domingo, 4 de outubro de 2015

Ainda Nunca Tive Tempo



Nem preciso de orações de santos de fumaças de joelhadas de búzios de poções de amuletos e figas e sinais e cordões nem promessas ou mensagens ou conselhos nem ídolos nem procissões.
Para que existe o passado o futuro? E o já vivido e o por vir, vazios ferozes e assustadores.
E se as árvores não existissem ou virassem em monumentos de pedra e lagoas povoadas de garças-brancas e anhumas e paturis-pretas?!
- Uma boca de beijos os olhos de pintassilgo os cabelos curtos o cadeixo com prendedor verde em olhinhos de rubis esmeraldas diamantes ouros perfume de lilases flores na água corrente o gorjeio o riso da juriti no verão. Dois anos passados toda a sorte vaidosa. A tarefa daqueles olhos negros aveludados que ficavam às vezes parados em ponto de bala numa contemplação pioneira. E beijei-lhe a garganta as orelhas a boca a música o cachecol os lábios os beijos as madeixas. Ali onde estava tinha dezenove para vinte anos. E escondeu os olhos, quieta, raiz-de-sol, corujinha-do-mato, olhos guardados como se estivesse pensando.
Pois os herbários são assim e brotam daí os cipós arbustos muitas cores de verde folhagens flores frutos cachimbo-de-jabuti barba-de-paca verônica-do-igapó palmeira-barriguda barba-de-são-pedro um cortejo as nuvens pequenas boiando no azul entre outras nuvens no céu totalmente infinito completamente confidencial aves plumosas modulando a voz grasnou arengou trinou estrilou periquitão-maracanã suiruá mãe-da-taoca, alferes traz-farinha-aí ipecuá um préstito.
- À hora de dormir ela estendeu os braços pernas longas intermináveis e continuou comentando contando confundindo confidenciando: “As correntes do rio torceu deturpou e exagerou. Aqui perto, ali certo. Os ambientes verdes do vale concebeu organizou e dirigiu. Os altos degraus da serra grande esforço boa vontade e ótima tolerância. Aqui perto, ali certo. As longas geometrias do sol concebeu montou e chefiou.”
Há alguma lógica nisso? E uma coisa nem bem é da outra diferente. Deus está me cuidando e ver se eu posso um dia desses voltar a ser árvore mata-olho cavitinga cedro-batata guatambu embiruçu ou pássaro ou monumento de pedra à minha inteira e sozinha escolha em um piscar de olhos.
É do rio que eu lembro... Estava comum naquele dia ver retalhos por acaso as nuvens que uma ia e outra voltava. Até logo, até logo. As plantas nitidamente sacudiam o vento vrrruu!... da tarde borragem-brava fava-de-santo-inácio-falsa uva-do-rio-apa guambu aca gogó-de-guariba. Até logo, até logo. Os alados beija-flor-de-gravata-verde uiratatá cardeal-do-sul araçari leves esportivos recreativos esponsais em companhia bichanandoperto.
- E ela prometeu me procurar depois que eu voltasse de Campo Grande disse que telefonaria e não telefonou minha imaginação travou dispersou e nem funcionou mais um mês se passou e outro dia encontrei com ela por obra inteira do acaso na rua Nhandeva estava leve feliz e transformada ficou de me telefonar agradeceu se despediu e saiu talvez tenha tentado me discar e me recolhi me escondi sem fazer barulho sem fazer ruído um sussurro.
O rio corre dentro do estilo o sol no estilo a cuipeúna a barba-de-lagoa o doremi a ata o sapo-veneno-de-flecha o tarecaí em o estilo, planejar executar e triunfar.
Não sou lobo-guará, quer dizer, não sou cuintau para acreditar que as estrelas são feitas de fogueiras de São João ou olhos de curumins arteiros.
- Vinha andando era segunda-feira vi a vitrina e parei bem no meio do público 8h e 20min da multidão que ia e vinha lotando a calçada de um lado da avenida Uirina centro comercial de Piratuba ela me viu nem se abalou muito natural trocamos aperto de mão procurei seus olhos perguntei se poderíamos passear cabelos ao vento Itapeva mãos dadas Serra do Navio braços dados ilha Rata cabeça no ombro forte Tamandaré da Laje conversas recreativas reserva dos índios avá-guarani pensou riu e respondeu: “Coragem!”
         Eu nasci escutando ouvindo Araraquara, Perdizes, Sete Barras, Itaboraí, Axixá do Tocantins, Ibiá, praia de São Francisco, serra das Andorinhas, serra da Piedade, reserva território terras florestas dos hixcariana. E ano passado do fim ao início passaram carnaval aniversário campeonatos olimpíadas matinadas no Parque Municipal Américo R. Giannetti férias viagem pelo rio Itacaiúnas.
         - Ela me comunicou num cantar de itaipava na enxurrada e detrás de a capa preta com fundo vermelho gola alta com capuz a testa franzida os olhos oblíquos o zigue-zague dos guizos raciocínio acelerado percepção alterada: “Essa vez você vai para a última viagem!”
         Que não queria tremer tremi como folha na ventania e me perguntei: “Adianta nem ter mídia? Adianta ter dois metros? Isso de meio termo ter é remédio?”
         Fui rio fui homem cachorro aldeia joão-suiriri barbatimão capim-de-pernambuco sem que nada nem nunca ninguém ou nenhum possa me apagar deletar da memória...
         Perdi a confiança com tanta desconfiança serra da Seringa Caucaia Água Azul do Norte Cabedelo aldeia dos andira no voo do jato no trilho do metrô nas curvas do ônibus e por onde ando de bicicleta ou calcorreando.
         Ontem 23 de março terça-feira e eu me perguntava, o cérebro em obras: “Para que servem estas nuvens? Como se chama aquela árvore? Os colhereiros gazeiam as andorinhas trissam as cigarras rechinam os tartaranhões-cinza guincham os trombeteiros arengam. De onde que vêm e que vão estes automóveis pela rua Aripuanã?” Olhava a nuvem e me indagava: “Que será que ela não quer?” 
         Então, com a passagem de ida embarco para o sem fim. Mas me abrigo no apreciar a paisagem o deserto que me acerca, o pântano que a lua não bate, o mar pegajoso, a noite do espaço sideral, etc., talvezes, quaisquer. E meu consolo, no rumo de novos vértices ou luzes alertas cones fitas isolantes balizas, lá nas estrelas ou em algum planeta desperdiçado. Passagem só de vai.
         O caminho o caminhante a caminhada em o rio como o rio Ivaí ou o rio Paraíba do Sul. E continuo com as mesmas viagens as boas vantagens e de outros passeios e turismos, Jacupiranga, Praia Norte, Piraquê, São Geraldo do Araguaia, Ibotirama, Xambioá, região consagrada dos suruí-paíter.
         - Ela agradeceu se despediu e desligou. Fiquei encolhido na geladeira e sem saber para sempre o que pensar. Nem imaginei para que serve uma mesa e quatro cadeiras um sofá com duas poltronas cor verde com mesa de centro e alguns enfeites pelos móveis e paredes. Me vesti saí dirigi pela rua andei pela praça Boimé procurei pelo shopping cansei voltei desvesti tomei banho e achei melhor deitar.
         Já está na hora. O rio Pomba divide a terra ao meio. O rio que embarcara em canoa igaruçu. O rio pouco que se importa. Rio que contorna a montanha e achatudobem.
         No alto do morro encontrei com árvores antigas jambeiro-bravo abieiro uirari baraúna boi-gordo. Às vezes passavam os besouros as abelhas aramás tucanos-de-cinta saruê inhambuxintãs patos-crioulos.
         Não sou capivara, quer dizer, não sou tracajá para sobreviver à sombra das folhas de cebolas-bravas-do-pará. Quem não quer ser árvore? Quem não quer ser, um dia uma estação uma geração uma vez uma encarnação, quer ser araponga, tié-galo, gaturamo-bandeira, sanhaçotinga?
O tempo jabarandaia. O tempo que passa que repassa. O tempo cômodo corredor jardim com sapos e arbustos casa condomínio de luxo. O tempo Conselheiro Lafaiete e Areal. Pensando bem, o tempo é pura Ana Cleonice estudante de geologia da UFSC.
         São 16h estou na rua Cadiuéu ideias misturadas sexta-feira de mulheres ao sol pensamentos truncados primavera de 2015 bairro dos Pirarrã neste bar-lancheria Piraquara nesta mesma cidade onde moro comer alguma coisa beber qualquer coisa.    
         Olho o rio que imita o continuar, rio que fabrica a si mesmo, rio sem se interromper, rio invertebrado, rio profissional como a montanha como o pajurá como o papagaio-de-fronte-azul como o sagui-imperador.
         Estou ainda com medo, como corpo cheio do frio. Ouvira tantas dessas histórias de terror, que me parece aos olhos cansados tudo estar dormindo congelado empedrado teiniaguá do Cerro do Jarau bife queimado.
         Outra coisa. Como o sem fim pode ser o novo que o rio que levava? Tenho me consolar. A calma me ajudará a musicar o que não posso embarcar.
         Não vou inquirir dó de mim. E este tremor vai passar, mesmo com muito frio, neste lugar sem sol e sem lua e sem árvores e não há vagas. Ter meio termo é bobagem.
         O começo do ano coincidiu com o começo do fim do mundo imaginado decidido e planejado.
         Será que as árvores se lembram... de mim quando fui monumento de pedra cachorro homem árvore pássaro saíra-de-papo-preto ibijaú sabiá-do-campo neinei inhacurutu? Fui árvore duas três quatro vezes me recordo... que outras árvores me rodeavam e elas inclusive tinham sido outras árvores ilhas lebres rios nuvens.
         - Enquanto estava lidando com as horas de serviço parava e pensava e pensava nela pensava onde estaria, etc., e se telefonasse quem sabe me telefonasse, etc., peço este favor este favor nem consegui pregar o olho e seu riso e seus olhos e a sua carne macia cheirosa quente natural horizontal.
         Não sou mão-pelada, quer dizer, não sou um caxingui que se esconde da rua para ter melodia também da noite. Quem não é árvore? Quem não é tico-tico-rei-vermelho ou pirarara ou capim-gengibre ou cambará-de-meia-légua.  
         O rio possui outras pessoas outras árvores outras pedras polidas outros encontros ou lugares Itatiaia Crato Poços de Caldas Machadinho Boituva Divinolândia e nemtemjeito.  
         Paro diante de um pote de sorvetes aprecio com os sabores cheio de chocolate pequi açaí pitanga caju pedaços salada de frutas.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Não qué?! Taí, ó!


 

As coisas como são assim as coisas. Que homens incomodados inconformados que se mudem que se retirem que se evaporem que se transfiram que se defenestrem que se demitam que se transformem mudos e surdos para outro planeta outra galáxia outra dimensão.
         Por jogo ou espírito de comparação competição contrafação contradição, veio a noite a noite.
         Segundo dizem, porque a sorte... está... nas... estrelas.
O vigilante o fiscalizador vai com sua melanco a todos os lugares festivos deste planeta. A sua rotina é estendida esticada espichada recontada. Chega sempre adiantado da hora nos encontros e aniversários e compromissos e embarques e jantares. Até no carnaval sai muito cedo de casa. Em dia de eleições vota na primeira hora da manhã. No dia sete de setembro aparece no desfile e aplaude as crianças uniformizadas. Não atende e-mails não gosta de carros não tolera filas não aceita comer fora de hora não entra em elevador falante não viaja de avião não vai a estádio de futebol. Não é de muito beber, mas precisa beber para ter coragem para ter ilusão para ter competência.
É ansioso, bravo, cerebral, cuidadoso, desconfiado, honesto, previsível. Bebe em voz baixa, e quando chega em casa esmiúça e resmunga e rola e troca de canais sem poder dormir. Não aparece de carro para não voltar dirigindo bêbado. Não quer se comparar a ninguém, mas preferiria ser igual ou pior daqueles tipos que despreza. Apesar de encandeado, sai das baladas invariavelmente desacompanhado e antes da função terminar.
Namora e seca e olha e nem alcança a flor da festa. Pesquisa investiga para ter certeza que ela não está acompanhada. Inveja o bobalhão e o falastrão e o brincalhão que são os eternos mínimos múltiplos comuns os conquistadores os que superam quaisquer carências os babões os últimos a partir embora. Nada escapa a este olheiro este observador de faróis atônitos. Paga somente o que consome. E consome até e somente o que não faz mal ao fígado.
Já pensou as duas maneiras de chamar a atenção de a flor da festa. Chamando a atenção e não chamando a atenção. Dentro do grande mundo do chamar a atenção, as variantes e as formas são múltiplas. Porém, longe dele querer parecer o falastrão o bobalhão o brincalhão. Não sabe ser. E dentro do micromundo do não chamar a atenção, a atitude é restrita é mínima. E se este é seu estilo seu comportamento e o melhor jeito que encontrou para si, todavia ainda não vingou.
Esquece dificilmente, embora não sabe o que vê o que ouve o que pensa o que fala. O caleidoscópio de imagens e fantasias e luzes e vozes pega tudo e o crucifica ao som, tum! tum! tum!... da moda da pista.
Agora, ali no bar do salão de eventos e convenções e competições, o campanador o espreitador está falando com alguém conhecido qualquer que esbarrou. Mas falar por falar não é o problema nem a solução. Sua estada entre nós só tem um interesse um sentido. Nem mesmo ele é a sua máxima prioridade. Somente uma coisa faz parte da sua vinda a este mundo o alvo da sua preocupação: que é a flor da festa. Sendo bipolar, tem uma lógica monolítica monoteísta.
É a sua sorte uma sorte esta sorteada aqui neste lugar mesmo e nem pensa se expatriar ou abandonar para São Paulo Rio de Janeiro Guaratinguetá Cabo de Santo Agostinho Alagoinhas rio Gameleira região do Bico do Papagaio reserva dos paraitiri ilha das Flores praia Atalaia Velha.
         A flor da festa não precisa se comprometer. Em câmara lenta. Só cuida da festa, da cerveja, do riso, da liberdade de voar voar entre os convidados e brincantes. Dança sozinha no centro do salão ou com a turma em volta sem derramar o copo. Olhos que se confundem com os cabelos cabeleira coivara cacheada rebelde ondeada encachada se encachoeirando pelas espáduas. Impressionantemente, atrai todos os olhares dos homens e das mulheres e dos bichos de estimação. O perfume o cabelo platina o passo o drible o olhar perdido nos espelhos e para além de todos, e tudo nela já vem definido de casa de fábrica automaticamente. Bebe mesmo muito, mas sem perder o poder de sedução. À cada baile uma ou duas novidades. Só quer estas fotos para o face, bolos decorados, sapos de brinquedo, legendas para tattoo, cachorros e gatos, praias do Nordeste. Agora inventa um passo rebolado que todo mundo acha interessante decora colar broche piercing brinco anel pulseira tiara sempre em dobro dobro. Não se sabe de onde vem ou para onde foge livre leve e tatuada. Todos a conhecem de vista, e ninguém diz o seu nome o endereço a placa do carro. Pernas altas harmoniosas ágeis. Basta piscar os olhos para descarnar e sumir no fumo dos cigarros na neblina do gelo seco no hálito das cervejas para o fundo do escurinho. Se move entre os simples mortais como peixe entre outros peixes. Olhos de duas nuvens, cabeleira de floresta, unhas decoradas com paisagens interplanetárias ou paradisíacas. Seus requebros e caretas e batons e sorrisos são como dinheiro miúdo, moedas trocos gorjetas. Abre alas se apresenta puxa fila com a turma a galera com as primas e os primos escolhe o lugar e não pergunta nada nem responde nada. E sai sem avisar sem pagar sem dever sem prometer sem se arriscar. Bem no meio da música mais tonitruante, tum! tum! tum!... pernas de fora braços de fora cintura fina maquiagem provocando os olhos fatais. Nunca mais volta. Nunca esquece alguma coisa alguém. Nunca que é a mesma pessoa. Nem se sabe onde ela agarra e tira tanta teoria, mas na prática faz o que quer: - Vou mostrar o que você, com muito esforço e algumas características especiais, poderá tocar!
Já o bobalhão e o falastrão e o brincalhão sempre serão os inventivos, os quentes, os gastadores, os suicidas, os apostadores, os maconheiros, os maneiros, toda vida os caras preparados e os tipos disponíveis que as mulheres querem para curtir curtir. Não levam a própria sorte a sério, e a dos outros menos ainda. São os últimos a sair das festas e com muitas risadas e empurrões e deboches e ziguezagues. Vomitam no banheiro e têm os tênis encharcados. Também sempre encontram alguém que os queira perto e que os imite e que os acompanhe e que os cumprimentem com cumprimento técnico.
Assim, o contemplador o bombeador tem um mínimo de um pouco de todos de tudo seguro no seu lugar já passou por algumas poucas e boas e se arrisca um nada desde o fundo dos salões de festa que pode ser aqui ou em Curitiba, Aracaju, Itapecerica da Serra Tracunhaém Floriano Oeiras Embu das Artes Januária Itarana aldeia dos mariaté. Olhos grandes acesos olhos de compota por trás dos óculos de grau. Este lugar é bom pois morrerá aqui.
No terceiro dia da bagunça da zoeira, o espião o seguidor descansa na cadeira vaga o braço na mesa apoiado a mão segurando o copo meio vazio. Mastiga um pouco de poeira e toma um gole de gelada. Cansado de caminhar onde os outros caminham. Como peixe fora da água, não para na festa, entra e sai buscando o que fazer. Bebe pouco aos poucos, mas sempre mantendo uma vigilância soporosa. E pisca os olhos verdes esperançosos e manhosos e inflados para a alegre e a festiva e a brilhante e a flor da festa.
         Ele o espreitador o perscrutador é assim. Se todos nós fôssemos quatis domesticados urbanos, ele o verificador o seguidor seria o quati que fugiria para o meio da mata atlântica. Subiria na árvore ibabiraba mais alta e lá esperaria morrer pequeno velhinho esquecido sozinho silencioso em paz.
         O examinador o procurador é toda sorte tímido retraído atento contencioso dissimulado com seu suspiro sua cerveja que nunca acaba seu gesto sua investida. Fica enrustido na penumbra embalado pela música e não se expõe. Sempre segurando um copo meio cheio na mão um cigarro nos dois dedos, apesar de se controlar na bebida no fumo na cocaína no barbitúrico. Vai embora antes dos outros e sempre arrependido do que não fez. Saudades do que não passou. Olha a menina a flor da festa mais bela e guarda dela o sorriso o gingado o exótico só para si. Olha para trás e admira ela magnífica mais uma vez. Mas a flor da festa sorri para ela mesma sorri para os próprios pés sorri para o balanço dos quadris sorri para os fãs sorri para o gosto de sorrir. Algo nela sobra do eixo e isto o faz arrepiar e sonhar até o exagero até a obsessão até a exaustão. Não irá perdê-la por nada deste mundo!
         E o esquadrinhador o perquiridor tem uma máxima que é só dele a seguinte a qual, depois de tudo visto e revisto acima de tudo de todos, e que o deixa sobreviver no seco no dedo na fantasia: - Não me pertence!!
         Basicamente temos pouco para entender. É um caso pato que fica no desejo de a flor da festa e somente a principal.
         A luz macia das estrelas, branca, brilhante, indivisível.
         Ele o sondador o analisador adora contar estrelas. Dizem que contar estrelas faz aparecer óvnis.
         Sabiá-laranjeira canta perto. Corruíra também canta perto. Um tié imita corruíra ou sabiá. Uma folha-de-urubu ri sem nem saber por quê. Gorjeia o sanhaço mais para lá nas margens plácidas do rio Traipu. Haja jataís-pretas enxame. As estrelas descontam em silêncio de espiãs.

         E o sol abre as portas verdes almofadadas fundos larguras alturas interessado em tudo por tudo, sim senhor.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

FIFTY-FIFTY


      


      

        Daí, que, já quase nem mais me lembro me consolo quatro dias como antigamente nem mais me faço me vejo coisa igual pelo interior do país... Neópolis, Pacatuba, Panelas, Bom Despacho, Pompéu, onde fosse, Vila Velha ou Rio das Ostras, nome de santo ou indígena, Guarapari e Santana do São Francisco, então, paramos na praça da Estação em Abadia dos Dourados ou Águia Branca ou Cruz das Almas diante de um chafariz em contínuo borbulhoso defluxo.

Grupos alegres brincadeiras de bonitas luxuriantes que apresentavam as fendas, as cavidades, as brechas as aberturas tão apreciadas e perseguidas e luxuriosas. Comprimidos de duas cores e caninha de alambique amarela da pinga mineira na gente. A paz em logo em seguida. Um altruísmo desapego abnegação despreocupação desprendimento preocupação com a outra contrária do egoísmo. E mais notícias sensacionais eram bem-vindas chegadas nos ônibus lotados efervescentes das cidades de Propriá, Piúma, Araguari, Pires do Rio, Jaú, Capela. Uma ladeira e no alto a igreja branca barroca. Uma escadaria imitando declive para o interior do terreiro com fogueira de festa junina. Uma esquina com prédio em triângulo invertido vértice dando até para abraçar.

       O dia a semana o mês o ano pois era tudo ao mesmo tempo.

Como não tinha ninguém naquela festa de carnaval, coisa rara, como ninguém se opôs, bandeirinhas de papel, o contingente o imponderável o inescrutável me puseram diante no meio do caminho de uma louca e tonta e desvairada e sedenta. Ela mal me via, cabelos anelados, vibrante, faceira, olhos nos diamantes das estrelas, mal se sustinha e ria o tempo inteiro desbragadamente. Um hálito de cerveja e cigarro fervilhavam trescalavam da sua garganta na boca. E isso já enigmatistava um tanto ou quanto a sua extrema beleza de boas postas de carne e os olhos dissimulados de águas-marinhas. Uma bela hora uma e meia o teto rodopiava um dia dos quatro cantos da festa ela me falou rouca no ouvido mastigando a minha orelha boca gulosa lançando os tais perdigotos: - Eu sou a árvore!

Caminhando à toa, as mãos dadas, um puxando a outra atrelados cabrestados, beijos descontrolados prolongados, afagando os cabelos o rosto os lábios, roendo as unhas, cabelos revoltos, beijei como se beijasse cerveja chope caipirinha com limão verde em casca, camiseta apertada nos mamilos, rosto colado nos selfies com as professoras de Sete Lagoas com os piratas de Campo Formoso com os presidiários de Riachuelo com os monstros de Pescador, na fila comprando fichas, desfilando abraçados a bombordo a boreste, a ala das piabas exultava lenços verdes amarelos tricolores risos gargalhadas triunfais, à deriva por dentro do remoinho, olhar dentro do seu do meu e uma festa um baile que não terminava nunca.

       Então, os dois tomados mamados embebidos mareados fomos até o bar descansar sentar naqueles bancos altos e temerários os cotovelos no balcão uma mistura de destilado com fermentada e chocolate doce em barra fabricado na longitude na latitude de Três Marias. Não nos ouvíamos apesar de conversarmos alto aos berros aos respingos aos gritos e sem parar. Me sentia todo encharcado e amargo e feliz. Gargalhadas estridentes na ala das imbaúbas. Sei como consegui um desejo de ali beijá-la na boca olhos irritados combalidos e a beijei com gosto de espuma. O salão tinha espelhos espalhados pelas paredes e tudo multiplicado aos milhares caleidoscópio multidões confusões fundos com brilhos reflexos. Ela me olhou com cara espantada sei de onde. Lúcida ardilosa no seu espanto. Quase me reconhecendo no meu no dela no nosso anonimato.

       Alguém ouvia as perdizes ouvia os papagaios-campeiros via os pitus via os micos-estrelas bebia as manjeronas-do-campo.

       Seguia seus olhos bem dentro dos seus meus olhos. Eles os dela procuravam escapar pelo chão incompreensíveis para os lados para os outros se ausentar dormir e etc. Pois não seria procurando talvez outros quantos quais olhos? Cigarro entre os dois dedos, o bafo de álcool com arroto de longuinete, voz rouca, equilíbrio periclitante. Olhos inteligentes ágeis lagartixas ágeis por trás dos óculos de grau. Pois não era que tinha mais certezas do que eu?! Nos olhamos nos encontramos no fundo nos sorrimos.

       Um puxava a outra guiava seguia o outro pelo formigueiro, rosto com rosto, beijo prolongado alheio aos encontrões às bolinações, beijos prolongados, línguas nas orelhas, atordoados, chupadas nos pescoços, mãos dadas com dedos entrelaçados. A ala das maritacas encantava pela soltura das penas e a perda risonha do equilíbrio. Os olhos mentem sempre, às vezes brilham outras nem! Tirou o cigarro da boca de um camarada que passava por perto e me encarou e me disse os olhos semicerrados lábios molhados olhos líquidos posse biliardária: - Obrigada por ter vindo ao mundo!

       Horas depois me vi como um pato-de-crista ou um sapo-da-areia e a ela ambos piando ou coaxando na beira do banhado. Uma caravela antiga das colônias portuguesas cheia dos piratas mato-grossenses capixabas potiguares invadiu aportou na balada. Perdi quatro horas por aí. Bebíamos com avidez uma cevada aperfeiçoada em cerveja clara a partir da fábrica desde 1889 de Itabaiana. Fui quatro dias de otorrinolaringologista soldado mecânico beduíno. Sorriu e cantou quando a banda interpretou a canção preferida ela sorriu e cantou.

       Leio os meus os seus nos olhos dela recíprocos olhos não falam olhos grandes extravagantes como se lessem os pensamentos sorriso doce lindíssimos.  

       A chuva desabou aromática fácil demais ostensiva aos estrondos trombuda abrupta assustando as árvores até os cabelos faíscas relâmpagos clarões relampejos e os assobios do vento gargalhadas de joões-de-barro e surucuás-grandes-de-barriga-amarela: - Viu só como é simples e fácil?!, trovoou atroou Deus lá de dentro lá de cima lá de longe. A silhueta esguia, semblante altivo, fala de um recifês irrepreensível, corpo bem distribuído, ardejante, debochada. Um raio lascou uma carobinha bem ali por perto. A chuva a água escorria pelos sulcos caprichosamente dos rejuntes das lajotas da calçada. O que ganhava com aquilo e o que deveria fazer. Praticamente não resistia, e aquilo era bom e ruim, antes e nunca. Sentados pousados como par de curicas-de-bochecha-laranja mão no joelho ombro com ombro um só momento um só pensamento um só olhar um só de dois reclinados para frente ela suspirou asa de supi ou nadadeira de grumatã: - Não há de quê!

       Falei com o vento com as paredes com ela com os automóveis parados na calçada com os pariqui com as árvores. Concordamos com os sicranos beltranos sergipanas. Falamos ao eu disse vento às arvores. Caminhávamos como todo mundo. Os beijos no rosto beijos estalados demorados descontrolados quentes. Árvores perfiladas galhadas galhos entrando pelos galhos, jará, arapari, gabirobeira, umbuzeiro, erva-de-rato-verdadeira, pacapeua, manacarana ao redor do gramado da pista do estrado. Andei e falei navegamos andou e falou nos deslocávamos apertados por dentro do barulho ruídos misturados com beltranas e fulanos e goianas. Pensou o dedo na ponta dos, psiu!... lábios pedindo silêncio pensativa pesou uma coisa e duas mas disse o que falou uma terceira ou outra: - Já você que nunca foi na Pedra da Onça!   

       Nos prendemos na dança do catumbi no forrobodó no fandango pelo meio do labirinto de pares e casais milharal um aquário braços pernas empurrões nos refugiávamos na bebida tropeções contorções e resumi: - É muito divertido! Achava graça achei graça engolimos duas cápsulas e ela não me disse nada. Procurei dançar e fiz as minhas manhas, as firulas, umas fintas, cabelo trançado original em trança única, calor dos corpos atritados arreitados, braços dados, mãos juntas entrecruzadas, uns passos de artista, uns requebros de mestre que me tontearam no chão. E a perdi de vista. Ou ela me fugiu.

       O que podíamos fazer por mim pelos dois juntos por nós.

       Alguém me chamou me chamava eu olhava procurei não reconhecia ninguém respondia me encontrou me conhecia ouvia me chamar. Onde estava todo mundo que eu não identificava ligava o nome à pessoa? Pouco antes, muito muito durante, pouco depois. Para que lado ficava mesmo a Aramina? Pedi quatro horas para pensar. Abraços com beijos gracinhas cócegas. Casquinavam à vontade na ala das onças-pardas. Uma camiseta de time de futebol longa leve gola branca larga vermelha estrelada confortável. A evolução a fantasia a originalidade dos cataguéo dos macurape dos tuiúca dos tingui-botó. Depois renasci como árvore amendoeirana.

Eu reapareci já segurando o seu ombro o seu cotovelo. Como um robô desengonçado um espantalho desencontrado um etê com cara de comigo-ninguém-pode. E enquanto a acariciava enquanto a alisava nos ombros nas costas nos longos cabelos lanosos a apalpava nos bolsos da bermuda ela conversava explicava com sicranas e beltranas e paraenses: - Nem me conte o que está escrito! De mim a vigiava nos seus passos e a prendia pela cintura muito estreita e graciosa. Escamoteando bolinhas de cristal mínimas parecidíssimas com pedrinhas de açúcar para aparar no céu da boca. Me pediu uma bebida e começou a rir muito alto de tudo que passava a sua frente a nossa frente amuleto figa em osso pendurado no pescoço tão engraçado e disse convicta: - Sem pinga ni mim, nada feito!

       Paramos um minuto sonâmbulos na beira da rua de vai e vém. A rua bem cheia de paralelepípedos vinha vindo caminhando paletando a pé. A gargalhada da chuva sobre a cidade as luzes da noite. Uma glória de rua com árvores seguindo árvores até o arvoredo da praça Sete de Setembro com estátua de Tiradentes exalando dignidade. Depois passou um automóvel. Um prédio de oito nove andares com os dentes para fora jardins suspensos pérgulas vasos de alfazemas-bravas e avencas-da-terra e gerânios-brasileiros roupas com bandeiras ao vento na chuva estendidas tatalantes. As árvores na sombra entre os postes de luz. Beijos puros crus selvagens explícitos. Automóveis fazendo curso de pilotagem no estacionamento. O meio-fio e nos sentamos a água corrente limpando as valetas. Exuberante animada ria e falava sem parar maliciosa maneirosa desbocada brincando com os conhecidos pedindo informações dos ausentes e desaparecidos e desencontrados. A rua seguia a meta o rumo alargando e alagando virava sempre a esquina na avenida principal. O rio Pará corria no sentido de Cansanção e Penedo e Várzea Nova e Pindoba e Paraopeba.

       Via que aquilo embora contudo tampouco não nem me acontecia.

       Uns desenhos arabescos no papel de parede me ajoelhei escorreguei na parede bebemos do mesmo copo olhei emborquei cochilei conversávamos com sicranos e beltranas e maxacali cantei sozinho me mijei fumei outro cigarro. E me perguntei: - Para que lado vem e vai a Crucilândia? Esperamos o trem atônito passar rodeando os morros serra da Mantiqueira como cinturão como corrente como centopeia comboio zunindo para Santaluz, Itaguara, Barra dos Coqueiros, Araci, a paisagem em alta velocidade chispante, Jeremoabo, Muribeca,  Governador Valadares, Bonfim. Há quanto tempo abraçados cansados dormindo prostrados rabo de cavalo um segurando o sono da outra. Tudo tão velho tão antigo tão ronco tão anestesiado.

       Foi naquele degrau que acabamos dividindo as quatro operações uma merenda de bolo de abacaxi com camadas e camadas de açaí.

       Foguetes comemorativos, desenhos pirotécnicos, tum!... de tremer a terra, cascatas, bolhas, pagodes chineses, vivas!, cogumelos, guarda-chuvas inflados, laranjas, bergamotas descascadas, frigir de estrelas pretensiosas verdes amarelas azuis e cadentes. Fomos animados pela festa adentro como destemidos de sempre trejeitos caretas roupas novas cantando como casal os corrupiões. Parei na frente do espelho espelhos infinitos nós dois que dividia um dos ambientes da festança e se eu me olhasse estaria igual um boi de canga na roça puxando melancia. Os tais autorretratos com as policiais de Cacimbas com as cangaceiras de Pirambu com as brasileenses de Piaçabuçu com as religiosas de Patrocínio. Sensação de pertencer a outra dimensão. Os olhos embaciados, endemoninhados, parados, descoloridos, enxurrados. A ala das marrecas-cricris piava e ria para a chuva para a noite para os feijões-lagartixas debruçados no corrimão da escada no parapeito com balaustrada da sacada. Segurei sua mão entre meus dedos os seus dedos corpo de palmeira carnaúba mão cheia arredondado nos pontos certos. Os pés atirados para o ar as pernas imitando jogadas de futebol. Vomitei sem ser molestado sozinho abandonado multado ao pé de um cabide vestido em pé. Depois o desfile desfilou desfilava com um cordão de papagaios-do-mangue intercalados ora abraçados enamorados com as araponguinhas-de-asa-branca. Continuei a procurá-la pela sala das luzes a sala das professoras a sala das goiabeiras-brancas a ala das jataís-amarelas a ala das ubás a ala dos xirianá a sala da piscina.

       Andei e olhei olhava ao meu redor a guria que passou em câmara lenta greta rachadura reentrância que passou enquanto eu reparava vigiava todo mundo e ninguém me via latinha na mão eu achei que a vira embarcar não perguntava nada bolsa a tiracolo ela não tinha pressa num carro de automóvel de praça contornando a praça da Liberdade ninguém acreditava por quê? em mim que a beleza jamais a abandonasse o som alto na cidade embrulhada em prédios e casas o pensamento devaneando perto do nada olhava para todos os lados um ventinho embalava os oitizeiros me acudiu dizer uma coisa que gostava muito, sim, isso mesmo a festa toda.

domingo, 5 de julho de 2015

PAISAGEM CÓSMICA


      


       
       Quando supimpa cheguei, ela estava trepada no alto da alta laranjeira colhendo frutas para um suco. Nunca poderia imaginar essa cena in-ter-na-cio-nal! Ao me ver, gorjeou lá de: Suba aqui, me ajude e depois tomaremos um suco! Mas eu tinha medo de alturas e preferi ficar amparando os pomos maduros que ela alcançava.

       Manhã igual àquela nova feita de sol e raras nuvens brancas brancas. Éramos prometidos preferidos. Prometidos pelos olhos pelos corações pelos olhares pelas asas pelos pelos pelas árvores. Que segredos e mistérios e acasos tinha o mundo tinha o universo.

       Pronto, eu chilrei, eu pensei, a seis quilômetros, um arco-de-chuva veio beber a água do açude. Andorinhas bater de asas alturas brincadeiras ou fazer guerra reflexos de vidro inocentando o sol branco o céu branco a cidade branco.

       Eu queria congelar o instante. Esse alumbramento. Que o mundo acabasse. Que as coisas os acontecimentos tudo tudo as notícias nos deixassem em paz. Eu queria ficar olhando, que ela ficasse tirando laranjas, que mesmo o vento nem se mexesse, que a cidade fosse um quintal de Frutal.

       Pois me lembrei de quando era guri e ia na tapera antiga casa dos meus avós. Não existia mais casa nada só umas pedras ruínas de alicerces jogadas, mas ainda restavam muitos pés de frutas jabuticabeiras bergamoteiras laranjeiras plantas ornamentais orelhas-de-onça anibas pacapiás oitizeiros pequiás-amarelos sapucairanas. Eu trepava ali e tirava meio saco de laranjas para fazer em casa.

       Depois de contar o número certo de frutas, ela desceu ao chão. Como um pássaro, um sol, uma ave, uma sabiá-laranjeira pomba-rola araúna acanati. E me sorriu feliz por me ver surpreso da sua proeza. E me cumprimentou me animou me jogou me beijou nos cantos da boca. Vestia aquele short de plumas brancas sublimando a entrada da cripta e uma espécie de miniblusa esverdeada sem mangas cheia das formas dos sonhos de sonho. O feitiço dos seus gestos. Empoeirada dos musguinhos dos liquens e riscada dos espinhos das gavinhas as pernas vermelhas e as asas esfoladas de se enroscar pelos galhos a cauda em rabo atado por elástico.

       O bando das andorinhas subia descia das abas das casas revoava em círculos grinfava trissava pelos telhados pelas alturas. Som de vozes pela rua automóveis. O sol branco entre nuvens brancas.

       Era mesmo parecia quem uma felina, uma onça-pintada, uma mico-leão-dourado, uma sagui-de-duas-cores. Parecia um desenho animado, uma planta carnívora etê esquisita de outro sistema planetário. Uma selvagem, uma cabocla da floresta da serra Dois Irmãos, uma índia timbira.

       E se trepava num pé de laranjas, treparia em todos que houvessem. Pra dizer, trepava em toda árvore que precisava trepar. O corpo adolescente. Impulsividade de artista. Voluntariosa como um bicho do mato. Boca sumarenta olhos de ternura decote na blusa azul a pele sedosa como pelugem de filhote de jaguatirica. Ria e cantava de tudo que via.

       Tentação de segurá-la entre as asas. Sol incendiado incendiando, as nuvens brancas painas plumas algodões sacudidos empurrados pelo vento leste. O vento penteando as altas árvores lá em cima que eu conhecia algumas, licurizeiro, cuité, monjolo, gameleira-de-pinga, babaçu. Eu era todo por ela. O pulso aos pulos.

       Me convidou para entrar e ajudá-la na preparação na, mi-mi-mi!... degustação. Ficamos aí pela toca pelo oco da árvore falando de coisas e situações que vinham esparsas e aleatórias as nossas mentes. Distraídos do mundo e de outras coisas. A jarra enorme líquida amarelo cubos boiando com a colher metálica, tililim!, tililim!... de cabo comprido. Do meu ângulo a olhava cheia das formas apetitosas apetitosa o seu pescocinho perdido a cauda em rabo modelo de corpo piano os olhos adolescentes resplendentes espelhantes motivantes aromáticos azulados ou talvez esverdeados.

       Lembrei bastante de manhã cedo sempre escapava depois do sol depois do café da manhã, eu separava tudo rebrilho das águas e ia para a beira do rio. Todas as casas com janelas de tampos azuis abertas. Guiava a canoa até um banco de areia no meio da manhã do sol do rio do céu. Eu já tinha metade do mundo.

       Preparado o lanche, fomos nos posicionar empoleirar na escada de pedra nua basalto que dava para o pátio. Tinha ali por ali uma grande árvore que eu não sabia que era um louro-canga-de-porco. E outras árvores inclusive as frutíferas e ornamentais. E pássaros em bando em multidão em algazarra. Borboletas e mais outros insetos que não dei bola e por que zumbiam os muriçocas e trabalhavam tanto as içaúbas e mudavam de embalagem mutantes as taturanas e tal e coisa.

O mundo caminhava o seu dia pela rua vaivém e sem dar a mínima para nosso enleio e nós o dele. A rua tinha nome de político antigo com importância. Tocávamos os assuntos vários sem necessidade de resolvê-los. Ela pipiava já sabia cantar sempre sem parar. Eu me encantava com suas pernas vermelhas e esfoladas, seu pescoço longo bem emplumado plumas novas, as bochechas a boca que se remexiam no mastigar o sanduíche ou iam e vinham do copo, os olhos úmidos, o nariz de desenho na escola de aprendizes. Esse o meu mundo onde eu tinha a cabeça. Estava ali ela tão linda ao alcance das minhas asas... as formas bem modeladas equilibradas fantasiosas aerodinâmicas aterrissáveis... mesmo falando de boca cheia... os pés em sandálias amarelas...

Por que as pontas das asas suadas o rosto vermelho as orelhas quentes os olhos arregalados deslumbrados. O mundo parado, o sol branco, tudo acontecendo e aumentando, tudo voando ou navegando. Muito que eu tinha eu via ali estava ali comigo sentia ali. Era necessário tinha de desabafar sair voando correr pelo parque a serra do Curral contar para alguém o prêmio milionário a invenção rara dos deuses.

Lembrei daquela vez hora leve aérea nos encontramos na entrada do quintal entre o folhedo. Bocas entreabertas. Aninhados ali debaixo na sombra de um tal de ipê-mandioca florido contando as pétalas conforme o vento soprava. O vento acariciando no seu rosto pegando de raspão nos olhos líquidos mexendo com as pontas a franja das penas. E o vento nas copas das árvores, vento quando havia vento, vento com vento, vento com chuva, vento nas figueiras-brancas e sempre assim. Rir e se perder nas lonjuras navegar dos rios Canindé, São Mateus, Sepotuba, ondas embalando docemente, tambiú, piracanjuba, muçambê, canaflecha, querendo saber de tudo, anhuma, tapicuru-de-cara-pelada, mico-preto, índios banauá-iafi caçando com murucu, um beijo no rosto.

A rua branco de sol. Uma vez e outra ela passava as costas da mão direita, não, da esquerda, nos lábios na boca escorrendo sumo. Vento morno com sombras de nuvens. O som a cor o gosto dos cafunés. Eu ficava ali olhando sem saber o que dizer, e o vento trazendo aroma e calor até os meus olhos até os meus nervos até os meus ossos.

Gostosa sensação ao mesmo tempo tão distante intocável fruta cristalina joia azul ou verde. A voz dela o riso e eu me sentindo bem. Principalmente porque era minha vizinha irmã do meu amigo e vizinho me acostumei lavava o carro da família aí na frente da garagem os dias de céu limpo estendia a roupa na grama do jardim pulava de pedra em pedra contando os quadradinhos da sapata passeava de bicicleta acompanhando guiando o salsicha Tuxá.

Recordei assim que pude os meus longos olhos no mato ou no morro ou na praça Oito de Setembro ou na praia do Arambipe, ouvia o rio correndo em ziguezagues o rio Parnaíba, o cabeça-de-cuia, orelhas-de-burro, macucus-do-rio-negro, patacas, cajaranas, cardos-ananás, açucenas-d’água, rumores murmúrios segredos na folhagem, piaparas, dourados, bagres, matrinxões, sussurros líquidos entre as pedras, martins-pescadores-da-mata, paturis, tetéus, patos-corredores.

Uma esperança, me mostrou o celular os passeios em Sobradinho. A asa com asa. O braço com braço. Grudados. E por que parar o mundo? O brilho esfuziante dos seus olhos. O que adianta parar o tempo o mundo os telejornais o futuro? Saltitar displicente de galho em galho pela alta altura da umbrosa acariquara. O verniz de folha nova, o cheiro recente de flor amarela. E o que eu ganho com isso e aquilo e acolá e etc.

       Negociei comigo pelo fundo do meu desejo da minha tonteira, que ela tomará seu banho na sanga em seguida e será que me convidará para contar seus arranhões e beliscões? E esfregar as suas costas, olhar as orelhas? Via a água escorrendo pelo seu corpo plumoso, o líquido espumando as suas costas, as gotas quentes boas puras passeando na superfície das penas peles tenras brancas aterrissáveis. Depois me convidaria para ficar? Até que o dia amanhecesse até que terminasse o verão par de arapongas-do-horto até os nossos outros duzentos mil anos.

      

 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

A BOA-FÉ DE DEUS É INFINITA


      


 

      

       Quais são os meus milagres? Quem viu ouviu falar dos meus milagres? Todos já espiaram os meus milagres a montanha, as árvores, o lago, a sombra, a Larissa bolsa a tiracolo no caminho da faculdade. Uma coisa assim, que é do meu milagre, tem a força de mais de uma duas três... vinte investidas de igarité nesse e noutro lado do rio. Porque os meus milagres são os pássaros os rios a trança longa bonita do cabelo negro de Larissa.  

       O dia oito de outubro do ano de 2015 caiu numa quinta-feira clara aberta ensolarada magnífica esperada Larissa ao meu lado do começo ao fim. No ar o sol animado ia subindo. As horas o acompanhavam, seguiam, folgadas, indianas, comboio, caravana, romaria, procissão. Fui acordar logo em êxtase. Pois o dia estava presente ali mesmo ciciar de cigarras no meio de nós comigo tudo.

       Ela se disfarçou de nuvem e eu a encontrei.

       Tenho que o mundo é pouco é perto é amanhã é Larissa vestida para ir à cascata da Usina. Uns olhos verdes iluminados por dentro, só vendo. Petulantes seios lindos rijos à vista e às vezes meus sonhos tão certos tão corretos tão direitos os lábios carmins carmesins Carmésia. O melhor da beleza: é sempre Larissa.

       - Eu gosto de Cabrobó.

       - Eu gosto e adoro Carapicuíba, Ladário, cabo de São Tomé, bosque jardim botânico Rodrigues Alves.

       Quando conheci Larissa durei muito envelheci amadureci e, porém, muito que já a conhecia Larissa. Nossas idas e vindas pelas margens do rio já se tornavam legendas.

       Estava aí mesmo eu em vista do sol da lua do rio da nuvem e assistia tudo de uma distância conveniente. Tive certeza. Não só eu mas minha alma gostou dela. Alma minha alma dela que almas já foram joão-bobo, saí-veludo, beija-flor-de-papo-branco, irara, maracajá-mirim, bacaba-de-azeite, jupiedi, cipó-bravo. Seria como conviver dentro de um rio uma estrada uma cidade: a alma minha com a dela laçadas pregadas mata-juntadas. E eu ela nós os dois o par na dupla já existíamos pelo ar pelas almas abraçadas mundo afora em dobro em versos em outras modalidades esportivas em repetecos quantas vezes o mundo já existiu e ou o tempo deu as voltas.

       Contei pro pessoal da turma lá em casa e não nem acreditaram em mim. Reflexos cambiantes de luz do sol na água límpida da piscina, o beijo inédito o sorriso inédito a voz inédita o riso inédito, a descoberta foi surpreendente.

       O sul o sol os beijos Larissa são infinitos de Deus. E muitas outras coisas além ao alcance do querer. Já nós dois juntos eternos somos o que o ser precisar ser.

       - Nunca vi ariranha.

       - Nunca vi jenipapeiro, itu, algarobeira, abutua, tatajuba-do-brejo, jundiaí, braúna-do-sertão.

       Olhei provei amamos degustei amei lambi mordi cheirei mordisquei por tanto tempo por partes mais que durante quatro horas. Com calma suavidade inventamos uma viagem de barco até Novo Xingu ou Senhora do Porto.

       Senti meu fogo desassossego medo das minhas próprias asas, capitão-de-saíra, cardeal, papa-capim, pavão-do-mato, quete, suiriri-cavaleiro. Quem nasceu primeiro Larissa ou nós dois?

       Chegou nem se apresentou foi chegando se apresentou veio apareceu surgiu do nada de presente causou curiosidade e preciosa paralisação.

       - Como em todas as cidades do mundo, Belém adora o teatro da Paz.

       - Em Curitiba isso é levado muito a sério e naturalmente como os magníficos os teatros Guaíra, Paiol, São Pedro, Renascença.

       Nuvens em pensamento, sempre no seu esvoaçar, andando de leste para oeste, figuras de bichos ou árvores ou caravelas ou chaleiras ou peças da sala de jantar. Nuvens imaginativas imaginando. Cheias de ideias por onde passam, as nuvens deixam nuvens rastros de queimadas nuvens brancas forno a lenha aviões a jato. As ideias-nuvens das nuvens voam das nuvens para os céus os mares as florestas as folhas em branco dos cadernos escolares.

       Deus infinitamente responsável por tudo pôr do sol por mim por Larissa. E comigo Ele solta uma cunha e põe outra. Me ocorre dizer que enquanto sou feliz posso estar edificando meu agosto. Enquanto vai tudo bem pode me estar sendo preparado o socavão. Se hoje o céu é esse azul clássico, amanhã poderá cair um meteorito e extinguir os curiangos, as lavadeiras, os sapos-de-chifre, as arapuás, as mamoneiras-miúdas, os timbés, os gogós-de-guariba.

       O sol só vive uma coisa: o sol a lua o rio. E do seu jeito o sol faz o que bem quer porque quer. A ideia profissional entendida e competente do sol irrevogável.

       Se acostumar com a pessoa o seu jeito dela beijos doces e muitos. Agrados como eu sempre quis. Tão certos e ótimos que parecem nunca ter sido sonhados. Fala baixa pausada calma como as plantas cercando o rio que corre entre pedras e árvores.

       Tudo que pertence ao mundo me basta me pertence Larissa e a ela pertence e a nós dois. Tudo que é meu que é dela foi feito um para a outra. Cabelos longos fortes lisos brilhantes negros quase arrogantes muito vitaminados dominadores. Abraçada ao livro sentou abriu na página marcada capítulo oito século dezenove Império rua do Ouvidor.

       No começo de um domingo radioso, assim, logo pela manhã, de longe, o sol parecia um trator estranho um trator colheitadeira, um embasbacado, um algo mais feroz para mecânico ou eletrônico que para os humanos. E Larissa segurava a coleira do Tupi durante a avenida Borges de Medeiros época dos floridos jacarandás-cabiúnas cachorrinho muito original e o bicho se parava nos olhava aos poucos andando religioso.

       - O sol se levanta sempre com grandes e muitas ideias nesse começo de tempo em as 5h e 30min.

- Pois o tempo serve suficiente para a casa das 12h ir e vir.

       Já me arrumei com muitas belezas pelo casamento espiritual. Sem que me pressentissem, sem que me abraçassem, sem que me beijassem, sem que me decifrassem o nome, sem que existissem de cá de lá do rio. Tive namoros, noites maravilhosas e férias inteiras nas praias de Ubatuba. E naturalmente meu amor não terminava porque éramos felizes para sempre. E quem nasce para Larissa nem precisa de lugar maior mais movimentado mais negociado mais conhecido mais engajado que Pombos, Bezerros, Guaporé, Dom Joaquim, Vila Maria, serra do Lenheiro. O cabelo suave longo preto longo indo e voltando para trás das orelhas com mecha loura caindo para cá para lá diante do olho verde glauco esverdeados.

       - Por muito tempo ando por aí à toa perdendo procurando lembrando achando você.

       - Sempre nos encontramos já outras tantas vezes e fomos outros tantos nos perdendo nos achando de repente no meio do rio e de nós mesmos.

       O sol foi dominando a atenção do dia e, de manifestação, recebido pessoalmente na cidade no campo na serra da Moeda em todo lugar. Mais tarde o casal nós dois fomos a uma sorveteria aí na altura da praça da Bandeira beber caldo de cana que fortalece os ossos.

       Fora do meu pensamento eu encontro e vejo os murixis os catuena vendendo cestas na rodoviária de Vila Flores os papas-açaís as águas termais de Lins. O mundo boquiaberto do sol da lua. Vale dizer, que a minha vida e a dela, a vida ganha, a vida feita, tudo correndo perfeito como se deve, nada que falte. Voltamos a pé fomos a pé e voltamos pela mesma rua das árvores cheia o vento batendo nas copas um pouco de subida um pouco de descida alguns passarinhos incidentais curiós moramos perto uma do outro.

       O sol apontou no meio-dia mas meu relógio nos disse que eram oito e trinta e dois. Coniventes, as horas passam os dias os meses... se vão como são os meus os dela os nossos. O sorriso o riso bonito lindo por trás dos olhos verdes camuflados das folhas das sombras dos ramos de andiroba.  

       Quando acontece nesse verão, ou no anterior, ou no próximo, já bem de natural e acomodados em nós mesmos, como o sol como a lua como o verão, notícia atualizada, pegamos a estrada e voamos para Olinda, Recife, Belém de Maria, Caruaru, Boa Nova, Constantina, Santa Maria do Suaçuí, surreais, intergalácticos, dormindo no meu ombro no seu ombro.

domingo, 17 de maio de 2015

VAMOS A VER


      
       O sol dardejava, ninguém falava nada, ninguém abria a boca para o mais breve leve simples gracejo. O dia estava bonito como um rio contornando a montanha sem nome sem aqueduto sem usina. Um vento selvagem e agnóstico. Árvores plantas esplendorosas luxuriantes, alecrins-bravos, urucuris, carás, sumaumeiras, jenipapeiros, burdáchias, tangaracás-açus. Os besouros voavam com dois pares de asas. A borboleta de três cores. Combatentes aéreas, as taperás um bando em revoada amedrontavam ameaçavam arrasar o planeta terráqueo.

       Havia no mas mais mundo coisas.

A primeira vez que a vi lembro porque sorria. E eu a olhei e sorri e ela me devolveu rasgados sorrisos em dobro dobro. Cultuava a natureza na Estação Ecológica da Jureia-Itatins. Foi amor à primeira vista visita sorrisos. Vi graça no seu olhar, nos cabelos ruivos franjados, no corpo de palmeira verde catulé, na vitrina, na praça Dom José Gaspar, na avenida Tarairiú, na tarde, na Iporanga, no cosmos.

E Deus disse, falou consigo mesmo, depois de fazer o Circuito das Grutas, Baldim, Capim Branco, Cordisburgo, Jequitibá, Lagoa Santa, Matozinhos, Sete Lagoas, trovoou depois de relampear raios e coriscos:

- Nunca me aconteceu uma coisa assim!

       Esse tipo de sorte e fortuita coincidência, isso voltaria me acontecer diversas outras vezes durante as várias fases férias da vida sortida: eu gostar da menina assim conhecida de repente um dia por acaso e depois conviver com ela e adorá-la hipnotizado. Primeiro em laboratório e depois naturalmente, primeiro em tese e depois na prática. Como da primeira vez foi isso mesmo das outras tantas vezes.

       No começo o sol era amarelo, no fim a lua era de prato. O tempo passava. A roça dava milho mandioca caajuçara taioba tanajuras. As maitacas-verdes avisavam todo o jângal inclusive o mapinguari o boitatá a boiúna. Era uma época que onça nem comia carne humana só ruminava capim-gengibre. Da beira do rio vinham os sapos coaxavam. O vira-folhas gostava de assobiar ou seria a matintapereira. Dona coruja-listrada elogiava o toco de guarantã.

       Nada como um dia em seguida de outro, e um dia, depois de meses, Deus pulou da copa da castanheira-do-pará, mediu a altura das nuvens e trovoou:

       - Pois chega! Agora mesmo é que vai chover!

       Disse isso abriu as asas virou num peixe saguiru se aventurou sozinho rolou no espaço e desapareceu. Me mostrou, isso sim, que era possível viajar a perder de vista e viajar além estrelas um lugar mais avançado que impossível e o céu sempre vazio de puro azul.

       Me nos achamos na festa em Cachoeira Paulista, ao pé da montanha dos Marins. Minas Gerais tem cidades magníficas, Abadiânia, Jaguaretama, Ipiranga, Ipu, Taguatinga, Atalaia do Norte, incríveis mesmo. E todo o seu corpo me pareceu de propósito encaixado artisticamente, a peça por peça que procurava sem saber que milagre. Ela toda ela riu na medida que eu esperava, fugiu quando eu a queria perto, olhos vivos e brilhantes, o cabelo escorregando pela cara simpática e faceira, o rosto minado de sardas sardas, os detalhes ajustados para a minha mão. Eu ela a olhei fascinado. Procurava cultuava a natureza na região indígena Kararaô, imediações de Altamira. Seus olhos verdes suas duas esmeraldas enigmáticas impenetráveis, e não deu muito para fixar olhando olhos assim. Aí, certo dia, depois de um tempo, fomos estudar no mesmo colégio na mesma sala na mesma série no mesmo horário perto as duas carteiras. A minha responsabilidade e a dela eram muito grandes. Surpresa que era sim ela mesma, solteira, discreta, abraçada aos livros e cadernos, marca de calcinha na calça comprida, a perfeita malícia de guria que eu me iluminava.

       O sol nascia dos olhos olhos, os inhambus-chintãs correndo piando no campo a caraúna-de-cara-branca voando cabeça-seca amerissando cavalo zaino pinhão taturana comendo folha de cunambi, oitocentos de distância num dia útil. Em termos amazônicos, o rio Tarauacá nasce é caminho de água e deságua no mar.

Infinito um o surpreende qualquer.   

       Bem na hora o dia claro o sol apareceu aconteceu isso. O sol trisavô do sol bisavô do sol avô do sol pai do sol. Saguiguaçus chegaram pularam em algazarra espertos riram gritaram guincharam brincaram xingaram e esfomeados araçás, cajuís, muricis, pitombas. Disseram de boca cheia pra fora:

       - Ainda é bem melhor que conhecer a poeira cinzenta da lua...      

       Ela toda engraçada, não queria que tocassem seu cabelo pois era lustroso e eu não tocava. Um cabelo ondulado e até o meio das costas. Morava em Canas serra de Santo Antônio das partes do Brasil. Pernas longas, óculos escuros tipo vidraça no alto da testa como tiara, mãos de unhas curtas, leve e elegante e sutil, sacola a tiracolo com desenhos dos índios ipoteuate e de franjas ou babados ou rendas.

       O tempo contava contas de miçangas. E um belo dia mais dia menos dia nos arredores de Monte Belo do Sul um dia replicante os saguiguaçus subiram num galho de ipê-vacariano e perguntaram:

       - Que frutas da semana teretetemos por hoje?

       Se entreolharam por entre as folhas esgalhos e um deles atiçou:

       - É melhor caminhar e procurar por rastos em o chão de Marte, uma vez!

       Como se tivéssemos sido feitos um para o outro eu e ela nesse e noutro futuro. E nada iria interferir desacreditar esquecer separar. Eu nos amávamos. Estávamos nós sorrindo. Ela cantava umas canções que diziam pro vento afastar o sol a lua a chuva o deserto o etc. Sentíamos os olhares, os interesses convergentes, os círculos centrípetos, os encontros e reencontros sem planejamentos, das coincidências até as confidências e interferências. E gostávamos do meu cheiro e do cheiro dela e de trocar palavras ensinadas pelos índios matipu. Pois era a pura verdade e eu só tinha que agradecer acreditar orar agradecido. E eu nascera acreditando nela por ela por mim. Que sempre apreciava cultuava a natureza no arquipélago de Mariuá. Gostava de ler os livros que eu lhe recomendava, e me pedia tanto para parar de beber que consegui. Minha cidade preferida era Lorena e a dela até nisso concordávamos era Corupá. Até aí tudo como um sonho interestelar. Olhos de coração estelar e verdes.

       Uma noite num bar em Itamonte, praça Dom Feliciano, o tempo que leva e traz, eu e nós dois na mesa do bar tomando cervejas e nos tocávamos teclados com a ponta dos dedos. Beijos úmidos e quentes. Abraços com efusão. E as conversas nos olhos nós olhando cara a cara:

       - Já conhece a praia do Mar Grande?

       - Mas conheço Monte Santo, São João do Meriti, Santiago, São Domingos do Sul.

       - Cristal do Sul, Tabatinga.

       - Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho do Ouro, Estrada Real.

       - Me dirigir ao sol me dirijo ao sol.

       - Assim, automaticamente, ah ah ah!...

       Cabelos replicantes entre os loiros e os morenos. Sempre me conseguia o que queria. Dois cotovelos na mesa me olhando com profundidade as mãos segurando o rosto. Um cotovelo na mesa com a mão no rosto segurando o queixo olho mais fechado por causa da fumaça a outra mão com dois dedos no cigarro e três dedos no copo de cerveja clara. Lábios doces e sorrisos um pouco finos molhados de cerveja clara.

       - Gosto muito do livro e me abraço com ele calor intimidade amizade. É uma suavidade uma linguagem andando na história contada na lenda talvez até no mito. As palavras desaparecem escolhidas ocultismo. Descrições de terramarear e mesmo surreais. As figuras dançando na mente como as ilustrações de pintura naif. O autor caminhando como quem escreve como quem conta como quem lê como quem fala para a tribo na beira do fogo. Degusto poupando devagar o livro, consumindo a história como uma promessa uma certeza uma sobremesa. Fico embutida engastada na narrativa. Pois não sei o que será de mim remorso quando o terminar, me sabe bem, quindim, sagu com musse de chocolate e bolachas maria, açaí com mel e amendoim, água de coco, sorvete de pitangas, torta de chocolate.

       - Eu já acho que a história vai além do quadro. É o que imagino, é o que espero. O quadro na parede, entende?, e além do quadro como seria? A paisagem não termina aí.

       - Como uma continuidade fora da moldura.

       - Exatamente. Mas uma continuidade que é uma continuidade ou extensão do próprio autor da própria história e que o narrador deixou de fora. Não é minha invenção, é mistério do próprio narrador, é recorte do narrador e eu vejo isso, entende?

       - É, e depois, tem sempre a possibilidade de encontrar um disco voador e alienígenas com um exemplar de cada coisa no bolso, o céu azul, parque do Jaú, algumas palavras dos índios kanamari chinen (vento) uchu-u (lua) tam-num (sol) tuxaua (chefe) tinga (branco) afo-ô (céu) chu-ô (chuva) marinauá (líder), aleia de coqueiros-dicori, ariranhas pegando sol no tronco encalhado, mutuns-favas piando no mato, arapaçus-verdes conversando, alarido de pitiguaris, bigornas de arapongas.

       - Em Alexânia, em Itanhandu?

       - E todo mundo que nascera com ele já estava morto. O barulho de conversa das palmas carnaúbas com o vento. E ele estava ainda vivo no laço do começo com o fim do mundo.

       - Profissão de fé, missão, sacerdócio, projeto de vida.

       - Andar pelas casas e ruas e praças e rios de Uarini, Fonte Boa, Maraã, Tefé é experiência indescritível. E há outras cidades que são curiosas.

       Durante sempre ela seus olhos me aprofundavam para dentro dos meus. Hoje imagino isso, mas naquela hora nem me passava pela cabeça. Sábado, sábado à tarde, domingo dia todo em Itapé. Mais tarde me perguntou se aproximando da minha cara enchendo a tela espuminha de cerveja clara no lábio superior:

       - Veja lá olha lá se você me ama?

       Antes dessa pergunta dessa resposta ela me confidenciou que um colega nosso da mesma faculdade tinha se declarado e até chorara pedindo com muito respeito e cuidado e de joelhos que se casasse com ele, etc. Achei tudo um assunto muito abichornante um fiasco um vexame um enjoo, para ser sincero. Eu queria outra coisa. Comecei a desgostar completamente do mundo dos seres vaidosos dos bípedes pensantes dos androides ululantes. Isso acabou com meu estilo, compreende? Comecei a desamar a perder a derreter ali mesmo. E as bocas desconectadas dos respectivos cérebros. Por que ir de avião até Três Corações, por que saber do rio Acuriá, por que conhecer a serra de São José? Comecei e terminei reparando que ela sentava a cavalo na cadeira, tinha brincos de odalisca, patuás de fitinhas multicores alternadas no pulso no tornozelo, tatuagens de inscrições chinesas atrás do pescoço, correntinha de ouro sagrada com o camafeu naufragando em a covinha dos seios, palitava os dentes na mesa, mania de passar os cabelos para trás das orelhas, lábios pintados de café, sombra nos olhos para afetar olhar fatal.

       E depois, depois da pergunta à queima-roupa eu não pude mais, e desacelerei, mas disse, já muito sem apetite, sem graça, com fome de comida, com necessidade de água que passarinho bebe e vontade de dormir dormir, eu falei:

       - Vou até ali no banheiro e te respondo na volta, pode ser?

       - Sim, claro, oquei, perfeitamente!

       Fui como pensando voltei nem falei mais no assunto ela também não e as duas horas de pingue-pongue. Cervejas e batatas fritas com queijo ralado estava tudo normal satisfatório comum, tanto que ainda me lembro lembro.

       Acolá esse para grande é cá país lá.

       O sol apareceu em silêncio, os pássaros na algazarra pula-pula risadinha joão-barbudo tecelão tiê-preto pichororé marreca-caneleira, as árvores esfomeadas, as gentes espiando com o rabo dos olhos. A cutia correu desapareceu se infiltrou na camuflagem. O rio parou para ver a imagem da índia catuena refletida. O que fazer em Vinhedo? O que ver em Conceição do Mato Dentro? O que esperar descobrir peripatus acacioi em Tripuí. O povo de Ouro Branco está certo de que os sacis existem. Os óvnis aparecem em dias de noites estreladas.

       Por que aí paramos naquele enleio de eu e ela e nós dois. Que é realmente o meio da estrada paralela. Ela gostava de música em geral e eu de literatura espacial.

       - Você conhece o Kama Sutra?

       - Eu já pratiquei e entendo e recomendo em todas as direções e posições e etc.

       O santo do dia, vem santo vai santa, os santos do dia, São Frei Galvão. Sempre assim o mesmo rio, praticamente. O sol partiu da serra de Quebra-Cangalha rumo do palácio majestoso na Pedra Redonda nascente do rio Jequitinhonha. As guaraiúvas contavam dinheiro abanavam ao vento. Voavam perfeitos insetos aerodinâmicos em todas as frequências.

Na é curiosidade a outra e rua.

       Os seios pequenos nem me importava. Nem mesmo a cicatriz no supercílio direito. Disse que foi um trauma de infância descendo um pé de jabuticabas. Ela cultuava a natureza a serra do Espinhaço a montanha do Itaguaré o rio Canumã. Procurávamos um equilíbrio emocional. Rosto afogueado, língua entre os dentes como jabuti-aperema como tamanduá-bandeira como macaco-de-cheiro como bate-pará com muito calor o olhar de cachorrinha amorosa ou sonolenta invertebrada miração o corpo nós dois estava pegajoso lânguida lânguida ponta dos cabelos molhados volúpia nós nos furiosamente durante os fins de semana.

       - O que você está pensando? O que você me diz disso?

       O sol acordou do tal e qual sono reparador. Vinha de lá com certeza um céu escorregadio. Muitas cidades no roteiro e aldeias, marabitana oiampi baré marimã, serra de São Francisco, palácio São Cristóvão na Quinta da Boa Vista e outros passeios roteiros currículos culinárias. E verticalizou subindo como balão inflável infalível inflamável. Sem consultar a minha vontade a minha astrologia a minha tecnologia e o que foi que eu disse e repito:

       - Não lhe dou essa ousadia!

       Deus respondeu, fingiu não me ver nem me ouvir respondeu pelo sol trovoou ali sem nuvens com aviões comerciais discos voadores pôr do sol andorinhas parque Tenente Siqueira Campos o instante de muita luz cores mar e ele o sol muitos carros carros, tonitruou:

       - Minha hipótese que chove antes das 17h.

       E seu o meu rosto de Deus tinha um ar de lua nova e o cabelo branco desbandeirado as mãos de maestro em estrelas cadentes.

       - Por que nem sou consultado nem o escolhido? - inquiri.

       - Bem, trabalhei dez anos na Ilha de Itamaracá departamento da minha inteira alto astral alçada - completou.

       Acreditei achei tudo incrível opinião invisível fantasma fantástico espiritual e dei por encerrada a minha participação.  

Me perdemos de vista nós eu e ela quando as aulas acabaram acabaram. Ouvi dizer que fumou muito numa festa de formatura ali em Capanema. Ouvi dizer que a mãe queria voltar para Gameleira. Ouvi dizer que foi disputar concursos nos lugares em São José do Mipibu e Itambaracá e Jaguaribe.

Minto, pois teve um dia que nos reencontramos na cantina da faculdade ela vindo do nada nos abraçamos quase jogou meus óculos fora cabelo liso com tradicional penteado funcional conversamos rimos me convidou convidava a turma toda para um reencontro os antigos colegas rosto muito maquilado o seu aniversário na pizzaria Timbó. E nunca mais nos vimos, nos abraçamos muito na despedida me beijou nos cantos da boca elogiou meus olhos queria conhecer a predileta Caxambu eu queria ela e ir com ela mas ela não me convenceu.

O sol virou árvore ali pelas 11 horas e foi para os lados de Votuporanga, pedra da Marcela. O buriti com outros buritis, bacabas, jarinas, ipês-do-cerrado, umaris, bacuris, guarabus-amarelos, taperabás. Isso acontece com muita gente: o guaraxaim foi até a beira do rio Preto parou ali no alto do barranco farejando o ar.

Deus olhou para baixo uma vez na vida, isso já pode se repetir, e disse:

- Este mundo tão cheio, estudar o quê?

Dia como de hoje, o sol andando na sala de um lado para outro e o pensamento seguindo o pensamento, a rua do Pirajá, casas e loja de brinquedos, assim me lembro que Deus disse pra mim que ia me ajudar lá do seu jeito, cavalo fouveiro, dona e cachorro tipo fila no poste, automóveis bombando músicas gargalhadas namoradas terremotos, árvores antigas enfeitadas de lâmpadas de natal, elefante disfarçado de pupunha-marajá nunca se parece com árvore, um deserto é um monte de mar jogado fora.

E agora eu digo que ouvi me dizer modo de me dizer que casara teve um filho trabalhara não sei o que não sei onde ofício e profissão e se divorciou e casou segunda vez com um francês de cabelos e barbas vermelhas que fala francês turco português que conheceu na cachoeira das Andorinhas serra do Papagaio e foram morar estabelecer em Magda interior do Canadá.