domingo, 12 de abril de 2015

N Foi Dessa V


 

  
 

       A manhã de vidro limpo que surgia entre as árvores. Uma beleza ainda mais que bela. Era cedo do dia e as ruas estavam sozinhas. Como é engraçado o rio, como é engraçada a embaúba, como são engraçadas as maritacas.  

Mecanicamente então, às oito e meia, partiu um navio embandeirado hasteado. Todos os ouvidos começaram a cantar. Como surgiram as aves? E marolas e ondas e pororocas adequadamente.

       Não precisava voltar. O céu estava azul, o ar estava puro, a natureza toda estava amanhecendo. Verde com verde. Rio do Peixe com rio de peixe. Tavuás com aves. Paxiubaranas-miúdas com arbustos. E isso me deixou animado. O sol vem quando quer.

       Nuvens em figuras psicodélicas, nuvens provisórias, rio barulhento, paisagens deslumbrantes, brincalhão, espontâneo e arborizado, o Circuito das Águas, Cambuquira, Campanha, Carmo de Minas, Conceição do Rio Verde, Heliodora, Lambari, São Lourenço, Soledade de Minas. O rio tem resposta para toda e qualquer pergunta.

       Pois viu o sol o vento o rio os paranás os igapós os igarapés as igaras a manhã a nuvem pela primeira vez... os olhos bem despertos, as patativas os quiriris as garças-brancas os guarás-vermelhos os tachãs. Aqui ali tudo desenhado.

Guaraci sim é patriarca, devagar. E gira com o corpo, lê jornais, assina internet, se aborrece com as guerras, o trânsito, os governos, os governantes, os governados, os sindicatos, os comerciais embutidos entre as notícias. Sua energia cósmica indiscutível indestrutível imprescindível. Tem habilidade de sobra para chutar pedras latinhas sapatos bolas pacotes chinelos caixas, etc., gosta de praias com coqueiros, quiosques de água de coco, mulheres bronzeadas de canga, futebol de pelada na areia, caldo de cana com pastel de queijo, batata-frita com queijo ralado. Quando a segunda-feira passa sem sentir e como um raio um foguete um meteoro um jornal diário. E abraça as nuvens em pleno ar. Escala escada de cipó-timbó, subindo de peconha a urucuri. E o astro do dia, sofá amarelo e controle remoto nas mãos, ainda diz isso daqui:

- Oquei! Gosto do mar doce de mar das águas cheias (muito outros mares).

       À tarde junto à água, me senti com cãibras na alma e como folha inútil tombada no rio. O som da cascata aturdiu o ouvido de tal forma que nenhum surrealismo foi perfeito. Procurei, ali na pureza transbordante realeza exuberante lindeza luxuriante, as cores o canto Marcela Marcela as árvores as pedras brilhantes o ouro de Formosa o tesouro de São Tomé das Letras o diamante de São Bento Abade a esmeralda de Arabutã o rubi da teiniaguá na salamanca do Jarau. Mas foram horas de nada nem nada. Uma tarde a água o sol se encontraram no pôr do sol. A andorinha-do-campo imitou o jerimum que imitou a saracura-do-banhado que imitou a araruta-caixulta que imitou o ararapá. O rio seguiu para o mar. E levou pandorga a minha folha em branco.

       A ilha Grande do Gurupá a aldeia piratapuia o pajé Catanduva papagaio-charão no ombro disse que conhecia plantas muitas árvores cascas folhas resinas para tirar remédio garrafadas chamar os bons espíritos ancestrais curar pacientes, anhangapiri, marolinho-do-campo, aturiapompé, ora-pro-nobis, caraxa, anani.

       A culpa é minha por pensar muito em Marcela Marcela. Cheio de sonhos pintado de fantasias cansado de tentar prever adivinhar acompanhar suas manias e manhas e modas e mesuras. O que foi fazer em Congonhas. Cansado de acordar e contar suas graciosas sardas sardas. Ah, a sua pele de cunhantã como não cobiçá-la! Bonita linda como é deslumbrante a lua.

       O sol olhava ora para a porta ora para mim, mãos paradas, cara de sorriso massa, meio equilibrado entre poucas nuvens esgarçadas. Queria quem sabe a um tempo ser reconhecido e sumir. Disse do alto do seu sol uma frase:

       - Oquei! Conheço isso tudo daqui.

       E nem mais nada quis dizer, nem falou, jururás muito verdes, voo uacauã, jataís-mosquitos, canaranas fechando as margens. As águas ligeiras atrevidas visíveis, quase tão abundantes burburinhantes, corriam entre as pedras os ouvidos.

       O vento adornava mexer as árvores, sapupira, pitombeira, caatingueira, oiticica, auíba, mangueiro, aguaí-amarelo, cajarana. As plantas, mimosas, ruivinhas-do-campo, algarobeiras-pretas, sentiam que o vento asas adorava. Coloquei no rosto os óculos escuros que emprestara de Marcela Marcela. Um bando de ararapirangas em casais atravessou o espaço inadvertidamente.

       As nuvens esbarravam nas montanhas as aves de rapina os horizontes. A eternidade nem muda de pessoa. O sol manobra no início do sistema planetário no meio do sistema estelar no centro do zodíaco na cauda em espiral da nebulosa protossolar.

       E a floresta feita ali mesmo um mar verde com macacos jabutis japiras tiús formigas-de-fogo jandiás juremais curicacas-pardas cujubins. Um bando de humaitás barulhentos rasantes cruzou altas velocidades o céu branco no sentido da lua cheia.

O sol desperta a algazarra local, acordo muito bem disposto, a lua liga a tevê no canal bem na hora do telejornal. De tanto olhar e saber eu já sei e vejo que as estrelas são tortas e tais e sempre as mesmas e continuam no mesmo lugar. E isso me deixa enlevado.

Tendo vinte anos da sua idade. O céu estava azul e talvez muito azul. Rosto claro, olhar tupiniquim, sorriso rasgado, Marcela Marcela, os braços aéreos, as pernas longas, um todo de esguia e carnosa carnaúba. Em si assim é muito positiva. A melhor pessoa que conheço depois de mim. O bom mesmo só uma ou outra vez. Caminhava e caminhava mais e mais, não se cansava, queria ler e estudar muitos livros e morar em Niterói para a baía de Guanabara.

       Precisava voltar. A jandaia estava contente de ir à festa do sol. Pois o sol resplandecia. Havia pedras águas correntes e murmurantes pedras submersas muiraquitãs pedras-verdes talismãs pedras ao ar livre escorregador da Zilda, cachoeira da Grota Seca. Havia árvores magníficas de todas as formas e alturas e cores e cheiros e acarimas. Um riacho corrente que fazia piscina apropriada oportuna contida lindoia. Só faltava gente. Tinha macaco preá anta acari-chicote arraia-de-fogo jacaré-de-papo-amarelo sericoia tuiuiú aturiá. A jandaia ave tinha direito aéreo e terrestre e fluminense de estar ali.     

       Olho para lá. Dos seus olhos não tinha a atenção que procurava e nem saberia a verdade que ainda busco. Um dia a gente acorda de surpresa com o sonho do seu rosto do seu cabelo do seu nome Marcela Marcela do seu sorriso do seu olhar. Quando tupã olhou para baixo viu o abandono da terra. O que foi ver em Santa Rita do Sapucaí. O que foi ver em Santa Cruz Cabrália. O que em São Sebastião do Rio Verde. As flores da sumaumeira adoçam frutos penduram estrelas depois viram sol lua ninho de japim com enxame de tubis. O sol foi e voltou vinte vezes.

       E eu gosto desse silêncio. E se passou meia hora. E continuo a gostar do silêncio. Árvores com flores engraçadas, ramos, ramarias, galhos, esgalhos e ainda folhas folhagens jarrinhas-batatinhas. Um silêncio enigmático misterioso mágico. As margens exuberantes são verdes são matupás, maracujás, avencas, tabocas, samambaias, marantas, mururés, povoadas de socós, seriemas, jaçanãs. Descolo os óculos escuros para não assustar as aves. Um rio vagaroso e de repente por um túnel verde.

       A viagem continuava rio acima, piraíba, gurijuba, pescada, acará, aruanã, curimatã. A qualquer momento poderíamos poderia sofrer uma emboscada. Céu azul grande demais muito alto olhando tudo. O país continental demais fazer muitas coisas haja vista alta lugares altos o sol nasce no alto o rio nasce no alto cascatas araucárias dia luminoso países altos como Serra do Navio, Apuí, Piatã, São Benedito, Brasília, Dores do Rio Preto, Alto Paraíso de Goiás, Sucupira do Norte, fazia o sol, serra da Bocaina serra da Mantiqueira ou mesmo a serra do Sabarabuçu, óculos escuros para proteger a vista e não ser reconhecido.

       A água é seu elemento e nela Marcela Marcela passa os dias, filha de iara, é atraída pelo rio, é por isso que quando vai visitar a mãe se transforma num peixe de escamas ou de couro, ubari ou jurupoca ou tambaqui ou piraputanga ou tucunaré. Foi, e isso é foi duvidoso, foi acontecer o que aconteceu. E nem era para menos. Isso me deixa suspenso.

       O astro prepara o terreno meticulosamente, a algazarra das aves juruebas, o verde dos pequiás, os insetos flutuantes, as nuvens pelo espaço, o sobrecéu azul, a praia bonita branca fidalga, os macacos, Cacequi, Eunápolis, Duque de Caxias, Várzea Alegre, Paraty e ruas calçadas com pés-de-moleque, rio São Bartolomeu, contagem das horas, tapaiúna, bacuri, mangabeira, umiri-de-cheiro, iara tomando banho de lua, meio alienado o sol responde:

       - Oquei! Passo pela rua em frente das janelas.

       Quando abro o portão. Vou entrando sem me anunciar sem cachorro. Pelo lado da casa caminho sozinho até o quintal nos fundos, araticum-folha-de-salgueiro, acaraú-açu, jacitaratipiti, juquiri. Marcela Marcela tomando banho de sol ao lado da piscina azul transparente. Ainda não teria me pressentido. O sol cada vez mais consciente que se isola. Minha emoção como estar perto do céu. E alguns canteiros de jardim e algumas flores florindo flores de bromélias de orquídeas de baunilhas e as flores ali oferecendo sucos e licores e abelhas e beija-flores. Isso me deixa aéreo. O sol o vento jogam tempestade de folhas secas na minha cara. A rua sobe até as nuvens. A iaci some atrás dos araribás-amarelos. E quando atravesso o rio sinto que ainda assalta atravessar o rio.

       E o seu todo é como um sonho que vai e que vem nas ondas nas marolas nas pororocas. E eles obedecem ao destino aos rios. A eternidade nem muda de lugar. O meu pensamento dominante.

 

 

      

 

domingo, 8 de março de 2015

Antropoide Androide


      


    
 

       Já neste instante quero saber com certeza o exato lugar de surgimento o vento o sol a lua a floresta as formigas-cortadeiras o rio as pedras.

       Daqui onde estou, olho tudo e mais um pouco, vejo muitas coisas imóveis ou se. Acomodado na pedra diante do rio de nome tupi complicado. O dia amanhecendo orquestral dentes verdes. O verão bate na cara. Olho em redor. No céu apenas uma nuvem particular e própria e proposital e profissional. As irerês.

Que importa se meu avô conseguiu fazendas e gados e arrozais, etc., serrarias, madeireiras, passeios pelos cinco continentes? Se meu tio teve mil mortes nas costas e virou lenda? Se meu cunhado quer um carro novo todo ano par e minha irmã pode lhe dar? Se o pet totó do vizinho salvou uma criança de se perder na cidade e virou santo? Se meu primo inventou programa inédito de computador e hoje é um dos homens mais jovens e mais bilionários do mundo? Não vou suicidar por não ter o que os outros conseguiram.

As árvores olham para as coisas que eu não vejo. As plantas falam me chamam para o meio das árvores. As plantas me olham inofensivamente.

Agora vem vindo aí e passa o meu parente distante, ancestral, mais distante ainda, etc., o vento.

No rio tal os barcos e suas pessoas vão e já vêm. Trazem e passam. Acordo em cheio na manhã de dezembro. Por que é assim desse jeito que essas gentes se enricam.

O sol estica a pele e vem a chuva e o pessoal todo e o mundo inteiro ficamos de espectadores de janela e alma lavada e corpo novo. Naveguem.

Meu voo... e abro bem as asas e me dou bem com isso. Precisava esse calor essas árvores Grão Mogol Rochedo Itagibá Laranja da Terra bororo jarapé tarumã-de-espinho tincoã piratantã manati igreja de São Frei Pedro Gonçalves.

Acredito muito num rio arborizado praça rua quintais das casas puruí caá embiú-amarelo maparajuba caraguatá guajuvira-branca. Eu me vejo em situação idêntica.

       Sempre preferimos ter aquilo que os outros já têm, como se o que os outros têm nos tivesse sido roubado. Assim, então, todos nós vamos correr atrás das mesmas coisas. Não somos justos com o que podemos ter, com o que somos ou podemos carregar.

       Desta vez vou com as asas de sempre e vou sem as asas. As árvores vão indo muito bem. Eu sigo pela praia fluvial fazendo meu exercício de caminhada, me olham não deixam de me olhar, bando e aruaís, me respiram, me verde. Aonde vai o vento? Paro numa padaria e pergunto enquanto tomo café. Algum mistério.

       O tempo que embalamos a mim mesmo. Fiz emboscada no rio Maués-Açu, uaraperu, cipó-timbó, tapiri, tejupar, curare, curabi. Fico olhando o rio correr, cuá-cuá!... o socó, croá-croá!... o mauari, bate asas e voeja um pouco, cié-cié!... o martim-pescador-do-mato, levanta voo e pousa, ciu-ciu!... logo adiante a potiri. O barulho ensurdecedor ensurdecedor das asas longas bonitas pesadas verdes das borboletas volteando beijando o barro preto. Enquanto durmo a iara tem a pele de lua sorri sempre muito perfumada e linda. Em tempos que já vão embora, já vão longe, já vão tarde, a lua Jaci percorria os quatro cantos para escolher os pássaros as árvores as pessoas e transformá-los em ótimas estrelas no céu do céu. Até hoje, nas noites de Jaci cheia, se pode ver a iara sentada na iapunaqueuaupê penteando os cabelos na beira da lagoa Parnaguá. E eu mesmo navego de igara até o céu.

       Quando eu andei pelos lugares mais altos dos países mais ou menos temperados terras altas oceanos baixos horizontes de zigue-zagues, São José dos Ausentes, São Joaquim, Carira, Teresópolis, Triunfo, Mata Grande, Dirceu Arcoverde, Dianópolis, Senador Amaral, Matureia, Jordão. Olhando para o cimo se vê Aldebarã olhando para o vale se vê as estrelas olhando para a frente se vê o mar.  

O vento desfolha horas, e quem sabe?, desfolha dias meses séculos. Eu considero o sol. E deixando nuvem vermelha no horizonte, o vento derrapa na curva perigosa estrada poeirenta cascalhenta anônima do dia. Parece que a lei obriga. O Caminho das Missões, São Luiz Gonzaga, Santo Ângelo, São Miguel das Missões. Ver é ver o que está diante dos meus olhos.

       Não sou ninguém quando imito o outro. E se eu quero me comparar vou errar muito porque não conseguirei ser diferente de mim.

       Pela minha frente, todos os dias e o dia todo, desfilam coisas uma feira livre de louco consumo. Sol onipotente inflacionado de moedas.  Pois é mesmo meio-dia na torre mais alta do sol. Vou sou ao mercado Ver-o-Peso e se vende muito e se compra tudo.

       Quando eu estou a trabalho planto cidades, São Pedro da Aldeia, Itaguaçu, Juramento, Quaraí.

       Quando eu estou a passeio eu semeio colho tribo manao, serra de Sapiatiba, lagoa Vapabuçu, ilha de Itaparica, rio Cuiabá, gralha-azul, anhangá, cauã.

       Nem preciso ser pássaro porque não nasci manaquim. E assim por diante. Preciso ir para a montanha para ser eu mesmo e me encontrar comigo? Não preciso de todas as coisas boas.

       Quando eu estou com viagens marcadas prefiro viajar na companhia de Itacambira, Jaraguari, Arraial do Cabo, rio Paraguaçu, ilha das Flores, parque natural Gericinó.

       Daí, o vento quando quer nem nasce aparece dá voltas e curvas e redemoinhos em forma de cuias velocidades balança as folhas verdes desiste sobe mais vento fino para as nuvens cata-vento inicia o dia com o sol da manhã caminhos de paisagens sobe além das nuvens puxando corrente de panos papéis pandorgas urubus vira outra coisa vento alma sem cor uma coisa longa desaparecida e quase nada coisa branca manobrando como vazio avião de vidro.

       O mundo inteiro uma grande festa animada quatorze e quinze à beira do rio. Árvores enormes ao vento alto tudo misturado. A chuva vem com o noroeste e vai para sudeste. Não se fabricam mais árvores com este porte, goiabeira-do-mato, tucum, araçá-do-campo, jatobá-de-casca-fina, acácia-de-flores-vermelhas.

       A viagem continua rio corrente. A qualquer momento poderei poderemos sofrer uma emboscada dos tupinambá ou dos macu ou dos camacã ou dos araueté ou dos guajá. O Circuito das Águas, Águas de Lindoia, Amparo, Holambra, Jaguariúna, Lindoia, Monte Alegre do Sul, Pedreiras, Serra Negra, Socorro. Águas mornas que brincam de rodar e rolar entre as pedras, atraem os raios do sol, vestem verdes e céu azul, peixes de escamas, pirajaguaras.

       Nem nasci para aquela pessoa ou ela para mim. Tudo é: vamos ver! E foi assim que ela partiu no navio deu dois passos e saiu voando.

       As árvores grandes, os galhos alcançando, parecem atingir o céu. Todas as coisas falam o vento o rio as árvores a montanha o japim o coró-coró a uiramiri o aruá o bairari e não existem pessoas.

       Chego na terra das árvores que imitam pedras e das pedras que imitam pássaros e pássaros  que imitam voar de asas em céu claro. O vento a chuva vêm inesperadamente.

       Tudo tem mãe, as coisas todas têm mãe, curuquerê-do-capim, guiratirica, taiuiá-de-cipó, barba-de-bode. Bate pancada na raiz larga da sapopema ecoa pela mata. Naveguem navegar neste rio vai o dia e chega a tarde na noite, marias-brancas, dentes azuis.

       E Miridã ainda bebê foi jogado no rio. Criado pela iara mãe-d’água. No amanhecer Miridã aparece como um menino, brinca nas águas, sobe nas árvores e pula no rio, nada tão bem como peixe acari-amarelo. Na tarde Miridã já é moço, aprende a caçar de zarabatana, aprende a pescar de cacuri de matapi, aprende a namorar cedo porque índio casa cedo. Na noite Miridã é velho e maranduera, veste curu, senta perto do fogo, levanta o braço esquerdo e comenta uma história para contar: Tupã levantou o chão ali e fez a montanha; jabuti-aperema disse pedra; o tronco no rio virou acuré, acuré fugiu mergulhando, entrou pela toca do tatupeba, saiu lá no tronco oco da árvore, virou erva de cunabi para descansar, era mágico, estreitou o rio para poder passar; a jaguaretê disse meio-dia e meia; tocandira disse cã-cã disse boitatá disse teiú disse araújia disse bacurau-d’água via tudo de perto e de longe via até no escuro disse maués; cujubim virou coatá-branco e coatá e foi por vontade própria e coatá virou caiofora; janauíra se atirou lá do alto do perau e voou até certo ponto e caiu sem pressa e abriu as asas para não se arrebentar contra as pedras abismo sem tamanho sem cachoeira mesmo se uma pedra caísse lá embaixo ninguém via e abriu as asas mais um pouco pois tava chegando pousou aterrissou e chegou lá finalmente de guará; dizem ainda hoje que por aqueles alagados e lagos e rios, a iara continua a aparecer, linda como a lua, cabelos longos como o rio, encantando e enganando os aventureiros que teimam em invadir o seu sítio; aquele dia o bicho-preguiça não quis sair do oco da maria-pereira para buscar alimento, estava cansado, e mandou os seus próprios olhos buscar folhas de embaúba, as folhas vieram com os olhos, o bicho-preguiça se coçou e criou penas, virou uirapuru-de-costa-azul, etc., uirapuru esse interessante chegou na beira do rio encontrou a paca e perguntou a ela: - que faz aqui, paca?, a paca respondeu: - não faço nada e você?; e a chuva caiu e me molhou e molhou o Coaraci e molhou a Jaci e molhou o Caruana e molhou a quebra-serra e molhou a jaçanã e molhou o tangará e molhou o peixe pirauaca e molhou a caba e molhou o rio e molhou a mani e molhou a caxiri, chuva barulhenta.

       Entretanto, as árvores estão aqui se estão ainda tão a montanha as nuvens o voo das rendeiras. Foram criados estão sendo novos nomes novas palavras, abati, abativi, piracema, cainamé, sassafrás-rajado. O sol tão paralelo oblíquo perpendicular tão acha que não precisa tão conversar com ninguém:

       - V. por aqui?

       - N. qué dizê.

       - Onde v. mora?

       - V. n. imagina quanto!

       O rio já estando assim deste jeito comum rio bom carnudo navegável. O vento sempre gosta toda vida das praias dos rios das matas das montanhas das cavernas dos aruanás das ariçus das curubas das tabocas. Umas nuvens se dissolvendo brancas altas esportivas. É conhecer e comer.

É tão bom pescar na sombra mesmo que não dê grandes iaras para o jantar, uma vez.

      

      

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Aqui Del-Rei!


 

Era um cara e uma cara. Homem e uma mulher. Uma esposa e esposo. Eles estavam juntos havia onze (11) anos. E eram tranquilos e felizes. A felicidade não existe. Assim, felizes para sempre. Para sempre será (?) um tempo suficiente. Mas poderiam compensar em ter filhos, uma vez.

No começo, não havia noite nem estrelas não havia lua. Noite que não era noite, murucututu que não era murucututu, lua que não era lua. Para onde ia a lua?, ninguém sabia para onde ela ia. E a índia Naiá saiu correndo braços erguidos pela mata atrás de alcançar a lua. Nem tanto à rua nova nem tanto à lua cheia. Os barulhos da noite foram o tem-tém!... o cre-cré!... multidão de vozes sapos jias grilos vaga-lumes galos corujas-buraqueira mulas-sem-cabeça. Foi uma noite, a lua refletida, Naiá chegou à beira do lago e mergulhou para nem nunca mais voltar.

Incerta hora, os três (3) bandidos passavam em frente da casa verde com persianas marrons e um espaço para jardim na frente. E resolveram entrar entrar. Bem armados até os dentes. O Diagonal o Oblíquo o Transversal, originais em muitas coisas. Ocultos ou do conhecimento de poucos. E cheios de confusão.

O casal estava em meio ao show de calouros assistindo e se assustou. Quem será a essa hora?! Compulsivamente, ladrou ladrou no corredor a cadela salsicha  Algeria. Pouco antes dos comerciais, um barulho suspeito a ser investigado na janela da cozinha.

- Te liga, otário! Quero as chaves do carro cartões dinheiro joias, etc.

- Não tenho cartões nem tenho joias...

- Cartão?! Carro?!

- O carro tá na oficina...

- Tá brincando?! Tá de brincadeira, oh meu?! Eu não entrei aqui pra perder o meu tempo! Quero grana, a grana, senão mato os pombinhos!

O chefe dos inclinados e mais seus dois comparsas apontavam as armas para o casal.

- E daí, primo?! Desenvolve ou te apago?!

- Não tenho dinheiro...   

- O que que é, mano?! Ocê tá de gozação?! Procurando a tua hora?!

O homem sentado no sofá verde...

- Te entrego a minha esposa...

Os tripulantes da nave interplanetária os três (3) se entreolharam. O chefe o Diagonal já foi que concordou:

- É isso, compadre! Prezamos os melhores acertos com a maior oferta!

Os visitantes intrusos indigestos amarraram o homem bem amarrado numa cadeira de balanço com apoio para os braços. Desembaraçados engraçados famintos risonhos brincalhões abraçados, foram levaram com a carne de primeira para a ceia no quarto de dormir. A tevê da sala de estar ficou com as ofertas eletrodomésticas torra-torra da rede de lojas Baré.

A lua passeava pela rua Cariúa. Não era agosto nem sexta-feira muito menos dia treze (13), mas o dia consagrado ao padroeiro São João Baptista. Lua original como nunca se viu antes imortal universal e tal qual. É difícil separar as coisas das coisas. Vos segui, vos encontrei, vos deixei e vós o sabeis!

A única vez, primeira e última eternidade.

Depois de quatro (4) horas, os famigerados satisfeitos cansados suados deram o fora por encerrado e foram embora. Mas se mudaram para muito longe. O homem ficou amarrado mais um tampão. A mulher dada como limonada.

Quem anda? A lua. Que lua? Pois a lua anda de trás para frente.

Então, muito mais tarde, o homem conseguiu se livrar das cordas das cordas.

As pessoas boas morrer cedo! Os bons viver pouco!

Vamos esperar outro dia para ver o que que se faz.

E outra vida, outra disposição.

Vai morrer e desaparecer e sumir do mapa sem conhecer a praia de Guaiú, morro Cara de Cão, baía de Guajará, rio Una, cerro do Jarau, parque Itapoã, ilha de Boipeba, Itajubá cidade?! Um pouco por passeio outro por superstição mais um tanto por respeito e curiosidade, sempre leva a algum lugar o Caminho dos Passos de Anchieta, Vitória, Vila Velha, Guarapari.

Enquanto isso, os números possuem vários problemas ao mesmo tempo e durante o percurso do de sempre. Já o sete (7) é uma exceção, não tem problemas ou tem pouquíssimos entraves.

A lua escalava percorria convidava a noite de Nova Prata. Espalhava prata por onde andava. Aqui ali no céu, a estrela corria à procura de outro lugar. Um cão talvez preto com malhas vermelhas, etc. A noite era três (3) ou quatro (4) vezes mais noite. As árvores pisoteadas pela lua, sabugueiro, lixeira, aroeira-periquita, cumanã, iaguá, rabo-de-macaco, contando com mais algumas outras, árvore-de-coral, cuaxinguba, pacova-de-macaco. Entre tanta tanta coisa curiosa, o bacurau arrepiava os cabelos. As pessoas mais velhas do lugar recomendavam recomendavam que ninguém fosse sozinho à noite se aventurar por estradas e outros caminhos e ruas e becos. Aquela noite havia sim lua na terra.

Levou todo o resto da noite. Multiplicou o corpo em oito (8) partes. Embrulhou papel laminado cuidadosamente pedaço por pedaço. Cada posta dentro do seu caixote. Os parentes escolhidos a dedo. Os endereços lançados aos quatro (4) cantos do país.

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

QUEM É O NOME DELA


      


       O amor que tenho por essa guria não é amor propriamente dito propriedade minha. É um sonho de consumo de beleza de modelo de exibição de palmeira juçara de high tech de horizonte. De longa data.

Nasci aqui e sou do mundo.

       Somos amigos os dois das plantas, quer um ex?, cajueira-bravo, taioba, sapucaia-branca, piuveira, cumaru-amarelo, faveleira, biribá... 

       Foguetes sem parar e a virada para o 2011.

E mesmo porque duvido de tudo o que me diz, principalmente desses seus olhos de Capitu. Será que não leu Capitu. Não leu, mas sabe mas entende mas presta muita atenção.

Não sou, não adianta que não sou a ilha da Gipoia!

O sol toca o ponto da manhã com estratégia carícia delícia. O vento sai pulando de arco em arco. O vento pergunta às folhas. E um rio milagreiro de nome Verde em Mato Grosso cachoeiras horizontais cai na minha balança.

Já tinha acontecido assim mesmo em lá as tantas outras vezes.

O astro na sua sina atômica tem a vida ganha. O rio tem a vida ganha. As estévias a vida ganha. Os capitães-de-saíra a vida ganha. Conto as horas conto os dias conto as árvores da avenida Casemiro de Abreu. O quiriquiri não sabe se está certo. A paciência e eu busco principalmente a paciência. Lua cômoda e acolá em cima, aquela lua branca do prato ro-lan-do em câmara lenta.

Pago um táxi para me levar até a esquina vender milho verde. Quem não gosta? Cinco reais. A rua completamente comprida e muitas das vezes sem necessidade. Milho para agradar a noite toda.

E seus cabelos que meses atrás tinham mechas esbranquiçadas e lhe acrescentavam quatro ou no mínimo três anos?! E dias após as mesmas crinas que ficaram vermelhas como fogo?! Agora são melenas negras como a asa da graúna.

Depois de passarmos a limpo, descemos e fomos ao quintal cheio de árvores. Japus-verdes faziam ensaios trapezistas em a tamboril. Uma pixoré ouvia o outro. O vim-vim fazia jus fazia por merecer. As setes-sangrias os ipês-da-várzea ajudam na cura do estômago, se for o caso. Os aipês super protegem a garganta. As pitangas-brancas combatem a febre. As capororocas previnem inchaço dos pés. As orelhas-de-burro úteis para uma boa sombra. Uma figueira-branca perto da casa excelente para guardar dos grandes ventos noroestes.  

       Já nem sei se lhe deixo uma das minhas fotos ou se fico devendo prometendo e negando adiando fingindo esquecer.

       É árvore ver o tempo, é rio ver o tempo, é tejo-do-campo ver o tempo. É olhar uma uvaia e ver o tempo.

       O que se faz para amanhã? O que faz o povo da aldeia aisuari?

       Comentada no mundo inteiro, consumida pelas tribos na região da Amazônia Legal, comemorada nacionalmente como do norte, a castanha-do-pará atingiu a curva do universo. Eficaz para o corpo e a inteligência. E faz bem a todos que é boa toda hora.

       Que o rio cresceu até as nuvens plácidas. E povoa as margens de Santo Amaro da Imperatriz, Águas Mornas, Brotas, Riachinho, Imbé.

       Hoje dia 8 de maio de 2016 cinco meses antes da minha viagem de férias para tal Junco do Seridó e São José de Espinharas.

       Essa fruta é tentação, tentação. Outro dia, por exemplo, peguei o colarzinho que trazia, tipo esses que os índios ticuna usam, e ela me pareceu preocupada e expectativa com a opinião que eu iria manifestar.

Isso tudo, contudo, não parece provável.

       São só detalhes que tudo bem que se repare, mas que não contam em nada, nada.  Atitudes como de crianças no recreio. Sem preocupação com o sentido que os olhares tomam que os gestos carregam que as palavras incitam que os outros maliciam.

       Ao nascer o sol em o dia 17 mês novembro ano de 2002 peguei e fui a pé mesmo até o centro da cidade reparando as ruas as árvores em linha de fila coisa natural coisa normal coisa minha. Todos na rua olharam para mim assim as pessoas os bichos as árvores as cadeiras os automóveis os acampitás. O céu azul as árvores verdes, pequiá-do-mato, estriveira, peribi, canela-pinho, sapupema, granixinga e o vento que sempre vem de longe. Bando de peririguás, juruebas, também os jaós, fogos-apagous. Ficaram as casas, ficou a rua, ficaram as árvores com flores comestíveis. As lojas seus atendentes tranquilos seus fregueses ausentes indiferentes escassos. Os prédios de vidro sob o sol quente, mandaçaias-do-chão, tinguis-da-praia, nhumbus. A partir da praça Aimoré, a paca atravessou o canteiro central entrou pela sapieira no terreno baldio virou cutia virou preá virou cadeira virou taquaruçu virou pacova-sororoca etc vira virou por aí afora ou coisas aparecidas.

       Não sou, não adianta que não sou o caiouá!

       É fácil saber o que ela está pensando neste minuto. Que horas são? Está por lá na sua casa na praia da Joaquina pensando em mim como eu penso nela daqui de Pirapora.

       É a minha natural veleidade. É mania a veleidade. É a veleidade.

No shopping no ginásio na missa de domingo tentamos super disfarçar. Dia 20, 7 horas da tarde e o ano de 2004. Sempre quando nos vemos preferimos aquela troca de gestos e palavras amistosas, um beijo no rosto e tchau, um beijo só no lado do rosto e tchau mesmo.

Minha irmã do meio me recomendou uma certa viúva recém-recém moradora no bairro São Peregrino e eu fiquei para olhar para ver de pesar de ponderar e cotejar e comparar.

A rua ou avenida das árvores enormes em arco em túnel, jatobá, vassourão-de-cavalo, cumbaru, monjolo, embiruçu, formigueira, fruta-de-pomba...

Isso tudo, porém, parece provável.

       Não se sabe aonde essa história vai parar. Parará um dia no rio da Farinha, no rio Pardo, no rio Itanhaém. Alguém vai embora, ou arruma outra, enfim. Até se pode sonhar que dará certo, que lenda de índios sapará ainda conquistará a moda, que o cine Turumã ainda funcione nas tardes de domingo, que sobrevivem ainda os passeios de mãos dadas pela praça da Bandeira, que os pôr do sóis ainda podem ser festejados e revistos aos sorvetes aos algodões-doces aos mates. Que perda de tempo!

       Não sou, não adianta que não sou o camboatá-branco!

       Nesse momento não ouso pensar em mim. Não me preocupo. Vou pela rua avenida Flores da Cunha sentido do Horto Florestal. Olhando os pés das árvores uma do lado da outra árvores altas amarelas verdes roxas, goiaba-verde, guamirim, cerejeira-do-mato, cássia-branca, batinga, guaretá, angico-vermelho. Pitoresco. Quando é época de frutos carregadas de frutas. Os maracanãs sabem que estão certos. É, sim, por que não?!, 2008 foi um ano e tanto.

       De novo céu sem nuvens sem pássaros sem pandorgas sem sapos-martelos onde uma nave extraterrestre interestelar se desloca numa disposição de imaginária resplandecência.

       Ninguém precisa me dizer que é rio pois é rio.

       Passou o dia, foram dois três dias, passaram meses, passou o ano, o lento rio do tempo ao vento, e já eram começos do 8 de janeiro de 2014.

Perdi o meu tempo perdi tempo e fiquei livre aéreo leve e leviano. Não sobra mais tempo para mais nada. Só as coisas mudas do passar do tempo. Penso cismo e não abro a boca. Só os climas, sem os lugares sem os nomes no transcorrer do tempo. O relógio faz-que-fez os ponteiros e vai contando as montanhas de minutos as horas. É possível mesmo que não seja provável!

Vou comprar uma cidade que acha? da cidade de Mormaço, quero adquirir Ibiaí, vou ver se posso com o preço de Patos, me interesso muito por Piquerobi, faço negócio compro vendo troco São Mateus do Sul, tenho preferências por Lajeado Grande, vou ganhar muito dinheiro com Itobi, Juquitiba, Natividade da Serra, Guaxupé, levo fé nos planos para Ribeirão Preto.

       Correram os dias após dias, se passaram os meses, super águas da chuva, e quantos anos, quinze dezesseis, depois já em maio de 1996 quando a população já ficava sabendo da inauguração da ponte. Dois invernos após, aconteceu o fato insólito: a ponte amanheceu pintada de azul. Mais ou menos quatro anos de águas sob a ponte, uma Copa do Mundo, uma grande crise no ministério dos transportes, uma seca na região nordeste do país, uma olimpíada de vinte medalhas, e a ponte com sua pintura definitiva em verde-amarelo. Agora recentemente, uns dois meses para trás, ocorreu o fato esquisito sobrenatural e clandestino da ponte ter aumentado em mais doze arcos. Onde está D para tudo isso?!

       Se chover paga um pinto, se levar guarda-chuva paga um mico!

       Quero dizer que já passei pela mesma rua muitas vezes, de casa para tal ponto de tais pontos para casa, indo e vindo, muitas vezes essa mesma rua passei repassei e passarei e que ainda nem sei.

       E depois, por analogia, veio o vento o rio a chuva o sol as árvores da praça nessa ordem de piaçaba, milho-cozido, espinheiro, sete-capotes, umbu...

       Na verdade na verdade o que o h. mais aprecia e gosta e preza e leva em conta, antes de dinheiro mulher futebol (não exatamente nessa ordem e progresso), é de um bom e salgado churrasco.

       Que um pequeno motor suficiente bastou o pequeno motor que acionou todo o carretel. Pois no princípio era água era fogo era combustível.  

Estava de tarde. Quando a tarde passava da 5h e 30min. Uma beleza ágil onisciente onipresente. A garça-branca desceu do céu rajado. À beira do rio, e que ali desliza numa mansidão de vida ganha. A garça-branca atravessou o banhado, voo baixo, em curva para cá, e a restinga atravessada na sua garganta. Pousou num tronco caído de amarelinho. A ave ali mesmo se acomodou, se acomodou, encolheu uma perna, fechou os olhos, dormiu. Outras aves apareceram que elas vêm ali para pernoitar, costumam abrir muito bem as asas, não batem as asas, abrem bem as asas como paraquedistas pousando, pousam no chão alagado com leveza e calma e já saem caminhando, pararam também olhando tudo em volta, guanaco, coió, mutum, chocão-carijó, boiadeiro, rexenxão, um carpinteiro com palito seco no bico. Poucas nuvens passaram sem a lua. O bacurau estagiando. O sol o sol despontou. A garça-branca já não estava mais. Do lugar do tronco inclinado caído brotaram capim-rabo-de-gato, açoita-cavalo, juciri, arapapá, beija-flor-de-papo-branco, inxu, formiga-correição, jaritataca, marigui, tracajá, saíram andando nadando voando entoando uma vez por ano todos os anos.

       O sol, que todos conhecemos, sabe demais.

       Muito o céu é bonito, muito os véus de cachoeiras entre pedras e verde são bonitos, muito as árvores são perobas-tabuadas, cuitelos, mulungus, ajurus, salgueiros-do-mato, piriris, pinheiros-das-missões...

       Não sou, não adianta que não sou o gavião-de-penacho.

       E o sol lá em cima, e sem nos dizer nada, sem se ver por achado. No outro dia a mesma coisa. Ao meio-dia o sol irá beber junto ao rio debaixo da taxizeiro na sombra. De tardezinha tomará mate com as gralhas-picaças. De noite assistirá televisão no vigésimo oitavo se possível ou no quinquagésimo sétimo andar apartamento da irmã manduri. O céu galáctico. No lar doce lar da irmã apreciará tevê no sofá verde da sala predileta comerá bolo de chocolate com cerveja artesanal de Blumenau. Acordando na madrugada bem cedo tomará mate com os neineis. Descerá até a rua comprar pães cacetinhos para o café da manhã. Em seguida embarcará numa caravela cheia de velas ao vento demanda do oceano mais precisamente o arquipélago de São Pedro e São Paulo.

       E isso tem que acontecer com qualquer um. É assim e tudo isso e exatamente o que acontece comigo nesse momento aqueles momentos todos os momentos.

       Olha!, como eu gostaria de trabalhar aqui. Um garção neste restaurante frente da praça Panará. Servir os pratos pedidos. Oferecer as bebidas. Recolher as mesas. Cumprimentar pessoas que chegam saem salamaleques mesuras ademanes. Saber o nome das comidas das bebidas dos pontos turísticos dos famosos frequentadores. Em pé num canto esperando um gesto mãos às costas solícito e atento a tudo que se passa. Que bom! Sim ou não? E terei aqui outros garçãos e garçonetes outros fregueses. Certa hora cansado pés doloridos tarde da noite irei para casa no bairro São Cristóvão, dormir até meio-dia ou mais, retornarei mareado pálido no começo da noite seguinte. E seria a mesma coisa. Eu só pensaria nisso.

       Não vou me perder. Faz parte a fantasia. Não vou correr atrás de coisas que não posso ter, que não me pertencem, que me fazem mais tolo do que sou. A ilusão da ilusão da ilusão da revolução. Não me vejo não vão me ver no encalço dessa linda e bela Marília de Dirceu.

       - Isto é o que sempre digo e lhe digo.

 

 

      

 

domingo, 2 de novembro de 2014

De Tempo E De Espaço


      

 

 

       

       Um domingo dia claro, espacial, a guria sonhava comigo, enlevada, e a morte na surpresa. O dia bifocal o sonho desnorteado a partida quilômetro de arrancada.

       Só havia mesmo o necessário para chegar na hora.

E eu não soube mais, não soube nunca e de nada que ela me amava muito. Foi tão surreal, tão impatriótico, tão desnecessário, Deus servido!

As horas saem do tempo para andar com a corrente do rio, etc.

Nasci aos 13 anos quando ela me deu um beijo sem eu pedir. Eu segurara seu cabelo mas não pedira beijos. Ela disse “não gosto que puxem meu cabelo!” e me deu o beijo. Despertei. Tudo novo de árvore nova cheirando a verde em folha. Nascia para os 13 anos de idade e lia tudo que me caía nas mãos e nunca fui muito criativo. Ela era loira como já estavam lindas as minhas primas.

Quem me contou me contou e nem soube me contar. Foi assim muito à queima-roupa, entre outros assuntos, na calçada da rua Catimbó, dia de comemoração cívica, buçuís carregados de coquinhos amarelos. O que distingue os humanos das pessoas dos bichos das coisas é a ausência ou a presença de cauda. Todos os dias a gurizada todos os dias jogava pelada todos os dias no campinho todos os dias da pracinha todos os dias depois da aula.

O amanhecer se dirigiu ao rio Pontenji às árvores à montanha ao oceano, etc. Há pessoas que desaparecem desaparecem... Os pássaros se demoraram contando, tuí-tuí, beneditos, maguari, furriel-vermelho, carancho, jacupemba, cambaxirra-grande, tinguaçu, barulhento. Eram as 11h e 35min. Uma superbrancura sobrenatural de ofuscar a paz.

Primeiro dia de aula eu a vi ela me olhava apresentação de professores indicação das salas de aulas me perguntou “você é irmão de fulano?” Respondi que não nem nunca. E ela me explicou “seus olhos são iguais iguaiszinhos verde-claros e um ponto a seu favor”.

Mil e tantos multidão povo de pensamentos quentes frios indo e vindo sossegados ariscos voando caminhando nadando revoltando uns mais elásticos. Mil e invisíveis tantos e muitos e uma estrela.

Me pareceu ouvir gritos de gaivotas alcatrazes atobás-pardos, às dezenas centenas milhares, isso embora, a 350km da costa e a 800m de altitude na serra Gaúcha.

O tempo me começou a correr. Como a morte é legal é supetão é barranco é xerém é mata-burro é quixó, é mil-homens. Galáxias enormes em espirais para se ver e se ouvir, uma vez.

Certa tarde de jogo eu estava no Beira-Rio e pensei nela, não sei por quê?, devo ter visto alguém próximo em tudo, os olhos, os cabelos anelados arrumados tipo arapuã, o sorriso, os trejeitos, os tênis floridos, a camiseta com o 10 às costas, calça saruel. Olhos bonitos fundos na cor sem fim, olhos que esqueciam a dona, olhos dela mesma ver e a gente mergulhar. Agradáveis de olhar e se ver.

A água toma conta dos peixes, o ar toma das aves, o vento toma das folhas. Rufares de tambores, nitridos de antas, ululares de bugios, ornejares de ônibus automóveis motos, estridulares de avoantes.

       A guria era calma, quieta, contemplativa, corpo acentuado e de formas surpreendentemente filarmônicas esportivas equilibradas ondeadas. Estudava a faculdade de turismo em Chapadão do Sul, cumpria suas obrigações caseiras e cotidianas, obedecia a mãe o pai os irmãos, brincava com o Caju cachorro linguiça de estimação, dormia na hora que lhe recomendaram, cavalo às terças e sextas pela manhã, etc, nem nada a tirava do juízo. Agora, o que foi, seus sonhos eram o seu tudo. Tanto que até quem mais a conhecia duvidava.

       Um dia como nunca outro dia nem tempo em mês de outubro nem espaço na lancheria, ela apareceu e “querido!”. Uma vez que outra, seus cabelos caracóis longos encobriam o rosto uma mecha desequilibrava pela frente dos olhos. Doce semblante.

       Um sanhaçu-verde cantava quarta-feira complicado uma casa verde com seis portas azuis e dezoito janelas, isso mesmo, verão ou setembro particularmente, no céu um drone intrigante, nos espantamos duas vezes mais, para onde correm as águas do rio Piabanha, gentes dos cauaíbe imitando pio de aves zumbidos de insetos rumores de bichos murmúrios de índios.

Tudo tão longe e distante, tão parado e deserto, tão alheio e aéreo, tão leve e passageiro. Concentrada no sorvete de pitangas perfume de rosas cabelo em xaxim no alto da cabeça com cravo de osso.

       Depois da visita à igreja folheada a ouro, andamos em volta da praça com estátua de D. Pedro II, as árvores centenárias frondosas, jequitibá, calafate, capeba-do-norte, oeirana, copaié, dormideira-grande, guajuvira-branca e como fazer progressiva no cabelo para uso irrestrito em dia chuvoso.

       Os carros pararam na esquina diante da sinaleira no código de barras os carros e motos pararam eram das cores motores ligados me olhavam me viam e ficaram me cuidando provisoriamente particularmente.

       Um nome de vento sem pé nem cabeça vindo da lua nova, uma claridade pintada de azul soprando do mar, peixes entre os arrecifes, cangulo, xaréu, saberê, canguá, bodião-papagaio; noite correndo por dentro ora por fora.

       Morreu e superou. Acordou suspirou retornou a si aquela que é e abriu os olhos e deixou o navio para trás. Subiu foi flutuou leve parecida folgada que respirava que olhava tudo parentes amigos convidados o mundo que era o mesmo. Tudo igual só ela somente do jeito de vapor. O mundo foi saindo. O céu sempre o céu, algumas nuvens ou almas, o vento sempre o vento, alguns aviões ou árvores. Olhando o céu do ponto de vista mais perto. As estrelas maiores. O azul mais verde. De repente se deu de abrir uma das janelas azuis e “oi, querido!”, tudo tão mais perto, mais plus.

       O sol apareceu nas 10h, os carros passavam sem cerimônia, o rio Tijuco passava, passando por quantos o vento, por cima o azul com pingos de nuvens bem brancas, as plantas cheirando folhas verdes, ajará, mata-pasto, carnaúba, nhambuí, ervas-de-lagarto, tingui-da-praia, viraru, peroba-iquira, ela me olhou com adocicação, me passou a mão e “querido!” disse juntinho de cabeça no ombro.

       Perto do natal de 2004, fomos ver “A Volta do Chupa-Cabra” no melhor e único cinema de Nova Prata, ela me confessou bem no ouvido esquerdo “ah, eu que tenho querido!”.

       Por exemplo, nesse dia de sua morte, sonhava comigo e eu mal não tinha ideia. Ela via um mundo dela cheio das coisas que se procura, e que juntos passáramos a procurar na maior alegria, coisas simples como ir ao parque Marinha do Brasil, a uma festa só para ouvir música ao vivo e comer doces de coco, exercícios de aritmética, caminhar de mãos dadas se equilibrando no cordão do meio-fio, conversar coisas banais de casos sem importância da tevê, de futuros passeios em Paraopeba, trocando, isso sim sem falta sem faltas, a cada 10 metros dez metros, um beijo na boca com confeitos com estalado.

       Quando me perdi quando me perdi, o seu sonho me encontrou. Viagem e viagens. Viajávamos de trem bala pelo centro-oeste goiano recordando as paradas, Toledo, Ponte Alta do Norte, Jacareí, Paraibuna, Bambuí, Luz, Onça de Pitangui, Rio Tinto, Macau...

       A noite se afastou. Ainda bem, o dia apareceu. Ainda melhor. E se a culpa for minha.

       Os peixes voavam sem aterrissar, as aves nadavam de braçada no mar azul, o calango procurava o tronco caído escorado, as abelhas e as formigas buscavam explorar o terreiro o pátio a calçada da rua Xarias. As sombras faziam a tarde parecer quase sol. Passou um cão risonho, em si mesmo, farejando tudo por nada. A copaíba-vermelha achou que estava viajando com o vento... mas logo logo esqueceu. Um cauteloso sagui-branco... típico artista de televisão... como um atacante artilheiro de time de futebol... e pronto para cobrar o pênalti... deu o pulo do gato e sumiu na platibanda.

       O sol, olhos distantes longe, parou na árvore e deitou. Deus, disse também: “Aí não é lugar!” Tudo artisticamente preparado para início começo de alguma coisa e cheiro de tinta verde. O sol procurou cores entre as pedras nos morros nos rios por trás das cachoeiras na fronde das árvores no forte dos Reis Magos. Conversas com as ruas da cidade com as pontes as praças o museu de História Natural. 

       Sua aventura no mundo pode-se dizer que não houve pois não pesou sua existência em nada. E o que sonhou somente sonhou e mais ninguém. Coisa muito sutil, vapor mesmo, coisa que não interferia, nem fiquei sabendo, eu que era personagem eu que era personagem. Morreu quieta para não acordar os sonhos do sonho.

       A lua, pesada, subia por trás das grandes árvores e era tudo. A lua a lua três quatro cinco luas. E estrelas aos milhares para milhões e milhões de distância. Vento com volume adequado conversava com as bicuíbas. Lua parabólica inacreditável onça-pintada chocalhar de ondas calçada da avenida Atlântica.

       Um dia numa manhã de muita chuva, nos vimos na rua Caeté, ela me chamou me chamou, eu a cumprimentei com a mão, veio correndo para me pegar me pegar, embarquei num táxi urgente que tinha um negócio compromisso para o bairro Retiro e longe e estava horas atrasado. Talvez tenha sido a última vez que a vi com merecida, se bem ou não me lembro.

       Lá longe onde um rio foge entre as montanhas. Foge para onde mesmo se espera. Os índios caiapó-metuctire falam com as árvores. Patativa-boiadeiro oitizeiro probabilidade. Um rio de verdade.

       Foi sim que me lembro aquele dia aquelas horas oito horas e escuridão nove horas escuro dez e meia escuro meio-dia escuro treze horas escuro. Todo mundo pensando no fim dos tempos. Tudo enevoado sombrio misterioso oculto maroto velhaco. Nós da multidão enchemos as ruas as praças sob os postes de luz buscando as explicações prevendo o fim do mundo um cometa na iminência de bater na Terra a bomba H levantando poeira, etc. Dia-noite comprido frio parecia que era para chover chuva ácida. Estudantes fazendo arruaças incendiando carros quebrando vitrinas explodindo caixas eletrônicos escalando o gradil da prefeitura.Todos nós vestidos para o inverno roupas pesadas quentes escuras encapuzados mangas e calças compridas. A lua multiplicada calma no meio da cerração entre as nuvens atrás dos galhos secos antenas de rádio. As aves do dia piavam esperando sem entender. Os insetos da noite incertos zumbindo nos ouvidos. Aviões decolando com luzes amarelas vermelhas grandes pequenos piscando luzes coloridas. Reportagens extraordinárias na tevê. Escuro demais forçávamos a vista. Àquela hora ainda escuro todos se perguntavam “por quê?” Todo o mundo procurando cientistas para entender o fenômeno. As culpas recaíam sobre a fumaça das fábricas as queimadas na lavoura o efeito estufa a exploração do pré-sal, etc. Corremos todos para a praia. Paramos diante do mar. Na areia mal e mal na penumbra vimos a mulher deitada. Ela acordou, se arrepiou, olhou para trás sentou na areia. Tirou tirou os óculos escuros... E o milagre! Apareceu o sol e foi às quinze e trinta e dois na tarde clara. E que namorada! Uns raios de sol azul vararam as poucas nuvens e se cravaram no solo, nas pedras, nos prédios, nos vidros fumê, que milagre!, o dia acendeu clareou expandiu pintou de cores. A mulher tirou os óculos escuros, e que guria, meu! e o sol deu o ar das graças e o sol apareceu.

       Quem sabe fora um dia que eu telefonara e ela me assegurara que voltaria do além-mar na forma de uma formiga içá ou de uma bizogue ou de um pássaro papa-arroz-de-barriga-branca ou de um riacho afluente do rio Juruá ou caxingui ou de uma árvore copiúva, etc. Me assegurara me prometera combináramos e ríramos muito.

       Vento, muito vento. Sol, muito sol. Nuvens, muitas nuvens de chuva. Zumbidos, muitos barulhos. Principalmente à noite.

       E eu que sei pouco dos sonhos que ela me tinha, que me levavam, que me embelezavam, nem faço o obséquio de chorar. Fico, assim como estou agora, todo esquisito e sem mudar meu domingo. Não sou de me obstinar. Fico olhando terminar o dia normalmente. Não sou de bater no peito. É como se eu não a tivesse conhecido, como se não a tivesse adorado, como se não a tivesse merecido. Não sou de me ofender.

       E é como se a esperasse sempre toda vida de outras idas e vindas, oquei!?

 

domingo, 14 de setembro de 2014

Quando Mais Não Seja


      

 
 

      

       No universo espiral flexível simpático... num horto qualquer e distante e sossegado do cosmos... etc., por onde anda e observa... etc., mais por força do hábito inventa dorme... etc., sem tempo sem pressa sem espaço... as palavras as sílabas as letras os números em as correntes de... etc., completo associado sagueiro-da-terra rio Alpercatas ilha das Flores formiga-cortadeira piraba cotia biguá onça-pintada... etc., misturado de todo em as brancas nuvens, o Senhor.

       Ainda não entendo nem acredito nem necessito e não imagino por que essas coisas aparecem na minha rua na minha retina em a minha aula no meu círculo de giz a minha frente na minha lata.

       E olha como se vê no céu em que uma estrela vale tanto quanto mil.

Há metamorfoses que antes de ser já pagam caro muitos e muitos dos pais dos avós dos bisavós, etc. Então, temos coisas carregadas que herdamos dessa gente dessa natureza dessa caravela dessa romaria. Porque uns têm que aprender a ser felizes, e outros a ser desfrutáveis.

       Esses dias eu vi um tatuapara cuandu mocó sagui-de-duas-cores. Ele tinha os dentes tão grandes e salientes que não podia parar de sorrir, sorria sem querer, sorria mastigado. E olhava sorrindo muito desenxabido os outros guris nos brinquedos brincando.

       O verde do mato, o verde dos tipis-bravos, o verde bonito e caprichado. Aves nadavam bem perto da água anambé-azul coscoroba tuim gaturamo-verde tetéu ajurucatinga anhuma itapema vira-folhas. O ouvido do rio com suas canções de água pedras árvores passarinhos e borboletas e besouros e zabelinhas. Outras árvores outras caras e outras figuras canela-de-ema coronha olho-de-cabra saguaraji erva-lanceta gameleira-de-cansaço avenca-da-terra. O dia que adora chuva. Manhã onde mora o sol ovo indez. Céu que não acaba. Lugar da chuva.

Assim vendo eu fiquei na minha, não sabia se eu era um dos que brincavam alvoroçados e sem noção ou se era aquele etê o da arquibancada plateia.

       É o que um menino sozinho pode querer e fazer? Se fosse em adulto teria as lembranças, poderia dizer das suas saudades, chamar amigos, mostrar as mãos, falar das cidades por onde andou, da aventura que explorou o Itaimbezinho, da quadra onde jogou, das árvores que escalou, do rio que nadou, da praia que conheceu fulana.

       Os coqueiros-carandaís da praça são três e lado a lado. E o bom tempo do verão que começa.

Mais e o menino que nunca teve uma bicicleta? Vai feliz de quê? Que lembrança? E dorme sem nenhum sonho de ir e vir.

Ficaria uma hipotética para outra vez. O espaço das árvores ibapoi, cigana, majuba, ajuru, vinhático-testa-de-boi, caixeta, bilreiro, tipuana. Haja vista o caso do caajuçara.

       Veio um piano do mundo mágico que entrou na sua história de coisa de nada de ninguém. Poderia ter sido uma bola, um carrinho, um avião, uma prancha, um livro de lendas dos índios coropó, até mil games, mas foi um piano. Aprendeu tudo de ouvido no prazo de três quatro meses.

Tocou tudo que os gênios compuseram e que os pedestres não sabem nem começar. Os acordes os sons e as harmonias.

Vontade de aquário é chuva. Os peixes aparecem cores circulam rendem alucinam cores por dentro da água límpida as folhas amarelas e as pedras polidas.

E as viagens consagradas para os lugares que só os talentosos têm direito de frequentar. Era um outro mundo. Mesmo de repente cheio de luzes tapete vermelho galerias e aplausos.

O céu azul e até mais. A baía de São José. O rio Araguari. A serra das Araras. Uma semana um mês muitas estações na aldeia dos gerém. Céu de beleza diáfana inefável. Os fins de semana em Itupeva.

Na praça Gonçalves Dias os arrulhos as conversas intermitentes, os três irmãos coqueiros.

Pois o rapazinho, camuflado ao piano, sorria com todos os seus enormes dentes, de olhos fechados, na sua cadeira elétrica, óculos grandes, pianíssimo, sorriso de cavalo, dentes de teclado, cabelos assombrados, braços mãos dedos driblando notas, dentes presas de sabre, engraçado, dentes de marfim.

E só necessitava do ar para ouvir.

       Dia de mil sóis e sinais de música. Dia de mil cantos e gorjeios e trissados e assovios. Dia de mil asas irisadas. Dia de mil folhas de árvores. Dia de tesouro escondido entre mil e uma ilhas Ubatuba de areias brancas. Dia de vento cantar nas folhas da cuipuna e uma duas trezentas mil. Dia de mil peixes comendo frutas amarelas com as pedras e a corrente.

       O recendente caldo de cana com abacaxi, o tempo para onde corre com os anos tão depressa, uma árvore desse porte castanheira-do-pará tem tudo em suas mãos, o rio que imita o vento.  

Os dedos e os ouvidos cheios de caminhos, inaugurando o tempo novo, ondas tímbricas temperando o ar, sons de cores.