sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Que Tem Que Seja?


 


      


 

       A história de uma pessoa já está escrita antes de partir antes de chegar antes de qualquer coisa. O papel cada um procura o seu no modo de encontrar. Uma Mãe totalmente maior é que dirige o sol, a terra, o mar, as plantas, etc., o rio, a chuva, o catita, o pitu, o cujubim. O teatro que assistimos tende a nos motivar movimentar calibrar; mas o teatro sempre o palco.

       O dia obrigatoriamente sempre dividido entre uma manhã uma tarde uma noite.

       Um homem amava muito seu cavalo seu carro sua moto sua cerveja gelada seu chute de esquerda. Que certa hora já amava mais que a própria esposa. E o convidou para almoçar todo dia com ele na sua mesa. Depois lhe ofereceu um quarto e roupa lavada.

       Simplesmente o que se viu o que se disse.

       Esse homem logo logo não se deu bem com os seus 5 filhos. Então, uma noite incendiou a casa com todos ali dentro dormindo, a esposa e os 5 filhos e o cãozinho Catabi. Foram morar no paiol ele e a barba, sem remorsos. Para os vizinhos e a polícia disse que foi acidente ou desgraça.

       Se sentou na varanda em sua cadeira de balanço. Cofiando a barba espessa. Alisando a barba negra. Acariciando a barba grande de profeta.

Na sombra de uma copaíba. Nuvens em movimento. Um pouco mais distraído com as taperás em seus voos trançados e de telhados para o ar e para as abas das casas. Um besouro fez mais ruído que um trator.

Em minutos as taperás voaram décadas.

Pois o homem sonhou com um anjo em forma de peixe camurim saindo a partir de um poço. Com a surpresa acordou e ergueu uma prece pedindo mais 50 anos pela frente.

E foi uma longa noite de espera que se arrastou.

       O guaipequinha Catabi poderia ter uma sorte menos compilada e mais ampla. Solto pela casa dentro de casa pelo terreno em torno da casa. Poderia ter continuado a ser o xodó da família, com a família. Um cão tipo vira-lata que se interessava por tudo da casa e por tudo que chegava na casa. Seu território era sagrado, e competente. E passeava na coleira com o caçula quase todo dia pela tarde. Era seu momento de lazer, cheirava cada poste cada janaguba cada latão de lixo cada entrada de garagem. Gostava que lhe coçassem a barriga e especialmente que lhe dessem de comer. Um olhar amigo e cauda vibrante e língua de fora. Catabi gostava muito e balançava para ir até o armazém da esquina, para ir até a padaria, para dar volta na quadra, para cheirar as espécies.

       A filha mais velha do homem que amava sua barba se chamava Juçara ou Jussara. Tinha 16 primaveras, em ponto de bala. Poderia ter sido o que não foi. Poderia ter casado aos 17 com o João Bangalafumenga. O João já tinha um carro e um emprego na transportadora Mangabeira. Eles poderiam morar ali mesmo, com os pais dela, fazendo um puxadinho nos fundos. Ou com a mãe de João no bairro Cariú, onde ficariam tão ou mais à vontade.

       Nesse minuto o mundo andou outra década.

       Vieram diretamente de Paraty e Abadiânia e Piracanjuba e Cururupu e Palmares e Poção de Pedras, em visitas de férias escolares outra vez, os 3 sobrinhos e as 3 sobrinhas do homem que amava sua barba.

       Acari era uma dessas meninas sobrinhas. Num total ainda de doze para treze anos, olhos tenros pele tenra cabelos tenros sorrisos prediletos passos tenros. Que aos dezoito para dezenove poderia sair de casa para estudar em Porto Alegre ou Florianópolis. Iria morar com uma tia que era até parenta do homem que amava sua barba. Lá em Porto ou Floripa, estudaria odontologia ou engenharia e namoraria muito. Pensaria em ser modelo, que altura e beleza e charme e natureza tinha de sobra. Suas saídas à noite para beber cerveja e jogar conversa fora com os amigos num barzinho da Cidade Baixa ou da Lagoa da Conceição. Quando chegasse aos trinta para trinta e um se mudaria para o interior de Pernambuco cidade de Penalva, ou zona rural do Maranhão lugarejo de Catende. Haveria ali de ganhar um filho e nunca mais retornar para rever parentes ou aderentes ou etc. da família. Regressou voando na pele de um passarinho, mais precisamente conhecido como uma xexéu.

       O que tem de ser que seja. Desde o primeiro mundo. E um dia tem que ser o dia.

A paciência que foi aprendendo, deu ao homem a ideia de prender os sobrinhos para engorda. Esperou que se estufassem de gordos. Assim, convocou os parentes próximos, e em especial desenterrou a família a esposa e os 5 filhos e o mascote, para se refestelarem no churrasco. E assou os sobrinhos e as sobrinhas deliciando a todos os convidados. A esposa queria tomar chá de jasmim-do-mato, queria pratos decorados com motivos indígenas da tribo anambé, queria uma nova marca de máquina de lavar louças, queria conhecer nas próximas férias a praia de Olhos D’água, queria morar perto da mãe na ilha de Atalaia. No final, para sobremesa, o homem apresentou os cérebros dos sobrinhos sacrificados nas suas respectivas cabeças separadas destampadas com direito a olhos arregalados olhos estrelados olhos esbugalhados.

       - Direi o quê?

- Que gosto e me divirto com essa lógica?

       - Que já estava desconfiado disso?

       - Pra quê, pra quê?

       - Ah, por favor!!!

       E foi um longo dia de espera que se arrastou.

       O homem e sua barba ficaram zanzando pelo centro da cidade, entraram nos museus nos açougues nas igrejas de todo tipo nos quiosques de garapa nos hotéis da rua principal nos botecos. Sentaram no balcão, ele pediu a cerveja espumante e começou a olhar o chão sem parar. Pelo sim pelo não, mergulhou em si. E bebeu e fumou, mais que o costume, e cochilou.

       Mas era como nos outros dias, os bruaás do trânsito, o sol perseguido por nuvens, as lojas desertas, as manchetes de crimes bárbaros, as japarandubas da rua em fila indiana. Lá um minuto sentiu fome pediu 3 pastéis de queijo e os engoliu em 3 bocados. E todas as mulheres e meninas, umas mais outras mais ainda, sorridentes, sorrisos de modelo nova, não olhavam diretamente nos olhos nos olhos. Seu coração de homem que amava sua barba, embora, seu coração flutuou sobre, como uma pandorga de cores abertas, sobre a cidade pontiaguda.

       O homem e seu cavalo e seu cabelo encaracolado e seu dourado relógio analógico de pulso saíram do palco e de cena aplaudidíssimos. Centauro parou em todas as manchetes de revistas de telejornais de sítios. Marcou época, bateram boca os que disseram escreveram. Ninguém guardou a imagem ou o nome das vítimas, só do algoz. Logo logo teve uma rua com seu nome. Um dia terá uma escola um bairro um chafariz num lugar qualquer desse vasto país.

       Eu mesmo saí do teatro orgulhoso do nosso teatro. Ah, como foi higiênico o desempenho do principal! Ah, o seu cavalo mangalarga puro-sangue, brilhoso, garboso, esportivo, quadrúpede, bandeira, só faltava cantar em italiano! Ah, como meu país é bom nisso! Ah!, e outras coisas, etc., etc.

 

      

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Perda de Tempo


 


          


 

       Conheço a história de Maria e José. Como todos entendem, tem que se fazer as coisas bem feito já que se vai fazê-las.

O casal era um pouco ingênuo romântico para a nossa época, e as famílias respectivas muito tradicionais.

       Não sei se é desnecessário separar o ontem aqui e agora e o amanhã. Não adianta gemer acariciar representar, pois já fomos alguma espécie de bem-te-vi nessa terra que só produzia pássaros hoje aviões ou transatlânticos mais tarde espaçonaves para uma estrela em Escorpião.

       De tiara azul cabelo liso polido preto Maria ficou linda, só isso. Guria de beleza radiosa em olhos enternecidos. Boca macia apetitosa perfumada.

       José ficou esse tempo todo ali amorcegando e emendando um ano no outro até disfarçar um colar de vinte e dois anos. E pra ele era tudo o que faltava.

       Nem conheciam nem distinguiam o mar azul-verde do céu azul-turquesa.

       Os olhos dela alongados rasgados e dele o ritmo que se acelerou. Alta branca roupa amarela e quase amarela sem palavras tudo jogando as pernas em passadas sobre a calçada na praça da Bandeira e pra onde quisesse ir. Os olhares dela pra longe bastantes, os pensamentos em tais e tais sublimidades, os desejos em sorvetes de pitanga. Um jeito de ser bem voltado pra dentro de si mesma.

       Um cometa em cauda com particulares fulgurante.

       Certo dia eles combinaram com o acaso se encontrar, e se encontraram. Já que José estava disposto, a pediu em namoro. Já que Maria estava predisposta, o aceitou em namoro.

       - Você não acha¿!

       - É o que há!

       - Não qué¿!

       - Você não acha¿!

       O sol dourava e poucas nuvens, árvores faziam longas sombras, em outras coisas, bando de anus-pretos voltando pra casa frondosa braúna-parda.

Mas desavisadamente os pais de Maria não queriam o namoro. Maria e José ficaram arrasados sem saber o próximo passo. Pensaram um único dia um único jeito no meio de uma única noite calada: fugir.

Uma chuva orgulhosa universalista vertical medindo a altura da lua.

       Eles fugiram para uma cidade Lençóis na beira de um rio Condeúba. Longas pernaltas de tuiuiús compassadamente pela água rala e cuidadosas de quando em quando. Ficaram por grandes apertos se escondendo da polícia, dos satélites espiões, das câmaras dos shoppings, etc. Aí, também começaram a alvitrar principalmente por causa de brigas.

       A vida de araras é ótima. Mas existem as mesmices. Sempre amanhece anoitece amanhece e nem muito o que fazer.

       Pelas calçadas os seres flutuantes, e de pouca sorte, em total: gentes. Apenas todos os dias do ano, o sol vive viajando, pra cima e pra baixo. O movimento nessa rua sempre fora agitado principalmente nos fins de semana.

Por isso assim, eles viajavam constantemente em proveito de conhecer outros lugares, Pilão Arcado, Inhumas, Itapevi, Terenos, Valença, Guajeru, Salto do Jacuí, Icó. Sempre que podiam, e era seguido. Admiravam montanhas, rios, praias, árvores, aqui e ali fazendo fotos com o celular.

       Inda mais que não pareciam conseguir tirar um rebento. Mas plantavam cada ano um renque de plantas como compensação, guaporé, sapucaia-branca, capeba, jenipapim, tapiá-mirim, cuipeúna, babaçu. As baitacas, em dias de belo começo de noite, povoavam as copas e palravam todos e as conversas iam interessantes.

       O rio Maria e o rio José pareciam fazer paranás igarapés igapós por certos trechos. O rio desenha num mapa de geografia. O rio e sua automática de memória.

       José tinha doentio ciúme de Maria em tudo, seu jeito de chupar picolé, de se pentear, de mostrar os dentes, de ficar cismando, de cruzar as pernas, de preferir certos óculos escuros, enfim uma doença lá dele. Sem contar com o fato de Maria bonita e jeitosa gostar de usar saias ou vestidos de cores modernas.

       E passa o ano passava ano plantavam aleia de árvores cheirosas, carobaguaçu, aroeira-de-bugre, dedaleira-preta, mimosa, gameleira-branca, cana-brava, taioba, onde e como aconteciam pios gorjeios e assobios dos distintos emplumados diversos, guaxe, carriça, macuco, batuíra-de-coleira, ferrão, jaó, mutum-cavalo, suindara.

Ele tinha enorme ciúme e não a deixava sair de casa se encontrar com o sol, o vento, o mar e a chuva. Começaram logo as agressões com gritos e silêncios e depois os safanões. Ele rasgava-lhe a roupa, cortava-lhe os cabelos quando dormia, passava dos limites.

Um dia qualquer, que sendo terça-feira já bastava, se empolgaram o céu o sol as árvores as cores os seres, uma coisa só e importante.

Maria não segurou mais e voltou pra casa dos pais. Sem esperar que Maria foi e semanas depois engravidou.

Preocupadas espalhadas acesas na noite clara, as estrelas se perguntaram: pra onde foi a lua¿

Na beira do rio Aguapeí, povoavam as jacutingas os colhereiros as araçaris os jaburus as irerês os frangos-d’água.

José jogou na mega-sena acumulada. Maria dormia na cama de solteira com a televisão ligada.

À medida que o tempo passa. A medida em que o tempo passa.

“Eu, José, queria ver o parque Barigui, queria conhecer por dentro o teatro Guaíra.”

“Eu, José, o mundo todo e a Amazônia legal mais que tudo.”

“Eu, José, e aqueles seis dias em Ilha Comprida passaram assim tão rápidos.”

“Eu, José, por pura curiosidade subi naveguei o rio Jaguaribe, dias de sol e chuva se misturaram, plantações de carnaúbas, açude de Orós e visitei Castanhão.”

E isso, Maria tocava flauta-doce e muito. O olhar perdido no meio de uns olhinhos verdes de chorar à noite.

Esses tempos assim tão temporais, manhãs e tardes e jaçanãs, céu claro ventos afoitos campo afora.

No meio do rio Negrinho, os habitantes de mandi-chorão jaú sauá curimbatá jurupoca pacu candiru-açu.

“Eu, José, tenho certeza que já vi Itaboraí.”

“Eu, José, já voltei de São Gonçalo do Sapucaí.”

“Eu, José, nem conhecia rio Aquidauana e serra de Maracaju.”

E o tempo, já esquecido, foi no resumido: faz tempo.

Chuva voltando à terra dos galibi-maruorno em busca do por vir.

“Eu, José, visitei Pinheiro, a praça junto da igreja Matriz, as ruas com árvores, a forma baixa das casas, as linhas das ruas, circulei por ruas que iam até o rio Turiaçu.”

Bom dia! Posso entrar¿ O sol se projetou na madrugada para dentro da maior escuridão. E os pássaros começaram a aplaudir baguari japu-verde juriti tiriva japim-da-mata-encarnado do meio das árvores umbrosas. As cores do lugar. Até mesmo os milagres movimentaram.  

       Depois de três anos em separados, com o filho Jesus, Maria e José se cruzaram por acaso num sítio de bate-papo. Começaram a teclar e a teclar. Um mês nesse vai e vem de mensagens amigas virtuais, marcaram um encontro num barzinho no centro da cidade natal.

       Ah!, a emoção foi a mesma.

       Por algum motivo que agora nem vem ao acaso.

       Os rios que sempre alcançam. Árvores rangendo num capão, que ele mais ela não queriam contar, e eram duzentas e trinta e duas mil árvores plantas ervas de diferentes tipos e cores e alturas. O sol amanheceu e ficou pairando por aí.

       Está muito em moda hoje em dia nas cidades modernas de Barracão, Canavieiras, Salto, Piraí, Campanha, Rio Bonito, Conceição do Coité, Cristina, Vassouras.

       Sorriso, sorrisos cada vez mais, sorrindo olhar e todo o mais, vinham se chegando aumentando, e se reencontraram.

       O rio o sol todo o mundo a todo momento também são daqui.

       Em cada tempo tentando escolher que pessoa quer ficar. Uma pessoa para ser. E que também pareça interessante.

       Se falaram o que cada um viu naquele dia. Depois os sonhos da noite anterior. Ainda mais as atrações nos diversos canais. Mostraram nas fisionomias uns raciocínios sem motivos. Transformaram o abstrato em concreto, o extraordinário em natural, ou vice-versa. Exercitaram a voz e a imaginação. E mais ninguém.

       A chegada da noite veio com estrelas. Fez muito bem. Uma diferença para melhor. Avencas-da-terra em geral opinam pouco. Murmuravam os japiaçós de moradia no meio do capim-açu. Assim que é: os dias as noites com seus conteúdos.

       Se num casal, vivendo uns anos em comunhão e três anos um para cada lado, não houver nenhum desentendimento é porque eles não se gostam e que só ficariam unidos porque não tem nada pra fazer.

 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Em Todo o Caso


 


      


         

       Noite ventosa tinha que ser aquela, e olhos brilhantes acesos na escuridão compacta, vigiavam a janela do quarto da namorada no Morro do Azeite, São José do Ouro. Corridas de preá na várzea. Marotagens de jananaíra entre a folhagem nos carreiros do mato. Pios modulados de invisível coruja-preta. Depois de um tempão os passos se foram, um último olhar pela casa apagada, silenciosos e opacos como sombras.

       Todo mundo é ciumento. A razão é debaixo do nariz. Uns resistem mais outros menos a esse mico.

       Porém, no outro dia, ela veio com aquela cara de guaipeca faminto, que lhe cai bem em certos momentos, e me pediu desculpas esfarrapadas. Mas eu terminei e pronto. Só que aí ela subiu nos degraus e promoveu progrediu desabafou me prometeu:

- Vou te matá na melhor oportunidade que tivé, me aguarde!

- Eu não digo nada!

- Como é do teu costume!

- Ah..., por favor!

Pensei em Deus espacial. Vi a lua complacente. Porque eu queria ver o porquê de.

Andei pelas ruas sombreadas em jacarandás-mimosos saguarajis timbés paxiubaranas-miúdas guacuris guamirins-felpudos cambarás-de-lixa. Conversando comigo, aproveitando um sorvete com chocolate e pitanga, e andando melhor que eu penso. As horas lentas sem que eu, eu mesmo, tivesse o preparo para comentar.

       Lembrei demais, lembrei muito mais, lembrei tanto quanto precisei lembrar, em que dia mês e ano, aquele lugar tão merecido de lembranças, lugar sem igual incomparável, sentados no capim-gomoso de frente pro rio São Lourenço caindo em cachoeira véu de noiva serra da Gandarela.

       Porém, não consigo pensar em outras coisas.

       Quando fechou o sinal pedestre, muitos carros rodaram exageradamente nem podiam ser contados, fiquei emudecido filtrado encandeado poitado pela beleza do espetáculo.

       Se passaram semanas e nada. O mundo e eu seguimos nossa sina já trançada nas estrelas de cinco pontas. Rios de seres e de coisas que iam e que voltavam. Por meia hora fiquei guardando o olhar num buriti do meio da praça General Osório. Uns verdes em tons de inocentes alamandas-amarelas, por enquanto ou etc. Risos prolongados de joão-de-barro, risos simples e engraçados, risos silvestres, risos cristalinos.

Os caminhos e os lugares para andar e ver. Ideias muito espalhadas. Árvores voando com saudade do leste. Mandijubas no céu. A jurema-da-pedra estava onde sempre sonhou estar. Uma menina na porta com vasinho de bromélia florida.

       Mas inesperadamente a ex engravidou. Claro que fiquei desenxabido. Me juraram que o filho é meu. Dúvida eu tive e muitas a partir daí. Acompanhei o rio a montante e ressabiado. Certeza eu sempre que alguma coisa.

       De por onde andar na cidade como um filósofo. Sabendo que ontem mesmo tinha passado num posto de saúde ver a pressão mostrar a língua arregalar a esclerótica ouvir os batimentos falar trinta e três subir e descer cinco degraus botar as mãos para o alto.

       Porém, faço só o que acho que deve ser feito.

       Sou homem, assumo meu filho se meu filho for. Caso com ela e seremos felizes para sempre, como é e será o início do sonho.

       E Deus me perguntou o que eu mais ainda queria.

       Aí, eu resolvi botar mania na casa. Decidi que minha mulher não poderá mais sair à tarde, porque não é legal mulher sair de casa à tarde. Muito menos usar vestido ou roupa legue na rua, mesmo acompanhada dos irmãos dela.     

       Com ou sem explicação, com ou sem pedidos de explicação o mundo vai em frente. A cada dia que me ocorre, a primeira coisa que tenho, é encontrar o que procuro.

Proibi que usasse óculos escuros, pois toda puta já usa óculos escuros e não pega bem.

Minha mulher e mãe do meu futuro filho não atenderá telefone nem internet ou sequer poderá ir ao armazém da esquina, sem a companhia da minha mãe.

Somente eu curtirei a minha esposa os seus cabelos os seus olhos os seus pensamentos. Sob minha asa a bombordo.

Mulher que amo e beijo não faz exposição pública gratuita da sua figura.

 

      

 

 

 

 

sábado, 21 de dezembro de 2013

Seja Lá o Que Quiser!


 


      

       Quando Deus achou melhor inventou de consertar o mundo com o dilúvio.

       E Deus sempre foi Esse um Homem sério. E Deus foi direto ao assunto.

       Favorecer o mundo com uma nova formatação.

Pois bem.

       O tempo fechou e caiu a chuva grossa e firme. A chuva despencou enorme, envolvente, no meio da chuva, e tudo se encharcou com cara de segunda-feira rente das 13h e 30min. Um mundo borbulhou cheio de chuvas.

       O conto é a história de um poema.

       Se achar estas palavras e seguir estas linhas vai encontrar o que quer saber.

       Tudo muito simples e portanto muito fácil. Tudo que se ensinava também se aprendia, ou mudava. As respostas nas perguntas. E tudo isso sempre era agradável.

       O que poderia ser salvo. Menos os dinossauros, que esses eram tão pesados e famintos e gritalhões.

       A grande enchente cataclismo durou o tempo que todos esperavam. Os dias foram passando sempre com chuva no decorrer do período.

       Uns cantos e outros pios transparentes límpidos molhados de sanãs-carijós no alagado entre plantas aningaçus aquáticas.

       Aí foi bom, porque a chuva parou de repente e a arca encalhou no pico Campestre, lugar conhecido de onde se via a Itupeva. Se abriram as portas e as janelas, que foi aquele recomeço de primavera. Árvores oiticoró sacudindo a cabeleira verde aos quatro ventos. Havia par de deuses em cada morro em cada rio em cada árvore gigante. Os ticuna os suruí-aiqueuara os campa os sanamaicã os xucuru-kariri os tsunhum-djapá os txucarramãe vendiam cestos de taquara potes de barro animalistas parecendo tietinga bicho-preguiça tamanduá tracajá cocar de araras-grandes-azuis trombeta uatapu tapioca beiju e compravam caminhonetes 4x4 cabine dupla.

       O momento de cada coisa, movente ou não, o momento de cada ser ou coisa, o momento. Mas não se sabe, ninguém sabe nada.

       Ninguém era indiferente. E ninguém era melhor que ninguém. Nem diferente.

       Os milagres foram acontecendo devagar.

       Sol fez entrevista e o resto fez apresentação. Porque tudo certo acontecendo.

       A surpresa do mundo em detalhes e mil outras coisas.

       E paz peregrina.

       Uma árvore, uma árvore, uma caamembeca, existia ali e pronto, simples assim.

       Sendo que alguns tomaram posse do mar, das ondas, dos cardumes, até das estrelas da constelação do Escorpião e dos astros da bola de futebol.

       Tinha céu azul montanhas azuis imaginárias rios de pedras verdes correndo entre árvores verdes azuis amarelas. Tapirangas conhecidas cantavam nos primeiros minutos da manhã. O teto azul do dia com chapéus brancos em caravelas abastecidas. O vento se misturando com o verde das plantas alecrins-bravos pequiás-amarelos pereiros-da-serra capitiús catuabas barbas-brancas baririçôs-amarelos salgueiros-do-mato.

       O meio ambiente brincava de mil coisas. Acontecendo mil e uma naturais e outras tantas absurdas sobrenaturais.

       A estação preferida do amarelo da flor preferida. Era para ver tudo pela primeira vez e milagrosamente. E por toda a parte as coisas se inventando se divertindo zumbindo chilreando.

       Como se chegar onde se tem de chegar? E fazer o quê?

       O dia mais alto do chão, o dia mais comprido e a noite mais passageira. O dia e a noite iguais em comprimento.

       A estrada passando por lugares.

       O rio Ivinhema era a liberdade e a felicidade espontâneas. O rio dentro do rio. Nem começo nem fim. Líquido e persistente e permeável da montanha ao mar. Nadando em peixes nadando em si mesmo. E estava certo.

       A enxuí veio procurar a flor. O mono-carvoeiro balançou o sucará. A maritacaca ensinou comer butiá. O sabiá-do-campo cantou para a sabiá-do-campo.

       Tons verdes cambiantes.

       Tudo era coisa, tudo estava brincando para ser nomeado.

       Pronto, inteiro, natural, completo, ruflar de asas, vento leste moderado ameno, sol majestoso ousado, árvores rangentes, voos de pássaros proprietários das aroeiras-brancas, caminho do rio murmurante, campo afora de capim-amargoso, tudo fácil como um dia depois do outro e a noite no entremeio permeio.

       Hoje, depois, pois não, em tempo tão distante daqueles dias naturais e inaugurais.

       Ele parou de braços abertos e esticados assim debaixo da pitangueira em época de pitangas. E ele não sabia, e ele não sabe.

       Nos instantes em que duvidou sobre o que deveria falar.

       As macaíbas murmuravam em arvoredo. Os jaós assobiavam na sombra das frutas-de-coruja.

       Naquele tempo, não era nem homem nem criança, naquele tempo. E passeava com chapéu de palha peririma trançada.

       Enquanto o sol nascia, raios de sol oblíquo, o verde-amarelo das folhas ainda pingado de orvalho, ele caminhava pela beira do rio Pirapó. Isso o que mais o interessava. A voz do rio a voz dos coró-corós a voz das árvores as cores camufladas das borboletas-oitenta-e-oito.

Ele estava pensando estava só espírito desarmado pura descontração e não tinha perguntas. Mas não por muito tempo.

       O gavião-caboclo sobrevoava agreste território e as árvores acapuranas-vermelhas comiam pedaços de céu e de terra.

       Experimentou jabuticabas maduras de sol e de chuva e de vento.

       Então, o mundo exercitava porque tinha alguém olhando.

       A lua redonda quieta meiga alada acompanhada de estrelas quentes saía inflando a noite a noite.

       Assim, por onde for, ele adivinhou que ela estava ali no banho de sanga entre as flores de barbas-de-lagoa e de cristas-de-mutum. E ela o descobriu ali rente, mais ou menos admirado e impositivo, entre as tapinhoãs.

       No primeiro dia o casal comeu e se alimentou, foram dormir para acordar cedo.    

       O céu tão certo o sol tão longe nos espaços o tempo afora. Quase deixaram de cumprir as metas do dia.      Descansaram à sombra das árvores, assobios flagrantes do capitão-de-saíra, amanheceram nos braços e no alto dos galhos da árvore braúna.

       Ele respirava seus lábios quentes e se banhava nos seus cabelos longos. Os olhos dela leves como tenras folhas verdes de caapi. Eles se abraçaram resfolegantes.

       O sorriso contente, o sorriso alegre, o sorriso até depois do regozijo.

       Conversaram sem noção e pelo tempo sem duração. Mas não sabiam disso não sabem disso.

       Modestamente, alcançaram os frutos sazonados do araticum-ponhê.

       O sol apareceu e ficou assim. Árvores gigantescas andavam paravam andavam paravam no caaobi. Os pássaros se repetiam cantando.

       Pelo visto, era em ponto de primavera pegando o verão. Uma reunião de flores rasteiras, flores otimistas, perfumes macios, cachos de flores amarelas lilases verdes, zumbidos, voos.

       Uma pequena gruta oportuna, e com ramas e tramas de trepadeira confundindo a abertura, e eles entraram.

       Dormiram um muito, e com a tarde já se passando, tomaram o caminho de volta.

       Reiniciavam conversas sobre.

       Caminharam passeando sem pressa, ergueram as cordas passando por baixo do arco-íris, derrubaram em voo alarmado um bando de araçaris, os olhos falando doces, se incomodavam com nada.

       Manhã clara, bem clara mesmo de cristal, e bando tagarela de periquitos-de-encontros-amarelos, manhã estava clara como um ponto final, como uma tarde.

       Tudo isso muito divertido e aconchegante. 

 

 

domingo, 3 de novembro de 2013

Sorvete de Abio


         
       Nívea Clara olhou o céu das nove horas em saindo de casa: "parece Deus e o infinito", pensou. Suas roupas tinham sempre seus amarelos. Sabia que uma altura do dia ia chover. E os compromissos e declinações a esperavam; foi mesmo assim. Os dentes mais que o sol. Sem nenhum enfeite de colares pulseiras pendentes tatuagens. A alegria do beija-flor-de-garganta-verde sentindo o sol. As irrequietas jandaíras que zumbizavam que zangavam que zanzavam em torno das flores novas doces coloridas da capitiçoba. Quem tem medo de se molhar não sai de casa! Seus afazeres suas urgências no Centro eram pra hoje, pra ontem também, e pronto; foi sem dúvidas.

       Justamente o dia não era para o número da placa do carro. O metrô pingava de estação em estação, Canoê, Venâncio Aires, Tuatuari, Guaraio, Miracatu... A voz macia feminina anunciava as estações as linhas e conexões o dia todo bom e do melhor: entre 25 e 30 anos, mãe de dois ou três filhos, casada pela segunda vez, um dos desse último, pele acobreada, cabelos longos encaracolados e negros, gosta de batom lilás sabor açaí, "tem gosto pra tudo!", prefere usar calças compridas a saia ou a vestido, a blusa casual, mora de aluguel no distante bairro do Juberi, tem carro próprio, não se decidiu ainda sobre as férias de final de ano com a família na praia em São Pedro da Aldeia ou na serra em Marau, quando beija perde o chão a noção e o coração chega a cem por cento. O barulho arrasador dos vagões se arrastando se atritando em alta velocidade pelas galerias obscuras noturnas do fundo da terra, etc. Um homem a esbarrou pegou a mão ela se assustou se olharam rapidamente nem ele pediu desculpas que nada.

       O Brasil e o Panamá são dois países. As manhãs entram sempre muito tributárias. Tanta menina se oferecendo!  

       No meio da multidão das praças, das calçadas, das ruas e avenidas e das lojas e cafés, tantas coisas tantos sons, paredes de vidro dos prédios reflexos do céu azul com nuvens brancas, Nívea Clara simplesmente cumpria seu périplo de filha, estudante de psicologia, professora particular de matemática, mulher e mãe, tirando passarela entre os homens e outras mulheres de olhares compridos espichados caprichados. Árvores pacíficas em fila indiana. Um catador de latinhas ciscava a lixeira frente do restaurante. Fazia calor um pouco. Se mexendo pra cá e se mexendo pra lá. Os homens e algumas mulheres adoravam seu cabelo alto em fogaréu. Aguardava a vez com ansiedade e prospectos de promoções na mão, disputava espaço entre cotovelos, joelhos, ombros, suores, bafos, perfumes, ora! perdeu o elevador. Tempo para um cafezinho? "Só se for agora!", murmurou.

       Com o tempo vaivém as novidades se atrasavam. Uma vovó e um vovô tomando chimarrão na sacada.  Estavam retirando dos passeios públicos os enormes e antigos vinháticos-do-campo e plantando no lugar possivelmente os jatobazinhos, as cabeças-de-negro, as canaflechas e as tamataranas. Logo olhou pra trás com a sensação de estar sendo seguida, ali perto daquela luminária, um homem alto, jaqueta de couro marrom, se disfarçando, cuidando de soslaio, braços cruzados, tentando passar interesse diante da vitrine da loja de óculos: solteiro, pai de um filho, ex-corretor de imóveis, pela primeira vez na cidade, natural de Cruz das Almas ou Rio Bom, revólver na axila. Mas claro que era só impressão dela. Tudo muito rápido. 

       Nívea Clara excepcionalmente não sonhara à noite com Campos dos Goytacazes, arrumar bagagem malas e cuia, seu sonho recorrente e bonito e sossegado e carnavalesco e pitoresco. O vira-lata malhado de azul e branco sempre inquieto focinhando sério em cada poste em cada pneu estacionado em cada portão metendo o nariz procurando o faro atravessando a rua sem olhar pros lados catando cheiros rindo de língua de fora cauda embandeirada. A alegria dos elevados e viadutos. O sol dobrando as esquinas incendiando fachadas atingindo em cheio as vitrines. Ela não tinha cachorro nem bicho algum em casa porque não tinha tempo. Gostaria de ter um casal de ararunas, e isso se o Ibama permitisse.

       Têm cidades que se parecem com montanhas, outras com grandes rios transbordantes, outras ainda com florestas ou o fundo do mar. Do rio Jaguarão até a lagoa da Messejana. O museu Casa dos Contos de muitas janelas abrindo diretamente para a rua Pinheiro Machado ou a ladeira Caiabi. 

       Quinze dias atrás, Nívea Clara tinha ido conferir uma oferta de emprego secretária de advogado trabalhista melhor salário qualidade de vida lá pros lados do bairro Guajajara ou Tabajara. Bom lugar pra morar, inclusive. E sem avisar em casa sem comentar com as amigas e, principalmente, com os colegas. Ela andava displicente na rua calma e tranquila e honesta dos 26 anos.

       Depois de sair da clínica do Dr. Cutucurim, pulando pra cá e pulando pra lá, se decidiu finalmente por um almoço no shopping Torre Panhame. O garçom por acaso que a atendeu na mesa: orçava entre 54 e 58 anos pai de dois filhos e avô de um neto morando na zona leste o bairro Tambiú ou Xerente cinco anos na casa e dezenove na profissão onde ama beija na boca e não desgruda mais bufando resfolegando trocando bafos quentes ardentes respiração boca a boca.

       Quando não era uma coisa era outra.

       De repente, no meio do calçadão da Presidente Eurico Gaspar Dutra, foram surpreendidos pelos primeiros pingos. Nívea Clara, sussurrou: "vou correr até a loja e pagar minha última conta." Com cuidado pra não escorregar, quicou pra cá e quicou pra lá, chegou respingada à loja e na dúvida cheirando a cachorro molhado. Uma mulher com cara de índia minuano veio lhe atender, cabelos bem pretos, sólida de corpo, riso cristalino: dois anos na cidade natural de Santana do Livramento ou Santo Antônio do Palma, mora com o marido e filho pequeno na pensão da rua Matipó ou Janaúba, o sonho maior de voltar aos pagos e comprar uma casa junto da mãe que já está bem velhinha. No magazine Malali ficou amarrada um século de 40 minutos, o suficiente pra que Deus decidisse mandar aquela chuva toda. Uma bomba d’água.

       Mas isso não ia mudar nada.

       E Nívea Clara já livre das tarefas e obrigações ficou presa sob uma marquise. Chuva cheirando amorosa. A alegria dos carros buzinando na chuva. Momentaneamente se sentiu excitada como há muito tempo não se reconhecia.

       Era bom porque era bom.

       Abriu o zíper da bolsa verde com fivelas de enfeite e pegou o espelhinho e conferiu o sorriso os lábios, principalmente, e as pontas dos cabelos. Um homem passou rente a elogiou ela respondeu qualquer coisa. A loja do lado vendia tudo com facilidade menor preço no cartão no crediário. A alegria das águas em alagados. Cartaz com a modelo catarinense magra loira alta lábios carnudos olhos azuis invasivos boca em coração braços expansivos nariz cinematográfico a chuva batendo em toda a extensão calcinha preta de rendas raspadinha por 49,98 reais meias longas listradas verde e azul por 59,98 reais pernas longas bem feitas e bela como seus olhos linda como seus cabelos longos lisos até a cintura. A praça Guaraciaba, triangular, sob o espetáculo da chuvarada, a alegria das bicuíbas-brancas caranaís-do-mato perobas-iquiras canafístulas sentindo a chuva, no centro uma lagoinha onde voejavam quero-queros, tamatiás, xaiás.

       O rio Paraná serpenteia entre Mato Grosso do Sul e Paraná. Deus com sonhos nas nuvens. As árvores com olhos no rio.  

       Nívea Clara, escorrendo pra cá e escorrendo pra lá, já se considerava molhada até os ossos. A chuva que não teve hora pra vir não se sabia se teria pra ir. E agora? E quando? Deus seja louvado! A pele dos braços bem molhada uma beleza uma alegria uma sensação de conforto um contentamento com o mundo todo os olhos feito água o rosto molhado os braços molhados a roupa molhada a pele bronzeada e molhada a língua pegando chuva.

       Na hora que for. Se não precisa de mais alguma coisa. Deus sabe que existem as perspectivas.

       O ponto do táxi era logo ali. Bastaria aquela caminhada de sapatos na mão pra não escorregar. Dobrou pra cá e dobrou pra lá. Chegaria então em casa a tempo de fazer o jantar. E beber um chá. "Um, dois, três e já estourou o meu dia!"

       A chuva não diminuía. Era um dilúvio. Deus se esquecia de fechar as torneiras as comportas. Uma chuva em cortina branca com luzes acesas. Era um alívio para a alma para tudo. A cidade com a chuva era bonito de se ver e sentir. Quando entrou no táxi pensou ter reconhecido o homem que cruzou os seus passos mas desistiu de conferir de olhar pra trás.

       O taxista falava do tempo do próximo carnaval da rivalidade no clássico estadual do fechamento do túnel Tomé-Açu. Ela esquecera de comprar aquele lenço amarelo de pescoço que lhe caía muito bem; ficava pra próxima. Enxurradas formando caudal que descia sem tréguas o morro do Meinaco atravessava a avenida Piratini tubulões entupidos carregando terras pedras madeiras e outras coisas. Já ficou escuro de repente. Telefonou pra mãe pra amiga Gabriela pra colega Patrícia: "Deixa eu te contar...!" Passou hotel, loja de ferragens, posto de gasolina, prédio antigo abandonado pichado, escola fundamental, cachorro na soleira da porta olhando a chuva deslanchar, a avenida ladeada de camuás, muro com cartazes de deputado e palavras pintadas, ginásio de esportes, imagens que aparecem e se perdem, casas cercadas de grades, salas de musculação, bar Ibiúna, gente correndo de marquise a marquise pulando poças pulando valetas encurvada sob o guarda-chuva, vista do forte Tamandaré, igrejas pentecostais, a alegria dos semáforos. Nem dava tempo de olhar direito. Pensamento molhado. Como, então? Como era isso? O homem tinha o cocuruto pelado bem na parte do topo, tonsura, aeroporto, voltava a reclamar do trânsito pesado devido o horário devido a chuva devido o governo, guiava apressado: dois filhos entre quinze e dezesseis anos, uma filha e um filho, torcedor ferrenho fanático do Náutico, mulher trabalha na loja de móveis Caxicaém, mora no bairro Tupinambá ou Itacolomi, a amante mora na ilha Grande dos Marinheiros com horário reservado nas sextas ou sábados à tarde telefona antes, o carro de praça é da companhia, bebe cerveja depois do expediente oito quarteirões longe de casa, faz tempo que não vai para a terrinha em Vale Verde ou em São Pedro de Alcântara - atendeu o celular no ombro deu uma gargalhada resmungou um palavrão e desligou -, sonho de comprar um carro próprio com longo tempo pra pagar, a amante tem o cabelo acaju e nome Amanda ou Melissa, com ela e exclusivamente com ela gosta de beijar e tem mania de ficar pendurado na orelha sugando e metendo a língua.

       Há cidades que nasceram na praia outras partiram da igreja ainda as que começaram na praça mais aquelas que chegaram com a estação do trem.

       Encharcada por encharcada, molhada, ensopada e meia, voltando de lá e chegando de cá, chuva mansa boa audível etc, Nívea Clara já estava em casa. Quem tem medo de chuva?! Que Deus seja paciente com o ser humano que é paciente com Deus!

       Choveu a noite toda muito porque Deus é assim mesmo: às vezes se distrai. A manhã seguinte intransferível acordou com o sabiá-laranjeira a tesoureira o bem-te-vi-do-bico-largo a curruíra. E o dia limpo bem vestido de branco. E o ar de uma névoa tênue passageira que logo logo daria lugar ao sol de rachar.

       Nívea Clara, então, chegou fácil em casa às 19h e 42min; vontade de um café bem preto com bolachas e mel; prazer de tomar um banho morno e longo. E tudo isso muito esportivo.

 

 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Fora Da Ordem


 


    

       Todo mundo que conheço e não conheço - uma vez uma noite, aí pela meia-noite de lua ou não, sexta-feira treze ou não -, já deve ter visto e assistido na pantalha à película: À Meia-Noite Virei Buscar A Tua Alma. A baforada que anuncia o antigo e truncado filme é de uma voz grave cavernosa pesada empedrada úmida pausada pastosa antiga barrenta emplastada escandida cava penada mal-e-mal. Só o anúncio já arrepia todas as superstições todos os horóscopos todas as vicissitudes todas as repartições todas as idiossincrasias todos os pelos.

       E onde era... E onde não era... Quem sabe!

       Era o vento o vento arisco que virou água, era a terra a terra apetitosa que virou fogo, era a estrela a estrela flutuante que virou  diamante.

       Os mortos ressuscitaram e vieram para contar tudo, fosse pelo que fosse. Muitos anos e séculos que não acontecia esse claudicante vaivém. Foi à noite - porque na noite é que as estrelas, que são muitas, desembarcam no rio. Coisa extraordinária, portentosa, sei lá!, revolução, guerra, horror. Depois de achar que já se flagrara tudo, aconteceu essa!

       Sem razão nenhuma que justificasse, os mortos abandonaram a terra do avesso e vieram, foram por aí desprendidos despojados esfarrapados, entrando de novo nas ruas e nas suas casas. Alma e corpo que definhavam, corpo desgraçado e alma desiludida. Com desejos de reparar ou não suas ex-vidas inúteis, mas um sorriso frequente nas bocas sem lábios, passos lentos e calculados, memórias fracas e sem luz, ouvidos surdos e olhos vazados, chagas abertas e sem remédio, urubus-de-cabeça-vermelha esvoaçando perto em torno.

       Não era um dia especial. Era um dia comum qualquer como muitos iguais. Mas era um dia manancial solerte impávido ganjento solene.

       O rio corria calmo e alheio a tudo; as imbuias balançavam calmas e distantes de tudo isso; as borboletas borboleteavam calmas e sem se importarem; os sorrateiros pixunas não esquentavam a mufa. Chovia um terço dos dias e outro terço fazia frio, no mais ou menos.

       Pela madrugada... no começo do dia... cedo ou tarde... o tempo estava passando...

       Os mortos não precisam de mais nada e sabem disso, antes e depois.

       O meu avô, por exemplo, veio de além aventurando para dizer que não chegara ao paraíso, ao céu, às profundas, à parte alguma que fosse legal, não encontrara respostas, nem entrevistara vovó, nem sequer uma luzinha no fim do túnel, um ar puro soprando numa eternidade de dia azul e verde, chuvas de verão com arco-íris e zabelinhas no espaço lavado, primavera na moda do parque das Sempre Vivas, pássaros brincando nas árvores de frutas de cristal, rios encachoeirados de cartões-postais, avenidas à beira-mar com calçadas em pedrinhas portuguesas.

       Todos os parentes presentes fizeram um, oh!... de espanto pondo a mão na boca tenra. E esses viventes ouvintes, como eu, não souberam o que fazer o que pensar. Diante do precário cadáver ambulante do avô redivivo, congelamos boquiabertos e humildes e desconfiados. Viramos estátuas de pedra suando frio. Perguntamos mais.    

       Então, tinha o sol atrás do horizonte pedindo para nascer, os galos-do-campo as saracuras-três-potes os flamingos os peitos-feridos as sarobas os tibirros-do-campo os quem-te-vestiu em matinada, as folhas pingando orvalho junto ao rio Pindaré, ao rio dos Bois, ao rio Tambaú, ao rio Paraupava, ao rio Kuluene. Quem nasce na beira do rio Ituim, então!

       Com olhos vazios encovados esburacados - de mananga de Boiuna de pesadelo de encantamento de astrologia -, meu avô fixou a paisagem aqui da volta de casa. Meio precavido com as formigas-quenquéns. Alma e corpo já se distanciando, um da outra. E não teve nada não teve fome não teve sede não teve pressa e lembrou de tudo. Examinou as coisas todas com interesse desusado. Não sentiu pena de nada. Não deu festa para o nosso cachorro de estimação o mascote Charrua. 

       A lua caminhava devagar pisando macio leve as copas das vassourinhas-do-campo, dos óleos-vermelhos, das guriris, dos carurus-de-espiga, dos gravatás-da-praia, das candeias, dos cambuís-pretos, das samambaias-douradinhas, das gameleiras-de-veneno; o Negrinho do Pastoreio passeando pelo potreiro montado trotando em pelo o seu cavalo baio. E ia lua luar lunar plena subindo buscar o fundo segredo vazio do alto mais abandonado.

       Avô, filho de Antônio e Tamira, irmão de Júlio e Pedro e João e José e Maria da Graça e Maria Paula, casado com Joana, pai de tantos filhos Ricardo e Flávia e Márcia, muitos netos e dois bisnetos. O avô disse, ainda, então que viu muita gente que tinha ido antes dele. Pessoas e bichos e coisas que lhe pareceram voar com pressa para conquistar o melhor acento na primeira classe do céu. Os exemplos pulularam.

       Passava o vento passava a chuva passava o sol passava as nuvens brancas passava o bando de papagaios-de-cara-roxa.

       Falou mais, apesar das falhas nos lábios carcomidos; gesticulou muito, ameaçando desabar os últimos fiapos de carne podre; gabou vantagens de suas estadas e andanças nas diferentes constelações, a de Escorpião mais interessante e espacial. E assistiu ao grenal pela tevê; bebeu um cafezinho preto sem açúcar com o bolo de chocolate que adorara; foi até a varanda no sétimo andar e olhou a boa praça Mauá, remirou de cima a baixo a sua rua Almirante Tamandaré, admirou porém sem novidades o flabelar da jurubeba-de-espinho, da comigo-ninguém-pode, da estrela-do-norte, da erva-de-bugre e não parou mais de rir e sacudir os ossos quase brancos, rir com os restos de barriga, gargalhar com os restos de gestos, descontrolado, escangalhado, falido, encardido, etc., desespiritualizado.

       E se despediu. Não teve forças para abraçar toda a família. Se queixou do oco na caveira, das articulações dos joelhos e cotovelos, das costelas aéreas, das orelhas caídas, das unhas longas e retorcidas, da barba e do cabelo de barba-de-bode, da língua atrapalhada, dos ossos todos a descoberto sem exceção - que já morrera uma vez com todos eles contadinhos devagar que dava para ver.

       Demais só queria mesmo dar uma voltinha, a última. Cairia de vez na cova fria, para a sombra das raízes das tiriricas e a fome sem-vergonha dos embuás. Se cuidando toda vida para não perder os últimos e derradeiros pedaços, pedaços soltos sentindo falta do bom pedaço que fora, pedaço em pedaços sentindo falta do pedaço amigo que o apoiara. Então, pela hora da morte, todo enfarpelado, voz sincopada, passo aos solavancos, e sem pensar no assunto, deixou seu adeus degradado erguendo a mão cheia de falanges falangetas falanginhas.

       Foi enterrado em igaçaba no ritual do quarup lá na ilha das Flores. A marcha batida da tribo ergueu o chão de poeira vermelha e tremeu o campinho para onde foi dormir os pés juntos. Lugar governado de dia pelos ururaus e de noite pelos bacuraus. Deixou de ser, e também não. Tão simples, a morte!

       O mundo se afasta como coisa perdida. Longe de tudo e de todos. No momento isto e isso e aquilo não têm importância.

       Um vento toca a ponta das cuitezeiras. Uma lufada em conversas de anúncio de chuva sacode as crinas soltas das pindaíbas-d'água, das grinaldas-de-noiva, das jarrinhas-pintalgadas, das salsaparrilhas-do-rio, das canas-do-rio. 

       Deus serve a todos os gostos. 

       As almas vão para as estrelas, as estrelas se enchem de almas, e quanto mais almas melhor.

       O tempo agora só iria sobrar...

 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

No Devido Tempo


 

 
        O bairro já estava acordado, menos eu.

       Pelo sim pelo não mais ou menos e não mais que isso mesmo, abri os olhos de uma vez e já bem provocado pelas muitas bombas a propósito do dia comemorativo. Mas ainda relutei me perdi fingi me virando e me revirando na cama. Segurei a cabeça com ambas as mãos e preguiça e bocejos e ponderações. Já não tinha mais sonhos quando alvitrei:

       - Quem sabe o dia não me espera para um dia sem igual!

       Cada manhã é um novo mundo e outra pessoa que aparece no meu lugar no mesmo lugar.

       Forte pensei decidi falei comigo:

       - Vou pular da cama e como.

       Olhei pela janela, o sol dardejante, os caminhões em fila indiana prontos para a bênção do santo, as pancadas manchando os ouvidos e o anil do céu. Em vinte minutos pensei nos meus pés nas minhas mãos nas partes todas componentes, etc.

       Fui para fora porque o rebuliço festivo me chamava me convocava me arrastava me dizia me queria, o esquisito berro dos caminhões, a estralada dos rojões, o juncar de gente domingueira na capelinha do aniversariante em o vinte e cinco de julho, o tempo bom sem muito frio, os pichororés, os curutiés, os canários-do-chão, as patativas, os azulões, as nhandaias, os joões-xiquexiques, as cancãs, rimavam:

       - Já não é sem tempo!!!

       O sol brilhava e inundava tudo. O rio se exercitava para o futuro, a árvore, o pássaro, o sol, o rio e tudo mais. O sol brilhava sobre tudo mais.

       Por que apelar em Deus se tudo isso já existe.

       Eu queria ser um elefante para aparecer e andar no meio do povo.

       O vento moderado sacudia os galhos e folhas fazendo ouvir o retinir das folhas das carandaís, o piar das cuaxingubas, o rir das quataquiçauas, o falar das juapocas, o burburinhar das guapebas-vermelhas, o murmurar das pitombeiras, o bulhar dos gervões-cheirosos, o pregar das tipis-açus.

       Tudo isso eu via, tudo eu ouvia. Deus brincava de diversidade de universidade e estava feliz com o gênero humano e outros. Eu vinha depois de Deus, muito depois e bípede pedestre, mas e disposto a tudo.

       A festa do santo era o acontecimento do mundo. A festa acontecia no mundo todo.

       Tatalar de asas, sabiá-ferreiro, saíra-de-papo-preto, tuim, azulinho-do-sul, safira-de-garganta-azul, cordão-de-frade, bacuri, farinha-seca. O dia estava muito engraçado, faz favor!

       Era coisa mais natural do mundo, o céu de uma só cor azul e ausência total de peixes.

       Logo me enturmei, até porque o bairro São Cristóvão em peso estava ali e se mexendo e se encontrando e se achando. O alto-falante cantava tão alterado que era impossível não irritar as lavadeiras-de-cabeça-branca. As meninas vendiam santinhos para colar no para-brisa ou fitinhas com alfinete para prender no peito da camisa.

       O dia liso alto espelhante de muita luz distribuída entre as cores normais.

       E o que é que me faltava.

       São Cristóvão passou no meio do buzinaço, com foguetório retumbante, gigante com menininho Jesus nos ombros, todo decorado de flores e frutas da época, bandeirinhas e fitas de papéis coloridos, ramos e folhas de mucaiás. Foi aplaudido e vivado pela rua pelas ruas que partiu do capitel e até o salão de festas do outro lado do rio Retiro. O povo acreditava que o mito do santo ajudava os viajantes devotos.

       Debaixo das árvores nas sombras aveludadas das cupuaçuranas, o churrasco do meio-dia, o pão caseiro, a salada de batata, a melancia fatiada, as compotas, a família em volta da toalha xadrez estendida, os bordados das conversas as parábolas dos gestos os compassos dos risos as exclamações dos gargarejos os incontidos dos regozijos, os bichos do mato na espreita de marimbondos-tatus, macaúbas, mucuras, mapatis, curicas, cássias-das-antilhas, angicos-vermelhos, catirumbavas, avencas-de-folha-miúda.

       E no dia todo festivo, ainda falei com as primas todas que não me escondiam nada. Andavam pela festa sempre juntas as três em trio abraçadas e risonhas e debochadas. Emparelhadas não queriam saber de empatar comigo. Separadas eram impossíveis um amor atrás do outro.

       A Maria Helena de olhos azuis como o céu na manhã de aniversário do santo. A Alice brincando com a trancinha de cabelo última moda delicada caindo no rosto que ela achou fazer para aquele dia e todos elogiaram. A Ana Paula com seu jeito conformado com seu jeito reparado com seu jeito parecido. Talvez fossem melhor assim!

       O céu branco, duas nuvens, vento muito calmo e passando, cinco seis dez doze curicacas grasnando pelo alto dos tantos pinheiros-do-paraná, pessoas rindo sem assunto nas sombras dos biribás, músicas estridentes vertiginosas, menino andando com refrigerante, raças de automóveis pegando fogo sob o sol, menina andando com sorvete duas bolas coloridas, e era bom sem fazer nada. Borboletas diversas dispersas tolerantes se engraçando com as cores vivas dos vestidos floridos.

       Eu vi Deus e vi Raquel.

       Gostei que Raquel prendesse mais fitinhas de brinde no meu peito de camisa. Virara destaque entre os guris ter duas três ou quatro das fitinhas de cores.

       Olhei nos seus olhos e a guria gentil me sorriu. Ficamos amigos. Foi para lá e já voltou. Sentamos lado a lado, nos emparelhamos nas brincadeiras, nos tocamos com os cotovelos das asas. Fui e fiz  uma volta para retornar. Não me cansava de olhar para ela. Sem obrigação de nada.

       Raquel tinha todos os olhos meus.

       Uma aquela enorme vontade de olhá-la, a cara de menina petulante com cabelos de sempre nos olhos, incomparável bonita de qualquer jeito, os enfeites combinando, o perfume de flor de cipozinho-do-campo, etc.

       Olhava para as pessoas e as pessoas gostavam dela.

       E o andar o passo bonito sem exagero cheia de si elegante.

       O nome das estrelas todas, dos pássaros, dos peixes, das plantas todas.

       Ela falava de uma coisa e eu sempre achava as mil e uma maravilhas:

       "Era uma vez uma formiguinha das perninhas agitadas chegando a um ponto da rua Apicum, em Cururupu. Ela viu uma pessoa senhora com sacola vermelha no ombro e perguntou:

       - A senhora me responde?

       - O que eu puder.

       - Onde fica a padaria mais açucarada?

       Lá para lá foi a formiga-caiapó caprichosa intrépida sistemática de tenaz vibrante e antenas eletrizadas."

       Raquel que me contava um caso e eu aumentava para mais de mil pontos:

       "Era uma vez que eu estava de visita na casa do meu tio minha tia minhas primas, etc., em Erechim. Naquele dia pousava ali num terreno baldio um circo com lona listrada de azul e de amarelo. Fui até lá porque queria ver de perto.

       O cachorro Sarandi - satisfeito mascote das primas -, me perguntou, orelhas altas, cauda vibrante e língua de fora:

       - Pra onde tu vai, prima. Posso.

       Eu deixei bem claro pra ele que não era pessoal, pelo contrário, era animal:

       - Não posso te levar porque vai dar bagunça e o circo pega fogo.

       Fui desacompanhada, boné virado o contrário e em dois passos atravessei a rua Flores da Cunha. Tinha sol e um bando de corrupiões no café da manhã entre as tenras e vergadas hastes do capim-cheiroso.

       O circo era argentino e tinha nome italiano. Andei no meio do acampamento, olhando os trabalhos, espiando os bichos sensacionais e exóticos, as girafas, os leões, as zebras, as renas, os pôneis, as avestruzes, os babuínos... e parei diante de um urso-de-óculos enjaulado. Ele fazia assim... se mexendo de um lado pra outro... como papagaio no poleiro como coruja no galho como pêndulo de relógio de pêndulo. Fiquei intrigada e olhando aquele modo. Ele até parecia não me ver nem estar aí nem nada. Tive de perguntar e indaguei:

       - Por que você não para de balançar pros lados. Tá maluco.

       O urso-de-óculos agora me sintonizou de repente me reparou me focou me fitou de súbito e, mesmo continuando a se gangorrar, respondeu:

       - Yo no hablo brasileño.

       Encontrei por um acaso meu tio espionando o preparo a armação das tendas do picadeiro das arquibancadas de madeira o estender da lona gigante, etc. Confessei que vira um urso-de-óculos e todo desequilibrado lá dentro de uma jaula:

       - É que prometeram a ela um namorado e até hoje, paciência.

       De noite no meu quarto eu fiquei pensando na sorte de pertencer a um circo itinerante e viajar o mundo, os palhaços, os anões, os trapezistas, os tigres de bengala, o distante namorado da ursa-de-óculos, etc. Sonhei que os bichos derrubaram a cerca e invadiram o centro da cidade e chegaram camelo dromedário lhama vicunha guanaco alpaca até a praça da Bandeira pra tomar água no chafariz dos atônitos peixes vermelhos e amarelos."

       Um dia nos encontramos de novo comigo com ela nós eu e  Raquel.

       Um sonho que se repetiu.

       Era um sonho que se realizava.

       Esse puro acontecimento no acaso de nossos humildes dias, que Deus quis assim.

       Depois de dez anos longe um do outro.

       Eu ouvi o silêncio e vi Raquel.

       Num supermercado da cidade de Araripe - por que uma cidade cearense tão inusitada e que coincidência. Os olhos dela sorrindo. Muitos anos depois... aqueles dez anos todos em pós...

       Ela me falou, simpática acolhedora e com voz repassada de emoção:

       - Ah!... Eu que já pensava ter me esquecido de você.

       Eu falei:

       - Quando se quer muito, não se consegue nada. Isso é muito bem feito.

       Ela me contou que cada cidade tinha um rio e uma tribo indígena preparada para contar façanhas pitorescas:

       - Tipo assim, Pirapemas e rio Itanhaém e tribo dos pocheti.

       Eu retruquei:

       - O mundo começa na terra.

       Ela continuou, a voz plana:

       - Se acostumar com um lugar, porque cada lugar tem seus demais a mais.

       Eu perguntei curioso:

       - Dê outro exemplo de viagem ao sem fim.

       Ela exemplificou:

       - Andei pela rua Igaci a praça General Osório a cidade de Serra Branca.

       Eu incentivei:

       - Já se falava em fim de mundo.

       Ela prosseguiu:

       - Você duvida de alguma coisa.

       Eu inventei na hora:

       - Gostaria de visitar o parque Serrinha do Alambari.

       O tempo ou o rio foi passando. O santo gigante cruzando o rio, também os devotos de pés descalços. Os relógios buscando sem parar os tique-taques. Vestido de pelego, cajado na mão esquerda para sondar cauteloso as pedras do rio, o menino no ombro direito cada passo mais pesado, a auréola na cabeça. As pessoas ali brincando de festa de santo padroeiro.

       De tarde mudou o tempo. Mudou o vento. Muda o vento e muda tudo.

       Os pássaros sabem olhar o tempo e pararam de cantar. Os foguetes explodindo intermitentemente. Os meninos correndo entre os autos. Tudo em volta lembrava aos garotos as coisas divertidas as brincadeiras e as correrias.

       Quem sabia olhar o tempo.

       Sinais de chuva. O mundo estava para acabar. O vento soprando o tope das almecegueiras.

       Era ver e sentir e esperar que ia chover.

       Raquel me ouvia me lia me enfeitiçava com seu monte de cabelos, os gritos e berros da tômbola em sorteios de prendas na outra ponta da dimensão surrealista, o rabo de cavalo atirado para as costas ou caído para a frente no ombro direito esquerdo, as unhas pintadas de desenho, e eu falei:

       - Uma vez comecei a gostar de chuva e ainda gosto de ver chover.

       Ela me passou:

       - Não é só você que gosta de chuva e sempre gostou, pois todo mundo gosta de ver a água cachoeirar do céu.

       Botei a mão no seu rosto para sentir a febre se estava febril, e seus olhos saltaram como de boneca com olhos de botão pularam de verdade arredondaram dois lagos claros de luas perplexas.

       Ela me disse:

       - Você prefere ver o mar todos os dias.

       Eu tinha o que dizer:

       - Prefiro ver o mar as árvores o trem a montanha, no mínimo.

       A calma parecia ter parado o tempo e ia chover, choveu.

       Depois de parar a festa de parar a chuva, a lua apareceu no céu na terra e, acompanhada de estrelas e meteoros e discos voadores, se refletiu como fogo faíscas nas poças de água.

       Eu pensei alguma coisa assim rapidamente enquanto nos falávamos, o supermercado me confundia um pouco, mas não disse o que pensava, disse o que revelei.

       - Quando foi que segurei a sua mão. Acho que todas as vezes. Sempre nos encontramos de vez em quando naquela manhã de festa. Quando te revejo agora pela primeira vez.

       Ela me confessou:

       - Tudo que acontece comigo é sempre engraçado.

       Eu repassei:

       - E hoje não termina nunca.

       As duas pessoas que um dia se cruzam novamente em uma data qualquer num lugar e escrito com pena de ouro e ponta de diamante nos alfarrábios das estrelas. Naquele momento Raquel estava vestida assim.

       Ela me contou:

       - Passeei por onde fui. O que vi e tomei nota. Tinha o mar e o litoral, o rio e os barcos, os animais e as árvores da floresta, arauá e gavião e nambiquara-do-sul e oro-uim contando lendas de árvores se mexendo, ponte sobre o rio do Sono, a praça  Sarnambi nos dias de semana, baía de São Marcos, serra dos Carajás, figuras rupestres em Itajobi, o parque Marinha do Brasil nos feriados de manhã de sol. Assim, um labirinto.   

       A luz dos olhos dela estavam iguais na minha memória. Os olhos negros brilhantes e assaltados. A festa o supermercado estavam muito mais interessantes e nem existiam. E o olhar e o sorriso sempre o primeiro do dia. Olhos úmidos e cintilantes que não se fixavam em nada e procuravam curiosos por tudo. Os olhos se perdiam dos olhos do sorriso dos cabelos das palavras, etc.

       Eu sabia o que queria, não sabia o que fazer.

       Então, era como aquele vinte e cinco de julho, eu ainda com vontade de sacudi-la como se sacode uma árvore frutífera, continuei:

       - A sexta-feira é meu dia de sorte.

       Ela falou:

       - Eu gostaria de participar de tudo. Que acha.

       Eu respondi:

       - Não posso ver tudo.

       Ela completou:

       - Nem posso mais mudar.

       Aceitar apenas os fatos narrados.

       Aqueles olhos começaram no infinito e vinham pelo universo. Estrelas cadentes, espaçonaves brilhantes. Aqueles olhos iniciaram em mim e iam pelo universo.

       Os olhos deslizando pelos quatro escaninhos do tempo.

       Era o olhar, mais uma vez eram os olhos. Mas com o sorriso dava para ver tudo muito mais claro e amplo.

       Eu argumentei:

       - Acho que a gente muda para a mesma coisa.

       Ela falou:

       - E todo o resto e tudo o mais.

       Eu fui em frente:

       - Por que você pinta ao redor dos olhos ressaltando a profundidade do olhar.

       Ela aumentou minha saudade dos lugares por onde passou:

       - Eu estava em União, viajei para Acarape, parei seis meses em Viana às margens do rio Anil. Acordei num quarto de hotel em Barbacena relembrando o sonho. O sonho se passava em outro lugar em Rio Claro, Avaré, Cachoeira Paulista ou ilha da Trindade. E voltei a dormir.

       Rimos pelo mesmo motivo. Nos olhamos de cima abaixo ao mesmo tempo.

       Eu provoquei:

       - O rio Jurema inaugurou a tribo dos anapuru.

       Ela tergiversou:

       - Em Mangaratiba muitos baús de piratas no fundo do mar Atlântico.

       Eu voltei:

       - Eu queria plantar árvores no quintal, imburi, mangabeira, limão-do-mato, folha-santa, embaúba.

       Ela corrigiu:

       - Como criança que quer só comer chocolate sorvete pipoca quindim.

       Os olhos os olhos cheios de sonhos, então, o pensamento o pensamento não se definia por essa ou aquela entre mil coisas.

       Pegou minha mão e disse:

       - Sinta minha emo.

       Ficamos nos olhando em que festa de aniversário de santo em que supermercado de cidade escolhida. Era impossível.

       O vento nervoso remexia as sipaúbas da cidade. Começara a chover.

       De novo como a primeira vez.

       Não pensei nada ou ainda milhões de coisas.

       E fiquei assim, empurrado para um planeta de que tipo e longe entre o céu e a terra.