O sol dardejava, ninguém falava nada,
ninguém abria a boca para o mais breve leve simples gracejo. O dia estava
bonito como um rio contornando a montanha sem nome sem aqueduto sem usina. Um
vento selvagem e agnóstico. Árvores plantas esplendorosas luxuriantes,
alecrins-bravos, urucuris, carás, sumaumeiras, jenipapeiros, burdáchias,
tangaracás-açus. Os besouros voavam com dois pares de asas. A borboleta de três
cores. Combatentes aéreas, as taperás um bando em revoada amedrontavam
ameaçavam arrasar o planeta terráqueo.
Havia no mas mais mundo coisas.
A primeira vez que a vi lembro porque sorria. E eu a
olhei e sorri e ela me devolveu rasgados sorrisos em dobro dobro. Cultuava a
natureza na Estação Ecológica da Jureia-Itatins. Foi amor à primeira vista
visita sorrisos. Vi graça no seu olhar, nos cabelos ruivos franjados, no corpo
de palmeira verde catulé, na vitrina, na praça Dom José Gaspar, na avenida
Tarairiú, na tarde, na Iporanga, no cosmos.
E Deus disse, falou consigo mesmo, depois de fazer o
Circuito das Grutas, Baldim, Capim Branco, Cordisburgo, Jequitibá, Lagoa Santa,
Matozinhos, Sete Lagoas, trovoou depois de relampear raios e coriscos:
- Nunca me aconteceu uma coisa assim!
Esse tipo de sorte e fortuita coincidência,
isso voltaria me acontecer diversas outras vezes durante as várias fases férias
da vida sortida: eu gostar da menina assim conhecida de repente um dia por
acaso e depois conviver com ela e adorá-la hipnotizado. Primeiro em laboratório
e depois naturalmente, primeiro em tese e depois na prática. Como da primeira
vez foi isso mesmo das outras tantas vezes.
No começo o sol era amarelo, no fim a lua
era de prato. O tempo passava. A roça dava milho mandioca caajuçara taioba
tanajuras. As maitacas-verdes avisavam todo o jângal inclusive o mapinguari o
boitatá a boiúna. Era uma época que onça nem comia carne humana só ruminava
capim-gengibre. Da beira do rio vinham os sapos coaxavam. O vira-folhas gostava
de assobiar ou seria a matintapereira. Dona coruja-listrada elogiava o toco de guarantã.
Nada como um dia em seguida de outro, e
um dia, depois de meses, Deus pulou da copa da castanheira-do-pará, mediu a
altura das nuvens e trovoou:
- Pois chega! Agora mesmo é que vai
chover!
Disse isso abriu as asas virou num peixe
saguiru se aventurou sozinho rolou no espaço e desapareceu. Me mostrou, isso
sim, que era possível viajar a perder de vista e viajar além estrelas um lugar
mais avançado que impossível e o céu sempre vazio de puro azul.
Me nos achamos na festa em Cachoeira
Paulista, ao pé da montanha dos Marins. Minas Gerais tem cidades magníficas,
Abadiânia, Jaguaretama, Ipiranga, Ipu, Taguatinga, Atalaia do Norte, incríveis
mesmo. E todo o seu corpo me pareceu de propósito encaixado artisticamente, a
peça por peça que procurava sem saber que milagre. Ela toda ela riu na medida
que eu esperava, fugiu quando eu a queria perto, olhos vivos e brilhantes, o
cabelo escorregando pela cara simpática e faceira, o rosto minado de sardas
sardas, os detalhes ajustados para a minha mão. Eu ela a olhei fascinado. Procurava
cultuava a natureza na região indígena Kararaô, imediações de Altamira. Seus
olhos verdes suas duas esmeraldas enigmáticas impenetráveis, e não deu muito
para fixar olhando olhos assim. Aí, certo dia, depois de um tempo, fomos estudar
no mesmo colégio na mesma sala na mesma série no mesmo horário perto as duas
carteiras. A minha responsabilidade e a dela eram muito grandes. Surpresa que era
sim ela mesma, solteira, discreta, abraçada aos livros e cadernos, marca de
calcinha na calça comprida, a perfeita malícia de guria que eu me iluminava.
O sol nascia dos olhos olhos, os
inhambus-chintãs correndo piando no campo a caraúna-de-cara-branca voando cabeça-seca
amerissando cavalo zaino pinhão taturana comendo folha de cunambi, oitocentos
de distância num dia útil. Em termos amazônicos, o rio Tarauacá nasce é caminho
de água e deságua no mar.
Infinito um o surpreende qualquer.
Bem na hora o dia claro o sol apareceu
aconteceu isso. O sol trisavô do sol bisavô do sol avô do sol pai do sol. Saguiguaçus
chegaram pularam em algazarra espertos riram gritaram guincharam brincaram
xingaram e esfomeados araçás, cajuís, muricis, pitombas. Disseram de boca cheia
pra fora:
- Ainda é bem melhor que conhecer a
poeira cinzenta da lua...
Ela toda engraçada, não queria que
tocassem seu cabelo pois era lustroso e eu não tocava. Um cabelo ondulado e até
o meio das costas. Morava em Canas serra de Santo Antônio das partes do Brasil.
Pernas longas, óculos escuros tipo vidraça no alto da testa como tiara, mãos de
unhas curtas, leve e elegante e sutil, sacola a tiracolo com desenhos dos
índios ipoteuate e de franjas ou babados ou rendas.
O tempo contava contas de miçangas. E um
belo dia mais dia menos dia nos arredores de Monte Belo do Sul um dia replicante
os saguiguaçus subiram num galho de ipê-vacariano e perguntaram:
- Que frutas da semana teretetemos por
hoje?
Se entreolharam por entre as folhas esgalhos
e um deles atiçou:
- É melhor caminhar e procurar por rastos
em o chão de Marte, uma vez!
Como se tivéssemos sido feitos um para o
outro eu e ela nesse e noutro futuro. E nada iria interferir desacreditar
esquecer separar. Eu nos amávamos. Estávamos nós sorrindo. Ela cantava umas
canções que diziam pro vento afastar o sol a lua a chuva o deserto o etc. Sentíamos
os olhares, os interesses convergentes, os círculos centrípetos, os encontros e
reencontros sem planejamentos, das coincidências até as confidências e
interferências. E gostávamos do meu cheiro e do cheiro dela e de trocar
palavras ensinadas pelos índios matipu. Pois era a pura verdade e eu só tinha
que agradecer acreditar orar agradecido. E eu nascera acreditando nela por ela
por mim. Que sempre apreciava cultuava a natureza no arquipélago de Mariuá. Gostava
de ler os livros que eu lhe recomendava, e me pedia tanto para parar de beber
que consegui. Minha cidade preferida era Lorena e a dela até nisso
concordávamos era Corupá. Até aí tudo como um sonho interestelar. Olhos de
coração estelar e verdes.
Uma noite num bar em Itamonte, praça Dom Feliciano,
o tempo que leva e traz, eu e nós dois na mesa do bar tomando cervejas e nos tocávamos
teclados com a ponta dos dedos. Beijos úmidos e quentes. Abraços com efusão. E
as conversas nos olhos nós olhando cara a cara:
- Já conhece a praia do Mar Grande?
- Mas conheço Monte Santo, São João do
Meriti, Santiago, São Domingos do Sul.
- Cristal do Sul, Tabatinga.
- Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho do
Ouro, Estrada Real.
- Me dirigir ao sol me dirijo ao sol.
- Assim, automaticamente, ah ah ah!...
Cabelos replicantes entre os loiros e os
morenos. Sempre me conseguia o que queria. Dois cotovelos na mesa me olhando
com profundidade as mãos segurando o rosto. Um cotovelo na mesa com a mão no
rosto segurando o queixo olho mais fechado por causa da fumaça a outra mão com
dois dedos no cigarro e três dedos no copo de cerveja clara. Lábios doces e
sorrisos um pouco finos molhados de cerveja clara.
- Gosto muito do livro e me abraço com
ele calor intimidade amizade. É uma suavidade uma linguagem andando na história
contada na lenda talvez até no mito. As palavras desaparecem escolhidas
ocultismo. Descrições de terramarear e mesmo surreais. As figuras dançando na
mente como as ilustrações de pintura naif. O autor caminhando como quem escreve
como quem conta como quem lê como quem fala para a tribo na beira do fogo. Degusto
poupando devagar o livro, consumindo a história como uma promessa uma certeza uma
sobremesa. Fico embutida engastada na narrativa. Pois não sei o que será de mim
remorso quando o terminar, me sabe bem, quindim, sagu com musse de chocolate e
bolachas maria, açaí com mel e amendoim, água de coco, sorvete de pitangas, torta
de chocolate.
- Eu já acho que a história vai além do
quadro. É o que imagino, é o que espero. O quadro na parede, entende?, e além
do quadro como seria? A paisagem não termina aí.
- Como uma continuidade fora da moldura.
- Exatamente. Mas uma continuidade que é
uma continuidade ou extensão do próprio autor da própria história e que o narrador
deixou de fora. Não é minha invenção, é mistério do próprio narrador, é recorte
do narrador e eu vejo isso, entende?
- É, e depois, tem sempre a possibilidade
de encontrar um disco voador e alienígenas com um exemplar de cada coisa no
bolso, o céu azul, parque do Jaú, algumas palavras dos índios kanamari chinen
(vento) uchu-u (lua) tam-num (sol) tuxaua (chefe) tinga (branco) afo-ô (céu)
chu-ô (chuva) marinauá (líder), aleia de coqueiros-dicori, ariranhas pegando
sol no tronco encalhado, mutuns-favas piando no mato, arapaçus-verdes conversando,
alarido de pitiguaris, bigornas de arapongas.
- Em Alexânia, em Itanhandu?
- E todo mundo que nascera com ele já
estava morto. O barulho de conversa das palmas carnaúbas com o vento. E ele
estava ainda vivo no laço do começo com o fim do mundo.
- Profissão de fé, missão, sacerdócio,
projeto de vida.
- Andar pelas casas e ruas e praças e
rios de Uarini, Fonte Boa, Maraã, Tefé é experiência indescritível. E há outras
cidades que são curiosas.
Durante sempre ela seus olhos me
aprofundavam para dentro dos meus. Hoje imagino isso, mas naquela hora nem me
passava pela cabeça. Sábado, sábado à tarde, domingo dia todo em Itapé. Mais
tarde me perguntou se aproximando da minha cara enchendo a tela espuminha de
cerveja clara no lábio superior:
- Veja lá olha lá se você me ama?
Antes dessa pergunta dessa resposta ela me
confidenciou que um colega nosso da mesma faculdade tinha se declarado e até
chorara pedindo com muito respeito e cuidado e de joelhos que se casasse com
ele, etc. Achei tudo um assunto muito abichornante um fiasco um vexame um enjoo,
para ser sincero. Eu queria outra coisa. Comecei a desgostar completamente do
mundo dos seres vaidosos dos bípedes pensantes dos androides ululantes. Isso
acabou com meu estilo, compreende? Comecei a desamar a perder a derreter ali
mesmo. E as bocas desconectadas dos respectivos cérebros. Por que ir de avião
até Três Corações, por que saber do rio Acuriá, por que conhecer a serra de São
José? Comecei e terminei reparando que ela sentava a cavalo na cadeira, tinha
brincos de odalisca, patuás de fitinhas multicores alternadas no pulso no
tornozelo, tatuagens de inscrições chinesas atrás do pescoço, correntinha de
ouro sagrada com o camafeu naufragando em a covinha dos seios, palitava os
dentes na mesa, mania de passar os cabelos para trás das orelhas, lábios
pintados de café, sombra nos olhos para afetar olhar fatal.
E depois, depois da pergunta à queima-roupa
eu não pude mais, e desacelerei, mas disse, já muito sem apetite, sem graça,
com fome de comida, com necessidade de água que passarinho bebe e vontade de
dormir dormir, eu falei:
- Vou até ali no banheiro e te respondo
na volta, pode ser?
- Sim, claro, oquei, perfeitamente!
Fui como pensando voltei nem falei mais
no assunto ela também não e as duas horas de pingue-pongue. Cervejas e batatas
fritas com queijo ralado estava tudo normal satisfatório comum, tanto que ainda
me lembro lembro.
Acolá esse para grande é cá país lá.
O sol apareceu em silêncio, os pássaros na
algazarra pula-pula risadinha joão-barbudo tecelão tiê-preto pichororé
marreca-caneleira, as árvores esfomeadas, as gentes espiando com o rabo dos
olhos. A cutia correu desapareceu se infiltrou na camuflagem. O rio parou para
ver a imagem da índia catuena refletida. O que fazer em Vinhedo? O que ver em
Conceição do Mato Dentro? O que esperar descobrir peripatus acacioi em Tripuí. O
povo de Ouro Branco está certo de que os sacis existem. Os óvnis aparecem em
dias de noites estreladas.
Por que aí paramos naquele enleio de eu e
ela e nós dois. Que é realmente o meio da estrada paralela. Ela gostava de
música em geral e eu de literatura espacial.
- Você conhece o Kama Sutra?
- Eu já pratiquei e entendo e recomendo em
todas as direções e posições e etc.
O santo do dia, vem santo vai santa, os
santos do dia, São Frei Galvão. Sempre assim o mesmo rio, praticamente. O sol
partiu da serra de Quebra-Cangalha rumo do palácio majestoso na Pedra Redonda
nascente do rio Jequitinhonha. As guaraiúvas contavam dinheiro abanavam ao
vento. Voavam perfeitos insetos aerodinâmicos em todas as frequências.
Na é curiosidade a outra e rua.
Os seios pequenos nem me importava. Nem
mesmo a cicatriz no supercílio direito. Disse que foi um trauma de infância
descendo um pé de jabuticabas. Ela cultuava a natureza a serra do Espinhaço a
montanha do Itaguaré o rio Canumã. Procurávamos um equilíbrio emocional. Rosto
afogueado, língua entre os dentes como jabuti-aperema como tamanduá-bandeira
como macaco-de-cheiro como bate-pará com muito calor o olhar de cachorrinha
amorosa ou sonolenta invertebrada miração o corpo nós dois estava pegajoso lânguida
lânguida ponta dos cabelos molhados volúpia nós nos furiosamente durante os
fins de semana.
- O que você está pensando? O que você me
diz disso?
O sol acordou do tal e qual sono reparador.
Vinha de lá com certeza um céu escorregadio. Muitas cidades no roteiro e
aldeias, marabitana oiampi baré marimã, serra de São Francisco, palácio São
Cristóvão na Quinta da Boa Vista e outros passeios roteiros currículos
culinárias. E verticalizou subindo como balão inflável infalível inflamável.
Sem consultar a minha vontade a minha astrologia a minha tecnologia e o que foi
que eu disse e repito:
- Não lhe dou essa ousadia!
Deus respondeu, fingiu não me ver nem me
ouvir respondeu pelo sol trovoou ali sem nuvens com aviões comerciais discos
voadores pôr do sol andorinhas parque Tenente Siqueira Campos o instante de
muita luz cores mar e ele o sol muitos carros carros, tonitruou:
- Minha hipótese que chove antes das 17h.
E seu o meu rosto de Deus tinha um ar de
lua nova e o cabelo branco desbandeirado as mãos de maestro em estrelas
cadentes.
- Por que nem sou consultado nem o escolhido?
- inquiri.
- Bem, trabalhei dez anos na Ilha de
Itamaracá departamento da minha inteira alto astral alçada - completou.
Acreditei achei tudo incrível opinião
invisível fantasma fantástico espiritual e dei por encerrada a minha participação.
Me perdemos de vista nós eu e ela quando as aulas
acabaram acabaram. Ouvi dizer que fumou muito numa festa de formatura ali em
Capanema. Ouvi dizer que a mãe queria voltar para Gameleira. Ouvi dizer que foi
disputar concursos nos lugares em São José do Mipibu e Itambaracá e Jaguaribe.
Minto, pois teve um dia que nos reencontramos na
cantina da faculdade ela vindo do nada nos abraçamos quase jogou meus óculos
fora cabelo liso com tradicional penteado funcional conversamos rimos me
convidou convidava a turma toda para um reencontro os antigos colegas rosto
muito maquilado o seu aniversário na pizzaria Timbó. E nunca mais nos vimos,
nos abraçamos muito na despedida me beijou nos cantos da boca elogiou meus
olhos queria conhecer a predileta Caxambu eu queria ela e ir com ela mas ela
não me convenceu.
O sol virou árvore ali pelas 11 horas e foi para os
lados de Votuporanga, pedra da Marcela. O buriti com outros buritis, bacabas,
jarinas, ipês-do-cerrado, umaris, bacuris, guarabus-amarelos, taperabás. Isso
acontece com muita gente: o guaraxaim foi até a beira do rio Preto parou ali no
alto do barranco farejando o ar.
Deus olhou para baixo uma vez na vida, isso já pode se
repetir, e disse:
- Este mundo tão cheio, estudar o quê?
Dia como de hoje, o sol andando na sala de um lado
para outro e o pensamento seguindo o pensamento, a rua do Pirajá, casas e loja
de brinquedos, assim me lembro que Deus disse pra mim que ia me ajudar lá do
seu jeito, cavalo fouveiro, dona e cachorro tipo fila no poste, automóveis
bombando músicas gargalhadas namoradas terremotos, árvores antigas enfeitadas
de lâmpadas de natal, elefante disfarçado de pupunha-marajá nunca se parece com
árvore, um deserto é um monte de mar jogado fora.
E agora eu digo que ouvi me dizer modo de me dizer que
casara teve um filho trabalhara não sei o que não sei onde ofício e profissão e
se divorciou e casou segunda vez com um francês de cabelos e barbas vermelhas
que fala francês turco português que conheceu na cachoeira das Andorinhas serra
do Papagaio e foram morar estabelecer em Magda interior do Canadá.