O bairro já estava acordado, menos eu.
Pelo sim pelo não mais ou menos e não
mais que isso mesmo, abri os olhos de uma vez e já bem provocado pelas muitas
bombas a propósito do dia comemorativo. Mas ainda relutei me perdi fingi me virando
e me revirando na cama. Segurei a cabeça com ambas as mãos e preguiça e bocejos
e ponderações. Já não tinha mais sonhos quando alvitrei:
- Quem sabe o dia não me espera para um
dia sem igual!
Cada manhã é um novo mundo e outra pessoa
que aparece no meu lugar no mesmo lugar.
Forte pensei decidi falei comigo:
- Vou pular da cama e como.
Olhei pela janela, o sol dardejante, os
caminhões em fila indiana prontos para a bênção do santo, as pancadas manchando
os ouvidos e o anil do céu. Em vinte minutos pensei nos meus pés nas minhas
mãos nas partes todas componentes, etc.
Fui para fora porque o rebuliço festivo
me chamava me convocava me arrastava me dizia me queria, o esquisito berro dos
caminhões, a estralada dos rojões, o juncar de gente domingueira na capelinha
do aniversariante em o vinte e cinco de julho, o tempo bom sem muito frio, os
pichororés, os curutiés, os canários-do-chão, as patativas, os azulões, as
nhandaias, os joões-xiquexiques, as cancãs, rimavam:
- Já não é sem tempo!!!
O sol brilhava e inundava tudo. O rio se
exercitava para o futuro, a árvore, o pássaro, o sol, o rio e tudo mais. O sol
brilhava sobre tudo mais.
Por que apelar em Deus se tudo isso já
existe.
Eu queria ser um elefante para aparecer e
andar no meio do povo.
O vento moderado sacudia os galhos e
folhas fazendo ouvir o retinir das folhas das carandaís, o piar das
cuaxingubas, o rir das quataquiçauas, o falar das juapocas, o burburinhar das
guapebas-vermelhas, o murmurar das pitombeiras, o bulhar dos gervões-cheirosos,
o pregar das tipis-açus.
Tudo isso eu via, tudo eu ouvia. Deus
brincava de diversidade de universidade e estava feliz com o gênero humano e
outros. Eu vinha depois de Deus, muito depois e bípede pedestre, mas e disposto
a tudo.
A festa do santo era o acontecimento do
mundo. A festa acontecia no mundo todo.
Tatalar de asas, sabiá-ferreiro,
saíra-de-papo-preto, tuim, azulinho-do-sul, safira-de-garganta-azul,
cordão-de-frade, bacuri, farinha-seca. O dia estava muito engraçado, faz favor!
Era coisa mais natural do mundo, o céu de
uma só cor azul e ausência total de peixes.
Logo me enturmei, até porque o bairro São
Cristóvão em peso estava ali e se mexendo e se encontrando e se achando. O
alto-falante cantava tão alterado que era impossível não irritar as
lavadeiras-de-cabeça-branca. As meninas vendiam santinhos para colar no
para-brisa ou fitinhas com alfinete para prender no peito da camisa.
O dia liso alto espelhante de muita luz
distribuída entre as cores normais.
E o que é que me faltava.
São Cristóvão passou no meio do buzinaço,
com foguetório retumbante, gigante com menininho Jesus nos ombros, todo
decorado de flores e frutas da época, bandeirinhas e fitas de papéis coloridos,
ramos e folhas de mucaiás. Foi aplaudido e vivado pela rua pelas ruas que
partiu do capitel e até o salão de festas do outro lado do rio Retiro. O povo
acreditava que o mito do santo ajudava os viajantes devotos.
Debaixo das árvores nas sombras
aveludadas das cupuaçuranas, o churrasco do meio-dia, o pão caseiro, a salada
de batata, a melancia fatiada, as compotas, a família em volta da toalha xadrez
estendida, os bordados das conversas as parábolas dos gestos os compassos dos
risos as exclamações dos gargarejos os incontidos dos regozijos, os bichos do
mato na espreita de marimbondos-tatus, macaúbas, mucuras, mapatis, curicas,
cássias-das-antilhas, angicos-vermelhos, catirumbavas, avencas-de-folha-miúda.
E no dia todo festivo, ainda falei com as
primas todas que não me escondiam nada. Andavam pela festa sempre juntas as três
em trio abraçadas e risonhas e debochadas. Emparelhadas não queriam saber de
empatar comigo. Separadas eram impossíveis um amor atrás do outro.
A Maria Helena de olhos azuis como o céu
na manhã de aniversário do santo. A Alice brincando com a trancinha de cabelo
última moda delicada caindo no rosto que ela achou fazer para aquele dia e
todos elogiaram. A Ana Paula com seu jeito conformado com seu jeito reparado
com seu jeito parecido. Talvez fossem melhor assim!
O céu branco, duas nuvens, vento muito
calmo e passando, cinco seis dez doze curicacas grasnando pelo alto dos tantos
pinheiros-do-paraná, pessoas rindo sem assunto nas sombras dos biribás, músicas
estridentes vertiginosas, menino andando com refrigerante, raças de automóveis
pegando fogo sob o sol, menina andando com sorvete duas bolas coloridas, e era
bom sem fazer nada. Borboletas diversas dispersas tolerantes se engraçando com
as cores vivas dos vestidos floridos.
Eu vi Deus e vi Raquel.
Gostei que Raquel prendesse mais fitinhas
de brinde no meu peito de camisa. Virara destaque entre os guris ter duas três
ou quatro das fitinhas de cores.
Olhei nos seus olhos e a guria gentil me
sorriu. Ficamos amigos. Foi para lá e já voltou. Sentamos lado a lado, nos
emparelhamos nas brincadeiras, nos tocamos com os cotovelos das asas. Fui e
fiz uma volta para retornar. Não me
cansava de olhar para ela. Sem obrigação de nada.
Raquel tinha todos os olhos meus.
Uma aquela enorme vontade de olhá-la, a
cara de menina petulante com cabelos de sempre nos olhos, incomparável bonita
de qualquer jeito, os enfeites combinando, o perfume de flor de
cipozinho-do-campo, etc.
Olhava para as pessoas e as pessoas
gostavam dela.
E o andar o passo bonito sem exagero
cheia de si elegante.
O nome das estrelas todas, dos pássaros,
dos peixes, das plantas todas.
Ela falava de uma coisa e eu sempre
achava as mil e uma maravilhas:
"Era uma vez uma formiguinha das
perninhas agitadas chegando a um ponto da rua Apicum, em Cururupu. Ela viu uma
pessoa senhora com sacola vermelha no ombro e perguntou:
- A senhora me responde?
- O que eu puder.
- Onde fica a padaria mais açucarada?
Lá para lá foi a formiga-caiapó
caprichosa intrépida sistemática de tenaz vibrante e antenas eletrizadas."
Raquel que me contava um caso e eu
aumentava para mais de mil pontos:
"Era uma vez que eu estava de visita
na casa do meu tio minha tia minhas primas, etc., em Erechim. Naquele dia
pousava ali num terreno baldio um circo com lona listrada de azul e de amarelo.
Fui até lá porque queria ver de perto.
O cachorro Sarandi - satisfeito mascote
das primas -, me perguntou, orelhas altas, cauda vibrante e língua de fora:
- Pra onde tu vai, prima. Posso.
Eu deixei bem claro pra ele que não era
pessoal, pelo contrário, era animal:
- Não posso te levar porque vai dar
bagunça e o circo pega fogo.
Fui desacompanhada, boné virado o
contrário e em dois passos atravessei a rua Flores da Cunha. Tinha sol e um
bando de corrupiões no café da manhã entre as tenras e vergadas hastes do
capim-cheiroso.
O circo era argentino e tinha nome
italiano. Andei no meio do acampamento, olhando os trabalhos, espiando os
bichos sensacionais e exóticos, as girafas, os leões, as zebras, as renas, os
pôneis, as avestruzes, os babuínos... e parei diante de um urso-de-óculos
enjaulado. Ele fazia assim... se mexendo de um lado pra outro... como papagaio
no poleiro como coruja no galho como pêndulo de relógio de pêndulo. Fiquei
intrigada e olhando aquele modo. Ele até parecia não me ver nem estar aí nem
nada. Tive de perguntar e indaguei:
- Por que você não para de balançar pros
lados. Tá maluco.
O urso-de-óculos agora me sintonizou de
repente me reparou me focou me fitou de súbito e, mesmo continuando a se
gangorrar, respondeu:
- Yo no hablo brasileño.
Encontrei por um acaso meu tio espionando
o preparo a armação das tendas do picadeiro das arquibancadas de madeira o
estender da lona gigante, etc. Confessei que vira um urso-de-óculos e todo
desequilibrado lá dentro de uma jaula:
- É que prometeram a ela um namorado e até
hoje, paciência.
De noite no meu quarto eu fiquei pensando
na sorte de pertencer a um circo itinerante e viajar o mundo, os palhaços, os
anões, os trapezistas, os tigres de bengala, o distante namorado da
ursa-de-óculos, etc. Sonhei que os bichos derrubaram a cerca e invadiram o
centro da cidade e chegaram camelo dromedário lhama vicunha guanaco alpaca até
a praça da Bandeira pra tomar água no chafariz dos atônitos peixes vermelhos e
amarelos."
Um dia nos encontramos de novo comigo com
ela nós eu e Raquel.
Um sonho que se repetiu.
Era um sonho que se realizava.
Esse puro acontecimento no acaso de
nossos humildes dias, que Deus quis assim.
Depois de dez anos longe um do outro.
Eu ouvi o silêncio e vi Raquel.
Num supermercado da cidade de Araripe -
por que uma cidade cearense tão inusitada e que coincidência. Os olhos dela
sorrindo. Muitos anos depois... aqueles dez anos todos em pós...
Ela me falou, simpática acolhedora e com
voz repassada de emoção:
- Ah!... Eu que já pensava ter me
esquecido de você.
Eu falei:
- Quando se quer muito, não se consegue
nada. Isso é muito bem feito.
Ela me contou que cada cidade tinha um
rio e uma tribo indígena preparada para contar façanhas pitorescas:
- Tipo assim, Pirapemas e rio Itanhaém e
tribo dos pocheti.
Eu retruquei:
- O mundo começa na terra.
Ela continuou, a voz plana:
- Se acostumar com um lugar, porque cada
lugar tem seus demais a mais.
Eu perguntei curioso:
- Dê outro exemplo de viagem ao sem fim.
Ela exemplificou:
- Andei pela rua Igaci a praça General
Osório a cidade de Serra Branca.
Eu incentivei:
- Já se falava em fim de mundo.
Ela prosseguiu:
- Você duvida de alguma coisa.
Eu inventei na hora:
- Gostaria de visitar o parque Serrinha
do Alambari.
O tempo ou o rio foi passando. O santo
gigante cruzando o rio, também os devotos de pés descalços. Os relógios
buscando sem parar os tique-taques. Vestido de pelego, cajado na mão esquerda
para sondar cauteloso as pedras do rio, o menino no ombro direito cada passo
mais pesado, a auréola na cabeça. As pessoas ali brincando de festa de santo
padroeiro.
De tarde mudou o tempo. Mudou o vento.
Muda o vento e muda tudo.
Os pássaros sabem olhar o tempo e pararam
de cantar. Os foguetes explodindo intermitentemente. Os meninos correndo entre
os autos. Tudo em volta lembrava aos garotos as coisas divertidas as
brincadeiras e as correrias.
Quem sabia olhar o tempo.
Sinais de chuva. O mundo estava para
acabar. O vento soprando o tope das almecegueiras.
Era ver e sentir e esperar que ia chover.
Raquel me ouvia me lia me enfeitiçava com
seu monte de cabelos, os gritos e berros da tômbola em sorteios de prendas na
outra ponta da dimensão surrealista, o rabo de cavalo atirado para as costas ou
caído para a frente no ombro direito esquerdo, as unhas pintadas de desenho, e
eu falei:
- Uma vez comecei a gostar de chuva e
ainda gosto de ver chover.
Ela me passou:
- Não é só você que gosta de chuva e
sempre gostou, pois todo mundo gosta de ver a água cachoeirar do céu.
Botei a mão no seu rosto para sentir a
febre se estava febril, e seus olhos saltaram como de boneca com olhos de botão
pularam de verdade arredondaram dois lagos claros de luas perplexas.
Ela me disse:
- Você prefere ver o mar todos os dias.
Eu tinha o que dizer:
- Prefiro ver o mar as árvores o trem a
montanha, no mínimo.
A calma parecia ter parado o tempo e ia
chover, choveu.
Depois de parar a festa de parar a chuva,
a lua apareceu no céu na terra e, acompanhada de estrelas e meteoros e discos
voadores, se refletiu como fogo faíscas nas poças de água.
Eu pensei alguma coisa assim rapidamente
enquanto nos falávamos, o supermercado me confundia um pouco, mas não disse o
que pensava, disse o que revelei.
- Quando foi que segurei a sua mão. Acho
que todas as vezes. Sempre nos encontramos de vez em quando naquela manhã de
festa. Quando te revejo agora pela primeira vez.
Ela me confessou:
- Tudo que acontece comigo é sempre
engraçado.
Eu repassei:
- E hoje não termina nunca.
As duas pessoas que um dia se cruzam
novamente em uma data qualquer num lugar e escrito com pena de ouro e ponta de
diamante nos alfarrábios das estrelas. Naquele momento Raquel estava vestida
assim.
Ela me contou:
- Passeei por onde fui. O que vi e tomei
nota. Tinha o mar e o litoral, o rio e os barcos, os animais e as árvores da
floresta, arauá e gavião e nambiquara-do-sul e oro-uim contando lendas de
árvores se mexendo, ponte sobre o rio do Sono, a praça Sarnambi nos dias de semana, baía de São
Marcos, serra dos Carajás, figuras rupestres em Itajobi, o parque Marinha do
Brasil nos feriados de manhã de sol. Assim, um labirinto.
A luz dos olhos dela estavam iguais na
minha memória. Os olhos negros brilhantes e assaltados. A festa o supermercado
estavam muito mais interessantes e nem existiam. E o olhar e o sorriso sempre o
primeiro do dia. Olhos úmidos e cintilantes que não se fixavam em nada e
procuravam curiosos por tudo. Os olhos se perdiam dos olhos do sorriso dos
cabelos das palavras, etc.
Eu sabia o que queria, não sabia o que
fazer.
Então, era como aquele vinte e cinco de
julho, eu ainda com vontade de sacudi-la como se sacode uma árvore frutífera,
continuei:
- A sexta-feira é meu dia de sorte.
Ela falou:
- Eu gostaria de participar de tudo. Que
acha.
Eu respondi:
- Não posso ver tudo.
Ela completou:
- Nem posso mais mudar.
Aceitar apenas os fatos narrados.
Aqueles olhos começaram no infinito e
vinham pelo universo. Estrelas cadentes, espaçonaves brilhantes. Aqueles olhos
iniciaram em mim e iam pelo universo.
Os olhos deslizando pelos quatro
escaninhos do tempo.
Era o olhar, mais uma vez eram os olhos.
Mas com o sorriso dava para ver tudo muito mais claro e amplo.
Eu argumentei:
- Acho que a gente muda para a mesma
coisa.
Ela falou:
- E todo o resto e tudo o mais.
Eu fui em frente:
- Por que você pinta ao redor dos olhos
ressaltando a profundidade do olhar.
Ela aumentou minha saudade dos lugares
por onde passou:
- Eu estava em União, viajei para
Acarape, parei seis meses em Viana às margens do rio Anil. Acordei num quarto
de hotel em Barbacena relembrando o sonho. O sonho se passava em outro lugar em
Rio Claro, Avaré, Cachoeira Paulista ou ilha da Trindade. E voltei a dormir.
Rimos pelo mesmo motivo. Nos olhamos de
cima abaixo ao mesmo tempo.
Eu provoquei:
- O rio Jurema inaugurou a tribo dos
anapuru.
Ela tergiversou:
- Em Mangaratiba muitos baús de piratas
no fundo do mar Atlântico.
Eu voltei:
- Eu queria plantar árvores no quintal,
imburi, mangabeira, limão-do-mato, folha-santa, embaúba.
Ela corrigiu:
- Como criança que quer só comer
chocolate sorvete pipoca quindim.
Os olhos os olhos cheios de sonhos,
então, o pensamento o pensamento não se definia por essa ou aquela entre mil
coisas.
Pegou minha mão e disse:
- Sinta minha emo.
Ficamos nos olhando em que festa de
aniversário de santo em que supermercado de cidade escolhida. Era impossível.
O vento nervoso remexia as sipaúbas da
cidade. Começara a chover.
De novo como a primeira vez.
Não pensei nada ou ainda milhões de
coisas.
E fiquei assim, empurrado para um planeta
de que tipo e longe entre o céu e a terra.