
obrigada a se transformar em planta. Foi morar num quintal cheio de árvores
frutíferas e não frutíferas.
E assim
caminhou olhando perambulando viu um pé de sapucaia-amargosa e achou muito
alto, outro pé de ingazeiro verde-verde, a sombra esparramada da braúna, as
flores cheirosas do amor-perfeito-do-mato, a majestade do cedro-batata, as
frutinhas da amoreira-do-mato, as lofanteras ornamentais cheias de encanto, as mamoneiras
sempre insistentes e seguras de si, etc.
Mas dentro
dela, lá no fundo do nascedouro dos sentidos... Passos distantes do que estava
acontecendo...
A manhã leve como pluma de
guaruba, uma nuvem, sempre grandes novidades engraçadas, dezenas de andorinhas,
a sombra das coiranas-amarelas, irapuãs rezingando e o rio misturado às águas
particulares de vidro.
A cidade
ficou em polvorosa. A cidade fica a cinquenta de Ibirité cem quilômetros de Cajuri
que fica outros mais duzentos de Serro ainda mais trezentos de Frutal.
O rio passa
apreendendo outono Sorocaba São Gabriel da Palha APA de Itupararanga estudando
novembro setembro contando nos dedos quinta-feira sábado dia santo sempre resfolegando
serelepe ouvindo maguaris bate-estacas guatinhumas curiós pica-paus-de-banda-branca
guinumbis descendo fugindo cotidiano entre as próprias pedras em calha.
Quando
nasceu a Esmeralda, logo se viu bem seria uma menina muito bonita suave mais
que um anjo mais que um pássaro mais que um peixe mais que um rio murmurante
mais que uma chuva-de-ouro mais que um dia claro mais que um crescente. E assim
todos queriam adotá-la.
Acontecia
aquele sol quente, estridente, paineira-do-campo, bafos de poeira vermelha,
tranquilidade, beija-flor-rubi, pouco antes das 11h.
Hoje está
aqui, amanhã só sabe onde estará.
Um rosto
bonito aprovado confirmado. Sorriso oferecido complacente. Olhos absorventes.
Cabelos descontrolados. Corpo todo redolente e apetitoso. E assim todos queriam
tocá-la.
Andou
jogando, hoje aqui amanhã ali, sem pouso certo sempre Esmeralda inquieta sem se
prender a nada a mente solta fazendo e refazendo seu rabo de cavalo. Tanto mais
pra lá que pra cá.
Era muito
linda na infância, foi na adolescência, e assim por diante. Parecia ter vindo
de outro planeta mais perfeito. Todos queriam seu olhar seu sorriso sua ternura
seu canto seu cheiro de Esmeralda seus sonhos de viagens suas flores de
flor-de-quaresma no cabelo. Um todo gostoso de uma beleza ofertada que se
oferece. Fisionomia doce. Ombros palpitantes. Uma cor nos olhos que olham e se
oferecem e consolam e consomem os cinco sentidos surpreendidos. Juá-amarelo. Um
pescocinho bonito uma trança até a cintura uma pele de caju maduro um olhar de
jabuticaba doce uma meiguice de cachorrinho manso e felpudo em brinquedo
doméstico.
Passavam
os dias e o enigma sem ser decifrado.
E de onde,
a manhã quieta e doce e os joões-de-barro chamando irrequietos, estoura o
aguaceiro a bomba d’água os pés d’água. O vento guaiando nas árvores. Chuva que
era bom pipocando a pele da lagoa. Pico Pedra do Elefante fechado na cerração.
Um dia, já
com dezesseis para dezessete, andava Esmeralda pelo condomínio a passear a
inventar derivativos preocupada com a idade abre-o-sol quando avistou uma piscina
cheia de água. Foi lá na intenção de nadar. Parecia uma gardeal-de-banhado e
lembrou seu dia de pirapitanga sua descendência de pindobeira maçaranduba
assa-peixe peroba-de-goiás indaiá-do-campo. Ao olhar o espelho de água se deparou
com a própria e lindíssima imagem. Cabelos esvoaçantes em moldura. Foi aquele
amor à primeira vista. A língua pelos lábios de seda pura. Ah!, era tão linda e
exemplar. Mergulhou para capturar a si mesma e não voltar mais mais.
O único
som que saía de dentro da chuva.