Nem preciso de orações de santos de fumaças de
joelhadas de búzios de poções de amuletos e figas e sinais e cordões nem
promessas ou mensagens ou conselhos nem ídolos nem procissões.
Para que existe o passado o futuro? E o já vivido e o
por vir, vazios ferozes e assustadores.
E se as árvores não existissem ou virassem em
monumentos de pedra e lagoas povoadas de garças-brancas e anhumas e
paturis-pretas?!
- Uma boca de beijos os olhos de pintassilgo os
cabelos curtos o cadeixo com prendedor verde em olhinhos de rubis esmeraldas
diamantes ouros perfume de lilases flores na água corrente o gorjeio o riso da
juriti no verão. Dois anos passados toda a sorte vaidosa. A tarefa daqueles
olhos negros aveludados que ficavam às vezes parados em ponto de bala numa
contemplação pioneira. E beijei-lhe a garganta as orelhas a boca a música o
cachecol os lábios os beijos as madeixas. Ali onde estava tinha dezenove para
vinte anos. E escondeu os olhos, quieta, raiz-de-sol, corujinha-do-mato, olhos guardados
como se estivesse pensando.
Pois os herbários são assim e brotam daí os cipós
arbustos muitas cores de verde folhagens flores frutos cachimbo-de-jabuti
barba-de-paca verônica-do-igapó palmeira-barriguda barba-de-são-pedro um
cortejo as nuvens pequenas boiando no azul entre outras nuvens no céu
totalmente infinito completamente confidencial aves plumosas modulando a voz
grasnou arengou trinou estrilou periquitão-maracanã suiruá mãe-da-taoca, alferes
traz-farinha-aí ipecuá um préstito.
- À hora de dormir ela estendeu os braços pernas
longas intermináveis e continuou comentando contando confundindo confidenciando:
“As correntes do rio torceu deturpou e exagerou. Aqui perto, ali certo. Os
ambientes verdes do vale concebeu organizou e dirigiu. Os altos degraus da
serra grande esforço boa vontade e ótima tolerância. Aqui perto, ali certo. As
longas geometrias do sol concebeu montou e chefiou.”
Há alguma lógica nisso? E uma coisa nem bem é da outra
diferente. Deus está me cuidando e ver se eu posso um dia desses voltar a ser
árvore mata-olho cavitinga cedro-batata guatambu embiruçu ou pássaro ou
monumento de pedra à minha inteira e sozinha escolha em um piscar de olhos.
É do rio que eu lembro... Estava comum naquele dia ver
retalhos por acaso as nuvens que uma ia e outra voltava. Até logo, até logo. As
plantas nitidamente sacudiam o vento vrrruu!... da tarde borragem-brava
fava-de-santo-inácio-falsa uva-do-rio-apa guambu aca gogó-de-guariba. Até logo,
até logo. Os alados beija-flor-de-gravata-verde uiratatá cardeal-do-sul araçari
leves esportivos recreativos esponsais em companhia bichanandoperto.
- E ela prometeu me procurar depois que eu voltasse de
Campo Grande disse que telefonaria e não telefonou minha imaginação travou dispersou
e nem funcionou mais um mês se passou e outro dia encontrei com ela por obra
inteira do acaso na rua Nhandeva estava leve feliz e transformada ficou de me
telefonar agradeceu se despediu e saiu talvez tenha tentado me discar e me
recolhi me escondi sem fazer barulho sem fazer ruído um sussurro.
O rio corre dentro do estilo o sol no estilo a
cuipeúna a barba-de-lagoa o doremi a ata o sapo-veneno-de-flecha o tarecaí em o
estilo, planejar executar e triunfar.
Não sou lobo-guará, quer dizer, não sou cuintau para
acreditar que as estrelas são feitas de fogueiras de São João ou olhos de
curumins arteiros.
- Vinha andando era segunda-feira vi a vitrina e parei
bem no meio do público 8h e 20min da multidão que ia e vinha lotando a calçada
de um lado da avenida Uirina centro comercial de Piratuba ela me viu nem se
abalou muito natural trocamos aperto de mão procurei seus olhos perguntei se
poderíamos passear cabelos ao vento Itapeva mãos dadas Serra do Navio braços
dados ilha Rata cabeça no ombro forte Tamandaré da Laje conversas recreativas reserva
dos índios avá-guarani pensou riu e respondeu: “Coragem!”
Eu nasci escutando ouvindo Araraquara,
Perdizes, Sete Barras, Itaboraí, Axixá do Tocantins, Ibiá, praia de São
Francisco, serra das Andorinhas, serra da Piedade, reserva território terras florestas
dos hixcariana. E ano passado do fim ao início passaram carnaval aniversário
campeonatos olimpíadas matinadas no Parque Municipal Américo R. Giannetti férias
viagem pelo rio Itacaiúnas.
- Ela me comunicou num cantar de itaipava
na enxurrada e detrás de a capa preta com fundo vermelho gola alta com capuz a
testa franzida os olhos oblíquos o zigue-zague dos guizos raciocínio acelerado
percepção alterada: “Essa vez você vai para a última viagem!”
Que não queria tremer tremi como folha
na ventania e me perguntei: “Adianta nem ter mídia? Adianta ter dois metros?
Isso de meio termo ter é remédio?”
Fui rio fui homem cachorro aldeia
joão-suiriri barbatimão capim-de-pernambuco sem que nada nem nunca ninguém ou nenhum
possa me apagar deletar da memória...
Perdi a confiança com tanta
desconfiança serra da Seringa Caucaia Água Azul do Norte Cabedelo aldeia dos
andira no voo do jato no trilho do metrô nas curvas do ônibus e por onde ando
de bicicleta ou calcorreando.
Ontem 23 de março terça-feira e eu me
perguntava, o cérebro em obras: “Para que servem estas nuvens? Como se chama
aquela árvore? Os colhereiros gazeiam as andorinhas trissam as cigarras
rechinam os tartaranhões-cinza guincham os trombeteiros arengam. De onde que vêm
e que vão estes automóveis pela rua Aripuanã?” Olhava a nuvem e me indagava: “Que
será que ela não quer?”
Então, com a passagem de ida embarco
para o sem fim. Mas me abrigo no apreciar a paisagem o deserto que me acerca, o
pântano que a lua não bate, o mar pegajoso, a noite do espaço sideral, etc.,
talvezes, quaisquer. E meu consolo, no rumo de novos vértices ou luzes alertas
cones fitas isolantes balizas, lá nas estrelas ou em algum planeta desperdiçado.
Passagem só de vai.
O caminho o caminhante a caminhada em o
rio como o rio Ivaí ou o rio Paraíba do Sul. E continuo com as mesmas viagens as
boas vantagens e de outros passeios e turismos, Jacupiranga, Praia Norte,
Piraquê, São Geraldo do Araguaia, Ibotirama, Xambioá, região consagrada dos
suruí-paíter.
- Ela agradeceu se despediu e desligou.
Fiquei encolhido na geladeira e sem saber para sempre o que pensar. Nem
imaginei para que serve uma mesa e quatro cadeiras um sofá com duas poltronas cor
verde com mesa de centro e alguns enfeites pelos móveis e paredes. Me vesti saí
dirigi pela rua andei pela praça Boimé procurei pelo shopping cansei voltei
desvesti tomei banho e achei melhor deitar.
Já está na hora. O rio Pomba divide a
terra ao meio. O rio que embarcara em canoa igaruçu. O rio pouco que se importa.
Rio que contorna a montanha e achatudobem.
No alto do morro encontrei com árvores
antigas jambeiro-bravo abieiro uirari baraúna boi-gordo. Às vezes passavam os
besouros as abelhas aramás tucanos-de-cinta saruê inhambuxintãs patos-crioulos.
Não sou capivara, quer dizer, não sou
tracajá para sobreviver à sombra das folhas de cebolas-bravas-do-pará. Quem não
quer ser árvore? Quem não quer ser, um dia uma estação uma geração uma vez uma
encarnação, quer ser araponga, tié-galo, gaturamo-bandeira, sanhaçotinga?
O tempo jabarandaia. O tempo que passa que repassa. O
tempo cômodo corredor jardim com sapos e arbustos casa condomínio de luxo. O
tempo Conselheiro Lafaiete e Areal. Pensando bem, o tempo é pura Ana Cleonice
estudante de geologia da UFSC.
São 16h estou na rua Cadiuéu ideias
misturadas sexta-feira de mulheres ao sol pensamentos truncados primavera de
2015 bairro dos Pirarrã neste bar-lancheria Piraquara nesta mesma cidade onde
moro comer alguma coisa beber qualquer coisa.
Olho o rio que imita o continuar, rio
que fabrica a si mesmo, rio sem se interromper, rio invertebrado, rio
profissional como a montanha como o pajurá como o papagaio-de-fronte-azul como
o sagui-imperador.
Estou ainda com medo, como corpo cheio
do frio. Ouvira tantas dessas histórias de terror, que me parece aos olhos
cansados tudo estar dormindo congelado empedrado teiniaguá do Cerro do Jarau bife
queimado.
Outra coisa. Como o sem fim pode ser o
novo que o rio que levava? Tenho me consolar. A calma me ajudará a musicar o
que não posso embarcar.
Não vou inquirir dó de mim. E este
tremor vai passar, mesmo com muito frio, neste lugar sem sol e sem lua e sem
árvores e não há vagas. Ter meio termo é bobagem.
O começo do ano coincidiu com o começo
do fim do mundo imaginado decidido e planejado.
Será que as árvores se lembram... de
mim quando fui monumento de pedra cachorro homem árvore pássaro
saíra-de-papo-preto ibijaú sabiá-do-campo neinei inhacurutu? Fui árvore duas três
quatro vezes me recordo... que outras árvores me rodeavam e elas inclusive
tinham sido outras árvores ilhas lebres rios nuvens.
- Enquanto estava lidando com as horas de
serviço parava e pensava e pensava nela pensava onde estaria, etc., e se
telefonasse quem sabe me telefonasse, etc., peço este favor este favor nem
consegui pregar o olho e seu riso e seus olhos e a sua carne macia cheirosa
quente natural horizontal.
Não sou mão-pelada, quer dizer, não sou
um caxingui que se esconde da rua para ter melodia também da noite. Quem não é
árvore? Quem não é tico-tico-rei-vermelho ou pirarara ou capim-gengibre ou cambará-de-meia-légua.
O rio possui outras pessoas outras
árvores outras pedras polidas outros encontros ou lugares Itatiaia Crato Poços
de Caldas Machadinho Boituva Divinolândia e nemtemjeito.
Paro diante de um pote de sorvetes aprecio
com os sabores cheio de chocolate pequi açaí pitanga caju pedaços salada de
frutas.