domingo, 14 de setembro de 2014

Quando Mais Não Seja


      

 
 

      

       No universo espiral flexível simpático... num horto qualquer e distante e sossegado do cosmos... etc., por onde anda e observa... etc., mais por força do hábito inventa dorme... etc., sem tempo sem pressa sem espaço... as palavras as sílabas as letras os números em as correntes de... etc., completo associado sagueiro-da-terra rio Alpercatas ilha das Flores formiga-cortadeira piraba cotia biguá onça-pintada... etc., misturado de todo em as brancas nuvens, o Senhor.

       Ainda não entendo nem acredito nem necessito e não imagino por que essas coisas aparecem na minha rua na minha retina em a minha aula no meu círculo de giz a minha frente na minha lata.

       E olha como se vê no céu em que uma estrela vale tanto quanto mil.

Há metamorfoses que antes de ser já pagam caro muitos e muitos dos pais dos avós dos bisavós, etc. Então, temos coisas carregadas que herdamos dessa gente dessa natureza dessa caravela dessa romaria. Porque uns têm que aprender a ser felizes, e outros a ser desfrutáveis.

       Esses dias eu vi um tatuapara cuandu mocó sagui-de-duas-cores. Ele tinha os dentes tão grandes e salientes que não podia parar de sorrir, sorria sem querer, sorria mastigado. E olhava sorrindo muito desenxabido os outros guris nos brinquedos brincando.

       O verde do mato, o verde dos tipis-bravos, o verde bonito e caprichado. Aves nadavam bem perto da água anambé-azul coscoroba tuim gaturamo-verde tetéu ajurucatinga anhuma itapema vira-folhas. O ouvido do rio com suas canções de água pedras árvores passarinhos e borboletas e besouros e zabelinhas. Outras árvores outras caras e outras figuras canela-de-ema coronha olho-de-cabra saguaraji erva-lanceta gameleira-de-cansaço avenca-da-terra. O dia que adora chuva. Manhã onde mora o sol ovo indez. Céu que não acaba. Lugar da chuva.

Assim vendo eu fiquei na minha, não sabia se eu era um dos que brincavam alvoroçados e sem noção ou se era aquele etê o da arquibancada plateia.

       É o que um menino sozinho pode querer e fazer? Se fosse em adulto teria as lembranças, poderia dizer das suas saudades, chamar amigos, mostrar as mãos, falar das cidades por onde andou, da aventura que explorou o Itaimbezinho, da quadra onde jogou, das árvores que escalou, do rio que nadou, da praia que conheceu fulana.

       Os coqueiros-carandaís da praça são três e lado a lado. E o bom tempo do verão que começa.

Mais e o menino que nunca teve uma bicicleta? Vai feliz de quê? Que lembrança? E dorme sem nenhum sonho de ir e vir.

Ficaria uma hipotética para outra vez. O espaço das árvores ibapoi, cigana, majuba, ajuru, vinhático-testa-de-boi, caixeta, bilreiro, tipuana. Haja vista o caso do caajuçara.

       Veio um piano do mundo mágico que entrou na sua história de coisa de nada de ninguém. Poderia ter sido uma bola, um carrinho, um avião, uma prancha, um livro de lendas dos índios coropó, até mil games, mas foi um piano. Aprendeu tudo de ouvido no prazo de três quatro meses.

Tocou tudo que os gênios compuseram e que os pedestres não sabem nem começar. Os acordes os sons e as harmonias.

Vontade de aquário é chuva. Os peixes aparecem cores circulam rendem alucinam cores por dentro da água límpida as folhas amarelas e as pedras polidas.

E as viagens consagradas para os lugares que só os talentosos têm direito de frequentar. Era um outro mundo. Mesmo de repente cheio de luzes tapete vermelho galerias e aplausos.

O céu azul e até mais. A baía de São José. O rio Araguari. A serra das Araras. Uma semana um mês muitas estações na aldeia dos gerém. Céu de beleza diáfana inefável. Os fins de semana em Itupeva.

Na praça Gonçalves Dias os arrulhos as conversas intermitentes, os três irmãos coqueiros.

Pois o rapazinho, camuflado ao piano, sorria com todos os seus enormes dentes, de olhos fechados, na sua cadeira elétrica, óculos grandes, pianíssimo, sorriso de cavalo, dentes de teclado, cabelos assombrados, braços mãos dedos driblando notas, dentes presas de sabre, engraçado, dentes de marfim.

E só necessitava do ar para ouvir.

       Dia de mil sóis e sinais de música. Dia de mil cantos e gorjeios e trissados e assovios. Dia de mil asas irisadas. Dia de mil folhas de árvores. Dia de tesouro escondido entre mil e uma ilhas Ubatuba de areias brancas. Dia de vento cantar nas folhas da cuipuna e uma duas trezentas mil. Dia de mil peixes comendo frutas amarelas com as pedras e a corrente.

       O recendente caldo de cana com abacaxi, o tempo para onde corre com os anos tão depressa, uma árvore desse porte castanheira-do-pará tem tudo em suas mãos, o rio que imita o vento.  

Os dedos e os ouvidos cheios de caminhos, inaugurando o tempo novo, ondas tímbricas temperando o ar, sons de cores.

      

sábado, 16 de agosto de 2014

Você A Conhece?


      

 

          

 

       O rio despreocupado

       O rio cauteloso passou

       E a paisagem caudalosa.  

       O poeta o semideus o avatar dos homens e dos bichos apareceu pouco tempo antes do século XX.

Isso me causa surpresa porque faz tempo paca, e naquela altura do mundo ainda era tarde tarde o Império do Brasil.

       Sempre lembrou o lugar

       A roupa florida

       O cheiro dos seus pulsos

       O riso de corruíra

       O sol a lua no espaço

       O brilho dos olhos

       Os outros mil beijos

       E sempre e muito pouco tempo.

Mas dali ele só nasceu, só trouxe a data, mal soube qualquer coisa. E veio a falecer, embora, com a plena ditadura militar, os anos 70 sem graça com taça com nuvens baixas e pesadas de chuva.

A todo momento

Em toda parte,

Faz tudo que for possível o homem

O impossível o tempo.

Todas as providências são tomadas

Para que as coisas corram assim.

Não, nem claro que gostasse de militares, de caciques, de coronéis, de fidalgos, de potentados, de fazendeiros, mas puro acaso, jogo de sortes do azar. Porque uma vez, como grande poeta que sempre foi,

Céu com azul surrealista

As árvores paradas

As copas paradas

As folhas verdes esperando o vento.

O sol no chão da chuva

No chão do vento

No chão do tempo.

- e se eu fosse Deus -, teria feito melhor morrer, e encerrar a carreira ou antes ou depois dessa página obscura obtusa pontiaguda da República do Brasil.

       No entanto, entre esse todo tempo do nascimento até a morte, muita coisa sucedeu na sua vida, muita água rolou por debaixo das pontes. E praticamente 98% cantou contou, seja em verso ou em prosa.

Uma nuvem estupenda e silenciosa remava para o norte para o sul

       E fazia horas e havia estrada

       Lá por cima ainda um avião naquela direção

Um vento qualquer contava as folhas da paineira uma por uma.

       A voz da corruíra lembrava ela

       Com a manhã febril

       Quase não comia e pouco dormia.

       Um rio ali perto sem cessar.

       Ela tão exuberante

Bebia água mineral sem gás a todo momento.

       Tudo tinha um certo razoável tempo e espaço.

       Que horas eram? Que asas?

E se Deus não quisesse não haveria lua não haveria urutaí tambiú ajapá guarapiapunha-do-banhado estrada de ferro mar praia de Ipanema

Tudo moderno era aquilo maravilhoso e sempre excitante

Se tivesse mais algumas praias tudo seria até bem melhor a engraçado.

       O que não publicou e nem confessou abertamente, o seu melhor amor na adolescência, é uma menina bonita esperta ruiva alegre avenca-da-terra saltitante cabelinhos perdidos nas ventas aveia-do-campo toda verdinha talhe de indaiá palmeira olhos de passarinho pichororé e por ela se deixa levar eternamente, e brincou versos e prosas a vida toda

       Os poetas fantasiam versos para o que vêem

       sonham para o que pensam.

- vindo a perdê-los num naufrágio do 23 dia do março mês do 36 ano na costa de Pernambuco, Jequié, Ariranha do Ivaí, Jaguaquara, Itiruçu, Arujá, Papagaios, São Miguel dos Campos, Pitangui -,

O sol reboou montanha acima

E seus raios vieram pela praia até as altas magníficas paineiras

Andorinhas costuravam ziguezagueavam violões entre os ramos e as abas das casas

A tesoureira piou com importância desde o galho seco do guaré

O casal de joões-de-barro... gargalhadas

Uma tucano-de-bico-verde comendo a castanha do coquinho do butiá-da-serra

Um eufônico gurandi-azul

O bem-te-vi-do-campo com taquicardia.

quando foi que ela virou de costas os brincos brincaram e se foi para Manaus, aldeia da tribo guaianá, praça Castro Alves, forte de São Marcelo, pedra sentada do Rei Sabá,

Um beicinho querido

E escondeu o rosto delicado,

A luz impressionante complicada se instalava devagar.

foi embora da sua idade, da sua casualidade, da sua vida toda e da cidade natural e nunca mais voltou nem mandou notícias. Não, não voltou mais e nunca mais se ouviu falar dela.

Cabelos surpresos

Rosto formidável

Sorrisos de férias de trem

Lábios acintosos

Os pulsos perfumados.

Olhos delirantes ou suspeitos

Seios suspensos

Cotovelos na janela

Negligentemente com a língua molhada.

A lua na sua rua

A lua nos seus lábios

A lua nos seus quinze dezesseis dezessete

A lua passou em o antebraço.

Tocou no seu rosto

Seus lábios

Seu ombro

Não sabia como abraçá-la

O que dizer

Os olhos saciados

O sonho de beijá-la.

Sumiu como se fosse reaparecer no fim da história, mas na verdade não voltou mais, enganando o final feliz ou não completando o círculo do eterno retorno.

Se lembrou bem de um começo de tarde

Em primeiros de janeiro.

Os pobres bichos não pertencem

A lugar algum nenhum!

Completamente estranho, pois, interrompeu uma história boa e linear, pois, que poderia ter sido, pois, e não nem nunca será.

Passou dezoito (18) anos

Um verdadeiro milagre

Comendo doce de abóbora.

       Com o passar do tempão, essa história mal resolvida, só lhe traria narrativas e poemas de saudades saudades.

       Ela foi para lá de queira Deus

       Foi para a montanha

       Foi para o vale

       Foi se misturar aos índios apinajé

       Foi para o alto rio Solimões   

       Foi para até se confundir.

       Quando se soube, por volta de 1999, que os governos eleitos resolveram fazer uma rua com seu nome - foi uma época um tempo decisivo - com guararibas com ajuruatubiras com maracanãs-do-buriti com cães e guias com carros de passeio com prédios de apartamentos com lojas de comércio em varas, côvados, arráteis, onças e oitavas.

       O sol novo em folha

       Nadava corria flanava voejava

       Com espontaneidade,

       Nuvens incidentais

       Olhavam o relógio de pulso

       E isso com despreocupadamente.

Pois viu em todas as outras gurias pois aquela sua adolescente muito adourada.  Pois amando várias como se aquela fosse pois a última a primeira a eterna a deusa.

               

domingo, 13 de julho de 2014

Que Diferença!


      

      
       A história esta começou nos altos céus para lá das arcadas estratosféricas e nuvens finais e mais finas e caravélicas.

Assim, deus Caciporé praticava suas eternas conquistas amorosas sempre disfarçados de arnica-do-campo pixuna nuvem ou deus em vias de fato com as beldades das praias das piscinas das matas das rochas das montanhas das palmeiras das águas correntes cascatas sangas restingas e lagoas.

Mas sua esposa Cotijuba deusa não gostava sobrecarregada cheia de pressentimentos disfarçadas de camoatim peixe arapoca ou escrava Isaura se irritava e perdia o bom humor todos os dias a sua beleza. E a deusa contra o deus não podiam fazer muita coisa.

Até que um seu Mosqueiro filho dolicocéfalo soube desses e outros casos disfarçados de camará pássaro tracajá ou índio tingui-botó e resolveu cobrar as magoas da matriz.

       Esse filho foi tentar afastar as tais e quais marrecas-piadeiras do seu todo-poderoso pai jacaretinga. E elas belezas lucrativas úteis esbeltas avassaladoras selecionadas fascinantes as mais comestíveis carinhosas e carinhosamente abraços macios psicodélicas muito falantes muito risonhas muito gulosas jovens de boa estatura linha de bonitos dentes aperolados olhos ternos pescoços finos tiara na cabeça cabelos longos e volumosos encobrindo os ombros tudo original sempre como que sorrindo sorriam por dentro e por fora.

E até Mosqueiro conseguia, feito à imagem e semelhança, quando por sinal foi descoberto. O filho sabia que deus estava bem informado que deus era avenida rua beco praça e assim agia cósmico senhor dos mil olhos senhor do céu senhor do raio.

O que deus Caciporé, de dedo em riste, não gostou nada dessa interferência do filho e brigou. Pegou-o por uma perna e o jogou altos céus rolando objeto voador não identificado abaixo ao som da gravidade bólido de fogo e rasto.

O rapaz ainda surpreso caiu veio voando e se estatelou sobre a terra, quebrando a costela, o queixo, o nariz, o pé, os bofes, a orelha, as asas, o olho, o cotovelo. Como que morreu e começou tudo de novo. E saiu quicando de onde estava para lugar algum.

E ao céu nunca mais não voltou distante da pátria e não nem lhe foi mais permitido.

É o que aconteceu. Depois explico. Por paradoxal que seja.

Árvores, muitas árvores, casas, muitas casas, ruas, muitas ruas cruzando com ruas e logradouros. A lua bola azul e sem saber de nada no sentido do bairro São Cristóvão pela avenida Presidente Vargas calçamento de paralelepípedos.

       Cego de um olho, cabeça trincada, crinas desfeitas desgrenhadas, sem palavras, sem estrela, fitinha amarrada no pulso comemorativa ao dia da festa do Círio de N. S. de Nazaré, este filho Mosqueiro de deus já está um tímido e um bom gravador um bom entalhador.

       A estas horas dez e meia... fala sério! Deixa pra lá!... No fim tudo dá certo! Até logo!

       Lá vem a aurora. Tem uma fortuna aí, diamantes ametistas esmeraldas turmalinas safiras topázios e águas-marinhas.

       A nova fase nova escola com ideias e pensamentos modernos e excitantes paisagem inédita alma reformada alma compatível.     

Anda pelas ruas como se sorteasse uma fantasia, pensando e indo bem fundo, a ansiedade, olhando o que sente e cheirando o que encontra. Seu pensamento vai longe. A novidade todos os dias quase uma boa nova em cada diário: - Que será agora?!

       Os caminhos que o levam para Osório, Itaberá, Marapanim, Itaí, São João de Pirabas, Giruá, Paragominas, praia da Cajutuba. Isso mesmo. Nem quente nem frio. Os amigos os conhecidos os indiferentes. A Estrada Real é seu jornal. A sua missão o seu rumo o seu destino.

       E depois de uns olhares distantes, mais um minuto de silêncio. Quer saber de tudo ao mesmo tempo.

       As mulheres da cidade e alguns homens lavam roupas e panelas na bica junto ao monumento do Laçador. O sol controla essa parte e muito bem.

       Chega pessoalmente num lugar famoso que viu na tevê ou usou na internet, avisos convites chamadas notícias, conhece visita aprova, a estação ecológica do Taim, a serra do Acaraí, o rio Maguari, o parque das montanhas do Tumucumaque, a base naval de Val-de-Cães, o arquipélago do Bailique, a baía de Guanabara uma porta de entrada e outra porta de saída o mês de janeiro Jano deus das de duas faces.

       Reside entre os humanos tornado sujeito indecifrável impenetrável arredio para com todos para com tudo e muito mais. Muitos lhe têm medo, outros dizem que se tornou um grosseiro profeta. E segue a sorte obscura como lhe foi dado o destino por deus fora de deus.

       Nenhum sentido não adianta que não tem e não há. Onde está seu comportamento sua vontade de achar? Senta em xis. De que com que para que como quê? A hora do a deus.

       Perseguido por vozes do além do aquém de onde vier e seja lá o que for. Bebeu água do rio Arapepó. Se deita emborcado na grama abraçando a terra toda num grande forte abraço.

       A rua predileta as árvores frondosas que mais fazem as belas flores os bons aromas, casca-preta, periquiteira-da-mata, mucunã, burra-leiteira, guibá, malícia-de-mulher, turubi, piquiá-amarelo, uirari.

Passa em frente de loja vê três mulheres em conversas de compras, passa por casa azul onde late um guaipequinha, passa na praça com monumento ao Santos Dumont, passa por uma porta de mola vai até a sala se assenta num banco corrido e abre a revista incidental na página da baía de São Marcos.

       Seus melhores dias, seus olhares, se é que podem assim ser, são os dias de céu nublado onde não precisa virar a cabeça ou ver sua sombra projetada no chão.

       O deus Caciporé olha e vê todos os caminhos e todos os passos e os viajantes. E o senhor tem o seu santo nome de deus em vão.

       E Mosqueiro parte vai para São Borja, Aurora do Tocantins, Boa Hora, Brasileira, Moju, Malhada dos Bois, Combinado, Ciríaco, Curaçá. E ainda sobram lugares e espaços e muitos milhares de reais. Discursos conferências teses pareceres estudos ensaios e artigos. Convites menções títulos medalhas prêmios e diplomas. Vivas gritos gargalhadas aplausos foguetes e músicas.

       O todo do tempo sugando mastigando engolindo xingando exigindo, etc., descontrolado esquivo enlevado calado misterioso - se é que o tudo existe no espaço!

       Tanto e tais caminhos e tanto andar. Os encontros os abraços os cafezinhos. Sabe de Terra Alta cidade, sabe de Abaetetuba deve saber também de Barra do Ouro e Carutapera e Viseu e Água Santa e Juazeiro é certo que a cidade de Matriz de Camaragibe sabe dele.

       Bem no começo do dia, aí pelas onze, sai de onde está um prédio na zona nova da cidade edifício craqueado em rumo para onde e não gosta de comer beterraba alface tomate chuchu beber caipirinha e caminha pela hora sempre a mesma. Tudo funciona vagarosamente e normalmente e impreterivelmente.

       Uma nuvem vem vai perdida pelo alto do oceano...

       Faz de conta que é bicho preá, que é abelha irapuã, que é pato-mergulhão, que é curu-curu, que é papagaio-do-mangue, que é onça-d’água, que é peixe carataí, que é apuizeiro.

       Pessoas de todas as latitudes e longitudes se dão as mãos em roda ciranda cirandinha burburinhos mexericos rizinhos agradinhos ao pé do monumento da estátua de Cruz e Sousa.

       Viajar é sonho para qualquer um pessoa bicho ou coisa. E se quer, então, vai! Aulas de geografia, história. Coração dominado. Um lugar que se sabe para onde vai. Visite a ilha do Curuá, a baía do Guajará na época, a aldeia dos matsé, o rio Araguari debaixo do céu azul total!

       Muitas maneiras, um sonho diferente, ruas e cidades imaginárias, um outro mundo, e uma cascata branca cai das pedras altas da montanha, agora também uma grande curiosidade, o sonho a razão desistem mas assim confirmam o destino o rio, e pálpebras secas pálpebras cansadas pálpebras pesadas.

       Responde às perguntas da esposa com evasivas, com reticências, com bocejos, com demoras, com enjoos, com tevê ligada no jogo de futebol, apressado, não usa óculos, seu olho de fogo devaneia em redor, a fantasia volta no tempo, passeiam de mãos dadas pela rua Voluntários da Pátria distraindo o cão de estimação tomando guaraná no bar da praça Castro Alves cigarras estridentes serrando maçarandubas no mormaço da estação. A viagem marcada para Marituba nas férias. O filho mais velho que não fala mas escuta tudo vê no escuro e ri o tempo todo. Na parede da sala preferida uma mensagem que pode ser lida e decifrada: “É unir o útil ao agradável.” Duas casas na praia, uma à beira-mar praia do Iró outra à beira-rio praia do rio Gurupi.

       Lembrança constante do céu aquelas cenas das irmãs dos irmãos da mãe dos parentes, nas noites longas sem sono, mas não quer saber se estão estreladas.

       Se Mosqueiro fica nas dúvidas. Saudade. Não saudades nem dades nem des. Cu-rio-si-da-de.

       Nasce como nasceu a estrela de sábado à tarde, dizem ser o planeta Vênus, as nuvens tocando leve brisa de folhas de murumuru, praça com estátua de princesa Isabel lendo uma carta, sapos-da-areia coaxando, meninos e meninas imitando craques de futebol, cão passeando farejando arrastando seu dono pela coleira.

       O mais virá a seu tempo.

Mosqueiro tem e carrega uma dita de muitos anos passageiros e inúteis ou raros. Não perdoa e nem é perdoado.

 

 

        

domingo, 1 de junho de 2014

Águas-Marinhas


      

 

 

       O general era bom e bondoso e orgulhoso e valoroso e digno e colorado e festivo. Seu único deslize em ter fraco por amantes.

Essa amante era viúva de outro amigo general. Amante que certo dia chegou no ambiente do gabinete lhe dando notícias preliminares de que estava esperando um filho.

De um dia para o outro.

Cabelos retilíneos, ombros cacheados, brincos, colar, anéis em todos os dedos, cor verde um vestido debruado procurando os joelhos de pernas grossas, olhos estudantes de altos mares absolutos, seios afoitos, olhos cintilando, o relógio de pulso 16h e cinco, oitenta graus de calor. 

       Ele se sentou na cadeira ao contrário os braços cruzados apoiados no encosto. Se desculpou, se uivou, se macerou, se retorceu, se asnou. Seus olhos efervesciam em surpreendido, em siderado.

       A metafísica da consciência.

       E a sorte tenra e macia, evanescente, até.

       O impávido general, apesar de amar a amante honestamente e euforicamente, não podia sofrer o escândalo que esse filho inesperado com certeza lhe traria. Durante dias esse patriota de farda ficou pensativo procurando uma nobre saída. Então, lhe surgiu na cachola a ideia resplandecente, original, leguminosa, redentora.

       Deslizando no liso teto azul da cor, o sol abriu os braços por diante das neblinas.

       Precisava o pássaro piririguá do dia ciscar o sol da manhã precisa.

       As coisas que o mundo eram leves cor coisa cumplicidade e perfumadas.

O generoso e terno general expôs à amante a sua ideia que ambos debateram com prós e contras e talvezes. Se deram as mãos e ele beijou as mãos dela em conchas. Então, a amante entrou no acordo que isso aí assim mesmo era a única saída para o caso.

A mulher passou em revista a tropa e cheirou mediu calculou pensou sopesou olhou muito bem seu futuro marido. A boca entreaberta. As narinas acesas pesquisando os cheiros. Uma saia branca plissada, blusinha cinzenta leve, os sapatos pretos de agulha, bochechas chiclete de limão bonitas rosadas. Ela procurava um belo olhos claros e abre-alas zagueiro de sobra. Alguém que não se distanciasse do general noventa e dois quilos em quase nada. Escolheu um sargento boa-praça que por motivos alheios a sua vontade ainda não casara e gostava de bichos de estimação.

       O sargento escolhido a dedo foi chamado ao gabinete do general onde lá também já se encontrava a sua futura esposa. O espelho de cabelos louros, olhos bem de águas profundas, pele de papel novo em folha, pernas e braços louros, olhos bem nítidos, boca procurando um beijo, os seios de aconchegos, de transformações, de deslocamentos, de sonos, de clarezas, de nuvens, de anjos parecidos. A janela estava aberta para a rua com trânsito interrompido coagulado na esquina. Foi uma conversa franca otimista de tarde inteira e regada a café ou suco de abacaxi com bolachinhas de mel ou açaí. A grande caraná-branca atravessava a rua com seus braços hercúleos. Os automóveis se acumulavam no cruzamento, depois reagiam.

       O destino que convém a cada um é problema de cada um.

       As curvas do rio são propriedades do próprio rio.

       Marcaram o casamento para breve no final de setembro, no sempre e cobiçado despertar dos ipês-amarelos, cumarus-verdadeiros, capitiçobas, pitaicas-pretas, embiruçus, guaxixins, parajus, maçarandubas, caamis, barbatimões, gloxínias, begônias-sempre-florida, petúnias, carandás-guaçus, buganvílias, jarinas, jatobás-de-anta, e outras plantas magníficas.

A amante ficou feliz pois teria um pai honesto amoroso dedicado presente carinhoso para seu filho. E o sargento ficou feliz pois teria uma mulher e esposa e amante e a imediata promoção aguardada.

       A oficialização do casamento foi às claras como na tradição, com pompa e circunstância e música ao vivo. Ele olhou para ela e viu olhos de cristal. A festa de arromba a dança do cururu em torno da piscina no clube XV de Novembro em São Martinho da Serra. Ela olhou para ele e viu riacho corrente doce entre as pedras roladas. Obviamente todos os amigos presentes olharam e murmuraram.

       Como se estivessem viajando uma nuvem bem alta enlevados sem ninguém por perto.

       Andar de trem para alargar os enigmas.

       Viajando em climas de diferentes latitudes longitudes e recém, sorridentes falantes expansivos e aconchegados enamorados para tudo que se passava, e passou Floresta dos Guarás, visitaram Balsas e Guapé e Resplendor, conheceram a cidade de Itaperuna, seguiram para Guaraniaçu, Monte Santo, o vento de outubro soprou seus cabelos pele nariz rosto os olhos de cristal, um calor com igual perfume e uma alma com aroma feito de flor de jasmim-do-mato, na sequência Juazeiro do Piauí e Sobradinho e São Sebastião, em novembro já estavam em Catolé do Rocha, Peixe, Caraguatatuba, de avião para Cambé, subindo o rio Gurupi até a aldeia dos tapirapés, uma semana depois passaram em São Pedro dos Ferros, e assim por diante, Itatiba, Três Rios, Batatais, Barra do Piraí, Rio do Sul, São Raimundo das Mangabeiras, Laguna, Jaguapitã.

       Ao fim do mundo inteiro.

       Extraíram coisas do tempo assim em fantasias reais, manhãs de sol, invenções de lagos, contando igrejas, árvores parecidas com bichos, pássaros insólitos, casas geminadas e uma de cada cor, acarajés, ruas tortuosas paralelepípedos casas antigas da velha cidade portuária, angaturama dos muras, rua 25 de Março, metrô na estação da praça da República, chuva repentina e quente e doce na praia de Jurerê.

       Uns seis meses depois e o casal se mudou definitivamente para a região do norte do país continente.

      

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Já Não Era Sem Tempo


     

       Era anestésico estúrdio engraçado porque o tempo ou o dono dele fazia o empilhamento das semanas, a semana acumulava os dias e as noites, o dia estocava as horas em fila indiana, a hora recontava os minutos passo a passo, o minuto dedilhava os bilros da renda... Tudo rolando morro acima desmanchando rio abaixo guinchando nas asas altas do caracará.

Quero ter esses poderes efeitos especiais e maravilhosos e absurdos e mitológicos de construir um mundo sonhado e parecido e sublimado. Um lugar sem experiência. Somente entrariam aquelas importâncias que fazem as pessoas espontaneamente jogar e gostar e rir e cantar.

E eu mas vou para lá!

Percebo que é em janeiro este findar de mês muito quente mormaços e correrias de andorinhas no entardecer.

A paisagem o laranja do céu oferecem tons inacreditáveis inefáveis e os dias magníficos vitrificados esplendidos, umas nuvens brancas bonitas desconfiadas tirando mágicas da sacola, araçás-do-brejo, cuipeúnas, igreja da Capela Dourada, aldeia arachane, rio Caparaó, Araci, Quijingue, Caturama.

       Estou indo. Já vou. Vou para esse lugar que tem o meu jeito e o meu cheiro e o meu gosto e o meu rasto. Embora sabendo pouco do que me espera. Um lugar o mesmo lugar cercado de lugares. Sem saber o que é que se vai fazer.

       Sem falar sem ouvir mais nada, somente ver, ou falar sempre ou falar demais, narrar, ouvir causos mentirosos de outras eras.

       Pronto, já arrumei as minhas malas e a minha alma. O que eu preciso, mais ou menos, já está por lá. Eu, com os poucos, preciso só de certezas.

       Subir a serra do Japi, entrar no rio, descer, sair do rio, erva-cidreira-do-mato, araruta-caixulta, galo-da-serra, só isso para fazer. No alcance se vê o mar caindo na tarde, pico do Jaraguá, seus cabelos saem para trás voando acelerados, Jundiaí, Cajamar, balança joga os cabelos para trás, guaricangas-de-folha-larga, ajajás, nuvens andando de sombra pelo mato pela encosta pelo rio pelos boqueirões.

       Sem jornais e revistas sem faces e tabletes, só um rádio tocando dia e noite as músicas locais e caiçaras. E como gosto de música, posso levar para lá os velhos ritmos dançantes as melodias tonais. Assim mais poesia encanto sedução mulheres cadência harmonia. Os de hoje e os antigos e os de sempre.

       Pode ser! Pode ser!

       A alegria e o sossego serão constantes. Não aquela história de rezar e penar e se conformar. Porque um lugar legal não precisa de esquemas, de sistemas, de governo, precisa só de sonho, e sonhos. Sem deixar de desejar a arte. Aquela sabedoria da paciência, das fantasias, da pintura, das pessoas sem medo. Nada sairá do controle. A sorte simples sem concorrência, sem desperdício, sem lixo, sem abandono. Cada um plantando o seu necessário. E todos os pássaros voltando em bando do mundo dos pássaros. E todas as árvores conversando com o vento. O rio na sua reta importante, araticum-cortiça, soroca, gameleira-branca, os catuquinaru, a praia do Perequê, a ilha de Santa Bárbara, a cidade de Tupaciguara, Malhada.

       Posso dizer agora. Pois agora há o que ver ouvir e dizer.

       Já estão chegando no trem da manhã a Vânia a Cinara a Joana a Marisa a Maria Clara a braúna-parda os acaraparaguás os sabiás-do-campo os tiús o casal de tchintchorrintchos a aldeia toda dos acarapi.

       Vão ver e vejam lá!

       Sem pressa se chega às lembranças, e vem açude, e vem escalada em pinheiro-do-paraná, e vem jogo de bola na chuva em tarde de domingo, noite de fogueira de São João com pinhão quentão casamento caipira, e meninas de cabelo nos olhos. A memória faz bem, a montanha, o rio subindo a serra, as árvores pintadas de amarelo azul, anhumas, curubás, aratingas-de-bando.

       E isso tudo é praticamente certo!

       Elena se parece com pandorga ao vento, Irma parece com a lua crescente, Carmem é com flor de anavinga. As pessoas e os bichos se parecem com coisas, avião, barco, caju, nuvem, joana-guenza, aracuã, curiango, serra da Borborema, rio Curimataú, Pirpirituba, Bananeiras, Jaboticatubas.  

       Temos várias praias com valor agradável. Uma praia para cada dia do ano para cada aniversário para cada carnaval. E outras coisas como sol, árvore, lua, cachoeira, estrela, brisa, ana-velha, jaraticaca, gruta, flor-de-maio, jirimato, serra da Cantareira, rio Urucuia, Itabira, aldeia bacairi, enfim, me esgoto me canso. Assim, esse mundo novo é ser farto de imaginação de entretenimento.

       Olhando as coisas, as naturezas, a natureza, as coisas olhando vendo enxergando escutando apreciando. Estrelas leves elétricas endêmicas sortidas roucas sociáveis. Escolher chocolate, sorvete, guaraná.

       Plantamos malva-do-campo cana-brava embaúba-puruma juá-amarelo cará-do-mato leiteira caraipé guaxima sangue-de-drago angelim-coco e também milharais mandiocais para colher espigas verdes pamonhas beijus tapiocas pipocas e replantar.

       A anatômica Jurema tem o hábito de me chamar de “meu bem querer”, a Beatriz tem o gosto de me chamar de “meu amor” ou simplesmente “mor”, a Ana Carolina tem o sentimento de me chamar de “querido”. 

       Ela ri como sempre e os dentes aperolados. Ela tem suas delicadezas. Ela fazendo importância com o que gosta. Ela jogando a vasta crina ondulada penteando com os dedos afeiçoando atrás das orelhas. Ela pernas recolhidas sobre a esteira. Ela me agradecendo “muito obrigada” com mão no peito.

       O céu assim assim como em tratamento de arte pintado de verde. Certeza de chover no fim do período e dever cumprido.

       Cada dia chegam mais figuras. Como ficam sabendo? Vêm gentes e bichos montados na canoa.

       Até mesmo os marmanjos as mulheres as crianças os cavalos as flores as arancins os anduiás os joões-botinas as marrecas-piadeiras as formigas-de-novato todo tipo de sorte as gabirobas as jabuticabas os uiratatás os iraúnas todos aprendendo a fazer barcos de papel de papelão de gravetos de palha, agarra-pés, malvariscos, chibatãs, sorvas-grandes.

       A Irene conta as suas passagens as suas aventuras as suas façanhas com viagens com maridos com filhos com enteados por outros lugares, rio Carinhanha, e Nova Prata, Varre-Sai, Guaçuí, Terra Rica...

       O caminho das montanhas, a serra, os chapadões, a chapada, os campos, o campo de cima da serra, os vales, algum vale seguindo rio córrego ribeirão sanga, o caminho da floresta, as trilhas pelo mato conhecendo árvores e aves e orquídeas e colibris.

       Uma porção de olhos femininos e lábios e braços e abraços e pernas, joelhos e tornozelos, olhos celestes, olhos esmeraldas, olhos luminosos, em quantidade em qualidade em procedência.

       Sempre em turma, enturmado, turma segue para a beira do rio, turma para acampar na montanha, para a praça, para a copa das árvores, para a inauguração do sol, turma para a expectativa dos discos voadores, para o eclipse lunar.

       Uma pessoa viaja quando quer viajar!

       Mas e assim não se passam os dias os anos a sorte nem os rios.

       Pois, então, um mundo das lendas não tem limites, é do sem fim. A surpresa fazendo o colorido da imaginação. Muito mais coisas que o homem inventa ou deixou para Deus criar. A festa nunca acaba no melhor da festa.

      

 

        

segunda-feira, 31 de março de 2014

Não Sei Se Aline Ainda Existe E Por Onde Anda


      

 

   
 
       Onze horas o avinhado já cruzou e recruzou inúmeras vezes o ar do quintal. As nuvens com cara de avião supersônico andando rumo para o sul. Estrondos saltados do caminhão-tanque passando acelerado na rua estreita de paralelepípedos. Meio dia e vinte o sol as dissolveu. O cantando como nunca no pé de macaúba-barriguda. Quinze horas em ponto batuques do outro lado do bairro já anunciando e dando conta de que o carnaval fora de época era mesmo aí.

       Bom para uma mãe é ver que sua filha arrasta por onde passa todos os olhares dos rapazes. Ruim e péssimo para o pai é perceber que esses todos masculinos desejam farejam babam noite e dia como perdigueiros suados pela puríssima filhinha criada a pão-de-ló, zelo e segurança. E se essa menina tiver irmãs, estas terão uma santa inveja aquecendo o peito. E se tiver irmãos, estes terão um santo ciúme batendo no interior da cabeça e atiçando as orelhas de burro.

       Nuvens mudando de bichos para coisas. Depois a lua em alma muito lentamente. Mais as estrelas polvilhando o céu. Um avião específico. Depois o mar a praia os caranguejos conviventes coniventes comovidos comoventes.

A casa azul-clara com olhos brancos, telhado de telhas vermelhos-velhos feitas em São Sebastião do Caí, uma elegante e alta palma-branca ancorando tudo o peso da sombra cabelos ao vento desde o céu até o mundo.   

       Me lembro dela bela menina e vizinha ao chegar na manhã espiritual muito cedo à escola do bairro. Era a primeira vez que aparecia em público e que a víamos solta vestido azul-marinho plissado camisa branca longas meias brancas sapatos pretos de fivela e nos cabelos a tiara de flores perfumosas conquistada ao alecrim-de-são-josé. Ela tinha quesitos como os olhos rasgados e imensamente verdes iguais às folhas das magnólias-do-mato depois da chuva. E uma pele lisa e rosada de peixinha de aquário agitada mas feliz. O cabelo anelado loiros olímpicos pouco abaixo dos ombros. Não era para mais nada, mas isso já enchia toda medida e ia além da conta de qualquer um de nós expectadores incidentais esgazeados.

       O inventor dos rios das montanhas dos bichos tilintar das juritis manha dos mocós camuflagem dos tiús mergulho dos curimbatás empreendedorismo das sarassarás das árvores verdes azuis amarelas, etc.

       Num certo templo ela era intocável luminosa oxigenada parabólica. Eu gostava de vê-la jogar vôlei no meio da quieta rua Itália pular distância na cancha de areia da praça nadar na piscina do clube esportivo saracotear no carnaval da sociedade recreativa. Seu lindo sorriso fazia uma fortaleza com muros altos e bem brancos. Perto dela eu ouvia mais que falava e ela queria aprender a andar de moto.

       Um olhar além do tempo. Que tinha de futuro. Que esperava mais das naturezas. Aonde vai se chega se retornará.

       Nós ficávamos ao seu redor como mosquitos na sopa do mel. Cada olhar seu dirigido por acaso a um de nós era comemorado como o gol que a Seleção faz na Copa. No inverno era a única pessoa que víamos vestida de luvas pretas sem dedos cachecol verde-musgo e touca do colorado com pompom; os dedos de unhas pintadas cada uma uma cor e o rostinho emergindo como de bichinho doméstico pedindo carinho e as pontas dos cabelos com vontade de puxá-los. Ela era de distribuir tantos gols quanto o número de jogadores e admiradores em a sua área. E como foram longe como repercutiram as poucas horas da sua aparição aparição. Sagrado era aquele lugar onde existia uma deusa uma santa uma anja uma princesa uma beija-flor-safira uma modelo que sabia caminhar na linha.

       Fios finíssimos de água enredavam a luz do dia numa teia úmida e fria de chuva. As ruas em perfeito estado de espelhos de água. Uma mulher por acaso andando na calçada espremeu à mão os cabelos loiros molhados de ponta a ponta. Andorinhas riscavam o espaço e retornavam aos ninhos nas abas da casa verde de olhos azuis. Depois ruas prédios carros pedestres tomando banho de chuveiro. Quase sem querer, pois era uma manhã de sábado para outono. Chuva diagonal. Os carros fungavam zuniam chiavam. 

       Ela era linda de sol de noite de dia de chuva de lua, indo e voltando. E os caracóis tapavam as orelhas no lugar certo, mas engraçada com movimentos e tudo. Caso fazia sol e ela não aparecia era como se o calor e o verão não fossem o que a gente queria.

       As matas cobertas de montanhas que resistem ao remar do mar. Não era hora de perguntar, responder. O vento molhava o inverno nas folhas verdes. Sempre o rio que desce pelo caminho livre. Para o sul, cidades bonitas e filosóficas Ituitava Caratinga Tocantins Jequié Jaguaquara; para o norte, cidades amáveis e sensacionais Princesa Sarapuí Jumirim.

       Não foi só a menina da tarde, mas a menina dos olhos dos sonhos eternos de nossos sentidos. Qualquer canto que pousasse parecia que ali o sol se punha, o tempo abalava, a festa explodia, a história se escrevia, o mundo se expunha, a história acontecia. E para quem achava que Deus não se manifestava... ela sorria amavelmente toda a prova todo o milagre todo o bom gosto todo o bom senso toda a majestade com olhos de tinta azul transparentes e molhados de luz.

       É bom que se diga.

       Ela viajava na nossa imaginação. Era enigmática como uma manjerona-do-campo. O sol das horas silencioso e contrito se inclinava para o laranja da tarde, etc. Se vestia perfeitamente como uma flor-de-lã. Mas ela mesma pensava muito mais rápido ainda.

       Olhava e nos ouvia sem querer ver ou entender. Adorava o quê!?, que não se mexia ao seu redor.

       A poderosa lua acende seu farol e sobe a montanha já entre as primeiras estrelas. Dizem que os homens se parecem com Deus descendem de macacos-pregos e que um dia caíram na terra vindos Adão de um planeta distante e Eva de uma estrela de outra galáxia evoluídos. Depois as nuvens indecisas desbocadas descabeladas invejosas e sem rumo deitaram sal na terra.

       Ela achava que os pássaros deram origem às árvores e as árvores deram passagem aos homens. Que os peixes dos rios e mares vieram serpeando das canas-do-mato das canas-do-rio deixando rastos de lagartos e pularam para as águas. Daí, que os peixes que retornaram à terra firme foram tomando forma de tatus capivaras lagartos lagartixas ipecuás pombas-amargosas titicuãs arapaçus-de-bico-preto. Fosse lá o que fosse, embora, o mundo todo começou na água. Nuvens em forma de chapéu, quaisquer chapéus.

       Volta e meia sem aviso prévio e surgindo aparecendo do mato, os irmãos chegavam como quem não querendo nada e ameaçavam com olhares de bracaiás insones e atitudes bruscas e dentes à mostra e punhos armados de garras e roncos de bugios:

       - Te cuida, fulana!

       As irmãs conversavam muito entre si preparando os quitutes da família e sempre risonhas trocavam favores e receitas se davam conselhos e indiretas em tom de experimentadas:

       - Porque são todos iguais, uma vez!

       E besouros e borboletas em seus voos assim vibrando com asas de matéria plástica invisível. Ciscar de cavalos e bois nelores nos jardins da praça Frei Baraúna. Nuvens desatentas umas e outras.

       Custoso admitir e ter certeza, mas ela tinha sua própria e exclusiva vontade. Um jeito de olhar habilidoso e persuasivo, mas bonito doce pedinte.

       Os guris que chamavam sua atenção verdadeiramente: os que a surpreendiam sempre com brinquedos engraçados ou violão: os que eram tímidos e assustados e desentendidos. E ela naturalmente fazia um esforço para retê-los na mente nos olhos na pele no rastro do futuro.

       Mas se comportava como deusa.

       O sol procurava afastar as nuvens balão. A mulher e o barco subiram ao rio Una. O rio uma superfície planejada. E escoavam mulher barco e rio. O rio jogando consigo com ela e com o barco. Trabalhavam juntos enquanto a conduziam em viagem. Depois ela projetou sua imagem nas águas e escolheu as cidades a cidade o chamado das paturis a rua a casa verde com janelas verdinhas.

       O rio é uma coisa e um círculo. Desassossegado dizer de um rio que nunca se separa de ser ele mesmo dentro de si a favor e em volta de si.

       Com diferentes economias, a família morou pelo custo de quatro anos em tantos bairros como casas de aluguel, São Cristóvão, Sagrada Família, Coroados, Basalto, Retiro, São João Bosco, Santa Cruz, Rio Branco, São Peregrino, São João, Três Mártires, alguns uma vez outros duas três quatro vezes.

       Era muito mais para ser bonita, ela queria cantar, queria fazer sucesso, queria ter fãs onde quer que fosse aqui ou no exterior. Ganhou um celular bem maneiro no aniversário de 15 anos e uma viagem a escolher para Foz do Iguaçu ou Bonito.

       Mas o vento não é a mesma coisa do rio e do tempo. A agradável sombra das jaturanas agradáveis. A árvore na embaúba-verde. Andando por entre uvás, piúvas, bocaiúvas, tapaiúnas.

       Quando juntamos nossos olhos e começamos a dançar - me lembro como se fosse hoje hoje -, o salão apertado e muito calor, também um irmão dela com aquela recomendação impertinente de maritaca:

       - Te cuida, hein, fulana!

       Pelas conversas talvez ela preferisse morar em Barretos, Jupiá, Itabi, Rio Azul, Pontão, Iguape, Ponte Nova ou Laranjal Paulista.

       - Reconheço que um dia conheço o rio Piranga, a lagoa Opaia, os tingui-botó, o palácio do Campo das Princesas, a serra de São Francisco.

       Deus na sua extrema e perfeita engenharia fez aquela guria um presente para nossos olhos cansados de desertos. E fez um poema também um tesouro um diamante um estuário uma Capitu. Porque não sossegou enquanto não a obrigou a casar com um forasteiro mais em conta.

       Os irmãos então ergueram as mãos aos céus aleluia cruzaram os braços agradecidos descansados relaxados divertidos bem humorados bem conformados nas orelhas de abano e as irmãs bocejaram com enfado a mão na boca e os sorrisos camuflados.

       Nada de diferencial no dia seguinte e ela nem sequer me olhou.