sexta-feira, 21 de março de 2014

Reservada, A


      

       

       O pai observava constantemente a filha crescer.

Via dia após dia que a filha seria uma mulher exuberante exuberante.

Com muitos predicados lindos que homens gostam, o cabelo longo e liso, o sorriso jovial e espontâneo, o olhar horizontino, os seios arrebatados arredondados agressivos, as coxas torneadas, os braços e as pernas com penugem discreta, etc, de ponta a ponta do seu corpo tudo no lugar com perfeição exatidão correção relação arrumação. E mais outra coisa: enquanto a filha se aprumava a mãe decaía.

O vento repassava como um quati de cabeça baixa farejando arranhando o lugar. Por trilhos escondidos carreadores esconderijos troncos caídos na capoeira. O rio subia a correnteza galgando cascatas corredeiras contornando sumidouros vencendo represas. Por dentro da mata ciliar de galeria. O céu se desenhava de verde pelas laterais o centro de azul e norte e sul em alaranjado até o amarelo. Por bando festivo palrador risonho de marianinhas-de-cabeça-preta.

Aquilo que é cidade, com seu rio, com suas praças, com as avenidas, seu clima, o zoológico, o seu morro com as antenas, cruzada por linha de trem desativada entre Pirajuí e Ubá cidades.

Falam como está distante o verão. Falam como é longe Rio Casca. Falam como é fundo o brilho das estrelas. Falam como são mil e tantos quilômetros que nos navegam pelo rio Tijipió. Falam como são boas as festas da broa de milho em Franca. Falam da vista do mar a partir da serra de Paranapiacaba.

       Uma vez mais o pai voltava bêbado. Mesmo que fosse a última. Mas naquela hora a filha estava só e por acaso procurou se sentar no seu colo pedindo um abraço carente inocente. O pai enfiou as mãos nas coxas da guria. De dentro dele saltou um desejo animal. Atacou a própria filha puxou o cabelo mordeu o pescoço chupou a orelha beijou na boca da menina que já não podia lutar contra aquele bafo de gambá aquele focinho de tatupeba aquelas garras de carimbamba aquele abraço de tamanduá-bandeira.

       O céu o mar o rio a montanha a cidade se fecharam. As coisas todas desse mundo se fecharam. Os bichos se fecharam, a irara, a mamangaba, o pioró, a mandijuba, a candimba, o pinhé. As árvores se fecharam, o angelim-doce, a cabeça-de-preguiça, a catuaba, o sabugueiro, o cambará, a gameleira-branca, a unha-de-gato, o inhame-cigarra, a canavieira.

       Onde existem coisas existe o tempo. As coisas são ilhas cercadas pelo por todos os lados. Se parece com diamante com iraí com guaju-guaju com canana-capeta com caruru-de-espiga com cabeça-de-fogo com sempre-viva-da-serra com rio Anil.

       A mãe quando soube mandou a filha para a tia que morava na Caxambu distante cuidar. A filha acabou por engravidar. O constrangimento foi tamanho que a moça se viu obrigada a se transformar em planta. Foi morar num quintal cheio de árvores frutíferas e não frutíferas.

       E assim caminhou olhando perambulando viu um pé de sapucaia-amargosa e achou muito alto, outro pé de ingazeiro verde-verde, a sombra esparramada da braúna, as flores cheirosas do amor-perfeito-do-mato, a majestade do cedro-batata, as frutinhas da amoreira-do-mato, as lofanteras ornamentais cheias de encanto, as mamoneiras sempre insistentes e seguras de si, etc.

       Mas dentro dela, lá no fundo do nascedouro dos sentidos... Passos distantes do que estava acontecendo...

A manhã leve como pluma de guaruba, uma nuvem, sempre grandes novidades engraçadas, dezenas de andorinhas, a sombra das coiranas-amarelas, irapuãs rezingando e o rio misturado às águas particulares de vidro.

       A cidade ficou em polvorosa. A cidade fica a cinquenta de Ibirité cem quilômetros de Cajuri que fica outros mais duzentos de Serro ainda mais trezentos de Frutal.

       O rio passa apreendendo outono Sorocaba São Gabriel da Palha APA de Itupararanga estudando novembro setembro contando nos dedos quinta-feira sábado dia santo sempre resfolegando serelepe ouvindo maguaris bate-estacas guatinhumas curiós pica-paus-de-banda-branca guinumbis descendo fugindo cotidiano entre as próprias pedras em calha.

       Quando nasceu a Esmeralda, logo se viu bem seria uma menina muito bonita suave mais que um anjo mais que um pássaro mais que um peixe mais que um rio murmurante mais que uma chuva-de-ouro mais que um dia claro mais que um crescente. E assim todos queriam adotá-la.

       Acontecia aquele sol quente, estridente, paineira-do-campo, bafos de poeira vermelha, tranquilidade, beija-flor-rubi, pouco antes das 11h.

       Hoje está aqui, amanhã só sabe onde estará.

       Um rosto bonito aprovado confirmado. Sorriso oferecido complacente. Olhos absorventes. Cabelos descontrolados. Corpo todo redolente e apetitoso. E assim todos queriam tocá-la.

       Andou jogando, hoje aqui amanhã ali, sem pouso certo sempre Esmeralda inquieta sem se prender a nada a mente solta fazendo e refazendo seu rabo de cavalo. Tanto mais pra lá que pra cá.

       Era muito linda na infância, foi na adolescência, e assim por diante. Parecia ter vindo de outro planeta mais perfeito. Todos queriam seu olhar seu sorriso sua ternura seu canto seu cheiro de Esmeralda seus sonhos de viagens suas flores de flor-de-quaresma no cabelo. Um todo gostoso de uma beleza ofertada que se oferece. Fisionomia doce. Ombros palpitantes. Uma cor nos olhos que olham e se oferecem e consolam e consomem os cinco sentidos surpreendidos. Juá-amarelo. Um pescocinho bonito uma trança até a cintura uma pele de caju maduro um olhar de jabuticaba doce uma meiguice de cachorrinho manso e felpudo em brinquedo doméstico.

       Passavam os dias e o enigma sem ser decifrado.

       E de onde, a manhã quieta e doce e os joões-de-barro chamando irrequietos, estoura o aguaceiro a bomba d’água os pés d’água. O vento guaiando nas árvores. Chuva que era bom pipocando a pele da lagoa. Pico Pedra do Elefante fechado na cerração.

       Um dia, já com dezesseis para dezessete, andava Esmeralda pelo condomínio a passear a inventar derivativos preocupada com a idade abre-o-sol quando avistou uma piscina cheia de água. Foi lá na intenção de nadar. Parecia uma gardeal-de-banhado e lembrou seu dia de pirapitanga sua descendência de pindobeira maçaranduba assa-peixe peroba-de-goiás indaiá-do-campo. Ao olhar o espelho de água se deparou com a própria e lindíssima imagem. Cabelos esvoaçantes em moldura. Foi aquele amor à primeira vista. A língua pelos lábios de seda pura. Ah!, era tão linda e exemplar. Mergulhou para capturar a si mesma e não voltar mais mais.

       O único som que saía de dentro da chuva.

 

        

domingo, 9 de março de 2014

E Teve Mesmo


      
       Nuvens inúmeras carregadas de objetos cortantes perfurantes broqueadores procuravam nos topônimos as esquinas encruzilhadas auspiciosas propícias para um despacho.

       Não fazia calor nem fazia frio, e o rio de passagem em passagem em plena longevidade. Vento das onze horas confuso ou empolgado ainda não sabia por onde andar, etc.

       Têm coisas tudo que se parecem com um rio e são.

       Uma vez chegou ao povoado intrépido diligente um jovem sacerdote da igreja clássica. O burgo ansiava pelas missas aos domingos e aos sábados e aos dias santos e aos batizados e etc. O caudilho comunicou ao sujeito padre, junto à pequena progressista comunidade, para que assumisse as ordens religiosas na branca e tosca capela. Esse sacerdote aceitou, e louvou e evangelizou e pregou na missa aos domingos, sábados, feriados de dia santo e nacionais. Chovia copiosamente.

       No dia seguinte, ao alvorecer e ao alvorecer, o pequeno lugar começou a crescer a pegar, len-ta-men-te, ares de cidadezinha. Raras nuvens altas presas ao céu rajado aberto engraçado metálico. Todo mundo conhecia aquele céu diáfano imponderável e de beleza exemplar. O sol surgiu atrás do novo dia, milagrosamente.   

No entanto, a cidadezinha sestrosa não tinha certeza de nada. Olhava o nada, de onde dizem, vem o futuro.

       Uma taviriri com meia tonelada de madeira de lei nas costas às costas. O planeta estava redondo. Vieram gentes de Porto Calvo, Abreu e Lima, Arujá, Piratini, Areias, Poá, ilha Mangunça, Lagoa de Itaenga, pico Piraí. Os mangaritos tocando flautas travessas. Automóveis esportivos pintando paredes temáticas. Os jupiedis tilintando triângulos equiláteros. Bicicletas sorvendo sucos e mais sucos de abacaxi por causa do calor por causa da dieta por causa do sabor. Os gogós-de-guariba estreitando as harmônicas. Lojas de departamentos correndo atrás do almoço. A lua completando o céu, tem apenas e por isso mesmo o prazer de seduzir, depois de sacudida pelas pontas de galhos das calungas dos maús das coiranas-de-caravelas dos carás-açus das imburanas das almecegueiras-vermelhas das guaximas. Uma gostosa macaíba cantou aquela composição memorável de carnaval passado, “alá lá ôoo!... mais que calôoo!...” Avião teco-teco comendo algodão-doce caminhando displicentemente de mão dada com a babá bimotor no parque 13 de Maio. E chegaram gentes novas de Lavras do Sul, Glória do Goitá, Boqueirão do Leão, Chuvisca, Icaraí de Minas, São José do Barreiro, rio Paraná, Largo da Concórdia, obelisco do Piques. A gata do vizinho braços cruzados na janela do primeiro andar. Uma lata de óleo comestível marca Guaiaúna estendida ao sol das 14h e 30min em janeiro. A senhora dona Francisca Caiçara de Guaiamum vende-se inesperadamente uma camionete verde marca modelo ano meia sete em estado a partir de tais reais ou à vista. O céu voltado para a lua cheia para as estrelas decantadas o meteorito com cauda de vassoura. Que horas são 18h então com toda a natureza chovendo em Belém e em toda a região Amazônica. O mundo não era redondo, ok!?, e coisa nenhuma.

       Depois de dois anos compreenderam que uma igreja mais forte mais alta mais larga mais moderna mais aguda mais acústica era necessário em substituição da pioneira, em nome de Deus e de São Cristóvão o padroeiro da cidade. A igrejinha ficaria como relíquia como sagrada como pintura como cartão-postal como procissão como novena até que o tempo a levasse. Assim, em ritmo de urgente urgentíssimo, foi pensada a nova casa do Senhor das estrelas dos rios das montanhas.

       O rio, do meu tempo, mudou de lugar. Naquele tempo, o rio era puxado por um ímã. O rio encontrado perto (tomando banho junto com araguaris, canaranas, primaveras, pitiás, jataís) de uma sanga, por acaso.

       Mas e os recursos, meu Deus?! O povo se organizou, e se realizaram missas e festas e quermesses, torneios de laço de futebol de baralho, bingos e rifas e sorteios e tômbolas, esmolas e doações e livros de ouro para acumular fundos. Todos trabalhariam seus seis dias em mutirão tudo dependendo de todos e Deus de si para o andamento da obra.

       Outras nuvens afoitas, agora mesmo, conversaram animadamente com algumas árvores vistosas verdes naturais endêmicas canafístulas manjeronas-do-campo cebolas-do-mato coroas-de-frade quebra-pedras ipês-tabacos jequitibás-rosas. Mais nuvens passaram discretamente a seguir com o vento oblíquo. Árvores pensativas olhando o rio elástico, logístico, vistoso, quebradiço, etc. De repente, um pouco, altas guabirabas sacudiram as copas perguntando se já era hora do almoço. Sem demora, agorinha mesmo, os fumos-bravos (dos verdes universais e comportados) consultaram as sombras espichando o ouvido para músicas de irapuãs cabatatus besouros zabelinhas joaninhas. Ares de engorda planejando pela planície, espaço refulgente. Céu rasurado de nuvens atarefadas, dois três oito nove bugios uma família numerosa espertos irrequietos desobedientes caminhando de galho em galhos. Se perceberam árvores silenciosas perdidas em seus próprios pensamentos ou induções. Era disso que os jasmins-do-mato mais gostavam. Era disso que os alecrins-do-campo mais apreciavam. Era disso que as capebas-cheirosas mais adoravam. Muitas jias e muitos sapos bufantes se mexeram colheram engoliram e sorriram a esmo, praticamente.

       Escolheram um lugar mais apropriado no alto do morro escorregadio que observava bem a cidade de beleza consoladora de ruas poucas e necessárias e caprichosas praça com a bandeira desfraldada. Uma alta escadaria terminada com um cruzeiro de madeira de lei serviria até de romaria para os devotos. Plantaram a cruz de jurema-branca a escada com trezentos e trinta e três degraus de concreto e iniciaram os fundamentos das obras do templo.

       A lua só pensou em si. Mas todos se perguntaram: muito sobre vários temas. Nenhum som e um movimento fantástico. A claridade atômica. Como nessa noite, que subiu até o meio das horas e choveu.

       Vieram trabalhadores de muitos distritos e bairros e profissões mandados pelas famílias. Em seguida uns bois cavalos e carroças, tratores caçambas e caminhões nos fins de semana. Pedras e ferros e madeiras e vidros e plásticos e panos de cada pequenina empresa do lugar. Reboaram martelos machados e serrotes desde as horas mais serenas. E tudo mais de necessário.

       O contemplativo rio Pirangi corria nessa hora honesto e exato. E mais abençoado seja por isso.

       Sempre o tempo passava insuspeitado de gervão-cheiroso de cambacica de caiabi de timbu de pedra em pedra.

       A igreja nova lutou anos para se erguer e conseguiu. Inauguraram com todas as luzes da manhã de domingo de sol pelos vitrais coloridos na festa de São Cristóvão e já com algumas andorinhas corruíras instaladas no sobrado da abóboda.

       O rio que passa dia a dia, mais dia menos dia, de noite e de dia.

       Então, poucos dias após, o padre envelheceu e morreu enlutando a paróquia. Ser índio da tribo cauaíbe era o melhor que ele gostaria de ser. Bateu asas uma vez na primeira porta do céu celeste. Ser uma siriúba era o que melhor ele gostaria de ser. O velório foi na igreja nova em folha. Ser um rio Camaquã era o que de melhor ele gostaria de ser. Os setenta e oito anos não foram setenta e oito dias ou setenta e oito horas. Ser uma irara era tudo o que melhor gostaria de ser. Nenhum parente do padre vindo da sua cidade natal Santana do Ipanema lá em a distante província de Sergipe, mas toda a cidade que escolheu e que o acolheu se apresentou. Ser uma maria-farinha era o que muito embora gostaria de ser. A coruja ululou e o sacerdote virou conselheiro bento beato milagreiro pajé mágico caboclo místico. Ser um corricho era o que de melhor gostaria de ser. O caixão foi posto debaixo no cavado mesmo junto aos alicerces das colunas principais e centrais e colossais da igreja. Ser um acari era o que muito melhor gostaria de ser. Nem mesmo hoje soube da sua própria e verdadeira estatura. Ser um uracaçu era o que muitíssimo melhor gostaria de ser. Um santo como aqueles de estátuas paciências santinhos dia nas folhinhas padroeiro de cidades. Ser um maracajá era o que por mais gostaria de ser. E bom bondoso bonachão na terra como no céu. Ser um papa-cacau era demais que gostaria de ser. Nunca mais apareceu nem notícias suas voltaram.  

Reprovava reprovava a teimosia a reincidência. Passava horas sentado embaixo do mororó. Parava as horas para ouvir o gorjeio do pintassilgo-do-campo da lavadeira-de-cabeça-branca do gaturamo do pixoxó do uru do sanhaço do guaxe do tizio o perfume da flor do caroá o sumo da pitomba o som do arroio entre as pedras trelando sozinho e o Hino Nacional. Interessado estudante dedicado pesquisador entomologista de gosto esportivo com cartas e e-mail trocados com faculdade de Mogi das Cruzes.

Pode ser... porque é Deus quem sabe.

As pessoas vêm de perto e de longe, Guiratinga, Itacoruba, Coromandel, rio Pardo, serra do Espinhaço, conforme, para se ajoelharem nas duas lajes significativas e santas como a estrela e a cruz. Depositam presentes orações beijos carinhos sorrisos. Querem saber o que aconteceu. Compram artesanatos moldura com estampa velas de cores diversas bananas maduras fitinhas para amarrar no pulso chapéu de palha trançada da imburi água mineral.

 

        

 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Sei Mais Lá O Quê


      

       O rio passa solto mineral blandicioso pela mão estendida, o sol pousa dourado nas costas logogramadas da borboleta-da-restinga, o vento fecha um pouco os olhos, as simarubas avançam dois passos abrem as asas na sombra inclinam os troncos sobre o imponderável.

       Somente a sorte tem jeito.

       Pressentimentos, premonições ora com sol ora com lua ora com chuva.

       Assim na terra no mar como no céu.

       Sem quê nem para quê.

       Mais assim, sem mais nem menos.

Um dia aquela guria bonita (mas poderia ser qualquer uma) que só vendo, se apaixonou por um cara de metro e sessenta e cinco assim como ela, olhos pretos saltados, rosto sempre bem barbeado, brinco na orelha direita, tocador de violão, ensino médio incompleto assim como ela, contador de causos, nariz adunco, pomo-de-adão saliente, barraca armada de improviso, voz de locutor, não rico assim como ela e que sabia rir cristalino com extrema facilidade. Eles se desejaram muito, amor de verdade, amor à primeira vista, amor fulminante, amor presente, amor aventura, amor perfeito, amor apurado, amor sem maiores explicações, e decidiram se juntar para ontem imediata e ardentemente. Só que...

       O pai a mãe os irmãos as irmãs, família numerosa da Guajiçara, não aceitaram o relacionamento nem quiseram saber do amado namoro da filha ou da irmã. Descartaram quaisquer hipóteses dos dois chegarem a namorar ou noivar ou casar e ter filhos. Impensável mesmo. E abriram o jogo para a dupla de sabiapocas.

       A guria, então, brigou contra os familiares com cabelo desgrenhado com soluços com garras com dentes cerrados com uivos com braços cruzados com socos no travesseiro fofo com profundo amor-próprio com doida nos olhos. E foi trancada no alto do prédio onde moravam no quinquagésimo oitavo andar. Sofreu tanto que começou a chorar chorar e chorou quase sempre... Nossa Senhora de Aparecida! Chorou tanto que inventou um dilúvio particular. O lago foi subindo e subiu tanto que toda a cidade e o mundo ao redor ficaram debaixo da água no mar afogados submersos inundados.

       A guria viu uma mulher de saia em forma de sino tocando violão com os dedos da mão esquerda e achou que poderia, viu uma beldade de olhar de jaguatirica fazer ensaio artístico e também fascinou, viu uma pilota de boné num jato voo rasante e também achou, viu uma mochileira de bermuda cheia de bolsos visitar Belém do Pará, ilha de Comandatuba, aldeia machineri, Tracunhaém, Gurinhém, Mari e ainda mais achou que também, viu uma atleta medalhista rabo de cavalo jogando as olimpíadas de Pequim e também idealizou, etc.

       Viu uma garota vestida com roupa enfeitada de ouros e diademas com as flores de rainha-do-abismo e também gostou. Viu uma Iemanjá de pés descalços andar sobre as águas verdes e também adorou. Viu uma modelo em trajes de sol pisar a linha imaginária na areia branca da praia de Araçagi e também amou. Viu uma colibri borboletear de loja em loja e pagar suas contas com seus próprios cartões e também enfeitiçou.

       Logo pensou em virar camurim em virar guatapará em virar papa-vento em virar juruva em virar caravela em virar nuvem branca, e abria os braços cabelos ao vento decote insinuante narinas acesas procurando as asas da imaginação.

       Quatro sóis, quatro luas, quatro horas da tarde, quatro irmãs na janela do quarto andar esperando a lua no quarto crescente. Quatro gerações de tamanduás-bandeiras com seu campo de cupinzeiros prediletos.   

       Um dia pediu doce de abóbora, segundo dia pediu doce de cajá, noutro uma bebida verde ou azul, dia indeterminado um prato cheio de macarrão com molho de tomate, uma semana intermediária para O Guarani que leu até a página trinta dobrando uma orelha.

       Olhando a chuva e o céu velado, contou uma chaminé duas casas três homens bebendo quatro cervejas oito aviões largando dezesseis rios de fumaça de seis cores.

Após o banho e passar perfume andava nua ia de um lado para outro em passos contados pelo quarto seios opulentos joelhos na mesma altura pente despenteado - um convite aos binóculos indiscretos dos prédios e andares vizinhos.

       Depois pensou na cor azul na cor verde nas cores suas preferidas nos encontros de cores e nuances e contrastes e tonalidades do bem-te-vi-pirata.

       Visitou o face telefonou e apareceram pizzas, batatas-fritas, saladas de frutas, massas-folhadas, cor de cabelo, cremes à base de óleo de sebipira.

       Como queria ter filhos, e sonhava, pensou em comer brócolis, o outro dia com a dieta dos sucos de frutas e de legumes, outra vez nos sorvetes coloridos e sem açúcar, pediu até uma cerveja gelada zero cal, ginástica localizada, tatuagem na batata da perna.

       A qualquer hora do dia ou da noite, quando sentia, ela parava na frente do espelho de corpo inteiro e olhava para seus cabelos afofava amarrava escovava alisava sopesava as pontas esticava balançava enfeitava e os beijava com ela ali dentro olhando fascinada olhos brilhantes terna gostosa olhos castanhos se glorificando.

       Um doce de abacaxi com mangaba, ingá-doce com sabor de guabiju, gabiroba apetite de caju, mangangás guarupus na pitombeira-de-marajó.

       Queria um ano de férias em extensão pela Amazônia legal conhecer os rios da direita da esquerda, depois retornar para a axila de Deus atrás da folha do guajará-branco.

       Ao deixar o mundo assim no mais, pensando em voltar no corpo de uma guaiquica, ela no corpo de uma aguapé, ela quem sabe no corpo de uma formiga-cordadeira, antenas ligadas totalmente num espírito formiga, “já sei, caminho até encontrar uma boa árvore, já sei, subo na saca-rolha, já sei, arranco uma fatia de folha verde, já sei, caminho de volta ao ninho, já sei, muito caminho e muito caminhar, já sei, chego no formigueiro deposito a porção de folha, já sei, volto pela mesma trilha junto com companheiras apressadas, já sei, subo a planta outra vez, já sei...” 

       E pensava em outras coisas, o derretimento dos polos, o aumento do nível do mar, o aquecimento global, as chuvas torrenciais na região de Goiana, as secas no rio Mearim, os invernos abaixo de zero em Chaval, as temperaturas altas em Pirassununga, o desaparecimento da lua por dentro da serra do Mar vestidas de azul.  

       A inundação durou o tempo do seu desassossego, uns 40 dias e umas 40 noites. Só se salvaram do dilúvio quem ela rezou para se salvar, ou seja, os peixes do lago do jardim jurupocas piraputangas acarás-discos bajurquis piabas, pois esses sabiam nadar; os passarinhos anambés-de-rabo-branco bate-bicos sebinhos coroas-de-fogo ajurujurás socós-bois-baios tangarás pichororés, pois esses se abrigaram no alto da torre junto com as antenas e lhe fizeram companhia nos longos dias; e, principalmente, o seu namorado amado e idolatrado e salve salve Meruquiá, que, como filho de pescador, tinha um bom barco e sabia aguentar as ondas para chegar até ela pela janela aberta.

       Quando Meruquiá chegou a Guajiçara parou de chover. As ondas acalmaram, o sol apareceu, nhambumirins piaram na sombra do capão, os sons que eram da tarde, as águas foram se esgotando até a normalidade, ruídos sem importância na tardezinha, as estrelas contaram até mil, o rio Taperoá desenhou a fita, a lua veio olhar o lago, notícias quase secretas do fundo do mar, a iara emergiu para pentear melhor os longos cabelos negros e lisos. Um outro mundo, assim do tipo de mata atlântica de comercial, surgiu no novo mundo que era somente para eles.

       Não havia mais nada a dizer a escutar, o que tivesse de ser e seria, amor aconchegante amor interminável amor desinibido amor atraente amor depurado amor incoercível.

       Que desejo de transpiração, que desejo de transfiguração.

       Foram felizes até onde sei, e vão bem, e são muitos que apostam sempre assim mesmo sem parar.

        

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Que Tem Que Seja?


 


      


 

       A história de uma pessoa já está escrita antes de partir antes de chegar antes de qualquer coisa. O papel cada um procura o seu no modo de encontrar. Uma Mãe totalmente maior é que dirige o sol, a terra, o mar, as plantas, etc., o rio, a chuva, o catita, o pitu, o cujubim. O teatro que assistimos tende a nos motivar movimentar calibrar; mas o teatro sempre o palco.

       O dia obrigatoriamente sempre dividido entre uma manhã uma tarde uma noite.

       Um homem amava muito seu cavalo seu carro sua moto sua cerveja gelada seu chute de esquerda. Que certa hora já amava mais que a própria esposa. E o convidou para almoçar todo dia com ele na sua mesa. Depois lhe ofereceu um quarto e roupa lavada.

       Simplesmente o que se viu o que se disse.

       Esse homem logo logo não se deu bem com os seus 5 filhos. Então, uma noite incendiou a casa com todos ali dentro dormindo, a esposa e os 5 filhos e o cãozinho Catabi. Foram morar no paiol ele e a barba, sem remorsos. Para os vizinhos e a polícia disse que foi acidente ou desgraça.

       Se sentou na varanda em sua cadeira de balanço. Cofiando a barba espessa. Alisando a barba negra. Acariciando a barba grande de profeta.

Na sombra de uma copaíba. Nuvens em movimento. Um pouco mais distraído com as taperás em seus voos trançados e de telhados para o ar e para as abas das casas. Um besouro fez mais ruído que um trator.

Em minutos as taperás voaram décadas.

Pois o homem sonhou com um anjo em forma de peixe camurim saindo a partir de um poço. Com a surpresa acordou e ergueu uma prece pedindo mais 50 anos pela frente.

E foi uma longa noite de espera que se arrastou.

       O guaipequinha Catabi poderia ter uma sorte menos compilada e mais ampla. Solto pela casa dentro de casa pelo terreno em torno da casa. Poderia ter continuado a ser o xodó da família, com a família. Um cão tipo vira-lata que se interessava por tudo da casa e por tudo que chegava na casa. Seu território era sagrado, e competente. E passeava na coleira com o caçula quase todo dia pela tarde. Era seu momento de lazer, cheirava cada poste cada janaguba cada latão de lixo cada entrada de garagem. Gostava que lhe coçassem a barriga e especialmente que lhe dessem de comer. Um olhar amigo e cauda vibrante e língua de fora. Catabi gostava muito e balançava para ir até o armazém da esquina, para ir até a padaria, para dar volta na quadra, para cheirar as espécies.

       A filha mais velha do homem que amava sua barba se chamava Juçara ou Jussara. Tinha 16 primaveras, em ponto de bala. Poderia ter sido o que não foi. Poderia ter casado aos 17 com o João Bangalafumenga. O João já tinha um carro e um emprego na transportadora Mangabeira. Eles poderiam morar ali mesmo, com os pais dela, fazendo um puxadinho nos fundos. Ou com a mãe de João no bairro Cariú, onde ficariam tão ou mais à vontade.

       Nesse minuto o mundo andou outra década.

       Vieram diretamente de Paraty e Abadiânia e Piracanjuba e Cururupu e Palmares e Poção de Pedras, em visitas de férias escolares outra vez, os 3 sobrinhos e as 3 sobrinhas do homem que amava sua barba.

       Acari era uma dessas meninas sobrinhas. Num total ainda de doze para treze anos, olhos tenros pele tenra cabelos tenros sorrisos prediletos passos tenros. Que aos dezoito para dezenove poderia sair de casa para estudar em Porto Alegre ou Florianópolis. Iria morar com uma tia que era até parenta do homem que amava sua barba. Lá em Porto ou Floripa, estudaria odontologia ou engenharia e namoraria muito. Pensaria em ser modelo, que altura e beleza e charme e natureza tinha de sobra. Suas saídas à noite para beber cerveja e jogar conversa fora com os amigos num barzinho da Cidade Baixa ou da Lagoa da Conceição. Quando chegasse aos trinta para trinta e um se mudaria para o interior de Pernambuco cidade de Penalva, ou zona rural do Maranhão lugarejo de Catende. Haveria ali de ganhar um filho e nunca mais retornar para rever parentes ou aderentes ou etc. da família. Regressou voando na pele de um passarinho, mais precisamente conhecido como uma xexéu.

       O que tem de ser que seja. Desde o primeiro mundo. E um dia tem que ser o dia.

A paciência que foi aprendendo, deu ao homem a ideia de prender os sobrinhos para engorda. Esperou que se estufassem de gordos. Assim, convocou os parentes próximos, e em especial desenterrou a família a esposa e os 5 filhos e o mascote, para se refestelarem no churrasco. E assou os sobrinhos e as sobrinhas deliciando a todos os convidados. A esposa queria tomar chá de jasmim-do-mato, queria pratos decorados com motivos indígenas da tribo anambé, queria uma nova marca de máquina de lavar louças, queria conhecer nas próximas férias a praia de Olhos D’água, queria morar perto da mãe na ilha de Atalaia. No final, para sobremesa, o homem apresentou os cérebros dos sobrinhos sacrificados nas suas respectivas cabeças separadas destampadas com direito a olhos arregalados olhos estrelados olhos esbugalhados.

       - Direi o quê?

- Que gosto e me divirto com essa lógica?

       - Que já estava desconfiado disso?

       - Pra quê, pra quê?

       - Ah, por favor!!!

       E foi um longo dia de espera que se arrastou.

       O homem e sua barba ficaram zanzando pelo centro da cidade, entraram nos museus nos açougues nas igrejas de todo tipo nos quiosques de garapa nos hotéis da rua principal nos botecos. Sentaram no balcão, ele pediu a cerveja espumante e começou a olhar o chão sem parar. Pelo sim pelo não, mergulhou em si. E bebeu e fumou, mais que o costume, e cochilou.

       Mas era como nos outros dias, os bruaás do trânsito, o sol perseguido por nuvens, as lojas desertas, as manchetes de crimes bárbaros, as japarandubas da rua em fila indiana. Lá um minuto sentiu fome pediu 3 pastéis de queijo e os engoliu em 3 bocados. E todas as mulheres e meninas, umas mais outras mais ainda, sorridentes, sorrisos de modelo nova, não olhavam diretamente nos olhos nos olhos. Seu coração de homem que amava sua barba, embora, seu coração flutuou sobre, como uma pandorga de cores abertas, sobre a cidade pontiaguda.

       O homem e seu cavalo e seu cabelo encaracolado e seu dourado relógio analógico de pulso saíram do palco e de cena aplaudidíssimos. Centauro parou em todas as manchetes de revistas de telejornais de sítios. Marcou época, bateram boca os que disseram escreveram. Ninguém guardou a imagem ou o nome das vítimas, só do algoz. Logo logo teve uma rua com seu nome. Um dia terá uma escola um bairro um chafariz num lugar qualquer desse vasto país.

       Eu mesmo saí do teatro orgulhoso do nosso teatro. Ah, como foi higiênico o desempenho do principal! Ah, o seu cavalo mangalarga puro-sangue, brilhoso, garboso, esportivo, quadrúpede, bandeira, só faltava cantar em italiano! Ah, como meu país é bom nisso! Ah!, e outras coisas, etc., etc.

 

      

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Perda de Tempo


 


          


 

       Conheço a história de Maria e José. Como todos entendem, tem que se fazer as coisas bem feito já que se vai fazê-las.

O casal era um pouco ingênuo romântico para a nossa época, e as famílias respectivas muito tradicionais.

       Não sei se é desnecessário separar o ontem aqui e agora e o amanhã. Não adianta gemer acariciar representar, pois já fomos alguma espécie de bem-te-vi nessa terra que só produzia pássaros hoje aviões ou transatlânticos mais tarde espaçonaves para uma estrela em Escorpião.

       De tiara azul cabelo liso polido preto Maria ficou linda, só isso. Guria de beleza radiosa em olhos enternecidos. Boca macia apetitosa perfumada.

       José ficou esse tempo todo ali amorcegando e emendando um ano no outro até disfarçar um colar de vinte e dois anos. E pra ele era tudo o que faltava.

       Nem conheciam nem distinguiam o mar azul-verde do céu azul-turquesa.

       Os olhos dela alongados rasgados e dele o ritmo que se acelerou. Alta branca roupa amarela e quase amarela sem palavras tudo jogando as pernas em passadas sobre a calçada na praça da Bandeira e pra onde quisesse ir. Os olhares dela pra longe bastantes, os pensamentos em tais e tais sublimidades, os desejos em sorvetes de pitanga. Um jeito de ser bem voltado pra dentro de si mesma.

       Um cometa em cauda com particulares fulgurante.

       Certo dia eles combinaram com o acaso se encontrar, e se encontraram. Já que José estava disposto, a pediu em namoro. Já que Maria estava predisposta, o aceitou em namoro.

       - Você não acha¿!

       - É o que há!

       - Não qué¿!

       - Você não acha¿!

       O sol dourava e poucas nuvens, árvores faziam longas sombras, em outras coisas, bando de anus-pretos voltando pra casa frondosa braúna-parda.

Mas desavisadamente os pais de Maria não queriam o namoro. Maria e José ficaram arrasados sem saber o próximo passo. Pensaram um único dia um único jeito no meio de uma única noite calada: fugir.

Uma chuva orgulhosa universalista vertical medindo a altura da lua.

       Eles fugiram para uma cidade Lençóis na beira de um rio Condeúba. Longas pernaltas de tuiuiús compassadamente pela água rala e cuidadosas de quando em quando. Ficaram por grandes apertos se escondendo da polícia, dos satélites espiões, das câmaras dos shoppings, etc. Aí, também começaram a alvitrar principalmente por causa de brigas.

       A vida de araras é ótima. Mas existem as mesmices. Sempre amanhece anoitece amanhece e nem muito o que fazer.

       Pelas calçadas os seres flutuantes, e de pouca sorte, em total: gentes. Apenas todos os dias do ano, o sol vive viajando, pra cima e pra baixo. O movimento nessa rua sempre fora agitado principalmente nos fins de semana.

Por isso assim, eles viajavam constantemente em proveito de conhecer outros lugares, Pilão Arcado, Inhumas, Itapevi, Terenos, Valença, Guajeru, Salto do Jacuí, Icó. Sempre que podiam, e era seguido. Admiravam montanhas, rios, praias, árvores, aqui e ali fazendo fotos com o celular.

       Inda mais que não pareciam conseguir tirar um rebento. Mas plantavam cada ano um renque de plantas como compensação, guaporé, sapucaia-branca, capeba, jenipapim, tapiá-mirim, cuipeúna, babaçu. As baitacas, em dias de belo começo de noite, povoavam as copas e palravam todos e as conversas iam interessantes.

       O rio Maria e o rio José pareciam fazer paranás igarapés igapós por certos trechos. O rio desenha num mapa de geografia. O rio e sua automática de memória.

       José tinha doentio ciúme de Maria em tudo, seu jeito de chupar picolé, de se pentear, de mostrar os dentes, de ficar cismando, de cruzar as pernas, de preferir certos óculos escuros, enfim uma doença lá dele. Sem contar com o fato de Maria bonita e jeitosa gostar de usar saias ou vestidos de cores modernas.

       E passa o ano passava ano plantavam aleia de árvores cheirosas, carobaguaçu, aroeira-de-bugre, dedaleira-preta, mimosa, gameleira-branca, cana-brava, taioba, onde e como aconteciam pios gorjeios e assobios dos distintos emplumados diversos, guaxe, carriça, macuco, batuíra-de-coleira, ferrão, jaó, mutum-cavalo, suindara.

Ele tinha enorme ciúme e não a deixava sair de casa se encontrar com o sol, o vento, o mar e a chuva. Começaram logo as agressões com gritos e silêncios e depois os safanões. Ele rasgava-lhe a roupa, cortava-lhe os cabelos quando dormia, passava dos limites.

Um dia qualquer, que sendo terça-feira já bastava, se empolgaram o céu o sol as árvores as cores os seres, uma coisa só e importante.

Maria não segurou mais e voltou pra casa dos pais. Sem esperar que Maria foi e semanas depois engravidou.

Preocupadas espalhadas acesas na noite clara, as estrelas se perguntaram: pra onde foi a lua¿

Na beira do rio Aguapeí, povoavam as jacutingas os colhereiros as araçaris os jaburus as irerês os frangos-d’água.

José jogou na mega-sena acumulada. Maria dormia na cama de solteira com a televisão ligada.

À medida que o tempo passa. A medida em que o tempo passa.

“Eu, José, queria ver o parque Barigui, queria conhecer por dentro o teatro Guaíra.”

“Eu, José, o mundo todo e a Amazônia legal mais que tudo.”

“Eu, José, e aqueles seis dias em Ilha Comprida passaram assim tão rápidos.”

“Eu, José, por pura curiosidade subi naveguei o rio Jaguaribe, dias de sol e chuva se misturaram, plantações de carnaúbas, açude de Orós e visitei Castanhão.”

E isso, Maria tocava flauta-doce e muito. O olhar perdido no meio de uns olhinhos verdes de chorar à noite.

Esses tempos assim tão temporais, manhãs e tardes e jaçanãs, céu claro ventos afoitos campo afora.

No meio do rio Negrinho, os habitantes de mandi-chorão jaú sauá curimbatá jurupoca pacu candiru-açu.

“Eu, José, tenho certeza que já vi Itaboraí.”

“Eu, José, já voltei de São Gonçalo do Sapucaí.”

“Eu, José, nem conhecia rio Aquidauana e serra de Maracaju.”

E o tempo, já esquecido, foi no resumido: faz tempo.

Chuva voltando à terra dos galibi-maruorno em busca do por vir.

“Eu, José, visitei Pinheiro, a praça junto da igreja Matriz, as ruas com árvores, a forma baixa das casas, as linhas das ruas, circulei por ruas que iam até o rio Turiaçu.”

Bom dia! Posso entrar¿ O sol se projetou na madrugada para dentro da maior escuridão. E os pássaros começaram a aplaudir baguari japu-verde juriti tiriva japim-da-mata-encarnado do meio das árvores umbrosas. As cores do lugar. Até mesmo os milagres movimentaram.  

       Depois de três anos em separados, com o filho Jesus, Maria e José se cruzaram por acaso num sítio de bate-papo. Começaram a teclar e a teclar. Um mês nesse vai e vem de mensagens amigas virtuais, marcaram um encontro num barzinho no centro da cidade natal.

       Ah!, a emoção foi a mesma.

       Por algum motivo que agora nem vem ao acaso.

       Os rios que sempre alcançam. Árvores rangendo num capão, que ele mais ela não queriam contar, e eram duzentas e trinta e duas mil árvores plantas ervas de diferentes tipos e cores e alturas. O sol amanheceu e ficou pairando por aí.

       Está muito em moda hoje em dia nas cidades modernas de Barracão, Canavieiras, Salto, Piraí, Campanha, Rio Bonito, Conceição do Coité, Cristina, Vassouras.

       Sorriso, sorrisos cada vez mais, sorrindo olhar e todo o mais, vinham se chegando aumentando, e se reencontraram.

       O rio o sol todo o mundo a todo momento também são daqui.

       Em cada tempo tentando escolher que pessoa quer ficar. Uma pessoa para ser. E que também pareça interessante.

       Se falaram o que cada um viu naquele dia. Depois os sonhos da noite anterior. Ainda mais as atrações nos diversos canais. Mostraram nas fisionomias uns raciocínios sem motivos. Transformaram o abstrato em concreto, o extraordinário em natural, ou vice-versa. Exercitaram a voz e a imaginação. E mais ninguém.

       A chegada da noite veio com estrelas. Fez muito bem. Uma diferença para melhor. Avencas-da-terra em geral opinam pouco. Murmuravam os japiaçós de moradia no meio do capim-açu. Assim que é: os dias as noites com seus conteúdos.

       Se num casal, vivendo uns anos em comunhão e três anos um para cada lado, não houver nenhum desentendimento é porque eles não se gostam e que só ficariam unidos porque não tem nada pra fazer.

 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Em Todo o Caso


 


      


         

       Noite ventosa tinha que ser aquela, e olhos brilhantes acesos na escuridão compacta, vigiavam a janela do quarto da namorada no Morro do Azeite, São José do Ouro. Corridas de preá na várzea. Marotagens de jananaíra entre a folhagem nos carreiros do mato. Pios modulados de invisível coruja-preta. Depois de um tempão os passos se foram, um último olhar pela casa apagada, silenciosos e opacos como sombras.

       Todo mundo é ciumento. A razão é debaixo do nariz. Uns resistem mais outros menos a esse mico.

       Porém, no outro dia, ela veio com aquela cara de guaipeca faminto, que lhe cai bem em certos momentos, e me pediu desculpas esfarrapadas. Mas eu terminei e pronto. Só que aí ela subiu nos degraus e promoveu progrediu desabafou me prometeu:

- Vou te matá na melhor oportunidade que tivé, me aguarde!

- Eu não digo nada!

- Como é do teu costume!

- Ah..., por favor!

Pensei em Deus espacial. Vi a lua complacente. Porque eu queria ver o porquê de.

Andei pelas ruas sombreadas em jacarandás-mimosos saguarajis timbés paxiubaranas-miúdas guacuris guamirins-felpudos cambarás-de-lixa. Conversando comigo, aproveitando um sorvete com chocolate e pitanga, e andando melhor que eu penso. As horas lentas sem que eu, eu mesmo, tivesse o preparo para comentar.

       Lembrei demais, lembrei muito mais, lembrei tanto quanto precisei lembrar, em que dia mês e ano, aquele lugar tão merecido de lembranças, lugar sem igual incomparável, sentados no capim-gomoso de frente pro rio São Lourenço caindo em cachoeira véu de noiva serra da Gandarela.

       Porém, não consigo pensar em outras coisas.

       Quando fechou o sinal pedestre, muitos carros rodaram exageradamente nem podiam ser contados, fiquei emudecido filtrado encandeado poitado pela beleza do espetáculo.

       Se passaram semanas e nada. O mundo e eu seguimos nossa sina já trançada nas estrelas de cinco pontas. Rios de seres e de coisas que iam e que voltavam. Por meia hora fiquei guardando o olhar num buriti do meio da praça General Osório. Uns verdes em tons de inocentes alamandas-amarelas, por enquanto ou etc. Risos prolongados de joão-de-barro, risos simples e engraçados, risos silvestres, risos cristalinos.

Os caminhos e os lugares para andar e ver. Ideias muito espalhadas. Árvores voando com saudade do leste. Mandijubas no céu. A jurema-da-pedra estava onde sempre sonhou estar. Uma menina na porta com vasinho de bromélia florida.

       Mas inesperadamente a ex engravidou. Claro que fiquei desenxabido. Me juraram que o filho é meu. Dúvida eu tive e muitas a partir daí. Acompanhei o rio a montante e ressabiado. Certeza eu sempre que alguma coisa.

       De por onde andar na cidade como um filósofo. Sabendo que ontem mesmo tinha passado num posto de saúde ver a pressão mostrar a língua arregalar a esclerótica ouvir os batimentos falar trinta e três subir e descer cinco degraus botar as mãos para o alto.

       Porém, faço só o que acho que deve ser feito.

       Sou homem, assumo meu filho se meu filho for. Caso com ela e seremos felizes para sempre, como é e será o início do sonho.

       E Deus me perguntou o que eu mais ainda queria.

       Aí, eu resolvi botar mania na casa. Decidi que minha mulher não poderá mais sair à tarde, porque não é legal mulher sair de casa à tarde. Muito menos usar vestido ou roupa legue na rua, mesmo acompanhada dos irmãos dela.     

       Com ou sem explicação, com ou sem pedidos de explicação o mundo vai em frente. A cada dia que me ocorre, a primeira coisa que tenho, é encontrar o que procuro.

Proibi que usasse óculos escuros, pois toda puta já usa óculos escuros e não pega bem.

Minha mulher e mãe do meu futuro filho não atenderá telefone nem internet ou sequer poderá ir ao armazém da esquina, sem a companhia da minha mãe.

Somente eu curtirei a minha esposa os seus cabelos os seus olhos os seus pensamentos. Sob minha asa a bombordo.

Mulher que amo e beijo não faz exposição pública gratuita da sua figura.

 

      

 

 

 

 

sábado, 21 de dezembro de 2013

Seja Lá o Que Quiser!


 


      

       Quando Deus achou melhor inventou de consertar o mundo com o dilúvio.

       E Deus sempre foi Esse um Homem sério. E Deus foi direto ao assunto.

       Favorecer o mundo com uma nova formatação.

Pois bem.

       O tempo fechou e caiu a chuva grossa e firme. A chuva despencou enorme, envolvente, no meio da chuva, e tudo se encharcou com cara de segunda-feira rente das 13h e 30min. Um mundo borbulhou cheio de chuvas.

       O conto é a história de um poema.

       Se achar estas palavras e seguir estas linhas vai encontrar o que quer saber.

       Tudo muito simples e portanto muito fácil. Tudo que se ensinava também se aprendia, ou mudava. As respostas nas perguntas. E tudo isso sempre era agradável.

       O que poderia ser salvo. Menos os dinossauros, que esses eram tão pesados e famintos e gritalhões.

       A grande enchente cataclismo durou o tempo que todos esperavam. Os dias foram passando sempre com chuva no decorrer do período.

       Uns cantos e outros pios transparentes límpidos molhados de sanãs-carijós no alagado entre plantas aningaçus aquáticas.

       Aí foi bom, porque a chuva parou de repente e a arca encalhou no pico Campestre, lugar conhecido de onde se via a Itupeva. Se abriram as portas e as janelas, que foi aquele recomeço de primavera. Árvores oiticoró sacudindo a cabeleira verde aos quatro ventos. Havia par de deuses em cada morro em cada rio em cada árvore gigante. Os ticuna os suruí-aiqueuara os campa os sanamaicã os xucuru-kariri os tsunhum-djapá os txucarramãe vendiam cestos de taquara potes de barro animalistas parecendo tietinga bicho-preguiça tamanduá tracajá cocar de araras-grandes-azuis trombeta uatapu tapioca beiju e compravam caminhonetes 4x4 cabine dupla.

       O momento de cada coisa, movente ou não, o momento de cada ser ou coisa, o momento. Mas não se sabe, ninguém sabe nada.

       Ninguém era indiferente. E ninguém era melhor que ninguém. Nem diferente.

       Os milagres foram acontecendo devagar.

       Sol fez entrevista e o resto fez apresentação. Porque tudo certo acontecendo.

       A surpresa do mundo em detalhes e mil outras coisas.

       E paz peregrina.

       Uma árvore, uma árvore, uma caamembeca, existia ali e pronto, simples assim.

       Sendo que alguns tomaram posse do mar, das ondas, dos cardumes, até das estrelas da constelação do Escorpião e dos astros da bola de futebol.

       Tinha céu azul montanhas azuis imaginárias rios de pedras verdes correndo entre árvores verdes azuis amarelas. Tapirangas conhecidas cantavam nos primeiros minutos da manhã. O teto azul do dia com chapéus brancos em caravelas abastecidas. O vento se misturando com o verde das plantas alecrins-bravos pequiás-amarelos pereiros-da-serra capitiús catuabas barbas-brancas baririçôs-amarelos salgueiros-do-mato.

       O meio ambiente brincava de mil coisas. Acontecendo mil e uma naturais e outras tantas absurdas sobrenaturais.

       A estação preferida do amarelo da flor preferida. Era para ver tudo pela primeira vez e milagrosamente. E por toda a parte as coisas se inventando se divertindo zumbindo chilreando.

       Como se chegar onde se tem de chegar? E fazer o quê?

       O dia mais alto do chão, o dia mais comprido e a noite mais passageira. O dia e a noite iguais em comprimento.

       A estrada passando por lugares.

       O rio Ivinhema era a liberdade e a felicidade espontâneas. O rio dentro do rio. Nem começo nem fim. Líquido e persistente e permeável da montanha ao mar. Nadando em peixes nadando em si mesmo. E estava certo.

       A enxuí veio procurar a flor. O mono-carvoeiro balançou o sucará. A maritacaca ensinou comer butiá. O sabiá-do-campo cantou para a sabiá-do-campo.

       Tons verdes cambiantes.

       Tudo era coisa, tudo estava brincando para ser nomeado.

       Pronto, inteiro, natural, completo, ruflar de asas, vento leste moderado ameno, sol majestoso ousado, árvores rangentes, voos de pássaros proprietários das aroeiras-brancas, caminho do rio murmurante, campo afora de capim-amargoso, tudo fácil como um dia depois do outro e a noite no entremeio permeio.

       Hoje, depois, pois não, em tempo tão distante daqueles dias naturais e inaugurais.

       Ele parou de braços abertos e esticados assim debaixo da pitangueira em época de pitangas. E ele não sabia, e ele não sabe.

       Nos instantes em que duvidou sobre o que deveria falar.

       As macaíbas murmuravam em arvoredo. Os jaós assobiavam na sombra das frutas-de-coruja.

       Naquele tempo, não era nem homem nem criança, naquele tempo. E passeava com chapéu de palha peririma trançada.

       Enquanto o sol nascia, raios de sol oblíquo, o verde-amarelo das folhas ainda pingado de orvalho, ele caminhava pela beira do rio Pirapó. Isso o que mais o interessava. A voz do rio a voz dos coró-corós a voz das árvores as cores camufladas das borboletas-oitenta-e-oito.

Ele estava pensando estava só espírito desarmado pura descontração e não tinha perguntas. Mas não por muito tempo.

       O gavião-caboclo sobrevoava agreste território e as árvores acapuranas-vermelhas comiam pedaços de céu e de terra.

       Experimentou jabuticabas maduras de sol e de chuva e de vento.

       Então, o mundo exercitava porque tinha alguém olhando.

       A lua redonda quieta meiga alada acompanhada de estrelas quentes saía inflando a noite a noite.

       Assim, por onde for, ele adivinhou que ela estava ali no banho de sanga entre as flores de barbas-de-lagoa e de cristas-de-mutum. E ela o descobriu ali rente, mais ou menos admirado e impositivo, entre as tapinhoãs.

       No primeiro dia o casal comeu e se alimentou, foram dormir para acordar cedo.    

       O céu tão certo o sol tão longe nos espaços o tempo afora. Quase deixaram de cumprir as metas do dia.      Descansaram à sombra das árvores, assobios flagrantes do capitão-de-saíra, amanheceram nos braços e no alto dos galhos da árvore braúna.

       Ele respirava seus lábios quentes e se banhava nos seus cabelos longos. Os olhos dela leves como tenras folhas verdes de caapi. Eles se abraçaram resfolegantes.

       O sorriso contente, o sorriso alegre, o sorriso até depois do regozijo.

       Conversaram sem noção e pelo tempo sem duração. Mas não sabiam disso não sabem disso.

       Modestamente, alcançaram os frutos sazonados do araticum-ponhê.

       O sol apareceu e ficou assim. Árvores gigantescas andavam paravam andavam paravam no caaobi. Os pássaros se repetiam cantando.

       Pelo visto, era em ponto de primavera pegando o verão. Uma reunião de flores rasteiras, flores otimistas, perfumes macios, cachos de flores amarelas lilases verdes, zumbidos, voos.

       Uma pequena gruta oportuna, e com ramas e tramas de trepadeira confundindo a abertura, e eles entraram.

       Dormiram um muito, e com a tarde já se passando, tomaram o caminho de volta.

       Reiniciavam conversas sobre.

       Caminharam passeando sem pressa, ergueram as cordas passando por baixo do arco-íris, derrubaram em voo alarmado um bando de araçaris, os olhos falando doces, se incomodavam com nada.

       Manhã clara, bem clara mesmo de cristal, e bando tagarela de periquitos-de-encontros-amarelos, manhã estava clara como um ponto final, como uma tarde.

       Tudo isso muito divertido e aconchegante.