domingo, 17 de maio de 2015

VAMOS A VER


      
       O sol dardejava, ninguém falava nada, ninguém abria a boca para o mais breve leve simples gracejo. O dia estava bonito como um rio contornando a montanha sem nome sem aqueduto sem usina. Um vento selvagem e agnóstico. Árvores plantas esplendorosas luxuriantes, alecrins-bravos, urucuris, carás, sumaumeiras, jenipapeiros, burdáchias, tangaracás-açus. Os besouros voavam com dois pares de asas. A borboleta de três cores. Combatentes aéreas, as taperás um bando em revoada amedrontavam ameaçavam arrasar o planeta terráqueo.

       Havia no mas mais mundo coisas.

A primeira vez que a vi lembro porque sorria. E eu a olhei e sorri e ela me devolveu rasgados sorrisos em dobro dobro. Cultuava a natureza na Estação Ecológica da Jureia-Itatins. Foi amor à primeira vista visita sorrisos. Vi graça no seu olhar, nos cabelos ruivos franjados, no corpo de palmeira verde catulé, na vitrina, na praça Dom José Gaspar, na avenida Tarairiú, na tarde, na Iporanga, no cosmos.

E Deus disse, falou consigo mesmo, depois de fazer o Circuito das Grutas, Baldim, Capim Branco, Cordisburgo, Jequitibá, Lagoa Santa, Matozinhos, Sete Lagoas, trovoou depois de relampear raios e coriscos:

- Nunca me aconteceu uma coisa assim!

       Esse tipo de sorte e fortuita coincidência, isso voltaria me acontecer diversas outras vezes durante as várias fases férias da vida sortida: eu gostar da menina assim conhecida de repente um dia por acaso e depois conviver com ela e adorá-la hipnotizado. Primeiro em laboratório e depois naturalmente, primeiro em tese e depois na prática. Como da primeira vez foi isso mesmo das outras tantas vezes.

       No começo o sol era amarelo, no fim a lua era de prato. O tempo passava. A roça dava milho mandioca caajuçara taioba tanajuras. As maitacas-verdes avisavam todo o jângal inclusive o mapinguari o boitatá a boiúna. Era uma época que onça nem comia carne humana só ruminava capim-gengibre. Da beira do rio vinham os sapos coaxavam. O vira-folhas gostava de assobiar ou seria a matintapereira. Dona coruja-listrada elogiava o toco de guarantã.

       Nada como um dia em seguida de outro, e um dia, depois de meses, Deus pulou da copa da castanheira-do-pará, mediu a altura das nuvens e trovoou:

       - Pois chega! Agora mesmo é que vai chover!

       Disse isso abriu as asas virou num peixe saguiru se aventurou sozinho rolou no espaço e desapareceu. Me mostrou, isso sim, que era possível viajar a perder de vista e viajar além estrelas um lugar mais avançado que impossível e o céu sempre vazio de puro azul.

       Me nos achamos na festa em Cachoeira Paulista, ao pé da montanha dos Marins. Minas Gerais tem cidades magníficas, Abadiânia, Jaguaretama, Ipiranga, Ipu, Taguatinga, Atalaia do Norte, incríveis mesmo. E todo o seu corpo me pareceu de propósito encaixado artisticamente, a peça por peça que procurava sem saber que milagre. Ela toda ela riu na medida que eu esperava, fugiu quando eu a queria perto, olhos vivos e brilhantes, o cabelo escorregando pela cara simpática e faceira, o rosto minado de sardas sardas, os detalhes ajustados para a minha mão. Eu ela a olhei fascinado. Procurava cultuava a natureza na região indígena Kararaô, imediações de Altamira. Seus olhos verdes suas duas esmeraldas enigmáticas impenetráveis, e não deu muito para fixar olhando olhos assim. Aí, certo dia, depois de um tempo, fomos estudar no mesmo colégio na mesma sala na mesma série no mesmo horário perto as duas carteiras. A minha responsabilidade e a dela eram muito grandes. Surpresa que era sim ela mesma, solteira, discreta, abraçada aos livros e cadernos, marca de calcinha na calça comprida, a perfeita malícia de guria que eu me iluminava.

       O sol nascia dos olhos olhos, os inhambus-chintãs correndo piando no campo a caraúna-de-cara-branca voando cabeça-seca amerissando cavalo zaino pinhão taturana comendo folha de cunambi, oitocentos de distância num dia útil. Em termos amazônicos, o rio Tarauacá nasce é caminho de água e deságua no mar.

Infinito um o surpreende qualquer.   

       Bem na hora o dia claro o sol apareceu aconteceu isso. O sol trisavô do sol bisavô do sol avô do sol pai do sol. Saguiguaçus chegaram pularam em algazarra espertos riram gritaram guincharam brincaram xingaram e esfomeados araçás, cajuís, muricis, pitombas. Disseram de boca cheia pra fora:

       - Ainda é bem melhor que conhecer a poeira cinzenta da lua...      

       Ela toda engraçada, não queria que tocassem seu cabelo pois era lustroso e eu não tocava. Um cabelo ondulado e até o meio das costas. Morava em Canas serra de Santo Antônio das partes do Brasil. Pernas longas, óculos escuros tipo vidraça no alto da testa como tiara, mãos de unhas curtas, leve e elegante e sutil, sacola a tiracolo com desenhos dos índios ipoteuate e de franjas ou babados ou rendas.

       O tempo contava contas de miçangas. E um belo dia mais dia menos dia nos arredores de Monte Belo do Sul um dia replicante os saguiguaçus subiram num galho de ipê-vacariano e perguntaram:

       - Que frutas da semana teretetemos por hoje?

       Se entreolharam por entre as folhas esgalhos e um deles atiçou:

       - É melhor caminhar e procurar por rastos em o chão de Marte, uma vez!

       Como se tivéssemos sido feitos um para o outro eu e ela nesse e noutro futuro. E nada iria interferir desacreditar esquecer separar. Eu nos amávamos. Estávamos nós sorrindo. Ela cantava umas canções que diziam pro vento afastar o sol a lua a chuva o deserto o etc. Sentíamos os olhares, os interesses convergentes, os círculos centrípetos, os encontros e reencontros sem planejamentos, das coincidências até as confidências e interferências. E gostávamos do meu cheiro e do cheiro dela e de trocar palavras ensinadas pelos índios matipu. Pois era a pura verdade e eu só tinha que agradecer acreditar orar agradecido. E eu nascera acreditando nela por ela por mim. Que sempre apreciava cultuava a natureza no arquipélago de Mariuá. Gostava de ler os livros que eu lhe recomendava, e me pedia tanto para parar de beber que consegui. Minha cidade preferida era Lorena e a dela até nisso concordávamos era Corupá. Até aí tudo como um sonho interestelar. Olhos de coração estelar e verdes.

       Uma noite num bar em Itamonte, praça Dom Feliciano, o tempo que leva e traz, eu e nós dois na mesa do bar tomando cervejas e nos tocávamos teclados com a ponta dos dedos. Beijos úmidos e quentes. Abraços com efusão. E as conversas nos olhos nós olhando cara a cara:

       - Já conhece a praia do Mar Grande?

       - Mas conheço Monte Santo, São João do Meriti, Santiago, São Domingos do Sul.

       - Cristal do Sul, Tabatinga.

       - Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho do Ouro, Estrada Real.

       - Me dirigir ao sol me dirijo ao sol.

       - Assim, automaticamente, ah ah ah!...

       Cabelos replicantes entre os loiros e os morenos. Sempre me conseguia o que queria. Dois cotovelos na mesa me olhando com profundidade as mãos segurando o rosto. Um cotovelo na mesa com a mão no rosto segurando o queixo olho mais fechado por causa da fumaça a outra mão com dois dedos no cigarro e três dedos no copo de cerveja clara. Lábios doces e sorrisos um pouco finos molhados de cerveja clara.

       - Gosto muito do livro e me abraço com ele calor intimidade amizade. É uma suavidade uma linguagem andando na história contada na lenda talvez até no mito. As palavras desaparecem escolhidas ocultismo. Descrições de terramarear e mesmo surreais. As figuras dançando na mente como as ilustrações de pintura naif. O autor caminhando como quem escreve como quem conta como quem lê como quem fala para a tribo na beira do fogo. Degusto poupando devagar o livro, consumindo a história como uma promessa uma certeza uma sobremesa. Fico embutida engastada na narrativa. Pois não sei o que será de mim remorso quando o terminar, me sabe bem, quindim, sagu com musse de chocolate e bolachas maria, açaí com mel e amendoim, água de coco, sorvete de pitangas, torta de chocolate.

       - Eu já acho que a história vai além do quadro. É o que imagino, é o que espero. O quadro na parede, entende?, e além do quadro como seria? A paisagem não termina aí.

       - Como uma continuidade fora da moldura.

       - Exatamente. Mas uma continuidade que é uma continuidade ou extensão do próprio autor da própria história e que o narrador deixou de fora. Não é minha invenção, é mistério do próprio narrador, é recorte do narrador e eu vejo isso, entende?

       - É, e depois, tem sempre a possibilidade de encontrar um disco voador e alienígenas com um exemplar de cada coisa no bolso, o céu azul, parque do Jaú, algumas palavras dos índios kanamari chinen (vento) uchu-u (lua) tam-num (sol) tuxaua (chefe) tinga (branco) afo-ô (céu) chu-ô (chuva) marinauá (líder), aleia de coqueiros-dicori, ariranhas pegando sol no tronco encalhado, mutuns-favas piando no mato, arapaçus-verdes conversando, alarido de pitiguaris, bigornas de arapongas.

       - Em Alexânia, em Itanhandu?

       - E todo mundo que nascera com ele já estava morto. O barulho de conversa das palmas carnaúbas com o vento. E ele estava ainda vivo no laço do começo com o fim do mundo.

       - Profissão de fé, missão, sacerdócio, projeto de vida.

       - Andar pelas casas e ruas e praças e rios de Uarini, Fonte Boa, Maraã, Tefé é experiência indescritível. E há outras cidades que são curiosas.

       Durante sempre ela seus olhos me aprofundavam para dentro dos meus. Hoje imagino isso, mas naquela hora nem me passava pela cabeça. Sábado, sábado à tarde, domingo dia todo em Itapé. Mais tarde me perguntou se aproximando da minha cara enchendo a tela espuminha de cerveja clara no lábio superior:

       - Veja lá olha lá se você me ama?

       Antes dessa pergunta dessa resposta ela me confidenciou que um colega nosso da mesma faculdade tinha se declarado e até chorara pedindo com muito respeito e cuidado e de joelhos que se casasse com ele, etc. Achei tudo um assunto muito abichornante um fiasco um vexame um enjoo, para ser sincero. Eu queria outra coisa. Comecei a desgostar completamente do mundo dos seres vaidosos dos bípedes pensantes dos androides ululantes. Isso acabou com meu estilo, compreende? Comecei a desamar a perder a derreter ali mesmo. E as bocas desconectadas dos respectivos cérebros. Por que ir de avião até Três Corações, por que saber do rio Acuriá, por que conhecer a serra de São José? Comecei e terminei reparando que ela sentava a cavalo na cadeira, tinha brincos de odalisca, patuás de fitinhas multicores alternadas no pulso no tornozelo, tatuagens de inscrições chinesas atrás do pescoço, correntinha de ouro sagrada com o camafeu naufragando em a covinha dos seios, palitava os dentes na mesa, mania de passar os cabelos para trás das orelhas, lábios pintados de café, sombra nos olhos para afetar olhar fatal.

       E depois, depois da pergunta à queima-roupa eu não pude mais, e desacelerei, mas disse, já muito sem apetite, sem graça, com fome de comida, com necessidade de água que passarinho bebe e vontade de dormir dormir, eu falei:

       - Vou até ali no banheiro e te respondo na volta, pode ser?

       - Sim, claro, oquei, perfeitamente!

       Fui como pensando voltei nem falei mais no assunto ela também não e as duas horas de pingue-pongue. Cervejas e batatas fritas com queijo ralado estava tudo normal satisfatório comum, tanto que ainda me lembro lembro.

       Acolá esse para grande é cá país lá.

       O sol apareceu em silêncio, os pássaros na algazarra pula-pula risadinha joão-barbudo tecelão tiê-preto pichororé marreca-caneleira, as árvores esfomeadas, as gentes espiando com o rabo dos olhos. A cutia correu desapareceu se infiltrou na camuflagem. O rio parou para ver a imagem da índia catuena refletida. O que fazer em Vinhedo? O que ver em Conceição do Mato Dentro? O que esperar descobrir peripatus acacioi em Tripuí. O povo de Ouro Branco está certo de que os sacis existem. Os óvnis aparecem em dias de noites estreladas.

       Por que aí paramos naquele enleio de eu e ela e nós dois. Que é realmente o meio da estrada paralela. Ela gostava de música em geral e eu de literatura espacial.

       - Você conhece o Kama Sutra?

       - Eu já pratiquei e entendo e recomendo em todas as direções e posições e etc.

       O santo do dia, vem santo vai santa, os santos do dia, São Frei Galvão. Sempre assim o mesmo rio, praticamente. O sol partiu da serra de Quebra-Cangalha rumo do palácio majestoso na Pedra Redonda nascente do rio Jequitinhonha. As guaraiúvas contavam dinheiro abanavam ao vento. Voavam perfeitos insetos aerodinâmicos em todas as frequências.

Na é curiosidade a outra e rua.

       Os seios pequenos nem me importava. Nem mesmo a cicatriz no supercílio direito. Disse que foi um trauma de infância descendo um pé de jabuticabas. Ela cultuava a natureza a serra do Espinhaço a montanha do Itaguaré o rio Canumã. Procurávamos um equilíbrio emocional. Rosto afogueado, língua entre os dentes como jabuti-aperema como tamanduá-bandeira como macaco-de-cheiro como bate-pará com muito calor o olhar de cachorrinha amorosa ou sonolenta invertebrada miração o corpo nós dois estava pegajoso lânguida lânguida ponta dos cabelos molhados volúpia nós nos furiosamente durante os fins de semana.

       - O que você está pensando? O que você me diz disso?

       O sol acordou do tal e qual sono reparador. Vinha de lá com certeza um céu escorregadio. Muitas cidades no roteiro e aldeias, marabitana oiampi baré marimã, serra de São Francisco, palácio São Cristóvão na Quinta da Boa Vista e outros passeios roteiros currículos culinárias. E verticalizou subindo como balão inflável infalível inflamável. Sem consultar a minha vontade a minha astrologia a minha tecnologia e o que foi que eu disse e repito:

       - Não lhe dou essa ousadia!

       Deus respondeu, fingiu não me ver nem me ouvir respondeu pelo sol trovoou ali sem nuvens com aviões comerciais discos voadores pôr do sol andorinhas parque Tenente Siqueira Campos o instante de muita luz cores mar e ele o sol muitos carros carros, tonitruou:

       - Minha hipótese que chove antes das 17h.

       E seu o meu rosto de Deus tinha um ar de lua nova e o cabelo branco desbandeirado as mãos de maestro em estrelas cadentes.

       - Por que nem sou consultado nem o escolhido? - inquiri.

       - Bem, trabalhei dez anos na Ilha de Itamaracá departamento da minha inteira alto astral alçada - completou.

       Acreditei achei tudo incrível opinião invisível fantasma fantástico espiritual e dei por encerrada a minha participação.  

Me perdemos de vista nós eu e ela quando as aulas acabaram acabaram. Ouvi dizer que fumou muito numa festa de formatura ali em Capanema. Ouvi dizer que a mãe queria voltar para Gameleira. Ouvi dizer que foi disputar concursos nos lugares em São José do Mipibu e Itambaracá e Jaguaribe.

Minto, pois teve um dia que nos reencontramos na cantina da faculdade ela vindo do nada nos abraçamos quase jogou meus óculos fora cabelo liso com tradicional penteado funcional conversamos rimos me convidou convidava a turma toda para um reencontro os antigos colegas rosto muito maquilado o seu aniversário na pizzaria Timbó. E nunca mais nos vimos, nos abraçamos muito na despedida me beijou nos cantos da boca elogiou meus olhos queria conhecer a predileta Caxambu eu queria ela e ir com ela mas ela não me convenceu.

O sol virou árvore ali pelas 11 horas e foi para os lados de Votuporanga, pedra da Marcela. O buriti com outros buritis, bacabas, jarinas, ipês-do-cerrado, umaris, bacuris, guarabus-amarelos, taperabás. Isso acontece com muita gente: o guaraxaim foi até a beira do rio Preto parou ali no alto do barranco farejando o ar.

Deus olhou para baixo uma vez na vida, isso já pode se repetir, e disse:

- Este mundo tão cheio, estudar o quê?

Dia como de hoje, o sol andando na sala de um lado para outro e o pensamento seguindo o pensamento, a rua do Pirajá, casas e loja de brinquedos, assim me lembro que Deus disse pra mim que ia me ajudar lá do seu jeito, cavalo fouveiro, dona e cachorro tipo fila no poste, automóveis bombando músicas gargalhadas namoradas terremotos, árvores antigas enfeitadas de lâmpadas de natal, elefante disfarçado de pupunha-marajá nunca se parece com árvore, um deserto é um monte de mar jogado fora.

E agora eu digo que ouvi me dizer modo de me dizer que casara teve um filho trabalhara não sei o que não sei onde ofício e profissão e se divorciou e casou segunda vez com um francês de cabelos e barbas vermelhas que fala francês turco português que conheceu na cachoeira das Andorinhas serra do Papagaio e foram morar estabelecer em Magda interior do Canadá.

 

      

 

domingo, 12 de abril de 2015

N Foi Dessa V


 

  
 

       A manhã de vidro limpo que surgia entre as árvores. Uma beleza ainda mais que bela. Era cedo do dia e as ruas estavam sozinhas. Como é engraçado o rio, como é engraçada a embaúba, como são engraçadas as maritacas.  

Mecanicamente então, às oito e meia, partiu um navio embandeirado hasteado. Todos os ouvidos começaram a cantar. Como surgiram as aves? E marolas e ondas e pororocas adequadamente.

       Não precisava voltar. O céu estava azul, o ar estava puro, a natureza toda estava amanhecendo. Verde com verde. Rio do Peixe com rio de peixe. Tavuás com aves. Paxiubaranas-miúdas com arbustos. E isso me deixou animado. O sol vem quando quer.

       Nuvens em figuras psicodélicas, nuvens provisórias, rio barulhento, paisagens deslumbrantes, brincalhão, espontâneo e arborizado, o Circuito das Águas, Cambuquira, Campanha, Carmo de Minas, Conceição do Rio Verde, Heliodora, Lambari, São Lourenço, Soledade de Minas. O rio tem resposta para toda e qualquer pergunta.

       Pois viu o sol o vento o rio os paranás os igapós os igarapés as igaras a manhã a nuvem pela primeira vez... os olhos bem despertos, as patativas os quiriris as garças-brancas os guarás-vermelhos os tachãs. Aqui ali tudo desenhado.

Guaraci sim é patriarca, devagar. E gira com o corpo, lê jornais, assina internet, se aborrece com as guerras, o trânsito, os governos, os governantes, os governados, os sindicatos, os comerciais embutidos entre as notícias. Sua energia cósmica indiscutível indestrutível imprescindível. Tem habilidade de sobra para chutar pedras latinhas sapatos bolas pacotes chinelos caixas, etc., gosta de praias com coqueiros, quiosques de água de coco, mulheres bronzeadas de canga, futebol de pelada na areia, caldo de cana com pastel de queijo, batata-frita com queijo ralado. Quando a segunda-feira passa sem sentir e como um raio um foguete um meteoro um jornal diário. E abraça as nuvens em pleno ar. Escala escada de cipó-timbó, subindo de peconha a urucuri. E o astro do dia, sofá amarelo e controle remoto nas mãos, ainda diz isso daqui:

- Oquei! Gosto do mar doce de mar das águas cheias (muito outros mares).

       À tarde junto à água, me senti com cãibras na alma e como folha inútil tombada no rio. O som da cascata aturdiu o ouvido de tal forma que nenhum surrealismo foi perfeito. Procurei, ali na pureza transbordante realeza exuberante lindeza luxuriante, as cores o canto Marcela Marcela as árvores as pedras brilhantes o ouro de Formosa o tesouro de São Tomé das Letras o diamante de São Bento Abade a esmeralda de Arabutã o rubi da teiniaguá na salamanca do Jarau. Mas foram horas de nada nem nada. Uma tarde a água o sol se encontraram no pôr do sol. A andorinha-do-campo imitou o jerimum que imitou a saracura-do-banhado que imitou a araruta-caixulta que imitou o ararapá. O rio seguiu para o mar. E levou pandorga a minha folha em branco.

       A ilha Grande do Gurupá a aldeia piratapuia o pajé Catanduva papagaio-charão no ombro disse que conhecia plantas muitas árvores cascas folhas resinas para tirar remédio garrafadas chamar os bons espíritos ancestrais curar pacientes, anhangapiri, marolinho-do-campo, aturiapompé, ora-pro-nobis, caraxa, anani.

       A culpa é minha por pensar muito em Marcela Marcela. Cheio de sonhos pintado de fantasias cansado de tentar prever adivinhar acompanhar suas manias e manhas e modas e mesuras. O que foi fazer em Congonhas. Cansado de acordar e contar suas graciosas sardas sardas. Ah, a sua pele de cunhantã como não cobiçá-la! Bonita linda como é deslumbrante a lua.

       O sol olhava ora para a porta ora para mim, mãos paradas, cara de sorriso massa, meio equilibrado entre poucas nuvens esgarçadas. Queria quem sabe a um tempo ser reconhecido e sumir. Disse do alto do seu sol uma frase:

       - Oquei! Conheço isso tudo daqui.

       E nem mais nada quis dizer, nem falou, jururás muito verdes, voo uacauã, jataís-mosquitos, canaranas fechando as margens. As águas ligeiras atrevidas visíveis, quase tão abundantes burburinhantes, corriam entre as pedras os ouvidos.

       O vento adornava mexer as árvores, sapupira, pitombeira, caatingueira, oiticica, auíba, mangueiro, aguaí-amarelo, cajarana. As plantas, mimosas, ruivinhas-do-campo, algarobeiras-pretas, sentiam que o vento asas adorava. Coloquei no rosto os óculos escuros que emprestara de Marcela Marcela. Um bando de ararapirangas em casais atravessou o espaço inadvertidamente.

       As nuvens esbarravam nas montanhas as aves de rapina os horizontes. A eternidade nem muda de pessoa. O sol manobra no início do sistema planetário no meio do sistema estelar no centro do zodíaco na cauda em espiral da nebulosa protossolar.

       E a floresta feita ali mesmo um mar verde com macacos jabutis japiras tiús formigas-de-fogo jandiás juremais curicacas-pardas cujubins. Um bando de humaitás barulhentos rasantes cruzou altas velocidades o céu branco no sentido da lua cheia.

O sol desperta a algazarra local, acordo muito bem disposto, a lua liga a tevê no canal bem na hora do telejornal. De tanto olhar e saber eu já sei e vejo que as estrelas são tortas e tais e sempre as mesmas e continuam no mesmo lugar. E isso me deixa enlevado.

Tendo vinte anos da sua idade. O céu estava azul e talvez muito azul. Rosto claro, olhar tupiniquim, sorriso rasgado, Marcela Marcela, os braços aéreos, as pernas longas, um todo de esguia e carnosa carnaúba. Em si assim é muito positiva. A melhor pessoa que conheço depois de mim. O bom mesmo só uma ou outra vez. Caminhava e caminhava mais e mais, não se cansava, queria ler e estudar muitos livros e morar em Niterói para a baía de Guanabara.

       Precisava voltar. A jandaia estava contente de ir à festa do sol. Pois o sol resplandecia. Havia pedras águas correntes e murmurantes pedras submersas muiraquitãs pedras-verdes talismãs pedras ao ar livre escorregador da Zilda, cachoeira da Grota Seca. Havia árvores magníficas de todas as formas e alturas e cores e cheiros e acarimas. Um riacho corrente que fazia piscina apropriada oportuna contida lindoia. Só faltava gente. Tinha macaco preá anta acari-chicote arraia-de-fogo jacaré-de-papo-amarelo sericoia tuiuiú aturiá. A jandaia ave tinha direito aéreo e terrestre e fluminense de estar ali.     

       Olho para lá. Dos seus olhos não tinha a atenção que procurava e nem saberia a verdade que ainda busco. Um dia a gente acorda de surpresa com o sonho do seu rosto do seu cabelo do seu nome Marcela Marcela do seu sorriso do seu olhar. Quando tupã olhou para baixo viu o abandono da terra. O que foi ver em Santa Rita do Sapucaí. O que foi ver em Santa Cruz Cabrália. O que em São Sebastião do Rio Verde. As flores da sumaumeira adoçam frutos penduram estrelas depois viram sol lua ninho de japim com enxame de tubis. O sol foi e voltou vinte vezes.

       E eu gosto desse silêncio. E se passou meia hora. E continuo a gostar do silêncio. Árvores com flores engraçadas, ramos, ramarias, galhos, esgalhos e ainda folhas folhagens jarrinhas-batatinhas. Um silêncio enigmático misterioso mágico. As margens exuberantes são verdes são matupás, maracujás, avencas, tabocas, samambaias, marantas, mururés, povoadas de socós, seriemas, jaçanãs. Descolo os óculos escuros para não assustar as aves. Um rio vagaroso e de repente por um túnel verde.

       A viagem continuava rio acima, piraíba, gurijuba, pescada, acará, aruanã, curimatã. A qualquer momento poderíamos poderia sofrer uma emboscada. Céu azul grande demais muito alto olhando tudo. O país continental demais fazer muitas coisas haja vista alta lugares altos o sol nasce no alto o rio nasce no alto cascatas araucárias dia luminoso países altos como Serra do Navio, Apuí, Piatã, São Benedito, Brasília, Dores do Rio Preto, Alto Paraíso de Goiás, Sucupira do Norte, fazia o sol, serra da Bocaina serra da Mantiqueira ou mesmo a serra do Sabarabuçu, óculos escuros para proteger a vista e não ser reconhecido.

       A água é seu elemento e nela Marcela Marcela passa os dias, filha de iara, é atraída pelo rio, é por isso que quando vai visitar a mãe se transforma num peixe de escamas ou de couro, ubari ou jurupoca ou tambaqui ou piraputanga ou tucunaré. Foi, e isso é foi duvidoso, foi acontecer o que aconteceu. E nem era para menos. Isso me deixa suspenso.

       O astro prepara o terreno meticulosamente, a algazarra das aves juruebas, o verde dos pequiás, os insetos flutuantes, as nuvens pelo espaço, o sobrecéu azul, a praia bonita branca fidalga, os macacos, Cacequi, Eunápolis, Duque de Caxias, Várzea Alegre, Paraty e ruas calçadas com pés-de-moleque, rio São Bartolomeu, contagem das horas, tapaiúna, bacuri, mangabeira, umiri-de-cheiro, iara tomando banho de lua, meio alienado o sol responde:

       - Oquei! Passo pela rua em frente das janelas.

       Quando abro o portão. Vou entrando sem me anunciar sem cachorro. Pelo lado da casa caminho sozinho até o quintal nos fundos, araticum-folha-de-salgueiro, acaraú-açu, jacitaratipiti, juquiri. Marcela Marcela tomando banho de sol ao lado da piscina azul transparente. Ainda não teria me pressentido. O sol cada vez mais consciente que se isola. Minha emoção como estar perto do céu. E alguns canteiros de jardim e algumas flores florindo flores de bromélias de orquídeas de baunilhas e as flores ali oferecendo sucos e licores e abelhas e beija-flores. Isso me deixa aéreo. O sol o vento jogam tempestade de folhas secas na minha cara. A rua sobe até as nuvens. A iaci some atrás dos araribás-amarelos. E quando atravesso o rio sinto que ainda assalta atravessar o rio.

       E o seu todo é como um sonho que vai e que vem nas ondas nas marolas nas pororocas. E eles obedecem ao destino aos rios. A eternidade nem muda de lugar. O meu pensamento dominante.

 

 

      

 

domingo, 8 de março de 2015

Antropoide Androide


      


    
 

       Já neste instante quero saber com certeza o exato lugar de surgimento o vento o sol a lua a floresta as formigas-cortadeiras o rio as pedras.

       Daqui onde estou, olho tudo e mais um pouco, vejo muitas coisas imóveis ou se. Acomodado na pedra diante do rio de nome tupi complicado. O dia amanhecendo orquestral dentes verdes. O verão bate na cara. Olho em redor. No céu apenas uma nuvem particular e própria e proposital e profissional. As irerês.

Que importa se meu avô conseguiu fazendas e gados e arrozais, etc., serrarias, madeireiras, passeios pelos cinco continentes? Se meu tio teve mil mortes nas costas e virou lenda? Se meu cunhado quer um carro novo todo ano par e minha irmã pode lhe dar? Se o pet totó do vizinho salvou uma criança de se perder na cidade e virou santo? Se meu primo inventou programa inédito de computador e hoje é um dos homens mais jovens e mais bilionários do mundo? Não vou suicidar por não ter o que os outros conseguiram.

As árvores olham para as coisas que eu não vejo. As plantas falam me chamam para o meio das árvores. As plantas me olham inofensivamente.

Agora vem vindo aí e passa o meu parente distante, ancestral, mais distante ainda, etc., o vento.

No rio tal os barcos e suas pessoas vão e já vêm. Trazem e passam. Acordo em cheio na manhã de dezembro. Por que é assim desse jeito que essas gentes se enricam.

O sol estica a pele e vem a chuva e o pessoal todo e o mundo inteiro ficamos de espectadores de janela e alma lavada e corpo novo. Naveguem.

Meu voo... e abro bem as asas e me dou bem com isso. Precisava esse calor essas árvores Grão Mogol Rochedo Itagibá Laranja da Terra bororo jarapé tarumã-de-espinho tincoã piratantã manati igreja de São Frei Pedro Gonçalves.

Acredito muito num rio arborizado praça rua quintais das casas puruí caá embiú-amarelo maparajuba caraguatá guajuvira-branca. Eu me vejo em situação idêntica.

       Sempre preferimos ter aquilo que os outros já têm, como se o que os outros têm nos tivesse sido roubado. Assim, então, todos nós vamos correr atrás das mesmas coisas. Não somos justos com o que podemos ter, com o que somos ou podemos carregar.

       Desta vez vou com as asas de sempre e vou sem as asas. As árvores vão indo muito bem. Eu sigo pela praia fluvial fazendo meu exercício de caminhada, me olham não deixam de me olhar, bando e aruaís, me respiram, me verde. Aonde vai o vento? Paro numa padaria e pergunto enquanto tomo café. Algum mistério.

       O tempo que embalamos a mim mesmo. Fiz emboscada no rio Maués-Açu, uaraperu, cipó-timbó, tapiri, tejupar, curare, curabi. Fico olhando o rio correr, cuá-cuá!... o socó, croá-croá!... o mauari, bate asas e voeja um pouco, cié-cié!... o martim-pescador-do-mato, levanta voo e pousa, ciu-ciu!... logo adiante a potiri. O barulho ensurdecedor ensurdecedor das asas longas bonitas pesadas verdes das borboletas volteando beijando o barro preto. Enquanto durmo a iara tem a pele de lua sorri sempre muito perfumada e linda. Em tempos que já vão embora, já vão longe, já vão tarde, a lua Jaci percorria os quatro cantos para escolher os pássaros as árvores as pessoas e transformá-los em ótimas estrelas no céu do céu. Até hoje, nas noites de Jaci cheia, se pode ver a iara sentada na iapunaqueuaupê penteando os cabelos na beira da lagoa Parnaguá. E eu mesmo navego de igara até o céu.

       Quando eu andei pelos lugares mais altos dos países mais ou menos temperados terras altas oceanos baixos horizontes de zigue-zagues, São José dos Ausentes, São Joaquim, Carira, Teresópolis, Triunfo, Mata Grande, Dirceu Arcoverde, Dianópolis, Senador Amaral, Matureia, Jordão. Olhando para o cimo se vê Aldebarã olhando para o vale se vê as estrelas olhando para a frente se vê o mar.  

O vento desfolha horas, e quem sabe?, desfolha dias meses séculos. Eu considero o sol. E deixando nuvem vermelha no horizonte, o vento derrapa na curva perigosa estrada poeirenta cascalhenta anônima do dia. Parece que a lei obriga. O Caminho das Missões, São Luiz Gonzaga, Santo Ângelo, São Miguel das Missões. Ver é ver o que está diante dos meus olhos.

       Não sou ninguém quando imito o outro. E se eu quero me comparar vou errar muito porque não conseguirei ser diferente de mim.

       Pela minha frente, todos os dias e o dia todo, desfilam coisas uma feira livre de louco consumo. Sol onipotente inflacionado de moedas.  Pois é mesmo meio-dia na torre mais alta do sol. Vou sou ao mercado Ver-o-Peso e se vende muito e se compra tudo.

       Quando eu estou a trabalho planto cidades, São Pedro da Aldeia, Itaguaçu, Juramento, Quaraí.

       Quando eu estou a passeio eu semeio colho tribo manao, serra de Sapiatiba, lagoa Vapabuçu, ilha de Itaparica, rio Cuiabá, gralha-azul, anhangá, cauã.

       Nem preciso ser pássaro porque não nasci manaquim. E assim por diante. Preciso ir para a montanha para ser eu mesmo e me encontrar comigo? Não preciso de todas as coisas boas.

       Quando eu estou com viagens marcadas prefiro viajar na companhia de Itacambira, Jaraguari, Arraial do Cabo, rio Paraguaçu, ilha das Flores, parque natural Gericinó.

       Daí, o vento quando quer nem nasce aparece dá voltas e curvas e redemoinhos em forma de cuias velocidades balança as folhas verdes desiste sobe mais vento fino para as nuvens cata-vento inicia o dia com o sol da manhã caminhos de paisagens sobe além das nuvens puxando corrente de panos papéis pandorgas urubus vira outra coisa vento alma sem cor uma coisa longa desaparecida e quase nada coisa branca manobrando como vazio avião de vidro.

       O mundo inteiro uma grande festa animada quatorze e quinze à beira do rio. Árvores enormes ao vento alto tudo misturado. A chuva vem com o noroeste e vai para sudeste. Não se fabricam mais árvores com este porte, goiabeira-do-mato, tucum, araçá-do-campo, jatobá-de-casca-fina, acácia-de-flores-vermelhas.

       A viagem continua rio corrente. A qualquer momento poderei poderemos sofrer uma emboscada dos tupinambá ou dos macu ou dos camacã ou dos araueté ou dos guajá. O Circuito das Águas, Águas de Lindoia, Amparo, Holambra, Jaguariúna, Lindoia, Monte Alegre do Sul, Pedreiras, Serra Negra, Socorro. Águas mornas que brincam de rodar e rolar entre as pedras, atraem os raios do sol, vestem verdes e céu azul, peixes de escamas, pirajaguaras.

       Nem nasci para aquela pessoa ou ela para mim. Tudo é: vamos ver! E foi assim que ela partiu no navio deu dois passos e saiu voando.

       As árvores grandes, os galhos alcançando, parecem atingir o céu. Todas as coisas falam o vento o rio as árvores a montanha o japim o coró-coró a uiramiri o aruá o bairari e não existem pessoas.

       Chego na terra das árvores que imitam pedras e das pedras que imitam pássaros e pássaros  que imitam voar de asas em céu claro. O vento a chuva vêm inesperadamente.

       Tudo tem mãe, as coisas todas têm mãe, curuquerê-do-capim, guiratirica, taiuiá-de-cipó, barba-de-bode. Bate pancada na raiz larga da sapopema ecoa pela mata. Naveguem navegar neste rio vai o dia e chega a tarde na noite, marias-brancas, dentes azuis.

       E Miridã ainda bebê foi jogado no rio. Criado pela iara mãe-d’água. No amanhecer Miridã aparece como um menino, brinca nas águas, sobe nas árvores e pula no rio, nada tão bem como peixe acari-amarelo. Na tarde Miridã já é moço, aprende a caçar de zarabatana, aprende a pescar de cacuri de matapi, aprende a namorar cedo porque índio casa cedo. Na noite Miridã é velho e maranduera, veste curu, senta perto do fogo, levanta o braço esquerdo e comenta uma história para contar: Tupã levantou o chão ali e fez a montanha; jabuti-aperema disse pedra; o tronco no rio virou acuré, acuré fugiu mergulhando, entrou pela toca do tatupeba, saiu lá no tronco oco da árvore, virou erva de cunabi para descansar, era mágico, estreitou o rio para poder passar; a jaguaretê disse meio-dia e meia; tocandira disse cã-cã disse boitatá disse teiú disse araújia disse bacurau-d’água via tudo de perto e de longe via até no escuro disse maués; cujubim virou coatá-branco e coatá e foi por vontade própria e coatá virou caiofora; janauíra se atirou lá do alto do perau e voou até certo ponto e caiu sem pressa e abriu as asas para não se arrebentar contra as pedras abismo sem tamanho sem cachoeira mesmo se uma pedra caísse lá embaixo ninguém via e abriu as asas mais um pouco pois tava chegando pousou aterrissou e chegou lá finalmente de guará; dizem ainda hoje que por aqueles alagados e lagos e rios, a iara continua a aparecer, linda como a lua, cabelos longos como o rio, encantando e enganando os aventureiros que teimam em invadir o seu sítio; aquele dia o bicho-preguiça não quis sair do oco da maria-pereira para buscar alimento, estava cansado, e mandou os seus próprios olhos buscar folhas de embaúba, as folhas vieram com os olhos, o bicho-preguiça se coçou e criou penas, virou uirapuru-de-costa-azul, etc., uirapuru esse interessante chegou na beira do rio encontrou a paca e perguntou a ela: - que faz aqui, paca?, a paca respondeu: - não faço nada e você?; e a chuva caiu e me molhou e molhou o Coaraci e molhou a Jaci e molhou o Caruana e molhou a quebra-serra e molhou a jaçanã e molhou o tangará e molhou o peixe pirauaca e molhou a caba e molhou o rio e molhou a mani e molhou a caxiri, chuva barulhenta.

       Entretanto, as árvores estão aqui se estão ainda tão a montanha as nuvens o voo das rendeiras. Foram criados estão sendo novos nomes novas palavras, abati, abativi, piracema, cainamé, sassafrás-rajado. O sol tão paralelo oblíquo perpendicular tão acha que não precisa tão conversar com ninguém:

       - V. por aqui?

       - N. qué dizê.

       - Onde v. mora?

       - V. n. imagina quanto!

       O rio já estando assim deste jeito comum rio bom carnudo navegável. O vento sempre gosta toda vida das praias dos rios das matas das montanhas das cavernas dos aruanás das ariçus das curubas das tabocas. Umas nuvens se dissolvendo brancas altas esportivas. É conhecer e comer.

É tão bom pescar na sombra mesmo que não dê grandes iaras para o jantar, uma vez.

      

      

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Aqui Del-Rei!


 

Era um cara e uma cara. Homem e uma mulher. Uma esposa e esposo. Eles estavam juntos havia onze (11) anos. E eram tranquilos e felizes. A felicidade não existe. Assim, felizes para sempre. Para sempre será (?) um tempo suficiente. Mas poderiam compensar em ter filhos, uma vez.

No começo, não havia noite nem estrelas não havia lua. Noite que não era noite, murucututu que não era murucututu, lua que não era lua. Para onde ia a lua?, ninguém sabia para onde ela ia. E a índia Naiá saiu correndo braços erguidos pela mata atrás de alcançar a lua. Nem tanto à rua nova nem tanto à lua cheia. Os barulhos da noite foram o tem-tém!... o cre-cré!... multidão de vozes sapos jias grilos vaga-lumes galos corujas-buraqueira mulas-sem-cabeça. Foi uma noite, a lua refletida, Naiá chegou à beira do lago e mergulhou para nem nunca mais voltar.

Incerta hora, os três (3) bandidos passavam em frente da casa verde com persianas marrons e um espaço para jardim na frente. E resolveram entrar entrar. Bem armados até os dentes. O Diagonal o Oblíquo o Transversal, originais em muitas coisas. Ocultos ou do conhecimento de poucos. E cheios de confusão.

O casal estava em meio ao show de calouros assistindo e se assustou. Quem será a essa hora?! Compulsivamente, ladrou ladrou no corredor a cadela salsicha  Algeria. Pouco antes dos comerciais, um barulho suspeito a ser investigado na janela da cozinha.

- Te liga, otário! Quero as chaves do carro cartões dinheiro joias, etc.

- Não tenho cartões nem tenho joias...

- Cartão?! Carro?!

- O carro tá na oficina...

- Tá brincando?! Tá de brincadeira, oh meu?! Eu não entrei aqui pra perder o meu tempo! Quero grana, a grana, senão mato os pombinhos!

O chefe dos inclinados e mais seus dois comparsas apontavam as armas para o casal.

- E daí, primo?! Desenvolve ou te apago?!

- Não tenho dinheiro...   

- O que que é, mano?! Ocê tá de gozação?! Procurando a tua hora?!

O homem sentado no sofá verde...

- Te entrego a minha esposa...

Os tripulantes da nave interplanetária os três (3) se entreolharam. O chefe o Diagonal já foi que concordou:

- É isso, compadre! Prezamos os melhores acertos com a maior oferta!

Os visitantes intrusos indigestos amarraram o homem bem amarrado numa cadeira de balanço com apoio para os braços. Desembaraçados engraçados famintos risonhos brincalhões abraçados, foram levaram com a carne de primeira para a ceia no quarto de dormir. A tevê da sala de estar ficou com as ofertas eletrodomésticas torra-torra da rede de lojas Baré.

A lua passeava pela rua Cariúa. Não era agosto nem sexta-feira muito menos dia treze (13), mas o dia consagrado ao padroeiro São João Baptista. Lua original como nunca se viu antes imortal universal e tal qual. É difícil separar as coisas das coisas. Vos segui, vos encontrei, vos deixei e vós o sabeis!

A única vez, primeira e última eternidade.

Depois de quatro (4) horas, os famigerados satisfeitos cansados suados deram o fora por encerrado e foram embora. Mas se mudaram para muito longe. O homem ficou amarrado mais um tampão. A mulher dada como limonada.

Quem anda? A lua. Que lua? Pois a lua anda de trás para frente.

Então, muito mais tarde, o homem conseguiu se livrar das cordas das cordas.

As pessoas boas morrer cedo! Os bons viver pouco!

Vamos esperar outro dia para ver o que que se faz.

E outra vida, outra disposição.

Vai morrer e desaparecer e sumir do mapa sem conhecer a praia de Guaiú, morro Cara de Cão, baía de Guajará, rio Una, cerro do Jarau, parque Itapoã, ilha de Boipeba, Itajubá cidade?! Um pouco por passeio outro por superstição mais um tanto por respeito e curiosidade, sempre leva a algum lugar o Caminho dos Passos de Anchieta, Vitória, Vila Velha, Guarapari.

Enquanto isso, os números possuem vários problemas ao mesmo tempo e durante o percurso do de sempre. Já o sete (7) é uma exceção, não tem problemas ou tem pouquíssimos entraves.

A lua escalava percorria convidava a noite de Nova Prata. Espalhava prata por onde andava. Aqui ali no céu, a estrela corria à procura de outro lugar. Um cão talvez preto com malhas vermelhas, etc. A noite era três (3) ou quatro (4) vezes mais noite. As árvores pisoteadas pela lua, sabugueiro, lixeira, aroeira-periquita, cumanã, iaguá, rabo-de-macaco, contando com mais algumas outras, árvore-de-coral, cuaxinguba, pacova-de-macaco. Entre tanta tanta coisa curiosa, o bacurau arrepiava os cabelos. As pessoas mais velhas do lugar recomendavam recomendavam que ninguém fosse sozinho à noite se aventurar por estradas e outros caminhos e ruas e becos. Aquela noite havia sim lua na terra.

Levou todo o resto da noite. Multiplicou o corpo em oito (8) partes. Embrulhou papel laminado cuidadosamente pedaço por pedaço. Cada posta dentro do seu caixote. Os parentes escolhidos a dedo. Os endereços lançados aos quatro (4) cantos do país.

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

QUEM É O NOME DELA


      


       O amor que tenho por essa guria não é amor propriamente dito propriedade minha. É um sonho de consumo de beleza de modelo de exibição de palmeira juçara de high tech de horizonte. De longa data.

Nasci aqui e sou do mundo.

       Somos amigos os dois das plantas, quer um ex?, cajueira-bravo, taioba, sapucaia-branca, piuveira, cumaru-amarelo, faveleira, biribá... 

       Foguetes sem parar e a virada para o 2011.

E mesmo porque duvido de tudo o que me diz, principalmente desses seus olhos de Capitu. Será que não leu Capitu. Não leu, mas sabe mas entende mas presta muita atenção.

Não sou, não adianta que não sou a ilha da Gipoia!

O sol toca o ponto da manhã com estratégia carícia delícia. O vento sai pulando de arco em arco. O vento pergunta às folhas. E um rio milagreiro de nome Verde em Mato Grosso cachoeiras horizontais cai na minha balança.

Já tinha acontecido assim mesmo em lá as tantas outras vezes.

O astro na sua sina atômica tem a vida ganha. O rio tem a vida ganha. As estévias a vida ganha. Os capitães-de-saíra a vida ganha. Conto as horas conto os dias conto as árvores da avenida Casemiro de Abreu. O quiriquiri não sabe se está certo. A paciência e eu busco principalmente a paciência. Lua cômoda e acolá em cima, aquela lua branca do prato ro-lan-do em câmara lenta.

Pago um táxi para me levar até a esquina vender milho verde. Quem não gosta? Cinco reais. A rua completamente comprida e muitas das vezes sem necessidade. Milho para agradar a noite toda.

E seus cabelos que meses atrás tinham mechas esbranquiçadas e lhe acrescentavam quatro ou no mínimo três anos?! E dias após as mesmas crinas que ficaram vermelhas como fogo?! Agora são melenas negras como a asa da graúna.

Depois de passarmos a limpo, descemos e fomos ao quintal cheio de árvores. Japus-verdes faziam ensaios trapezistas em a tamboril. Uma pixoré ouvia o outro. O vim-vim fazia jus fazia por merecer. As setes-sangrias os ipês-da-várzea ajudam na cura do estômago, se for o caso. Os aipês super protegem a garganta. As pitangas-brancas combatem a febre. As capororocas previnem inchaço dos pés. As orelhas-de-burro úteis para uma boa sombra. Uma figueira-branca perto da casa excelente para guardar dos grandes ventos noroestes.  

       Já nem sei se lhe deixo uma das minhas fotos ou se fico devendo prometendo e negando adiando fingindo esquecer.

       É árvore ver o tempo, é rio ver o tempo, é tejo-do-campo ver o tempo. É olhar uma uvaia e ver o tempo.

       O que se faz para amanhã? O que faz o povo da aldeia aisuari?

       Comentada no mundo inteiro, consumida pelas tribos na região da Amazônia Legal, comemorada nacionalmente como do norte, a castanha-do-pará atingiu a curva do universo. Eficaz para o corpo e a inteligência. E faz bem a todos que é boa toda hora.

       Que o rio cresceu até as nuvens plácidas. E povoa as margens de Santo Amaro da Imperatriz, Águas Mornas, Brotas, Riachinho, Imbé.

       Hoje dia 8 de maio de 2016 cinco meses antes da minha viagem de férias para tal Junco do Seridó e São José de Espinharas.

       Essa fruta é tentação, tentação. Outro dia, por exemplo, peguei o colarzinho que trazia, tipo esses que os índios ticuna usam, e ela me pareceu preocupada e expectativa com a opinião que eu iria manifestar.

Isso tudo, contudo, não parece provável.

       São só detalhes que tudo bem que se repare, mas que não contam em nada, nada.  Atitudes como de crianças no recreio. Sem preocupação com o sentido que os olhares tomam que os gestos carregam que as palavras incitam que os outros maliciam.

       Ao nascer o sol em o dia 17 mês novembro ano de 2002 peguei e fui a pé mesmo até o centro da cidade reparando as ruas as árvores em linha de fila coisa natural coisa normal coisa minha. Todos na rua olharam para mim assim as pessoas os bichos as árvores as cadeiras os automóveis os acampitás. O céu azul as árvores verdes, pequiá-do-mato, estriveira, peribi, canela-pinho, sapupema, granixinga e o vento que sempre vem de longe. Bando de peririguás, juruebas, também os jaós, fogos-apagous. Ficaram as casas, ficou a rua, ficaram as árvores com flores comestíveis. As lojas seus atendentes tranquilos seus fregueses ausentes indiferentes escassos. Os prédios de vidro sob o sol quente, mandaçaias-do-chão, tinguis-da-praia, nhumbus. A partir da praça Aimoré, a paca atravessou o canteiro central entrou pela sapieira no terreno baldio virou cutia virou preá virou cadeira virou taquaruçu virou pacova-sororoca etc vira virou por aí afora ou coisas aparecidas.

       Não sou, não adianta que não sou o caiouá!

       É fácil saber o que ela está pensando neste minuto. Que horas são? Está por lá na sua casa na praia da Joaquina pensando em mim como eu penso nela daqui de Pirapora.

       É a minha natural veleidade. É mania a veleidade. É a veleidade.

No shopping no ginásio na missa de domingo tentamos super disfarçar. Dia 20, 7 horas da tarde e o ano de 2004. Sempre quando nos vemos preferimos aquela troca de gestos e palavras amistosas, um beijo no rosto e tchau, um beijo só no lado do rosto e tchau mesmo.

Minha irmã do meio me recomendou uma certa viúva recém-recém moradora no bairro São Peregrino e eu fiquei para olhar para ver de pesar de ponderar e cotejar e comparar.

A rua ou avenida das árvores enormes em arco em túnel, jatobá, vassourão-de-cavalo, cumbaru, monjolo, embiruçu, formigueira, fruta-de-pomba...

Isso tudo, porém, parece provável.

       Não se sabe aonde essa história vai parar. Parará um dia no rio da Farinha, no rio Pardo, no rio Itanhaém. Alguém vai embora, ou arruma outra, enfim. Até se pode sonhar que dará certo, que lenda de índios sapará ainda conquistará a moda, que o cine Turumã ainda funcione nas tardes de domingo, que sobrevivem ainda os passeios de mãos dadas pela praça da Bandeira, que os pôr do sóis ainda podem ser festejados e revistos aos sorvetes aos algodões-doces aos mates. Que perda de tempo!

       Não sou, não adianta que não sou o camboatá-branco!

       Nesse momento não ouso pensar em mim. Não me preocupo. Vou pela rua avenida Flores da Cunha sentido do Horto Florestal. Olhando os pés das árvores uma do lado da outra árvores altas amarelas verdes roxas, goiaba-verde, guamirim, cerejeira-do-mato, cássia-branca, batinga, guaretá, angico-vermelho. Pitoresco. Quando é época de frutos carregadas de frutas. Os maracanãs sabem que estão certos. É, sim, por que não?!, 2008 foi um ano e tanto.

       De novo céu sem nuvens sem pássaros sem pandorgas sem sapos-martelos onde uma nave extraterrestre interestelar se desloca numa disposição de imaginária resplandecência.

       Ninguém precisa me dizer que é rio pois é rio.

       Passou o dia, foram dois três dias, passaram meses, passou o ano, o lento rio do tempo ao vento, e já eram começos do 8 de janeiro de 2014.

Perdi o meu tempo perdi tempo e fiquei livre aéreo leve e leviano. Não sobra mais tempo para mais nada. Só as coisas mudas do passar do tempo. Penso cismo e não abro a boca. Só os climas, sem os lugares sem os nomes no transcorrer do tempo. O relógio faz-que-fez os ponteiros e vai contando as montanhas de minutos as horas. É possível mesmo que não seja provável!

Vou comprar uma cidade que acha? da cidade de Mormaço, quero adquirir Ibiaí, vou ver se posso com o preço de Patos, me interesso muito por Piquerobi, faço negócio compro vendo troco São Mateus do Sul, tenho preferências por Lajeado Grande, vou ganhar muito dinheiro com Itobi, Juquitiba, Natividade da Serra, Guaxupé, levo fé nos planos para Ribeirão Preto.

       Correram os dias após dias, se passaram os meses, super águas da chuva, e quantos anos, quinze dezesseis, depois já em maio de 1996 quando a população já ficava sabendo da inauguração da ponte. Dois invernos após, aconteceu o fato insólito: a ponte amanheceu pintada de azul. Mais ou menos quatro anos de águas sob a ponte, uma Copa do Mundo, uma grande crise no ministério dos transportes, uma seca na região nordeste do país, uma olimpíada de vinte medalhas, e a ponte com sua pintura definitiva em verde-amarelo. Agora recentemente, uns dois meses para trás, ocorreu o fato esquisito sobrenatural e clandestino da ponte ter aumentado em mais doze arcos. Onde está D para tudo isso?!

       Se chover paga um pinto, se levar guarda-chuva paga um mico!

       Quero dizer que já passei pela mesma rua muitas vezes, de casa para tal ponto de tais pontos para casa, indo e vindo, muitas vezes essa mesma rua passei repassei e passarei e que ainda nem sei.

       E depois, por analogia, veio o vento o rio a chuva o sol as árvores da praça nessa ordem de piaçaba, milho-cozido, espinheiro, sete-capotes, umbu...

       Na verdade na verdade o que o h. mais aprecia e gosta e preza e leva em conta, antes de dinheiro mulher futebol (não exatamente nessa ordem e progresso), é de um bom e salgado churrasco.

       Que um pequeno motor suficiente bastou o pequeno motor que acionou todo o carretel. Pois no princípio era água era fogo era combustível.  

Estava de tarde. Quando a tarde passava da 5h e 30min. Uma beleza ágil onisciente onipresente. A garça-branca desceu do céu rajado. À beira do rio, e que ali desliza numa mansidão de vida ganha. A garça-branca atravessou o banhado, voo baixo, em curva para cá, e a restinga atravessada na sua garganta. Pousou num tronco caído de amarelinho. A ave ali mesmo se acomodou, se acomodou, encolheu uma perna, fechou os olhos, dormiu. Outras aves apareceram que elas vêm ali para pernoitar, costumam abrir muito bem as asas, não batem as asas, abrem bem as asas como paraquedistas pousando, pousam no chão alagado com leveza e calma e já saem caminhando, pararam também olhando tudo em volta, guanaco, coió, mutum, chocão-carijó, boiadeiro, rexenxão, um carpinteiro com palito seco no bico. Poucas nuvens passaram sem a lua. O bacurau estagiando. O sol o sol despontou. A garça-branca já não estava mais. Do lugar do tronco inclinado caído brotaram capim-rabo-de-gato, açoita-cavalo, juciri, arapapá, beija-flor-de-papo-branco, inxu, formiga-correição, jaritataca, marigui, tracajá, saíram andando nadando voando entoando uma vez por ano todos os anos.

       O sol, que todos conhecemos, sabe demais.

       Muito o céu é bonito, muito os véus de cachoeiras entre pedras e verde são bonitos, muito as árvores são perobas-tabuadas, cuitelos, mulungus, ajurus, salgueiros-do-mato, piriris, pinheiros-das-missões...

       Não sou, não adianta que não sou o gavião-de-penacho.

       E o sol lá em cima, e sem nos dizer nada, sem se ver por achado. No outro dia a mesma coisa. Ao meio-dia o sol irá beber junto ao rio debaixo da taxizeiro na sombra. De tardezinha tomará mate com as gralhas-picaças. De noite assistirá televisão no vigésimo oitavo se possível ou no quinquagésimo sétimo andar apartamento da irmã manduri. O céu galáctico. No lar doce lar da irmã apreciará tevê no sofá verde da sala predileta comerá bolo de chocolate com cerveja artesanal de Blumenau. Acordando na madrugada bem cedo tomará mate com os neineis. Descerá até a rua comprar pães cacetinhos para o café da manhã. Em seguida embarcará numa caravela cheia de velas ao vento demanda do oceano mais precisamente o arquipélago de São Pedro e São Paulo.

       E isso tem que acontecer com qualquer um. É assim e tudo isso e exatamente o que acontece comigo nesse momento aqueles momentos todos os momentos.

       Olha!, como eu gostaria de trabalhar aqui. Um garção neste restaurante frente da praça Panará. Servir os pratos pedidos. Oferecer as bebidas. Recolher as mesas. Cumprimentar pessoas que chegam saem salamaleques mesuras ademanes. Saber o nome das comidas das bebidas dos pontos turísticos dos famosos frequentadores. Em pé num canto esperando um gesto mãos às costas solícito e atento a tudo que se passa. Que bom! Sim ou não? E terei aqui outros garçãos e garçonetes outros fregueses. Certa hora cansado pés doloridos tarde da noite irei para casa no bairro São Cristóvão, dormir até meio-dia ou mais, retornarei mareado pálido no começo da noite seguinte. E seria a mesma coisa. Eu só pensaria nisso.

       Não vou me perder. Faz parte a fantasia. Não vou correr atrás de coisas que não posso ter, que não me pertencem, que me fazem mais tolo do que sou. A ilusão da ilusão da ilusão da revolução. Não me vejo não vão me ver no encalço dessa linda e bela Marília de Dirceu.

       - Isto é o que sempre digo e lhe digo.